Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 9 de 15

Páginas do PDF

Almas Mortas

Capítulo 9

 

Um a m anhã, m uito antes da hora perm itida em N... para as visitas, a porta de um a casa de m adeira, de cor de laranj a, com sobreloj a e colunas azuis, deu passagem a um a senhora com um a elegante capa aos quadradinhos, acom panhada por um lacaio a pé, com carrick e chapéu redondo envernizado, de galão de ouro. Com precipitação febril, a dam a subiu para um a caleche que a esperava j unto da escada. O lacaio fechou em seguida a portinhola, em purrou o estribo e trepou para as traseiras, agarrando-se às correias e gritando ao cocheiro: « Vam os em bora!» .

A dam a ardia em desej os de propalar um a notícia, cuj as prim ícias acabava de obter. Assom ava constantem ente à portinhola, sentindo não estar ainda a m ais que m eio cam inho. As casas pareciam -lhe m ais com pridas que de costum e; o hospício, construído de pedra branca com j anelas estreitas, fatigou tanto tem po o seu olhar, que exclam ou im paciente: « Maldito casarão, que nunca m ais acaba!» . Duas vezes o cocheiro ouviu que se lhe ordenava: « Mais depressa! Mais depressa, Andriushka! Vais a m orrer, hoj e?»

Por fim , o coche deteve-se ante um edifício baixo, cinzento-escuro, com j anelas coroadas por m olduras brancas. A alta paliçada que o protegia apenas deixava espaço para um estreito j ardinzinho, cuj as árvores raquíticas eram cobertas por um a perpétua cam ada de pó. Entreviam -se pelas j anelas vasos com flores; um papagaio balouçava-se, preso pelo bico ao aro da sua gaiola, e dois cachorros dorm iam ao sol.

Esta m ansão albergava um a excelente am iga da visitante. O autor vê-se coibido a outorgar às duas dam as apelidos que não provoquem velhas cóleras. Não se atreve a dar-lhes nom es supostos. Forj ar um nom e de fam ília é coisa perigosa. Por j ocoso que o considereis, sem pre haverá num recanto do nosso im enso país alguém que o ostente. E esse alguém ofender-se-á, odiar-vos-á de m orte, pretenderá que tendes feito a viagem expressam ente para o espionar, para saber quem é, que roupas usa, que m anj ares prefere e a casa de que com adre frequenta.

Citar as pessoas pelo seu atual grau é ainda m ais perigoso. Deus m e livre disso! Nos tem pos que correm , todos estes senhores são irritáveis até o ponto de ver um a alusão pessoal em cada frase im pressa. Escrevei que tal cidade conta um idiota entre os seus habitantes; im ediatam ente um a personagem de aspeto respeitável deduzirá: « Eu vivo tam bém aqui; sou eu, portanto, o idiota» .

Para evitar estes inconvenientes, cham em os, pois, à dona da casa, a dama sempre encantadora. Quase toda a cidade lhe dava este sobrenom e, adquirido m uito legitim am ente, por isso que não tinha descurado coisa algum a para m erecê-lo. Um a m alícia m uito fem inina feria, no entanto, através da sua afabilidade; as suas am áveis palavras disfarçavam com frequência agudas alfinetadas. E ai da am iga que lhe disputasse o prim eiro lugar! Mas tudo isto se ocultava debaixo de disfarçadas gentilezas, m uito apreciadas na província. Ela sabia polvilhar de graça todos os seus gestos; gostava de versos; sabia adotar ares sonhadores, e toda a gente a achava sempre encantadora.

A visitante não possuía qualidades tão variadas. Cham ar-lhe-em os, pois, sim plesm ente, uma mulher encantadora. A sua chegada acordou os dois cachorritos que dorm iam ao sol: Adela, de pelo com prido, m etida no seu velo, e Potpourri, de patas curtas. Os dois, com a cauda enrolada, precipitaram -se, ladrando, para a antessala, onde a visitante, despoj ada da sua capa, apareceu em traj o de brocado e de cor da m oda, com um com prida boa ao pescoço. Por toda a sala se propagou um perfum e de j asm im . Prevenida im ediatam ente da chegada da dama sim plesm ente encantadora, a dama sempre encantadora precipitou-se ao seu encontro. As duas deram -se as m ãos, beij aram -se, soltaram exclam ações de alegria com o duas am igas de colégio a quem suas m am ãs não explicaram ainda que o pai de um a delas é inferior, em posição, ao da outra. Depois de um beij o sonoro que provocou um novo ladrido e valeu aos cães um safanão dado com o lenço, as nossas dam as passaram ao salão azul, m obilado com um canapé, um a m esa de form a oval e até um biom bo guarnecido de renda. Adela, a de pelos com pridos, e Potpourri, o das patas curtas, seguiram -nas, rosnando.

— Aqui, aqui, para este cantinho! — disse a dona da casa, designando à sua am iga um ângulo do canapé. — Assim ! Tom e lá este alm ofadão.

E, dizendo isto, fez-lhe deslizar pelas costas um alm ofadão bordado, que representava um cavalheiro com o nariz às escadinhas e a boca quadrada, com o é de uso em trabalhos deste género.

— Com o sou feliz em a ver! Quando ouvi o ruído do carro perguntei a m im próprio quem poderia chegar tão cedo. « A senhora subgovernadora» , afirm ou Parasha. « Outra vez essa pécora!» , exclam ei. « Que aborrecim ento!» E j á queria m andar dizer-lhe que tinha saído...

A visitante abriu a boca para anunciar a grande novidade, quando um a exclam ação da dama sempre encantadora deu outro rum o à conversa.

— Que deliciosa indiana! — disse, exam inando o vestido da dama simplesmente encantadora.

— Deliciosa, não é verdade? E, não obstante, Praskovia Fiodorovna acha os quadrados dem asiado grandes; e, a estes pontos em castanho, preferiria outros em azul-claro. Acabo de enviar a m inha irm ã um am or de tecido, um a verdadeira m aravilha. Im agine, querida, sobre um fundo azul-celeste, um as riscas finas, finas, tão finas quanto possa conceber a sua im aginação e, alternando com elas, olhos e patas, patas e olhos... Um am or! Nunca se viu nada tão gracioso no m undo!

— É m uito garrido, querida!

— Não é!

— É!

Esclareçam os que a dama sempre encantadora se inclinava para o m aterialism o, para a dúvida, para a negação, e recusava-se a adm itir m uitas coisas. Depois de lhe ter explicado perentoriam ente que o tecido não era nada berrante, a dama simplesmente encantadora exclam ou:

— A propósito: receba os m eus parabéns. Já não se usam os volantes!

— Im possível!

— Não, a m oda são os festões.

— Os festões não são nada bonitos!

— Sim , os festões; só festões; festões na pelerina; festões nas m angas; om breiras afestoadas; borlas afestoadas; festões por toda a parte!

— Festões por toda a parte é m uito feito, Sofia Ivanovna!

— É sim plesm ente adorável, Ana Grigorievna. Fazem -se a dois rebordos com um a trancinha por cim a. Mas o que m ais a surpreenderá... espere... nem vai acreditar no que vou dizer-lhe... Agora usam -se os espartilhos m uito m ais com pridos; à frente, em ponta; as barbas de baleia descem m uito m ais; na parte inferior há uns franzidos, com o no tem po das saias de balão e, por trás, alm ofadas, para arredondar m ais o vestido.

— Isso, confesso, é dem asiado forte! — disse a dama sempre encantadora, m ovendo a cabeça, com ares cheios de dignidade.

— Sim , concordo. É dem asiado! — respondeu a dama simplesmente encantadora.

— Não ponho em dúvida a sua palavra, m as é um a m oda que nunca seguirei.

— Nem eu, tão pouco! Com franqueza, não se sabe até onde chegará a m oda. Por desfastio, pedi a m inha irm ã que m e m andasse um figurino; a m inha Melania j á lançou m ãos à obra.

— O quê? Tem um figurino? — exclam ou, visivelm ente im pressionada, a dama sempre encantadora.

— Sim , a m inha irm ã enviou-m e um .

— Querida am iga! Peço-lhe que m o em preste!

— O pior é que j á o em prestei a Praskovia Fiodorovna. Se o quiser depois...

— Muito obrigada!... Aproveitar as sobras de Praskovia Fiodorovna! Tam bém a senhora dar preferência a estranhos!...

— Mas som os prim as.

— Prim as! Por parte do m arido da senhora... Não, Sofia Ivanovna, não quero ouvir m ais. Isso ofende-m e. A m inha am izade é-lhe desagradável e, com certeza, desej a acabar com ela.

Metida entre dois fogos, a pobre Sofia Ivanovna não sabia por quem decidir-se. Maldizia a sua frivolidade, o seu tem peram ento de bisbilhoteira, e de boa vontade teria prendido a língua com alfinetes.

— E que foi feito do nosso cupido? — continuou a dama sempre encantadora.

— Ai, m eu Deus! Em que estava eu a pensar? Pois se eu só cá vim por causa disso! Se soubesse, Ana Grigorievna, a novidade que lhe trago!

A visitante esteve a pontos de perder o fôlego, com a fluência das palavras que se perseguiam com o um bando de gerifaltes. Só um a pessoa tão cruel com o a sua am iga sincera podia decidir-se a interrom pê-la.

— Faça-lhe os elogios que quiser — disse, com a sua vivacidade habitual. — Isso não m e im pedirá de o apreciar no seu j usto valor. É um pobre diabo, e digo-lhe na cara! Sim , sim : um pobre diabo!

— Mas deixe-m e que lhe conte...

— E é a esse cavalheiro que queriam fazer passar por um esbelto m ancebo? Mas se ele é sim plesm ente feio! Tem um nariz que é um a vergonha.

— Dê-m e licença, dê-m e licença, querida am iga; deixe-m e contar-lhe... É toda um a história; e j á sabe o que quer dizer por toda uma história — exclam ou a visitante num tom de súplica.

Digam os de passagem que estas senhoras esm altavam a conversa com num erosas locuções estrangeiras ou, m elhor, francesas. Se bem que o autor estej a persuadido dos benefícios do francês na Rússia, apesar de todo o seu respeito pelo patriótico costum e que tem a nossa alta sociedade de se exprim ir nesta língua a toda a hora, não pode conform ar-se em introduzir neste poem a russo um a só frase estrangeira. Continuem os, pois, em russo.

— Que história?

— Ah, m inha boa am iga! Não pode calcular a situação em que m e tenho encontrado! Im agine que acabo de receber a visita da arcipreste; conhece-a, a esposa do Padre Cirilo... Pois bem , querida, é um a boa peça o m osquinha m orta do nosso viaj ante.

— Não é possível! Tam bém fez a corte à arcipreste?

— Ai, m inha am iga! Isto ainda não é nada: ouça o que m e contou a arcipreste. Um a proprietária dos arredores, a senhora Koroboshka veio procurá-la, assustada, pálida com o um a defunta... Ouça o que ela disse. Um a verdadeira novela, querida. Era m eia-noite; toda a casa dorm ia; batem ao portão com pancadas vigorosas. « Abram , abram ou vai a porta abaixo!» Então! Que lhe parece? Lindo, o petim etre!

— Mas... quem é essa Koroboshka? Nova? Bonita?

— Não! Um a velha!

— Encantador! Tam bém se atira às velhas! As nossas dam as têm bom gosto, decididam ente! Encontraram por quem se apaixonar!

— Não, não; não é nada disso, Ana Grigorievna. Calcule que ele se lhe apresentou, arm ado dos pés à cabeça, à Rinaldo Rinaldini, e exigindo: « Venda-m e todas as suas alm as m ortas!» . « Im possível» , respondeu m uito assisadam ente a velha senhora, « um a vez que estão m ortas» . « Não» , exclam ou ele, « não estão. Isso é com igo, saber se estão ou não estão m ortas. Afianço-lhe que não, que não e que não!» . Em resum o: um escândalo m edonho. Acodem os aldeões, berram as crianças, todo o m undo grita; ninguém se entende. Im agine o m eu espanto quando ouvi contar esta cena atroz. « Boa e querida senhora» , disse-m e Masha, « vej a ao espelho com o está pálida!» « Bem m e im porta a m im o espelho! O que eu preciso é ir depressa contar tudo a Ana Grigorievna» . Mando engatar; o cocheiro pergunta-m e onde vam os e eu olho para ele, espantada; j ulga-m e, com certeza, louca! Ai, querida, se soubesse com o fiquei transtornada!

— De toda a m aneira, é extraordinário — disse a dama sempre encantadora. — Que significa essa história das alm as m ortas? Não percebo um a palavra. É esta a segunda vez que ouço falar nele. Em bora m eu m arido pretenda que Nozdriov é doido, algum a coisa se deve passar por trás de tudo isto.

— Calcule, m inha querida, com o estaria eu ao ouvir todos estes horrores! « Verdadeiram ente, não sei o que hei de fazer» , disse a Koroboshka. « O bandido obrigou-m e a assinar um papel; atirou-m e com quinze rublos por cabeça; sou um a pobre viúva sem experiência nem am paro; não entendo nada de nada» . Que aventura! Não pode fazer ideia da m inha com oção!

— Será tudo o que quiser, m as isso das alm as m ortas esconde algum a coisa.

— Tam bém é essa a m inha opinião — em itiu, não sem algum a surpresa, a dama simplesmente encantadora. Ansiosa por conhecer a chave do m istério, perguntou im ediatam ente, com ar intrigado: — E que lhe parece que escondem ?

— E do que desconfia a senhora?

— Eu? Eu estou com pletam ente desorientada!

— Tem algum a suspeita?

A dama simplesmente encantadora não encontrou nada que dizer. Sendo m uito im pressionável, era, porém , incapaz de form ar a m enor conj etura sensata e tinha, m ais que ninguém , necessidade de am igas e conselhos.

— Bem — declarou a dama sempre encantadora — vou dizer-lhe o que são essas alm as m ortas...

Em face destas palavras, a visitante, toda olhos, toda ouvidos, alteou o busto, perm aneceu com o que suspensa sobre o canapé e, ainda que um pouco pesada, parecia um a plum a leve, pronta a voar ao prim eiro sopro.

Assim , à entrada de um a floresta, onde os seus batedores acabam de levantar um a lebre, o gentil-hom em russo, grande apaixonado de cães e de caça, fica im óvel, de látego ao alto, sobre o seu cavalo. Monte de pólvora prestes a inflam ar-se, perfura com os olhos o ar agitado; sabe que perseguirá e abaterá o anim al, m esm o que a nevada planura — que cobre de prateadas estrelas os seus lábios, o bigode, os olhos, as sobrancelhas e a gorra de pele de castor — esgote contra ele todas as suas iras.

— As alm as m ortas... — continuou a dama sempre encantadora.

— Que são? Que são? — interrom peu a outra, agitadíssim a.

— As alm as m ortas...

— Fale, por Deus!

— ...não são m ais que um subterfúgio. Na realidade, o que ele pretende é raptar a filha do governador.

Conclusão verdadeiram ente inesperada e singular, a todos os títulos. Ante um a novidade destas, a dama simplesmente encantadora em palideceu, tornou-se lívida, pareceu petrificada.

— Ai, m eu Deus! — exclam ou, no auge da com oção. — Eis um a coisa em que eu nunca tinha pensado!

— E eu — rem atou a dama sempre encantadora — logo adivinhei do que se tratava m al a senhora com eçou a falar.

— Que pensar, depois disto, dos nossos colégios? Boa educação, com efeito! Vej a a inocente!

— Linda inocente, na verdade! Tenho-a ouvido sustentar conversas que eu m e envergonharia de repetir.

— Que horror. Ana Grigorievna! É espantoso pensar até onde pode chegar a im oralidade!

— Vira a cabeça para todos os hom ens. Eu pergunto a m im própria por que é ela tão afetada.

— Não, querida; é um a verdadeira estátua! Um a cara de m árm ore!

— Afetada e bem afetada, lho digo eu! Quem lhe teria ensinado esses adem anes ridículos? Eu nunca vi ninguém fazer tais esgares.

— Um a estátua, querida! E pálida com o a m orte!

— Que diz a senhora, Sofia Ivanovna? Pinta-se indecentem ente!

— Não, não, Ana Grigorievna! Um a brancura de cal.

— Minha querida! Se a visse perto! Na cara tem um palm o de verm elhão que se descascaria com o gesso. A m ãe é um a vaidosa e a filha não desm ente a raça.

— Pode j urar pelo que quiser. Consinto em perder m arido, filhos, riqueza se ela puser a m ais leve pintura.

— Que diz, Sofia Ivanovna? — exclam ou, levantando os braços ao céu, a dama sempre encantadora.

— A senhora é trem enda, Ana Grigorievna! Ouço e não acredito! — exclam ou por sua vez a dama simplesmente encantadora, levantando tam bém os braços.

Não se adm ire o leitor, verificando que as nossas dam as diferem de opinião acerca de algum a coisa que viram de perto e quase ao m esm o tem po. Certas caras neste m undo têm a propriedade de parecer de um branco form oso a um a dam a e de um a cor de groselha a outra.

— Mais um a prova da sua palidez — continuou a dama simplesmente encantadora. — Lem bro-m e de ter dito a Manilov, que estava sentado ao pé de m im : « Olhe para ela, está lívida! E estes im becis extasiam -se diante de um a garota!» E quanto ao nosso pinga-am or, não calcula a senhora até que ponto ele m e repugna!

— Pois, não obstante, algum as pessoas quase o com iam com os olhos.

— Isso entende-se com igo, Ana Grigorievna?

— Não m e refiro a si, querida; a senhora não está só no m undo...

— Não, nunca, nunca, Ana Grigorievna! Conheço-m e m uito bem , perm ita que lho diga. Guarde as suas reprim endas para as outras, que se fazem m osquinhas m ortas.

— Dê-m e licença, dê-m e licença, Sofia Ivanovna! Até hoj e não dei nenhum escândalo. Isso deixo-o ao cuidado de outras...

— Porque há de incom odar-se? A senhora não estava só no baile. Para se sentar perto dele, não viu certa dam a apoderar-se da cadeira m ais próxim a da porta?

Estas últim as palavras deviam provocar um a tem pestade; porém , contra o que se esperava, nada se passou. A dama sempre encantadora não possuía ainda o figurino do vestido da m oda; e a dama simplesmente encantadora ignorava os porm enores do segredo revelado pela sua sincera am iga. Estas salutares reflexões estabeleceram logo a paz. Por outro lado, as nossas dam as, no fundo, não eram m ás; sem sentirem a necessidade de prej udicar-se, não resistiam , porém , ao inconveniente prazer de perm utar alfinetadas: « Tom a, esta é para ti! Apanha-a, enfia-a na cabeça, encaixa-a...» O coração hum ano experim enta toda a casta de necessidades.

— Em todo este assunto — continuou a dama simplesmente encantadora — apenas um ponto m e interessa. Tchichikov está aqui só de passagem . Com o se atreveu a sem elhante golpe de m ão? Deve ter cúm plices...

— E ainda o duvida?

— Mas quem ?

— Quem ? Em prim eiro lugar, Nozdriov!

— Nozdriov? Im possível!

— É m uito capaz disso. Bem sabe que quis vender o próprio pai... ou, o que é pior, j ogá-lo às cartas.

— Meu Deus! Que novidades tão interessantes m e dá! Nunca desconfiei que Nozdriov estivesse m etido nessa história.

— Em com pensação, eu não duvidei um só instante.

— Sem pre há coisas, neste m undo! Algum a vez pensám os que a chegada de Tchichikov revolvesse de tal m aneira a cidade? Se a senhora soubesse, Ana Grigorievna, com o isto m e tem incom odado! Sem a sua am izade, sem a sua benevolência, estava perdida! Vendo a m inha palidez, Masha disse-m e: « Querida e boa senhora, ficou com o m orta!» . « Não se trata agora disso, Masha!...» Mas, realm ente, que aventura! E Nozdriov m etido nela! Calcule a senhora...

A dama simplesmente encantadora pretendeu em vão obter porm enores sobre a hora e as circunstâncias do rapto. A dama sempre encantadora confessou a sua ignorância. Ela não sabia m entir; suposições, sim ; isso era outra coisa. E até estas devem ser baseadas num a convicção íntim a. Neste caso, ela não abria a boca; e o advogado m ais esperto na arte de convencer teria perdido o seu tem po com ela.

No espírito das nossas dam as, a hipótese rapidam ente se converteu em certeza. Que há de estranho nisso? O sexo que se intitula inteligente apenas varia um pouco de m étodo. Vej am os, por exem plo, as dissertações dos sábios. O exórdio é sem pre m odesto, circunspecto. O hom em de ciência tem m uito receio de com eçar. Tim idam ente, pergunta a si próprio: « Encontram os aqui a origem ? Não foi este pedaço de terra que deu o seu nom e à região?» Ou, m elhor: « Não pertencia o docum ento a um a época m ais recente?» Ou, tam bém : « O nom e atribuído a esta povoação não deverá ser atribuído a outra?» . E o nosso hom em cita depois todos os escritores da antiguidade. Quando, porém , descobre, ou pensa ter descoberto, em algum deles a m enor alusão à sua teoria, enche-se de coragem , trata os antigos com o de igual para igual; dirige-lhe perguntas, responde por eles e desaparece com pletam ente a m odéstia do seu exórdio. Tudo lhe parece claro, evidente, irrefutável. « Sim » term ina, « eis o que acontece; este é o verdadeiro nom e das povoações; é assim que a questão deve ser focada» . E do alto da sua tribuna proclam a a nova verdade, que em breve dá a volta ao m undo, recrutando entusiásticos adeptos.

No m om ento em que as nossas form osas dam as revolviam com tanto engenho um problem a tão com plicado, apareceram no salão a torva catadura, as franzidas sobrancelhas e os olhos vivos do procurador. As senhoras apressaram -se a pô-lo ao corrente de tudo; contaram -lhe a com pra das alm as m ortas, o proj eto de rapto; atordoaram -no de tal m aneira, que ficou plantado sobre as pernas, piscando o olho esquerdo, sacudindo com o lenço o rapé espalhado pela barba e não conseguindo perceber um a palavra só do que lhe diziam . Nesta situação o abandonaram as duas am igas e, cada um a por seu lado, foram revolucionar a cidade. Correu isto às m il m aravilhas. Ao cabo de hora c m eia, os espíritos ferm entavam , sem com preender nada do assunto. A sua nebulosa narração espantou toda a gente, a com eçar pelos funcionários. A princípio o seu aturdim ento lem brava o de um colegial a quem os cam aradas, acordados prim eiro que ele, m eteram no nariz um canudinho de tabaco (um hússar, com o eles dizem ). Com toda a energia dos adorm ecidos, o m enino aspira a dose, acorda em sobressalto, abre os olhos desorientados, sem poder com preender onde se encontra nem o que lhe sucede. Em breve distingue as paredes, ilum inadas por um raio oblíquo, o riso dos seus cam aradas escondidos pelos cantos; adivinha pela j anela a m anhã que se aproxim a, o bosque inundado dos gorj eios dos passarinhos, o arroio que descreve por entre os canaviais os seus argênteos m eandros, no qual se reúnem as delícias do banho com os j ogos dos rapazes e, por fim , dá conta de que lhe m eteram um hússar no nariz.

Tal foi, exatam ente, o prim eiro assom bro dos funcionários e dos outros habitantes de N... Ficaram de boca aberta, com olhos de carneiro, dilatados. As alm as m ortas, Tchichikov e a filha do governador form avam nas suas cabeças um estranho revoluteio. Passado o prim eiro m om ento, com eçaram a separar os assuntos. Que significavam as alm as m ortas? Com prar alm as m ortas! Não é um a coisa contrária a toda a lógica? Só um a ideia de visionário! Com que m oeda cabalística as com praria Tchichikov? Que utilidade tiraria disso? E que queria dizer aquele negócio da filha do governador? Se tinha intenção de a raptar, para que com prava alm as m ortas? E, se pretendia adquirir alm as m ortas, para quê o rapto? Teria intenção de as oferecer? As balelas que corriam pela cidade! Por que diabo não se podia pôr o nariz fora da porta sem se ver oprim ido por histórias abracadabrantes? No entanto, se tais rum ores corriam não seria sem razão. Sem razão? Que razão pode haver no caso das alm as m ortas? Nenhum a. Tudo isso não passava de pataratas, balelas, contos de soalheiro.

Com a velocidade do com boio, não tardou que toda a gente falasse das alm as m ortas e da filha do governador, de Tchichikov e daa suas alm as, da filha do governador e de Tchichikov. Sobre a am odorrada cidade, passou um furacão. Viram -se sair dos seus buracos aquelas espécies de arganazes, de m arm otas, que, durante anos. não tiravam a bata de andar por casa, livrando-se com a sua indolência do sapateiro, do alfaiate, do bêbado do cocheiro; todos quantos j á não visitavam senão os senhores de Rupillon e de Ronflefort — expressão em pregada entre nós para designar os profundos sonos de lado, de costas, em todas as posições, acom panhados de roncos, de assobios de nariz e m ais acessórios — todos aqueles a quem nenhum convite podia arrancar de sua casa, ainda que se tratasse de saborear um a fam osa sopa de peixe preparada com gigantescos esturj ões e acom panhada de Kulebiakis (torta de peixe e ovos) que se derretem na boca. Em resum o: a cidade parecia im portante e populosa. Nos salões foram -se apresentando pessoas desconhecidas; um tal Sy soi Pafnutievich; um tal Macdonald Karlovich, e um gatuno, ferido num braço, e tão alto, tão alto, que nunca se tinha visto outro sem elhante. Toda a sorte de veículos antediluvianos, berlindas, tartanas, caleches, arrastaram -se, grunhindo e chiando, pelas ruas. E as línguas não descansavam um m om ento. Noutra ocasião, sem elhantes m exericos não despertariam a atenção. Mas a cidade de N... estava, desde há m uito tem po, sedenta de novidades. Durante dois ou três m eses não se tinha dado à luz nenhum a bisbilhotice. E sabe-se que os m exericos são tão indispensáveis aos habitantes das pequenas cidades com o a própria alim entação. Duas opiniões diam etralm ente opostas se form aram ; a cidade dividiu-se em dois partidos: o dos hom ens e o das m ulheres. O partido m asculino, o m enos desperto do sono, só se ocupou das alm as m ortas. O fem inino consagrou toda a sua atenção ao rapto da filha do governador. Sej a dito em honra das dam as que o destino parece votar decididam ente pelas donas de casa: este últim o partido m ostrou m ais engenho e m ais golpe de vista. Rapidam ente se desem aranhou o assunto, para o explicar, precisá-lo, transform á-lo num quadro de harm oniosos contornos.

Tchichikov, enam orado desde há m uito tem po, encontrava a sua beldade no parque, à luz da lua; rico com o um j udeu, teria sido um genro m uito apresentável. Desgraçadam ente, j á era casado. (Com o souberam elas este porm enor? Mistério!). Sua m ulher, abandonada e sem pre enam orada, tinha escrito ao governador um a carta o m ais com ovedora possível. Então, em face da negativa certa dos pais, ele decidiu-se pelo rapto.

Tam bém circulava um a versão diferente. Tchichikov não estava casado; querendo, porém , j ogar pelo seguro, o m osquinha m orta havia entabulado relações íntim as com a m ãe, para, bruscam ente, pedir-lhe a m ão da filha. Cheia de rem orsos, presa de escrúpulos religiosos, a dam a recusara de um m odo term inante e Tchichikov tom ara a resolução de lhe roubar a filha.

Penetrando até o fundo dos circunlóquios m ais rem otos, esta novela apresentava m uitas variantes. Com o na Rússia a arraia m iúda se interessava m uito pelas m exeriquices da alta sociedade, discutiu-se, com entou-se, retocou-se a aventura, em casas aonde a existência de Tchichikov era até então ignorada. A narração tom ava corpo de hora a hora; tornava-se precisa de dia para dia. Quando adquiriu a sua form a definitiva, então, naturalm ente, chegou aos ouvidos da senhora governadora. Incapaz de suspeitar tam anha infâm ia, a venerável senhora deu largas a um a indignação perfeitam ente j ustificada. A j ovem loura teve que suportar o m ais desagradável interrogatório que um a m enina de dezasseis anos j am ais pôde sofrer. Esm agada de alto a baixo com perguntas, reprim endas, am eaças, adm oestações, a infeliz desfez-se em lágrim as, sem com preender um a palavra do que lhe diziam . O porteiro recebeu ordem de não deixar entrar Tchichikov, sob nenhum pretexto.

Term inada a sua obra por este lado, as dam as uniram -se ao partido m asculino, esforçando-se por atraí-lo para o seu ponto de vista: as alm as m ortas não eram m ais que um subterfúgio para afastar suspeitas. Elas lograram convencer alguns dos seus adversários; m as os trânsfugas foram apodados, por seus irm ãos de arm as, de m ulherengos e de gorros de dorm ir, expressões, com o é sabido, m uito inj uriosas para o sexo forte.

Além disso, em bora os hom ens protestassem , não apresentaram um a tão cerrada frente com o o exército fem inino; a inércia e a lentidão predom inavam nas suas fileiras; o caos, a desordem , nos espíritos. Resum indo: eles m anifestaram a sua natureza grosseira, preguiçosa, frívola, sem pre tem erosa, sem pre suspicaz, ignorando a arte da coordenação e bem assim o entusiasm o das convicções. Classificaram de absurda a bela história arquitetada pelas dam as; o cérebro fem inino parece-se m uito com um saco que adm ite tudo quanto nele se quer m eter. Um paisano com o Tchichikov não era capar, de se atrever a um a aventura de hússar.

O único ponto digno de consideração era a com pra das alm as m ortas. Que podia haver por detrás disto? Só o diabo o sabia! De toda a m aneira, era preciso desconfiar.

E esta desconfiança j ustificava-se. Um novo governador geral ia tom ar a direção da província e, com o é natural, os nossos funcionários trem iam ante a ideia de adm oestações, reprim endas e outras frioleiras cora que os grandes chefes obsequeiam m uito gostosam ente os seus subordinados. « Se algum a vez» , pensavam , « chegam aos seus ouvidos os estúpidos rum ores que correm pela cidade, passarem os um m au bocado» .

O inspetor dos serviços de saúde em palideceu subitam ente: as almas mortas não significariam as m uito num erosas vítim as de um a epidem ia de febres m alignas contra a qual se não adotara qualquer providência? Não estaria Tchichikov encarregado de algum a inform ação secreta? O inspetor com unicou os seus tem ores ao presidente, que os qualificou de quim eras; m as em palideceu, por seu turno, pensando no que sucederia se as alm as com pradas por Tchichikov fossem realm ente m ortas. Não interviera ele nas escrituras de venda e não representara em pessoa os interesses de Pliushkin? Que suspeitaria o governador? Bastaria ouvir m eia palavra sobre isso, para que eles fossem logo castigados. Mais contagioso que a peste, o m edo com unicou-se num abrir e fechar de olhos. Todos se reconheceram culpados de faltas que não tinham com etido. A expressão almas mortas adquiriu toda a espécie de significados. Até se chegou a perguntar se não seria aquilo um a alusão a corpos rapidam ente enterrados em consequência de dois acontecim entos recentes.

Durante a feira, uns negociantes de Solvy tchegodsk haviam oferecido aos seus colegas de Ustsy ssolsk um banquete à russa, acrescido de suplem entos à m oda estrangeira: orchata, ponche e licores diversos. Logo de princípio, a orgia degenerou em desordem . Os de Ustsy ssolsk sucum biram , não sem deixar nos corpos dos seus adversários o incrível peso dos seus punhos. Um destes até na refrega ficou sem nariz. Os vencedores reconheceram ter ido um pouco longe, e até, diz-se, acom panharam com quatro notas de cem rublos o seu generoso arrependim ento. Depois, o caso tornou-se m uito escuro. As averiguações dem onstraram que os hom ens de Ustsy ssolsk m orreram asfixiados e foram enterrados com o tais.

Além disto, os cam poneses de Vanité-Miteuse, povoação foreira da coroa, unidos aos de Borovki, aliás, Buscapleitos, tinham , recentem ente, ofendido a polícia rural, m atando o seu assessor, Drobiaj kin, dem asiado propenso a aplicar-lhe os seus serviços. Esta espécie de visitas causam às vezes m ais estragos que um a epidem ia de febres m alignas. O assessor, afirm avam os m uj iques, votava-lhes rancor, especialm ente a suas m ulheres e a seus filhos. Com segurança, nada se sabia, por m ais que eles pretendessem , nas suas declarações, ter dirigido ao tratante m ais que um a advertência e tê-lo até expulsado um a vez, em traj o de Adão, de um a casa onde aquela raposa m atreira se tinha escondido. Se a falta de coração de um polícia m erecia todo o rigor da j ustiça, os aldeãos tinham culpa tam bém por tê-la exercido eles próprios, adm itindo a sua participação no assassinato. O caso, porém , estava m uito confuso: o cadáver fora encontrado na estrada, com a roupa às tiras e as feições irreconhecíveis. Por vezes, o assunto foi levado à barra do tribunal da com arca, que adiou a sua deliberação. O grande núm ero de cam poneses não perm itia discernir os culpados. Aliás, estas boas pessoas, ainda vivas, tinham interesse em ganhar a causa, cuj a solução, pelo contrário, j á pouco im portava ao defunto Drobiaj kin. O tribunal entendeu, pois, que o assessor Drobiaj kin, culpado do abuso de autoridade para com os aldeãos de Buscapleitos e Vanité-Miteuse, tinha sucum bido no seu trenó, vítim a de um ataque de apoplexia.

Estas sentenças, não obstante serem m uito sábias e m uito regulares, perturbavam agora os espíritos. As alm as m ortas não se referiam a estes cadáveres, tão prontam ente sepultados?

A chegada de duas cartas para o governador fez com que a desorientação atingisse o auge. Um destes docum entos assinalava na província a presença de um fabricante de notas falsas, de m últiplos sobrenom es, e ordenava a m ais ativa vigilância. O outro, proveniente do governador da vizinha província, participava a evasão de um bandido, e rogava a detenção de todos os indivíduos suspeitos e indocum entados. Estas notícias reduziram a pó as suspeitas anteriores. Toda a gente endoideceu. Claro está que não podia existir relação algum a entre aqueles m alfeitores e Tchichikov; não obstante, todos se puseram a refletir. De concreto, ninguém sabia realm ente quem fosse este personagem . Ele m esm o tinha-se exprim ido em term os m uito vagos e por sua conta própria, falando som ente de infelicidades causadas por am or da Justiça, de inim igos encarniçados que o perseguiam , desej osos de atentar contra a sua vida. Ante esta recordação, a perplexidade redobrou. Se tais perigos o haviam am eaçado, com certeza não tinha a consciência tranquila. Mas, então, quem era ele, de facto? A j ulgar pelas aparências, nem bandido nem m oedeiro falso. Quem podia ser? Os nossos funcionários fizeram uns aos outros, por fim , a pergunta que desde o princípio os devia ter preocupado, isto é, desde o prim eiro capítulo do nosso poem a.

Ao cabo, decidiram colher inform ações j unto das pessoas a quem Tchichikov tinha com prado alm as m ortas. Qual era o obj eto dessas com pras? Que significava esta expressão? Não deixara Tchichikov escapar algum as palavras referentes às suas intenções e à sua pessoa?

Dirigiram -se prim eiro à senhora Koroboshka, de quem não souberam grande coisa. Tchichikov, efetivam ente, tinha-lhe com prado alm as m ortas no valor de quinze rublos e prom etera-lhe com prar penas para alm ofadas e m anteiga fresca, de que fornecia o governo. O tal devia ser um m ariola, pois, j á doutra vez, um com prador de penas e negociante de m anteiga pregara o calote a num erosas pessoas e vigarizara o arcipreste em m ais de cem rublos. Estas palavras e outras sem elhantes revelaram unicam ente, aos que se inform avam , o desarranj o m ental da velha caduca.

Manilov com prom eteu-se a responder por Tchichikov com o se fosse ele próprio. Espontaneam ente sacrificaria toda a sua fortuna para possuir a centésim a parte das qualidades de Pavel Ivanovitch. Com os olhos m eio fechados, acom panhou este adulador conceito de alguns aforism os acerca da am izade que, em bora dem onstrassem a ternura do seu coração, nada adiantavam aos investigadores sobre o assunto em causa. Sobakevich declarou que tinha Tchichikov por um cavalheiro; vendera-lhe cam poneses escolhidos e perfeitam ente vivos naquela altura; quanto ao futuro, nada podia garantir. Os m arotos podiam sucum bir às fadigas da viagem ; todos estam os nas m ãos do Senhor; as febres e outras enferm idades m ortais são coisa corrente, neste m undo; às vezes, levam aldeias inteiras.

Os senhores funcionários recorreram então a um a procedim ento que, em bora sej a feio, não deixa de em pregar-se; por interm édio de am izades de antecâm ara, tentaram obter dos criados de Tchichikov inform es acerca do seu am o, do seu passado, da sua atual condição. Tam bém nisto foi escassa a colheita. Petrushka revelou som ente o cheiro a curral, que o caracterizava; Selifan grunhiu que o patrão tinha servido o Estado e feito a sua carreira nas Alfândegas.

As pessoas desta categoria são m uito engraçadas. Dirigi-lhes um a pergunta, e a m em ória falha-lhes; exprim em -se com dificuldade; declaram , até, não saber nada. Passai a outra ordem de ideias e então o caso m uda de figura: fornecem -vos um am ontoado de porm enores de que vós não sabeis que fazer.

Destas infrutuosas pesquisas, os funcionários adquiriram um a convicção: ignoravam decididam ente quem era Tchichikov; e, no entanto, este devia ser alguém . Já desesperados, quiseram , pelo m enos, acordar nas m edidas que deviam ser tom adas. Era preciso considerar Pavel Ivanovitch um indivíduo suspeito e apontá-lo com o tal? Ou, pelo contrário, um im portante personagem que os podia m eter na cadeia pelo m esm o m otivo? Com este fim , decidiram celebrar um a reunião extraordinária em casa do chefe da polícia, pai e benfeitor da cidade, com o o leitor não ignora.