Algumas lições de psicologia e pedologia
Da Inteligência do Escolar e da Sua Avaliação[11]
Escolas, escolas, construí escolas, se grita à maneira de Sarmiento, na crença de que elas por si transformarão e melhorarão a sociedade.
Professores, professores, bons professores, exclamarei eu, porque êles são indispensáveis para fazer as boas escolas. E antes talvez de melhorar os processos da sua formação, talvez que antes disso seja preferível fazer o que estamos aqui a fazer: dignificar a profissão, fomentar a consideração por ela, atrair os mais aptos e criar o entusiásmo e a fé, que nesta modesta mas fundamental profissão ou, melhor, sacerdócio do professor primário, mais do que em nenhuma são precisos.
Proteger o professor, honrar o professor, e fazer com que êle seja o que deve ser e saiba honrar a sua profissão é contribuir para a valorização da nossa terra. Êles tudo têm em suas mãos, porque, como já uma vez eu mesmo disse, nelas têm a Patria e os seus soldados.
A vitalidade de uma nação pode julgar-se pela maneira por que ela prepara e considera e paga os seus professores.
¡Senhoras e senhores! ¡Honrai o professor!
Disse.
DA INTELIGÊNCIA DO ESCOLAR E DA SUA
AVALIAÇÃO[11]
«Vuota di sentimento e di azione l'intelligenza è una forma inconcepibile.»
Prof. S .
Á semelhança do que têm feito outros paises em que a politica da Educação é politica dominante e onde, portanto, a arte de governar os homens se prende íntimamente e depende intencionalmente da de governar as crianças, à semelhança de algum dêstes países onde a felicidade da Nação se trabalha e fórma principalmente na escola, abriu-se êste ano entre nós um curso de aperfeiçoamento para professores primários, em que eu tenho a honra de inaugurar o curso de Psicologia experimental. Em bôa hora o seja.
Longe de me poder considerar à altura dos Mestres, a quem lá fóra se tem confiado êsse ensino de aperfeiçoamento, extensivo até aos professores de escolas normais e aos inspectores primários, esforçar-me hei no entanto por me pôr ao par deles no desejo de, segundo os seus ensinamentos, fazer com que as senhoras e os senhores adquiram o mais rápidamente possível noções e hábitos que se possam traduzir num imediato melhoramento do ensino pelo melhoramento dos mestres. Não pretendo tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo aperfeiçoar a arte de aproveitar a cultura e as aptidões que já têm, em grande parte até, graças à sua experiência profissional.
Não farei o que costumo fazer no meu curso regular, agora de dois anos completos e onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente procuro: 1.º Arreigar a convicção de que os fenómenos psíquicos são fenómenos de reação nervosa, susceptíveis de serem estudados por métodos objectivos, e portanto de que a Psicologia é uma sciência biológica, uma sciência do quadro das sciências naturais; 2.º de que a educabilidade é uma propriedade do sistema nervoso; 3.º de que essa, propriedade se pode estudar e cultivar segundo as normas habituais das experiências scientíficas; 4.º de que a avaliação da educabilidade é o problêma, psicológico fundamental do professor.
Quási saltarei sôbre os três primeiros números do meu programa habitual e caírei sôbre o quarto, e estudarei, em sua companhia, aquilo para que os julgo mais habilitados e que mais rápidamente se poderá traduzir num melhoramento pedagógico, de origem puramente psicológica: A inteligência do escolar e a sua avaliação; tanto mais que para êsse estudo se encontram prontos a serem utilizados pelos mestres dois pequenos volumes ao alcance de todos: La medida del desarollo de la intelligencia en los niños de B e S , tradução espanhola do professor do Instituto nacional de surdos mudos, cégos e anormais, de Madrid, sr. O , publicado em 1918, e a Contribuição para o estabelecimento de uma escala de pontos dos níveis mentais das crianças portuguêsas, publicada por dois ilustres compatriotas nossos, a quem a bibliografia pedagógica moderna portuguêsa já bastante deve: o sr. A a S e sua esposa a Sr. D. L S , contribuição publicada em volume, em junho de 1919.
Num curso de psicologia objectiva, os fenómenos psíquicos são considerados como reflexos cerebrais, como lhe chama B , reacções exteriores que dependem da experiência de
cada indivíduo, durante a sua vida. Estudam-se as reacções do indivíduo em relação com o meio ambiente, incluindo nêste o meio social e a própria escola.
As reacções que particularmente estudamos, os fenómenos que constituem o objecto da Psicologia objectiva, e que nela os procuramos estudar como se estudam os outros fenómenos da Natureza, dependem não só da estrutura do indivíduo e da acção da ocasião, mas tambêm de acções e reacções anteriores a essa ocasião.
A acção de ocasião junta-se, associa-se nos seus efeitos aos efeitos das acções anteriores, de maneira que a reacção é influída e regulada por estas. Eis a essência do fenómeno mental.
A educação não é mais do que o aproveitamento desta propriedade do sistema nervoso, ou mais precisamente dos hemisférios cerebrais, desta memória associativa (L ), com o fim de, por meio
dela, regular a actividade, o procedimento, a acção do indivíduo.
A educação é a utilização da memória associativa, é o regulamento intencional da experiência do indivíduo, é a formação, a cultura, em obediência a certos princípios e interêsses, do poder da sua memória associativa.
Será esta a Inteligência?
Variadas e, por vezes, discordes são as definições que se dão, e as significações que se atribuem a esta palavra.
A inteligência talvez se possa definir, em psicologia objectiva, como uma manifestação externa da memória associativa, que se caracteriza por actos de adaptação às variações das circunstâncias. É, até certo ponto isto, se assim se pode dizer, uma tradução em linguagem fisiológica da concepção que B exprime quando
diz que a «função essencial da inteligência consiste em encontrar em quaisquer circunstâncias os meios de se tirar de dificuldades.»
É a inteligência uma utilização da memória associativa. É a propriedade de ajustar os traços das reacções anteriores, isto é, a experiência individual anterior, à experiência da ocasião, para uma adaptação a novas circunstâncias, por meio de reacções reguladas pela experiência anterior do indivíduo, repito.
A inteligência sob este ponto de vista, é uma manifestação externa, global, da memória associativa, e que se avalia pela sua finalidade, pelo valor do ajustamento, em rapidez e perfeição, às variações quantitativas e qualitativas das circunstâncias.
Ora esta fórma de actividade mental deve depender não só dos conhecimentos própriamente ditos, das ideas, mas tambêm do sentimento de prazer ou de dôr que acompanhou as experiências anteriores e acompanha as actuais, isto é, da afecção, se se quizer adoptar o termo que o sr. A S emprega para designar o elemento sentimental (Da Natureza da afecção, separata da «R A », 1913, pág. 8.)
A inteligência revela-se, portanto, em actos em que as ideas e os sentimentos influem, como nos tropismos influem certas substâncias.
A inteligência depende do interêsse, das tendências, que, por sua vez, são funções da estrutura do indivíduo, da natureza da sua experiência anterior e da natureza da experiência de ocasião.
Sendo assim, fácil é compreender porque é que se podem considerar como não inteligentes, certos indivíduos cuja fórma de reacção mental de adaptação se revela dificiente em determinadas circunstâncias, em certos meios.
Percebe-se que, com B , se distinga a inteligência escolar da
inteligência extra-escolar, se porventura as circunstâncias da escola são muito diferentes das de fóra da escola e os interêsses que a escola desperta são diferentes do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar despertam.
Há inteligências que se não revelam na escola.
Verdadeiramente, completamente inteligente, porêm, é o que se ajusta a quaisquer circunstâncias, é o que se mostra inteligente em qualquer meio.
A inteligência não é apenas a inteligência que consiste em adaptar respostas a preguntas, na escola, falando, escrevendo ou calculando, mas tambêm a que se revela por actos e gestos de outra ordem, em circunstâncias de tôda a ordem.
A inteligência julga-se pelo valor adaptivo do gesto ou do acto considerado debaixo do ponto de vista da sua prontidão, rapidez, exactidão e perfeição.
A inteligência não tem um significado cognoscitivo apenas, revelação e utilização de conhecimentos; tem tambêm um significado moral e um significado estético, que se revelam na reacção às variações das condições morais e estéticas do meio, no condicionalismo ético e estético da experiência.
Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, que por exemplo, como faz V B , se classifique a inteligência em espécies: inteligência clássica, isto é, inteligência que se revela principalmente nos trabalhos da classe, inteligência prática e inteligência estética.
Compreende-se tambêm que com propriedade se possa dizer que há uma imbecilidade intelectual, uma imbecilidade estética e uma imbecilidade moral.
K considerando a inteligência, ou melhor a actividade
intelectual, não própriamente sob o ponto de vista da sua finalidade, mas no do seu mecanismo, descreve, quatro tipos de inteligência, tendo como inteligência tudo aquilo que constitui acto de adaptação individual, e assim descreve: um tipo de inteligência fisiológica, um tipo de inteligência senso-motriz ou perceptiva, um tipo de inteligência representativa e um tipo de inteligência conceptual ou conceptiva.
A primeira excluo-a eu aqui, porque não depende de fenómenos da memória associativa. São fenómenos de adaptação de outra ordem, pura adaptação fisiológica, em que a própria imunização tem o seu lugar.
Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma noção.
Na inteligência senso-motriz ou perceptiva o que há, o que a caracteriza é uma adaptação imediata de movimentos e sensações de ocasião. Estes actos não se manifestam, não se repetem senão quando estímulos da mesma natureza actuam em circunstâncias semelhantes.
Por exemplo certos movimentos que se executam no decurso do jôgo do foot-ball, movimentos de equilíbrio, de ataque, de defesa ou melhor os movimentos que, quando tropeçamos e vamos a cair, fazemos para nos equilibrarmos.
São as próprias sensações que experimentamos, que directamente provocam e regulam os actos de adaptação. De factos em relação com esta espécie de inteligência tratei eu num artigo sôbre mutilados da mão, que publiquei na Medicina Moderna do Pôrto, com o título Inteligência motriz.
Na Inteligência representativa os actos da adaptação podem ser provocados e regulados apenas por símbolos que se tenham associado a sensações anteriores. O acto pode executar-se em virtude duma experiência anterior regulada por acções semelhantes que víssemos executar ou que nos fôssem descritas. É a experiência anterior de outros a regular a nossa.
Na conceptual ou conceptiva o acto de adaptação revela-se não só na ausência de uma experiência do mesmo tipo, feita pelo próprio ou por outrem, vista ou descrita, como se dando nas mesmas circunstâncias, mas em resultado de experiências várias e diferentes, do próprio e de outros.
Uma pessoa quando salta dum carro em movimento, pode fazê-lo com sucesso ou porque já o tenha feito outras vezes, e portanto associe as acções sensoriais de momento às reacções anteriores (inteligência senso-motriz), ou porque já tenha visto saltar outrem ou lhe tenham dito como se deve saltar (inteligência representativa), ou porque reacções diferentes que tenha por si mesmo experimentado, observado ou visto descritas por outros, se tenham associado e combinado por forma a gerar o conhecimento das leis dos corpos em movimento, o que associado às acções do momento regula o acto de adaptação (inteligência conceptual).
Em tôdas estas formas de inteligência se verifica a associação dos resultados das experiências anteriores aos das experiências do momento, da mesma natureza ou não. O acto intelectual é um acto de adaptação e de revelação da memória associativa.
Na escola, onde se governa e conduz a experiência do indivíduo, em atenção ao futuro, se utilizam ou devem utilizar e cultivar todos os três tipos de inteligência, e, para a instrução, principalmente os dois últimos.
Mas nem tôdas as idades, nem em todos os indivíduos da mesma idade a inteligência tem o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem o interesse que para o professor tem o saber e o poder analisar os actos intelectuais, por forma a, se assim se pode dizer, obter a fórmula qualitativa e quantitativa da inteligência de cada um. Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se a inteligência? Pode esta avaliar-se? Pode ser medida? Pode.
A inteligência é, se quizerem empregar os termos de S : «a
capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações interpretação adequada e conformar com ela a sua reacção».
A inteligência, perante isto e perante o que lhes tenho dito, deve depender da estrutura do indivíduo, das propriedades inatas, do momento do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza e valor da sua experiência anterior, da sua cultura, regulada ou não intencionalmente por outrem.
Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se sôbre a inteligência, estudando a estrutura, as características biológicas do indivíduo, como se pode até certo ponto julgar do valor de um motor, das suas capacidades, pelo estudo do maquinismo, da sua organização, da sua anatomia, da sua estrutura, como se podem prever certas propriedades químicas, certas reacções, observando caracteres organo-nolépticos e físicos de certos corpos. É esta a base da avaliação da inteligência nos métodos que assentam no estudo das correlações psico-somáticas e psico-fisiológicas.
A inteligência pode ser avaliada tambêm analisando a forma, o mecanismo de certas reacções psíquicas elementares, sujeitando o indivíduo a provas psíquicas de diferente tipo e natureza em que sobretudo influi a maneira da actividade intelectual, o tipo ou a espécie da inteligência.
Pode mesmo usar-se provas experimentadas em muitos, usando o que se chamam tests, que não são outra cousa do que verdadeiros reagentes mentais titulados, ou, se quizerem tambêm verdadeiros padrões, tipos de reacção, em que a forma desta e a sua velocidade, foi préviamente observada e medida em muitos. É um tipo de avaliação em que se estuda ou analisa principalmente o mecanismo do acto intelectual, decomposto em elementos. É a base dos métodos de avaliação fundados no estudo das correlações psico-analíticas. Mas assim como na apreciação ou na classificação de um tipo de vinho não basta a analise própriamente dita; há que proceder a uma apreciação global, tendo em vista o fim comercial, por exemplo, a que visa a apreciação, assim tambêm no exame de inteligência é por vezes necessário recorrer a um exame global, em que não se atende apenas ao mecanismo do acto, mas tambêm à sua finalidade e à finalidade da sua avaliação.
Ora o educador não deve apenas preocupar-se com o mecanismo do acto intelectual do aluno, para o caracterizar e escolher o método de ensino que mais convenha. O educador não toma o aluno em branco, se assim se pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem de regular, a experiência intelectual que êle tem de conduzir, tem um passado que influi e está em estreitas relações com os fins educativos. A experiência anterior do aluno tem uma grande importância e valor, e está dependente da sua idade e do meio em que viveu e vive.
Ao professor, no exame escolar da inteligência, convêm-lhe reagentes, tests, que precipitem em globo, em massa, se assim se pode dizer, a inteligência e dêem a forma e a natureza desta, e tambêm a da sua experiência anterior.
Se há questão pedagógica em que se possa falar de criança portuguesa, e duma maneira geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, é a proposito da inteligência.
O momento histórico regula a inteligência e deve regular a sua formação.
A psicologia de que carece o educador não pode nem deve viver afastada da ética. E se há questão psicológica em que há que atender aos fins da educação, é a da inteligência.