Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 15 de 15 · parte 1/3

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Almas Mortas

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Na m anhã seguinte arranj ou-se tudo às m il m aravilhas. Kostanioglo em prestou-lhe da m elhor vontade dez m il rublos, sem j uros, sem garantias, contra um sim ples recibo: tal era o seu desej o de aj udar qualquer pessoa que quisesse ser proprietário.

Mostrou a Tchichikov toda a sua exploração agrícola. Nem um m inuto m al em pregado; nenhum obstáculo; a m enor negligência dos cam poneses era logo descoberta. Quando algum se aproxim ava a querer conversa, Kostanioglo, Argos vigilante, despachava-o im ediatam ente a toque de caixa. Em nenhum a parte se via alguém desocupado. A inteligência e a satisfação liam -se em todos os rostos. Graças a um a organização excelente na sua sim plicidade, tudo cam inhava naturalm ente. A alternativa entre as florestas e os cam pos de lavradio cham ou a atenção de Tchichikov. Que de coisas tinha realizado aquele hom em , sem ruído, sem fazer proj etos nem discorrer sobre os m eios de assegurar a prosperidade do género hum ano! Pelo contrário, que vida tão inútil leva o habitante da capital que passa o seu tem po em propalar ditos insulsos pelos salões, deslizando pelos reluzentes soalhos! Tudo isto encoraj ava em Tchichikov o desej o de adquirir um a propriedade.

Kostanioglo encarregou-se de acom panhar o seu hóspede a casa de Jlobuiev, para exam inarem j untos a herdade. Depois de um copioso alm oço, partiram os três no carro de Pavel Ivanovitch, que estava m uito bem disposto. A caleche do dono da casa seguia atrás deles, vazia. Iarbas corria adiante, assustando os pássaros. Durante quinze verstas, sucederam -se os bosques e os cam pos de Kostanioglo. Quando term inaram , o aspeto da paisagem era outro. Trigo raro; troncos, em vez de árvores. Apesar da sua pitoresca situação, a pequena propriedade revelava, de longe, grande incúria. Um a casa nova, de pedra, desabitada, apresentava-se em prim eiro plano. Via-se que estava por acabar, havia vários anos. Esta ocultava outra, habitada. Encontraram o dono, desgrenhado, de olhos inchados, acordado de há pouco. Aparentava quarenta anos e tinha a gravata fora do seu lugar, um rem endo no casacão, os sapatos esburacados.

A chegada dos visitantes regozij ou-o com o se tornasse a ver seus irm ãos depois de longa ausência.

— Constantino Fiodorovich! Platon Mij ailovich! Que prazer voltar a ver-vos! Não acredito nos m eus olhos! Não esperava a visita de ninguém . Todos fogem de m im com o da peste, com receio de que lhes peça dinheiro em prestado. Com o a vida é dura, Constantino Fiodorovich! A culpa é m inha, tam bém é verdade; tenho vivido com o um porco! Os senhores desculpem -m e, se os recebo com esta indum entária e com os sapatos cheios de buracos. Que lhes poderei eu oferecer?

— Basta de cerim ónias! Viem os propor-lhe um negócio. Trago-lhe um com prador: Pavel Ivanovitch — disse Kostanioglo.

— Muito gosto em o conhecer! Perm ita-m e que lhe aperte a m ão.

Tchichikov estendeu-lhe as duas.

— Bem quisera, Pavel Ivanovitch, m ostrar-lhe um dom ínio em bom estado... Mas, perdão, senhores... j á alm oçaram ?

— Sim , sim ! — disse Kostanioglo, para atalhar a conversa. — Nós pouco nos dem oram os. Vam os j á ver isto.

— Nesse caso, vam os lá observar a m inha desordem e o m eu desm azelo.

Jlobuiev e os seus hóspedes pegaram nos gorros e com eçaram a inspecionar a propriedade. Prim eiro, a aldeia: um a com prida rua em que se erguiam , de um e de outro lado, velhas m asm orras com m inúsculas j anelas tapadas com farrapos.

— Vam os ver a m inha desordem e o m eu desm azelo — repetia Jlobuiev. — Realm ente, fizeram bem em alm oçar antes de vir. Calcule o senhor, Constantino Fiodorovich, que nem um frango m c resta. Vej a ao que eu cheguei!

Suspirou e, com preendendo que Constantino Fiodorovich não m anifestava por ele grande sim patia, adiantou-se com Platonov, a quem tinha agarrado pelo braço, apertando-o contra o seu peito. Do m esm o m odo, Kostanioglo e Tchichikov seguiam -nos a distância.

— É duro, Platon Mij ailovich! — dizia Jlobuiev a Platonov. — Não pode o senhor im aginar com o custa. Nem dinheiro nem trigo nem sapatos. O senhor não está acostum ado a estas coisas. E eu rir-m e-ia disto, se fosse novo; m as, quando a adversidade nos apanha às portas da velhice e se tem os a nosso cargo m ulher e cinco filhos, bem contra a nossa vontade assaltam -nos ideias negras.

— Mas, se vender a sua propriedade, poderá ainda salvar-se? — perguntou Platonov.

— De m aneira nenhum a! — disse Jlobuiev, gesticulando. — Tudo será absorvido pelos m eus credores e apenas poderei ficar com m il rublos.

— Então, que tenciona fazer?

— Sei lá!

— Por que não tenta algum a coisa para m odificar a sua situação?

— Que posso eu tentar?

— Por am or de Deus! Não tem rem édio senão conseguir um em prego.

— Eu sou sim ples secretário de governo. Que lugar m e dariam ? Um a insignificância. A que ordenado posso aspirar? A quinhentos rublos!

— Faça-se adm inistrador.

— Quem m e confiará a sua propriedade, a m im , que delapidei a que tinha?

— Mas quando se está am eaçado de m orrer de fom e, é necessário em preender algum a coisa. Eu pedirei a m eu irm ão que trate de lhe arranj ar um em prego, por interm édio de alguém da cidade.

— Não, Platon Mij ailovich — disse Jlobuiev, com um suspiro, apertando-lhe um braço com força. — Eu não sirvo para nada. Estou decrépito antes do tem po; tenho lum bago, em consequência de resfriam ento, reum ático num om bro. Que posso fazer? Arruinar o tesouro, para quê? Não faltam agora em pregados, atraídos por lugares chorudos. Não perm ita Deus que, para m e pagarem um soldo, sej a sobrecarregada a classe pobre!

« Eis ao que leva a dissipação!» , pensava Platonov. « Isto ainda é pior que a m inha apatia!»

Enquanto assim falavam , Kostanioglo, que ia atrás com Tchichikov, não podia reprim ir a sua cólera.

— Vej a o senhor — dizia, indicando com o dedo as choças — a que estado de m iséria reduziu os seus cam poneses. Nem carros nem cavalos. Num caso de epizootia, aí o tem incapaz de cuidar do que lhe pertence. Venda-se tudo, m as forneçam -se anim ais ao cam ponês para que não estej a um só dia sem trabalhar! Fique sabendo que são precisos agora anos e anos para reparar o m al produzido. Os cam poneses adquiriram hábitos de preguiça e de em briaguez. Só o facto de perm anecerem um ano sem trabalhar perverteu-os para sem pre. Já estão acostum ados aos farrapos e à vagabundagem . E a terra! Em que estado se encontra! Repare o senhor na terra! — disse, apontando para os cam pos que apareciam agora por detrás das isbas. — E, apesar disso, tudo está inundado de prim avera. Eu cultivaria aqui o linho e só ele m e havia de render cinco m il rublos, sem earia nabos, de onde havia de tirar quatro m il. Vej a esse centeio m aninho: são desperdícios do ano anterior, pois, que eu saiba, nada se sem eou este ano. E esses barrancos! Neles plantaria tais bosques que um corvo não atingiria os seus pináculos! Desprezar um a terra destas! Um tesouro! Mesm o não tendo com que trabalhar, podia ter-se dedicado à cultura dos pântanos. Pega na enxada, faze trabalhar, a m ulher, os filhos, os criados, e m orre no trabalho, anim al! Ao m enos, m orrerás cum prindo o teu dever, e não grunhindo à m esa, com o um cevado!

Depois disto, Kostanioglo cuspiu e um tom bilioso anuviou-lhe a testa.

Em breve chegaram ao cim o de um a ladeira onde se agarravam pés de ervilha. Um cotovelo do rio brilhava a distância; parte da casa do general Betrischev, oculta pelos bosques, apareceu na perspetiva. Distinguia-se atrás dela um tufo de verdura, que a distância recobria de um a poeira azulada. Graças a este porm enor, Tchichikov reconheceu o ponto onde devia ficar a propriedade de Tentietnikov.

— Se aqui se plantassem árvores — disse — a paisagem poderia aum entar em beleza.

— Ah! O senhor gosta de adm irar os panoram as? — disse Kostanioglo, prontam ente, olhando para ele com ar severo. — Cuidado! Procurando trechos pitorescos, o senhor ficará sem pão e sem os trechos pitorescos. Tom e em consideração a utilidade; a beleza virá pelo seu pé. Por exem plo, as cidades. Até agora, as m ais form osas são as que se fizeram por si próprias, aquelas em que cada um construiu segundo as necessidades e os seus gostos. Pelo contrário, as edificadas a cordel parecem quartéis... Procurando a beleza! Cuide o senhor apenas das necessidades!

— É pena que sej a preciso esperar m uito tem po; eu quereria ver tudo rapidam ente no estado em que se desej a.

— Será o senhor um rapaz de vinte e cinco anos?... Um funcionário petersburguês... Tenha paciência! Trabalhe seis anos a seguir, plante, sem eie, cave a terra sem descanso. É duro. Mas, em com pensação, um a vez dado esse im pulso à terra, ela própria com eçará a aj udá-lo, não será com o um a m áquina qualquer. Não, não, m eu caro senhor; além dos setenta braços que poderá ter ao seu dispor, outros setecentos, invisíveis, trabalharão para si. Tudo será decuplicado! Na m inha casa, eu não tenho que intervir; tudo cam inha agora pela força adquirida. Sim , a natureza am a a paciência; é um a lei que lhe im pôs o próprio Deus, que favorece os pacientes.

— Ouvindo-o, ao senhor, sentem -se renascer as forças. Eleva-se o nosso espírito.

— Vej a o senhor com o está lavrada a terra! — exclam ou Kostanioglo, com am argo sentim ento, designando um a leira. — Eu não posso estar aqui m ais tem po. Aflige-m e contem plar esta desordem e este abandono. O senhor pode fechar o negócio sem m im . Apresse-se a arrancar este tesouro a esse im becil, que profana as dádivas de Deus.

Kostanioglo ficou som brio; preso de um a agitação fibrilosa, despediu-se de Tchichikov e aproxim ou-se do proprietário para fazer o m esm o.

— O quê, Constantino Fiodorovich! — disse Jlobuiev, surpreendido. — Mal chegou e j á se vai em bora?

— Não tenho tem po; um negócio urgente exige a m inha presença em casa — disse Kostanioglo.

Despediu-se, saltou para a sua caleche e partiu. Jlobuiev pareceu com preender a causa da sua retirada.

— Constantino Fiodorovich não pôde conter-se — disse. — Não é agradável a um adm inistrador com o ele contem plar um o propriedade tão m al cuidada. Im agine o senhor, Pavel Ivanovitch, que nem ao m enos sem eei este ano. Palavra de honra! Não tinha sem entes nem com que trabalhar. O seu irm ão, Platon Mij ailovich, sabe, segundo consta, fazer as suas propriedades produzir à m aravilha; Constantino Fiodorovich é um Napoleão no seu género. Penso m uitas vezes: « Por que é que um só hom em tem tanta energia? Se ao m enos um a parte dela fosse destinada a um tonto com o eu!...» . Os senhores tenham cuidado, não vão cair no lam açal, ao atravessar o passadiço. E, no entanto, eu dei ordem para que arranj assem estas tábuas na prim avera... Os m eus pobres cam poneses causam -m e pena; necessitam de um exem plo; m as que exem plo posso eu dar-lhes? Não posso m ostrar-m e exigente. Calcule o senhor, Pavel Ivanovitch. Com o exigir-lhes ordem , quando cu próprio sou um desordenado? Há m uito tem po que deveria tê-los em ancipado; isso, porém , não serviria de nada. O que eles têm é necessidade de aprender a viver. É preciso um hom em severo e forte que viva m uito tem po j unto deles e dê provas de um a atividade infatigável. O russo, reconheço-o por m im , deve ser estim ulado; quando não, am olece e dorm e.

— É estranho! — disse Platonov. — Por que será que o russo é capaz de se relaxar a tal ponto, que, se não é vigiado, um hom em do povo pode converter-se num borrachão ou num gatuno?

— Consequências da falta de instrução — observou Tchichikov.

— Deus o sabe! — disse Jlobuiev. — Nós som os instruídos; seguim os os cursos da Universidade e, não obstante, som os bons? Que aprendi eu? A arte de viver? De m odo nenhum ; m as sim de gastar em toda a espécie de futilidades. Fam iliarizei-m e com um a m ultidão de coisas caras. Porque fiz os m eus estudos de um a form a absurda? Não, porque outros cam aradas estão no m esm o caso. Dois ou três obtiveram desses cursos um proveito real, talvez por serem naturalm ente inteligentes; os outros só se esforçam por aprender o que lhes arruína a saúde e lhes dá cabo do dinheiro. Assim , pois, tom ám os da instrução o que ela tem de m au; contentám o-nos com as aparências, sem ir m ais além . Não, Pavel Ivanovitch; se não sabem os viver, é por outra razão que eu não alcanço.

— Razões devem existir para isso — disse Tchichikov.

O pobre Jlobuiev suspirou profundam ente e continuou:

— Às vezes, parece-m e que o russo está condenado sem apelo. Em preende tudo e não acaba nada. Pensa sem pre com eçar no dia seguinte um a vida nova: pôr-se a econom izar; e naquela m esm a noite em panturra-se até o ponto de não poder gesticular, com a língua pastosa; e fica com o um m ocho, a olhar para a gente.

— Sim — disse Tchichikov, sorrindo — isso acontece.

— Voltem os por aqui — disse Jlobuiev. — Passarem os um a vista de olhos pelas terras dos m eus cam poneses. Vej a o senhor; a razão não é patrim ónio russo. Eu duvido que algum de nós sej a responsável. Ainda quando vej o que alguém leva um a vida regrada, que forra algum dinheiro, apesar disso não m e inspira confiança. Quando chegar a velho, o diabo dar-lhe-á volta ao m iolo tam bém , e gastá-lo-á todo de um a assentada. Educados ou não, todos som os parecidos, creia. Falta-nos algum a coisa; eu, porém , não posso dizer o quê.

Ao regressar, ofereceram -se-lhes os m esm os espetáculos. Um a noj enta desordem se m anifestava por toda a parte. Mesm o a m eio da rua, tinha-se form ado um novo lodaçal. Entre os cam poneses, observava-se o m esm o desm azelo, o m esm o abandono que no seu am o. Um a harpia, de corpete sebento, m assacrava com pancadas um garotito, cham ando em seu auxílio todos os diabos. Mais adiante, dois aldeãos contem plavam com estoica indiferença a cólera da bêbeda. Um deles coçava-se abaixo das costas; o outro bocej ava. As casas e os tetos bocej avam tam bém . A sua aparência fez bocej ar Platonov. « Aqui está a m inha futura propriedade» , disse para si Tchichikov; « buraco sobre buraco, rem endo sobre rem endo» . Com efeito, um a isba estava recoberta com um a porta, à guisa de telhado. Postes arrancados do pátio senhorial am paravam as escavacadas j anelas. Com o se vê, os aldeãos punham em prática o sistem a do cafetã de Triska: cortavam as fraldas e os adornos para rem endar os cotovelos.

— A sua propriedade encontra-se num estado deplorável — disse Tchichikov quando, term inada a inspeção, se aproxim avam da casa.

Entraram . Nos com partim entos, um a m istura de luxo e desconforto surpreendia desagradavelm ente a vista. Um volum e de Shakespeare repousava sobre um a escrivaninha, onde tam bém repousava um a pequena m ão de m arfim para coçar as costas. A dona da casa, vestida à m oda e com fino gosto, falou da cidade e do teatro que se tinha construído. Os filhos, rapazes e raparigas alegres e vivazes, estavam m uito bem vestidos: até lhes arranj aram um a precetora. Isto, porém , som ente fazia inspirar dó. Mais lhes valera que usassem fatos de algodão, blusas singelas, e que corressem pelas im ediações sem se distinguir em nada dos filhos dos cam poneses. A senhora recebeu dentro em pouco a visita de um a palradora com quem se dirigiu aos seus aposentos, seguidas dos m eninos. Os hom ens ficaram sós.

— Vej am os, então, que preço lhe atribui? — disse Tchichikov. — E peça o m ínim o, porque a propriedade encontra-se em bem pior estado do que eu pensava.

— Num estado deplorável, Pavel Ivanovitch! — respondeu Jlobuiev. — E ainda não é tudo. Não o oculto: das cem alm as que figuram no recenseam ento, não restam m ais que cinquenta em virtude da cólera; os outros escaparam -se sem passaporte; de m odo que é preciso considerá-los com o m ortos. Se apelássem os para os tribunais, levavam -nos tudo. Por isso não peço m ais que trinta e cinco m il rublos.

Tchichikov quis, naturalm ente, regatear.

— Misericórdia! Trinta e cinco m il rublos por um dom ínio com o este! Contente-se com vinte e cinco m il.

Platonov sentiu escrúpulos.

— Com pre-o, Pavel Ivanovitch — disse. — O dom ínio vale essa im portância. Se o senhor lhe não dá os trinta e cinco m il rublos, m eu irm ão e eu associam o-nos para o com prar.

— Muito bem ; estou de acordo — disse Tchichikov, sentindo m edo. — Está fechado o negócio; m as com a condição de lhe pagar m etade dentro de um ano.

— Não, Pavel Ivanovitch; isso é de todo o ponto im possível! Entregue-m e o senhor agora m etade e o resto dentro de quinze dias. Um em préstim o dar-m e-ia outro tanto, desde que tivesse com que untar as m ãos a essas sanguessugas dos funcionários.

— Com o hei de arranj ar isto? Realm ente não sei — disse Tchichikov. — Eu, ao todo, não tenho m ais que dez m il rublos.

Mentia. Já tinha vinte m il, contando com o dinheiro em prestado por Kostanioglo; m as custava-lhe pagar de um a só vez tão grande som a.

— Não, Pavel Ivanovitch, rogo-lhe. Asseguro-lhe que preciso de quinze m il rublos.

— Eu em presto-lhe cinco m il — interveio Platonov.

— Então, sej a! — disse Tchichikov, enquanto pensava: « Isto corre às m il m aravilhas, desde que m e em prestem dinheiro!» .

Foi-se buscar a caixita ao carro. Pavel Ivanovitch tirou dela dez m il rublos para Jlobuiev, com a prom essa de pagar no dia seguinte os cinco m il restantes. Sim ples prom essa, é claro; a intenção de Tchichikov era levar três m il; o resto, dentro de dois ou três dias e, se fosse possível, alargar ainda esse prazo. Pavel Ivanovitch sentia um a repugnância particular em entregar dinheiro. Quando um a necessidade im periosa o obrigava a isso, preferia, não obstante, pagar no dia seguinte e não no próprio dia. Todos procedem os de um m odo sem elhante. Gostam os de fazer esperar um pretendente; que vá para a antessala! Pouco nos im porta que cada hora sej a preciosa para ele e que os seus interesses estej am a ser prej udicados. Volte am anhã, m eu am igo! Hoj e, não tenho tem po!

— Onde passará a viver? — perguntou Platonov a Jlobuiev. — O senhor tem outra propriedade?

— Tenho que m e instalar na cidade; possuo ali um a casita. De qualquer m aneira, era indispensável, por causa das crianças; dentro em pouco, necessitam de professores de m úsica, de dança, de história sagrada... e no cam po não se encontra um , por nenhum preço.

« Não têm para com er e quer professor de dança para os filhos!» , pensou Tchichikov.

— Entretanto, é preciso com em orar a venda — disse Jlobuiev. — Eh, Kiriushka! traz-nos um a garrafa de cham panhe!

« Não tem pão, m as tem cham panhe» , pensou Tchichikov.

Platonov não sabia que pensar.

Jlobuiev tinha-se prevenido com cham panhe, por necessidade. Mandara buscar kvass à cidade, m as o tendeiro não lho quis fiar. Com o, porém , era preciso beber, e um francês, corretor de vinhos, recentem ente chegado de Petersburgo, abria crédito a toda a gente, viu-se obrigado a com prar cham panhe.

Chegado o vinho, beberam três taças. Alegraram -se os ânim os. Jlobuiev expandiu-se; tornou-se am ável e espirituoso, prodigalizou boas palavras e contou anedotas. A sua conversa denotava um profundo conhecim ento dos hom ens e do m undo. Tinha observado tão rigorosam ente um a m ultiplicidade de coisas, classificava com tanta precisão, em algum as palavras, os proprietários vizinhos, apontava tão claram ente os defeitos e os erros de cada um deles, conhecia tão bem a história dos cavalheiros arruinados, os m otivos e as circunstâncias das suas ruínas, sabia exprim ir os seus m enores hábitos de um m odo tão cóm ico e tão original, que os seus ouvintes acabaram por ver nele um hom em de notável inteligência.

— Adm ira-m e — disse Tchichikov — que, com tanto espírito, o senhor não tenha encontrado m eios de sair desta situação.

— Meios tenho — disse Jlobuiev.

E, nesta altura, expôs-lhes um a m ultidão de proj etos, todos tão absurdos, tão extravagantes, baseados tão pouco no conhecim ento dos hom ens e do m undo, que o m enos que se podia fazer era encolher os om bros e dizer: « Meu Deus! Que distância há entre conhecer o m undo e saber utilizar esse conhecim ento!» . Tudo se baseava, afinal, na necessidade de obter, subitam ente, cem ou duzentos m il rublos. Então, afigurava-se-lhe que os seus negócios se arranj ariam ; seriam tapados os buracos; poder-se-iam quadruplicar as vendas e pagar todas as dívidas. E concluía:

— Mas que quer o senhor que eu faça? Não há um benfeitor disposto a em prestar-m e duzentos ou, pelo m enos, cem m il rublos. Vê-se claram ente que não é esta a vontade de Deus!

« Seria interessante que Deus enviasse duzentos m il rublos a sem elhante im becil!» , pensou Tchichikov.

— Verdade sej a que tenho um a tia possuidora de três m ilhões — disse Jlobuiev. — A piedosa senhora dá à Igrej a e aos conventos; m ostra-se inflexível, porém , quando se trata de acudir às necessidades do próxim o. Um a tia doutras eras, que m erece a pena ser vista. Tem quatrocentos canários, três lacaios, parasitas, criados com o j á se não usam . O m ais novo anda à volta do3 sessenta anos, o que não im pede m inha tia de lhe cham ar pequeno. Se um deles se porta m al, dá ordem de não lhe servirem este ou aquele prato, e obedecem -lhe.

Platonov sorriu.

— Com o se cham a e onde vive? — perguntou Tchichikov.

— Vive na cidade e cham a-se Alexandra Ivanovna Janasarov.

— Por que não se dirige o senhor a ela? — disse Platonov. — Estou certo de que, se conhecesse a situação da sua fam ília, não poderia negar-se.

— Engana-se. Minha tia está couraçada; é um coração de pedra, Platon Mij ailovich. Além disso, tem j á aduladores que a am im am ; um deles quer ser adm inistrador e m eteu-se-lhe em casa. Deus o aj ude! Pode ser que o consiga!

« Idiota!» , pensava Tchichikov. « Se eu tivesse um a tia dessas, cuidaria dela com o as am as de leite dos seus bebés.»

— A conversa faz secar a boca — disse Jlobuiev. — Eh, Kiriushka! Traz-nos outra garrafa de cham panhe.

— Não, não; eu não bebo m ais nada — disse Platonov.

— Nem eu, tão pouco — disse Tchichikov; e am bos recusaram categoricam ente.

— Prom etam , pelo m enos, visitar-m e na cidade. No dia oito, darei um j antar a pessoas notáveis.

— Misericórdia! — exclam ou Tchichikov. — Um j antar, na sua situação?!

— Que quer o senhor? É um dever im perioso — disse Jlobuiev. — Tenho que lhes retribuir um obséquio.

Platonov foi todo ouvidos. Ignorava ainda que existem na Rússia, tanto na província com o nas capitais, senhores cuj a vida é um enigm a inexplicável. Um , parece ter dissipado tudo; está crivado de dívidas, sem recurso algum em perspetiva; e, não obstante, oferece um j antar. Todos os convidados dizem que é o últim o, que, no dia seguinte, o anfitrião irá parar à cadeia. Dez anos depois, o senhor ainda ali se encontra, m ais encravado que nunca, e dá um j antar que os convidados pensam ser o últim o, e que, no dia seguinte, o seu hospedeiro estará na prisão.

A casa de Jlobuiev, na cidade, oferecia um espetáculo pouco vulgar. Hoj e, um sacerdote com casula rezava nela preces; am anhã, atores franceses representavam um a com édia. Tão depressa não se encontrava lá dentro um bocado de pão, com o se recebia toda a sorte de artistas, a cada um dos quais se oferecia um presente. A situação de Jlobuiev era, às vezes, tão difícil, que deveria ter-se enforcado ou afogado há m uito tem po. Porém , por um estranho contraste daquela vida desregrada, o seu espírito religioso libertava-o do desespero. Naqueles m om entos aflitivos, lia a vida dos santos hom ens que souberam acostum ar o seu espírito a dom inar o infortúnio. Então, a sua alm a enternecia-se, o seu coração trasbordava de com oção e enchiam -se-lhe os olhos de lágrim as. Rezava; e, coisa estranha, quase sem pre lhe chegava um socorro inesperado: um dos seus antigos am igos lem brava-se dele e m andava-lhe dinheiro; ou, num im pulso de caridade, um estranho, de passagem , conhecedor, por acaso, da sua história, enviava-lhe um a rica oferta; ou, m elhor ainda: um antigo pleito, do qual nunca tinha ouvido falar, resolvia-se a seu favor. Então, reconhecia a m isericórdia infinita da Providência, m andava cantar um Te Deum, e de novo em preendia um a vida dissipadora.

— Realm ente, causa-m e dó — segredou Platonov a Tchichikov quando se despediram .

— É um filho pródigo! — disse Tchichikov. — Pessoas assim não m erecem com paixão.

Em breve deixaram am bos de pensar nele. Platonov» porque considerava aquela situação com a apatia habitual; os sofrim entos do próxim o oprim iam -lhe o coração, m as estas im pressões não se gravavam profundam ente na sua alm a; ao cabo de alguns m inutos, j á não pensava em Jlobuiev, pela sim ples razão de que não pensava em si próprio. Tchichikov, porque todos os pensam entos estavam concentrados na com pra que acabava de fazer: encontrando-se, de im proviso, possuidor real de um a propriedade até então im aginária, ficou pensativo; os seus proj etos e as suas ideias tom aram um a diretriz m ais grave e, contra o costum e, deram ao seu rosto um ar expressivo. « Paciência e trabalho! Isto não há de ser difícil; j á estou fam iliarizado com eles, por assim dizer, desde que nasci. Não são para m im coisas novas. Agora, porém , nesta idade, terei tanta paciência com o na j uventude?» . Sob qualquer aspeto que exam inasse a sua aquisição, o negócio parecia-lhe vantaj oso. Podia hipotecar o dom ínio, depois de ter vendido em courelas as m elhores terras. Podia ele próprio cultivá-lo, tom ando por m odelo Kostanioglo e aproveitando os seus conselhos com o vizinho e protetor. Até o podia revender, se não sentisse inclinação para a cultura, reservando para si os fugitivos e os m ortos. Esta m odalidade oferecia-lhe outras vantagens. Nada o im pediria de desaparecer daqueles sítios sem reem bolsar Kostanioglo do dinheiro em prestado. Tchichikov não concebeu esta ideia: foi ela que surgiu naturalm ente, excitante e sedutora. Quem engendra estes velhacos pensam entos que de súbito nos acodem ?

Pavel Ivanovitch experim entava um novo prazer: o de ser proprietário de verdade; possuir terra, dependências, servos de carne e osso. Pouco a pouco se pôs a m ordiscar o lábio; a friccionar as m ãos, a piscar os olhos, a trautear um a espécie de m archa com o punho, que lhe servia de trom beta, e até a dizer para si em alta voz algum as palavras anim adoras e epítetos com o: meu lindo palmito e meu formoso galispo. Em seguida, porém , lem brava-se de que não estava só, acalm ava-se rapidam ente, esforçava-se em refrear os seus ím petos de entusiasm o e, quando Platonov, que havia tom ado algum as daquelas palavras com o dirigidas a ele, perguntou: « Que dizia?» , ele respondeu: « Não é nada» .

— Para aí! — gritou Platonov ao cocheiro.

Só então, ao olhar em volta, deu conta Tchichikov de que passavam , havia m uito, através de um bosque m agnífico, por um a alam eda de bétulas cuj os troncos brancos, brilhando com o um a paliçada coberta de neve, se erguiam , esbeltos e direitos, entre o verdor tenro da sua folhagem nova. Os rouxinóis m odulavam acordes sob a ram aria; as túlipas silvestres am areleciam no m eio da relva. Não podia explicar-se aquela m udança para um a decoração encantadora, quando, havia m om entos ainda, estavam em pleno cam po. Por entre as árvores, via-se um a igrej a branca e do outro lado verdej ava um pom ar. No extrem o da alam eda apareceu um cavalheiro que vinha ao seu encontro, com gorro e um nodoso caj ado na m ão. Um cão inglês, de patas finas, corria adiante dele.

— Aqui está o m eu irm ão Basílio — disse Platonov. — Para, cocheiro!

Desceu da caleche e o m esm o fez Tchichikov. Os cães tinham -se j á cum prim entado. Azar, o das patas finas, passou a sua língua ágil pelo focinho de Iarbas e pelas m ãos de Platonov; depois, dirigiu-se a Tchichikov e lam beu-lhe a orelha.

Os dois irm ãos abraçaram -se.

— Por favor, Platonov! Em que andas a pensar? — disse Basílio.

— Que queres dizer? — respondeu este, com ar indiferente.

— Com o! Passam -se três dias sem que dês sinal de vida! Um palafreneiro de Petukh trouxe o teu cavalo. « Foi» , disse, « com um senhor» . Se, ao m enos, nos m andasses dizer para onde, por quê, e por quanto tem po! Vam os lá a saber, irm ão: isto é m aneira de proceder? Deus sabe o que eu tenho m agicado todos os dias.

— Sim , esqueci-m e de te prevenir — disse Platonov. — Fom os a casa de Constantino Fiodorovich, que te m anda cum prim entos, assim com o a nossa irm ã. Pavel Ivanovitch, apresento-lhe o m eu irm ão Basílio. Basílio, apresento-te Pavel Ivanovitch Tchichikov.

Apresentados desta m aneira, os dois hom ens apertaram -se as m ãos e, tirando os gorros, abraçaram -se.

« Quem poderá ser este Tchichikov? Meu irm ão Platonov não é m uito cuidadoso na escolha das suas relações.»

Exam inou Tchichikov, tanto quanto perm itiam as conveniências. A apresentação do nosso herói tranquilizou-o.

Por seu lado, Tchichikov exam inou tam bém o recém -chegado, tanto quanto perm itiam as conveniências. Era m ais baixo que o irm ão: o cabelo m ais escuro e o rosto m enos form oso; as suas feições, porém , tinham m ais vida e eram m ais expressivas; m aior cordialidade. Via-se que dorm ia m enos, ao que, aliás, Pavel Ivanovitch não prestou grande atenção.

— Resolvi, Basílio, percorrer a santa Rússia em com panhia de Pavel Ivanovitch. Talvez isto dê cabo da m inha hipocondria.

— Com o resolveste isso tão rapidam ente? — disse Basílio, estupefacto. E esteve, quase, para acrescentar: « E logo com um indivíduo a quem falas pela prim eira vez, que talvez não tenha onde cair m orto!» . Cheio de desconfiança, olhou para Tchichikov dissim uladam ente; não pôde, porém , deixar de com provar a sua extrem a correção.

Meteram à direita, a cam inho do portal. O m uro da cerca era velho; a casa tam bém ; um a dessas casas que não se constroem j á nos nossos dias, com celeiros por baixo de um teto elevado. Duas enorm es tílias cobriam com a sua som bra m ais de m etade do pátio; num erosos bancos de m adeira rodeavam -no. Tílias e cerej eiras bravas, em flor, punham um colar de pérolas no pátio, cuj as taipas desapareciam com pletam ente entre a folhagem . A casa senhorial estava verdadeiram ente m ascarada; só as portas de baixo e as j anelas se descortinavam através da ram aria. Via-se por detrás dos troncos, direitos com o agulhas, a brancura das cozinhas e das dependências. Não havia senão verdura, entre a qual os rouxinóis cantavam , em agudos trinados. Apesar disso, um m eigo sentim ento de quietude nos invadia a alm a. Tudo recordava os bons tem pos em que todos viviam honestam ente; em que todas as coisas eram sim ples e inocentes.

O irm ão de Platonov convidou Tchichikov a sentar-se. Instalaram -se nos bancos ao pé das tílias. Um rapaz de dezassete anos, com um a bonita blusa de algodão cor de rosa, trouxe e pôs na frente deles garrafas de kvass, de tons brilhantes, oleosos, uns, com o azeite, e ácidos, outros, com o lim onada gasosa, após o que pegou num a enxada encostada a um a árvore e foi para o j ardim . Com o seu cunhado Kostanioglo, os irm ãos Platonov não tinham criados especiais. Os j ardineiros prestavam estes serviços, por escala. Basílio era de opinião de que os criados não deviam form ar classes; podendo cada um deles estar sem pre ocupado, é dispensável ter gente especializada neste ou naquele serviço. O russo é um hom em desem poeirado e trabalhador, enquanto trouxer blusa ou cafetã; porém , um a vez de casaco, torna-se indolente, cabeçudo, deixa de tom ar banho e dorm e com o sobredito casaco, onde se aninham as pulgas e os percevej os. Os cam poneses são presunçosos; as m ulheres usam toucas douradas e as m angas das cam isas lem bram , com os seus bordados, um j aleco turco.

— Quer m atar a sede? — perguntou Basílio a Tchichikov. — Estas bebidas constituem há m uito tem po o orgulho da nossa casa.

Tchichikov bebeu um copo, da prim eira garrafa. Parecia o lipec — o hidrom el — que se fazia antigam ente na Polónia. O m esm o pique do cham panhe; o gás fazia cócegas no nariz.

— Um néctar! — disse.

Tirou um copo de outra garrafa. Era ainda m elhor.

— A rainha das bebidas! — acrescentou. — Posso dizer que na casa do m eu respeitável cunhado, Constantino Fiodorovich, bebi um licor de prim eira ordem ; e nesta casa um kvass que não lhe fica a dever nada.

— O licor é tam bém nosso; m inha irm ã é que levou a receita.

— Que itinerário tenciona seguir? — perguntou Basílio.

— Eu viaj o — disse Tchichikov, balouçando-se ligeiram ente no banco e inclinando-se enquanto acariciava o j oelho — viaj o, m enos para tratar dos m eus interesses que para tratar dos dos outros. O general Betrischev, m eu íntim o am igo e, posso dizer, m eu protetor, pediu-m e que visitasse os seus parentes. Os parentes, é certo, têm sua im portância; m as eu tiro daí tam bém proveito, pois, sem falar da sua utilidade debaixo do ponto de vista higiénico, ver o m undo e as suas transform ações constitui, por si só, um livro aberto a um a segunda ciência.

Basílio pôs-se a refletir: « Este hom em exprim e-se com certa j actância; m as algum a coisa há de verdade nas suas palavras.» Depois de um pequeno silêncio, disse, dirigindo-se a Platonov:

— Com eço a acreditar, Platon, que um a viagem pode realm ente despertar-te. Tu, além de apatia, nada tens. Adorm eces, não por saciedade ou m oleza, m as por falta de im pressões, de sensações vivas. Eu sou em tudo o contrário. Quisera não sentir as coisas tão vivam ente e não tom ar tanto a peito tudo o que sucede.

— Tom as tudo tanto a peito, para quê? — disse Platonov. — Procuras m otivos para te inquietares e tu m esm o forj as os teus aborrecim entos.

— Forj á-los para quê, se a cada instante sobrevêm as contrariedades? — disse Basílio. — Sabes a patifaria que nos pregou Lenitsin durante a tua ausência? Não. Pois bem : apoderou-se de um terreno baldio, onde a nossa gente realiza as suas festas, todos os anos, segundo o costum e antigo, ao chegar a prim avera. Em prim eiro lugar, eu não cederei esse terreno por nenhum preço. As tradições da aldeia estão ligadas a ele; para m im , um costum e é coisa sagrada; estou disposto a sacrificar-lhe tudo.

— Ele não sabia; por isso se apoderou do terreno — disse Platonov. — É um hom em novo, recém -chegado de Petersburgo. É preciso explicar-lhe o assunto.

— Sabia perfeitam ente. Mandei-lho dizer, m as só respondeu com grosserias.

— Devias ter ido, tu próprio, dizer-lho. Vai falar-lhe.

— Não, por am or de Deus! Julga-se um hom em de grande im portância.

Não vou ter com ele. Vai tu, se quiseres.

— Iria com m uito prazer; com o, porém , não entendo nada de negócios, enrolar-m e-ia facilm ente.

— Se quer — disse Tchichikov — eu encarrego-m e do caso. Explique-m o bem .

Basílio olhou para ele e pensou: « Aqui tem os um que viaj a por gosto!» .

— Dê-m e apenas um a ideia do hom em e do que se trata — continuou Tchichikov.

— Custa-m e encarregá-lo de um a m issão tão desagradável. Em m inha opinião, não se trata de um a pessoa im portante. Descendente de um a fam ília de fidalgotes de província, fez a sua carreira em Petersburgo, onde se casou com a filha natural de um nobre. Por isso é que ele se m ostra arrogante. Nós, porém , não som os parvos; não tom am os a m oda por lei, nem S. Petersburgo por um a igrej a.

— Certam ente — disse Tchichikov —; m as de que se trata?

— Vej a o senhor. Ele tem necessidade de terras. Se não tivesse procedido assim , eu de bom grado lhe teria cedido o terreno de graça. E agora esse m aldito fanfarrão j ulga que eu lhe tenho m edo.

— Em m eu fraco entender, é m elhor falar com ele; talvez assim o caso se resolva. Ninguém se arrependeu, até hoj e, de m e confiar as suas questões. O próprio Betrischev...

— Mas custa-m e que o senhor vá discutir com esse hom em ...

***

— Esforçando-se particularm ente por que tudo isto fique em segredo — disse Tchichikov — pois é m enos perigoso o crim e que o escândalo.

— Efetivam ente, efetivam ente — disse Lenitsin, com a cabeça de todo inclinada para um dos lados.

— Que prazer ter as m esm as ideias! — disse Tchichikov. — Eu tam bém tenho, por m inha parte, um assunto legal e ilegal ao m esm o tem po: ilegal, na aparência; legal, no fundo. Necessitando de um penhor, não desej o que ninguém corra o risco de pagar dois rublos por cada alm a viva. Se chegasse a falir (o que Deus não perm ita!) seria fatal para o proprietário. Por isso resolvi tirar partido dos fugitivos e dos m ortos que figuram ainda no recenseam ento, a fim de levar a efeito um a boa ação e livrar, ao m esm o tem po, o pobre proprietário da obrigação de pagar contribuições par causa deles. Som ente, por um a sim ples form alidade, fecharem os entre nós um contrato, com o se de vivos se tratasse.

« Contudo, é estranho» , pensava Lenitsin, afastando um pouco a cadeira.

— O negócio é de tal natureza... — com eçou.

— Mas se não haverá nenhum escândalo, se ficará tudo em segredo! — respondeu Tchichikov. — Trata-se, com o acabo de lhe dizer, de um negócio entre pessoas sérias, de idade respeitável e, ao que parece, de elevada posição, com a garantia de segredo.

Dizendo isto, olhava-lhe francam ente para o rosto. Por astuto e por entendido na prática dos negócios que fosse Lenitsin, este ficou perplexo, tanto m ais que se sentia preso nas suas próprias redes. Era incapaz de um a inj ustiça e não quisera fazer nada de ilícito, nem sequer de secreto. « Que estranha aventura!» , pensava. « Ligue-se alguém por um a estreita am izade, m esm o com pessoas honestas!» .

Contudo, a sorte parecia favorecer Tchichikov. Com o para aj udar a concluir este com plicado assunto, apresentou-se a esposa de Lenitsin. Era pálida, baixinha, delgada; vestia à m oda de Petersburgo e apreciava m uito as pessoas distintas. Em seguida, nos braços da am a, chegou um bebé, fruto do terno am or dos j ovens esposos. Pela desenvoltura dos seus m odos e pela m aneira de inclinar a cabeça, Tchichikov encantou a senhora de Petersburgo e, depois, o m enino. Este com eçou por chorar; porém , dizendo-lhe: « olá, olá, bonitinho!» , fazendo estalar os dedos e reluzir a corrente de cornalina do seu relógio, Tchichikov conseguiu atraí-lo para os seus braços. Logo se pôs a erguê-lo m uito para o alto e obteve assim um precioso sorriso do boneco, que m aravilhou seu pai e sua m ãe. De repente, porém , por efeito da alegria ou por outro m otivo, o bebé pregou-lhe um a partida.

— Ai, m eu Deus! — exclam ou a senhora de Lenitsin. — Molhou o fraque do senhor!

Tchichikov, com efeito, verificou que um a das m angas da sua casaca nova estava m olhada: « Raios te partam , diabo!» , pensou, encolerizado.

Os pais e a am a correram a buscar água de colónia. Todos se puseram a enxugá-lo.

— Não é nada — disse Tchichikov, esforçando-se quanto pôde por m ostrar um sem blante airoso. — Nesta encantadora época da sua vida, um a criança pode lá estragar algum a coisa! — repetia, enquanto pensava: « Os lobos deviam com er-te! Bem m a pregou, o patife!» .

Esta circunstância, parecendo insignificante, dispôs favoravelm ente o dono da casa em relação a Tchichikov. Com o recusar sej a o que for a um hóspede que prodigalizou inocentes carícias a um m enino e sacrificou generosam ente o seu fraque? A fim de não dar m aus exem plos, concordaram em fechar o negócio em segredo, pois não havia coisa tão perigosa com o o escândalo.

Continuar: parte 2 de 3