Algumas lições de psicologia e pedologia

António Aurélio da Costa Ferreira · Capítulo 7 de 15

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Algumas lições de psicologia e pedologia

A Agudeza Visual e a Auditiva Debaixo do Ponto de Vista Pedagógico[8]

Lisboa, 19-IV-915.

 

A AGUDEZA VISUAL E A AUDITIVA DEBAIXO DO

PONTO DE VISTA PEDAGÓGICO[8]

 

M S M S

M A

 

Sejam as minhas primeiras palavras, no dia de hoje, de saúdação e agradecimento e principalmente de agradecimento para com S. Ex. a o actual Ministro da Instrução Sr. Prof. F S , e para com o Conselho desta Escola a quem sobretudo devo a honra de poder novamente retomar êste logar, grato para mim como nenhum outro, e onde poderei continuar a série de lições que o ano passado iniciei, desejando e esperando que elas, pelo menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam proveitosas como o ano passado tenho a certeza que foram.

 

M A

 

Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, embora seja a lição de abertura do meu curso dêste ano, não é no entanto a primeira lição que êste ano vos dou. A primeira foi aquela que cada um de vós recebeu, quando eu, acedendo ao criterioso convite do Sr. prof. T F , secretário desta Escola, procedi à medida da agudeza visual e da auditiva de cada um dos que pretendiam matricular-se, a fim de que na sua distribuição pelas turmas e pelas salas se atendesse às indicações tiradas daquele utilíssimo exame.

Procedi a êsse exame não como médico, mas como professor, e procedi por fórma a dar-lhes uma norma de inspecção, segundo a qual todos, no exercício das suas funções, em qualquer escola que seja, poderão proceder a ela, e por meio dela classificar, segundo a visão e a audição, os seus alunos em um dos três grupos:—supra-normais, normais, infra-normais, distribuindo-os nas salas das classes pela maneira que mais convêm ao ensino: adiante os que ouvem e vêem pouco, ao meio os que vêem e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem e vêem melhor. Tive sempre tambem o cuidado de, quando verificava a existência de anormalidade, ou melhor, quando encontrava candidato que via ou ouvia a uma distância notávelmente inferior àquela a que a maioria costuma vêr e ouvir, tive sempre o cuidado, dizia, de lhes aconselhar a que se dirigissem a médico competente para que se julgasse da causa da inferioridade e se corrigisse esta, se porventura isso fôsse possível; enfim, para que se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer com que cuidassem da saúde de órgãos importantíssimos para todos e principalmente para quem aprende e para quem ensina, mas tambêm quiz assim indirectamente aconselhar-lhes ou apontar-lhes a maneira de proceder que convêm que adoptem quando tiverem como eu, na sua qualidade de professores, de examinar e medir a agudeza visual e auditiva dos seus alunos.

A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas escolas sobretudo à custa de excitações visuais e auditivas. O professor dirige-se principalmente à vista e ao ouvido do aluno. Se vista e ouvido não estiverem em condições de aprender nítidamente, de serem clara, forte, profunda e agradávelmente impressionados, a instrução não se fará ou far-se há defeituosa e deficiêntemente; a falta de aproveitamento com facilidade se fará notar.

Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba por deixar de prestar atenção; não se aplica, não se instrui e não se educa tambêm, como deve ser, porque a experiência é pouca e má, porque não excita convenientemente os sentidos, porque não enriquece convenientemente o cérebro em imagens, precisas e nítidas. Não tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não desenvolve a inteligência.

Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento dum grande número de propriedades e tal é o papel que as imagens visuais representam na cerebralidade, na compreensão das cousas, que G G , num artigo notável sôbre as condições ópticas e fórma visual da inteligência, disse: «a inteligência parece ser uma espécie de faculdade óptica.» Fisiologistas e histologistas têm demonstrado que a visão tem uma influência importantíssima no desenvolvimento dos centros cerebrais, e vários médicos têm demonstrado tambêm que muitas vezes o atraso intelectual nas crianças, que os franceses chamam arriérés, nos débeis mentais ou atardados como se vai dizendo em português, o atraso, a inferioridade resulta muitas vezes dum defeito de visão. Vários casos se apontam tambêm de perfeita normalização de crianças anormais-inferiores, por simples tratamento ou correcção conveniente do seu defeito visual. Êstes anormais são verdadeiros anormais de ocasião ou anormais por deficit sensorial, como os chama L . E já que vos estou falando das relações da visão com o desenvolvimento intelectual, com muito prazer e com muita utilidade para vós vos chamarei a atenção, convidando a lê-la, para a conferência realizada em 20 de Maio de 1914, na Sociedade Portuguesa de Estudos Pedagógicos, pelo nosso distinto Inspector Geral de Sanidade Escolar e meu muito presado amigo Dr. C S , conferência intitulada: Influência do estado da visão sôbre o desenvolvimento intelectual e físico das crianças.

Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer a propósito da inferioridade da agudeza visual, poderei dizer tambêm a propósito da baixa ou redução da agudeza auditiva. A criança que ouve mal, compreende mal, acaba por desinteressar-se, distrai-se, deixando de escutar e aprender, atrasando-se na instrução por falta de noções que lhe ministram oralmente e que ela não aprende, atrasando-se na educação, por deficit de excitações sensoriais auditivas. O professor B , de Munich, notou que quanto maior

fôr a dureza do ouvido, tanto menor é o desenvolvimento intelectual. E R no seu importante livro: La parole et les troubles de la parole, conta que numa classe de crianças semi-surdas, em Berlim, classe composta por 12 alunos, entre os quais havia 4 que tinham sido apontados como intelectualmente inferiores, êstes se mostraram como perfeitamente aptos para o trabalho escolar e provaram ter uma inteligência perfeitamente normal, logo que foram colocados num meio em que se os educou tendo em vista a sua inferioridade física.

A dureza do ouvido deforma as imagens auditivas e a criança procurando reproduzir os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia palavras deformadas, adulteradas, sofrendo assim dum defeito de pronúncia por simples defeito da audição.

A redução da agudeza visual e da auditiva veem a ter tambêm uma influência importante no feitio moral daqueles que delas sofrem. A má compreensão dos factos que se passam em redor e de que tomam conhecimento por intermédio de órgãos insuficientes e a dificuldade de comunicar com as outras pessoas, acarretam muitas vezes conseqùências mais ou menos emocionantes que podem perturbar o carácter. Lembrem-se das diferenças psicológicas, de ordem moral, que todos sabem que existem entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o que vê. E neste momento, ao tratar-se dêste assunto, eu relembro a transformação que se operou no meu espírito, e a alegria que experimentei, quando pela primeira vez eu, que era um míope inconsciente, olhei para o que me cercava, através de umas lunetas de vidros divergentes. Corrigi a minha vista e então comecei a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas vezes não seguia o que se expunha no quadro preto, por supôr que isso era só para os que junto dêle estavam, e comecei então tambêm a usufruir uma maior soma de prazer, o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha concepção do mundo modificou-se, melhorou. Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, se me permitem o termo.

E lembrar-me eu que entre vós, segundo as minhas recentes observações, há, de 43% de inferiores ou defeituosos da visão, apenas uns 10% com a vista corrigida! Correi já, por vosso interêsse, aos médicos oculistas; eis o meu conselho.

Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de infra-normais que a observação me levou a encontrar, na população desta Escola, que não se descuidem tambêm, porque é possível que nalguns se trate de defeito corrigível, talvez apenas de uma obstrução ocasional, que simples lavagens ou duches auriculares farão desaparecer. Devo dizer-lhes que as percentagens que acabo de apontar dizem apenas respeito a alunos com inferioridade bilateral dos olhos ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos simples, que todos viram praticar, e dos quais lhes vou agora dar mais minuciosa conta.

Numa sala desta Escola que me pareceu ser daquelas onde menos se ouve o barulho da rua, que neste sítio infelizmente não é pequeno, coloquei em face de uma das janelas, a seis metros aproximadamente dela, e a uma altura que correspondesse aproximadamente à dos olhos da maior parte dos alunos, coloquei, dizia, um cartão em que colocara o quadro optométrico dos Drs. M M e C S , quadro que suponho se encontra espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma larga e útil distribuição.

Marquei a giz sôbre o chão um traço indicando a distância de 5 metros para àquem da parede onde pendurava o quadro optométrico.

Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei a uma altura correspondente à dos ouvidos na maioria dos alunos, um traço horizontal, a giz, sôbre o qual a partir aproximadamente de 1 metro de uma das extremidades marquei um zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais indicando os decímetros e os metros (4 metros aproximadamente).

Quando ia proceder aos meus exames, procurava obter o maior silêncio possível, na proximidade da sala, e fazia entrar os alunos um a um ou dois a dois, e de maneira a evitar que se distraíssem. Uma empregada tomava-lhes à entrada o nome e eu logo começava o meu exame, em que fui várias vezes auxiliado pelo meu venerando colega Sr. prof. P F . Para a medida da agudeza visual, mandava colocar o aluno em frente do quadro optométrico a uma distância aproximadamente de 6 metros. As letras do quadro estão dispostas em 3 linhas paralelas e tais que para uma visão normal devem respectivamente ser lidas a 20, 10 e 5 metros de distância. Mandava procurar ler a 6 metros as letras da linha inferior, aquelas que se devem lêr, quando a visão seja mediana, à distância de 5 metros. Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas à distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos supra-normais da visão, se não, mandava-o tentar ler as letras da mesma linha à distância de 5 metros. Se as lia, colocava-o no grupo dos normais: finalmente se o aluno nem à distância de 5 metros lia sequer dois terços das letras que a essa distância devia ler se a visão fôsse normal, colocava-o no grupo dos infra-normais, e procurava então vêr quais as letras que conseguia ler a essa distância de 5 metros. Se lia as da linha média, que um normal

devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1⁄2 do normal, se lia a 5 metros só aquelas que um normal lê à distância

de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1 ⁄ do 4 normal. Se nem estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual inferior

a 1 ⁄ do normal. 4

O exame era feito em separado, para cada um dos olhos, tendo o cuidado de evitar que com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza visual se não estava medindo. Em regra, e esta parece ser a melhor fórma, mandava colocar um cartão de visita diante do ôlho a encobrir, mas um pouco afastado dele.

Esta técnica, que é uma técnica de confiança para determinar com precisão a agudeza visual, pode ser empregada por qualquer professor, e praticada em todos os escolares, mesmo naqueles que não sabem ler, visto que junto às letras e com dimensões respectivamente iguais às delas se encontram no quadro optométrico linhas com sinais (optotipos se chamam) que um analfabeto pode perfeitamente apontar (zonas circulares incompletas, com abertura voltada segundo quatro direcções).

Para o exame do ouvido, mandava colocar o aluno em frente da linha que traçara na parede, voltado para ela, junto dela e com o ouvido direito à altura do zero. O aluno, com um dedo, sem carregar, tapava o ouvido esquerdo e olhando em frente, prestava atenção a vêr se ouvia o tic-tac de um relógio de algibeira, que eu lhe aproximava do ouvido. Logo que o aluno dava sinais de o ouvir, começava eu a afastar o relógio, fazendo deslocar êste sôbre uma linha, não perpendicular à face, mas sim dirigida para diante, perpendicularmente ao pavilhão da orelha. E deslocando o relógio procurava determinar a maior distância a que o aluno conseguia ouvir o bater dêsse relógio.

Fiz uma série de observações e verifiquei que com o meu relógio a maioria ouvia o tic-tac a uma distância de 2 a 3 metros. Em vista disto considerei como infra-normais, na audição, francamente infra-normais, os que ouviam o máximo a 1 metro e supra-normais, na

audição, francamente supra-normais, os que ouviam a 3 metros e mais.

Para o exame do ouvido esquerdo, mandava voltar o aluno, colocava-o com o ouvido esquerdo à altura do zero, pedia-lhe para tapar o ouvido direito e olhar bem em frente, ou fechar os olhos, e procedia depois por uma fórma semelhante à que adoptei para o exame da agudeza auditiva do ouvido direito.

Quando a redução da agudeza auditiva era notável (menos de 1 metro), mandava sentar o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, e colocando-me atrás dele, no lado oposto, falava-lhe em tom ordinário por fórma a ver se me ouvia e para isso o mandava repetir a frase que eu pronunciava ou executar movimentos que lhe ordenava.

Êste processo, da medida da agudeza auditiva, ao contrário do que adoptara para medida de agudeza visual, não é exacto, não é preciso, não é seguro, mas serve, e isso basta, para comparar os alunos debaixo do ponto de vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas aulas, de acôrdo com ela.

Nas crianças é necessário talvez tomar mais precauções do que aquelas que com os senhores tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: os olhos e de vez em quando fingir que se aproxima ou afasta o relógio, para assim julgar do valor das suas respostas.

Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que levava, em regra, dois a três minutos com o exame da agudeza visual e da auditiva.

Na Casa Pia, onde eu e o Dr. J C temos feito várias

observações, usando de processos semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei há dias a existência de alguns factos curiosos para que não quero deixar de chamar-vos a atenção. Considerando apenas os alunos que neste momento freqùentam a 4.ª classe de instrução primária, e com êles os que em Julho a freqùentaram e distribuindo-os por ordem crescente das idades verifica-se: que à medida que se avança na escala das idades, e aumenta o número de anos de internato, diminui a percentagem de alunos que fizeram exame do 2.º grau, e diminui a percentagem dos que têm audição normal. Quere isto dizer que é provável que o atraso de alguns alunos provenha de inferioridade auditiva. Por outro lado encontram-se dois máximos de freqùência da visão inferior à normal um (30%) coincidindo com o máximo de freqùência de exames do 2.º grau (61%) e outro (40%) coincidindo com o máximo da idade (16 anos e mais) e o mínimo da freqùência de exames (40%), factos estes que interpreto por esta fórma: a anormalidade visual nos rapazes de 16 anos e mais (máximo de idade), que ainda não fizeram exame do 2.º grau, coincide e deve estar relacionada com inferioridade mental e a grande freqùência da visão inferior à normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a que na sua maior parte pertencem os que fizeram exame do 2.º grau, é naturalmente devida à miopía que o trabalho das aulas agrava, quando não determina. Quando um dia me ocupar particularmente dêste importante defeito da visão, a miopía, procurarei obter alguns dados especiais recorrendo, provávelmente, para isso, ao registo das observações oftalmológicas e às estatísticas do distinto médico-oftalmologista da Casa Pia Dr. X C .

A miopía é uma verdadeira doença profissional da escola; é em grande parte um produto do trabalho escolar. A sua freqùência aumenta à medida que se avança no grau do ensino. E já que levantei êste incidente, não deixarei de vos recomendar a leitura de uma interessante e utilíssima conferência feita na Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, pelo Dr. S C S , tambêm distinto médico-oftalmologista, e em que por fórma

muito clara e completa se trata da miopía e doutros assuntos de oculística que se prendem com a higiene escolar.

O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se tambêm a permitir julgar até certo ponto de certas qualidades de ordem psíquica que ao educador muito interessa conhecer. A maneira por que o aluno se apresenta, a rapidez ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira agitada ou, pelo contrário, lenta e dócil por que se comporta, a precisão ou a indecisão na compreensão e execução das nossas ordens, tudo permite, com grande probabilidade de acêrto, formar um juízo útil e necessário para o educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a potencialidade nervosa de cada aluno, destrinçando particularmente os dois tipos extremos, o do hipersténico, agitado, e o do hiposténico, tardo nas suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos importantes para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações muito úteis para a escolha dos meios educativos a empregar.

O exame da agudeza visual e da auditiva feito à luz dos conhecimentos que vos procurei transmitir permitir-vos há convencer-vos, desta verdade fundamental: de que os escolares são diferentes uns dos outros. E convencidos disso, o vosso espírito estará preparado para a adquisição desta outra verdade: de que o ensino se deve individualizar o mais possível.