Agridoce
PARTE QUATRO: A Catástrofe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Simples donas de casa, como Grace Olsen, não tinham bem a certeza do que se passava para julgar a agitação financeira, e de entre as irmãs Latimer ela era a que se encontrava mais longe de uma opinião informada. Na sua casa elegantemente mobilada em Trelawney Way, Grace começava a adquirir um certo estatuto social, graças a uma combinação de qualidades não muito usuais entre os habitantes de Trelawney: tinha conhecimentos de saúde feminina e infantil, sabia escrever cartas e preencher formulários de todo o tipo, tinha algumas noções sobre assembleias e serviços públicos, e não era snobe.
No final de dezembro de 1929, Bear começou a limitar rigorosamente os gastos de Grace, de formas a que ela não podia escapar. Com o risco de parecer miserável, Bear disse a Grace que tinham de poupar para o futuro e que, para isso, iria cortar a mensalidade que lhe dava para governar a casa. Nada de roupa nova, nada de cortinas novas, nada de cortes caros de carne, e deveria comprar roupa alguns tamanhos acima para Brian… John podia usá-la quando já não lhe servisse. Apanhada de surpresa, Grace respondeu com resignação.
O que Bear não teve coragem para lhe contar foi o corte drástico que sofrera no seu ordenado. As pessoas já não compravam os produtos da Perkins, à exceção daqueles sem os quais não podiam viver, tais como linimentos, pomadas e preparados para preservar a carne.
Metade do pessoal de vendas fora dispensado, o que significava para Bear um circuito tão amplo que demorava várias semanas a percorrê-lo. A mensalidade que recebia da Perkins para fazer face às despesas fora reduzida para um mero nível de sobrevivência, por isso dormia no seu carro durante seis noites, e uma em sete noites num hotel para tomar banho e lavar a sua roupa.
Algo nos seus olhos silenciava os protestos de Grace. Pareciam atormentados, até um pouco exaustos, e a alegria que sempre espreitava neles desaparecera. Era evidente que eram tempos difíceis para ele, Grace apenas não sabia quanto e menosprezava o seu sofrimento.
Assim, Grace voltou-se para Jack Thurlow, tão constante como o sol.
— Sabes o que aconteceu a Bear? — perguntou-lhe ela.
A vasta experiência com Grace aconselhava-o a manter a preocupação para si mesmo e não a deixar ver qualquer indício dela. Jack parecia ligeiramente curioso.
— Não sei bem o que queres dizer, Grace.
Grace encolheu os ombros.
— Ele mudou. Ou será que quero dizer que ele perdeu o sentido de humor? Bear passava a vida a rir, agora nunca o faz. Ele diz que a situação está difícil… bem, deve mesmo estar porque ele cortou a minha mensalidade para governar a casa… mas não fala comigo sobre as coisas.
— Devias ver isso como um elogio — respondeu ele com um sorriso descontraído. — A empresa de Bear está a passar por um aperto, é tão simples quanto isso.
— Mas ele disse-me para comprar a roupa de Brian alguns tamanhos acima… será que ele quer que o nosso filho pareça do West End, com as calças reviradas na cintura e as mangas dos casacos arregaçadas até às axilas? Que eu remende os buracos das meias?
— Eu fui criado assim e os meus pais tinham dinheiro. A aparência não é tudo, Grace — disse Jack de forma muito direta. — Brian é um menino tão bonito. O que quer que vista não pode mudar isso, e sabes bem que Brian não se vai importar de andar com roupa arregaçada.
Frustrada, Grace não fez mais perguntas, mas disse a Edda quando esta a visitou:
— Não faz sentido nenhum poupar desta maneira. Brian parece um miúdo do West End… é escandaloso! O pequeno John está sempre vestido com roupa em segunda mão! O que é que as pessoas vão dizer?
— Em Trelawney, as pessoas vão dizer que os teus filhos são iguais aos filhos das outras pessoas, penso eu. Pareces a Maude a falar — disse Edda, sem qualquer compaixão. — Podia ser bem pior, não consegues ver isso? Bear tem trabalho até a Perkins deixar de existir, mas ele recebe comissões além do ordenado base, e os seus rendimentos baixaram. — Edda respirou fundo. — Faz chá, Grace. Trouxe alguns biscoitos de aveia e coco do presbitério.
— E isso não é um sinal dos tempos que vivemos? — Grace suspirou. — Nada de bolinhos com compota e natas, só biscoitos de aveia. — Grace ficou mais animada. — São bons para mergulhar no chá, não se desfazem facilmente.
— Porque achas que os escolhi? Brian e John também podem mergulhar os biscoitos connosco.
Depois de terminarem o chá e os biscoitos e de terem lavado dois rostos branquinhos como a neve, Grace voltou ao seu queixume: a falta de dinheiro.
— Quanto tempo achas que vai demorar até Bear voltar a receber bem? — perguntou ela, enquanto polia a mesa da cozinha.
— Digo-te isto, Grace, és capaz de ser a mulher mais choramingas do mundo, mas consegues manter a casa imaculada sem qualquer ajuda, o que é mais do que Maude é capaz de fazer.
— Ter a minha empregada de volta era o paraíso, mas até eu sou capaz de perceber que esses dias acabaram! — respondeu Grace, mordaz. Ela nunca gostara que lhe chamassem choramingas. — Por quanto tempo vai ser assim tão difícil?
— Charlie Burdum diz que vão ser anos.
— Huh! Ele ainda nada em dinheiro!
— É verdade, mas também emprega muita gente, e Kitty também. Tu sabes o número de mulheres abandonadas no West End, Grace. Todos se esquecem das mulheres… como se não existíssemos ou se não tivéssemos dado à luz os homens. Em todo este país mergulhado nas trevas, existe apenas uma pensão para mulheres abaixo dos sessenta anos: a pensão de viuvez do governo da Nova Gales do Sul, e é uma autêntica miséria. Todos os outros governos ridicularizam a Nova Gales do Sul por conceder a pensão. É o Estado que mais dinheiro deve a Londres, mas, se tivesse recebido uma parte justa do fundo monetário federal, não teria precisado de pedir tanto emprestado. Vitória e a Austrália Ocidental recebem sempre mais do que deviam. — Edda inclinou-se para a frente e abanou a irmã furiosamente. — Tira esse ar apático do teu rosto! Isto é importante! Pode ser que se torne pessoalmente importante para ti, um dia, por isso ouve! Não te desligues!
A frustração de Edda face à apatia e burrice de Grace não tinha evaporado completamente quando se encontrou com Jack Thurlow para passear a cavalo junto ao rio, embora tenha acabado por pôr o assunto de lado quando entrou no seu quarto em Corundoobar, desfrutando da relação sexual com ele. Após uma longa relação amorosa, o corpo dele era-lhe tão familiar como o seu, mas ainda continuava a deliciá-la. Da mesma forma, o dela parecia deliciá-lo.
— Porque continuas a voltar para mim? — perguntou ela.
— Oh, isso é fácil — disse ele, saboreando o seu cigarro — Tu és uma mulher difícil de agradar, extremamente desejável, que permite a existência de relações sexuais sem exigir que estas sejam legitimadas pelo casamento. É perfeito ter uma amante requintada e respeitável. A maior parte dos homens tem de se contentar com uma prostituta, e nem que tivesses cem amantes, Edda, alguma vez serias uma prostituta.
— Porquê? — perguntou ela, espreguiçando o corpo nu.
— A prostituição é um estado de espírito, em que a mulher espera ser paga pelos seus serviços. O dinheiro nem sempre é a moeda de troca, pode ser tudo, desde poder a atos, mas há sempre um contrato que se tem de assinar. Não é o ato que faz de uma mulher uma prostituta, é simplesmente a sua atitude mental. Os homens também se prostituem, mas o sexo não costuma ser a sua arma.
— Isso é algo muito estranho e perspicaz de se dizer, vindo de um mero criador de gado. Mas são as tuas qualidades que me atraem, admito isso com todo o gosto. A tua mente não é aborrecida. És exímio a plantar batatas, mas as batatas não têm lugar nos teus pensamentos. — Edda juntou as mãos por cima da cabeça sobre a almofada. — Então, quer dizer que eu sou desejável?
— Como um buffet para um comilão.
— Um pouco em falta no que diz respeito ao peito — respondeu ela com um sorriso endiabrado.
— Mais do que cabe na boca é um desperdício.
— Vem massajar-me as costas, seu preguiçoso.
Adoravam partilhar banhos de chuveiro, após os quais a comichosa Edda mudava de roupa para se livrar do cheiro a cavalo e sentava-se com ele na velha cozinha de estilo colonial a beber uma garrafa de cerveja fresca da sua caixa de gelo. Como criador de carneiros, Jack fazia o seu próprio gelo.
— Charles Burdum é o herói da cidade — disse ele.
— O meu estimado cunhado. Ele é um herói por direito próprio, acho eu. Roma e Pavia não foram feitas num dia e o hospital também não o será, mas ele começou-o e não vai parar até estar pronto. O dinheiro está lá. — Edda olhou para Jack com afeto… porque não com amor? — Graças a ti, até os tijolos serão locais. Ninguém sabia que existia um depósito de argila em Corbi até tu o mencionares.
— O velho Tom Burdum sabia. Solo infértil, razão pela qual nunca se expandiu na direção de Corbi. Ninguém queria essa terra.
— Para onde achas que Charlie vai, Jack?
— Hum?
— Corunda nunca o vai satisfazer. Existe um lado político em todas as suas boas ações, não reparaste? Quando descobriu que a maior parte dos habitantes do West End não tinha transporte para chegar a Corbi e fazer tijolos, foi a Sydney e comprou um autocarro velho de dois andares. Os mecânicos locais não se importam de fazer a manutenção do autocarro de graça, tirando o custo das peças… ele é astuto, o Charlie. Tinha dinheiro mais que suficiente para comprar um autocarro novo e contratar um mecânico. No entanto, se estivesse no parlamento, todo e qualquer habitante do West End votaria nele, independentemente do seu partido — disse Edda, sonhadora. — Ele deu-lhes uma nova indústria e um meio de transporte até ela. O custo, no total? Cem libras.
— Não achas que isso é um juízo de valor demasiado duro?
Edda fez um som bastante rude.
— Olha para a situação e para ele, Jack, olha! Sydney está a rebentar com motins entre a polícia e os desempregados, os idiotas federais passam a batata quente aos Estados e tudo o que fazem pelo seu povo é anunciar que um nobre qualquer do Banco de Inglaterra vem aconselhar a nação sobre as suas estratégias económicas… Tretas! A Austrália Ocidental está a tentar separar-se outra vez… Quem me dera que o fizessem, não podem fazer uma confusão maior do que Camberra já fez. A nossa libra australiana está a desvalorizar, e agora Jimmy Scullin teve de despedir o seu tesoureiro porque dizem que o homem é um autêntico larápio! Pergunto-te, isto é governo? Para mim, é patético.
— Adoro observar-te quando estás indignada.
Dando uma gargalhada, Jack pegou na mão dela e beijou-a.
— Tens razão em relação à política, mas onde exatamente é que Charles Burdum se encaixa no meio disto tudo?
— Não sejas burro, Jack. Já te disse. Ele tem grandes aspirações políticas, penso que direcionadas para o parlamento federal em Camberra. O Muito Honorável Charles Burdum, Primeiro-Ministro da Austrália. O que não consigo antecipar é a que partido se vai associar. Pela sua história e fortuna, é conservador, mas tem uma afinidade espiritual com o homem trabalhador, o que sugere a ala direita do Partido Trabalhista.
— Ele não pode ser primeiro-ministro! — exclamou Jack, aterrado. — Ele é um pommy, não um verdadeiro aussie.
Os olhos de Edda troçavam dele.
— Isso não está escrito na Constituição, embora devesse estar, como no caso da América. O facto de ser pommy não vai travar um político ambicioso.
— Tens razão. Não vão fazer caso disso, se calhar até escondem esse facto.
Quando Bear Olsen regressou a casa no final de julho de 1930, chegou no comboio de Sydney num compartimento de segunda classe, depois andou cinco quilómetros da estação até à sua casa bege e verde em Trelawney Way, carregando a sua mala de viagem como se pesasse uma tonelada. Tinha o chapéu puxado para baixo até às sobrancelhas, porque os olhos que a aba escondia estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. A viagem de cinco horas neste comboio que parava em todas as estações tinha sido uma bênção, pois pudera deixar correr livremente as lágrimas sem que ninguém reparasse. O que interessava se alguém o visse? Não que muitos o tivessem visto; até um bilhete de segunda classe num comboio era demasiado caro para a maioria dos homens e mulheres nos dias que corriam. Também era demasiado dispendioso para ele, mas sabia que tinha de chegar a casa o mais depressa possível assim que começasse o caminho nessa direção; vaguear pelas estradas secundárias como um vagabundo à procura de emprego era o seu futuro.
Os seus filhos encontravam-se no quintal das traseiras, conseguia ouvir os seus gritos e conversa animada enquanto subia os degraus do alpendre e receava o inevitável encontro. Grace encontrava-se no alpendre envidraçado onde estavam as plantas, conseguia ouvi-la a cantarolar… como ela adorava aquele paraíso verdejante!
— Grace? — chamou ele da sala de estar, pousando a mala de viagem.
— Bear! Oh, Bear! — gritou ela, correndo para ele para o abraçar e beijar-lhe o queixo com a barba por fazer. — Não ouvi o carro… estacionaste na rua?
— Nada de carro — conseguiu ele dizer.
Tirou o chapéu. Grace olhou para o rosto do marido e começou a tremer.
— Oh, Bear, o que aconteceu?
— A Perkins faliu — disse ele, apaticamente. — Sem emprego, sem carro, sem indemnização, apenas uma carta de recomendação brilhante que diz que sou o melhor vendedor da Austrália. No entanto, nesta altura tão terrível, não tive coragem de vender às pessoas produtos sem os quais podem viver. Não que o senhor Perkins me tenha pedido para o fazer. No final, tudo se desmoronou.
Com um braço em volta da cintura dele, Grace conduziu-o até ao paraíso verdejante e sentou-o na cadeira de verga, puxou outra cadeira para perto dele e segurou-lhe as mãos nas suas.
— Vais arranjar outro trabalho — disse ela, tentando sossegar o olhar trágico, medir a quantidade de lágrimas que já devia ter derramado.
— Não, Grace, não vou — disse ele. — Passei dez dias a percorrer a cidade de Sydney com a minha brilhante carta de recomendação na mão, mas não há empregos na área das vendas. Nada de nada. As pessoas deixaram de comprar. Oh, que choque, Grace! Há homens desempregados por todo o lado, filas com milhares de pessoas a candidatarem-se a um único trabalho, os polícias andam armados com revólveres nos locais onde os motins são constantes, as lojas estão todas abandonadas e entaipadas, casa vazia após casa vazia, emparedadas para manter ocupantes ilegais longe… Se não fosse o Exército da Salvação e outras organizações religiosas a distribuir comida, desconfio que Sydney seria uma cidade de gente morta. Pelo menos, os sítios que eu vi. Algumas partes da cidade estão melhor, mas os desempregados não vão para lá porque não existem fábricas ou oficinas. — Bear começou novamente a chorar. — Raios, não queria chorar! Pensei que já não tivesse mais lágrimas para chorar.
Grace aproximou-se da cadeira dele e encostou a cabeça de Bear ao seu peito, espantada por não verter uma lágrima e por ser capaz de manter a compostura.
— Tens de te animar, Bear. Estás em casa! — disse ela, colocando toda a sua emoção naquela maravilhosa palavrinha. — Tens a tua família aqui, contactos úteis… Charlie vai arranjar-te algo para fazer, ele tem dado muitos empregos por aqui.
— Não a vendedores — respondeu Bear.
Grace retirou o lenço do bolso e deu-o a Bear.
— Não tem de ser um trabalho em vendas, meu querido. Não imediatamente, mas quando der. Até a situação melhorar, poderá até ser… oh, nem consigo adivinhar!
— Grace, sabes bem que os únicos empregos que existem são trabalhos duros. Eu sou vendedor desde miúdo, ainda nem tinha barba, por isso tudo o que sei fazer é falar, andar e conduzir. Não sou capaz de levantar sacos pesados de trigo ou trabalhar com uma picareta e uma pá, nem que a minha vida dependesse disso. — Bear levantou-se, novamente sem lágrimas. — Além disso, não posso usar a minha relação com um homem importante para obter um emprego que milhares de pessoas andam a lutar para conseguir. Por isso, não, não vou pedir emprego a Charles Burdum… ou a Jack Thurlow ou ao teu pai.
Chocada, Grace afastou-se para olhar fixamente para ele e viu que a sua boca, geralmente tão sorridente, tinha os cantos revirados para baixo de forma implacável, as faces emaciadas, um pescoço fininho por baixo do queixo… quando teria comido pela última vez?
— Vamos para a cozinha, vou fazer-te o almoço — disse ela, levantando-o. — Os rapazes já comeram, por isso não lhes vou dizer que chegaste até teres conseguido comer descansado, tomar um banho quente e mudar de roupa. Acredita — continuou ela, enquanto andavam —, vais sentir-te como novo.
Na cozinha, Grace sentou-o em frente da bancada e começou a cortar o pão.
— Vês? Nada de presunto ou salmão de lata, querido! — Grace riu-se, um som tão alegre. — Nestes últimos tempos, tenho sido eu a fazer a minha própria compota, pasta de peixe e Marmite, e guardei a caixa de gelo na garagem. A Edda deu-me a pequena que tinha no quarto… mantém tudo de que preciso gelado com um bloco de gelo mais pequeno.
Mas porque será que isso o fez chorar novamente? Determinada a ignorá-lo, acabou de fazer as sanduíches de pasta de peixe para Bear e, enquanto este as comia, acompanhadas por um bule inteiro de chá, Grace preparou-lhe um banho de água quente. Por fim, alimentado, de banho tomado, barbeado e vestido, estava em condições de ver os filhos. Oh, Bear, não chores à frente deles também, rezou Grace.
Bear não o fez. Visto que tinha percorrido mais de seiscentos mil quilómetros quadrados a vender, esta fora uma ausência bastante prolongada, por isso ficou chocado quando viu os filhos. Brian tinha agora dois anos e quatro meses, com pernas compridas e altas, elegante como ambos os pais; o seu cabelo era muito louro, mas menos que o de John. E John era como Brian, com quase catorze meses… a andar e a falar, muito vivaço, curioso e adorável. De algum lado, Bear conseguiu reunir forças para se comportar ao pé deles como sempre fizera, atirou-os de um lado para o outro, riu e brincou com eles a fingir que lhes batia… chegou mesmo a tirar da sua mala de viagem um puzzle para Brian e um pião para John. Podia estar falido, mas como podia um pai regressar a casa sem um presente para os filhos?
— Onde é que eu me registo como desempregado em Corunda? — perguntou a Grace, depois de os rapazes acalmarem um pouco a brincar com os seus presentes.
— É tudo para trabalhos duros — disse ela. — Vão dar-te um subsídio para trabalhares para o governo, e este só tem trabalhos duros. Os empregos para trabalhadores qualificados simplesmente não existem. Poucos conseguem fazer o trabalho, mas recebem o subsídio à mesma. Se forem obrigados a apresentar-se para trabalhar, limitam-se a ficar encostados sem fazer nada.
— Não vou pedir um subsídio! Estão a dar-me algo em troca de nada.
— Charlie vai arranjar-te algo decente para fazeres.
— Não vou puxar cordelinhos indo falar com Charlie, está decidido.
Felizmente, a sua árdua lubuta nas duas últimas semanas tinha-o deixado exausto; às cinco da tarde, encontrava-se deitado a dormir, e Grace ficou livre para tratar dos miúdos e prepará-los para dormir.
Às seis da tarde, na mais absoluta escuridão, Grace acendeu uma lamparina de querosene e caminhou até ao cruzamento de Trelawney Way com a Wallace Street, onde se encontrava uma cabina telefónica vermelha com painéis de vidro de estilo georgiano. O telefone de sua casa fora desligado quando Bear decidira reduzir as despesas da casa em dezembro.
Quando a moeda caiu, uma voz feminina atendeu.
— Kitty? Graças a Deus!
— Grace? És tu, Grace? Não pareces tu!
— Podes vir ter comigo já? Estou na cabina telefónica, mas não me atrevo a ficar fora de casa muito mais tempo.
— Assim que encontrar um táxi, vou para aí.
A vida com Charlie, como Kitty descobria aos poucos, trazia-lhe compensações por ter desistido da enfermagem. Embora amasse muito Charlie, tinha sido um enorme sofrimento abandonar as suas crianças doentes, mas as regras eram inflexíveis: não eram permitidas enfermeiras casadas! No entanto, tinha a Casa Burdum para renovar, um empreendimento que envolvia várias viagens a Sydney para escolher azulejos, papéis de parede, tecidos, chão, lustres e candeeiros de parede, mobílias e elementos decorativos para o interior. Como encontrou em Edda uma preciosa ajuda para a orientar em termos de gosto, Kitty coordenou as suas expedições com os dias de folga de Edda, e as duas divertiram-se imenso em Sydney, ficaram no Hotel Australia e jantarem em restaurantes onde o cozinheiro estava disposto a cozinhar bem a carne que comiam.
As suas tentativas na cozinha não foram muito bem-sucedidas; não ficava minimamente entusiasmada a ver os conteúdos de uma panela ferver ou frigideiras a fumegar, por isso, quando Charlie lhe propôs uma solução, Kitty estava mais que disposta a ouvir. Iriam contratar um chef suficientemente talentoso para cozinhar de forma a agradar a ambos os polos, o norte de Charlie e o sul de Kitty.
Um encantamento que Kitty não tinha esperado sentir envolveu toda a sua vida. Charlie era um amante maravilhoso, embora não percebesse por que razão presumira de início que não o seria, até se aperceber de que transferira para ele o seu próprio complexo de inferioridade por ser tão pequena. Ser pequeno era desadequado, ser pequeno não podia ser a resposta às preces de uma donzela. Agora, apaixonada por Charlie, Kitty desfrutava do prazer de estar com alguém que era perfeito para ela. Os seus poucos relacionamentos com homens ao longo dos anos tinham-na intimidado, percebia agora. Os homens de estatura média eram ainda demasiado altos para ela, que tinha de se pôr em bicos de pés para dar um beijo, enquanto os homens de um metro de oitenta a levantavam do chão. Por alguma razão desconhecida, havia ainda homens que a queriam pegar ao colo e carregá-la como a um cão doente… a metáfora de Kitty, que provocava sempre ataques de riso a Charlie.
Tendo tudo isto em consideração, Charlie era… Charlie era perfeito! Como que por instinto, sabia exatamente como a excitar e tinha mil e uma maneiras de a beijar, todas elas deliciosas. Charlie tocava-lhe com tanta veneração como paixão e dava a entender a Kitty que ela lhe dava imenso prazer.
Assim, a Kitty que tinha de esperar por um táxi estava a transbordar de alegria, uma alegria tão genuína que ela nunca pensara poder ser maior até àquela mesma manhã, quando o doutor Ned Mason lhe disse que não havia qualquer dúvida de que ia ter um bebé. Um bebé! O seu próprio bebé!
Grace e Kitty encontraram-se e ficaram estupefactas.
Grace viu uma Kitty mudada, linda e triunfante, uma mulher livre de preocupações, aflições e angústias.
Kitty viu uma Grace exausta, sem qualquer alegria, com os olhos salientes e o corpo trémulo, a sua beleza murchara.
— Grace, querida, o que é? O que se passa?
Como resposta, Grace passou por ela juntando as mãos e depois virou-se, como se estivesse a ganhar uma coragem desaparecida, e disse:
— Bear perdeu o emprego.
— Grace! Mas… mas que coisa terrível! Vamos sentar-nos na cozinha, está mais quente lá dentro por causa do fogão… graças a Deus que Jack Thurlow te mantém bem abastecida de lenha — balbuciava Kitty, puxando a chaleira para cima da parte mais quente da chapa do fogão. — Não, eu faço o chá.
— És demasiado baixa — disse Grace, empurrando Kitty para a cadeira e deitando um pouco de água quente para dentro do bule para o aquecer. — O que nós as duas precisamos é de um bom chá forte. — O seu olhar cor de cinza, ao acalmar-se, acabou por ver de forma clara. — Que maravilha! — gritou ela — Estás grávida!
— Só descobri esta manhã, mas não digas a ninguém até eu ter oportunidade de contar a Charlie.
— A minha boca é um túmulo, prometo. — O processo de fazer o chá continuou a decorrer com uma eficácia tranquila. — Na verdade, eu estou bem, apenas assustada com a mudança de Bear — disse ela, distribuindo chávenas e pires. — Eu tive de ser a pessoa forte quando ele chegou a casa hoje, o que é uma raridade, não achas? E sabes que mais, Kits? Consegui! Fui forte pelo Bear e pelos rapazes. Eu… eu, euzinha… não era importante naquela altura. Ele chorou tanto! Tinha tanto orgulho em ser o melhor vendedor da Perkins! Mas a empresa faliu, fechou as portas. — Kitty serviu o chá. — O problema é que ele não é um homem forte em termos físicos, não seria capaz de aguentar um trabalho duro. Além disso, é um homem orgulhoso. Muito orgulhoso! Preciso que fales com Charlie e lhe expliques tudo isto.
— Não te preocupes, é o que vou fazer. Concordo com a questão do trabalho duro, mas Bear tem um cérebro, o que é muito melhor. Charlie saberá o que fazer.
— Não é assim tão fácil — disse Grace, dando um gole no chá muito quente. — Bear meteu na cabeça que seria errado puxar os cordelinhos e pedir ajuda a Charlie. Na verdade, ele nem me quis ouvir a respeito disso. Honestamente, Kits, não estou a exagerar.
— Percebo.
— Oh, Kitty, espero mesmo que percebas!
Charles Burdum entrou nesse momento com a boca tensa.
— Pelo menos deixaste-me uma mensagem, devia ficar grato por isso, não é? — disse ele, sentando-se à mesa, mas com uma mão esticada imperiosamente para Grace. — Não, não quero chá, por favor! Como é que vocês conseguem beber alcatrão de hulha e chamar-lhe chá é que eu não entendo.
— Querido, querido — disse Grace, suavemente —, estamos de mau humor?
— Um táxi, Kitty? — perguntou ele. — Era tão urgente visitar a tua irmã a esta hora?
— Na verdade, sim — respondeu Kitty, um pouco incomodada com o seu descontentamento. — Bear acabou de regressar a casa sem emprego. A Perkins deixou de existir. O pobre desgraçado está desnorteado.
A estalada metafórica no rosto dele teve o efeito esperado; Charles ficou horrorizado, arrependido e envergonhado.
— Oh, Grace, lamento imenso! — E à sua esposa disse: — Minha querida, peço desculpa. Foi um daqueles dias maus, mas não tinha o direito de descarregar em ti.
— O que importa é irmos diretos ao assunto, Charlie — disse Kitty, pondo as desculpas de parte. — Bear está a ser muito teimoso e recusa-se a pedir-te emprego ou a puxar cordelinhos de qualquer espécie.
— Eu compreendo — retorquiu Charles com sinceridade. — Tudo o que Bear é, conquistou-o com o seu próprio esforço e trabalho árduo. O orgulho de um homem trabalhador é muito forte nele, sempre admirei o seu sucesso.
— Entretanto, Charlie, Grace teve de ir com uma lamparina de querosene até à cabina telefónica para me chamar, e eu recuso-me a ter de me preocupar com isso também. Grace tem de ter um telefone — disse Kitty —, mas não uma linha partilhada.
— Grace terá um telefone, e não uma linha partilhada.
Kitty inclinou-se na direção de Grace, os olhos suplicantes.
— Tens de explicar a Bear, Grace, que é para o papá ficar descansado. Sem um telefone, tu e os meninos ficam isolados da família.
— Sim, Kitty, eu compreendo isso e aceito de bom grado. Se o papá não fosse pastor, Bear ouvia-o, mas ele odeia a religião. Bear diz que todas as guerras são travadas por causa de ideias divergentes de Deus — disse Grace, que começava a ver que os seus problemas atuais nunca interessariam a mais ninguém da mesma forma que a ela. E a culpa era sua. Se ela não fosse uma incurável gastadora, Bear teria enfrentado aquela catástrofe com 1000 libras no banco, se não mais. Tu, Grace Olsen, disse para si mesma, tens muitas culpas no cartório, até mesmo no atual sofrimento do teu marido. — Bem, — continuou ela, animada —, depois de contar as minhas novidades, não me parece que haja muito para fazer até amanhã, quando Bear acordar. Vais falar com ele, Charlie?
— É claro que sim — respondeu ele de forma calorosa. — Estarei aqui às nove. — Charlie levantou-se. — Espero por ti no carro, Kitty.
— Ele vai ficar mais animado quando lhe contares acerca do bebé — disse Grace, sorrindo. — Quanto a mim, não penses que não admito que é por minha culpa que não temos dinheiro no banco.
Espantada, Kitty olhou fixamente para ela. As lamúrias e a constante autocomiseração pareciam ter desaparecido face a esta terrível catástrofe. O caminho para o martírio que visualizara como o futuro de Grace não era a rota que ela agora tomava.
— Quem me dera que tivesses ficado no curso de enfermagem mais tempo — disse Kitty. — Terias mais probabilidade de arranjar um trabalho a tempo parcial.
Grace sorriu, abanou a cabeça.
— Não, isso nunca foi opção para mim. Assim que conheci Bear, soube o que a minha vida ia ser. Teria ido de joelhos até à China para estar com Bear. Vi-te hesitar com o Charlie durante meses, mas eu nunca tive uma ponta de dúvida em relação a Bear. Algo em mim reconheceu o meu destino.
Um raio de inveja profunda atingiu o coração de Kitty com a força da lança de um guerreiro… como poderia a pateta e cabeça-oca da Grace saber sem sombra de dúvida quem era o seu parceiro, enquanto ela, bem mais inteligente e pragmática, fora tão cega em relação a Charlie? Significaria que o amor de Grace e Bear era muito maior que o dela por Charlie? Charlie soubera logo desde o início. Qual era o problema dela para os seus sentimentos precisarem de ser tão remexidos para virem à superfície?
Kitty foi ao encontro de Charlie no carro não muito depois de este ter saído da casa dos Olsen. À luz ténue do interior do Packard, o rosto dela parecia estranhamente preocupado. Bem, fora um choque. Não se podia negar que Grace conseguia ser um fardo pesado de se carregar.
— Vais ter dificuldade em persuadir Bear a aceitar um emprego — disse ela.
— O orgulho de um homem pobre é sempre difícil de subjugar.
— Será que é errado não querer puxar cordelinhos?
Charles deu uma gargalhada.
— O mundo gira à volta de redes mais intrincadas de influências e interesses do que tu imaginas, Kitty, a começar pelos políticos. O coitado do Bear é demasiado orgulhoso para puxar cordelinhos, por isso nunca acumulará poder suficiente para arranjar bons empregos para os filhos, e eu estarei demasiado ocupado a cuidar dos meus para o ajudar. A oportunidade dele é agora.
Algo em Kitty se contorceu; deixou escapar um gemido de aflição.
— Oh, Charlie, não desafies o destino! — suplicou ela.
— O que se passa, minha querida?
— Quando chegarmos a casa — respondeu ela.
No entanto, tinham de jantar primeiro e a língua de Kitty parecia ancorada por mil pesos de chumbo. Tentou, em vão, esperar pelo ambiente mais propício da manhã, esmagada pelas notícias de Grace. Sem saber o que fazer, Kitty conversou sobre a mudança de comportamento de Grace, sem reparar na crescente irritação de Charlie… todo este sofrimento por causa de uma meia-irmã?
— Ela anda a pensar cultivar os próprios vegetais, diz que está tão contente por ter plantado uma macieira e uma pereira há dois anos. Huh! Foi Jack Thurlow que as plantou, queria ela dizer… pobre Grace! Também diz que vai criar galinhas… criar galinhas, a Grace?
— Criar o quê? — perguntou ele, sem expressão, tentando dizer algo.
— Galinhas… galinhas, Charlie! Galinhas, quando são demasiado velhas para se chamarem pintos.
— Galinha. Para rimar com palhinha e cozinha.
— Isso mesmo.
— Estou sempre a aprender.
Um silêncio abateu-se sobre eles, pesado como chumbo.
— Charles?
— Acabaste de me chamar pelo meu verdadeiro nome?
— Sim.
Com os olhos a cintilar, Charles endireitou-se na cadeira.
— Eu respondo quando me chamam Charles.
— Vou ter um bebé.
As suas palavras apagaram-lhe literalmente todos os pensamentos do cérebro. Olhou fixamente para ela, boquiaberto, com os lábios a mexer, uma emoção atrás de outra a percorrer-lhe o rosto, os seus olhos agora puro fogo. De repente, convulsivamente, Charles levantou-se de um pulo, agarrou-a e abraçou-a com força.
— Kitty, minha Kitty! Um bebé? O nosso bebé? Para quando, meu amor?
— Ned Mason acha que será em dezembro. Fui vê-lo esta manhã para obter confirmação, e ele disse que estou grávida de quatro meses. — Kitty soltou uma gargalhada. Para Charles, era uma vitória. — Um tempo respeitável e decente após o nosso casamento, embora sejamos, como o meu papá diz, um casal fértil.
Ainda a tremer, Charles sentou-se com a mulher sobre os joelhos e colocou uma mão reverente sobre a sua barriga.
— Ele está aí dentro, a crescer… já tem quatro meses! Estás bem? Ned ficou satisfeito com o vosso estado de saúde?
— Encantado. A minha pélvis é ampla, está tudo como devia estar, o meu metabolismo basal é ideal… resumindo, meu querido Charlie, tenho os olhos brilhantes, o pelo lustroso e o nariz húmido, como os cães saudáveis.
— É um rapaz — disse ele, com certeza.
— As estatísticas Latimer apontam para uma rapariga.
— Grace tem rapazes.
— É o que eu estou a dizer. O papá tem quatro raparigas, por isso talvez Grace já tenha usado os créditos que havia na nossa família para rapazes.
— Vou amar uma rapariga da mesma maneira. Casei com uma.
— É verdade. — Um arrepio percorreu-lhe o corpo. — Ainda assim, hoje não foi um dia auspicioso. Bear perder o emprego… vamos rezar para que não seja um mau presságio!
Grace decidiu ser sincera sobre o que fizera, por isso, quando Bear acordou na manhã seguinte, fez-lhe torradas para o pequeno-almoço e confessou que falara com Kitty.
— Antigamente, teria sido com Edda, mas as circunstâncias mudaram, Bear. Kitty é a mais influente nos dias que correm, por isso pedi-lhe que viesse ontem à noite, e ela veio. Não, não, não implorei um trabalho, isso não me diz respeito, não mais do que diz respeito a Kitty implorar um a Charlie. Eu só queria contar à minha irmã o que acontecera e pedir-lhe que mandasse Charlie cá esta manhã. Ele deve chegar daqui a pouco. Não me interessa sobre o que vocês falem ou o que tu decidas. Já fiz a minha parte ao marcar o encontro.
Bear olhava fixamente para ela, intrigado, sem perceber o quanto Grace mudara ao longo dos últimos oito meses, uma mudança que ele iniciara ao reduzir a mensalidade para as despesas da casa. Não havia rasto da velha e lamurienta Grace; em vez disso, Bear encontrou uma mulher firme e determinada, que compreendia perfeitamente a situação em que se encontrava.
— O que te aconteceu? — perguntou ele, confuso.
Nesta situação, a antiga Grace tentaria fazer-se de parva, mas a nova não.
— Tive de crescer rapidamente — disse ela, servindo-lhe mais chá. — Chega de brincar aos comboios, Bear. Pode-se desculpar esse tipo de comportamento aos nossos filhos, mas nós somos adultos. Nós somos pais e sustentamos a família.
— Não precisas de me atirar isso à cara — murmurou ele, encolhendo-se.
Grace acariciou as suas costas curvadas.
— Bear, não te estou a atirar nada à cara. O que nos aconteceu não foi culpa tua, embora sejamos nós a sofrer. Até mais, aposto, do que as pessoas que criaram esta confusão toda alguma vez vão sofrer. Estou a tentar fazer-te ver que costumávamos ter um nível de prosperidade que era propícia a ilusões, mas que agora as ilusões são proibidas. Incluindo o orgulho, que o papá considera um pecado. Aceita o emprego que Charles Burdum te oferecer, pelos teus filhos.
Gravemente ferido no espírito, bem como na mente, à deriva num mar de incertezas, Bear quase não ouviu esta Grace que desconhecia nem ligou ao que ela disse sobre o orgulho. Bem, Grace estivera protegida este tempo todo, como podia ela sequer imaginar o que se passara em Sydney, onde Bear teve de ver os subservientes e os lambe-botas a juntarem-se como formigas e a receberem os empregos que outros homens mereciam mais, exceto que estes não estavam dispostos a implorar e a rastejar para os obter. Queria que os seus filhos se tornassem homens, não lambe-botas subservientes.
Entretanto, Grace continuou a falar sem parar sobre Charles Burdum e sobre como Bear Olsen devia ser polido com ele…
No que pareceu ser o segundo seguinte, Bear sentiu-se assoberbado por este homenzinho encantador, elegante e gentil, vestido com a roupa apropriada para Corunda, com os seus gestos amplos e a sua maneira de ser despreocupada… não te preocupes, Bear, tudo vai passar num abrir e fechar de olhos!
— Entretanto, Bear — continuou Charles, cheio de entusiasmo —, tenho um emprego ideal para ti! Juro-te, ideal! Está a surgir uma nova área de trabalho precisamente para homens com as tuas aptidões… o dom da palavra, por assim dizer. A área chama-se relações públicas e é fascinante! À medida que a população cresce e os governos e outros tipos de instituições públicas se tornam cada vez mais anónimos, é necessário dar a conhecer à população o que se está a passar. Se a população não for educada relativamente aos homens sem rosto que ocupam os cargos de autoridade e poder, vão surgir problemas devido à ignorância e a equívocos. — Os olhos cor de caqui estavam fixos no rosto de Bear. — Estás a acompanhar? — perguntou Charles.
— Sim — respondeu Bear.
A aquecer para o tema principal, Charles continuou de forma apressada:
— O que eu te estou a oferecer, em termos práticos — disse ele —, é um trabalho de vendas. No entanto, em vez de venderes produtos, vais vender ideias e serviços que as pessoas não veem nem conseguem tocar, como uma lata de pomada ou garrafa de linimento. Lidera a nova empresa de relações públicas de Corunda e começa a vender Corunda!
— Oh! — suspirou Grace, encantada.
— Desculpa, mas não posso aceitar esse emprego — disse Bear.
Charles pareceu aturdido.
— O quê?
— Não é para mim.
— Que disparate! És um vendedor excecional, é ideal.
— Sou praticamente analfabeto — respondeu Bear.
— És alfabetizado o suficiente para escrever bons relatórios… já os vi — disse Charles, revelando que já pensara em Bear Olsen para o cargo de relações públicas.
— Lamento, mas não. Relações públicas? É mais enganar as pessoas para obter a sua confiança — disse Bear. — Não quero o emprego, é uma fraude. É melhor esclarecermos as coisas agora, Charlie. Eu não quero nenhum emprego vindo de ti, porque isso significaria que um pobre desgraçado, que esperou a sua vez para obter este emprego, o ia perder a meu favor, pelo simples facto de eu ser teu cunhado. Eu sou o último na lista de empregos em Corunda, por isso vou registar-me como desempregado na Câmara Municipal e esperar a minha vez. Contudo, não vou humilhar as minhas origens ao aceitar receber um subsídio por não fazer trabalho nenhum!
Com o som de uma almofada de borracha a perder o ar, Grace deixou-se cair na cadeira e olhou para Bear com lágrimas nos olhos.
Charles virou-se para ela.
— Grace, faz com que o teu marido veja a razão.
Foi então que Grace surpreendeu Charles e Bear, embora não tanto como a si mesma.
— Não, Charlie, não vou fazer tal coisa — disse ela. — Se Bear prefere não ser ajudado a subir uns lanços da escada, então eu apoio a sua decisão. Ele é o homem da casa.
— Vocês estão a ser demasiado orgulhosos!
— Pelo menos, não seremos hipócritas — disse Grace de forma corajosa.
Charles Burdum levantou as mãos no ar e saiu de rompante.
Assim, de cabeça erguida e chapéu na mão, Bear registou-se na Câmara Municipal para empregos disponíveis, recusando, em simultâneo, o dinheiro do subsídio. A notícia de que Bear Olsen tinha princípios e que recusara aceitar a ajuda do seu poderoso cunhado espalhou-se como um relâmpago azul de corrente elétrica por todo o distrito. Uns condenavam-no pela sua imensa estupidez, mas muitos mais elogiavam-no pela sua integridade de homem trabalhador.
O humor de Bear esmoreceu e tornou-se um visível desespero, vagueando pela sua casa em Trelawney Way como um fantasma, saindo do caminho da mulher e dos filhos sempre que se cruzava com eles, como se não fosse capaz de estar na sua companhia. Uma espécie de ódio por si mesmo obrigava-o a manter-se agarrado a um orgulho esfarrapado, como que a um mastro flutuante num mar tão rarefeito que chegava a ser mais vaporoso que líquido.
— Podes construir um galinheiro como deve ser para Grace — disse Jack Thurlow numa rara visita; Grace pedira-lhe para limitar as suas visitas depois de a primeira delas ter feito o humor de Bear afundar ainda mais.
Também para Jack, a tragédia dos Olsen fora acompanhada por uma série de choques desagradáveis, sendo um deles esta nova força de Grace. Muito confuso, Jack estava contente por lhe ter sido pedido para se afastar e obedeceu, mas, quando Grace lhe pediu para a ir ver, foi logo a correr, pondo tudo o resto de lado. Jack compreendia a reação de Bear às ofertas de ajuda de Charlie, que surgiam tão rapidamente como as recusas de Bear. O facto de Charlie não compreender devia-se à sua ignorância sobre o homem trabalhador, que preferia morrer à fome do que aceitar caridade.
— Bear é que sabe se não quer aceitar o emprego que Charlie lhe ofereceu — disse Grace a Jack um dia —, mas o facto é que está a precisar de levar um pontapé no traseiro para começar a fazer algum trabalho nesta casa. Quero criar algumas galinhas poedeiras, mas isso significa fazer uma capoeira bem melhor, e quero cultivar os vegetais da época… chuchus, se não conseguir plantar mais nada.
Chuchus! Jack engasgou-se. Oh, eles crescem como ervas daninhas e podem ser assados, cozidos, fritos, podem ser usados para fazer compota ou molho, mas…! Eram horríveis, horríveis, horríveis! Tinham tanto sabor como urina diluída e nenhum valor nutricional.
Grace continuou a falar, sem qualquer cuidado, lançando dinamite como se fossem chuchus.
— Mas eu não posso fazer tudo sozinha, Jack, e os meninos são muito pequenos para ajudar. Bear devia tratar do jardim e das galinhas.
Providenciando os materiais e uma supervisão apertada, Jack assegurou-se de que era construída uma capoeira em condições e resistente, e que algumas das galinhas vermelhas de Rhode Island de Maude eram instaladas, juntamente com um balde diário de uma seleção de produtos agrícolas da sua propriedade. Como Bear não sabia como cultivar batata, cenoura ou nabo, muito menos couve, feijão-verde ou alface, Jack tentou ensiná-lo, mas acabou por descobrir que os seus filhos eram alunos mais aptos. A única coisa que se podia esperar de Bear era que não se esquecesse de fechar a porta da capoeira ou que não pisasse uma fileira de vegetais recém-plantados. Não era capaz de terminar nenhuma tarefa que começasse. O trabalho acabava sempre por sobrar para os outros, enquanto ele continuava indiferente e distante, recusando o subsídio de desemprego, pois considerava injusto recebê-lo sem trabalhar.
Os dois meninos tinham uma natureza mais resiliente. Depois de Grace lhes explicar que o pai estava doente na alma, Brian e John foram muito bons para ele. Grace estava a ser capaz de lidar com todo o tipo de situações naquela altura, mas explicar a crianças tão pequenas o que significava «estar doente na alma» exigiu toda a sua capacidade descritiva. No entanto, o que disse foi suficiente; o comportamento dos meninos em relação ao pai demonstrou isso mesmo. Eram meigos e inabalavelmente pacientes com Bear. Era como se, pensou Jack, eles fossem o pai e Bear, a criança.
E, em 1930, aquele ano assustador, ninguém compreendia as inúmeras formas como a mente pode falhar, bloquear ou fragmentar-se, embora Bear tivesse mais sorte com a sua mulher e filhos do que a maioria dos homens, pois nunca se viraram contra ele e raramente o criticaram. Sentindo que era o seu dever, visto que mais ninguém o sentia, Charles Burdum insistiu com ele várias vezes, mas a única resposta de Bear era ficar imóvel, com ar confuso, e repetir que não ia puxar cordelinhos.
— Mas não se trata de puxar cordelinhos! — gritou Charles. — Trata-se de cuidares da tua família. Não ajudas nada, Bear, nada!
Uma afirmação que não pareceu chocá-lo.
A reação de Kitty era mais prática. Ofereceu uma máquina de costura Singer com pedal, que Grace aceitou alegremente. Com Edda como professora, decidiu tornar-se costureira, fazendo casacos e calças para os meninos com fatos velhos de Liam e Charlie, e com a sua roupa antiga. Também aceitava vestidos que Kitty e Edda já não queriam. E, apesar de a sua vida ser incrivelmente ocupada, pelo menos, quando chegava à noite, dormia como uma pedra. As relações conjugais com Bear já eram raras desde o nascimento de John e, agora, pareciam tão longínquas como os sonhos que o cansaço a impedia de recordar.
À medida que o ano de 1930 chegava ao fim, Charles Burdum recebia a maior parte dos louros pela relativa prosperidade económica de Corunda. O presidente da Câmara, Nicholas Middlemore, e o secretário do Município, Winfield Treadby, ambos bastante discretos em termos partidários, não usavam coroa de louros na cabeça, apesar da sua dedicação genuína e dos seus esforços, por vezes bem-sucedidos, para ajudar. Como sabiam que, se dissessem alguma coisa contra Charles Burdum, seriam considerados invejosos, sorriam em silêncio quando as pessoas elogiavam Charles à sua frente e votavam a seu favor na assembleia municipal.
Corunda tinha dois membros no parlamento, um pelo estado da Nova Gales do Sul e outro pelo governo federal da Austrália na nova cidade de Camberra. Toda a gente sabia que apenas as grandes cidades interessavam em termos políticos; lá, o capitalismo e o socialismo defrontavam-se e impunham-se aos desgraçados dos eleitores que, provavelmente graças ao historial de governação autocrática do continente por governadores quase ditatoriais, pareciam condicionados desde o início do governo democrático a esperar promessas quebradas, mau desempenho e corrupção.
Após vários meses de casamento, Kitty sabia que Charlie estava determinado a representar Corunda no parlamento federal, contudo hesitava em dar o primeiro passo. De certa forma, os tempos difíceis pediam um novo estilo de liderança, talvez até um novo partido político, um partido mais orientado para uma maior variedade de eleitores. Os políticos de ambos os partidos, trabalhista e conservador, eram tradicionalistas, inflexíveis e intransigentes e, consequentemente, pouco apelativos para os eleitores cujo pensamento era mais flexível e cujos interesses não eram satisfeitos por este tipo de político.
Charles também não compreendera que a sua inglesice seria uma enorme desvantagem quando decidisse perseguir a sua carreira política. Muitos políticos trabalhistas eram também provenientes de meios intelectuais tipicamente ingleses, mas desvalorizavam a sua nacionalidade agarrando-se à natureza global do socialismo. Porque será um estigma tão grande ser um cavalheiro inglês? E como poderia ele compreender que os governadores autocráticos originais deste continente tinham sido cavalheiros ingleses, detestados e desprezados até aos dias de hoje?
Desanimado e desiludido, Charles era suficientemente inteligente para perceber que as suas aspirações políticas teriam de ser adiadas até estar na Austrália muito mais tempo e que teria de se esforçar por ser considerado um australiano e não um inglês. Mudar-se para o campo em meados de 1929 e nas vésperas do maior desastre económico do mundo não abonara muito a seu favor, independentemente do quanto se esforçasse por manter a cidade de Corunda de pé, livre de se tornar uma cidade de barracas e mantendo alguns empregos. É claro que tinha os seus inimigos, habitantes locais a quem o encanto e a liberalidade Burdum não agradara; nem todas estas pessoas eram de baixo nível e algumas até eram influentes. Assistia a todas as reuniões políticas a que podia assistir; todas as reuniões da cidade contavam com a sua presença, bem como as de várias associações de assistência social.
Sempre que possível, levava consigo a sua mulher, cujo aumento de barriga deliciava toda a gente, tanto como o seu ar natural de esposa apaixonada. Agora dedicada a ele, Kitty estava determinada a ser a parceira certa para este homem dinâmico e sempre ocupado. Quando ele viajava para Sydney ou Melbourne ou Camberra a fim de assistir aos debates mais importantes no parlamento ou defender os interesses de Corunda, Kitty estava ao seu lado.
Por esta razão, não foi uma surpresa para ela encontrar Charles a fazer as malas a meio de agosto, quando o tempo estava extremamente frio e a cidade de Corunda parecia polvilhada com um cristalino manto branco que se recusava a derreter.
— Vou à Conferência do Conselho dos Governos da Austrália — disse ele, examinando o seu smoking. — Será que vou precisar de laço branco e casaca?
— Em Melbourne? Provavelmente. São uma cambada de snobes lá — disse ela, com o olhar inquieto. — Até é bom que vás a estes eventos pomposos das grandes cidades de vez em quando, Charlie… mantém as traças longe da tua roupa formal. Presumo que não queiras que vá contigo?
— Desta vez, não. É aborrecidamente masculino. A Depressão limitou bastante as festividades, como reparei pela agenda que me foi enviada. O que eu gostaria de saber é por que razão estas confraternizações acontecem sempre em Melbourne? — perguntou ele, colocando na mala o laço branco e a casaca por cima do smoking.
— De certeza que sabes por que razão estes eventos pomposos acontecem sempre em Melbourne, Charlie — disse ela, encarregando-se de lhe arrumar a mala. — Pensa! Há sempre imensas pessoas influentes de Inglaterra presentes e elas têm de viajar de barco de Inglaterra até à Austrália… dezasseis mil quilómetros por mar. Perth está fora de questão enquanto ponto de encontro, e o porto a seguir é Melbourne. Permanecer a bordo em direção a Sydney significa mais outros mil e seiscentos quilómetros por mar, quando toda a gente já está desejosa de desembarcar. Porém, se os aviadores pilotassem aviões que transportassem centenas de pessoas, então Sydney ficaria mais perto de Londres que Melbourne. Melbourne entraria em declínio. Enquanto as pessoas tiverem de viajar por mar para a Austrália, Melbourne fica a ganhar.
— Tens toda a razão — disse Charles lugubremente. — Melbourne é o primeiro porto importante, é por essa razão que Sir Otto Niemeyer desceu a cambalear a prancha de embarque para beijar o solo de Melbourne, em vez de fazer outras mil milhas em direção a Sydney. Que esperta que és, Kitty!
Kitty abanou uma pilha de lenços de bolso debaixo do nariz de Charles.
— Posso estar um pouco inchada na cintura, mas ainda te consigo ajudar a fazer a mala. Contudo, não me atrevo a mexer nos teus fatos. Devias usar um daqueles baús de camarote que se abrem e têm pequenas gavetas, bem como espaço para pendurar fatos.
— Pareceria um palerma se chegasse com um baú de camarote.
— Disparate! Sir Otto não-sei-quê deve ter vários, presumo eu. — Kitty respirou fundo. — Na verdade, Charlie, precisas de um criado de quarto.
— Sim, preciso, mas a sociedade sem classes de Corunda iria condenar-me.
— É outro emprego, embora não para um natural de Corunda, ai, nem que fosse para o desgraçado do Bear. Contrata um empregado em Melbourne, Charlie, e que se lixe Corunda!
— Eu até podia colocar um baú de camarote no vagão de serviço.
— Podias, sim. Onde vais ficar hospedado?
— No Menzies, como é habitual.
— Ainda bem, tem empregados para te ajudar a desfazer as malas. Porquê tu, Charlie? Não tens assento em nenhum parlamento.
— Os homens na minha posição têm sempre amigos políticos suficientemente importantes para se manterem por perto das conferências, apesar de não ser por isso que eu vou. Fui pessoalmente convidado por Sir Otto.
Kitty sentou-se na borda da cadeira do seu quarto de vestir.
— Mas quem é esse Sir Otto exatamente? Parece o nome de um fabricante de salsichas alemão.
— Sir Otto Niemeyer é um dos governadores do Banco de Inglaterra e um velho amigo dos meus tempos na City de Londres. Mais do que isso não sei, minha magnífica Kitty, mas estou ansioso por saber por que razão fez ele esta viagem horrenda.
— Sim, percebo porque estás curioso. Ele é um homem extremamente importante, por isso, seja lá qual for a razão que o trouxe aqui, deve ser crucial para a Inglaterra… quer dizer, quatro ou cinco semanas enfiado num camarote quente e abafado, enjoos e aborrecimento? Tenho a certeza de que ele deve viajar no convés mais elevado, onde o vento sopra e arrefece o seu camarote, mas ainda assim não é como estar em casa. É claro que o camarote ficará a bombordo quando sair de Inglaterra em direção à Austrália e a estibordo quando voltar para casa, mas o sol é implacável.
Charles olhou para Kitty de cima a baixo, divertido.
— O camarote ficará a bombordo quando sair de Inglaterra em direção à Austrália e a estibordo quando voltar para casa?
— Por causa do sol, tonto! — disse ela, revelando as covinhas do rosto. — O sol brilhará a bombordo do navio quando este rumar à Austrália e a estibordo quando regressar a Inglaterra, sendo assim, os que sabem isso reservam um camarote do lado onde faz mais sombra. Isso é que é ser fino.