Algumas lições de psicologia e pedologia

António Aurélio da Costa Ferreira · Capítulo 11 de 15

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Algumas lições de psicologia e pedologia

Inteligência e Apercepção[12]

Recordo-me da profunda emoção que me causou a leitura das palavras de um formoso livro, um dos que mais podem contribuir para a cultura do entusiasmo pela carreira de professor, o livro de M : A psicologia e o mestre. Recordo-me. Diz êle e eu repito:

«Agora é evidente que o estudo dos meios psicológicos póde ser útil sómente quando as aspirações do mestre tenham sido determinadas pela investigação ética independente do filósofo. Porêm tão prontamente com estes fins, os resultados cada, vez mais ricos da psicologia experimental, devem ser levados ao mestre de tal modo que êste possa conhecer e escolher os meios úteis para a satisfação das suas aspirações.»

A Educação é uma das artes em que a Psicologia serve a Ética.

Está aberto o curso de Psicologia.

 

INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO[12]

 

«Notre réprésentation de la matiére est

la mesure de notre action possible sur

les corps; ele résulte de l'élimination de

ce qui n'interesse pas nos besoins et

plus géneralemente nos fonctions».

B : Matiére et mémoire

 

«Il faut respecter en nous les lois de la

nature, acepter les devoires nés de

l'organisme, acomplir les fonctions pour

lesquelles on est fait, avec le pouvoir

énergétique que l'on posséde. Le but de

la vie c'est tout le perfectionement possible, physique ou psychique, par la

méthode et la discipline».

A D : Les maladies de

l'esprit et les asthénies.

 

«Non seulement une conception mécanique de la vie est compatible avec

l'ethique; ele semble être la seule

conception de la vie, qui puisse amener

á comprendre oú est la source de

l'éthique».

L : La conception mécanique de la

vie (tradução francesa).

 

Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta pela adaptação, é o esfôrço para o ajustamento do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a êle, ou ajustando-o a si próprio. Educar é favorecer, conduzir intencionalmente, metódicamente êsse ajustamento, essa adaptação.

Ora o indivíduo possui em si faculdades, capacidades de adaptação, de ajustamento, de assimilação, de utilização do meio em que vive. Essas possibilidades revelam-se na sua actividade, na maneira porque procede, e desta actividade uma parte, uma forma há que é herdada, que nasce com o indivíduo, que é inata, que não é determinada pela experiência individual, que não é aprendida e outra que é adquirida, que resulta da experiência de cada um, dirigida ou não por outrem.

Por vezes, quási sempre, a forma da actividade inata é favorável ao ajustamento do indivíduo ao meio, à adaptação, às condições em que nasce e ordináriamente se encontra, e a maior parte das vezes tambêm a forma de actividade adquirida é como esta favorável ao ajustamento.

As condições mantendo-se as mesmas, a adaptação verifica-se, as necessidades são conformes à capacidade de utilização dos recursos. O indivíduo está adaptado ou adapta-se por instinto ou por hábito. Se, porêm, as circunstâncias em que vive o indivíduo são muito variáveis, se se rompe o ajustamento, se há conflito entre o instinto ou o hábito e as circunstâncias, o indivíduo pode ou não readaptar-se, pode ou não assimilar o meio, utilizando-o, adaptando-o ou adaptando-se.

Concebe-se que haja seres que se adaptem, independentemente da experiência, seres que nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, e só neles e em precisas circunstâncias podem viver: seres instintivos, ineducaveis, mas sôbre que o educador pode ainda assim influir, colocando-os em meios os mais conformes com os seus instintos, e pela forma mais conveniente à sociedade.

Concebe-se que haja seres que, alêm de se ajustarem por instinto a certas circunstâncias possam em virtude da experiência, conduzida ou não intencionalmente, adaptarem-se a ela, adquirindo estas formas de actividade que se chamam hábitos, seres educáveis sôbre que o educador pode actuar criando os hábitos que mais convenha, e que, como tive ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o ano passado, deve fazer-se segundo certas leis induzidas de experiências scientíficas que se têm realizado.

Concebe-se finalmente que haja seres que não só se adaptem por instinto, ou por hábito, que não só se adaptem a precisas circunstâncias, mas se adaptem tambêm fácilmente a novas circunstâncias, encontrando nelas sempre maneiras de se ajustar, de com elas viver em concordância, sêres inteligentes, sôbre que o educador deve actuar variando o mais possível as condições da experiência educativa, para que o mais possível tambêm se apure este dom sublime da inteligência, do poder de utilizar o meio, que é a base da felicidade e do progresso.

Só é verdadeiramente livre, quem é suficientemente inteligente.

Na lição da abertura do curso de aperfeiçoamento do ano passado, lição que intitulei Da inteligência do escolar e da sua avaliação, lição que devem ler, citei e adoptei, para certos casos, a definição de inteligência do Professor S :

«Inteligência é a capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações, interpretação adequada e conformar com elas a sua reacção».

A inteligência é função portanto da interpretação e só se revela quando a interpretação é adequada e a reacção a que a interpretação conduz por sua vez se revela em actos de adaptação.

Ora é êste poder de interpretação que se chama a apercepção. A inteligência depende da apercepção, da maneira porque se interpreta. Quem interpreta por uma maneira inadequada às conveniências da sua adaptação, não se adapta, reage por forma desfavorável, não procede com inteligência.

Vêem já portanto quanto interessa o estudo da apercepção. Leiam particularmente sôbre esta o que vem da pág. 430 à 434 da tradução francêsa do compêndio de Psicologia, de W J , 4.ª edição.

 

A interpretação ou apercepção depende de uma série de condições que, como verão em J , L denominou a soma das condições psicoestáticas: a natureza do indivíduo, o seu carácter, a sua experiência, a sua educação, os seus hábitos, o seu humor, etc. A apercepção é uma faculdade intelectual contingente, que depende dos mais variados factores, desde, os mais materiais aos mais espirituais, desde as necessidades do corpo às necessidades do espírito (usando a linguagem corrente), e sôbre que, tanto pode actuar o médico como o professor, tanto o gimnasta como o filósofo.

O aspecto físico, a forma do corpo por si indicam tendências, certas aptidões psicológicas, certas necessidades, certos interêsses que conduzem a experiência do indivíduo por forma a ele entrar em contacto com o meio em que vive, e que por sua vez conduz a determinada interpretação dele, e portanto o leva a reagir e proceder e adaptar-se por determinada forma. O psicólogo se quere descobrir a alma tem muito a ganhar em conhecer o corpo. Se quere prever a fórma de reacção do indivíduo tem que estudar os orgãos dessa reacção; se quere ser psicólogo a valer tem que ser antropólogo. O que tudo quere dizer que: psicólogo e antropólogo, psicologia da criança e pedologia física, se devem entrelaçar, se podem e se devem estudar conjuntamente.

As anomalias mentais da criança explicam-se por vezes fácilmente se se estudar a forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar do grau do seu desenvolvimento físico, se se vê se o crescimento nela é normal ou não.

Há caracteres mentais que são sintomas de alterações orgânicas, e perturbações do crescimento que o médico pode corrigir para o professor depois aproveitar.

Há no nosso corpo um órgão até cuja influência sôbre a inteligência é tal que alguem já o chamou a glândula da inteligência (P ).

É tal a importância que o estudo da anatomia e da psicologia tem para o psicólogo que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, defeitos ou insuficiências da energia orgânica, vícios de funcionamento orgânico, se se caracterizam êsses defeitos pela insuficiência revelada nos actos de adaptação social, e se vai até a explicar a moral e a filosofia de muitos por essa insuficiência de origem fisiológica, aparecendo-nos a moral como um ramo da biologia e a filosofia como uma arte dos psicasténicos.

P J , um dos maiores psicólogos da nossa época, foi até a afirmar que talvez a filosofia não passasse duma doença do espírito. A filosofia, de facto, parece a consequência, a revelação duma actividade interpretativa filha de uma atitude mental, duma tendência anciosa para a procura de relações entre as cousas e os factos que nos cercam e se passam no meio que nos circunda, e que as dificuldades de adaptação, e a insuficiência da adaptação em certos gera.

Seja como fôr, o que lhes quero acentuar é que o estudo da psicologia e em particular o da apercepção, que será o objecto principal do nosso curso dêste ano, tem muito a ganhar iniciando-se pelo estudo da influência das condições orgânicas neste fenómeno, e mais particularmente ainda pelo estudo da influência que tanto na forma do processo aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, como na natureza dos conhecimentos que se utilizam, influi o tipo fisiológico da criança, as suas tendências inatas, a sua constituição, o seu temperamento, e a fase do crescimento em que se encontra.

 

Esta influência do organismo na apercepção, de que lhes tenho estado a falar, esta influência do condicionalismo fisiológico na interpretação das circunstâncias e na adaptação a elas, é já uma influência do passado no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, é, pode dizer-se a tradução fisiológica do mote que tantos têm já glosado: os mortos mandam.

Mas não é só por esta forma que o passado se mistura com o presente e nos governa, nos impõe até certo ponto uma interpretação do presente, e nos regula, a nossa adaptação às novas condições. É tambêm, e talvez ainda mais, pelo resultado da nossa própria experiência, regulada, intencionalmente ou não, pelos outros, resultado das modificações que nas nossas reacções vai introduzindo o contacto diário com o meio em que se vive, com a natureza e com a sociedade, resultado da interferência das acções desta com as nossas reacções.

Dia a dia as nossas tendências, os nossos interêsses, o nosso saber, o nosso carácter, a nossa experiência, são postos à prova, e dia a dia nos vamos consumindo na emprêsa do ajustamento das nossas reacções às circunstâncias.

Impressiona-nos mais não o que é própriamente mais forte ou mais novo, mais estranho, mas o que é mais forte e estranho para nós, aquilo que é novo para o ponto de vista dos nossos interêsses, que cahe na zona do nosso saber e das nossas necessidades e que nós nos esforçamos naturalmente por assimilar na tendência vital, orgânica, da nossa adaptação. O que não sabemos, não vêmos; o que não experimentamos não sabemos.

Palavras estranhas ou letras associadas mesmo ao acaso, tendemos a interpretá-las e a lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, nuvens que o acaso amontuou, manchas que o acaso estampa, borrões de tinta, tudo tendemos a interpretar como se fossem formas conhecidas e segundo os nossos conhecimentos e até certo ponto os nossos interêsses. Sempre o passado a mandar; sempre segundo a nossa mentalidade e a nossa experiência!

O mundo, a interpretação do que nos cerca, é função do nosso organismo e da nossa experiência ou saber.

A realidade é uma interpretação, consoante os nossos interêsses, e os nossos interêsses expressão da nossa organização e da nossa experiência, experiência livre, ou intencionalmente condicionada, como sucede na educação.

Meditem as palavras de B que, livremente mas fielmente,

julgo, assim poder traduzir:

«...O nosso carácter, sempre presente a tôdas as nossas decisões é bem a síntese actual de todos os estados por que já passámos. Sob esta forma condensada, a nossa vida psicológica anterior existe para nós mesmo mais do que o próprio mundo externo, porque dêste apercebemos apenas uma muito pequena parte, enquanto que pelo contrário utilizámos a totalidade da nossa experiência vivida já, experimentada e feita.»

Como que há, como B tambêm diz, uma tendência

constante do passado a reconquistar a sua influência, actualizando-se.

Dir-se-ia que só o génio não tem passado.

Vejam quão longe nos leva, e interessante e vasto é êste tema da inteligência e da apercepção.

 

Não imaginem, porêm, que apesar da linguagem de subjectivo que venho empregando, se não pode tambêm em linguagem de objectivo, ia dizer em linguagem scientífica, em termos das sciências experimentais, não imaginem que se não podem tambêm interpretar, adoptando uma concepção mecânica da vida, estes fenómenos da apercepção e da inteligência, própriamente dita.

Reportando-nos a um notável trabalho de B sôbre a dinâmica, cerebral, (Rev. Philosophique, março-abril de 1919) adoptemos a concepção que êle defende de que nos fenómenos psíquicos se verifica uma das grandes leis da sciência física, a lei dos fenómenos recíprocos. Quando se comprime um cristal de turmalina o cristal por êste facto electriza-se e a electrização desenvolve fôrças que se opõem ao encurtamento do cristal.

Quando se aquece um cristal de turmalina o cristal electriza-se tambêm; a electrização traz consigo um arrefecimento do cristal.

Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe a variação das circunstâncias e tende a reagir de acôrdo com a interpretação adequada. Afinal é um sistema de fôrças, orientado segundo um certo plano, que caracteriza o cristal e que reage contra as acções que tendem a perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe o plano.

Pode conceber-se tambêm o indivíduo como um sistema de fôrças organizado segundo um plano hereditário, tendendo a reagir às acções externas ou internas por maneira a opôr-se ao desiquilíbrio do plano da sua organização, caracterizado por certas propriedades vectoriais, isto é que se manifestam em determinadas direcções ou segundo certos vectores (instintos, tendências, interêsses).

A cada acção vectorial ou polarizante corresponde, segundo B ,

uma acção recíproca inversa, despolarizante.

Quando se excitam os sentidos, a excitação que é transmitida ao cérebro e dirigida depois aos músculos, às glândulas e às diferentes vísceras provoca excitações em sentido contrário, que provêm de todos estes domínios e vem por sua vez depois a reagir sôbre os primeiros receptores. Os centros nervosos são excitados pelos sentidos e estes excitados pelos centros nervosos. A interferência destas duas espécies de ondas nervosas, daria a memória associativa, revelando-se na apercepção e nos actos que a exteriorizam.

Estas concepções mecânicas têm a vantagem de lhes mostrar que afinal os fenómenos que estudamos são fenómenos naturais que podem condicionar-se e utilizar-se como os outros.

Quando o professor conheça bem esta mecânica poderá ser tão seguramente útil como o engenheiro que lida com as outras máquinas.

Vêem tambêm como com estas concepções mecânicas se pode fácilmente compreender como cuidando do corpo e educando-o se pode influir na educação intelectual e moral, na maneira de interpretar o mundo e a sociedade e de com êles harmonizar o indivíduo e fazê-lo viver em inteligência.

Não imaginem que como muitos supõem se despreza, nestas concepções, o valor das ideas, não. Simplesmente intrepretamos a acção destas e utilizamo-las como no estudo dos tropismos se interpreta a acção e se utilizam as substâncias sensibilizadoras.

Tudo que impressiona os nossos sentidos tem repercussão sôbre as nossas vísceras, tem um coeficiente emocional que muito influi na interpretação das circunstâncias e na nossa maneira de proceder, na nossa actividade ou reactividade.

Os orgãos da circulação são fortemente impressionados e influem no tonus nervoso, na energia nervosa de que muito depende a nossa inteligência. Glândulas há que, segundo a impressão ou excitação que sofrem, segregam mais ou menos substâncias (hormonas) que muito influem no tonus nervoso e nos fenómenos gerais da nutrição, o que se pode vir a observar em alterações ou certa orientação dos fenómenos de apercepção e inteligência.

O problema do educador é essencialmente um problema psicológico: tornar o real aceitável, e, conforme a natureza do indivíduo, pôr esta em equilíbrio com a sociedade. Para isso carece de saber de que depende a apercepção e como nela se pode influir; como afinal dar ao indivíduo a noção mais conforme com a natureza do meio social. O problema do educador é o problema da felicidade, que como diz D se pode chamar uma «harmonia psico-

social, uma adaptação completa dos desejos aos poderes e dos poderes ao meio.»

É afinal um problema de conciliação, e esta deve ser o fim de tudo.

Está aberto o nosso curso de psicologia experimental em que este ano particularmente me ocuparei dos fenómenos e estudo experimental da apercepção, sobretudo debaixo do ponto de vista da genética.