Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 5 de 7 · parte 4/4

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Agridoce

PARTE QUATRO: A Catástrofe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

No entanto, a paciência de Jack era menor que a de Edda, e também não estava disposto a assumir um papel secundário com pouca importância ou relevância. O seu punho bateu ruidosamente na mesa.

— Não precisas de te preocupar com a Grace, Charlie. Eu tenciono tomar conta dela e dos rapazes. Assim que possam fazer as malas, vão morar comigo para Corundoobar. Oh, e vou casar com ela, não para agradar às galinhas velhas defensoras dos valores morais de Corunda… ela precisa de um marido agora ou nunca mais terá mão naqueles meninos. A tonta da minha mãe arruinou as nossas vidas quando o meu pai morreu, e ela era uma Burdum e tudo! O pastor era um daqueles típicos fanáticos da religião, nem um pouco parecido com Tom Latimer. E ele intimidou-a e convenceu-a a viver de acordo com o que as outras pessoas diziam. Desde quando é que um bando de linguarudos deve ditar a forma como uma mãe sozinha e os seus filhos vivem? Por isso, a Grace está ao meu cuidado agora, ouviste? Não vou deixar que ela passe mais dificuldades! E vou criar os filhos de Bear, têm a palavra de um Thurlow. O meu pai pode não ter sido o marido que o velho Tom Burdum queria para a sua filha, mas era um bom marido e um bom pai. Vou fechar esta casa com tábuas até os tempos melhorarem e depois Grace pode vendê-la para ficar com algum dinheiro…

Jack deu um soluço e parou, aterrado com a sua própria torrente de palavras, como se o homem que as tivesse proferido lhe fosse completamente desconhecido. O seu olhar virou-se de repente para Charles, depois para Edda; os seus ombros elevaram-se, como se tivesse tirado um enorme peso de cima deles.

Charles estava de tal forma aturdido que se limitou a ficar de pé a olhar fixamente.

Algo se movia dentro dos maxilares e das faces de Edda, um exército rastejante em movimento: é este o verdadeiro Jack Thurlow, o homem pelo qual tenho adiado a minha partida desta cidade há vários anos? Se fosse eu no lugar de Grace, será que ele teria vindo em meu auxílio, como Sir Galahad com o Santo Graal em vista? Jack não me ama a mim ou a Grace, ele está apaixonado pelo dever e, neste momento, vê o seu dever de forma tão clara como se Deus o tivesse escrito no céu em letras flamejantes. Durante meses estivera ansioso por assumir os fardos e tratar das responsabilidades de Bear, como se lhe pertencessem. Está a agarrar-se a Grace como um louco depois do reflexo da lua numa poça.

— Meu caro amigo — dizia Charles, desafiado a retomar a sua atitude pommy —, será tudo isso necessário agora? Asseguro-te que não me importo de sustentar Grace e os filhos. É meu dever fazê-lo, Jack, não teu.

— Bear e eu éramos amigos, bons amigos — respondeu Jack num tom severo. — Pareces querer responsabilizar-te por Corunda inteira… já não chega? Eu tenho tempo e espaço para Grace.

Tufts encontrou um Charles Burdum irritado e perplexo quando entrou na cozinha; Edda estava absorta a fazer o chá, como se a parte da cozinha onde se encontrava ficasse noutro continente.

— Senta-te, Edda. Eu termino isso — disse Tufts.

— Jack diz que vai levar Grace e os meninos para Corundoobar.

— Que interessante. Senta-te, Edda, senta-te! Eu vou contigo dar a novidade a Kitty, Charlie — disse Tufts. — Edda, presumo que vás contar ao papá? Ainda bem! E fecha a boca, Charlie, senão vão entrar muitas moscas. Sabes, elas transportam germes.

 

Houve outros casos de suicídio em Corunda; a situação não estava a melhorar e continuava a piorar gradualmente por toda a Austrália, o que era verdade também para Corunda como parte da nação. À medida que o ano de 1930 se aproximava do fim, o desemprego crescia cada vez mais e os salários eram cada vez mais baixos para aqueles que tinham trabalho. Se os diretores de bancos e os presidentes dos conselhos de administração conseguiam de alguma forma não sofrer com a redução das despesas, isso devia-se simplesmente ao modo como funcionava o mundo, cujos governos em todo o lado protegiam os mais ricos, até mesmo na URSS de Estaline. Embora se tivesse aguentado bem no início, a prosperidade de Corunda estava a desintegrar-se rapidamente, apesar do novo hospital. O espetro da contenção de despesas tornou-se mais visível à medida que todos os fatores responsáveis pela criação de uma boa saúde económica ocupavam cada vez mais espaço nos jornais e revistas; termos que um homem trabalhador nunca ouvira antes de 29 de outubro de 1929 eram agora discutidos em bares e nas filas para a sopa dos pobres, enquanto a Grande Depressão avançava e avançava…

Tendo relações com os Burdum e com os Treadby, a morte de Bear Olsen proporcionou um fórum ainda mais público no qual se discutia um problema crescente, até mesmo em Corunda: o enterro de suicidas em locais consagrados.

Uma minoria de habitantes de Corunda queria dar continuidade tangível à maldição do suicídio até à campa, recusando aos suicidas uma cerimónia fúnebre ou solo sagrado. Era de esperar que o velho monsenhor O’Flaherty se opusesse e argumentasse, apesar de os seus conselheiros pedirem uma interpretação mais benevolente das leis de Deus, mas ele não era, nem por sombras, o único pastor cristão para aí inclinado. Alguns pastores protestantes eram igualmente intransigentes nesse assunto. As discussões eram acesas e muito desagradáveis, e provocaram uma nova série de frações nas instituições cristãs: dois suicídios na família Corrigan no West End provocaram um enorme êxodo da Igreja Católica de St. Anthony, quando o reverendo Thomas Latimer ofereceu aos Corrigan a certeza de que o Deus de Henrique VIII não era tão inflexível como o do Vaticano relativamente ao estado de graça dos mortos, apesar de um dos próprios conselheiros do pastor Latimer achar tão fortemente como monsenhor O’Flaherty que o suicídio era o único crime que Deus não perdoaria. Sendo uma força formidável em Corunda, Thomas Latimer era geralmente visto como estando do lado certo quando pregou de forma impetuosa do seu púlpito, num sermão memorável, que nenhum homem, mulher ou criança que tirasse a própria vida sob as circunstâncias dos tempos que decorriam pudesse estar bem da cabeça: a loucura também era um presente de Deus e trazia consigo o suicídio como parte do pacote. A sua opinião abalizada, embora intensamente emocional, parecia razoável, lógica e, com o aproximar do final de 1930, parecia ser uma opinião com a qual as pessoas conseguiam viver, senão mesmo aceitar com todo o coração.

 

A caminhar atrás de Grace e dos filhos, Edda, vestida de preto dos pés à cabeça, virou a cabeça para avaliar o tamanho da multidão que seguia o caixão da Igreja de St. Mark até ao pequeno cemitério ao lado, onde as famílias dos pastores eram enterradas ao lado de Burdums e Treadbys. Negro, negro, negro, uma corrente ondulante de negro. Nestes tempos difíceis, não faltava roupa preta a ninguém para usar nos funerais.

Há muito mais pessoas a morrer do que a nascer, pois a força da vida está a fraquejar neste momento, e se as pessoas desconhecem outra forma de evitar conceber uma criança do que evitar por completo ter relações sexuais, então é precisamente isso que fazem. Quem desejaria este mundo para uma criança? A situação só vai de mal a pior.

O que está a acontecer às irmãs Latimer? O que ainda tem de acontecer mais?

Aquele idiota do Jack Thurlow! Graças às suas promessas indiscretas e repetidas inúmeras vezes de acolher Grace, as pessoas já comentam que a minha irmã gémea já tem o próximo marido escolhido ainda antes de ter enterrado este. Que arma cruel, a língua! Olhem para ela, seus estúpidos! Ela está devastada com a sua perda! Ninguém a pode ajudar, nem mesmo Jack Thurlow! Um homem sem propósito que pensa que encontrou um. Mas, a não ser que nós as três a consigamos tornar mais forte, ela vai submeter-se a Jack Thurlow e fazer o que ele quer. Ela é uma mulher submissa que não conhece outra forma de vida senão apoiada em alguém. Morte na vida, medo no amor, consolação no ato de pertencer a alguém.

Somos uma legião de corvos negros. Kitty veio. Eu sabia que ela viria. Eu cravo a estaca, Kitty corta a cabeça. Cada uma de nós é necessária, com Tufts a trazer as qualidades da terra e Grace as da água.

É difícil apanhar Kitty sozinha desde que se casou com Charlie Burdum… um homem muito possessivo. No entanto, todos os homens o são, faz parte da natureza da criatura. O seu isolamento ao cimo da Catholic Hill é propositado. Sem carro, um local de difícil acesso, e eu, por exemplo, não tenho dinheiro para ter um carro. Nem ele ensinou Kitty a conduzir. O quanto um casamento pode mudar as coisas! Um homem desconhecido entra na equação e a união entre as quatro irmãs é fragmentada… tenho saudades de Kitty!

Coitado do Brian! Dois anos de idade. Esta marcha lenta era o máximo que as suas pequenas pernas conseguiam acompanhar… as calças com as bainhas feitas à altura do joelho, pois estavam dobradas e redobradas na cintura, o casaco abotoado para não cair, de tão grande que era, a gravata com o nó feito. Braçadeira preta, Edda, braçadeira preta! A sua meia esquerda descaíra, tinha ranho na narina direita, que estava em pulgas para tirar, e o cabelo cor de prata estava levantado no topo da cabeça. Oh, adorável! Um pouco do meu sangue neles, eu faço parte de Brian e John, apesar de não ter filhos meus. O cheiro a goivo e a cravo! Agridoce. Vou para sempre associar o cheiro de goivo e cravo a este terrível funeral.

 

Embora os velórios fossem considerados papistas, o reverendo Thomas Latimer fora movido por um instinto que não conseguia compreender de dar uma receção depois de terminada a cerimónia do enterro; cerca de cem pessoas reuniram-se no interior da casa paroquial de St. Mark para partilhar uma bebida à sua escolha e bastantes salgados e doces. Charles Burdum fez questão de pagar as despesas.

Tufts encarregou-se de conversar com Charles no intuito de o distrair, enquanto Edda atacava Kitty e a levava para uma salinha que só quem conhecia o presbitério sabia que existia. A morte de Bear afetara Kitty, mas não tivera um impacto esmagador sobre ela, apesar da recenticidade da sua própria perda; ela não ficaria mais deprimida por causa disso, constatou Edda com alívio. Parecia muito bem fisicamente.

— O teu gosto a vestir melhorou bastante, Kits — disse Edda, escolhendo uma cadeira em frente da irmã. — O teu chapéu é um encanto… onde o encontraste?

— Não fui eu — respondeu Kitty, com a voz melosa. — Charlie gosta de percorrer as melhores lojas e comprar coisas que gostava de me ver usar. — A sua voz ficou ainda mais baixa. — Ele é o tipo de comprador que agrada a qualquer mulher, Edda, e o gosto dele é muito melhor que o meu. Eu tenho demasiado do gosto espalhafatoso de Maude em mim. — Ela suspirou e soltou uma gargalhada tipicamente sua… que maravilhoso era ouvi-la! — Ele é possessivo, de tal maneira que lhe custa aceitar o amor que sinto pelas minhas irmãs. — Kity encolheu os ombros. — Bem, como poderia ele entender tal coisa? É filho único e, embora tenha crescido no seio de uma família, nunca teve mãe nem pai. O resultado é que ele pensa que o amor que sinto pelas minhas irmãs diminui o amor que sinto por ele, e não consigo fazê-lo compreender que são dois tipos de amor diferentes, em dois compartimentos separados. Como eu odeio estar no cume daquela maldita colina! Com a Depressão a piorar, já não existem táxis em Corunda, tenho de oferecer dinheiro a alguém que tenha carro, o que é ilegal.

— Lamento — disse Edda, sendo cuidadosa para não dizer entredentes o que estava a pensar. O filho da mãe, filho da mãe! — Tens tantos automóveis.

— Mas não sei conduzir.

— Eu sei, mas podes aprender e vais aprender… Porquê? Porque todas as quartas-feiras vais almoçar comigo e com Tufts ao hospital. — Os olhos preocupados dela trespassaram Kitty. — De certeza que não tens medo de Charlie, pois não?

— Não, não! — exclamou Kitty, corada. — É mais porque ele tem uma série de ideias fixas sobre mim, sendo uma delas o lugar que a esposa deve ter na sua vida. Ele controla-me! Isto é demasiado difícil para mim, aquilo não vale o meu esforço, e as irmãs devem pertencer ao passado, juntamente com as recordações de infância. É como se eu tivesse ganhado tanto ao casar com ele que nada do que fiz antes importasse! Uma coisa aprendi, sem sombra de dúvida, Edda: Charlie não me vai deixar ter uma relação próxima com as minhas irmãs.

Edda não fazia ideia do que Kitty ia dizer ou de como iria reagir quando ficasse a saber as novidades em relação à possível mudança de destino de Grace, mas nem por um momento lhe passou pela cabeça que Kitty guardasse tantos ressentimentos, de forma tão consciente, pelo marido, e ainda nem sequer tinham falado sobre Grace. Assim, quando Tufts apareceu à porta, Edda disse-lhe logo para entrar.

Kitty limitou-se a continuar a falar do mesmo assunto depois de terem terminado os abraços e os beijos.

— Oh, se vocês soubessem o quanto eu odeio aquela casa no cimo da colina!

— Eu lembro-me — disse Edda, friamente — de que te divertiste bastante a subi-la, porque eu estava contigo nas tuas excursões.

— Sim, tinha alguma coisa para fazer na altura! Agora… como é que posso esperar que alguma de vocês compreenda? Vocês estão sempre ocupadas, fazem um trabalho notável e desempenham-no tão bem, recebem elogios e toda a gente vos conhece.

— Oh, Kits! — exclamou Tufts, sentindo mais lágrimas a subirem aos olhos, mas por um motivo diferente do de Grace e dos rapazes. — Não me digas que não estás apaixonada por Charlie, por favor!

— Devo estar, porque aturo muita coisa. Quero dizer, não me passa pela cabeça deixá-lo, e não tenho medo de o deixar… — Kitty parou e estremeceu. — Não, não tenho o medo que vi muitas outras mulheres terem… o medo de serem mortas ou de serem espancadas de tal maneira que nunca mais são capazes de recuperar… não é nada disso, honestamente. De qualquer modo, Charlie espera que eu esteja ao seu lado num abrir e fechar de olhos, com o levantar de um dedo, e, se eu estiver com uma das minhas irmãs, ele… ele amua de tal maneira! É como se eu não tivesse o direito de ter prazer na companhia de outras pessoas se ele reparar que eu gosto dessas pessoas. Ele nunca encostaria um dedo em mim num momento de raiva, mas faz-me sofrer na mesma. O papá não sabe de nada disto, porque com o papá vem Maude, e Charlie não é nenhum parvo… ele sabe como Maude me afeta. As minhas irmãs… oh, é algo completamente diferente!

Tufts beijou a sua gémea verdadeira com ternura.

— Minha querida Kitty, Charlie sente ciúmes. Algumas pessoas são assim e não se pode fazer nada em relação a isso, é um traço de personalidade inato. Tens de o suportar, mas não tens de te sujeitar. Começa a fazer o que queres, e isso significa que tens de ver Edda, Grace e a mim quantas vezes quiseres ou precisares. Quando Charlie se queixar, diz-lhe que a vida é mesmo assim e que vais continuar a ver-nos independentemente do que ele sinta em relação a isso. Vá lá, tu consegues!

E quanto disto, pensava Tufts, resultava da tragédia de o seu filho ter nascido morto? Ninguém sabe por que razão aconteceu, mas a ignorância é o pior de todos os dilemas pessoais. Assim, eu desconfio que ele a queira culpar e é bastante óbvio que ela o quer culpar. Charlie, Charlie, porque não mostraste a Kitty que estavas a sofrer? Se o tivesse feito, ela não estaria tão ocupada a acumular ressentimentos. E ele, claro, pensa que ela está a ser consolada única e exclusivamente pelas irmãs. Que confusão!

De repente, o humor de Kitty mudou. Os olhos azul-lilás adquiriram um brilho furtivo, o seu rosto uma expressão conspiratória.

— Meninas, contem-me o que se está a passar por baixo da aparente tranquilidade de hoje. Algo se passa! Jack Thurlow está envolvido, e o comportamento de Charles parece o de um puritano com um segredo inconfessável. Eu não estou bem, blá, não devo ser perturbada, blá-blá, os boatos vulgares são coisa que não me deve interessar, blá-blá-blá. Digam-me, eu quero saber!

A resposta de Edda foi levantar-se da cadeira de um pulo como um gato, aproximar-se de Kitty e abraçá-la, beijá-la.

— Jack Thurlow é o problema, e não sei outra maneira de o descrever sem ser que penso que ele está doido. O homem é o sonho tornado realidade de qualquer alienista, repleto de complexos e impulsos primitivos, blá-blá…

As irmãs disseram em uníssono: «… blá-blá!»

— … Para de rir, Kitty! Oh, mas é tão bom ouvir-te dar umas boas gargalhadas! Tão bom! — exclamou Edda, limpando as lágrimas de alegria e tristeza dos olhos. — Os homens são possessivos, já percebemos isso quando falávamos de Charlie, e essa é a principal razão por que nunca me vou casar. Recuso-me a ser propriedade de alguém. O nosso Jack é um lobo com pele de cordeiro, e um caracol num carro de corrida, e um elefante escondido atrás de um grão de areia. Tudo o que se vê são contradições. Eu sei isso mais que ninguém, somos namorados há anos. Jack vive envolto num nevoeiro de mistério que ele mesmo cria.

No momento em que Edda proferiu esta última frase, o rosto de Kitty iluminou-se.

— Sim, é isso! Um nevoeiro! Charlie também vive envolto num nevoeiro de mistério que ele mesmo cria. No entanto, Jack não representa qualquer perigo porque não te vais casar com ele.

— Que metáforas maravilhosas, meninas — disse Tufts, rindo.

— O que vai Jack fazer para que Charlie pense que isso me vai arrastar para um inferno de infelicidade e desespero? — perguntou Kitty, sentindo uma emoção muito forte por aquelas adoradas mulheres, que eram capazes de aligeirar o sofrimento que os mortos inspiravam.

— Ele vai levar Grace e os rapazes com ele para Corundoobar amanhã e casar com Grace o mais brevemente possível — disse Tufts, dando a Kitty um copo de vinho espumante. — Bebe, Kits.

— Nada mau — disse Kitty, a bebericar —, embora eu desconfie que hoje até urina eu consideraria bebível.

— Oh, Kitty, adoro-te! — disse Edda.

— É claro que adoras — replicou Kitty, ronronante. — Edda, Jack Thurlow tem sido uma desculpa para ficares por Corunda desde que éramos adolescentes. Achas que Grace, Tufts e eu não sabemos que ele não passa de uma desculpa? O que realmente te mantém aqui é o mistério das quatro gémeas Latimer e não um intruso, como um homem. Até ires embora (e hás de ir!), enriqueces as nossas vidas, que é o que Charlie, sendo um homem, não é capaz de ver. Quer Charlie goste ou não, eu vou aprender a conduzir e visitar as minhas irmãs quantas vezes quiser.

— Então, está tudo bem — disse Tufts, pragmática —, embora nada disto dê resposta ao enigma de Jack Thurlow. O que acham?

— O que é que tu achas? — ripostou Kitty.

— Acho que é uma loucura. Pobre Grace!

— Concordo — disse Edda.

Um silêncio abateu-se sobre elas; todas bebericavam o vinho espumante.

— Maude desapareceu um pouco das nossas vidas, Kitty. Pelo menos da minha — disse Edda subitamente.

— Oh, se ela usasse o carro do papá, não saía da Casa Burdum — disse Kitty, de forma descontraída, pousando o seu copo ruidosamente. — O problema é que a mamã perdeu a alegria de viver quando casei com Charlie, que roubou o papel dela. São ambos napoleões, mas ele tem o pénis para acompanhar o complexo.

— Manténs a língua afiada, Kits! Um pénis! Não é um palavrão, mas as pessoas reagem como se fosse — disse Edda, com riso na voz. — Como te sentes agora em relação a Maude, minha pequena?

Kitty fez uma careta.

— Oh, Maude! A nossa Clitemnestra, ou será que quero dizer a nossa Hécuba? Eu perdi o medo dela assim que fui tirar o curso de enfermagem, mas isso vocês já sabem. Depois do meu casamento, ela desapareceu no ar diáfano, uma parte do espetáculo insubstancial desvaneceu-se. Por vezes, Shakespeare diz as coisas de forma tão perfeita que deixa de existir outra forma de as dizer. O papá manteve-a sempre do seu lado… ela esteve sempre… lá. Fazia parte da mobília do presbitério.

Uma cabeça dourada espreitou pela porta entreaberta, o seu rosto inquieto.

— Aqui estás tu! — Charles abriu a porta. — O que é isto, uma confabulação secreta? Segredos que eu não posso saber? Isso não pode ser, meninas!

— Segredos de mulheres — disse Edda, levantando-se — e, por isso mesmo, não são do teu interesse, Charlie. No entanto, atenção! Kitty vai almoçar connosco ao hospital todas as quartas-feiras e tu não estás convidado, mesmo que seja só para espreitares pela porta. — Edda caminhou até ele para o olhar de cima e pontuou o seu discurso com ocasionais espetadelas do seu dedo indicador direito no peito de Charles. — Desde que a levaste para o cume da Catholic Hill, quase nunca vejo a minha irmã mais nova e isso… — pancada com o dedo — … vai mudar. Tu… — pancada com o dedo — … ainda nem lhe arranjaste aulas de condução e isso… — pancada com o dedo — … também vai mudar.

Charles corou, os seus lábios ficaram tensos.

— Foi um mero lapso — disse ele com rigidez. — Vou começar a ensiná-la amanhã.

— Oh, não, o marido nunca deve ser o instrutor! — exclamou Edda rapidamente. — Bert, o condutor da ambulância, é o melhor instrutor de condução de Corunda.

— Então, será Bert — disse Charles, claramente derrotado. — Está na altura de voltarmos para junto das outras pessoas, minhas senhoras.

 

A receção ia no seu auge, os participantes estavam suficientemente encharcados nas bebidas alcoólicas que circulavam mais depressa do que a comida e os levava numa espiral descendente para um estado de ligeira confusão mental, que lhes permitiria dizer adeus a Bear Olsen para sempre. Maude levara Brian e John para o presbitério, onde Grace ia ficar, e a viúva, livre deles, parecia tornar-se cada vez mais visível enquanto pessoa do que quando se encontrava amarrada aos filhos.

Quando aconteceu, Grace estava de pé com o reverendo, o doutor Liam Finucan, o doutor Charles Burdum, o velho Tom Burdum, Jack Thurlow e o presidente da Câmara, Nicholas Middlewore; as suas três irmãs encontravam-se a alguns metros de distância num grupo que incluía a enfermeira-chefe Newdigate, a irmã Meg Moulton, a irmã Marjorie Bainbridge e a enfermeira Lena Corrigan. Todas enfermeiras.

Grace parece uma autêntica viúva em todos os aspetos, pensou Liam Finucan, desde o leve ar doente que exibia agora, até aos olhos enormes e exaustos, que estavam quase tão claros como os de Edda.

As suas mãos sem luvas seguravam um copo de vinho branco, uma imagem de tranquilidade absoluta; a linha do seu maxilar, à medida que virava o rosto para acompanhar a conversa, definida, pura. E, reparou Liam, intrigado, cada uma daquelas cem pessoas resolveu observá-la de repente, como se fosse uma atriz em palco. Grace, achava ele, estava prestes a assumir o seu papel de estrela.

— Jack! — A palavra soou como o estalido de um chicote.

Ele tinha estado a olhá-la fixamente, de qualquer maneira, mas o tom de voz dela surpreendeu-o; Jack pestanejou, sorriu-lhe com ternura e disse:

— Sim, Grace?

Quando ela falou, foi num tom alto e decidido, com as vogais muito bem pronunciadas, as sibilantes cortadas e as consoantes enunciadas de forma muito clara, uma voz que dizia ao seu público atento que pensara sobre o que dizer antes de o fazer.

— Correm rumores disparatados por toda a cidade de Corunda, Jack, e eu tenho pensado muito sobre uma maneira de os parar. Foi dito que hoje, com a terra ainda fresca sobre a campa do meu amado marido, eu já tinha um sucessor escolhido à espera. Mas eu nada fiz para que esses rumores começassem, por isso, agora e em público, no dia do funeral do meu adorado marido, tenciono enterrar também os rumores.

— Grace, por favor — disse Jack, desorientado. — Não sei o que te está a perturbar, mas aqui e agora não me parece a melhor altura para falar.

— Receio discordar — disse ela, e afastou-se do grupo, ficando sozinha, com os pés firmemente assentes no chão; entregou o seu copo de vinho a Nick Middlemore, como se este fosse um útil empregado de mesa. — Este é precisamente o fórum mais indicado para dizer a todos o que sinto, e assim que ficarem a saber, não podem existir mal-entendidos sobre o meu futuro ou o dos meus dois filhos.

A adivinhar o que aí vinha, as suas irmãs levantaram-se tensas, embora não fazendo qualquer movimento para ir ter com ela; isto era algo que Grace tinha de fazer sozinha, sem ajuda.

— Embora os planos para o meu futuro tenham sido feitos com a melhor das intenções, não foram elaborados com o meu conhecimento ou aprovação. — Grace prendeu um muito confuso Jack num olhar intenso e, em seguida, sorriu para ele. — És muito bondoso, Jack, e respeito-te por isso, mas não estou sozinha na minha infelicidade. Tenho uma família, tenho muitos amigos, tenho vizinhos muito leais e prestáveis. Amo o meu marido com todo o meu ser, e vai levar muito tempo, se é que alguma vez acontecerá, até conseguir sequer pensar noutro homem. Eu sou uma mulher decente. O meu pai é o pastor da Igreja de St. Mark. Como poderia eu desrespeitar todos os valores morais em prol do conforto material que não conheço há muitos anos? Seria considerada uma rameira vulgar… e com toda a razão! — Uma mão longa e flutuante ergueu-se. — Vá, Jack, vamos ser amigos. Pura e simplesmente amigos. Agradeço-te do fundo do coração, mas vamos acabar com os rumores de que eu me vou mudar para Corundoobar. A minha casa é em Trelawney Way.

— Bravo, Grace — disse Edda, baixinho, o seu olhar cruzando-se com o de Tufts e Kitty. Algures, bem no fundo, todas elas já o sabiam.

Jack Thurlow encontrava-se de pé, aturdido. Ele tomara a mão de Grace de forma quase automática, uma expressão nos seus belos olhos que lembrava a Liam Finucan a tomada de consciência que acontece no segundo antes do golpe da alabarda. A sua boca mexeu-se, tremeu; em seguida, abanou a cabeça.

— Eu… — disse ele, não conseguindo dizer mais nada.

Oh, coitado do homem!, pensou Kitty, ao ver Jack Thurlow pela primeira vez como alguém que não o tigre domesticado de Edda. Não se trata do sofrimento de um amor não correspondido, porque tu não amas Grace; é a amarga humilhação da rejeição pública quando não fizeste nada para merecer esse tratamento. Como explicar que foste tu o único culpado por isto ter acontecido?

Charles intrometeu-se na conversa de forma descontraída.

— Sim, Jack, é muito generoso, sobretudo quando os rumores transformaram uma coisa noutra completamente diferente do que tencionavas, hem?

Charles colocou a mão no braço de Jack e levou-o dali.

— Será que todos sabíamos que ela ia recusar? — perguntou a enfermeira-chefe Newdigate.

— Não seria próprio dela se aceitasse — disse Meg Moulton. — Grace gosta de uma vida um pouco difícil porque lhe dá razões legítimas para se queixar.

— Viver como uma aristocrata em Corundoobar e mandar os filhos para o colégio interno de King’s não faz o tipo de Grace — disse Tufts. — Ela gosta de Trelawney.

— Porque não havia de gostar? — perguntou Lena Corrigan, a rir. — Grace é a rainha de Trelawney… do caminho de Trelawney, da estrada de Trelawney, da rua de Trelawney, da ruela de Trelawney, da rotunda de Trelawney e de tudo o resto… e ela não tem a mínima intenção de abdicar disso. Demorou todos os anos em que esteve casada para ser coroada, mas tal como Vitória foi confrontada com a viuvez.

O sobrolho de Edda levantou.

— Não estás a exagerar um pouco, Lena?

— Nem um pouco! Tu não o vês porque és irmã gémea de Grace, mas ela tem um dom para lidar com as pessoas comuns. O que estou a tentar dizer é que tu tens tendência a considerá-la uma ignorante, porque ela não durou muito no curso de enfermagem, mas as mulheres de Trelawney Way veem-na como uma mulher com uma educação superior e conhecimentos… ela inscreveu-se na Comunidade de Vida Cristã, por isso é capaz de falar sem parar sobre história, geografia, literatura, alusões clássicas, álgebra, o que quiseres. Contudo, ela nunca, nunca menospreza ninguém por não ter o seu nível de educação. Tem orgulho no seu gosto, é uma dona de casa exemplar e nunca se mete na vida dos vizinhos. Isso é um autêntico milagre! As mulheres de Trelawney Way não são um bando de duronas como nós no West End, mas também não pertencem a Catholic Hill. E Grace é a rainha delas.

— Eu percebo — disse Tufts. — Eu sou a irmã que mais a visita em casa, e ela está sempre ocupada com algum assunto relacionado com Trelawney. Viva a Grace!

— Os seus dezasseis meses de enfermagem também não foram desperdiçados — disse Kitty, pensativamente. — Uma mulher de Trelawney que tenha um filho doente vai primeiro ter com Grace e só depois disso é que vai ao médico. Os tempos estão difíceis e uma ida ao médico custa muito dinheiro. Geralmente, só precisam de Grace.

— Como sabes isso, Kits? — perguntou Edda, surpreendida.

— Mesmo no cume da Catholic Hill correm boatos.

A mente de Edda divagou. «Coitado do Jack!» Ditas as palavras, Edda levantou-se e dirigiu-se para o local onde Charles abandonara o jovem rejeitado.

— Anima-te — disse ela em voz alta. — Pode não parecer agora, mas a decisão de Grace poupou-te a uma vida de sofrimento considerável. Tu e ela não têm nada que ver um com o outro, Jack. Não quero parecer irónica, mas tenho a certeza de que aquele teu gato gordo e mimado sairia pela porta fora assim que Grace entrasse em casa, e não demoraria muito tempo até tu desejares poder fazer o mesmo. Grace não é fraca e indefesa. Ela é feita do aço mais duro. Os habitantes de Corunda vão acabar por perceber que o teu impulso de acolher Grace e os rapazes foi louvável. Era Grace que acabaria por sentir rancor e desdém. Nunca ninguém admirou uma pessoa pobre por casar com uma pessoa rica. Assim, os instintos de sobrevivência de Grace são magníficos, por isso ela fez o que tinha de fazer: recusar o teu gesto em público.

— E ridicularizar-me em frente de toda a gente.

— Que disparate! Tu ficas a parecer um cavaleiro de armadura brilhante. Ninguém pensa menos de ti por fazeres a proposta, e agora também ninguém pensa menos de Grace. Vocês os dois saíram imaculados da situação.

O corpo dele contorceu-se, um movimento que parecia bastante doloroso.

— O problema, Edda, é que eu estava ansioso por assentar com Grace. Eu tenho Corundoobar, vou sobreviver bem à Grande Depressão e gostaria de ter alguns herdeiros. Brian e John iam adorar aquela vida.

— Então, tenta o mesmo caminho, mas mais devagar — disse Edda, tendo isto um custo para ela sobre o qual não queria pensar. — Corteja-a como se deve cortejar uma viúva. As tentativas dela de te manter longe não vão durar muito mais do que o tempo que a porta da capoeira das galinhas leva a cair, ou as bichas-cadelas a invadir o terreno onde estão plantadas as batatas. Grace já está habituada a contar contigo, Jack. Assegura-te de que pode sempre fazê-lo.

A sua boca ficou mais fina, os olhos incendiaram-se.

— Nem pensar! — explodiu ele. — Não quero saber se a porta da capoeira de Grace se desfaz em bocados, e ela pode dar puré de bichas-cadelas aos filhos! Ela humilhou-me!

— Estou desiludida contigo, Jack — disse Edda.

— Oh, as irmãs a unirem-se contra tudo e contra todos, hem?

— Sim, sempre. — Os olhos de loba troçavam dele. — Sempre foste um mistério para mim ao longo de todos estes anos, Jack Thurlow, mas agora já não. Por baixo dessa atitude de homem duro da terra, está um homem de palha. Sem cérebro, sem estômago para aguentar a vida e, sem dúvida alguma, sem escrúpulos.

Edda virou-se e juntou-se ao grupo de mulheres, o peito a palpitar como se tivesse corrido vinte quilómetros a fugir de um assassino.

— Adeus, Jack? — perguntou Kitty.

— Preferia antes dormir com um espantalho! Tem muito mais dentro dele.

O ano de 1931 trouxe consigo uma terrível lição: as dificuldades económicas desta magnitude arrastariam toda a gente para baixo durante muitos e longos anos. As divergências ideológicas no seio do governo federal trabalhista foram agravadas pelas viagens de James Scullin ao estrangeiro à custa do Estado; quando por fim regressou à Austrália, em janeiro de 1931, a população ficara a conhecer suficientemente bem o seu número dois, Joe Lyons, para começar a gostar mais dele do que de Scullin.

Por Charles, Kitty tentou manter o fascínio relativamente aos nomes e às personalidades por detrás dos nomes, mas a política, como o tempo lhe vinha a ensinar, era coisa que se encontrava longe do seu coração. Considerava os políticos que conhecia pessoalmente pouco inspiradores, em nada diferentes da maioria dos homens. De uma forma geral, pensava ela, não cuidavam muito da aparência nem exibiam maneiras exemplares; entre a caspa, a pança flácida, os dentes estragados, a calvície coberta por uns quantos cabelos penteados de forma a disfarçar, os narizes tingidos de vermelho-escuro devido ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas e as nódoas de sopa nas suas gravatas, era um grupo horroroso.

— Se, ao menos, os microfones tivessem uma imagem associada! — disse ela a Charles. — Os políticos teriam de cuidar da sua imagem, porque as pessoas que votam neles conseguiriam vê-los em ação, como são e como se comportam. Depois de os ver, eu só votaria nuns poucos… será que as suas mulheres não veem?

— Eu não te dececiono — disse Charles, com alguma satisfação.

— É verdade, mas, fora de Corunda, quantos eleitores sabem disso?

Ai, incontestável!

Charles estava bastante consciente de que, desde a perda do seu filho, Kitty mudara a sua atitude em relação a ele; a questão de aprender a conduzir (um verdadeiro lapso da sua parte) era um dos indicadores disso. Sabendo que estava a ser irracional, ainda culpava as irmãs de Kitty, por muito que gostasse de cada uma delas, até de Grace. Apenas não enquanto cunhadas.

O mais difícil para ele entender era a reação de Kitty relativamente ao seu instinto protetor… porque será que a aborrecia tanto e cada vez mais à medida que o tempo passava? No final de 1930, Kitty implorara a Charles para engravidar novamente, mas quando este recusou, argumentando que Kitty ainda não descansara tempo suficiente desde a última vez, ela não aceitou as suas razões como válidas. Em vez disso, começou a enfiar-se na cama temporária em que Charles dormia, onde, é claro, o corpo traiçoeiro dele a recebia com prazer e a desejava intensamente. Ela ficava feliz, ele preocupado.

— Charlie, eu quero filhos! — disse ela, furiosamente. — Quero constituir a minha própria família, quero uma razão para viver! E não digas que és tu a minha razão de viver, porque não és! Tu vives para a política, para o hospital e para mim, por essa ordem. Mas onde está a minha política, onde está o meu hospital? Estou fechada num mausóleo vazio no cimo de uma colina, e quero uma casa cheia de filhos! Não quero esta casa que mais parece um salão de exposições, quero um lar… ouviste-me? Um lar!

— Vai acontecer, Kitty, vai acontecer! Mas espera, por favor, imploro-te que esperes!

Perto da Páscoa, Kitty foi falar com o pai e confessou-lhe os seus problemas.

— Não posso ir visitar as minhas irmãs — disse ela, caminhando com ele no jardim do presbitério, glorioso no verão —, porque preciso de falar com alguém mais velho e mais sensato, mas que seja sangue do meu sangue. Papá, já viu tudo o que havia para ver no seu tempo, tem de ser o senhor.

Caminharam a passos largos por entre mantos de flores, rosas e margaridas que mais pareciam pequenas fadas, ásteres e begónias, enquanto o velhote tentava compreender a sua filha mais amargurada… Oh, o que poderia ter acontecido se Maude tivesse sido uma mãe diferente! Ou a sua filha menos bonita?

— Estou aqui para te apoiar, Kitty — disse ele. — Conta-me.

— Tenho uma ideia na minha cabeça que não consigo afastar, papá, e sei que é uma ideia errada, mas isso não me impede de pensar nela. — Os seus olhos ficaram marejados de lágrimas que não caíram. — Eu não devia ter casado com Charlie. Oh, eu amo-o, não é esse o problema. No entanto, tenho a ideia de que Charlie é a razão da minha infertilidade, que Charlie e eu não conseguimos fazer bebés.

Thomas Latimer conduziu-a para um banco e sentaram-se os dois nele, depois virou-se para a sua filha, as mãos dela nas suas.

— Foi Maude quem te pôs essa ideia na cabeça, Kitty? — perguntou ele.

— Não! Honestamente, papá, não. Desde que casei que não falo muito com ela, mesmo quando ela me vai visitar. O pensamento dela é confuso, ainda não reparou?

— Sim, querida filha, já reparei.

— Não, a ideia é minha — disse Kitty. — Charlie e eu não conseguimos fazer bebés.

— A ideia é traiçoeira, mas falsa — respondeu o reverendo, com firmeza — e deves livrar-te dela. O teu marido é um homem perfeitamente capaz, muito adequado para ti enquanto pai dos teus filhos. O que quer que tenha acontecido ao pequeno Henry Burdum é um mistério, que não pode ser resolvido por uma conclusão inválida como a tua… que injustiça! Vá lá, Kitty, sabes que estás a ser injusta. Não tens qualquer indicação ou fundamento. Isso foi sugerido por algum médico?

— Não — disse ela, desalentada.

— Porque não tem qualquer fundamento, minha filha, nenhum. O ato de conceber uma criança não é carpintaria, onde duas tábuas podem não encaixar, ou um puzzle com uma peça em falta. É uma dádiva de Deus. E o que Deus dá, só Deus pode tirar. O Todo-Poderoso pode usar os humanos como peões para realizar as Suas obras, mas continuam a ser d’Ele e só d’Ele. Estás à procura de uma vítima, Kitty, mas culpares o teu marido é absolutamente errado.

Kitty ouviu, as lágrimas livres para correrem pelas suas faces.

— Sim, papá, estou a ouvir — sussurrou ela —, mas e se eu continuar a perdê-los?

— Então, será essa a vontade de Deus, mas acho que não existe razão alguma para isso acontecer. — O reverendo retirou o lenço do bolso e passou-o pelo rosto de Kitty, entregando-lho, em seguida. — Toma, assoa-te, criança tola.

Repreendida, ainda que estranhamente reconfortada, Kitty assoou-se, secou as últimas lágrimas e olhou para o pai com amor. Ele está a ficar velho, pensou ela, e algo o está a preocupar. E não sou eu.

— O que se passa consigo, papá? — perguntou ela.

— É a tua mãe. Ela não está apenas um pouco confusa, ela não está boa da cabeça — disse ele.

Kitty deu um pulo.

— Oh, papá!

Os lábios dele conseguiram encontrar a fala; o reverendo recuperou o seu lenço e usou-o.

— Ela sofre de lapsos de memória que se estão a tornar cada vez mais frequentes e mais notórios. Esquece-se de onde põe as coisas, sobretudo o dinheiro, que eu desconfio que ela tenta esconder para depois me dizer que eu não lhe dou nenhum. — A sua voz vacilou e ele esforçou-se por a controlar. — O pior de tudo é óbvio: não posso confiar nela no que diz respeito a dinheiro e não me atrevo a dar-lhe mais do que alguns tostões quando ela sai de casa.

O que dizer, o que fazer?

— Então, vamos até ao presbitério tomar um chá com ela — disse Kitty, decidida. — Quero vê-la com os meus próprios olhos.

Como ela tinha disfarçado bem a sua demência durante o funeral de Bear Olsen! Embora a experiência de enfermagem de Kitty fosse maioritariamente com crianças, ela já vira a sua dose de pacientes com Alzheimer para saber o quanto conseguiam ser astutos a esconder a sua condição de toda a gente, e neste aspeto Maude não era diferente. Ela estava obviamente a comer demasiado; o seu rosto inchara como um balão e o volume espartilhado do seu corpo precisava de um tamanho acima daquele que tinha vestido, as costuras debaixo do braço a rebentar, os bolsos muito distanciados uns dos outros, os folhos esticados. Já tinham passado três meses desde a morte de Bear? Maude engordara imenso.

— Minha querida Kitty! — exclamou ela, virando-se como se fosse falar para uma sala cheia de gente. — A minha filha não é a criança mais maravilhosa que alguma vez viram? — continuou ela com a voz esganiçada. — Esse rosto! Olhos cor de malva! Helena de Troia! Minha linda, linda Kitty!

— Já estou um bocadinho crescida para essa descrição, mamã — disse Kitty pelo aperto que tinha na garganta.

— Não, nunca! A minha Kitty, não!

Maude continuou e continuou até Kitty se conseguir afastar e deixar o reverendo a lidar com a sua esposa, que continuava a falar incessantemente sobre a sua linda, linda filha.

 

Foi Tufts que Kitty encontrou primeiro, muito atarefada num gabinete repleto de livros e por detrás de uma secretária com pilhas de papéis em cima. Vestia um uniforme desenhado por si mesma, um vestido simples com linhas austeras e de um tom castanho-tabaco, e apanhara o cabelo louro-escuro num coque. O resultado era uma mulher tão bonita quanto profissional, uma proeza difícil de alcançar.

— Sabias que a mente da mãe se estava degradar? — perguntou Kitty.

— Sim.

— Há quanto tempo?

— Quatro meses.

— Porque é que ninguém me contou?

— Charlie proibiu. O bebé, et cetera.

Kitty emitiu um gemido baixinho.

— Bem, Tufts, chega disso, ouviste? Eu não sou uma criança! Não sou deficiente mental! O meu corpo, a minha alma e a minha mente não são propriedade de Charles Burdum! Só de pensar que nos últimos três meses almocei todas as quartas-feiras contigo e com Edda e nunca soube de nada! Estou tão furiosa! Como é que Charlie se atreveu a fazer-me isto? Maude é minha mãe!

— Acalma-te, Kits, eu estou do teu lado — disse Tufts, calmamente. — Tu conheces bem o Charlie… um autocrata. Nós mantivemos o silêncio, mas contra a nossa vontade.

— O problema é que, de uma maneira ou de outra, Charlie tem poder sobre todos nós — disse Kitty, deixando-se cair na cadeira. — Tu e Edda têm de se submeter a ele porque é vosso chefe, a Grace porque ele a sustenta. E eu, ai, porque sou sua esposa. Bem, vai contra a ordem natural das coisas que nós, as Latimer de Corunda, estejamos à mercê de um pommy Burdum.

— Não faças nada precipitado, Kitty, por favor.

— Precipitado? É claro que não. Apenas pretendo ganhar coragem para confrontar o leão na sua caverna hoje à noite de uma forma bastante civilizada.

— Isso não me deixa muito descansada. Por favor, faz as coisas como deve ser — disse Tufts.

— Assim farei. O papá fez-me ver que o que Deus dá, só Deus pode tirar. — Kitty acenou com a mão na direção das estantes de livros. — Estás a aprender muito?

— Comecei a frequentar a universidade… é interessante, embora repetitivo. O que eu mais gosto é de mandar.

— Só de pensar que houve um tempo em que tive esperança de que tu e Liam ficassem juntos — disse Kitty, revelando as covinhas do rosto.

— Liam e eu? Nem por sombras! — disse Tufts, rindo. — Nós somos amigos, não namorados.

— Não podem ser as duas coisas?

— Algumas pessoas, talvez, mas nós não.

— E para quê adicionar um novo sabor à mistura se ela já sabe magnificamente bem? Tens toda a razão, Tufty.

 

Charles Burdum estava cansado. A sua carreira política não ia a lado nenhum, embora os seus livros de exercícios estivessem a ficar todos preenchidos. Apesar das suas convicções relativamente à forma de sanar a Grande Depressão, não tinha mais nada em comum com Jack Lang, pois lamentava a recusa de Lang em pagar os juros devidos da dívida externa… táticas de rapazinho endiabrado, imaturo e irresponsável.

Quando casou com Kitty, estava confiante de que a poderia transformar na parceira política de confiança e ajudante de que tanto precisava; a política era um meio vocal, os seus executantes particamente invisíveis. Tudo dependia do nível de sedução com que um homem conseguia falar com o público. E, os livros de exercícios tinham-no informado com o seu pensamento bem encadeado e disciplinado, um homem com aspirações políticas tinha de começar por formar o seu próprio santuário. Só depois disso poderia pensar em parceiros e em público. Ainda assim, bem a meio de 1931, Charles Burdum não tinha o seu próprio santuário. Nem sequer tinha uma esposa informada e com inclinação para a política. O que tinha era uma mulher ansiosa por ter filhos. Oh, as crianças eram maravilhosas, um homem tinha de as ter por várias razões, mas quantos corações masculinos assumiam ter filhos como uma prioridade nas suas vidas? Uns quantos raros, calculava Charles, incluindo-se nesse grupo. Oh, para ter alguém em casa com quem pudesse discutir política!

Estava tão, mas tão terrivelmente cansado… O que lhe apetecia mesmo fazer, pensou Charles ao sair do Packard e enquanto subia os degraus que davam para o pórtico, era beber dois uísques fortes e ir direto para a cama, sem mulher, sem jantar, uma hibernação. Não era uma noite de Kitty, por mais que a amasse.

Bastou um olhar para o rosto carrancudo de Kitty para perceber que tal ambição era vã. Charles respirou fundo e preparou-se mentalmente para a guerra. Que raio teria ele feito desta vez?

— Hoje — disse Kitty seguindo-o até ao armário onde se encontravam as garrafas e os copos —, descobri que a minha mãe está mentalmente perturbada há meses e que tu proibiste toda a gente de me contar. O que te deu esse direito, Charlie?

Charles serviu um uísque muito forte e adicionou um pouco de água gaseificada do sifão. Até o primeiro gole ter descido pela garganta, Charles não respondeu, depois, ao sentir um pouco de energia a percorrer o seu corpo dorido, franziu o sobrolho.

— O direito de um marido poupar a sua esposa — respondeu ele, dando outro gole.

— Não tens o direito de decidir o que me contam e o que não me contam, se devo ser poupada ou não — disse ela entredentes. — É um insulto inimaginável! Eu sou uma mulher adulta e capaz de tomar as minhas próprias decisões, sobretudo quando diz respeito ao raio da minha família!

Charles sentia-se melhor e voltou a encher o copo.

— Na verdade, minha querida, a partir do momento em que te casas, o que dizes deixa de ter tanta importância. — Charles sentou-se, a imagem perfeita da compostura. — Até certo ponto, por lei, és como um bem que me pertence. O teu dinheiro torna-se automaticamente meu e precisas do meu consentimento escrito para pedires empréstimos ou fazeres qualquer tipo de negociação. Como minha esposa, posso obrigar-te a viver comigo e a coabitar comigo.

A pele de Kitty perdera a cor e os olhos brilhavam num tom de roxo, como se fossem de pedra; ergueu uma mão, a tremer, e cobriu a boca.

— Já percebi. És o Soames Forsyte — disse ela.

— Decerto que não — respondeu ele, bebericando. — Um homem que viola a esposa é um canalha que merece ser abatido a tiro. — Charles inclinou-se para a frente. — Por amor de Deus, Kitty, cresce! Como se eu, de entre todas as pessoas do mundo, alguma vez te tratasse como um tirano. Eu amo-te com todo o meu ser. Se isso, por vezes, significa que tendo a agir como um déspota contigo, é no mínimo desculpável. Foi apenas para te poupar uma preocupação desnecessária que eu pedi a todos para não te falarem do estado de Maude. O que poderias ter feito, senão atormentares-te por causa de algo tão inevitável como a demência? Uma vez que se torna um facto clínico, não a podes controlar ou alterar o seu curso. Acredita em mim, nenhum membro da tua família fez qualquer objeção ao meu pedido de silêncio.

— Isso continua a não te dar o direito de decidires por mim! — gritou ela. — Eu sou uma pessoa, sou dona de mim. Podes dizer o que quiseres sobre as mulheres serem propriedade dos maridos, Charlie, mas nunca vais ser dono de mim!

A sensação de bem-estar invadia cada centímetro do corpo dele; Charles recostou a cabeça na poltrona e sorriu para Kitty com um sentimento vago de adoração. — Vejo sempre o uísque como uma manta de tartã quentinha posta por cima dos joelhos nus e ossudos da mente de um homem — disse ele, demasiado cansado para se zangar.

— Não vou conseguir chamar-te à razão.

— Receio que não.

— Vou ter outro bebé — disse ela.

Os olhos dele arregalaram-se.

— Oh, Kitty! Isso é imprudente.

— O segundo filho de Grace foi mais próximo do primeiro que este é da minha primeira tentativa.

Os olhos de Charles fecharam-se novamente com lágrimas que Kitty não conseguia ver.

— Imprudente!

— Vai para o inferno, Charlie!

 

A meio daquela mesma noite, Kitty sofreu um aborto espontâneo.

Foi o tormento mais amargo, mais devastador da sua vida, agravado pelo que se passara anteriormente; ela fora contra os conselhos médicos para o conseguir, incluindo do seu marido médico que não fizera qualquer esforço para esconder a sua oposição.

«Imprudente», dissera ele.

Quando as cãibras a acordaram, o seu primeiro pensamento foi agradecer a Deus pelo facto de Charles ter desfrutado o seu uísque de tal maneira que adormecera no sofá. Só nessa altura se apercebeu de que estava a sangrar e porquê. A sua boca abriu para soltar um grito silencioso… não, não, não!

— Oh, por favor, meu Deus, tudo menos isso! — balbuciou ela vezes e vezes sem conta. As lágrimas inundaram-na, torrentes delas, tornando o seu rosto um lençol de puro desespero… o meu bebé, o meu pobre bebé!

Mais tarde, quando recuperou a sanidade, não conseguia pensar numa razão, nem mesmo uma muito fraca, para justificar o que acontecera nos segundos depois de perceber que tinha abortado; entrara em pânico, o pânico carregado de culpa de uma criança que cometera um pecado demasiado horrível. Ninguém pode ficar a saber! O que lhe fariam por ter desobedecido, por ter engravidado quando lhe era proibido?

Oh, vou estar metida num sarilho tão grande se Charlie descobrir!

Levantando-se da cama à pressa, correu a buscar toalhas, trapos, um balde, água fria, sabão de éter, todas as coisas de que precisava para limpar a porcaria antes de alguém descobrir a coisa horrível que fizera… um pecado, um crime, uma terrível desobediência!

Os baldes, feitos de metal galvanizado, estavam enfiados uns nos outros; caíram no chão fazendo um barulho capaz de acordar os mortos. E acordaram Charles também.

Charles encontrou-a, ensanguentada e a balbuciar, encolhendo-se dele como se achasse que ele a ia matar, quando tudo o que ele queria fazer era segurá-la nos braços e curar o seu sofrimento. Mas até Ned Mason e Edda chegarem lá, o máximo que conseguiu fazer pela sua mulher frenética e balbuciante foi dar-lhe uma injeção que a pôs inconsciente.

— Se calhar, devia ter chamado Tufts — disse Charles a Edda depois de Kitty estar deitada numa cama diferente, ainda inconsciente, mas fora de perigo.

Ned Mason fora para casa, abanando a cabeça pela teimosia das mulheres, mas preocupado com o que acontecera; na sua opinião, Kitty estava fisicamente saudável e deveria conseguir ter filhos no futuro.

— Não, eu sou a irmã certa para este tipo de situações — disse Edda. — Sou perita em raladores de queijo e cordas de enforcar, tudo o que atormenta Kitty. Tufts é demasiado nova para se lembrar, por isso, fizeste bem.

Charles estivera a chorar, livre de o fazer agora que a crise chegara ao fim.

— Porque será que ela olhou para mim como se achasse com toda a certeza que eu estava zangado com ela? — perguntou ele. — Eu juro-te pela minha mãe, Edda, que nunca, através de palavras ou olhares, muito menos atos, dei à minha mulher razões para ter medo de mim!

E, olhando-o nos olhos, Edda acreditou nele.

 

Quando Kitty acordou de manhã, sentia-se muito mal, mas estava consciente do que acontecera e, aparentemente, compreendia o porquê.

— Fui gananciosa — disse Kitty a Edda. — Não esperei tempo suficiente para as coisas assentarem e sararem como deviam. Não vai voltar a acontecer.

Muito aliviado, Charles viu por si mesmo Kitty regressar ao normal no final da semana a seguir ao aborto. A raiva e a agressividade tinham desaparecido, bem como a sua tendência para o culpar por todos os seus problemas.

— Tem paciência, minha querida — aconselhou ele. — Espera seis meses, depois tentamos outra vez.