Algumas lições de psicologia e pedologia
O Pêso do Corpo da Criança[3]
Disse.
15-III-919.
O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA[3]
M A
S S
Quiz um pouco o acaso que o pêso do corpo da criança fôsse o tema da minha última lição. O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender num ponto ainda atrasado do programa a que me obrigára: o estudo dos métodos da pedologia somática, particularmente da pedometria e com ela o dos principais caractéres métricos da criança. O pêso do corpo da criança terá que ser o tema da lição de encerramento do meu curso dêste ano. E, embora pareça o contrário, talvez não pudesse encontrar melhor tema para encerrar o concurso.
A lição de abertura que vos li foi, como devia ser, uma lição-programa e uma lição-promessa. Na lição de encerramento que vou ler-vos tambêm, procurarei fazer com que ela seja o que deve ser uma lição de encerramento: uma lição em que até certo ponto se recapitulem as noções principais expostas durante o curso, uma lição-conclusão, e uma lição em que se procure provar a realização de algumas das promessas que se haviam feito na lição inicial.
A criança é fundamentalmente um ser humano em via de crescimento; é um homem ou uma mulher em via de formação. A sua principal função é crescer, procurando atingir a grandeza que a hereditariedade lhe destinou e alcançar o equilíbrio morfológico e fisiológico do adulto, que constitui a perfeição do ser. Respeitar o crescimento, a lei natural do crescimento, é o principal dever do educador, e tôda a educação se tem de subordinar a esta questão de medida: não perturbar a lei natural do crescimento.
O pêso não cresce como deve ser? Diminui, pára, aumenta de mais ou de menos? Um problema se põe. O regimen de vida ou de educação provavelmente não é o que convêm. Modifique-se e observe-se, por exemplo por meio da balança, a influência das modificações. A balança guia a higiene, e na higiene assenta a educação. Por isso, com razão dizia eu no Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, em 1907, e o repetia no Congresso Pedagógico do ano passado: «O problema escolar é essencialmente um problema métrico.»
Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo a da sua evolução não servisse, como serve, para julgar da saúde e do estado da nutrição da criança e por êle aferir o valor do meio em que a criança vive e dos meios educativos de que se serve quem dela cuida, mesmo que o estudo das variações do pêso não tivesse grande significação para os educadores, ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, valeria a pena ensinar o professor a pesar a criança. Mais do que uma vez, na realidade, vos tenho afirmado que uma das vantagens do ensino da pedologia aos futuros professores está em ela servir excelentemente para fazer a sua educação scientífica, para os ensinar a observar, a descrever, a medir, a experimentar, a analisar e a criticar, para aperfeiçoar o bom senso, que é a mesma cousa que o espírito scientífico, que permite sentir e descobrir a realidade e medir a possibilidade. O bom senso é a principal qualidade de carácter de qualquer e principalmente do professor.
Aprender a pesar é aprender a julgar, e com razão, por isso, um médico francês, o Dr. B , numa tese extensa e notável
sôbre o crescimento, diz: «Um médico que regista o pêso assemelha-se ao magistrado que aprecia o valor de um prejuízo e calcula o valor da indemnização.»
A pesagem tem ainda sôbre outras muitas medidas pedométricas a vantagem de ser a mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos especiais, nem técnica muito diferente da das pesagens mais comuns e, porque está sujeita a menos erros, permite ao professor ou ao médico não ser tão fácilmente logrado, como sucede com muitas outras medidas pedométricas, que praticadas mesmo às vezes por quem tenha cultura especial levam a conclusões falsas, a listas de números que outra cousa não são mais do que números, vistosos na aparência, mas vazios na significação.
Meçam sim, mas meçam só aquilo que fôr fácil de medir, menos sujeito a erros e que sirva para julgar da saúde do educando, e das influências que sôbre êle tem o regimen de vida e os métodos de ensino.
Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção para a obrigação que têm—quando medirem e quizerem apresentar os resultados de suas medições—de exporem minuciosamente o modus faciendi que adoptaram e se darem ao trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, repeti-las algumas vezes, no mesmo sujeito e na mesma sessão, para verificar a técnica. O observador não tem só que conquistar a confiança dos outros, precisa tambêm de conquistar a sua própria.
O pêso do corpo do escolar, não obstante haver balanças especiais, pode tomar-se com uma balança décimal ordinária, aferida, e convêm que quando, por qualquer razão, se não possa despir completamente a criança, ela tenha sôbre si o menor número possível de peças de vestuário: um leve calção nos rapazes, uma simples saia ou uma saia e um corpete nas raparigas. A pesagem deve fazer-se no mesmo indivíduo, sempre à mesma hora, de preferência de manhã, e nas condições o mais idênticas que fôr possível. Convêm tambêm repetir a pesagem em cada ano, com intervalo de semestre, por exemplo.
Podem parecer exageradas as precauções que acabo de aconselhar, mas não o são por que é bom saber-se que as variações do pêso não são sempre sinal de crescimento, e porque tambêm está provado que o pêso da criança como o do adulto oscila durante o dia, e de época para época do ano.
Há oscilações regulares diárias do pêso. De manhã, ao levantar da cama, todos pesam menos do que à noite. Esta diferença de pêso chega a ser, numa criança de dez anos, de setecentos gramas, e num adulto pode chegar a um quilo (C ), quilo e meio
(A ). Parece resultar êste facto de que durante o dia, as perdas
que se sofrem por saída de substâncias do organismo são compensadas pela entrada de substâncias reparadoras, enquanto que durante a noite as perdas não são compensadas. Nos adultos a diminuição do pêso durante a noite é em média igual à elevação do pêso durante o dia, mas nas crianças a diminuição do pêso durante a noite é menor do que a elevação durante o dia, o que corresponde ao crescimento.
Pode algumas vezes observar-se uma diferença de gramas a mais, simplesmente porque o intestino ainda não se esvaziou.
As estações influem tambêm e produzem oscilações no pêso. Está provado que êste aumenta mais de agosto a dezembro do que de abril a junho. O aumento máximo verifica-se no primeiro período apresentado e o mínimo no segundo. De dezembro a abril o valor do aumento é intermédio. Estas oscilações podem depender ou resultar de desarranjos que o organismo experimenta com as mudanças de estação e tambêm com mudança de hábitos que podem levar a aumentar ou a diminuir as perdas. A sudação e os jogos, por exemplo, tudo que modifica a função dos emuntórios ou a desassimilação, tudo pode influir. Aos factores metereológicos devem juntar-se os da metereologia do ensino, os exames por exemplo, que desarranjam e consomem. O conhecimento dêstes factos levou-me a determinar, de acordo com o distinto médico-inspector da Casa Pia e seu professor, Dr. J C , que a medida e observação periódica de todos os alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros meses do ano lectivo, a começar em outubro, e naqueles que imediatamente precedem as férias grandes, nos três últimos.
Ás vezes, com a melhoria da alimentação, com a mudança de ares, com a liberdade, a criança aumenta extraordináriamente de pêso, como por ex. observei na colónia de férias, instalada na Figueira da Foz, por iniciativa e sob a protecção do meu mestre Dr. B M ,—colónia em que vi crianças aumentarem cinco vezes mais do que em igual período aumentaram alunos da mesma idade, dum colégio excelente, como é o Colégio Militar (vidè medidas do Dr. M M , apresentadas no Congresso Internacional de Medicina de 1906, e o meu artigo, Uma colónia de férias, publicado no Boletim da Assistência Nacional aos Tuberculosos, em 1908).
Êste facto, que tem sido observado por vários, dos grandes aumentos de pêso que, às vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam nas colónias de férias das crianças pobres das cidades, dessas que eu chamei em tempos pobres exilados da Natureza, mostra bem a importância destas instituições peri-escolares: as colónias, para que me não canso de vos chamar a atenção, instigando-vos a promover sempre que vos fôr possível a sua organização, mas sempre com o auxílio do médico, a quem cabe a selecção dos casos e a indicação daqueles a quem convêm a praia e daqueloutros a quem o campo mais convêm.
Na apreciação do pêso do aluno deve ter-se em vista mais a fórma porque êle cresce do que a diferença do seu pêso para a média dos da sua idade. Muito seria para desejar que à semelhança do que se faz, por ex. em Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões quadriculados onde apontasse o pêso do corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando a curva da sua variação ao lado da curva média normal, que convinha se tratasse de obter com dados colhidos entre nós. Muito convinha, direi de passagem, que se generalizasse o uso da Caderneta da mocidade, da Instrução militar preparatória, tal como está, ou melhor, simplificada.
Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: há crianças leves e crianças pesadas, como há indivíduos altos e indivíduos baixos, indivíduos loiros e indivíduos morenos. A inferioridade do pêso, por isso, nem sempre significa que a criança sofre. Mas acresce a isto o não termos ainda, nós portugueses, médias nossas, pelas quais nos possâmos seguramente guiar. A raça influi no pêso, e a composição étnica de cada povo deve influir na média do pêso absoluto da sua população, em cada idade. Para as raparigas portuguesas não conheço tabela alguma; para os rapazes costumo guiar-me, enquanto não organizo uma tabela com os pêsos observados nos rapazes da Casa Pia, costumo guiar-me, dizia, pelas observações do Dr. M M , publicadas nos Anuários do Colégio Militar e de que aquele meu distinto colega fez um apanhado na sua comunicação ao Congresso Internacional de Medicina, realizado em Lisboa em 1906, comunicação intitulada: Sur l'Antropométrie médicale. As tabelas do Dr. M M servem, porêm, apenas para o estudo do pêso dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas observações e sôbre pedometria escolar podem vêr um pequeno relatório que com o título—Antropometria escolar—escrevi para o Congresso da Liga contra a Tuberculose de 1907 e que com poucas modificações foi reimpresso o ano passado, por ocasião do Congresso Pedagógico de Lisboa[4].
A título de curiosidade porei em face umas das outras algumas médias das tabelas do Dr. M M (observações portuguesas) e algumas extraídas dum trabalho de C , de
Stuttgart:
Rapazes
Idades (Masc.as Rapazes Raparigas
(Camerer) (Camerer)
de Melo)
10 anos 29 kg. 30 kg. 27 kg.
11 » 30,5 » 32,5 » 29 »
12 » 33 » 35 » 32 »
13 » 36,5 » 37,5 » 37 » 14 » 42 » 41 » 43 » 15 » 47 » 45 » 48 »
Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze anos, mais do que uma portuguesa da mesma idade.
Estas médias são às vezes assombrosamente excedidas, nos casos de obesidade. Neste momento estou tratando na minha clínica particular de um rapaz de quinze anos, um obeso com gigantismo, obeso hipófiso-genital, que pesa bastante mais de cem quilos!
O primeiro ano da vida é aquele em que o pêso aumenta mais. Em média, segundo C , por ex. ao nascer, um rapaz pesa três
quilos e quatrocentos gramas e uma rapariga três quilos e duzentos gramas. Na Maternidade de Lisboa, no tempo do Prof. A C kg (1899-1904), a média do pêso dos rapazes foi de 3,236 e a do das raparigas 3 kg,103.
Nos dois primeiros dias a criança perde uns duzentos gramas, mas ao oitavo ou ao nono recupera o pêso da nascença. O aumento diário das crianças criadas ao peito, ainda por ex. segundo C , anda por uns 30 gr. até à quarta semana, de 26-28 da
quinta à décima segunda, de 20-24 da décima terceira à vigésima, de 16-18 da vigésima primeira à trigésima sexta, e de 10-15 da trigésima sétima à quinquagésima segunda.
No quinto mês da vida, em regra, a criança dobra de pêso, e ao fim do primeiro ano costuma tê-lo triplicado. Pode dizer-se que nos cinco primeiros meses o aumento é de cêrca de setecentos gramas por mês; nos cinco meses seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada por T para calcular o pêso de uma criança de peito
durante o primeiro ano: para os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo número de meses que a criança tem e juntar ao produto o pêso que ela tinha à nascença; para os cinco meses seguintes, multiplicar 350 pelo número de meses que ela tem alêm do 5.º, e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto é, o dôbro do pêso à nascença.
«No segundo ano de vida o aumento de pêso é notavelmente menor que no primeiro e chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, a cêrca de dois quilos e meio; dos três aos cinco anos o crescimento diminui um pouco mais, não passando de um a dois quilos por ano. Finalmente, ao fim do quinto ano os rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas 17. A partir desta idade, até aos catorze anos, os rapazes aumentam de 2 a 3 quilos; segue-se depois dos quinze aos dezóito um período de maior crescimento, com aumento anual que pode chegar a oito quilos. Nas raparigas o acréscimo anual pode manter-se até aos doze anos à volta de dois quilos, e dos 13 aos 16 o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A partir dos 16 nas raparigas e dos 19 nos rapazes, o acréscimo pode cessar. Em regra, porêm, poucos são os indivíduos nos quais permanece estacionário o pêso adquirido aos 16 ou aos 19.» (C ).
Duma longa série de observações feitas em crianças portuguesas de escolas primárias oficiais do Alentejo e de escolas primárias não oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco homogénea e insuficiente para algumas idades, dessa longa série de observações feitas pelo Dr. M M e pelo Sr. Major D B , tirou o Dr. M os elementos com que construiu uma curva de crescimento do pêso em portugueses de 6 a 19 anos de idade, curva que conjuntamente com algumas tabelas interessantes, foi apresentada num trabalho daquele distinto médico:— Contribuição ao estudo do crescimento da criança portuguesa (Trabalhos do 3.º Congresso Pedagógico, realizado em abril de
1912, por iniciativa da Liga Nacional de Instrução [5]. Por ser interessante e dizer respeito a observações portuguesas, transcrevo dêsse trabalho, digno de apreço, as seguintes linhas:—«Na curva portuguesa há primeiramente um pequeno acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga perfeitamente com o acidente similar já apontado no mesmo trôço da curva homóloga da estatura, depois vem um crescimento quási insensível até aos 12 anos; a seguir apresenta-se uma depressão, e aos 13 anos começa o crescimento muito intensivo com o máximo absoluto aos 16 (êste acréscimo é de 6k,8); depois desta idade a curva desce muito de ano para ano, sendo o acréscimo para os 19 anos apenas de 1 k,5. O aumento de pêso dos 6 aos 19 anos é de 36 k,8, isto é, o pêso que aos 14 anos já duplicou é aos 19 superior ao triplo do que corresponde aos 6 anos.»
O que convêm, porêm, principalmente fixar é que durante o crescimento se observam dois períodos de crescimento máximo: o primeiro período corresponde ao primeiro ano da vida, e o segundo nas raparigas ao que vai dos doze aos dezasseis anos e nos rapazes dos quinze aos dezóito. O primeiro dêstes períodos é, como diz C , uma continuação da excessiva energia fetal do
crescimento (lembremo-nos, como faz notar V , que em nove
meses se passa de um óvulo de duas décimas de milímetro a um féto que mede meio metro e pesa cêrca de três quilos!)
O segundo período de crescimento máximo corresponde, tanto nos rapazes como nas raparigas, à puberdade.
As condições de vida das mães influem no pêso dos filhos. Sem ir buscar exemplos lá de fóra, basta dizer-lhes, para documentar a afirmação, que o falecido e ilustre professor da Escola Médica de Lisboa, A C , encontrou notáveis diferenças entre os pesos à nascença dos filhos de mulheres que passaram os últimos tempos da gravidez em repouso e tranquilidade moral e os daquelas que pelo contrário até ao último momento trabalharam e viveram na miséria. As crianças destas últimas pesavam sempre menos.
N , no seu afamado volume—Les Classes Pauvres,— publica um quadro comparativo do pêso médio de umas séries de rapazes e raparigas, por onde se vê que o pêso médio é mais baixo nas crianças pobres do que nas ricas, da mesma idade.
L e outros verificaram que em regra as crianças atardadas são inferiores em pêso aos normais que em idade lhes correspondem. E S , o antigo e illustre director da Escola Normal de Bruxelas,
num interessante opúsculo que muito vos recomendo—Loi de Croissance,—chama a atenção para o emmagrecimento dos sobreexcitados e sobrecarregados pelos trabalhos de preparação
dos exames[6]. E já que acidentalmente vos recomendei a leitura dêste livro sôbre as variações do pêso do corpo da criança, não quero deixar de vos aconselhar tambêm a leitura do que escreveu e das tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas Lições de Pedologia o nosso distinto conterrâneo Dr. F V , professor em Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido o prazer de vos falar.
Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede a marcha da nutrição e permite apreciar as condições de vida e os regimens de trabalho. Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é afrouxar os meios de defesa, é predispor para a doença, é inferiorisar o indivíduo.
Foi minha tenção ler-vos esta lição de encerramento do curso, no Lactário de Lisboa, instituição que eu muito desejava que visitasseis em minha companhia.
De facto, em nenhum sítio melhor eu poderia mostrar o valor da medida do pêso nas crianças. Nos lactários, nessas benemeritas instituições destinadas a distribuir leite para alimentação artificial das crianças, cujas mães, por doença, e as mais das vezes apenas por imposição do trabalho, não podem amamentar, a balança não é apenas um meio de estudar o crescimento, é um meio de salvar a vida. A aleitação artificial desregrada é uma espécie de infanticídio que vitíma muitas crianças. Graças à balança, o médico pode dirigir a alimentação por fórma a evitar muitos e danosos males.
Mas, meus alunos, os lactários e as consultas para recemnascidos não são apenas laboratórios de pesagem e agências de alimentação láctea. São verdadeiras escolas que em muita parte com êxito freqùentam normalistas como vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar de crianças.
Para o ano, se me fôr permitido e se se me oferecer, como espero, ocasião e facilidade, procurarei fazer com que o Lactário e o Instituto de Puericultura, da rua Alexandre Herculano, para que agora chamo a vossa atenção, se relacionem com esta Escola Normal.
A preparação do professor deve ser uma espécie de preparação materna.
Professoras ou professores só têm a ganhar com se habituarem a lidar desde muito cedo com crianças, e a estudá-las, estimá-las como pais. E êste deve ser a meu vêr o principal fim da co-educação na Escola Normal.
De resto, eu quereria que desde o primeiro ano do curso, alunos e alunas estudassem Pedologia para se habituarem a viver com as crianças, para se habituarem a vê-las não só no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes necessário, das aulas, onde se lhes estanha a fisionomia, se lhes paralisam os movimentos, se lhes esconde a graça, se lhes abafam os sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm para se habituarem a vê-las, e lidar com elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência da sua mímica, com a alacridade dos seus gritos, esfusiando alegria, irradiando afectividade, nos prendem, nos alegram, nos comovem, nos enternecem, nos interessam e nos fazem estimá-las, compreendê-las, protejê-las, e educá-las.
Meditai as palavras de W , com que terminarei a minha
lição e que se referem à fisionomia da criança:
«A voz do sangue, o amor da progenitura, o instinto natural pouco entram na constituição dêste sentimento sólido e orgânico que fórma o amor do pai pelo seu filho. Estes laços naturais, hereditários, existem certamente, mas não valem o laço que a própria criança cria e faz aparecer no nosso coração, êsse laço que é uma arma poderosa que a natureza lhe deu e de que ela largamente usa para se prender a nós, para se tornar uma parte de nós mesmos.»
Meus alunos, senhoras e senhores, que em breve todos sejais professores.
Futuros pais, sêde bons professores: futuros professores, sêde
como pais[7].