Agridoce
PARTE QUATRO: A Catástrofe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Minha querida, és uma fonte inesgotável de conhecimentos!
— Isso não sei, mas Sir Otto é um homem preocupado.
Todos os bons hotéis de Melbourne estavam lotados com políticos e o pequeno exército de parasitas que pareciam arrastar consigo, como a cauda de um cometa, pensava Charles Burdum enquanto se acomodava na sua suíte habitual de dois quartos no Hotel Menzies. Gostava do seu ambiente reservado, do uniforme axadrezado do pessoal em tons vermelhos e brancos, da existência de empregados e empregadas, e da excelente cozinha. A sua estimada Cynthia Norman antecipara-se a tudo e a todos e reservara-lhe um Rolls-Royce e um motorista para a sua estadia, e Kitty tivera razão, pois o baú de camarote resultara. Também ajudava o facto de Charles dar gorjetas generosas. Os australianos, descobrira ele desde cedo, eram conhecidos por serem péssimos a dar gorjetas.
Ao dizer a toda a gente que Otto era seu patrono, Charles deu por si a ser convidado para todo o tipo de reuniões, mas tudo isso parecia pouco quando comparado com o facto de ter jantado sozinho na companhia de Sir Otto na primeira noite dele em terra. Parecia que Sir Otto tinha alguns assuntos para resolver e escolhera Charles para ser o seu principal confidente… não de forma ilógica, visto que Sir Otto tinha duas coisas em comum com Charles e com mais ninguém em Melbourne: os seus laços duradouros com a City de Londres e a sua inglesice.
— Meu caro Charles, a cidade nunca mais foi a mesma desde que arrumaste os teus trapinhos numa mala e emigraste — disse o homem do Banco de Inglaterra, enquanto tomavam uma bebida antes da refeição. Ambos vestiam smoking e laço preto.
— Estás a exagerar — disse Charles, sorrindo. — Eu passava mais tempo em Manchester do que em Londres.
— Talvez, mas estavas sempre suficientemente perto para vires em nosso auxílio quando precisávamos de ti, em situações complicadas ou estranhas. Decerto que não emigraste por causa de Sybil, meu caro amigo?
— Céus, não! — exclamou Charles, admirado. — Para dizer a verdade, estava aborrecido e pareceu-me uma boa oportunidade de reclamar a minha herança antípoda. Que maravilha! Parece que já foi há uma eternidade, quando na verdade não passaram sequer dois anos. — O seu rosto alterou-se para o da gárgula. — Na parte inferior do globo terrestre, Otto, estou convencido de que o mundo, e o tempo, gira mais depressa. Estou casado com uma mulher que eclipsa Sybil, tal como o diamante Hope eclipsa um pedaço de vidro.
— Não a trouxeste a Melbourne?
— Não. Ela está grávida.
— Que maravilha! — Sir Otto recostou-se na sua cadeira. — Sabes porque estou aqui, Charles?
— Decerto que é por causa da Depressão, mas em nome de quem é que não sei. Não pensei que estes trapalhões idiotas fossem suficientemente inteligentes para pedir a opinião de um perito.
— Quanto a serem um trapalhões idiotas, parece que todos os governos os têm face a esta catástrofe, mas sim, tens razão. Eles não me mandaram chamar. Eu vim por ordem do banco.
— Quais são as intenções do Banco de Inglaterra?
— Convencer os vários governos deste continente de que não podem faltar com o pagamento dos empréstimos, sobretudo o pagamento dos juros.
O ar de gárgula acentuou-se; Charles assobiou suavemente.
— Já ouvi os lunáticos extremistas a sussurrar por aí sobre negar-se a pagar a dívida externa e alguns homens bastante responsáveis a murmurar sobre adiar os pagamentos de juros dos empréstimos até o sofrimento local atenuar, mas não dei muito crédito a qualquer uma das opiniões. O que o senhor está a insinuar, penso eu, é que uma grande parte dos envolvidos na política está preocupada com o pagamento dos empréstimos.
— Oh, sim.
O primeiro prato chegou à mesa; ambos pararam de conversar sobre assuntos importantes enquanto os empregados se encontravam presentes; em seguida, comeram num agradável silêncio que perdurou, com a exceção da conversa fiada, até o vinho do Porto cor de rubi e o queijo Stilton chegar, quando o batalhão de empregados saiu, dando-lhes privacidade para voltar aos seus assuntos.
— É bastante evidente — disse Sir Otto — que a federação e o autogoverno subiram à cabeça dos australianos. Sem os sólidos poderes de veto dos governantes ingleses e incentivados pela procura da lã, bem como da produção contínua de ouro, o governo federal e os governos dos vários Estados decidiram gastar mais do que podiam. Fazes ideia da quantidade de lã australiana que foi usada no período da Grande Guerra? A Austrália prosperou graças às ovelhas! Atrevo-me a dizer que ninguém antecipou o fim da prosperidade em 1925, embora todos o devessem ter adivinhado.
— Estou a perceber — disse Charles, devagar. — Por favor, continue, Otto.
— Os vários governos estaduais gastaram a maior parte do dinheiro na última década, penso eu, porque o governo federal queria os louros sem ter o trabalho administrativo. Tendo em conta o ouro e outros depósitos de minérios, foi decidido em Camberra que a Austrália Ocidental não seria autorizada a separar-se, apesar dos seus protestos. Isto levou a que a Austrália Ocidental recebesse sempre uma quantia desproporcionada de dinheiro quando o governo federal distribuía fundos.
Sir Otto juntou as pontas dos dedos e olhou solenemente para o seu ávido ouvinte; estava a desfrutar o momento.
— De longe, o maior gastador foi o Estado mais populoso, a Nova Gales do Sul, o qual, devido a enormes pressões de Perth e Melbourne, recebia de Camberra sempre menos do que lhe era devido. Por isso, a Nova Gales do Sul contraiu empréstimos avultados nos mercados da City de Londres para financiar um programa ambicioso de obras públicas. O Estado está agora perigosamente em risco de não cumprir os pagamentos. Outros Estados, apesar de se encontrarem numa situação menos crítica, também estão sobre gelo fino, e os meus colegas no Banco de Inglaterra temem que o governo federal falhe as suas obrigações.
— O Otto sabe, por isso, diga-me: quanto foi pedido emprestado? — perguntou Charles, receoso.
— Para cima de trinta milhões de libras por ano.
— Meu Deus! Com juros exorbitantes.
— Mas que foram acordados quando do empréstimo.
— Sim, é claro. Continue, por favor.
Sir Otto encolheu os ombros.
— É por isso que estou aqui… que viagem medonha de se fazer! Vão ser vários meses desperdiçados, embora espere conseguir intimidar os políticos para que se comportem como deve ser. Se conseguir isso, então o meu tempo terá sido bem empregado.
— O que acha do país, se é que pode fazer qualquer juízo passado tão pouco tempo? Sei que algumas pessoas do governo federal embarcaram em Fremantle para pôr as coisas a mexer.
Os cantos da boca de Sir Otto reviraram para baixo.
— Eu acho que a Austrália tem uma ideia sobrevalorizada da sua própria importância, antes de mais. Depois, tem um nível de vida da população em geral vergonhosamente alto. O homem trabalhador vive demasiado bem! Os ordenados são muito altos e as expectativas de vida, irrealistas. Resumindo, o homem trabalhador desconhece o seu lugar.
— Percebo. Que medidas recomenda?
— Imperativamente, não pode haver falhas no pagamento da dívida externa, sobretudo dos juros. Contenção de despesas absoluta. Todo o governo até ao nível municipal tem de parar imediatamente de gastar em obras públicas… cortar os seus serviços civis ao máximo… reduzir os honorários e salários que pagam… e diminuir todos os subsídios sociais, desde subsídios de desemprego a pensões. A libra australiana está à beira de desvalorizar e chegará, por fim, achamos nós, a valer menos trinta por cento que a libra esterlina. Se um Estado não conseguir cumprir o pagamento de juros, então que seja nas suas próprias obrigações, que, ao que sei, paga aos titulares da dívida nove por cento. A dívida local não é o problema, apenas a externa.
Charles manteve-se em silêncio durante muito tempo, limitando-se a ficar sentado a franzir o sobrolho para as pontas dos dedos de Sir Otto; de repente estremeceu, como um cão a sacudir a água de um banho gelado.
— Oh, Otto! Desconfio que não vai receber muitos sorrisos por aqui, a não ser quando regressar a casa. O senhor é o mensageiro do sofrimento apocalíptico, visto que já é mais que evidente que a Grande Depressão atingiu mais a Austrália.
— Não, a Austrália foi o segundo país a ser mais afetado — disse Sir Otto. — Os alemães estão bem pior. A reconstrução depois da guerra levou-os à bancarrota. Os franceses querem a sua parte.
— Bem, os alemães e os franceses já rosnam uns para os outros de cada margem do Reno há mais de dois mil anos, mas o que é que a desgraçada da Austrália alguma vez fez, senão tentar dar uma melhor qualidade de vida ao homem trabalhador? O que não é uma ambição louvável aos olhos da City de Londres.
Desiludido e deprimido, Charles não ficou muito tempo em Melbourne. Na madrugada seguinte, na escuridão, apanhou o comboio para Sydney, a sua mente a fervilhar com tantos aspetos desagradáveis que quase não se lembrou de mudar de comboio em Albury-Wodonga, na fronteira do Estado. As bitolas dos carris de Vitória e da Nova Gales do Sul eram diferentes. Federação ou não, as colónias australianas agiam como nações autónomas. Na verdade, pensou Charles, desembarcando em Corunda, a única maneira pela qual a nação australiana se poderia ter distinguido era tendo uma população tão vasta como a sua área territorial, como os Estados Unidos da América. No entanto, a sua pouca população estava enfiada em seis grandes cidades numa costa quase ilimitada, deixando quase oito milhões de quilómetros quadrados vazios. Corunda era uma cidade grande, mas tinha apenas 50 000 habitantes. Depois das seis principais cidades, Corunda era uma das maiores cidades da Austrália.
Contudo, ainda estou a aprender, pensou ele, encontrando Corunda ainda coberta por uma camada de neve, adivinhando-se um outono frio.
— Não percebo nada — disse ele a Kitty, muito surpreendida e contento por tê-lo de volta tão cedo. O seu baú de camarote quase não fora mexido, mas com ele veio um indivíduo sofisticado e impassível chamado Coates. Charles contratara um empregado, tendo-o convenientemente recrutado entre os funcionários do Hotel Menzies. — Coates pode ficar na acomodação dos empregados em Burdum Row e pode usar um dos carros velhos — continuou Charles, mudando de assunto. — Ele pareceu encantado com a oportunidade de trabalhar para mim.
— Com certeza que sim, meu querido. É um cargo privado, vai viver como um lorde — disse Kitty. — Fala-me sobre o Sir Otto Fabricante de Salsichas.
— Segundo Sir Otto, não devemos permitir que Coates viva como um lorde — disse Charles, mergulhando com prazer os lábios no seu uísque. — Sir Otto vai insistir que seja feita uma contenção absoluta de despesas a todos os níveis do governo, embora ninguém me possa impedir de construir, visto que o Hospital de Corunda tem o seu próprio dinheiro. Também não me podem cortar os fundos estaduais de forma discriminada. Eu vou receber o que os outros hospitais receberem, pois a saúde tem de ser financiada.
— Mas o dinheiro do governo vem dos impostos e, se ninguém tiver emprego, ninguém pagará impostos — objetou Kitty.
— Oh, algumas pessoas vão pagar impostos. A contenção absoluta é apenas uma forma de usar todos os tostões que entram nos cofres do Estado para enviar para fora do país e pagar os empréstimos. Se pedirem emprestado demasiado dinheiro, acabam por cair na bancarrota. A contenção total de despesas é um eufemismo para a falência, Kitty. O povo da Austrália não vai beneficiar, só os países estrangeiros que nos emprestaram dinheiro.
— Por vezes, Charlie, és difícil de perceber.
— Oh, estou a ficar mais esperto, só isso. Vim de Melbourne com esta imagem na cabeça, de mim e Otto no salão de jantar do Menzies, a beber os melhores vinhos e a comer as iguarias mais requintadas, vestidos a rigor e a ser servidos por um batalhão de empregados bajuladores… e eu sei que Otto acredita de coração, alma e intelecto que tem o direito de viver melhor que um alfaiatezinho judeu que passa o dia sentado de perna cruzada a receber um dinheiro por par de calças. Não interessa que ambos partilhem o sangue de Abraão… classe é classe. Otto defende que se deve manter a classe trabalhadora num nível inferior, ele acredita piamente que é criminoso oferecer-lhes uma vida decente. Para Otto, as classes sociais são imutáveis. Bem, eu não acredito na regra do proletariado, porque é desprovida de individualismo e incentiva os trabalhadores a pensar que podem gerir tudo, quando a verdade é que eles não têm capacidade para gerir nada… mas, raios, também não me agrada o mundo de Sir Otto Niemeyer!
— Tem de existir um meio-termo mais feliz algures — disse Kitty, pouco à vontade. — Jack Lang não vai aprovar as medidas de Sir Otto, pois não?
— Jack Lang está na oposição, não tem qualquer influência em termos executivos. Não tem poder nenhum, minha querida, nenhum. Tudo o que eu vejo é um enorme aumento de sofrimento — disse Charles. — Só espero que o governo de Scullin não seja completamente intimidado por Sir Otto.
— Jimmy Scullin — disse Kitty, com desdém — até por uma traça se sente intimidado. Não passa de um oportunista superficial.
Sim, era um bálsamo para a alma ter uma esposa tão ferverosamente compreensiva, contudo não resolvia o dilema político de Charles Burdum. Dividido entre a sua situação de vida, que se enquadrava mais nos ideais conservadores, e a sua convicção inata de que o homem trabalhador era uma criatura merecedora de respeito, que era mais concordante com a visão socialista, Charles continuava a oscilar de um lado para o outro, não sendo nem uma coisa nem outra.
Basicamente, o que estava mal em todos os partidos políticos, concluiu ele, era o facto de todos terem sido formulados para o Velho Mundo… para uma Europa cansada, devastada pela guerra e de recursos esgotados.
Assim, Charles pensou que o que tinha a fazer era criar um partido político adequado às necessidades dos australianos, um credo que não estivesse agrilhoado às ideias e sistemas políticos do Velho Mundo. O seu credo teria de olhar para o Capital e para o Trabalho com novos olhos e, acima de tudo, trabalhar para diminuir as barreiras artificiais entre homens. Por exemplo, queria perceber porquê, porquê, porquê Bear Olsen recusara de forma tão veemente o emprego de relações públicas que lhe oferecera? O que estava errado com a atitude social do homem, que o fizera recusar o cargo de relações públicas por o considerar um logro? O que se encontrava na base destas contradições inexplicáveis? Até descobrir, não se poderia candidatar ao parlamento, pois considerava-se a ele mesmo um ignorante e Bear Olsen uma espécie de oráculo enigmático. Bem, chegava de reuniões e conferências! Em vez disso, ia-se dedicar à pesquisa.
Charles pensou e escreveu. Descobriu que os livros de exercícios escolares das crianças eram o repositório ideal para as suas observações, deduções e teorias, sobretudo porque os podia fechar como um arquivo, usar vários em simultâneo e guardá-los na vertical, numa prateleira, em filas devidamente etiquetadas.
No entanto, tudo isso ainda estava para vir. Ele começou, só isso.
— Estás comigo, Kitty? — perguntou ele, ao regressar de Melbourne. — Vais estar ao meu lado, a apoiar-me?
Os olhos de Kitty brilharam num tom violeta com amor e orgulho.
— Sempre e para sempre, Charlie.
No início, Kitty disse a verdade mais absoluta. Se Charles se tivesse mantido na mesma direção, a perseguir os interesses do hospital, do orfanato e dos seus projetos locais em Corunda, o «sempre» de Kitty poderia ter aguentado. Contudo, à medida que o inverno se dissipava, e a primavera chegava e passava numa glória florida e perfumada, a conversa à mesa do jantar ou em qualquer outro lugar tornou-se cada vez mais inexoravelmente focada num só assunto: política. E Kitty descobriu em si um ódio crescente pela política, os políticos e as ambições políticas de Charles.
No final de outubro, com sete meses de gravidez completos, Kitty Burdum sofreu um aborto espontâneo; o bebé estava perfeitamente formado e era um rapaz, mas nasceu morto, já o estando antes de as contrações começarem.
— Não compreendo — murmurou ela da cama de hospital, o rosto e a almofada encharcados em lágrimas. — Estava tudo perfeito, sentia-me tão bem! E depois… acontece isto!
Apesar de estar profundamente afetado, Charles Burdum escondeu a sua devastação melhor, sobretudo da esposa; as suas lágrimas, igualmente amarguradas, eram choradas em casa, sozinho, à noite. Se se tivesse apercebido mais cedo, teria sido sensato e chorado com Kitty, um casal a sofrer unido pela perda, cada um a testemunha da dor do outro. Como não foi esse o caso, Kitty considerava o seu desgosto muito mais profundo que o dele e, continuando a amá-lo, interpretava o que achava tratar-se de um autocontrolo distante como um indício da sua masculinidade. Aliás, um pai não tinha qualquer contacto com o filho in utero , por isso como seria de esperar que ele se sentisse como ela, a anfitriã, se sentia?
— Não é incomum — disse o doutor Ned Mason — perder-se um primeiro bebé, Kitty, embora seja invulgar acontecer tão tarde. É possível que estejas um pouquinho anémica, por isso come muitos espinafres, mesmo se detestares.
— É provável que volte a abortar? — perguntou Kitty. — Ainda me sinto tão chocada com a subitaneidade… aconteceu de repente!
— Vais ter muitos bebés, posso garantir-te.
Um veredito ecoado por Tufts, muito preocupada. Existia uma nova expressão de desorientação no limiar da confusão naqueles lindos olhos. Independentemente do que acontecera, nãopodiam deixar Kitty afundar-se numa depressão profunda!
— Ned Mason tem razão, por vezes acontece as mulheres perderem o primeiro filho — disse Tufts, com firmeza. — Descansa muito, come espinafres e tenta outra vez. Garanto-te que vai correr tudo bem.
— Ned diz que sou capaz de ter um pequeno mioma.
— Oh, todas nós temos pelo menos um desses — resmungou Tufts, troçando. — Tu és uma enfermeira registada, Kitty, sabes que isso é verdade. Os miomas só se tornam problemáticos bem mais tarde.
— Charlie aceitou tudo de forma muito descontraída — disse Kitty, parecendo um pouco crítica, até ressentida.
— Charlie está completamente devastado, sua pateta! Só não o quis demonstrar para não te perturbar mais. Não minimizes a dor dele só porque não és capaz de ver além da tua própria dor, Kits. Ele chorou à minha frente.
— Bem, à minha frente não.
— Então, admiro o seu autocontrolo. É claro que não chorou à tua frente! Ele tem demasiada consideração por ti para o fazer.
— O papá disse que ele e Charlie deram um nome à criatura… Henry… e o enterraram. Eu nem estive presente.
«Criatura», pensou Tufts… oh, Kitty! Será que eu e Edda te poupámos demasiado em criança? Não, é claro que não. No entanto, por qualquer razão, a relação entre ti e Charlie nunca parece ir a favor dele, e a culpa não é dele, é tua.
Tufts saiu de junto da cama de Kitty na maternidade e caminhou apressadamente para o escritório de Charles Burdum, com o pensamento ainda em Kitty. Não se costumavam ver, e acontecia o mesmo com Edda, mas o elo que as unia não era menos forte por isso, e ela sabia que Kitty se viraria para ela e para Edda em busca de conforto nas semanas e meses que estavam para vir. Aquele tom de reprovação em relação a Charlie na sua voz! Esta era uma daquelas alturas em que ser um pommy alienado e de nariz empinado era uma terrível desvantagem.
Por trás da sua preocupação com o casamento de Kitty, havia algo mais que a preocupava: por que raio quereria Charles falar com ela? Não tinha que ver com Kitty; ele era demasiado escrupuloso para falar sobre a sua esposa com a irmã num local público, como o seu escritório. Então, o que se passava?
Ele parece, pensou Tufts quando Charles lhe indicou uma cadeira para ela se sentar, um homem cujo mundo acabou. De certa maneira, foi precisamente isso que aconteceu; ainda ontem vira o pequeno caixão com o seu filho morto ser enterrado numa sepultura, apenas com as tias, o avô e o pai de Henry Burdum a lamentar a sua morte. E Kitty agarrava-se à ausência de lágrimas de Charlie? Que situação!
— Quero falar contigo sobre a tua futura carreira — disse Charles.
Surpreendida, Tufts pestanejou.
— O que há para falar? Tenho oito estagiárias a cargo, em abril vêm mais cinco, por isso vou ficar com treze, e no próximo ano, se as estatísticas se mantiverem, terei mais dez novas estagiárias. Isto significa que até 1934, por aí, a Escola de Enfermagem de Corunda será muito relevante, eliminando por completo as profissionais não qualificadas. Deve-se à Depressão, com certeza — continuou ela —, juntamente com a falta de homens jovens… ainda estamos a sentir os efeitos da Grande Guerra, e os jovens desempregados não se podem casar. Como irmã tutora, vou ficar cada vez mais ocupada.
— É verdade, mas como é óbvio terá a ajuda de irmãs tutoras adjuntas eficientes e escolhidas por si — disse Charles, suavemente.
— Não devo precisar de ajuda alguma até o número de estagiárias ultrapassar as cinquenta — disse Tufts, de forma brusca.
— E a verdade por trás dessa afirmação é precisamente a razão pela qual tenciono defletir a sua carreira em certa medida.
Tufts ficou tensa, agarrando-se firmemente a uma palavra. «Defletir»?
— A tua ligação emocional ao Hospital de Corunda faz com que sejas ideal para o que eu quero fazer, mas também a tua personalidade, quem és e o que és, e o que te podes vir a tornar.
Os olhos de Tufts não o largaram um segundo.
— Isso parece-me mau.
— Não é. Não tenho qualquer intenção de prejudicar a tua carreira. Na verdade, quero melhorá-la. — O seu sofrimento privado desaparecera dos seus olhos e rosto, e a faceta sedutora de estrela de cinema surgiu de repente; Tufts conseguia sentir o encanto dele envolvê-la. — Apesar da Depressão, o futuro do Hospital de Corunda parece promissor — disse Charles, preparando o ataque. — Eu sei que os hospitais eram locais para onde as pessoas doentes iam enquanto Deus decidia se lhes queria tirar a vida ou deixá-las continuar a viver. Em termos de tratamento, não existia muito. Mas tudo isso está a mudar rapidamente. Nos dias que correm, conseguimos intervir e salvar muitos pacientes que há dez anos teriam morrido. Podemos radiografar ossos partidos, remover determinados órgãos doentes do abdómen… até mesmo as transfusões de sangue rotineiras de uma pessoa para outra estão a tornar-se cada vez mais viáveis! Eu antevejo um hospital moderno como um lugar onde as pessoas vão não só para lhes salvarem a vida, mas também para preservarem a sua saúde. E, Tufts, sei que pensas da mesma maneira.
— E não é o que toda a gente pensa? — perguntou ela. — Vá lá, Charlie, desembucha! Não precisas de me conquistar com discursos patrióticos, estás a pregar para alguém que já está convertido.
O seu rosto ficou ainda mais luminoso, os olhos intensos.
— Tufts, preciso de um diretor-adjunto e quero que sejas tu. Tu!
A cadeira caiu para trás quando Tufts se levantou de um pulo, chocada; Charles dirigiu-se a ela, endireitando-lhe a cadeira e ajudando-a a sentar-se.
— Charlie Burdum, és louco! Nem sequer sou suficientemente qualificada para ser enfermeira-chefe, quanto mais diretora-adjunta de outra coisa senão estagiárias e empregadas da limpeza — disse ela, com a boca seca e eloquente, porque a eloquência era a única forma de travar este homem que levava tudo à sua frente. — Estás completamente maluco!
— Não estou, não — disse ele, sentando-se novamente atrás da secretária. — Pensa nisso, por favor. Tu sabes tão bem como qualquer outro membro da nossa família que eu tenho ambições políticas. Tenciono candidatar-me ao parlamento federal como representante de Corunda, mas não até 1933 ou 1934, o que me dá tempo. A entrada no parlamento vai implicar que eu tenha de abdicar do hospital. Como qualquer outro homem engenhoso, conseguirei preservar a minha fortuna e os interesses comerciais se fizer tudo como deve ser, mas não posso ficar com os dois cargos.
— Há homens qualificados em todo o lado — disse ela, de forma severa. — Encontra um agora e dá-lhe formação.
— Eu estou a escolher um: tu. Neste momento, e penso que nos próximos anos, não estão estipuladas quaisquer qualificações académicas para o cargo de diretor de um hospital geral… ou de qualquer outro. A maior parte de nós tem o curso de medicina porque nos apercebemos desde cedo que as nossas capacidades não eram direcionadas para tratar de pessoas, mas sim para gerir os fundos, funcionamento e pessoal. Tens todas as capacidades, Tufts, além de que és, ao que dizem, uma excelente enfermeira que põe as mãos na massa. Vais tornar-te diretora-adjunta de imediato e garanto que te vou ensinar tudo o que sei. Acrescento que poderás continuar a desempenhar as tuas funções de irmã tutora, desde que contrates, pelo menos, uma assistente.
Tufts esbracejou, assumindo a derrota… como era possível argumentar com um cabeça-dura?
— Charlie, imploro-te, ouve-me! Antes de mais, eu sou uma mulher. À parte a enfermeira-chefe, que é, por tradição, uma mulher, as mulheres não administram qualquer tipo de organização, dos negócios à saúde. A oposição será imensa! O meu sexo será usado contra mim nos corredores do poder em Sydney e em Camberra, sendo os funcionários não eleitos os meus maiores e mais ferozes inimigos. Não tenho qualquer tipo de curso universitário… nada ! O governo estadual vai arranjar forma de me dispensar.
Charles ouvira o que ela dissera, mas claramente não assimilara nada.
— Tufts, confia em mim, estou bastante à frente de todos os envolvidos. Concordo que precises de qualificações terciárias, por isso falei com o meu bom amigo, o professor Sawley Hartford-Smythe da Faculdade de Ciências, para garantir que obténs essas qualificações. Vais frequentar um curso intensivo e condensado de matérias médico-científicas e obter a qualificação dois anos depois de começares a universidade em fevereiro. Começas em 1931 e terminas em novembro de 1933. Também vais ter um treino intensivo de contabilidade, o que te preparará melhor para este trabalho do que um curso de medicina, como bem sabes. Vou encher-te de trabalho, mas não será tão mau quanto parece, porque muito do que vais ter de aprender já estudaste antes. A parte da ciência vai correr sobre rodas! A parte da contabilidade será mais desconhecida e, consequentemente, mais difícil. Tu, Heather Scobie-Latimer, és o meu investimento no futuro.
Tufts parara de respirar; olhava fixamente para o seu cunhado, maravilhada. Será que ia resultar? E por que razão este homem muito bem qualificado e prático pensava que isto ia resultar? Apesar de o seu âmago estar ferido e a sangrar pela perda do filho, Charlie continuava em frente, sempre a defender Corunda e os seus interesses. Um curso universitário! Ela, uma mulher, poderia obter um bacharelato em ciências e um certificado de contabilidade! Assistir a conferências como executiva do hospital. As alegrias de ensinar enfermeiras eram muitas, mas Tufts tinha de admitir que o enorme desafio que Charlie lhe lançava agora era bastante mais apelativo.
— Charlie, pensaste mesmo muito bem sobre isto?
— Considerei todos os prós e todos os contras, Tufts, tens a minha palavra — disse ele. — Vá, aceita! — Charles riu à gargalhada com a imagem que lhe surgiu na cabeça. — Imagina seres a chefe de Liam!
— O velho desmancha-prazeres que ele é. Ele seria mais adequado para o cargo.
— Se fosse, tinha-lhe oferecido o emprego. Não, minha querida, Liam é demasiado velho vinte anos. Preciso de alguém jovem.
— Percebo. Liam não gosta de pacientes vivos, daí ter escolhido patologia. — Tufts engoliu em seco e estendeu a mão a Charles. — Muito bem, Charlie. Se estás tão decidido em ter uma mulher como diretora-adjunta, eu aceito. Não me vais abandonar tão cedo, pois não?
— Nunca te vou abandonar, Tufts.
Tufts percorreu apressadamente a rampa para o departamento de patologia e entrou de rompante no gabinete de Liam Finucan, encontrando-o submerso em enormes plantas que delineavam o novo departamento, um edifício com dois andares. O esquema que Charles concebera para o hospital dava mais importância aos serviços médicos auxiliares do que, por exemplo, à reconstrução das alas ou à construção de um novo bloco operatório, simplesmente porque a sua atual posição em Corunda era secundária, ainda que a sua relevância no diagnóstico e tratamento se estivesse a afirmar.
Assim, o novo departamento de radiologia foi construído primeiro; o seu chefe, cuidadosamente escolhido, o doutor Edison Malvie, fora recrutado antes de o primeiro tijolo ser colocado e o mais moderno equipamento de diagnóstico de radiologia ter sido comprado, juntamente com as últimas proteções contra o chumbo. As películas distorcidas e as leituras duvidosas eram coisas do passado; quando tudo estivesse montado e a funcionar, o doutor Malvie garantia que nem os neurocirurgiões mais augustos de Queens Square fariam exames radiológicos que o Hospital de Corunda não fizesse.
Tudo isto levou à maravilha de ter um edifício inteiro dedicado à patologia, dividido em várias especialidades. Se o doutor Malvie estava contente, a sua felicidade em nada se comparava à de Liam Finucan. A transfusão de sangue entre pacientes, tão perto de acontecer, abriria caminho para a hematologia como um segmento bastante significativo do serviço de patologia… na verdade, todos os segmentos deste serviço estavam a desenvolver-se e a tornar-se cada vez mais importantes. Daí o facto de Liam estudar de forma tão cuidadosa as plantas para o novo departamento de patologia e de não ter percebido o que era bastante óbvio: Tufts tinha novidades importantes. No entanto, ela esforçou-se por ouvir as brilhantes ideias do dia até ele terminar, intrigado pela reação bastante indiferente de Tufts.
Assim que ela lhe contou as novidades, Liam recostou-se na sua cadeira, as plantas esquecidas, e olhou intensamente para ela.
— O problema de Charlie — disse ele, em seguida — é que é incapaz de ficar quieto. O status quo é um conceito que ele desconhece.
— Isso significa que achas que devo recusar? — perguntou ela.
— Não! Não podes recusar de maneira nenhuma, a oportunidade é verdadeiramente revolucionária… aceitaste, espero?
— Sim, mas posso sempre mudar de ideias. Eu sou uma mulher!
— Ainda estás apaixonada pela ideia de uma carreira para a vida no hospital, Heather? Não tencionas casar? — perguntou ele.
— De certeza que não — disse Tufts, assertivamente. — Sempre que vejo Grace ou Kitty, volto a aperceber-me de que o casamento não é para mim. E sempre que vejo Edda, percebo que também não sou dada a ligações amorosas. Demasiado arriscadas, sobretudo para alguém que desempenhe o cargo de diretor.
— Então tens duas escolhas, Heather. Continuas como irmã tutora, o que te é familiar, ou atiras-te de cabeça para o mundo desconhecido da administração hospitalar. A tua mente é brilhante… demasiado brilhante para o cargo de irmã tutora, penso eu, mas eu sou eu e tu és tu, e não pretendo dar-te conselhos — disse Liam Finucan, de forma estranhamente formal.
Os pensamentos de Liam eram bastante diferentes. O que poderia ter acontecido, pensava ele, olhando para o seu doce rosto, se Gertie Newdigate não se tivesse intrometido e eu não tivesse uma mulher para deixar? Dezasseis meses de separação, mesmo na altura em que a semente estava a germinar. Oh, Heather, perdemos a nossa oportunidade!
Não eram estes os pensamentos que passavam pela cabeça de Tufts enquanto o fitava intensamente, embora parte dela compreendesse a inoportunidade da enfermeira-chefe Newdigate. No entanto, nunca tendo experimentado qualquer tipo de intimidade com Liam antes do longo afastamento devido ao divórcio, Tufts não sabia o que poderia ter acontecido se Eris Finucan nunca tivesse existido. Eles eram grandes amigos e também colegas de trabalho. Ao obter qualificações mais elevadas, Tufts aproximava-se cada vez mais do mundo de Liam. E isso era um pensamento maravilhoso, nada mais.
Bear Olsen encontrara uma rotina que o mantinha desencontrado da mulher e dos filhos o mais possível; depois de tentar comer duas torradas ao pequeno-almoço, punha o chapéu na cabeça, enfiava-se dentro do casaco e saía pela porta da frente, percorria o caminho da entrada, passava pelo portão que dava para a rua. Descia a ladeira de Trelawney Way até Wallace Road, atravessava-a e continuava a andar até chegar a George Street, a estrada principal que dividia a cidade de Corunda ao meio.
Embora a loja de Maboud se encontrasse ao virar da esquina, Bear passava por ela e percorria o longo caminho pela George Street até ao centro comercial, onde algumas montras tinham papel castanho colado, indicando que se encontravam permanentemente encerradas. Não interessava; Bear parava para espreitar para dentro de cada loja, aberta ao público ou fechada, percorrendo o lado norte até à última loja, voltando depois para cima para o lado sul. Por fim, chegava novamente à loja de Maboud, com os seus jornais, tiras de banda desenhada, revistas, pacotes de chá e latas de fermento, açúcar e manteiga e farinha, roupa de mulher, homem e criança, bules de chá e chaleiras e taças. Bashir Maboud, que gostava dele, tentava sempre puxar conversa, obtendo pouca ou nenhuma resposta de Bear; depois, acabava por regressar, subia a ladeira de Trelawney Way e entrava no quintal da frente de sua casa, tendo percorrido dezasseis quilómetros e desperdiçado grande parte do seu dia a fazê-lo.
Bear perdera bastante peso, embora não estivesse ainda emaciado; a comida não lhe interessava mais do que a sua mulher ou os seus filhos. Desde que chegava do seu passeio regular e demorado, sentava-se no jardim num velho banco de madeira que Jack Thurlow trouxera em dias mais felizes, o chapéu pousado nas ripas ao seu lado, o queixo caído sobre o peito. Sem perceber o que este comportamento significava, Grace perguntava-se, desde que ele se começara a sentar lá, por que razão Bear virara o banco ao contrário, de modo a ficar sentado de costas para a casa e para a família.
Depois de muitas tentativas vãs de cativar o interesse de Bear por alguma coisa (qualquer coisa!), Jack deixou de aparecer quando Bear estava em casa; era demasiado doloroso ver os acontecimentos externos a destruir um homem tão bom, decente e bondoso. Jack visitava a família quando Bear ia fazer as suas caminhadas.
A família vivia de quê? Com os dentes cerrados, Grace aceitava de Charles o mínimo essencial para a subsistência. Por mais que implorasse, Charles não a conseguia convencer a aceitar mais, e ela fazia questão de dizer que a ajuda que aceitava era meramente pelos seus filhos. Em troca, Grace insistia em fazer coisas para a despensa de Kitty, que um chef francês desprezaria, como biscoitos de aveia, manteiga de creme de limão e gelatina vermelha, verde e cor de laranja.
A mente de Bear não era um abismo profundo de autocomiseração; se fosse, pessoas como Grace, Edda, Jack e Charles teriam tentado curá-lo. No entanto, o que se passava dentro da mente de Bear não tinha lógica, nem propósito, nem sofrimento de qualquer tipo; era uma confusão de pensamentos indolentes, pequenos trechos aleatórios de músicas ou cançonetas, de tal maneira desgastados que nem mesmo Bear, o dono dos pensamentos, sabia o que significavam ou se eram relevantes para a sua existência. A sua autoimagem (até mesmo do seu corpo) estava prestes a desintegrar-se, por isso, quando Grace, tão assustada quanto irritada, lhe gritava coisas como «Tens de reagir!», ele não fazia a mínima ideia do que ela queria dizer ou por que razão estava tão perturbada. As montras das lojas com as tiras de papel castanho cruzadas umas sobre as outras eram para se olhar, da mesma maneira que Bashir Maboud era alguém que proferia palavras; esta última vaga e vestigial parte de si mesmo assemelhava-se a uma máquina que tem de ser usada e desgastada com o andar e olhar, andar e olhar… Quando se sentava de costas para a casa no seu banco de jardim, estava tão exausto que dos pensamentos não havia sequer rasto.
Charles Burdum e o médico de clínica geral dos Latimer, o doutor Dave Harper, vieram ver Bear várias vezes; cada visita resultava numa Grace desesperada por ouvir as suas opiniões.
— Receio que não haja nada que possamos fazer — confessou Charles a Grace. — No entanto, o seu estado não parece estar a piorar. Já passaram três semanas desde a nossa última visita e o estado de Bear permanece inalterado.
— Ele renegou as suas responsabilidades enquanto homem, marido e pai — disse Grace, amargurada.
— Renegar é apenas uma forma de dizer, Grace. Culpá-lo não vai melhorar a situação, sabes disso. Minha querida, és tão corajosa, tão leal! Ninguém te pode criticar, mesmo que às vezes te queixes de Bear. — Charles deu-lhe uma pancadinha no braço. — Força, Grace!
— Nós comemos pasta de peixe e geleia caseira, mas isso é bastante mais do que muitas famílias comem, e por isso te agradeço, Charlie — disse Grace, detestando como soava ligeiramente condescendente, mas compreendendo que não tinha o direito de o dizer. — Também sei que, se dependesse de ti, estaríamos a comer presunto e bife. Bem, não os posso aceitar. Sinto-me grata por pagares as nossas despesas no senhor Bashir Maboud, mas, se Bear estivesse bem, rejeitaria qualquer tipo de caridade. Eu não sou uma sanguessuga.
— Admiro a tua independência — disse Charles com toda a honestidade.
— Cretino arrogante — murmurou Grace para si mesma. — O mundo inteiro sofre, mas Charles Burdum não, és melhor que toda a gente!
Grace reproduziu este sentimento a Edda, que a repreendeu severamente, relembrando-a de que o filho dele nascera morto.
— Os teus não podem comer sanduíches com presunto, mas são saudáveis como cavalos alimentados com a melhor mistura de cereais, por isso, cala-te, Grace.
Edda estava soberba, pensou a profundamente infeliz e frustrada Grace. Tinham agora vinte e cinco anos, outrora uma idade considerada muito para lá do auge da beleza feminina… mas isso era um pensamento retrógrado. A roupa mais comprida e com formas mais definidas do final dos anos de 1930 assentava muito bem a Edda, cuja altura e graciosidade a favoreciam: ela era tão elegante! O vermelho sempre fora a sua cor, mesmo o difícil vermelho-ferrugem que ela usava hoje num vestido de crepe fino e justo. Não usava combinação, no entanto conseguia não parecer uma rameira. Estava a deixar crescer o cabelo preto e grosso… porque seria?
— Por baixo daquela atitude, Charlie é boa pessoa — disse ela a Grace, alisando uma das pernas envolta em seda para se certificar de que a costura da meia estava direita. — Ele tem boas intenções, o facto é que não consegue superar a sua maneira de ser pommy. Aos nossos olhos, ele é condescendente, mas não tem a noção de que o faz. Olha o que ele está a fazer pela Tufts… tens de estar feliz com isso, e é tudo obra dele.
— Sim, sim, estou muito feliz pela Tufts!
O saco de rede de Edda bateu ruidosamente na mesa.
— Sabes perfeitamente que não estou a ser condescendente contigo, irmã, por isso usa o que está aí dentro sem ficares ofendida. Algumas fatias de presunto e de carnes frias, costeletas de borrego e carne enlatada. Tens de comer uma carne melhor que salsichas de vez em quando.
Grace corou, mas controlou o seu temperamento.
— Obrigada, minha querida, que simpático da tua parte. — Enfiou a mão dentro do saco e colocou a carne na caixa de gelo. — Vejam só, uma mulher como diretora-adjunta!
— Poderias ser tu se tivesses continuado a tua carreira de enfermagem — disse Edda, um pouco cruel. — Do sexo errado ou não, a nossa Tufts vai sair-se muito bem. Charlie vai ajudá-la a obter o curso de ciências e as qualificações de contabilidade para que os Senhores do Universo não a possam criticar ao nível académico. — Edda aclarou a garganta. — E boa sorte ao homem que tentar rebaixá-la! Acabará a cantar em soprano.
Grace riu-se.
— Tens razão. Mas não gostavas de ter ficado com o cargo de direção, Edda?
— Não, a não ser que fosse em St. Bart ou Guy. Eu quero viajar.
— Isso continuas tu a dizer, mas quando?
— Quando estiver preparada para o fazer.
A 25 de outubro de 1930, o estado da Nova Gales do Sul foi às urnas para eleger o novo governo. Os seus habitantes votaram em Jack Lang; a Nova Gales do Sul tinha agora um governo trabalhista, cujo líder acreditava implicitamente que o programa drástico de contenção absoluta de despesas de Sir Otto Niemeyer estava errado, errado, errado. O que Jack Lang queria era aumentar a despesa pública e devolver ao trabalho o maior número de homens possível. A ponte da baía de Sydney e o sistema de caminhos de ferro subterrâneo estavam novamente operacionais, e Lang era categoricamente contra pagar os juros dos empréstimos da City de Londres enquanto tantos australianos sofriam por causa dessas taxas de juro.
Até a rabugenta Grace se conseguia abstrair dos seus eternos problemas quando se agarrava aos jornais que Bashir Maboud lhe guardava todos os dias, e falava, como se tornara seu hábito, com um Bear sem reação, sentado no banco depois do seu passeio.
— Jack Lang tem de estar certo — disse ela, agitando no ar um jornal de grande formato, por altura do Natal de 1930. — Olha para o estado de Corunda! — exclamou ela. — Quase toda a gente tem trabalho, o que quer dizer que a Depressão não fez os estragos aqui que fez em todo o lado. Graças à construção do novo hospital! Meu querido Bear, o teu azar foi teres uma carreira numa das áreas que foi afetada primeiro e com mais violência. E, depois disso, foste demasiado orgulhoso para aceitar a ajuda financeira do Estado, porque não conseguias fazer o trabalho que havia disponível. Bem, há quem o aceite.
Bear não deu qualquer tipo de resposta, mas já era habitual que não desse; ou ouvisse ou se apercebesse de que ela se sentava ao seu lado com os jornais a falar sem parar, a falar e a falar e a falar…
Quando terminou as duas primeiras páginas do Corunda Post, um jornal com enormes pretensões, virou para a página três, muito mais interessante.
— Olha para isto! A taxa de suicídio em Corunda está a aumentar — disse ela, a sua voz ainda descontraída e animada. — Porque é que as pessoas se enforcam? Deve ser uma morte terrível, pendurado no final de uma corda a asfixiar lentamente, que é o que acontece quando as pessoas se enforcam a si mesmas. Quando as autoridades legais enforcam um criminoso, diz aqui o jornalista do Post, ele ou ela caem num alçapão e o puxão repentino, que ocorre quando ele ou ela param de cair, parte literalmente o pescoço. Não, não escolheria enforcar-me e espero nunca cometer um crime que faça com que as autoridades me enforquem…
A sua voz tornou-se um murmúrio, depois aumentou de volume espontaneamente.
— As mulheres preferem colocar a cabeça dentro do fogão, mas os homens não. Porque será? O gás tem um cheiro horrível e a morte também é por asfixia, não é? Ingerir veneno não é uma escolha muito popular, presumo que seja porque a pessoa faz uma porcaria tão grande ao morrer que não é justo para quem cá fica ter de limpar tudo. Não, acaba sempre por voltar ao mesmo: os homens enforcam-se e as mulheres enfiam a cabeça dentro do forno. — Grace levantou-se, rindo alto. — Interessante, senão macabro! Também está na hora de começar a fazer o jantar. Salsichas outra vez, lamento, mas vou fazer um caril para variar. Edda trouxe-me um pacote de passas.
Ocupada na cozinha a cortar algumas das preciosas passas em pedacinhos finos para dar um travo doce ao caril (ainda que muito subtil, visto que as crianças não gostavam de comida demasiado picante), Grace ferveu as salsichas para lhes tirar o sal antes de as cortar às rodelas grossas e as colocar numa panela. Misturou banha de porco derretida, farinha e pó de caril e fez uma pasta, adicionou-lhe água até se tornar um molho pouco espesso, verteu-o sobre as salsichas e juntou as passas aos bocados. Deixou ferver em lume brando… Já está! Brian e John iam adorar, e talvez até Bear comesse um pouco, sobretudo se fritasse fatias de pão para servir de base para colocar o caril em cima. O arroz era algo que sabia muito mal se ficasse salgado, mas o pão velho, cortado aos bocados e frito de ambos os lados, caía sempre bem. A única maneira de o arroz ficar comestível era como sobremesa.
— Jantar, meninos! — gritou ela pela porta das traseiras para os rapazes.
Brian e John vieram logo, com Brian a arrastar o irmão mais novo, os rostos radiantes porque estavam sempre famintos e adoravam tudo o que a mãe cozinhava. Até adoravam sanduíches de pasta de peixe ou de Marmite, abençoados! Oh, que saudades dos dias em que podia usar manteiga em vez de banha de porco e caldo em vez de água!
— Bear! Jantar! — gritou ela por uma janela para o alpendre das plantas.
Bear encontrava-se sentado, com as costas muito direitas, no seu banco de jardim, o casaco caído no chão… Bear não costumava ser desarrumado, mesmo quando estava mais deprimido. Tinha as mangas da camisa arregaçadas e as mãos, aparentemente, pousadas no colo, pois Grace só lhe conseguia ver os cotovelos… pirâmides aguçadas e ossudas cobertas de pele cheia de calosidades.
— Bear! Jantar! — gritou ela novamente.
Quando ele não se mexeu, a boca de Grace ficou tensa; então, ele estava prestes a embarcar numa nova fase de depressão, não era? Será que não percebia o efeito que isso tinha nos rapazes? Saiu de casa pela porta das traseiras e ao aproximar-se dele viu-o de lado, as mãos caídas sobre o colo, onde uma enorme mancha vermelho-escuro surgira, passara através da lã das calças e do algodão da camisa e, em seguida, impregnado, pingara por entre as suas pernas para o chão castanho-avermelhado. Tinha a navalha colada aos dedos com o sangue gelatinoso e o seu rosto estava tranquilo, os olhos fechados a três quartos e a boca a esboçar um ligeiro sorriso.
Grace não gritou. Primeiro, aproximou-se suficientemente perto para ver os golpes profundos nos seus antebraços, do lado de dentro, que começavam nos pulsos e subiam pelo braço acima muitos centímetros. Contudo, apesar da sua minúcia, falhara as artérias, pelo menos enquanto havia sangue suficiente nelas para esguichar; o seu sangramento foi lento, constante e venoso, e deve ter demorado o tempo todo que Grace esteve a fazer o caril para morrer.
Sem precisar de saber mais relativamente ao que se passara, Grace virou-se para voltar para casa. No interior, cumpriu a rotina de dar de jantar aos filhos as salsichas em caril. Só quando eles estavam a comer é que ela se dirigiu ao telefone e ligou para o hospital.
— Preciso de falar com o doutor Charles Burdum, e não se atreva a dizer-me que ele não está.
— Sim? — perguntou a voz dele impaciente.
— É a Grace, Charlie. Envia uma ambulância para minha casa. Bear cortou os pulsos.
— Ele está vivo?
— Não. Mas manda alguém por causa de Brian e de John.
— Consegues aguentar-te enquanto a ajuda vai a caminho?
— Que pergunta estúpida! Se eu não fosse capaz de aguentar, estaria outra pessoa a falar contigo agora. Não fiques nervoso, Charlie. Se Liam estiver aí, manda-o cá… ele é médico-legista e foi suicídio.
Grace desligou o telefone, deixando Charles preocupado.
Pela primeira vez, as cortinas não estavam furtivamente puxadas para trás nas casas de Trelawney Way; as pessoas encontravam-se fora das suas casas a ver a ambulância chegar sem grande alarido e entrar no quintal dos Olsen. Charles seguia-a no seu Packard com Edda e Tufts. Liam vinha na ambulância.
Tufts tomou conta das crianças, preparando-as para a cama. Nos velhos tempos, quem poderia imaginar que Grace conseguia ser tão sensível, tão previdente? Os meninos não estavam perturbados, ela comportara-se de forma tão normal que eles não se aperceberam de nada, nem da ambulância, nem dos vizinhos curiosos, enquanto tomavam banho e mergulhavam na cama dupla que partilhavam.
Liam Finucan e os dois homens da ambulância cuidaram de Bear Olsen com uma imensa reverência, de tal forma que um deles chegou mesmo ao ponto de limpar o sangue do relvado e do banco com uma mangueira para que não coubesse a Grace remover o sangue do próprio marido; a ambulância foi embora tão silenciosamente como chegara. Apenas cordas vocais atarefadas na linha telefónica partilhada contavam várias versões confusas do que acontecera ao infeliz e inofensivo Bear Olsen.
Charles e Edda ficaram a cuidar de Grace, cujo extraordinário surto de prático bom senso começou a fraquejar pouco depois de a ambulância ter partido e de conseguir ouvir os seus meninos na cama a conversar com Tufts. O pior já passara.
— O pior já passou — disse ela.
— Portaste-te maravilhosamente bem — disse Edda, segurando as mãos de Grace. — Estou tão orgulhosa de ti que era capaz de rebentar.
— Fiquei fora de mim — disse Grace, o rosto tenso, pálido, assustado. — Como podia deixar os meus filhos verem o pai naquele estado? Agora não têm pai, mas, pelo menos, também não vão ter pesadelos. Ter filhos muda tudo, Edda. — Os seus olhos encheram-se de lágrimas. — Oh, e íamos comer um jantar tão saboroso, para variar! Salsichas em caril, com as tuas passas a dar sabor. Os rapazes limparam os pratos, por isso dei-lhes a parte de Bear e eles comeram tudo. Isto significa que não estou a acompanhar o crescimento e o apetite deles. Vou ter de continuar a cozinhar a parte de Bear. — Uma gargalhada sinistra soou. — Ele não vai precisar de comida para onde foi!
— Houve algum tipo de aviso? — perguntou Charles.
— Nenhum, embora eu lhe tenha lido algumas partes do artigo sobre os suicídios do Post de hoje. Mas ele nem ouve o que eu digo, honestamente! — chorou ela, cada lenço oferecido era um lenço usado. — Fui eu que lhe dei a ideia, Edda? Estava apenas a tentar que ele se interessasse por alguma coisa, qualquer coisa! Eu leio-lhe os jornais todos os dias, é verdade!
— Não te deves culpar, Grace — disse Charles, perentório.
Grace virou os olhos muito abertos para ele, profundamente espantados.
— Eu não me culpo, Charlie. Porque o faria? Dar-lhe a ideia não é assumir que tenho culpa. Isso é como dizer que a única forma de não ser picado por uma abelha é não usar perfume. Sinceramente, vocês, pommies, são gente estranha! Tu analisas demasiado as coisas. Não, o único culpado aqui é o Bear. Como eu o amo! Mesmo quando o seu orgulho estúpido me deu vontade de lhe cortar a garganta, continuei a amá-lo. Oh, as crianças! Preciso que o papá me ajude com elas.
— Amanhã, Grace, hoje não — disse Charles. — Graças à forma magnífica como lidaste com a situação, as crianças não vão sofrer repercussões do tipo que poderiam ter sofrido e ainda estão muito longe da idade escolar para serem atormentadas por outras crianças.
— As coisas em que tu pensas! — exclamou Edda. — O mais importante, Grace, é que eles vão sofrer de uma forma natural por um pai que já não está com eles. Foste tu que fizeste isso pelos teus meninos, mais ninguém.
— Mas como é que eu vou viver? — perguntou Grace. — Vou ter de depender da caridade alheia.
Isto quebrou-a mais do que qualquer outra coisa até àquele momento; Grace inclinou-se para a frente e desatou a chorar desoladamente.
Mal conheço a minha gémea, pensou Edda: a mais bizarra combinação de pragmatismo inflexível e falta de previdência! Enquanto eu existi isolada da realidade, a minha irmã lidou com uma realidade cada vez mais dura. Quando a vida era fácil, Grace era uma rapariga egoísta, desmiolada e mimada. Desde que os tempos se tornaram difíceis, ela tornou-se uma autêntica heroína, ao mesmo nível de outras mulheres. As suas Graces alternam entre si, como dois inimigos fechados na mesma cela. Mas esta nova e forte Grace ganhou.
Charles abriu a sua mala preta, retirou uma ampola e o equipamento hipodérmico e enfiou a agulha no braço de Grace antes que ela pudesse objetar.
— O que mais precisas agora, Grace, é de um sono descansado, sem sonhos, e já me certifiquei de que é o que vais ter. Edda leva-a para a cama.
— Isso foi muito sensato, Charlie — disse Edda, quando regressou. — Tufts está a ler uma história aos miúdos, disse-me para começarmos sem ela.
— Bem, a única coisa que temos de discutir é a Grace — disse Charles com um suspiro que se transformou em tensão. — Tenho de contar a Kitty… ela vai ficar doente! E tenho de dizer ao teu pai.
— Não posso impedir que contes a Kitty, mas eu falo com o meu pai — disse Edda, levantando o lábio como que a rosnar. — Nem devias contar a Kitty sozinho. Ela vai precisar de Tufts.
Mesmo nesta altura, ele conseguia sentir raiva; Charles respondeu-lhe de forma furiosa.
— Raios partam as irmãs! A Kitty não precisa de uma irmã presente! Ela é minha esposa, uma mulher madura, não precisa das irmãs!
A porta das traseiras bateu e Jack Thurlow entrou.
— O que eu ouvi é verdade? — perguntou. — As linhas telefónicas partilhadas não falam de outra coisa.
Poupada por alguém de fora a uma enorme discussão com aquele ditadorzinho egoísta do Charles Burdum!, pensou Edda, fazendo um bule de chá, enquanto Charles explicava o que acontecera, realçando a sua própria importância na história, é claro.