Agridoce
PARTE TRÊS: O Novo Diretor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O horror apoderou-se do seu rosto.
— Não posso receber convidados sem uma anfitriã! — disse ele de forma categórica.
— É claro que podes! Desde que tenhas alguns empregados para garantir que tudo corre bem, ninguém vai achar estranho que não tenhas uma anfitriã. A meticulosidade pommy não é praticada por aqui, por isso as mulheres não têm de abandonar a sala enquanto os homens saboreiam os seus charutos e vinho do Porto. É mais habitual que todos saiam da mesa ao mesmo tempo… e é se saírem de todo. As pessoas por aqui gostam de terminar a noite ainda à volta da mesa de jantar. — Kitty soltou mais uma daquelas gargalhadas contagiosas. — Lugares diferentes, hábitos diferentes.
— Um homem a receber convidados sem uma anfitriã — disse ele, lentamente.
— Perfeitamente permitido em Corunda, embora me atreva a dizer que é provável que o governador-geral se oponha.
Charles insistiu em levar Kitty até à porta de sua casa ao final da noite, independentemente de quem os visse nas rampas, e, embora lhe tenha pegado e segurado a mão, não tentou beijá-la.
— Serás minha esposa até ao final do inverno de 1930 — disse ele baixinho, as sombras enchiam as cavidades dos seus olhos de tal maneira que Kitty não conseguia ver o que estes escondiam —, mas vou moderar a minha paixão por enquanto, porque sinto que ainda não confias em mim. As vicissitudes de ser um pommy! Boa noite.
O conselho de administração do Hospital de Corunda não se saiu tão bem nas mãos do doutor Burdum como as enfermeiras ou as quatro novas irmãs, contudo, quando os reuniu na primeira semana de setembro, os seus membros sabiam que iam ter uma sessão bastante exigente e que poderiam até sentir-se um pouco, digamos, desconfortáveis. Era um facto que esta reunião se iria tornar (metaforicamente falando) mais sangrenta e exaustiva do que o ataque do Anzac a Galípoli durante a Grande Guerra.
O reverendo Thomas Latimer disse à sua esposa, ainda a recuperar o fôlego:
— O homem arrancou-nos qualquer resquício de orgulho, honra, aprovação pública e dignidade que ainda tínhamos! Maude, fomos expostos de forma nua e crua, para toda a gente em Corunda ver… o homem insistiu que a reunião fosse aberta ao público, para que qualquer pessoa interessada pudesse assistir, e por isso todos os consultores médicos que Frank manteve afastados do conselho de administração estavam presentes, o velho Tom estava lá… Monsenhor O’Flaherty estava presente!
Esta última testemunha era a mais amarga de todas, visto que Monsenhor O’Flaherty da Igreja Católica de St. Anthony, de setenta anos, chamava ao conselho de administração do hospital «os doze fuinhas de Frank Campbell». Os católicos podiam ser os mais pobres, mas em Corunda ganhavam em número.
O conselho de administração fora criação exclusiva de Frank Campbell, isso era indiscutível, embora as regras ditassem que o presidente da Câmara, o secretário do Município e o pastor da Igreja Anglicana tivessem de ser membros. Se se atrevessem a entrar num espírito de reforma e a lutar como leões destemidos, Frank persuadia-os violentamente a voltarem ao seu lugar de fuinhas obedientes. Se as suas filhas soubessem o que se passava numa reunião do conselho de administração, talvez percebessem porque o seu pai era um fuinha como os restantes: ninguém desafiava Frank Campbell!
O único membro médico do conselho era o próprio Frank Campbell. A seguir vinha o presidente da Câmara, o secretário do Município e o reitor da Igreja de Inglaterra, como exigido pelas regras, seguidos por outros oito homens, tão fuinhas por natureza como por condicionamento. Eram todos proprietários de negócios locais: talhante, padeiro, merceeiro, negociante de tecidos, ferrageiro, serralheiro/garagista, comerciante de produtos agrícolas e o «homem dos ovos», que cuidava de um barracão cheio de galinhas da variedade White Orpington e de um galo cansado. A contrapartida pelos seus serviços de fuinhas era serem os únicos a fornecer artigos de baixo preço e má qualidade ao Hospital de Corunda, desde os lençóis do negociante de tecidos aos produtos mais reles das aves criadas pelo homem dos ovos. Ninguém fazia uma fortuna a abastecer o hospital, mas todos os vendedores tinham assim uma boa fonte de rendimento e sabiam, até à última toalha ou ovo, a quantidade que Frank compraria.
A análise dos livros de contas convencera Charles Burdum de que era capaz de fazer melhor com os fundos do hospital do que se deixasse o banco geri-los, mas não era essa a razão que o fazia sentir uma necessidade urgente e poderosa de arrancar o controlo do dinheiro aos membros do conselho de administração. Após a morte do doutor Campbell, existiam quatro milhões de libras à mercê de um bando de fuinhas sem governo. Neste momento, ainda se encontravam chocados com uma morte que consideravam impossível… nem Deus queria Frank Campbell! No entanto, o choque dissipar-se-ia rapidamente a partir de agora e alguns fuinhas mais atrevidos iam sentir-se tentados a roubar os fundos. Não era difícil!
Por conseguinte, Charles teria de retirar o dinheiro do conselho de administração agora, de imediato, antes que os fuinhas se lembrassem de se juntar e agir de forma concertada. Os fundos precisavam de ser geridos adequadamente, e essa não era a função de um conselho de administração, mas sim de gestores financeiros. Ninguém na antiga administração, incluindo Frank Campbell, soubera o que fazer com os quatro milhões de libras que se encontravam espalhados em várias contas-poupança a render juros pateticamente baixos.
O que Charles tencionava fazer era o que há muito precisava de ser feito: investir o dinheiro em empresas e instituições chamadas «blue chip»… uma forma de dizer que se tais empresas e instituições alguma vez falissem, a raça humana seria de tal forma obliterada que até a roda teria de ser inventada de novo. O dinheiro do Hospital de Corunda tem de estar em segurança e a render!
A sua primeira tarefa era óbvia: reconstruir o hospital por inteiro e dotá-lo do equipamento mais moderno de diagnóstico e tratamento, depois contratar os melhores profissionais. Apesar de o traçado atual do hospital, com os seus longos caminhos, significar muitas rampas e barracões, também significava a inexistência de escadas e elevadores. Charles já vira muitos hospitais aprenderem uma dura lição: independentemente do traçado, é sempre preciso andar imenso.
Com tudo isto e muito mais a ocupar-lhe os pensamentos, Charles deu início à batalha contra o conselho de administração, tornando a reunião pública, incluindo ao Corunda Post, um jornal semanário que não devia ser menosprezado, aos médicos e cirurgiões consultores da cidade, já para não falar ao doutor Finucan e à enfermeira-chefe Newdigate. Entre outras viagens misteriosas a Sydney, estivera uma em que Charles jantou com o ministro da Saúde após uma discussão prolongada na câmara parlamentar do ministro. Deste modo, Charles tinha agora o poder de despedir o atual conselho e rever os estatutos do hospital. O ministro cedera depois de ficar a saber da fortuna do Hospital de Corunda, e Charles deixou claro que os seus fundos não poderiam ser utilizados no departamento do ministro, sempre a precisar de dinheiro. Contudo, isto significava que o Hospital de Corunda se poderia tornar um hospital modelo, cujo custo para o Estado seria mínimo. Que pechincha!
Outra razão motivou Charles a ser rápido a controlar os fundos, mas não era capaz de perceber bem qual. Era apenas uma sensação (partilhada por vários dos seus colegas em Londres) de que algo mau estava para acontecer no mundo financeiro. O que era ao certo não sabia dizer, mas algures, nas selvas densas e confusas dos mercados financeiros e com demasiados investidores, um predador terrível perseguia ferozmente as suas presas… uma sombra, um fantasma… embora não fosse fruto da sua imaginação, disso Charles tinha a certeza. Estava lá, era real, afirmavam também alguns dos seus colegas, o que significava que Charles tinha de manter o dinheiro do Hospital de Corunda bem seguro sob o seu cuidado.
Uma Galípoli metafórica e muito bem-sucedida. Confrontados com um conhecimento do mundo financeiro com o qual nunca poderiam rivalizar e sabendo que, se necessário, Charles Burdum os faria passar por todos os tribunais até ao Conselho Privado da Austrália, o conselho de administração colapsou. Onze fuinhas foram despedidos e nenhum, nem mesmo o reverendo, foi readmitido. Esta estratégia, por mais estranho que pareça, acabou por beneficiar os negócios de Corunda mais do que era de esperar, visto que Charles Burdum informou os locais de que iria escolher fornecedores dos mais variados artigos para abastecer o hospital e que, de futuro, todos os produtos seriam de boa qualidade e não restos apanhados do chão. As empresas locais foram incentivadas a concorrer.
Não existiria representante religioso de qualquer tipo no conselho de administração e ninguém seria discriminado ou excluído com base na sua raça, religião ou outro motivo semelhante. Assim, para seu grande espanto, Bashir Maboud, que geria uma pequena loja em Trelawney, foi nomeado o único comerciante no novo conselho de administração, sendo ele um libanês católico. Segundo Charles, que escolheu os membros da administração (de forma pouco democrática, tal como Frank Campbell), Bashir era australiano por direito, nascido e educado na Austrália e, como gerente de uma pequena loja local, conhecia bem as pessoas de Corunda.
Os doutores Erich Herzen, Ian Gordon, Dennis Faraday e Ned Mason, todos médicos da cidade, faziam agora parte do conselho de administração, tal como o doutor Finucan e a enfermeira-chefe Gertrude Newdigate. O gerente do estabelecimento local da cadeia de lojas Great Western, o presidente da Sociedade Pastoralista de Corunda, os agentes mais antigos de empresas que apoiavam e financiavam as atividades agrícolas da cidade e o responsável pela Sociedade Histórica de Corunda constituíam a minoria dos não médicos, sendo que se podia deduzir que nenhum membro do conselho diria ao presidente da administração, o doutor Charles Burdum, como gerir os fundos do hospital. Com um total de doze membros, só dizia respeito ao presidente do conselho rever o estatuto de associado dos membros se e quando necessário.
As formalidades necessárias para transferir os fundos do Hospital de Corunda para este novo conselho de administração foram concluídas no início de outubro de 1929. Charles Burdum pôde, finalmente, respirar de alívio. Os quatro milhões estavam agora investidos de forma astuta, mas com extremo conservadorismo, sob as ordens exclusivas do presidente do conselho de administração, que detinha plenos poderes financeiros. Não disse uma palavra sobre as suas razões ou as suas preocupações, nem a sua sabedoria foi questionada. Charles não passava por cima das opiniões dos outros, essa não era a sua maneira de ser. Em vez disso, explicava de forma pormenorizada todas as decisões que tomava e incentivava um debate saudável, embora tal nunca acontecesse. A confiança e o conhecimento indicavam que Charles estava certo. O novo conselho de administração, cujos membros não pagavam quotas, recebeu o seu estatuto na segunda quinzena de outubro.
A meio de outubro, Charles organizou um jantar para os médicos, a enfermeira-chefe Newdigate e Bashir Maboud, embora não tenha convidado os respetivos cônjuges. Arrendou um salão de tamanho considerável no Grand Hotel, mas o catering ficou a cargo de uma empresa de Sydney. Apenas o valor do aluguer compensou o Grand Hotel por tamanho insulto, mas o gerente, pragmático que era, teve de admitir que os seus cozinheiros nunca poderiam competir com aquela ementa: caviar de beluga, sorvete, linguado escalfado e um Chateaubriand rosado com o molho do mesmo nome que demora três dias a fazer. Visto que se encontravam no auge da primavera, a sobremesa foram morangos perfeitamente maduros, com ou sem natas batidas.
Charles mencionou o assunto enquanto tomavam os aperitivos, sabendo que a discussão se estenderia ao longo de todos os pratos e para além das bebidas e do café após o jantar. Como sempre, Gertie Newdigate adorava ser a única presença feminina, demasiado sensata para não se atirar a todos os homens, mas contente pela oportunidade de usar batom e um vestido que não rangesse devido à goma. Liam sabia o que estava para vir, mais ninguém. Sentaram-se em cadeiras confortáveis, com o olhar fixo em Charles.
— Vamos reconstruir o hospital — disse ele —, e este jantar é a minha forma de vos apresentar as enormes mudanças que vão ocorrer sob este novo conselho de administração. No entanto, quero que compreendam que será um processo gradual, que não terá início para a semana ou talvez nem para o ano. Trouxe-vos todos a bordo com tanta antecedência porque não quero a visão de um arquiteto para o hospital, quero a de um médico. Bashir, você está aqui porque representa a ideia que um paciente tem do hospital. Estão todos a acompanhar o meu raciocínio?
As trocas de olhares e os murmúrios exprimiam contentamento, todos os olhos no grande salão brilhavam.
— À superfície, não vai ser muito diferente… edifícios compridos de um só andar e com alpendres, para que as camas dos pacientes possam ser empurradas para o exterior a fim de apanharem algum sol ou ar fresco ou verem o jardim, unidas por rampas que serão totalmente cobertas. Tudo estará ao mesmo nível e faremos o possível para continuar sem escadas. Quando o desnível existir, a rampa terá uma inclinação suave e gradual. Sim, significa ter de fazer aquelas caminhadas difíceis, mas é saudável e vou também providenciar aqueles pequenos carros abertos a baterias para aqueles que necessitem de ser transportados, incluindo as visitas.
Charles cruzou o olhar com Liam.
— Liam?
— Madeira sobre pilares de pedra, Charlie?
— Não, tijolo sobre qualquer que seja a base disponível… não vamos desperdiçar os blocos de calcário. Quero que a construção seja feita com tijolo furado, para ser mais fácil aquecer as divisões no inverno e arrefecê-las no verão. Os telhados serão feitos com telhas de terracota e isolados com camadas de alcatrão, e teremos sótãos bem ventilados. Infelizmente, a casa das enfermeiras já está quase terminada, mas pelo menos Frank Campbell mandou construí-la nas traseiras do hospital e faremos o que pudermos mais tarde.
Charles reparou no chefe de sala de pé junto à porta, um sinal de que o jantar estava a ser servido, e ajudou a enfermeira-chefe a levantar-se da cadeira.
— Podemos continuar a conversa na nossa pequena sala de jantar — disse ele, indicando o caminho, com os restantes convidados atrás dele.
— O mais importante — disse ele muito tempo depois, enquanto bebiam conhaque ou licores, café ou chá — é perceber que o hospital continuará a funcionar à medida que as obras forem sendo realizadas. Isto significa que estas vão decorrer ao longo do tempo, o que deve manter o funcionamento ótimo do hospital. Quando possível, devemos suportar os custos utilizando os juros que vamos recebendo e não o nosso capital. Também não nos devemos esquecer que recebemos dinheiros do Estado por sermos um hospital público. Ao analisar os livros de contas, deu para perceber que Frank Campbell era um ávido colecionador de dívida. A assistente social travou uma luta difícil para livrar um paciente pobre das suas dívidas. Isto é, pura e simplesmente, uma vergonha! Se não fosse pelo esforço das igrejas de Corunda e caridades privadas, teria sido negado às pessoas o que eu considero ser um direito básico: cuidados hospitalares. Oh, não pensem que isto não acontece em Inglaterra! Acontece, sim.
Liam Finucan encontrava-se sentado a ouvir, com um sorriso de orelha a orelha. Bom trabalho, Charlie! Todos o apoiavam, sobretudo Bashir Maboud.
À meia-noite, quando regressava à vivenda na propriedade do hospital a que chamava casa, Liam encontrou Tufts à sua espera, ansiosa por ouvir o que acontecera na reunião e determinada a não o deixar escapar à sessão diária de escovagem de cabelo.
— Como adivinhaste que precisava de um chá para acalmar o estômago depois de ter comido tanta comida de rico? — perguntou ele, soprando o chá, que tomava sem leite ou açúcar e muito forte.
— O que estava na ementa?
— Caviar russo, peixe tenro, um bife de vaca incrivelmente delicioso com molho de estragão e morangos.
— Tenho tanta pena de ti — disse ela, atacando o seu cabelo negro. — Eu comi uma tarte de carne e batata com couve aguada.
— Não comeces, Heather, tu sabes que Charlie está a fazer maravilhas por este lugar. Foi genial da parte dele ter dado a notícia da renovação do hospital aos médicos do novo conselho de administração durante um jantar que lhe deve ter custado uma fortuna. Meu Deus, como eles adoraram! Pensei que Gertie se fosse babar para cima do bife.
— Charlie é esperto — disse Tufts, escovando o cabelo com força.
Liam agarrou na escova.
— Mais não, Heather, por favor! O meu couro cabeludo deve estar lacerado.
— Desmancha-prazeres! O teu couro cabeludo está perfeito. O que animou Gertie?
— Os morangos. Acredito piamente que ela morreria por Charlie. Na verdade, ele tem o que se chama um clube de fãs.
— Sim, ele tem um clube de fãs — suspirou ela. — Eu só gostava que a pateta da minha irmã se juntasse ao clube de vez ou esquecesse Charlie por completo. A indecisão dela está a enlouquecer-nos.
— Ainda bem que ela é problema teu e não meu. — Liam passou os dedos pelo cabelo. — Agora que a pele deixou de doer, confesso que sabe bem não ter o cabelo à frente dos olhos a cegar-me.
— Fico feliz por ti, seu velho e teimoso homem do Ulster.
A porta abriu-se após uma pancada e o doutor Ned Mason entrou.
— Eu sabia que cheirava a chá! Tufts, amor do meu coração, será que Liam tem uma chávena a mais que não se importe de dispensar a um velho e ligeiramente enjoado obstetra?
A chávena de chá apareceu à sua frente assim que se sentou.
— Eu tinha a sensação de que Tufts te estaria a fazer um chá. Porque é que lhe chamas sempre Heather?
Liam pareceu surpreendido.
— Chamo? Deve ser o nome que associo quando penso nela. Foi, de facto, uma refeição abundante.
Ned Mason acenou com a cabeça.
— Perturbou as tuas rotinas, Liam? Tu e Tufts são unha com carne.
— Porque estás aqui, Ned?
— A Winnie Joe escorregou nas suas águas quando a bolsa rebentou, na mesma altura em que estavam a servir os morangos, e é claro que a Winnie Bert não reparou. Contudo, a Winnie Jack apercebeu-se do sucedido e ficou logo com dores da angina de peito — disse Ned Mason.
— Porque será que todas as mulheres Johnston se chamam Winnie? — perguntou Liam.
Tufts sorriu.
— O papá diz que só um nome passa pela cabeça de Silas Johnston cada vez que nasce uma menina. O nome é Winifred. Quando as raparigas se casaram, adotaram o nome dos maridos para se distinguirem, visto que os nomes de infância já não serviam para fazer tal distinção. Conseguiste resolver a questão das Winnies, Ned?
— Espero que sim, visto que não está nenhuma parteira de serviço na sala de partos esta noite… caiu sobre ela uma tragédia pessoal qualquer. Deixei a Winnie Joe nas mãos de uma estagiária aterrorizada, mandei a Winnie Jack para a sala de operações e a Winnie Bert procurar o Joe de bar em bar.
— Eu sou parteira, Ned — disse Tufts, levantando-se. — É a minha noite de pedicure, mas os meus pés podem esperar. Os bebés, não. Se precisares de mim, estou à tua inteira disposição assim que terminares o chá.
— Que Deus te abençoe, Tufts, preciso mesmo de ti! — Ned esvaziou a chávena. — Já me sinto melhor. Depois do antiácido da Perkins, nada acalma mais o estômago do que um chá preto bem quente. Alcatrão de hulha, como Charlie lhe chama.
Os dois desapareceram na noite tranquila, e Liam ficou a lavar as chávenas, guardando, em seguida, o seu conjunto de pedicure. Heather tinha razão: os pés esperavam, os bebés, não. Porque é que Charlie servia refeições tão substanciais?
A fim de corrigir os erros financeiros cometidos pelo antigo conselho de administração do hospital, Charles acabou por ser forçado a adiar alguns planos, que muito estimava. Até conseguir pôr tudo em ordem, Charles negligenciou Kitty de forma vergonhosa. Quando, por fim, folheou o seu calendário, ficou chocado ao reparar que não a via há duas semanas. Qualquer atenção que lhe tivesse prestado fora sempre apressada e superficial… um sorriso de passagem, algumas palavras trocadas à pressa, duas boas oportunidades perdidas.
— Vem jantar a minha casa, só nós os dois — disse ele a Kitty.
O convite foi inesperado, parecendo-lhe bastante presunçoso, arrogante, vitorioso.
— Certamente — respondeu ela, com uma criança ao colo apoiada sobre a sua anca esquerda, à entrada da ala das crianças. — Quando?
— Hoje à noite?
— Obrigada, esta noite dá-me jeito.
— Então, vou buscar-te a casa às seis.
— Obrigada. — Kitty virou-se a sorrir… para a criança, não para Charlie.
Desta vez, Kitty usou um vestido de organdi com um padrão de vários tons de cor-de-rosa, com acessórios cor-de-rosa, o que não lhe agradou minimamente.
— Pareces algodão-doce da feira popular — disse ele com uma expressão vaga no olhar.
Kitty fez uma careta.
— Acabaste de dizer o mesmo que Edda relativamente à minha aparência, embora ela tenha sido menos educada. Ela diz que a minha mãe me influencia demasiado.
— Podias vestir-te mais como a Edda — disse ele friamente.
— Queres dizer de forma mais sensual? — perguntou ela sem se sentir ofendida.
— Não, apenas de forma mais elegante. Uma estatura mais baixa não liga bem com folhos e feminilidade excessiva.
Não era de surpreender que Kitty se tivesse mantido em silêncio enquanto subiam Catholic Hill. Por fim, talvez por pensar que a noite começara mal, Charles disse:
— Por que raio é esta colina chamada Catholic Hill, se St. Anthony fica em Trelawney?
— Porque os nossos suseranos colonizadores ingleses eram extremamente anticatólicos e distribuíram as primeiras concessões urbanas ou de terras municipais — disse Kitty, contente por poder exibir algum do seu conhecimento. — A Igreja Anglicana ficava sempre com as melhores terras e a Igreja Católica com as piores. No entanto, as cidades têm tendência a crescer, e as concessões da Igreja Anglicana foram-se tornando demasiado pequenas e com demasiados bairros pobres, enquanto a parte dos católicos, geralmente situada no cimo de colinas, se tornou cada vez mais valiosa. A ideia era obrigar os católicos a subir as colinas para irem à missa, mas o que os suseranos se esqueceram é que associadas às colinas estavam vistas incomparáveis. O melhor exemplo disto — continuou ela, entusiasmando-se com os seus argumentos — está em Sydney. A Catedral de St. Andrew, casa-mãe da Igreja Anglicana, encontra-se num terreno tão pequenino, ao lado da bastante mais impressionante Câmara Municipal, junto às torres de escritórios e no meio do trânsito, enquanto a catedral católica de St. Mary se situa numa majestosa área natural, rodeada de parques e jardins, e tem uma vista fantástica num local relativamente calmo. Quando a terra foi concedida, era um terreno de pastagens e cabanas na periferia da cidade.
— Uma história admonitória — disse ele a rir. — É interessante como o preconceito humano se pode virar contra o seu autor. — Charles olhou para os portões da Casa Burdum. — Chama-se Catholic Hill, mas presumo que esta colina já não seja propriedade da Igreja Católica.
— Não, foi o dinheiro obtido da sua venda que custeou a construção da Igreja de St. Anthony, um edifício espaçoso e bonito, bem como de duas escolas católicas. O velho Tom Burdum arrendou o cimo da colina de forma a garantir que, se a igreja alguma vez a vendesse, ele teria o direito de preempção.
— Então, acabas por saber mais sobre a minha casa que eu!
Junto ao portão imponente, embora tipicamente dórico, Kitty vislumbrava agora pela primeira vez a perspicácia do velho Tom Burdum ao escolher o local para construir uma casa que desejava, um dia, encher da vida mágica que só as crianças trazem a um lar. Oh, pobre velhote, por só ter tido um filho e uma filha, e nenhum deles, aos seus olhos, uma criança satisfatória. A filha, uma cabeça no ar tresloucada, fugira com um atraente caso perdido antes dos dezanove anos e agarrara-se a ele como um carrapato. O filho, bastantes anos mais velho que a irmã, desaparecera para paradeiro desconhecido, quando a rapariga, a mãe de Jack Thurlow, era ainda uma criança pequena. O rapaz, Henry, era filho da primeira mulher de Tom; a rapariga, Mary, era filha de Hannah.
A casa, uma monstruosidade de estilo vitoriano gótico, com torres circulares, enormes janelas e telhados altos e inclinados, nunca fora um lar. A mansão assentava em quatro hectares do enorme cume plano de Catholic Hill, e encontrava-se virada de costas para o distrito de Corunda, situado num vale amplo e fértil. Fora construída virada para norte, para os impressionantes desfiladeiros de pedra vermelha e florestas sem fim do planalto recortado que contornava Sydney. Oh, que lindo!, pensou Kitty: grandes extensões de terra cobertas por uma neblina azul, as folhas de milhares e milhares de árvores sopradas pelo vento como um enorme suspiro de uma só garganta, um ligeiro toque de alegria irrequieta nos riachos de água límpida e o peso murmurante carmesim de tanta rocha vermelha que parecia sangrar, tudo desenhado pela mão de um mestre.
— Quem me dera ser poeta — disse ela, assimilando toda aquela paisagem. — Agora percebo porque me querias aqui tão cedo. A luz está perfeita para o meu primeiro vislumbre desta paisagem incrível.
— É preciso muito para igualar esta paisagem — comentou ele, satisfeito —, e eu já viajei bastante.
No interior, a mansão exibia fulgurantemente as suas raízes vitorianas, uma perspetiva pouco apelativa para uma dona de casa, pensou ela ironicamente.
— A casa tem de ser remodelada por completo — disse ele, conduzindo-a a uma divisão que transformara numa espécie de sala de estar, embora a mobília fosse velha e desconfortável e, desconfiava ela, a casa de banho mais próxima ficasse no quintal das traseiras. Neste último aspeto, Charles podia assegurar a Kitty que a casa de banho não era no exterior da casa.
— Não havia qualquer sistema de esgotos, por isso, antes de me mudar para cá, mandei instalar uma daquelas fossas sépticas e construir bons lavabos e casas de banho. Está para chegar de barco, de São Francisco, uma fornalha a óleo, e mais uma para o caso de aquela não ser suficiente… reparei que os australianos, tal como os ingleses, não usam aquecimento central e suponho que Corunda seja um lugar muito frio no inverno, pelo pouco que já senti.
Charles optou por se sentar longe dela para a poder apreciar, com o seu uísque de eleição na mão (com um pouco de água gaseificada e sem gelo), e tentou tornar os seus olhos da mesma cor que a sua bebida.
— Não te vou massacrar com os planos do que pretendo fazer com a casa depois de casarmos, vou apenas dizer-te que tenho esperança de que transformes esta casa num lar, algo que a velha Hannah nunca fez. Ela não é minha avó, eu sei, mas, se me pudesses falar um pouco da minha família de Corunda, agradecia.
A expressão do rosto de Kitty revelou as suas covinhas.
— Fugiste bem ao assunto, mas falaste bem! — Kitty recostou-se na cadeira. — Precisas de mobília de qualidade. Em relação a Hannah e ao velho Tom, bem, diz-se por aí que os Burdum nunca conseguiram sentir-se em casa em lugar nenhum, mas isso é apenas uma das lendas de Corunda, uma parte do mito. A verdade é que a culpa foi dos rubis. Treadby encontrou os primeiros há cerca de setenta e cinco anos e pensou que tinha herdado o mundo. O nome da cidade vem de corundum, o mineral dos rubis e das safiras. Por aqui só havia rubis e dos melhores… cor de sangue de pombo, alguns deles estrelados, todos imaculados, sem impurezas no seu interior. — A expressão do seu rosto alterou-se. — Mas isto já tu sabes, posso parar de falar deste assunto.
— Por favor, não pares — disse ele, enchendo novamente o copo de Kitty com xerez. — Gosto do som da tua voz, e és uma daquelas raridades, uma mulher inteligente. Temos a noite toda pela frente, e de certeza que não pensas que eu sou tão insensível a ponto de não perceber que isto é estranho?
— As mulheres são tão inteligentes como os homens, mas são educadas para pensar que é um defeito, por isso escondem a sua inteligência. O papá nunca nos fez isso. — Kitty suspirou. — A mamã sim, sem grande sucesso.
— Os rubis, Kitty — disse Charles, suavemente.
— Oh! Oh, sim, os rubis… O erro de Treadby foi tipicamente resultado da sua ignorância… Tendo ganhado uma fortuna com os rubis, não se esforçou por aprender, para diminuir a sua ignorância. Os seus rubis eram aqueles que, levados pelas correntes de água, ficavam visíveis no meio do cascalho em grutas, leitos de rios, fendas. Duraram muito tempo. No entanto, o velho Tom Burdum fez o trabalho de casa e propôs-se encontrar os maiores depósitos. Quando o fez, adquiriu as terras. E, com o decorrer do tempo, os terrenos de Treadby minguaram, secaram. Os rubis dos Burdum continuam a ser encontrados em boas quantidades. Correm boatos de que rendem cem mil libras por ano, mas tu sabes se isso é verdade ou não.
— Queres saber se é verdade ou não? — perguntou ele a sorrir.
— Não — respondeu ela, surpreendida com o facto de ele perguntar. — O dinheiro só vale o que pode comprar. Nem consigo conceber gastar metade disso.
Charles e Kitty passaram para a sala de jantar, onde o mordomo andava de um lado para o outro e a empregada, cujo rosto Kitty não conhecia, servia a comida. Os quenelles de lagosta foram seguidos de um sorvete e vitela assada. A presença dos empregados inibiu Kitty, que se entusiasmou com a lagosta, mas que olhou horrorizada para a vitela.
— Lamento — disse ela, olhando fixamente para o prato —, mas não consigo comer isto.
— Como?
— Não consigo comer isto. Está em sangue.
— É vitela — respondeu ele, friamente.
— Está em sangue — insistiu ela, empurrando o prato para longe.
— A vitela tem de ser comida malpassada.
— Não por mim. — Kitty sorriu encantadoramente. — Pede que a levem de volta para a cozinha, a ponham numa frigideira e a cozinhem… por favor, Charlie. De outra forma, vou acabar por vomitar.
— Minha querida, não posso fazer isso! O meu chef despedia-se logo!
— Então, posso comer antes uma sanduíche de bacon estaladiço?
Só pode ser uma brincadeira de mau gosto! Estupefacto, Charles começou a pensar como poderia não ter visto todos os sinais à sua frente desde que chegara, incluindo, agora que pensava nisso, o Chateaubriand vergonhosamente bem passado. Charles percebeu naquele momento que, enquanto se desculpava de forma copiosa pela tonalidade rosada do Chateaubriand como indício de que estava demasiado cozinhado, os seus convidados supuseram que ele estava a pedir desculpa por este estar malpassado! Ele sabia, devido às inúmeras refeições que fizera em Sydney, que a questão da carne cozinhada era bem mais civilizada em Sydney. No entanto, estas pessoas eram da província e sabiam demasiado sobre tudo, desde parasitas do fígado a ténias.
Charles fez sinal ao mordomo, uma importação de Sydney.
— Darkes, peça ao chef para fazer um prato de bacon e ovos para a irmã Treadby.
— Certifique-se de que as gemas ficam sólidas! — disse ela.
— Diz-me qual é o teu prato ou alimento preferido, Kitty.
— Bacon crocante num pão branco estaladiço. Salsichas e batatas fritas. Fish and chips. Costeletas de cordeiro tostadas e estaladiças por fora. Porco assado com a pele torrada e batatas assadas. E os cupcakes da mamã — disse Kitty sem hesitação. Os seus olhos dispararam faíscas cor de alfazema e sorriu. — Oh, pobre Charlie! Tantas ideias magníficas para um casamento, mas como poderás tu manter um chef e uma esposa? Os dois nunca se deverão cruzar!
— Com essa dieta, serás um balão antes de chegares aos trinta.
— Que disparate! Eu farto-me de trabalhar, Charles Burdum. Não é a comida que interessa, é o quanto queimas daquilo que comes.
— Porque é que eu te amo? — perguntou ele ao candelabro horroroso.
— Porque, doutor Burdum, eu não me derreto com os seus encantos como todas as outras mulheres. Tens-te em muito alta conta!
— Algumas opiniões que tenho de mim mesmo foram genuinamente merecidas, e uma boa opinião, baseada em boas ações e feitos alcançados, não deve ser menosprezada. Tu tens uma fraca ideia de ti mesma, o resultado de poucos anos neste mundo e horizontes demasiado limitados. Na América, chamar-te-iam campónia.
— Na América chamar-te-iam reizinho.
Os ovos e o bacon chegaram à mesa, mas as gemas dos dois ovos estavam moles. Kitty mandou o prato para trás, com instruções para passar melhor as gemas e tostar as extremidades da parte branca. Desanimado e perdido, Charles viu a sua noite transformar-se num desastre.
No entanto, Kitty aprovou o café, tomado na sala de estar e sem os empregados presentes.
— Cometeste todos os erros possíveis esta noite — disse Kitty num tom amigável — e penso que é por isso que ninguém simpatiza com os pommies, pelo menos em grande parte. Nunca me perguntaste, nem procuraste saber, quais eram as minhas preferências em termos de comida, porque me julgaste uma provinciana ignorante que precisava desesperadamente de instruções sobre o que comer num ambiente sofisticado. Eu devia ter vindo e ficado encantada, maravilhada e pateticamente agradecida pelas lições desta noite. O teu juízo gastronómico foi puramente financeiro: se for raro e/ou caro, deve ser melhor a todos os níveis. Um pão com bacon é tão prosaico: Q.E.D., não pode ser comparado a um quenelle de lagosta. Eu concordo, não pode mesmo. É muito mais saboroso. Quanto às tuas carnes malpassadas, eu já vejo sangue suficiente ao longo de um dia de trabalho, não preciso de ver a minha comida sangrar também. Quanto mais mal cozinhada a carne, mais gordura contém. Uma das razões por que o homem começou a cozinhar a carne foi para derreter a gordura e fazer com que a cartilagem fosse mais facilmente detetada. — Kitty encolheu os ombros. — Pelo menos, foi o que aprendi no curso de enfermagem. Será que os médicos aprendem algo diferente?
O rosto de Charles contorceu-se até se parecer novamente com uma gárgula, mas os pensamentos que alimentavam as suas expressões não eram de orgulho ferido ou arrogância desafiada. Charles Burdum pensava se haveria alguma coisa neste mundo que ele pudesse fazer para que aquela mulher magnífica e sem igual o visse como ele realmente era: um homem digno de ser seu marido.
— Se eu te desse pão ázimo para comer e água do rio para beber, Kitty, não poderia ser pior do que estas, hum, comidas raras e caras que te ofereço, não para te menosprezar ou acusar de falta de sofisticação, mas para te mostrar quão rara e valiosa és para mim. — Charles manteve a voz firme e o corpo descontraído, os seus olhos diziam-lhe que ela ainda se sentia apreensiva e desconfiada. — Porque tens de me dissecar desta maneira?
Kitty ficou com um ar muito cansado, de repente.
— Charlie, acho que é a minha maneira de te fazer perceber que não quero as tuas atenções. Tu… tu irritas-me. Não consigo pensar noutra maneira de o dizer. Não me repugnas, nem deprimes, nem me fazes sentir nenhuma de mil emoções fortes. Irritas-me, simplesmente, como uma pestana presa debaixo da pálpebra a arranhar o olho — disse ela.
— Se isso é verdade, porque vieste hoje?
— Foi mais uma tentativa de te fazer perceber.
— Queres ir para casa?
— Vais deixar-me em paz?
Charles esbracejou, num gesto de súplica para que ela o entendesse.
— Não consigo! — lamentou ele. — Kitty, não consigo deixar-te em paz quando me rejeitas de forma tão leviana! O que tenho de fazer para provar o quanto te amo, para te provar que fomos feitos um para o outro? Não me interessa se isto te parece disparatado, amo-te loucamente, quero-te para minha esposa, a minha alma gémea, e tenho de arranjar maneira de tirar essa pestana do teu olho para fazer com que os teus olhos vejam que sou o homem certo para ti…
Kitty bateu com a mão na mesa, furiosa, e o violeta naqueles olhos flamejou.
— Não digas disparates! Leva-me a casa, por favor. Obrigada por uma refeição muito educativa.
A noite ficou por aqui. Abandonaram a casa em silêncio e caminharam até ao Packard cor de vinho. Charles abriu-lhe a porta e Kitty sentou-se no banco do passageiro.
Desceram a colina, um vazio frio e silencioso entre eles. Kitty olhou para o que as luzes dos faróis da frente iluminavam por breves instantes… um enorme tronco de árvore, um maciço de arbustos, caixas de correio ao fundo e depois os candeeiros da George Street, da Victoria Street e, finalmente mais à frente, o hospital.
Desta vez, ele não foi suficientemente rápido. Kitty saiu do carro e percorreu a rampa, distanciando-se dele com o passo perfeito de uma enfermeira: nem a correr nem a andar. Não havia nenhum fogo nem hemorragia para tratar, queria apenas fugir de Charles Burdum.
Charles regressou à Casa Burdum e sentou-se no meio das ruínas do que planeara ser uma noite de sedução, certo de que nenhuma mulher poderia resistir às provas que ele lhe dava de tempo, cuidado, atenção e amor. A comida mais deliciosa, os melhores vinhos, os empregados bem treinados que lhe asseguravam que, quando casassem, todas as tarefas sujas e irritantes seriam realizadas por outra pessoa… nem mesmo o estado deplorável da Casa Burdum, a precisar tanto da atenção decorativa de Kitty, resultara.
Um empecilho! Alguém que não era suficientemente importante para ela. Uma pestana! E, porquê usar tantas metáforas? Uma pestana que te deixa doido, até que finalmente a consegues tirar com água ou com a ponta de um pedaço de gaze. Oh, graças a Deus que aquela malvada se foi embora! Ser rejeitado de forma tão leviana, tão banal, tão estúpida…
Ferido no seu âmago, Charles sangrava do que pensava ser a sua alma, porque não tinha aquela pessoa na sua vida que o poderia ter desenganado logo de início: um melhor amigo. As peculiaridades da sua infância, posto à parte por um pai instável e privado pela morte de uma mãe, transformaram o seu coração em pedra mesmo antes de ter idade suficiente para frequentar a escola. Em Eton, Balliol e Guy sempre fora um solitário. A sua estatura, sempre o rapaz ou o homem mais baixo da sua turma, não permitiu qualquer relação íntima. Tudo isto moldou uma carapaça de arrogância, autoconfiança inabalável e determinação de ferro para superar todos os seus pares, maiores e mais altos. Juntamente com uma crescente maturidade, veio uma tomada de consciência da sua capacidade de encantar e deslumbrar. Em vez de se tornar um solitário mal-humorado, o doutor Charles Burdum era um homem carismático e gentil, com uma inteligência invejável assente numa fundação sólida. Era uma pena ser tão baixo! Sabendo que todos os que o conheciam o pensavam, Charles escondia a sua frustração e a sua raiva.
Charles sabia que parte da intensidade do amor que sentia por Kitty se devia ao seu tamanho. Ninguém ia gozar com eles quando os visse juntos, pois eram ambos baixos, sim, mas não anões, e Kitty era linda como Helena de Troia, um objeto de amor universal que poderia casar com quem quisesse. E Corunda não era propriamente Paris, disso tinha a certeza. Se Kitty o escolhesse, sentir-se-ia vingado.
Este processo de pensamento ilógico ajudava-o a sarar, descobriu ele, e foi o que fez ao longo da noite, sentado com um uísque na mão, a beber devagar. Ele não era um bêbedo, de maneira nenhuma, apenas se sentia amargamente desiludido pelo facto de as suas investidas amorosas terem sido rejeitadas de forma tão desdenhosa, o que o levou de um estado depressivo pela perda de Kitty para outro que o atormentava ainda mais, visto que a sua solução não se encontrava nas suas mãos.
Algo de muito grave está para acontecer, sei disto há mais de um ano e já o partilhei com algumas outras pessoas. O Banco de Inglaterra está agitado, a City de Londres inquieta. No entanto, tudo são rumores. As dívidas do Estado são demasiado altas e o desemprego continua a aumentar… sobretudo na Austrália. O país está economicamente perturbado e eu responsabilizo a inexperiência do governo por isso. A Comunidade da Austrália tem menos de trinta anos e os seus governantes são muito inexperientes.
Existem indícios graves. Aquela greve dos mineiros nas minas de carvão do Norte… um rapaz de quinze anos morreu baleado! E o governo federal dá demasiada responsabilidade aos Estados, que não têm a capacidade de coletar impostos e recebem dinheiros federais por razões mais políticas do que justas.
Serão estes os sinais do domínio completo de Melbourne sobre a restante nação? Vinte e cinco anos de governo federal em Melbourne, com o maior e mais coletável Estado do país, a Nova Gales do Sul, a servir de anfitrião de uma Camberra que ainda agora começou a funcionar? Este lugar é do mesmo tamanho dos Estados Unidos da América e encontra-se igualmente dividido, mas não igualmente povoado… os seus habitantes estão comprimidos em meia dúzia de cidades amplas, e as áreas rurais tão densamente povoadas como Corunda são raras. Não compreendo! Mas será que os australianos compreendem? As suas escolas ensinam mais história inglesa que australiana, e eu não sei para onde ir. Corunda é tão isolada do governo central como a Escócia é de Londres!
Uma rajada de vento soprou pela chaminé adentro com um rugido: Charles deu um pulo e arrepiou-se.
Há quanto tempo estava ali? Três meses? No entanto, os habitantes de Corunda já olhavam para ele como para um líder local. Estou ligado a Corunda pelos meus laços de sangue e pelos meus investimentos locais, e esta é a razão por que escolhi vir para aqui quando decidi aventurar-me num mundo novo. Queria preservar a minha inglesice, o que excluía qualquer lugar na América do Norte. Os americanos abandonaram o Império em 1776, e no Canadá há uma forte influência francesa. Na África do Sul, a influência é holandesa. Aqui, na Austrália, posso fazer carreira política e chegar a primeiro-ministro.
Afinal, são apenas duas horas de viagem de carro de Corunda até Camberra. No entanto, como é que faço para lidar com a distância dentro da minha cabeça?
Mas primeiro vou casar com Kitty.
A segunda tarefa será mais difícil e mais dolorosa: abandonar a minha inglesice. Mantê-la só me vai prejudicar.