Algumas lições de psicologia e pedologia

António Aurélio da Costa Ferreira · Capítulo 5 de 15

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Algumas lições de psicologia e pedologia

A Arte de Educar e a Psicologia Experimental[2]

A ARTE DE EDUCAR E A PSICOLOGIA

EXPERIMENTAL[2]

 

«To educate is to bring out all the powers

that are in the child and to traim him to

use them to the best advantage of

himself and indirectly of the nation of

which he is a part».

(M C. A , Child Study, June,

1917).

 

M S S :

 

A arte de educar é fundamentalmente a arte de regular a conduta presente e futura dos que se têm de educar. Implica forçosamente o conhecimento da conduta, das causas dela, do seu mecanismo e das possibilidades que o indivíduo oferece. A arte de educar assenta como a arte de curar, na anatomia e na fisiologia e assim como o médico, médico que tenha de exercer a profissão, tem não só de conhecer as doenças e os remédios, mas tambêm conhecer os doentes e encontrar as indicações, assim tambêm o educador, que tenha de educar, tem não só de conhecer os fins da educação e os meios da educação, a pedagogia e a metodologia, mas tambêm de saber conhecer o educando e encontrar a fórma de educação que mais lhe convenha e se adapte ao seu feitio. E assim como para o estudo do doente não basta conhecer os sintomas das doenças, porque é necessário sabê-los observar, assim tambêm não basta ao educador conhecer os fenómenos da educação, a psicologia, mesmo que esta tenha a feição moderna e scientífica, e se chame psico-fisiologia ou psicologia experimental, é necessário tambêm principalmente possuir a técnica da observação e da experimentação. Saber psicologia pode não ser saber fazer psicologia, como saber quais os sintomas das doenças pode não ser saber observá-los e fazer diagnóstico.

Ensinar num curso prático de psicologia experimental, que é como oficialmente se chama o curso que tive a honra de ser chamado a reger, ensinar nesse curso numa Escola Normal, é fundamentalmente ensinar o que fôr preciso para habilitar os futuros professores a conhecer e praticar os meios scientíficos de estudar práticamente os fenómenos mentais, isto é, possuir as regras e os meios de condicionar êsses fenómenos, por fórma a que outros os possam observar nas mesmas condições, e verificá-los.

Educar não é hoje, como noutros tempos se supunha, criar, é essencialmente orientar. Não é lutar contra a natureza. O educador dos homens como o educador dos animais, tem que aproveitar as boas tendências, os talentos, para os enriquecer e desenvolver, como dos instintos diz o educador e moralista Foerster, falando do ensino dos animais. E quanto às más tendências, tem que saber inibi-las, ou sublimá-las. Talvez que nesta altura, para lhes dar uma exacta idea acêrca do valor e possibilidades do ensino e quebrar-lhes preconceitos que a todos os professores desta Escola pertence o combater, e isto, por minha parte, na intenção de aproveitar o pretexto de demonstrar que a arte de educar hoje assenta e quási se confunde com a arte de estudar os fenómenos psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para isso, não lhes pudesse de momento aconselhar melhor leitura, como leitura prévia, do que a do livrinho Criminalidade e Educação, do Sr. Padre A O que não é só, como todos sabem, uma admirável figura de filântropo, mas, mais do que isso, uma figura notável de educador, com vocação e larga e valiosíssima experiência.

É preciso que a arte de educar seja como a arte de curar.

É necessário ouvir tambêm o prático, ouvir o que educa, ouvir o que cura, sobretudo quando sucede como deve ser, que a arte que praticam seja arte esclarecida pela sciência, e não simples empirismo.

Educar é condicionar intencionalmente as reacções do indivíduo. Educar, portanto, implica, primeiro do que tudo, o saber estudar as causas e mecanismo das reacções individuais. E o estudo dessas reacções feito experimentalmente tem o maior interêsse e importância para o educador. Muitas dessas reacções são de ordem interna e só o próprio indivíduo as pode observar directamente, mas essas mesmas são acompanhadas doutras reacções, acessíveis ao estudo directo dos outros e portanto podem ser estudadas objectivamente, sem intervenção do exame dos próprios em que elas se dão. O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo das reacções individuais e a maneira scientífica de as condicionar.

De acôrdo com estas ideas, já a dentro da velha Escola Normal, onde tive a honra de reger durante alguns anos o Curso de Pedologia, o meu distinto colega naquela e nesta Escola Sr. Professor Dr. A P , cujo livrinho de lições lhes aconselho, procurou orientar o ensino teórico da Psicologia. Eu, por minha parte, completarei êsse trabalho ensinando-lhes a técnica dos estudos psicológicos, segundo essa orientação.

Disse eu que a psicologia experimental se prende tanto com a arte de educar, que por vezes até quási se confunde com ela. Não é quási se confunde, confunde-se até. Em psicologia animal, ramo da psicologia quási desconhecido entre nós, a psicologia experimental funda-se na educabilidade, é o proprio exame da educabilidade, é a propria arte da educação exercida com o fim de estudar os fenómenos e os recursos mentais do animal.

Vejam por exemplo, para fácilmente e sob uma fórma agradável apreenderem melhor o assunto, o excelente livrinho de H -

S , director do Instituto de Psicologia Zoológica, intitulado De

l'animal à l'enfant (Bibl. de ph. contemporaine) e que se pode considerar um pequeno manual adoptável na preparação dos professores de ensino infantil.

Não se surpreendam com êste atrevido conselho de lhes indicar um livro de psicologia zoológica, como meio de preparação pedagógica. Há grandes afinidades entre a psicologia dos animais superiores e a das crianças e sobretudo é a estas duas psicologias, a zoológica e a infantil, que é, quando não indispensável, pelo menos mais necessária a prática dos métodos da psicologia objectiva. Num dos melhores e mais modernos livros de psicologia pedagógica, o de T , notável professor de psicologia pedagógica numa

escola de mestres, têm um livro cheio de estudos interessantes de psicologia zoológica sôbre a inteligência dos animais, estudada pelos meios da psicologia experimental; e o afamado e emérito psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo banal citar entre nós, o Professor C disse, ao publicar o programa do Instituto de

Sciências da Educação de Genebra: «Para ser completa uma escola de sciências da educação deveria possuir um serviço anexo..., quero dizer, um laboratório de psicologia animal...»

Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, é aprender muitas vezes a ensinar uma criança. Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios de psicologia animal, para lhes esclarecer uma ou outra questão psicotécnica pedagógica.

O exame objectivo das reacções será o escopo principal do meu curso. Curso prático de psicologia objectiva podia bem ser o título a dar-lhe. Psicologia objectiva não quere porêm dizer, que seja exclusivamente um curso de psico-fisiologia, como muitos podem supor. A psico-fisiologia é apenas uma parte da psicologia objectiva, aquela em que se estudam as variações fisiológicas, própriamente ditas, que acompanham ou condicionam os fenómenos mentais. As reacções exteriorizam-se tambêm por outras fórmas, que não podem sómente ser estudadas pelos métodos da fisiologia. O estudo das reacções provocadas por certos reagentes mentais é um verdadeiro estudo pedagógico. Outra cousa não é a maior parte das vezes o estudo dos chamados tests, como é por exemplo o dos tests para a medida da inteligência, de que por certo já têm ouvido falar e talvez tenham já visto descritos.

A psicologia experimental será talvez ainda preferível à psicologia objectiva, porque a psicologia experimental atinge tambêm o estudo introspectivo dos fenómenos mentais, o seu estudo directo, e êste há-de-nos ser preciso quando se tratar do estudo da psicologia do professor, da psicologia de quem ensina, porque o ensino não depende só da psicologia do educando, mas tambêm da do educador, e bom é que êste aprenda a saber examinar-se, a estudar as reacções que o aluno e a escola nele determinam para examinar a sua aptidão, e a corrigir vícios de reacção, que são por vezes causa de graves perturbações escolares. Não é só o aluno anormal que perturba a classe, é o professor anormal, é o que não se adapta à profissão, é o que não a sabe praticar, por falta de cultura ou por falta de intuìção.

No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psicologia experimental subjectiva. A psicologia experimental não é apenas a psicologia objectiva, repito. E a propósito lembrarei as palavras do fisiologista francês Prof. C . R : «A observação interior constitui

uma psicologia de observação tam fecunda, tam legítima, como a psicologia a mais experimental que se possa imaginar. Os factos assim adquiridos pelo estudo do eu têm tanto valor como os fenómenos fisiológicos registados nos laboratórios pelos métodos mais aperfeiçoados da técnica contemporânea.»

Apesar de tudo, porém, o nosso curso será principalmente um curso de técnica objectiva, porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo psicológico do educando e porque é minha tenção, mesmo quando se trate da prática da psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas como um auxiliar da psicologia objectiva. A propósito recordo os dizeres do grande B : «Em nossa opinião, diz êle, não é preciso

procurar limitar e simplificar as respostas do indivíduo em experiência, é preciso, pelo contrário, deixar-lhe a plena liberdade de exprimir o que sente, e mesmo convidá-lo a expressamente se observar de perto durante o decurso da experiência; esta maneira de proceder tem a vantagem de não restringir a investigação ao círculo da idea preconcebida: podem-se constatar muitas vezes factos novos e não previstos, que muitas vezes tambêm permitem compreender o mecanismo dum certo estado de consciência.»

Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático de psicologia experimental» ao curso de técnica psicológica desta Escola, criado pelo Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. A M , cujo nome deve merecer sempre a todos nós, desta Escola Normal, uma grata homenagem, pela atenção que lhe merecemos e pelo entusiasmo, apaixonado entusiasmo e energia, com que procurou instalar e proteger a nova Escola. O curso prático, e acentuo a palavra prático, de psicologia experimental será uma maneira de logo, desde o início da freqùência da Escola Normal, habituar o futuro professor, a sentir-se professor, a despertar-lhe e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto real, directo, concreto com a massa que tem de trabalhar, com a sublime argila que tem de moldar: a alma tal qual ela é.

Trabalhar a alma da criança com alma e com arte, com arte e com acêrto, com acêrto e com sciência, tal é o nosso escopo.

A psicologia que havemos de praticar, será, mais uma vez o digo, de carácter principalmente objectivo, não só pela dificuldade, se não impossibilidade, do exame subjectivo no meio e com os indivíduos que temos de trabalhar, não só porque o exame objectivo constitúi uma fórma excelente de fazer a educação scientífica do aluno professor, de dar-lhe hábitos de observação e experiência extrospectivos ou melhor exteriores, essenciais à arte de educar, mas tambêm porque em psicologia, pode-se dizer, que o que mais importa ao educador são os actos psíquicos, os fenómenos mentais de que introspectivamente se tem menos conhecimento.

Em psicologia pedagógica o sub-consciente vale mais que o consciente. E mesmo quando ao educador compete regular o comportamento do adulto, quando ao educador compete fazer reeducação, compete-lhe principalmente examinar o sub-consciente, porque é nele que se guarda a fôrça que a experiência anterior gerou e que regula e influi, por vezes, mais do que nenhuma, no comportamento do indivíduo.

A conduta é principalmente governada pelo sub-consciente e neste tem tanta influência a infância, o que ela foi em cada um, que quando a fadiga ou a doença perturba o exame introspectivo e a fiscalização, censura e govêrno, que por meio dele podemos exercer nos nossos actos, é a mentalidade infantil que aparece, se exterioriza e nos revela, tal como fomos e no íntimo somos.

Uma escola de psicologia há até, que hoje já invadiu a filosofia, a medicina e a pedagogia, que assenta tôda no estudo do sub-consciente e particularmente na pesquisa das impressões que nele gravou a vida sexual. Refiro-me à psico-análise, de F e seus

sequazes, que, apesar dos ataques violentos que tem sofrido, mormente depois da declaração da última guerra (mais talvez por xenofobia do que por outra cousa), contém muito de verdade. Tirado o que há de místico, de escabroso e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise pode e deve ser conhecida pelo educador. E, para terminar com estas referências à questão da importância do consciente e do sub-consciente em educação, lembrarei a já banalizada definição de G L B : A educação é a arte de fazer passar do consciente para o inconsciente. A reeducação, essa é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o de trazer do inconsciente ao consciente, para transformar e depois voltar a tornar inconsciente.

A educação, na idea de B , é o conjunto dos hábitos adquiridos

na infância. A reeducação é muitas vezes a correcção dêsses hábitos; mas tanto em educação como em reeducação há que aproveitar a Natureza, porque ela, ainda segundo B , não se

governa, senão deixando-a governar, conhecendo-a, aproveitando-a, seguindo-a.

 

M A :

 

A arte de educar, como logo no princípio eu disse, é a arte de regular a conduta presente e futura do educando, e a psicologia experimental, de escôpo pedagógico, é a psicologia que pela experiência ensina a conhecer as causas, o mecanismo da conduta do indivíduo ou da classe a educar.

Psicologia experimental é quási pedagogia experimental. E não imaginem que esta pedagogia experimental é menos do que a outra, porque não tem em conta os ideais, a parte política, religiosa, social, a finalidade da educação. Não.

O Ideal quando não é factor da acção, é produto da acção, ou as duas cousas ao mesmo tempo, factor e produto da experiência pessoal, e o que nós vamos aprender é a arte de estudar práticamente, experimentalmente, os factores e o mecanismo da acção, ou melhor das reacções do indivíduo sujeito à influência dos meios, isto é, ainda a parte prática, experimental, utilitária, debaixo do ponto de vista educativo, que talvez melhor do que psicologia, se poderia chamar, à maneira de B , a reflexologia pedagógica, e nela bem podemos estudar o valor, a acção e a formação dos ideais.

Com isto declaro aberto o «Curso prático de psicologia experimental», que neste semestre será essencialmente um curso de propedêutica, destinado ao estudo das noções preliminares e fundamentais de anatomia, fisiologia e psicologia, que mais importam à psico-técnica...