Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 12 de 15

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Almas Mortas

Segunda Parte

SEG UNDA PARTE

1

 

Para quê descrever a pobreza, sem pre a pobreza e a im perfeição da nossa vida, exum ando as suas personagens dos ignorados recantos, das m ais distantes regiões? Que fazer, se é esse o propósito do autor e se a consciência enferm iça da sua im perfeição o im pele a não pintar senão os aspetos dolorosos da existência, e indivíduos que vivem num lugarej o provinciano? E, quanto a nós, eis-nos outra vez num recanto ignorado, num a distante região! Mas, tam bém , que recanto e que região!

Com o a gigantesca m uralha de um a fortaleza im ensa, com reentrâncias e m iradouros, um a cadeia de outeiros estendia-se sinuosam ente num a extensão de m ais de m il verstas. Erguia-se, m aj estosa, sobre vastas planícies, ora com o um a parede abrupta de argila calcária, sulcada por brechas e escavações; ora, sob a form a de um seio encantador coberto de relva e de m atas, com o um a pele de carneiro; ora, debaixo do aspeto de bosques espessos, escapados ao m achado com o por m ilagre. Um rio lam bia às vezes as suas m argens, descrevendo com elas curvas e contracurvas, ou, m elhor, afastava-se lançando-se pelos cam pos, para, depois de haver serpenteado, desaparecer em seguida entre m aciços de choupos, de álam os e de ulm eiros, e escapar, triunfante, escoltado por pontes, por m oinhos, por diques, que pareciam fugir com ele a cada volta.

Em certo lugar, o escarpado flanco das alturas cobria-se ainda m ais com o verde enfeite das árvores. Graças a plantações artificiais e com o consequência da diferença de altitude, o reino vegetal do Norte e do Sul tinham -se reunido no m esm o ponto. O carvalho, o pinheiro, a pereira brava, o ácer, a cerej eira, a am eixieira e a sorveira revestida de lúpulo, ou se am paravam m utuam ente conform e se iam desenvolvendo, ou se afogavam uns aos outros escalando toda a encosta. No alto, apareciam , por entre as suas ram agens verdes, as sobrepostas construções de um solar; os tetos verm elhos das dependências, os telhados das isbas, dissim uladas nas traseiras, o andar superior adornado com um a varanda esculpida e um a grande j anela boj uda. Esta m assa de árvores e de telhados era dom inada por um a velha igrej a rústica, cuj as cinco douradas cúpulas cintilavam . Todas ostentavam cruzes de ouro rendilhadas, presas por cadeias do m esm o m etal, de sorte que, de longe, pareciam ver-se, suspensos no espaço, ducados de ouro deslum brantes. Todo este conj unto, invertido — árvores, cruzes, telhados — se refletia precisam ente no rio; salgueiros ocos e disform es, alguns dos quais se alçavam nas m argens, enquanto outros m isturavam os ram os a viscosas esponj as flutuantes entre nenúfares am arelos, pareciam contem plar o m ágico panoram a.

A vista que se desfrutava da varanda era ainda m ais fascinadora e não deixava ninguém indiferente. O assom bro cortava a respiração dos visitantes; não podiam exim ir-se a exclam ar: « Meu Deus, que lindo quadro!» . Dali se descortinavam horizontes sem lim ites: para além dos cam pos salpicados de bosquezinhos e de m oinhos, verdej avam várias zonas da floresta; depois, através da atm osfera j á vaporosa, am areleciam as areias; a seguir, vinham ainda novas florestas, azuladas estas, com o o m ar ou com o um a névoa distante, e de novo areias de um rubro pálido. No extrem o horizonte, levantava-se a crista das colinas argilosas, deslum brantes de brancura, até com o m au tem po; dir-se-ia ilum iná-las um sol perpétuo. Sobre a sua cor ofuscante, notavam -se m anchas fum acentas de um azul ferrete. Eram aldeias longínquas; m as a vista não podia j á distingui-las claram ente. Só o vértice dourado da igrej a, que cintilava ao sol, indicava um a povoação im portante. Sobre tudo isto peneirava-se um a calm a profunda, que nem os cantos, apenas percetíveis, dos pássaros, quase perdidos no espaço, conseguiam perturbar. Em resum o: depois de duas horas de contem plação, os visitantes não podiam deixar de m urm urar: « Meu Deus, que lindo quadro!» .

Quem residia naquele solar que, com o um a fortaleza inexpugnável, só se podia alcançar pelo lado oposto àquele que acabam os de descrever? Ali, as copadas azinheiras acolhiam am igavelm ente o visitante, estendendo, com o para um abraço, os seus ram os frondosos; elas acom panhavam -no até à m ansão cuj a parte alta divisam os pelas traseiras. Esta erguia-se então, de frente, flanqueada, por um lado, por um a fila de isbas, m ostrando as suas coberturas e seus rem ates esculpidos e, por outro, pela igrej a de cruzes e de rendilhados de ouro cintilantes. A que feliz m ortal pertencia aquele refúgio? A um proprietário rural do distrito de Trem alaj an, André Ivanovitch Tentietnikov, solteiro, de trinta anos. Quem era esta personagem ? Que caráter era o seu? Convém , leitores, interrogar os seus vizinhos.

Um deles, um desses brigões, oficiais superiores afastados, cuj a esperta raça tende a desaparecer, exprim ia-se assim , por sua conta e risco: « É um a perfeita besta!» .

Um general, habitante a dez verstas dali, dizia: « Esse j ovem não é parvo; m as tem dem asiadas coisas na cabeça. Eu poderia ser-lhe útil, pois não m e faltam relações em Petersburgo e até em ...» O general não acabou a frase.

O com andante da polícia form ulou a sua resposta deste m odo: « O seu grau é m uito m odesto; am anhã irei reclam ar dele uns im postos em atraso» .

E o cam ponês, interrogado a respeito do seu am o, não respondia nada. Por consequência, a opinião m ostrava-se-lhe desfavorável.

Falando im parcialm ente, não era m au hom em , m as apenas um visionário. Com o no m undo não faltam pessoas que vegetem assim , por que não havia Tentietnikov de fazer o m esm o? Por outro lado, eis com o ele ocupava um dos seus dias; o leitor poderá assim apreciar o seu caráter e j ulgar se a sua vida correspondia às belezas que o rodeavam .

Pela m anhã, acordava m uito tarde, sentava-se na cam a e com eçava a esfregar os olhos. Com o, por desgraça, os tinha pequenos, a operação prolongava-se. Durante este tem po, o criado Mij ailo ficava à porta com um j arro de água e um a toalha. Este pobre Mij ailo esperava um a hora, de plantão; depois, duas; ia dar um a volta pela cozinha e, quando regressava, ainda estava o am o sentado na cam a a esfregar os olhos. Por fim , Tentietnikov lavava-se, penteava-se e passava à sala, de roupão, para tom ar chá, café, cacau e até leite fresco, ainda quente. Provava um pouco de tudo, esm igalhando o pão sem piedade e espalhando por toda a parte a cinza do seu cachim bo. Duas horas se passavam assim . Não contente com isto, servia-se ainda de um a xícara de chá frio e ia bebê-lo para a j anela que dava sobre o pátio. Todos os dias presenciava a seguinte cena:

Gregório, criado que desem penhava as funções de despenseiro, apostrofava a governanta Perfilievna, nestes term os, pouco m ais ou m enos:

— Não te calarás, velhaca, feia do diabo?

— Tom a! — gritou a feia do diabo, aliás Perfilievna, m ulher de m odos rudes, apesar do seu fraco pelas passas, pelos pastéis de fruta e outras guloseim as que guardava debaixo de chave. — Tom a, para ti! — E fez-lhe um a figa.

— Tam bém questionas com o intendente, m inha porca! — regougava Gregório.

— O intendente é tão ladrão com o tu! Pensas que o patrão vos não conhece? Aí está ele, ouvindo tudo.

— Onde?

— Olha, na j anela; não lhe escapa nada.

Com efeito, o am o estava na j anela e via tudo.

Para aum entar o alvoroço, um rapaz, espancado pela m ãe, gritava a plenos pulm ões; um lebréu, enrodilhado no chão, uivava, porque o cozinheiro o tinha escaldado. Em sum a: um bulício intolerável. O am o via e ouvia tudo. E só quando a bulha o im portunava, até o ponto de perturbar a sua doce folgança, m andava dizer que procurassem fazer ruído m ais caladam ente.

Duas horas antes do j antar, retirava-se para o seu gabinete, para trabalhar seriam ente num a obra que deveria abarcar a Rússia inteira, debaixo de todos os pontos de vista — civil, político, religioso, filosófico — determ inar o seu grande futuro, resolver os difíceis problem as da hora presente... Tudo de m odo e na form a preferidos pelos nossos contem porâneos. Por outro lado, esta em presa colossal estava ainda em proj eto: Tentietnikov aparava a sua pena e fazia desenhos no papel, depois do que se inclinava todo, de lado, para alcançar um livro que não abandonava nem durante a refeição. Lia enquanto lhe era servida a sopa, a entrada, o assado, e ainda o restante, de m aneira que certos pratos arrefeciam e outros eram devolvidos intactos. Depois, vinha o café, o cachim bo e o j ogo das dam as, só para um a pessoa. Que fazia depois, até a ceia? Não saberia dizê-lo; parece-m e, porém , que não fazia nada.

Assim em pregava o seu tem po um hom em de trinta e três anos, num a solidão profunda, sem arredar pé de sua casa, sem querer, ao m enos, subir ao prim eiro andar, abrir as j anelas para ventilar o quarto. E o m agnífico panoram a, que não deixava indiferente nenhum visitante, parecia não existir para o dono daquelas paragens. Com o se vê, André Ivanovitch Tentietnikov pertencia a um a classe de pessoas que não está prestes a desaparecer da Rússia. Antigam ente, cham avam -lhes poltrões e pachorrentos; m as eu não sei j á com o qualificá-las hoj e. São naturais estes carateres, ou antes engendrados pelas circunstâncias que m odelam tão rudem ente o hom em ? Mais que responder a esta pergunta, valeria a pena referir a história da sua infância e da sua educação.

Tudo parecia concorrer para fazer dele algum a coisa de im portante. Na idade de doze anos, rapazote de vivo engenho, de natureza sem issonhadora, sem ienferm iça, ingressou num colégio dirigido por um hom em que se destacava do com um . Ídolo da j uventude, m odelo de educadores, o incom parável Alexandre Petrovitch tinha o dom de discernir a natureza hum ana. Com o conhecia o caráter rebelde das crianças! Com o sabia estim ulá-las! Não havia um só diabinho que, depois de ter com etido um a travessura, não fosse ele próprio confessá-la. E o rapaz saía de fronte erguida e ardendo em desej os de reparar a sua falta. As próprias reprim endas de Alexandre Petrovitch tinham algo de anim ador; cham ava à am bição a força m otriz das faculdades e, por consequência, esforçava-se por excitá-la. Não se im portava com o bom com portam ento e costum ava dizer:

— O que exij o é inteligência e não outra coisa. Quem aspira a ser inteligente, não tem tem po de fazer asneiras; as asneiras devem desaparecer por si próprias.

Efetivam ente, era assim . Aquele que não se esforçava por corrigir-se incorria no desprezo dos seus cam aradas. Os indolentes e os im becis tinham que suportar, da parte dos m ais novos, os rem oques m ais ofensivos, sem atrever-se a tocar-lhes com um dedo.

— O senhor vai dem asiado longe — obj etavam -lhe num erosas pessoas. — Os indivíduos bem tratados tornar-se-ão arrogantes.

— Não — replicava ele — eu não conservo ao pé de m im , durante m uito tem po, os incapazes; chega-lhes um a instrução rudim entar; m as para os bons alunos organizo um curso m ais com pleto.

Com efeito, todos os que tinham talento seguiam este curso. O m enor m ovim ento dos seus pensam entos era-lhe conhecido. Ele aparentava não ver nada; porém , à sem elhança de um m ago escondido no seu retiro m isterioso, observava as suas aptidões e tendências. Não reprim ia m uitas vivacidades, vendo nelas o gérm en do desenvolvim ento das qualidades m orais, até, que lhe eram necessárias, com o um a erupção ao m édico, para conhecer com segurança o interior do hom em .

Com o lhe queriam todos os discípulos! Não, j am ais criança algum a teve tão grande atração pelos seus pais. Não; nem nos anos de louca dissipação existe um tão ardente afeto com o o que ele inspirava. Até os seus últim os dias, o discípulo reconhecido erguia a sua taça no aniversário do m estre incom parável, j á há largo tem po na tum ba... cerrava os olhos e chorava a sua m em ória. O m enor estím ulo da sua parte inspirava um a alegre em oção e suscitava o desej o de ultrapassar os outros.

Para ele, um a m ultidão de conhecim entos eram inúteis, e suscetíveis de entravar o desenvolvim ento intrínseco da inteligência. Pelo contrário, dedicava m uito tem po aos trabalhos m anuais ao ar livre, que fortificam o corpo.

Os alunos com pouca força de vontade não perm aneciam m uito tem po na sua casa; estes seguiam um curso rudim entar; aos outros, porém , obrigava-os a um program a duplam ente sobrecarregado. E a últim a classe, reservada aos escolhidos, não se parecia em nada com a das instituições sim ilares. Só nela exigia ao9discípulos tudo quanto alguns exigem às crianças: o ânim o forte que, longe de ridicularizar, sabe suportar a troça, m ostrar-se indulgente com os im becis, não se aborrecer, nunca se vingar, m as m anter a serena calm a de um a alm a im passível. Punha em ação tudo quanto era capaz de dar virilidade aos seus pupilos, c fazia com eles contínuas experiências. Oh, com o conhecia a ciência da vida!

Tinha na sua escola poucos professores e ele próprio explicava a m aior parte das m atérias. Sem term os pretensiosos nem considerações grandíloquas, sabia transm itir a alm a de um a ciência e fazer com preender a sua utilidade, até aos m ais j ovens colegiais. Por outro lado, não ensinava m ais ciência que a necessária para form ar bons cidadãos. Um a grande parte das lições consistia em referir aos rapazes o que os esperava ao saírem do colégio; pintava-lhes tão bem a sua futura carreira, que eles viviam -na j á com o pensam ento. Não ocultava nada; apresentava os deveres, em toda a sua nudez, os obstáculos, as tentações, as arm adilhas que lhes preparariam . Conhecia tudo e parecia ter passado ele próprio por todas as situações e todos os cargos. Era a consequência de um a am bição precoce, ou porque os próprios olhos deste educador incom parável pareciam dizer aos seus ouvintes: Adiante!, palavra fam iliar ao russo e que opera prodígios na sua natureza sensível? O caso é que, desde os princípios da sua carreira, os discípulos buscavam exclusivam ente as dificuldades, ardendo em desej os de trabalhar onde ferviam os obstáculos, onde era preciso dem onstrar um a grande força de ânim o. Não habilitava m uitos alunos; m as, em com pensação, estes eram carateres a toda a prova, que se m antinham nos seus postos m ais precários, enquanto outros, m elhor dotados, perdiam a paciência, abandonando tudo por m esquinhas contrariedades, ou, m elhor, dom inados pela apatia ou indolência, deixavam -se enredar pelos libertinos e pelos caçadores de gorj etas. Aqueles, porém , não respiravam e, preparados para as dificuldades, exerciam até nas naturezas protervas um a poderosa influência.

Que poder adquiriu este m estre em inente sobre André Ivanovitch! Palpitava o ardente coração do am bicioso m oço, só ante a ideia de tom ar parte no curso superior; assim , quando, aos dezasseis anos, Tentietnikov, passando à frente de todos os condiscípulos, foi j ulgado apto para nele ser adm itido, não acreditava em tanta felicidade. Que m elhor educador poderia encontrar-se para o nosso j ovem ? Mas eis que, no próprio m om ento em que este via realizar-se o m ais vivo dos seus desej os, o incom parável pedagogo, de quem um a palavra de aprovação bastaria para o em ocionar docem ente, caiu enferm o e m orreu dentro em pouco. Que profundo golpe para André Ivanovitch! Que terrível perda, a prim eira da sua vida!

Tudo m udou na escola. A Alexandre Petrovitch sucedeu um tal Fédor Ivanovitch, hom em bondoso e cheio de zelo, m as im buído de ideias com pletam ente diferentes. Com eçou por instituir um regulam ento externo; exigiu que os alunos observassem um absoluto silêncio e cam inhassem sem pre dois a dois, m edindo até a distância entre os pares. À m esa, colocava-os por ordem de estaturas e não de inteligências; de m odo que os m elhores bocados eram para os cábulas e os ossos para os bons alunos. Tudo isto provocou com entários desagradáveis, especialm ente quando o novo diretor declarou, para m enosprezar o seu antecessor, que, para ele, a inteligência e o aproveitam ento não significavam nada. O que ele tom ava unicam ente em consideração era o bom com portam ento; que, se um aluno aprendia m al m as era bem com portado, o preferia a outro brilhantem ente esclarecido. Fédor Ivanovitch, porém , não conseguiu o bom com portam ento. Durante o dia, ainda as coisas corriam bem , m as, pela noite, havia com ezainas.

Igualm ente foi prej udicado o curso superior. Com as m elhores intenções do m undo, introduziu-lhe um a série de m alfadadas inovações. Contratou professores de ideias e conceções novas. Estes sobrecarregavam os seus ouvintes com um a aluvião de term os desconhecidos; m ostravam -se ao corrente das teorias m ais m odernas, expunham -nas com grande lógica e entusiasm o; m as, ai!, a sua ciência carecia de vida e era letra m orta. Em resum o: tudo andava às avessas. Perdeu-se o respeito, chegou-se a m eter a ridículo os professores e a tratar o diretor por pé de boi. A depravação invadia o cam po da inocência, houve escândalos que fizeram expulsar grande núm ero de alunos. Em dois anos, a escola estava irreconhecível.

André Ivanovitch era de costum es pacíficos. Não se deixou arrastar, nem pelas orgias noturnas dos seus cam aradas, que chegaram a levar um a m ulher para debaixo das j anelas do próprio diretor, nem pelas zom barias irreverentes, em resultado do esm oler não ser m uito inteligente. Não, a sua alm a, em bora adorm ecida, sentia a sua origem divina. Unicam ente perdeu valor. A sua am bição, excitada j á, não encontrou cam po para voar; m elhor fora não ter sido despertada. Escutava os professores, que se exaltavam na cátedra, e lem brava-se do seu antigo m estre, que sabia, sem perder a fleum a, falar de um m odo inteligível. As m atérias que teve de digerir! Medicina, quím ica, filosofia, direito e história universal, com um a tal am plitude, que, em três anos, o professor chegou apenas a percorrer a introdução e a expor o desenvolvim ento dos m unicípios de certas cidades alem ãs... Deus sabe o que teve de papaguear! Mas tudo isso ficou na sua cabeça em estado de fragm entos inform es. Graças ao seu talento inato, com preendeu que se não devia ensinar assim , sem chegar a com preender qual fosse o bom m étodo. Com frequência, recordava-se de Alexandre Petrovitch, e um a tal tristeza o assaltava, que não sabia onde refugiar-se. A certeza, porém , de que o futuro lhe pertencia, bastava para lhe tornar venturosa a j uventude. À m edida que se aproxim ava o term o dos seus estudos, aceleravam -se as palpitações do seu coração. « Isto não é ainda a vida — dizia para si; — não é m ais que um ato preparatório. A verdadeira vida com eçará quando eu servir o Estado e possa, então, distinguir-m e» .

Não teve, sequer, um olhar para a m agnífica paisagem que provocava a adm iração de todo o visitante; nem ao m enos se inclinou ante o sepulcro dos seus pais. Com o todos os am biciosos, partiu logo para S. Petersburgo, onde, com o se sabe, aflui a nossa fogosa j uventude, vinda de todos os pontos da Rússia, para servir, para brilhar, para m edrar ou, sim plesm ente, para adquirir um verniz desse conhecim ento do m undo, tão turvo, tão falaz, tão glacial. Todavia, desde o princípio, o ardor am bicioso de André Ivanovitch foi refreado por seu tio Onofre Ivanovitch, ao tem po conselheiro de Estado. Este declarou que o essencial era escrever bem , sem o que não se poderia chegar a ser um m inistro nem um hom em de Estado. Com grande trabalho, graças à proteção do tio, o j ovem acabou por ingressar num m inistério. Foi introduzido num a m agnífica sala assobradada, com m esas de laca, onde, sem dúvida, deviam deliberar as prim eiras dignidades do Estado; em seguida, porém , viu um a legião de elegantes personagens que escreviam com a cabeça inclinada, fazendo rugir as penas. E quando o instalaram em frente de um a m esa, convidando-o a copiar — com o se fosse de propósito — um papel de m ínim a im portância (um a correspondência a respeito de três rublos, que durava j á havia seis m eses), um a estranha sensação se apoderou do j ovem burocrata. Julgou encontrar-se num a escola, disposto a com eçar de novo os seus estudos; por um a falta qualquer, tinham -no feito retrogradar um ano. As personagens que o rodeavam pareciam -lhe estudantes. Para com pletar a sem elhança, alguns deles liam a tradução de um a estúpida novela que faziam deslizar entre as folhas da sua pasta, com o se estivessem entregues à sua tarefa, sobressaltando-se a cada entrada do chefe. Tudo isto lhe produziu um a estranha im pressão; as suas antigas ocupações pareciam -lhe m ais sérias que estas, e a preparação para o serviço — preferível ao próprio serviço. Com eçou a recordar o colégio. Alexandre Petrovitch surgia agora diante dele com o se estivesse vivo, e tinha dificuldade em conter as lágrim as. A sala, os em pregados, o m obiliário, tudo com eçava a girar à sua volta. Pouco lhe faltou para desm aiar. « Não — pensou, voltando a si. — hei de trabalhar, por m esquinho que o trabalho sej a a princípio!» . E, fazendo boa cara ao m au tem po, resolveu servir com o os outros.

Que lugar está desprovido de encantos? Tem -nos até Petersburgo, apesar do seu aspeto rude e nebuloso. Gela até partir as pedras; a tem pestade de neve, verdadeira filha do Norte, desencadeia-se, varrendo as ruas, cegando os olhos, polvilhando as golas de peles, os bigodes dos hom ens, os peludos focinhos dos anim ais. Porém , através dos flocos que giram em torvelinhos, um a claridade acolhedora brilha nalgum terceiro andar, num confortável quartinho, filha de m odestas velas de estearina. Enquanto o sam ovar ronrona, desfia-se um a conversa que reconforta a alm a e o coração; lê-se algum a bela página de um desses inspirados poetas com que Deus tem favorecido a Rússia; e o j uvenil coração do adolescente vibra com tanto entusiasm o com o debaixo do sorridente sol do Meio-dia.

Depressa se acostum ou Tentietnikov às suas funções que, não obstante, não foram para ele, com o a princípio receava, o obj eto essencial da sua vida. Serviram -lhe para repartir o seu tem po, fazendo-o apreciar m ais os seus ócios. O conselheiro de Estado pensava, que tinha j á carrilado o sobrinho, quando este com eteu um a im prudência. Entre o núm ero dos am igos — bastante num erosos — de André Ivanovitch, figuravam dois indivíduos que eram o que costum a cham ar-se espíritos rebeldes. O seu caráter, raram ente inquieto, não podia suportar com sangue frio, não j á as inj ustiças, m as tudo quanto a seus olhos revestia aparências de inj ustiça. Bons, intim am ente, m as desordenados em suas ações, exigiam para eles um a indulgência que recusavam às restantes pessoas. A veem ência das suas palavras e a sua nobre indignação contra a sociedade, influíram seriam ente em Tentietnikov; tornaram -no irascível, nervoso, fizeram -lhe notar todos os porm enores acerca daqueles a quem dantes não pensava prestar atenção. Fiódor Fiodorovich Lenitsin, chefe de um a das repartições instaladas nas m agníficas salas, desagradou-lhe subitam ente. Pôs-se a descobrir nele um a m ultidão de defeitos; pareceu-lhe que Lenitsin, todo açúcar, todo m el nas suas conversas com os superiores, se m ostrava azedo com o vinagre quando um subordinado se lhe dirigia; que, à im itação das pessoas m esquinhas, recrim inava quem não ia apresentar-lhe cum prim entos nos dias de festa e guardava rancor àqueles cuj os nom es não figuravam nas listas do porteiro. Finalm ente, esta personagem inspirou-lhe um a invencível repulsão. Um espírito m au im pelia-o a fazer algum a coisa que fosse desagradável a Fiódor Fiodorovich. Esperava com um a espécie de voluptuosidade a ocasião que, por fim , se apresentou. Um dia, o chefe falou-lhe com um m odo tão acerbo, que o colocou na disj untiva de pedir desculpa ou dem itir-se. E dem itiu-se. Seu tio acudiu, transtornado, suplicando:

— Pelo am or de Deus, André Ivanovitch! Que queres fazer? Abandonar um a carreira tão bem com eçada, unicam ente porque um chefe não é da nossa sim patia! Misericórdia! Em que estás a pensar? Por este cam inho, ninguém conservaria o seu em prego. Volta ao teu j uízo. Põe de parte o teu orgulho e o teu am or-próprio. Vai dar-lhe um a explicação!

— Não se trata disso, tio — replicou o sobrinho. — Facilm ente posso apresentar-lhe as m inhas desculpas; a razão não está do m eu lado; é m eu chefe e eu não deveria falar-lhe assim . Espera-m e, porém , outro serviço: trezentos cam poneses, um a herdade que se arruína, um feitor im becil. Que rabisque nos papéis outro em pregado em m eu lugar; o Estado nada perderá com isso; m as, se trezentos constituintes não pagam os seus im postos, sofrerá um grande prej uízo. Eu sou proprietário, não é assim ? Se m e consagro, para lhes m elhorar a situação, às pessoas que m e estão confiadas; se ofereço ao Estado trezentos súbditos m odelares, sóbrios, trabalhadores, em que será inferior o m eu serviço ao de um chefe de repartição com o Lenitsin?

O conselheiro de Estado ficou de boca aberta. Não esperava um tal afluxo de palavras. Após um instante de reflexão, exprim iu-se pouco m ais ou m enos da seguinte form a:

— Porém , não obstante... Com o pode um a pessoa exilar-se no cam po? Que sociedade pode ali haver? Aqui, ao m enos, encontram -se na rua generais, príncipes... Passa-se ao lado de alguém ... Enfim , há a ilum inação a gás, a indústria à europeia, enquanto lá um a pessoa só convive com aldeãos. Para que acanalharm o-nos no resto da vida?

Todavia, o sobrinho continuou surdo às observações do tio. Estava j á farto da repartição e da capital. A herdade com eçava a parecer-lhe um seguro asilo, favorável à m editação, e o único cam po de atividade útil. Já tinha adquirido os m ais recentes tratados sobre a agricultura. Resum indo: quinze dias depois desta conversa, encontrava-se j á nos arredores dos sítios em que tinha decorrido a sua infância, não longe daquele rincão encantador que nenhum visitante deixava de adm irar. Um novo sentim ento o agitava. Em sua alm a acordavam im pressões de antanho, há largo tem po desvanecidas. Tinham -lhe esquecido m uitos lugares e, com o um recém -chegado, olhava com curiosidade para diversos recantos aldeãos. Repentinam ente, sem saber porquê, o seu coração com eçou a latej ar. O cam inho seguia por um túnel estreito, no m ais espesso de um a floresta im ensa. Por cim a da sua cabeça e debaixo dos seus pés, viu azinheiras seculares que três hom ens não poderiam abraçar, alternando com pinheiros, olm os e plátanos. « A quem pertence este bosque?» . « Ao senhor Tentietnikov» disseram -lhe. Depois, o cam inho avançava por cam pos bordados de álam os, vim eiros e salgueiros, em frente das alturas que se estendiam ao longe, e atravessava em dois pontos diferentes o m esm o rio, deixando-as prim eiro à direita e em seguida à esquerda. André Ivanovitch inform ou-se acerca do feliz proprietário daqueles cam pos e soube que lhe pertenciam , a ele, Tentietnikov. O cam inho subia então por « m a ladeira e dom inava um a planura que, por um lado, m ostrava searas ondulantes, trigo, centeio, cevada; e, por outro, todos os lugares anteriorm ente percorridos, que apareciam de repente, em conj unto. Depois, obscurecia gradualm ente, estendia-se à som bra das copadas árvores dissem inadas pelo verde tapete, até a aldeia. Quando se lhe depararam as isbas negruscas dos m uj iques e os verm elhos telhados do solar, e cintilou a cúpula dourada da igrej a, quando o coração palpitante de Tentietnikov adivinhou onde tinha chegado, todas as sensações acum uladas se m anifestaram em alta voz:

— Não era eu um parvo? A sorte fez-m e dono deste paraíso terrestre e eu suj eitava-m e a garatuj ar em papéis. Ter recebido um a boa instrução, ter-m e habilitado com os conhecim entos necessários para a difusão do bem entre os m eus subordinados, aos m elhoram entos de toda um a região, ao cum prim ento das num erosas obrigações de proprietário, ao m esm o tem po j uiz» m andatário e m antenedor da ordem , e confiar este encargo a um feitor ignaro! Preferir servir de interm ediário a pessoas que nunca tinha visto, cuj o caráter e cuj as qualidades ignoro; num a palavra: a um a adm inistração efetiva, preferir um a adm inistração sobre o papel, de províncias situadas a m il verstas, onde não pus j am ais os pés e onde não posso fazer senão asneiras.

Entretanto, outro espetáculo o esperava. Quando lhes chegou a notícia da chegada do senhor, os cam poneses reuniram -se ao pé da escadaria. Blusas, gorros, toucas, cafetãs e barbas pitorescas form aram círculo em torno dele. Quando ouviu dizer: « Chegou o nosso benfeitor!» ; quando os velhos e as velhas desataram a chorar recordando o seu avô, ele próprio não pôde conter as lágrim as. « Com o m e querem !» — pensava. — « E, todavia, eu nunca os tinha visto! Nunca m e preocupei com eles!» . Então, fez voto de com partilhar, dali em diante, dos seus trabalhos, para se tornar verdadeiram ente digno de ser am ado e de ser cham ado seu benfeitor.

Pôs-se a dirigir a exploração. Reduziu as tarefas para dar m ais tem po aos cam poneses. O estúpido feitor foi despedido. Quis im iscuir-se em tudo, apresentando-se nos cam pos, nas eiras, nos m oinhos, assistindo ao carregam ento e expedição das barcaças. « Caram ba!» — diziam os cam poneses. — « Não lhe escapa nada» . E até os preguiçosos com eçaram a coçar a nuca.

Mas isto não durou m uito tem po. O m uj ique é perspicaz e depressa com preendeu que o am o, em bora estivesse alerta e fosse em preendedor, não sabia ainda por onde andava e falava dem ais, com o um livro. Isto deu em resultado que, sem chegarem à incom preensão total, servos e senhor não conseguiram pôr-se de acordo.

Tentietnikov pôde com preender que, nas suas terras, tudo corria com m ais dificuldade do que nas dos cam poneses. Sem eava-se m ais cedo e fazia-se a colheita m ais tarde; e, não obstante, parecia trabalhar-se conscienciosam ente. Além disso, ele assistia aos trabalhos e recom pensava, com distribuição de vodka, o zelo da sua gente. Há m uito j á que o centeio, a aveia e o m ilho dos m uj iques espigavam ; entretanto, os seus cereais com eçavam apenas a apontar o caule, sem que tivesse aflorado a espiga. Conclusão: o senhor pôde verificar que, m au grado todos os favores concedidos, os seus cam poneses o enganavam . Tratou de os repreender; recebeu, porém , esta resposta:

— Com o é que não tom am os a peito os seus interesses, nosso am o? O senhor tem sido testem unha do nosso zelo, a lavrar e a sem ear, e até nos m andou dar um a ração de vodka.

Que responder a isto?

— Mas por que é que o trigo m edra tão pouco? — perguntava Tchichikov.

— Com o podem os saber? Talvez os gusanos lhe tenham atacado as raízes. E, depois, não é para estranhar, com um verão destes. Não tem chovido nada.

André Ivanovitch, porém , via que no trigo dos seus cam poneses os gusanos não m ordiam as raízes; e, quanto à chuva, não caía, com certeza, só ali e aqui, favorecendo o m uj ique em detrim ento do senhor.

As m ulheres ainda lhe davam m ais que fazer. Pediam dispensa dos trabalhos, queixando-se do rigor das tarefas. Coisa estranha! Havia suprim ido todos os tributos em teia, fruta, seda, avelãs, e restringido em m etade os restantes trabalhos, com a ideia de que as m ulheres consagrassem este tem po aos cuidados dom ésticos, a coser as roupas do m arido, a am anhar a horta. Não adiantou nada. A ociosidade, as contendas, os falatórios, as disputas de todos os géneros, desenvolveram -se entre o belo sexo, a tal ponto que os m aridos pediam continuam ente auxílio:

— Por favor, nosso am o: é preciso m eter na ordem o diabo da m inha m ulher! Já se não pode viver com ela!

Contra sua vontade, queria m ostrar-se severo; m as, com o em pregar a sua severidade? Chegava um a cam ponesa, gem endo, m al podendo segurar-se de pé, doente, envolta em noj entos andraj os, apanhados sabe Deus aonde.

— Vai-te! Vai-te em bora! Que eu não te ponha m ais a vista em cim a! Que Deus te acuda! — dizia o pobre Tentietnikov, que, a seguir, via a doente, um a vez franqueado o portão, atirar-se a um a vizinha, por causa de um nabo, e zurzir-lhe as costas m elhor que um m oço valente.

Tinha pensado em fundar um a espécie de escola; m as isto provocou um a tal confusão, que depressa teve de renunciar a essa ideia. Nos conflitos e em assuntos contenciosos, os raciocínios j urídicos inculcados pelos seus professores de filosofia para nada serviam . As duas partes m entiam ; era im possível reconciliarem -se. Viu, então, que só o conhecim ento do hom em valia m ais que todas as subtilezas das obras de direito e de filosofia; viu que lhe faltava algum a coisa, sem saber ao certo o quê. E sucedeu o que com tanta frequência acontece: servos e senhores desconheceram -se reciprocam ente, apresentando-se cada qual pelo seu lado m au. Tudo isto esfriou notavelm ente o zelo do proprietário.

Desde então, assistiu aos trabalhos sem lhes prestar a m enor atenção. Quer se tratasse de segar, enfeixar, ou de arrecadar, os seus olhares erravam por longe. Se o trabalho se executava a distância, distraidam ente procurava os obj etos m ais próxim os ou contem plava um cotovelo do rio, onde um pica-peixe, de bico e patas verm elhas, percorria as m argens. Observava com curiosidade o pássaro, com um peixe atravessado no bico, parecia perguntar a si próprio se o com eria ou não, olhando ao m esm o tem po para outro m ergulhador que não tinha pescado ainda nenhum a peça e que tam bém fixava o seu m ais afortunado congénere. Ou ainda, com os olhos cerrados e a cabeça levantada para os espaços celestes, aspirava o perfum e dos cam pos, escutava os rum ores do m undo alado, quando por toda a parte, no céu e na terra, se uniam num coro harm onioso. A codorniz deixava ouvir o seu alvoroço entre o centeio; a perdiz gem ia entre a erva; por cim a delas piava e gorj eava um bando de pardais; a galinhola trinava ao levantar o voo; a calhandra em briagava-se, perdida na claridade, enquanto o grito dos grous, que voavam em triângulo no alto do céu, ressoava com o o toque de um clarim . Os arredores eram um puro concerto. Criador! Com o são m agníficas as tuas obras em plena natureza, longe dos grandes cam inhos e das grandes urbes! Todavia, até este espetáculo acabou por fatigar André Ivanovitch. Deixou de ir ao cam po, fechou-se em casa, recusou, até, ouvir os relatos do seu feitor.

Não havia m uito tem po que alguns vizinhos acudiam a visitá-lo: um tenente de hussardos, de reserva, que tresandava a cachim bo; um estudante falhado, de ideias avançadas, que tinha por oráculo os folhetos e os diários contem porâneos. Mas tam bém isto lhe aborreceu. As suas conversas com eçaram a parecer-lhes superficiais; a sua afabilidade à europeia — pancadinhas nos j oelhos e outros m odos ordinários — pareceu-lhe livre dem ais. Resolveu cortar relações com todos, e fê-lo dem asiado bruscam ente. Um dia, com efeito, Varvar Nicolaievich Vichnepokrom ov, o m ais encantador dos conversadores superficiais, tipo desses coronéis brigões que tendem a desaparecer, e adeptos, ao m esm o tem po, das ideias novas, foi visitá-lo para discutir a seu gosto filosofia, literatura, m oral e até o estado das finanças inglesas; Tentietnikov, porém , m andou-lhe dizer que não estava em casa, tendo ainda com etido a im prudência de assom ar à j anela. Cruzaram -se os olhares de am bos. Um deles, im ediatam ente grunhiu: « Que anim al!» enquanto o outro, despeitado, lhe dirigiu um epíteto igualm ente m alsoante. As relações continuaram assim . Desde então, ninguém acudiu a visitá-lo!

Alegrou-se com isso, e dedicou-se à m editação de um a grande obra sobre a Rússia. O leitor j á viu com o procedia. Estabeleceu-se na propriedade um a desordem sistem ática. Não obstante, às vezes, parecia sair da sua m odorra. Quando o correio lhe levava diários ou revistas; quando via citado na im prensa o nom e de algum dos seus antigos cam aradas, que fazia um a carreira brilhante ao serviço do Estado ou se tinha distinguido j á nas ciências e na causa do progresso — um a surda m elancolia se apoderava dele; um a queixa am arga e m uda, a respeito da sua inação, escapava-lhe involuntariam ente. Com extraordinária intensidade, revivia o tem po passado no colégio. Alexandre Petrovitch surgia, vivo, e as suas lágrim as corriam em caudal.

Que significavam aqueles soluços? Revelava assim a sua alm a torturada, o triste m istério da sua doença? Seria porque a alta personalidade que nele se abrigava não tivera tem po de form ar-se e fortalecer-se? Porque, não tendo sabido, desde a tenra idade, lutar contra os reveses, não alcançara esse estado superior em que os próprios obstáculos e dificuldades elevam e fortificam ? Porque, passado pelo crisol, à sem elhança de um m etal em fusão, não recebera a últim a têm pera? Porque o seu incom parável m estre havia m orrido dem asiado cedo para ele e porque j á não havia agora no m undo um a pessoa capaz de estim ular as suas vacilantes forças e a sua débil vontade, privada de elastério; ninguém que dissesse à sua alm a, com voz enérgica, a reconfortante palavra: « Adiante!» , palavra que espera em qualquer parte, nos diferentes graus da escala social, os russos de todas as condições?

Onde está aquele que poderia dizer-nos esta palavra om nipotente « Adiante?» . Onde está aquele que, conhecendo todas as forças, todas as qualidades, toda a profundidade da nossa natureza, poderia com um sinal m ágico orientar-nos para um a vida superior? Com que lágrim as, com que am or lhe dem onstraria o russo o seu reconhecim ento! Mas os séculos sucedem -se, a Rússia é presa de um a vergonhosa preguiça ou da atividade insensata de um a j uventude sem experiência, e Deus não faz surgir o hom em que poderia pronunciar a alm ej ada palavra!

Um a circunstância quase que despertava Tentietnikov; um a transform ação esteve prestes a dar-se no seu caráter. Algum a coisa que se parecia com o am or adej ou à sua volta. Mas até nisto ele não foi constante. A dez verstas do seu solar, residia o general que, com o j á vim os, se exprim ia a respeito dele com pouca benevolência. O general vivia a seu m odo; gostava que os seus vizinhos lhe rendessem hom enagem ; não retribuía as visitas; falava com voz retum bante; dedicava-se à leitura e tinha um a filha, Ulineka, estranha criatura. Às vezes, acontece verm os em sonhos algum a coisa sem elhante; desde então, passam os a vida a pensar naquela aparição; não se faz caso da realidade. Tendo perdido a m ãe ainda m uito nova, a j ovem recebeu um a educação m uito especial. A sua professora, um a inglesa, não conhecia um a palavra russa. O pai não tivera tem po de se dedicar a ela. Por outro lado, am ando a filha com loucura, não tinha podido fazer m ais que am im á-la. Com o um a criança que se desenvolveu em liberdade, tudo nela era fantástico. Era a encarnação da vida. Se alguém tivesse visto contraírem -se as suas form osas feições sob o im pério de um a cólera violenta e o ardor que punha nas discussões com seu pai, tê-la-ia tom ado pela m ais caprichosa de todas as criaturas. A sua cólera, porém , só estalava quando ouvia falar de um a inj ustiça ou de um m au procedim ento. Jam ais discutia para se defender ou para se j ustificar. Esta cólera apaziguar-se-ia im ediatam ente, se visse que era um desgraçado o obj eto dela. À prim eira petição de quem quer, estava disposta a entregar-lhe a sua bolsa com todo o conteúdo, sem refletir nos inconvenientes desse gesto. Havia em si qualquer coisa de im petuoso. Quando falava, tudo nela parecia refletir a ideia exprim ida; a fisionom ia, a entoação, os gestos, as próprias pregas do seu vestido, com o que se adaptavam a ela; parecia que ia voar, em resultado das suas palavras. Não tinha segredos; não receava exprim ir os seus pensam entos diante de ninguém . Quando queria falar, não havia força capaz de a obrigar a calar-se. Os seus passos graciosos e pessoalíssim os eram tão firm es, que toda a gente, involuntariam ente, lhe teria dado passagem . Na sua presença, os m aus perturbavam -se e não pronunciavam palavra; o m ais desenvolto, o m ais ousado em palavras, não sabia que dizer-lhe e perdia a serenidade, enquanto o tím ido podia falar com ela, com o o não tinha feito com ninguém . Desde os prim eiros m inutos da conversa, parecia-lhe que j á a conhecera antes, nos tem pos da prim eira infância, num a casa fam iliar, durante um aprazível serão, entre alegres transportes da turba infantil e, largo tem po depois, dir-se-ia aborrecido da idade da razão.

Foi isto o que experim entou André Ivanovitch. Um sentim ento inexplicável se apoderou dele. A sua taciturna existência ilum inou-se de súbito.

O general, a princípio, recebeu m uito cordialm ente Tentietnikov; não chegaram , porém , a entender-se. As suas conversas term inavam em discussão, com um sentim ento de recíproco m al-estar, pois o general não gostava nem de contradições nem de obj eções. Tentietnikov, por seu lado, era sensível. Está claro que perdoava m uitas coisas ao pai, em atenção à filha, e a paz reinou entre eles até a chegada de uns parentes do general. A condessa Bordy riov e a princesa Iuzakin, dam as de honor da antiga corte, que conservavam relações em Petersburgo. O general m ostrava-se de bom grado obsequioso com elas. Desde a sua chegada, André Ivanovitch teve a im pressão de que o dono da casa se tornara m ais frio, não fazendo grande caso dele, e tratando-o com um ser estúpido. Desdenhosam ente, dizia-lhe: bom rapaz; escute, amigo; e até o tratava por tu.

Isto acabou por exasperar Tentietnikov. Contendo-se, apertando os dentes, teve, não obstante, a serenidade suficiente para proferir em tom m uito cortês, enquanto o rubor lhe subia ao rosto e ele fervia interiorm ente:

— Muito lhe agradeço, general, a sua benevolência. Ao tratar-m e por tu, incita-m e a um a estreita am izade que m e obriga a tratá-lo da m esm a m aneira; m as a diferença de idades opõe-se a relações tão fam iliares entre nós.

O general perturbou-se. Reunindo m uito a custo as suas ideias, declarou não ter em pregado aquele tratam ento em tal sentido: um velho podia, em certas ocasiões, tratar um j ovem por tu (Não fez qualquer alusão ao seu posto).

A partir daquele m om ento, as suas relações acabaram e o am or m orreu ao nascer. A luz que, por um instante, brilhava diante de Tentietnikov, apagou-se, tornando m ais som brio ainda o subsequente crepúsculo. Esta foi, desde então, a existência descrita no princípio deste capítulo: as horas passava-as sem fazer nada, reclinado no divã. A porcaria e a desordem introduziram -se-lhe em casa. A vassoura perm anecia um dia inteiro no m eio dos com partim entos cheios de lixo. Um as calças andavam aos pontapés pelo salão; engordurados tirantes repousavam num a elegante m esa, perto do sofá, com o um a oferta aos visitantes. André Ivanovitch foi-se desm azelando até um ponto, que não só a sua gente deixou de o respeitar, m as até as galinhas chegavam a picá-lo. Com a pena na m ão desenhava m aquinalm ente, durante horas inteiras, árvores retorcidas, casitas, isbas, trenós, troikas... Às vezes, porém , a pena tracej ava por si só, por im pulsos do seu dono, um a cabecita de finos traços, de olhar vivo, de boquinha provocadora, e o desenhador, surpreendido, via surgir o retrato daquela a quem nenhum artista teria sabido pintar. Então, persuadido de que a felicidade não existe na terra, tornava-se ainda m ais taciturno, m ais apático.

Tal era o estado de alm a de André Ivanovitch Tentietnikov.

Um dia em que, segundo o seu costum e, se tinha sentado perto da j anela para distrair-se, surpreendeu-se por não ouvir o Gregório nem a Perfilievna; pelo contrário, no pátio reinava certa agitação. O m oço da cozinha e a m ulher da esfrega correram a abrir o portão, que deu passagem a uns cavalos exatam ente parecidos com os que apresentam os arcos de triunfo: três cabeças à frente, um a à direita, outra à esquerda e outra ao centro. Na boleia, o cocheiro e um lacaio com am plo sobretudo, cingido com um lenço de algibeira. Atrás sentava-se um cavalheiro com gorro e capote, envolto o pescoço num abafo de cores garridas. Quando a carruagem deslizou em frente da escadaria, pôde ver-se que era um a caleche ligeira, de m olas. O cavalheiro, de aparência m uito distinta, saltou em terra, com presteza e agilidade quase m ilitares.

André Ivanovitch quase teve m edo; j ulgou-se em presença de um funcionário. É preciso dizer que, na sua m ocidade, se tinha visto em brulhado num caso extraordinário. Dois hussardos filósofos, atochados de leituras, um estafeta falido e um j ogador inveterado, fundaram um a sociedade filantrópica sob a direção suprem a de um patifório m ação, tam bém j ogador, m as m uito eloquente. A sociedade visava a um fim grandioso: assegurar a felicidade do género hum ano, desde Tam is a Kam chatka. Tom avam -se necessárias som as consideráveis; os oferecim entos de m em bros generosos eram abundantes. Para onde ia todo aquele dinheiro? Só o diretor suprem o o sabia. Tentietnikov fora levado para aquela sociedade por dois am igos seus, que pertenciam à classe dos espíritos rebeldes, bons rapazes, cuj os brindes dem asiado frequentes pela ciência, pela instrução e pelo progresso, os converteram em perfeitos borrachos. Depressa reagiu e rom peu com aquele m eio. A sociedade, porém , tinha-se com prom etido j á por certos atos pouco dignos de cavalheiros, de tal m odo que, até depois de ter acabado todas as relações com aqueles indivíduos, Tentietnikov não se considerava m uito seguro.

Não obstante, o seu tem or desvaneceu-se quando o visitante, de cabeça ligeiram ente inclinada, o saudou com perfeita desenvoltura e, conservando um a atitude de deferência, explicou em breves m as precisos term os que percorria há tem pos a Rússia, tanto para tratar de assuntos particulares com o para se instruir. No nosso país abundavam obj etos curiosos, sem falar das num erosas indústrias e da diversidade do solo. A pitoresca situação do solar tinha-o seduzido; em todo o caso, não se atreveria a im portunar o seu feliz possuidor se, em consequência das chuvas prim averis e do m au estado dos cam inhos, o seu coche não tivesse sofrido um a avaria, que exigia o auxílio de ferreiros e de outros artistas. Por outro lado, ainda que a sua caleche não sofresse dano algum , não teria podido renunciar ao prazer de testem unhar a sua consideração pelo dono da casa.

Term inado o seu discurso, o visitante, que calçava elegantes botinas lustrosas com botões de nácar, inclinou-se com galantaria e, apesar da sua corpulência, recuou um pouco, com a ligeireza de um a bola de borracha.

Tranquilizado, André Ivanovitch tom ou a personagem por um sábio professor que, sem dúvida, percorria a Rússia com o fim de recolher plantas ou fósseis. Im ediatam ente lhe dem onstrou o seu desej o de o auxiliar em tudo; pôs à sua disposição ferreiros e carreiros, pediu-lhe que se instalasse com o em sua casa, fez com que se sentasse num poltrona e dispôs-se a ouvi-lo discursar sobre ciências naturais.

Mas o visitante espraiou-se m ais sobre acontecim entos de natureza íntim a. Com parou a sua existência à de um esquife açoitado por pérfidos ventos; m encionou que m udara várias vezes de em prego; que sofrera m uitas inj ustiças; que, até, várias vezes os seus inim igos tinham atentado contra a sua vida. Referiu, ainda, um a m ultidão de coisas que o retratavam com o hom em prático em negócios. A m odos de conclusão, assoou-se ao lenço com tal sonido de trom peta, que André Ivanovitch nunca tinha ouvido outro sem elhante. Sucede, às vezes, que um velhaco instrum ento produz, quando funciona, a im pressão de ressoar, não na orquestra, m as no nosso ouvido. Um ruído sem elhante percorreu os com partim entos da casa adorm ecida, seguido im ediatam ente por um perfum e de água de colónia, espargido pelo lenço de cam braia, agilm ente desdobrado.

O leitor, sem dúvida, terá adivinhado j á que o visitante não era outro senão o respeitável Pavel Ivanovitch Tchichikov, por nós abandonado no cam inho. Tinha envelhecido um pouco; via-se que o tem po decorrido não carecera para ele de torm entas nem de alarm es. O seu próprio fraque parecia um pouco am arfanhado, e a caleche, o cocheiro, o criado, os cavalos, os arneses, pareciam deteriorados, gastos. Os seus negócios tam bém não deviam ter sido prósperos. A fisionom ia, porém , os m odos, o exterior, não tinham m udado. Até se m ostrava ainda m ais desem baraçado nos seus passos e na apresentação, e cruzava as pernas, ao sentar-se, com m ais naturalidade. A sua entoação era m ais suave, as palavras m ais circunspectas. Dava prova em tudo do m aior tato e da m aior urbanidade. O seu colarinho e peitilho eram de um a candura im aculada e, em bora chegasse de viagem , nem um grão de pó lhe suj ava o fraque. Poder-se-ia tê-lo convidado, ato contínuo, para um j antar de gala. As faces e o queixo estavam tão bem barbeados, que era preciso ser cego para não adm irar o agradável saliente que form avam os seus contornos arredondados.

A casa sofreu em seguida um a transform ação. Metade, até então condenada à escuridão, com todas as contraj anelas fechadas, foi restituída a luz. Nos com partim entos, j á cheios de claridade, tudo com eçou a ordenar-se e em breve tom ou o seguinte aspeto: no quarto de dorm ir havia os obj etos necessários para o penteado de noite; o que devia servir de gabinete... Mas, prim eiro, é necessário saber que este com partim ento tinha três m esas: um a secretária diante do canapé; um a m esa de j ogo entre as j anelas, em frente do espelho; um a cóm oda a um canto, entre a porta da alcova e um a sala de espera, em que, havia um ano, não entrava ninguém e que servia agora de sala de visitas. Sobre a cóm oda foram depostas as roupas que saíam da m ala, a saber: as calças do fraque; outras novas; outras cinzentas; dois coletes de terciopelo, dois de seda, e a sobrecasaca. Tudo isto foi coberto com um lenço de seda. No outro ângulo, entre a porta e a j anela, ficou alinhado o calçado; algum , com certo uso, outro, flam ante, os sapatos de verniz e as chinelas. Tam bém isto foi pudicam ente velado por um lenço de seda. Na secretária foram colocados em perfeita ordem : o tinteiro e as penas, um frasco de água de colónia, um alm anaque e dois segundos tom os de novelas. A roupa branca foi m etida na cóm oda; fez-se um em brulho com o que tinha de ir para a lavadeira, para o m eter debaixo da cam a, bem com o a m aleta, um a vez vazia. A espada, que servia para m eter m edo aos salteadores de estrada, dependurou-se num prego, não longe da cam a. Tudo adquiriu um a desusada aparência de ordem e lim peza. Nem um bocado de papel nem um a pena nem a m enor im undície no soalho. Até o ar parecia purificado, e im pregnou-se do agradável cheiro a um hom em saudável e asseado, que m uda com frequência de roupa interior, que tom a banho e que se fricciona aos dom ingos com um a esponj a m olhada. Durante algum tem po, ficou na sala de espera o fedor do lacaio Petrushka; este, porém , foi depressa m andado para a cozinha, com o era j usto.

Nos prim eiros dias, André Ivanovitch, tem endo pela sua independência, conj eturou acerca dos incóm odos que lhe ocasionaria o hóspede. Não teria de alterar os seus costum es e transtornar o em prego do seu tem po, tão sensatam ente distribuído? Estes tem ores foram vãos. Pavel Ivanovitch am oldou-se a tudo com um a rapidez extraordinária. Aprovou a filosófica placidez do dono da casa, dizendo que era o m elhor processo de m orrer centenário. Exaltou com lindas palavras a solidão, inspiradora dos grandes pensam entos. Deitou um a olhadela para a biblioteca e fez o elogio dos livros, que arrancam o hom em à ociosidade. Falou pouco, m as sentenciosam ente. Dem onstrou ainda m aior tato no seu proceder. Chegava no m om ento oportuno; retirava-se ele próprio, sem fatigar o hospedeiro com as suas palavras, quando não estava disposto a conversar; de bom grado j ogava as dam as com ele, e de bom grado, tam bém , guardava silêncio. Enquanto um lançava do seu cachim bo baforadas que se espanej avam em azuladas espirais, o outro, que não fum ava, im aginava um passatem po adequado; tirava, por exem plo, do bolso um a tabaqueira de prata cinzelada e, apertando-a entre os dedos da m ão esquerda, fazia-a girar rapidam ente com um dedo da direita, do m esm o m odo que um a esfera se m ove em redor do eixo, ou então passava os dedos por cim a dela, fazendo-a sibilar. Em conclusão: não m olestava o seu hospedeiro.

— Vej o, pela prim eira vez, um hom em com o qual se pode viver — dizia Tentietnikov. — É um a arte que se pratica pouco entre nós. Não carecem os de boas pessoas, inteligentes, instruídas; m as de pessoas de caráter sem pre igual; com quem se possa viver largo tem po sem questionar, duvido que se encontrem m uitas entre nós. É a prim eira que encontro.

Tal era a opinião de Tentietnikov acerca do seu hóspede. Tchichikov, por seu lado, felicitava-se por ter escolhido para residir a casa de um hom em tão sossegado, tão pacífico. Já estava cansado da vida nóm ada. Repousar, em bora fosse apenas um m ês, era excelente, até sob o ponto de vista higiénico.

Com efeito, dificilm ente se teria achado m elhor lugar para repouso. A prim avera, largo tem po dem orada pelos frios, com eçava em toda a sua beleza, e a vida renascia por toda a parte. Já azulavam as clareiras do bosque; j á sobre a fresca esm eralda da eiva tenra florescia o dente de leão, e a aném ona inclinava a sua delicada corola, cor de lilás rosado. Enxam es de m oscardos, legiões de insetos, invadiam os pântanos; a aranha-de-água perseguia-os e, com ela, pássaros de toda a espécie, chegados de todos os lados, reunidos nos canaviais secos. Os lagos, os rios desbordantes, enchiam -se de patos e de outras aves aquáticas.

Em breve a terra se anim ou, as selvas despertaram , as cam pinas com eçaram a reflorir. Não faltava o espaço para retouçar. Que vivos tons na verdura! Que frescura no ar! E que trilos e gorj eios nos j ardins! Um verdadeiro paraíso, pleno de alegria. Os cam pos cantavam e vibravam com o para o him eneu.

Tchichikov saía m uitas vezes. Abundavam os sítios para passeios. Tão depressa explorava o plaino que coroava as alturas e contem plava o panoram a dos vales, inundados em m uitos pontos, de onde im ergiam , com o ilhas escuras, os bosques despoj ados ainda de folhas, com o se internava no intrincado da floresta e nos seus precipícios, nos quais os m aciços das árvores carregadas de ninhos davam abrigo aos corvos, cuj os bandos, ao voar, obscureciam o céu. Podia, a pé enxuto, ir até o cais, de onde saíam as prim eiras barcaças carregadas de ervilhas, de cevada, de trigo, enquanto a água afluía com estrépito às rodas do m oinho, que principiava a funcionar. Ia ver os prim eiros trabalhos prim averis; adm irava a zona escura que os recentes labores agrícolas traçavam na m ancha de verdura, enquanto o hábil sem eador, batendo com as m ãos no canudo colocado ao peito, repartia o grão aos punhados» esparzindo-o igualm ente à direita e à esquerda.

Tchichikov via tudo. Conversava com o feitor, com o m oleiro, com os cam poneses. Tudo era para ele obj eto de perguntas: a m archa dos trabalhos, a quantidade de trigo vendido, a que se destinava na prim avera e no outono para a m oenga, o nom e de cada agricultor, suas relações de parentesco, a com pra de um a vaca, a criação de um cevado. Inform ava-se, tam bém , do núm ero de cam poneses m ortos: era pouco elevado. Hom em perspicaz, observou rapidam ente que a propriedade de André Ivanovitch era explorada de um m odo deplorável: por toda a parte a inércia, a incúria, o roubo, a em briaguez. Tchichikov pensava: « Que besta é este Tentietnikov! Deixar arruinar um a herdade que podia dar-lhe cinquenta m il rublos de rendim ento!» .

Várias vezes, durante estes passeios, ocorreu-lhe a ideia de chegar a ser — não im ediatam ente, claro está, m as m ais tarde, quando chegasse a bom term o a sua principal em presa e dispusesse de recursos — de chegar a ser o pacífico dono de um a propriedade assim . Naturalm ente, via-se j á casado com um a j ovem de faces m im osas, pertencente a um a fam ília de negociantes ou a outra classe rica, e que até soubesse m úsica. Im aginava tam bém um a descendência que perpetuasse a raça dos Tchichikov: um rapaz turbulento e um a linda m enina; ou, m elhor, dois rapazes e até três raparigas, para que todo o m undo soubesse que, realm ente, ele tinha vivido e existido e não passado pela terra com o um a som bra. Então, dizia para si que tam bém não seria m au subir de posição e chegar, por exem plo, a conselheiro de Estado, título respeitável e honroso... Quem sabe o que pode ocorrer a um hom em que passeia, os sonhos que o fazem esquecer por um instante a triste realidade, que o solicitam , que o serrazinam , que lhe excitam a im aginação e que lhe são queridos, ainda que estej a persuadido de que não hão de realizar-se j am ais?

O cam po agradou ao pessoal de Pavel Ivanovitch, que, com o o seu am o, se encontrava ali com o o peixe na água. Petrushka em breve travou am izade com o despenseiro Gregório, em bora, a princípio, afetassem m útua aversão. Petrushka quis deslum brar Gregório, enum erando os lugares que tinha visitado; este, porém , tapou-lhe a boca com Petersburgo, que o outro não conhecia. Petruska, para desquitar-se, argum entou com a distância dos sítios em que estivera; m as Gregório citou alguns nom es que não estavam no m apa, localizados a m ais de trinta m il verstas, com tal segurança, que o criado de Pavel Ivanovitch ficou de boca aberta e teve que suportar a troça da criadagem . O caso arrum ou-se, apesar disso, com um a estreita am izade. No extrem o da povoação, Pim en, o calvo, aparentado com todos os cam poneses, tinha um a taberna com o nom e de Akulka; os dois com padres converteram -se em dois fregueses assíduos; ali se viam a todas as horas do dia.

Selifan experim entou um a atração diferente. Na aldeia, todas as noites se cantavam toadilhas e se bailava em honra da prim avera. Esplêndidas m oçoilas, robustas com o dificilm ente hoj e se encontram nas grandes povoações, faziam -lhe arregalar os olhos durante horas inteiras. O que lhe teria custado era indicar a m ais form osa. Todas tinham o peito e o pescoço brancos, grandes olhos sensuais, um andar arrogante e um as tranças que lhes chegavam à cintura.

Quando, com as brancas m ãos entre as suas, rodava lentam ente com elas; quando avançava com outros m oços para as raparigas de voz sonora, que cantavam sorrindo: Boiardos, ensinai a noiva, enquanto a noite, em redor, tom bava docem ente e, ressoando para além do rio, o eco das cantigas repercutia m elancólico — não sabia o que se passava. Tanto acordado com o desperto, tanto de m anhã com o ao fim da tarde, parecia-lhe estar sem pre tom ando parte na roda e ter m ãos brancas entre as suas.

A nova m orada agradou tam bém aos cavalos de Tchichikov. O da sela, o Assessor e até o Picaço, acharam a estância m uito agradável, a aveia excelente e a disposição das cavalariças particularm ente cóm oda. Cada um deles tinha a sua m anj edoura, em separado, é verdade, m as, através do tabique, viam -se os outros cavalos, de m aneira que, se um deles, em bora o m ais afastado, tinha ganas de relinchar, podia responder-se-lhe im ediatam ente.

Resum indo: todos se sentiam com o em sua casa. Quanto à operação pela qual Pavel Ivanovitch percorria a vasta Rússia, quer dizer, as alm as m ortas, este tornara-se m uito reservado, até quando tratava com autênticos im becis. Tentietnikov lia, filosofava, esforçava-se por explicar a si próprio a causa e a razão das coisas. « Mais vale tentar apanhá-lo por outro processo» dizia o nosso hom em .

Palestrando frequentem ente com os criados, soube, entre outras coisas, que o senhor visitava dantes o seu vizinho general; este tinha um a filha; o senhor e a m enina gostavam um do outro; em consequência, porém , de um desaguisado, j á se não encontravam . Ele próprio tinha observado que André Ivanovitch desenhava m uitas vezes, a lápis e à pena, cabeças sem pre idênticas.

Um a vez, depois de alm oçar, fazendo girar, com o de costum e, a sua tabaqueira de prata, Tchichikov disse:

— O senhor tem tudo, André Ivanovitch. Só lhe falta um a coisa.

— O quê? — perguntou o outro, lançando um a baforada do seu cachim bo.

— Um a com panheira — disse Tchichikov.

André Ivanovitch ficou silencioso. A conversa term inou assim .

Tchichikov não se desconcertou; escolheu outro m om ento, desta vez antes de cear e, falando de um as coisas e doutras, disse de repente:

— Com efeito, André Ivanovitch, o senhor faria bem em casar-se.

Tentietnikov não respondeu palavra. Este assunto, sem dúvida, era-lhe desagradável.

Tchichikov não se deu por vencido. Pela terceira vez, voltou à carga, depois de cear.

— Não obstante, exam inando a sua situação em todos os seus aspetos, entendo que deveria casar-se. De outra m aneira, espreita-o a hipocondria.

Ou porque, desta vez, as palavras de Tchichikov fossem persuasivas ou porque a disposição de Tentietnikov o arrastasse particularm ente para as confidências, suspirou e disse, depois de ter lançado um a baforada de fum o.

— Para tudo é preciso nascer com sorte, Pavel Ivanovitch!

E referiu com todos os porm enores a história do seu rom pim ento com o general

Depois de ter escutado a narração do princípio ao fim e com provado que só o tratam ento por tu havia dado origem ao incidente, Tchichikov ficou surpreso. Durante um m inuto, olhou Tentietnikov nos olhos, não sabendo que pensar dele. Era um perfeito im becil ou, sim plesm ente, um trocista?

— André Ivanovitch! — disse, por fim , tom ando-lhe as m ãos. — Por favor! Isso é um insulto? Que há de inj urioso na palavra tu?

— A palavra, em si, nada tem de inj urioso — disse Tentietnikov — m as o sentido que se lhe atribuiu, o tom com que foi pronunciada, constituem um insulto. Tu significa: « Lem bra-te de que não és grande coisa; recebo-te unicam ente porque não há aqui outra pessoa m elhor; quando chegar, porém , um a princesa Iuzakin, coloca-te a distância; não passes além do um bral» . Eis o que significa!

Dizendo estas palavras, os olhos do bom Tentietnikov cintilavam ; notava-se-lhe na voz a irritação do am or-próprio ferido.

— Contudo, ainda nessa aceção, que im porta isso? — disse Tchichikov.

— Com o! Quereria o senhor que, depois de sem elhante procedim ento, continuasse a visitá-lo?

— É que isso não é procedim ento — respondeu, fleum ático, Tchichikov.

— Com o não é? — perguntou Tentietnikov, surpreendido.

— Não é procedim ento; é, sim plesm ente, um hábito do general. Os generais tratam toda a gente por tu. Por outro lado, por que não perm itir isso a um hom em respeitável, que bem m ereceu da pátria?

— Não é a m esm a coisa — disse Tentietnikov. — Se, em lugar de um arrogante general, se tratasse de um pobre velho, ter-lhe-ia perm itido que m e tratasse por tu, e até o teria aceitado com respeito.

« Que im becil!» , pensou Tchichikov. « Deixar-se tratar assim por um m iserável e não por um general!»

— Bem — replicou em alta voz. — Adm itindo que o tenha insultado, o senhor desafrontou-se, pagando-lhe na m esm a m oeda. Mas zangar-se, cortar relações por um a futilidade, desprezando os seus próprios interesses, perdoe-m e o senhor, m as é... Quando se m arca um obj etivo, é preciso alcançá-lo; contra o vento e contra a m aré. Para quê, m ostrar que está ofendido? Isto acontece sem pre; o hom em é feito assim . O senhor não encontrará no m undo um ser que não ofenda outro.

« Que original é este Tchichikov!» , pensava Tentietnikov, perplexo, reprim ido pelas suas palavras.

« Que original é este Tentietnikov!» , dizia para si Tchichikov.

— André Ivanovitch, vou falar ao senhor com o a um irm ão. O senhor carece de experiência; deixe-m e tratar-lhe deste assunto. Am anhã irei visitar Sua Excelência e explicar-lhe-ei que a atitude do senhor provém de um erro, da sua ignorância do m undo e da vida.

— Não tenciono roj ar-m e diante dele — disse Tentietnikov, ofendido — e não poderia dar-lhe licença para isso.

— Eu sou incapaz de m e roj ar — replicou Tchichikov, ofendido por sua vez. — Posso com eter um a falta, com o é próprio do hom em ; m as um a baixeza, j am ais! Perdoe o senhor as m inhas boas intenções, André Ivanovitch; nunca esperei que as m inhas palavras fossem tom adas num sentido que tanto o m ortificou.

Tudo isto foi dito com um sentim ento de dignidade.

— Perdão! — apressou-se a dizer Tentietnikov, pegando-lhe nas m ãos. — Não o quis ofender. As suas intenções com overam -m e, j uro-lhe. Deixem os, porém , esta questão. Nunca m ais tornem os a falar nisto.

— Nesse caso, irei, apesar de tudo, ver o general.

— Para quê? — perguntou, perplexo, Tentietnikov, olhando-o nos olhos.

— Para lhe apresentar os m eus cum prim entos.

« Que original é este Tchichikov!» , pensou Tentietnikov.

« Que original é este Tentietnikov!» , pensou Tchichikov.

— Irei a sua casa am anhã, às dez, André Ivanovitch. Em m eu entender, quanto m ais depressa lhe apresentar cum prim entos, m elhor. Com o a m inha caleche ainda não está reparada, perm ita-m e o senhor que tom e de em préstim o a sua.

— Para quê esse pedido? O senhor, aqui, m anda. Tudo quanto há nesta casa, incluindo as carruagens, está à sua disposição.

Depois desta conversa, deram -se as boas noites e foram deitar-se, não sem m editar cada um deles nas m adurezas do outro.

Não obstante, coisa estranha!, na m anhã seguinte, depois de se ter engatado e de Tchichikov, com agilidade quase m ilitar, de sobrecasaca a gravata branca, ter subido para a caleche, a fim de apresentar cum prim entos ao general, Tentietnikov sentiu-se dom inado por um a agitação que não conhecia j á há m uito tem po. As suas ideias, de curso sonolento, deram lugar a um a atividade inquieta. Um a turbação febril se apoderou rapidam ente dos sentim entos daquele ser, até então indolente e apático. Estendeu-se num canapé; aproxim ou-se da j anela, pegou num livro e deixou-o para pensar. Trabalho perdido. Não podia coordenar as ideias. Esforçava-se por não pensar em nada. Vã tentativa. Fragm entos de ideias, rem iniscências vagas, surgiam de qualquer lado e insinuavam -se no seu espírito.

— É estranho o que sinto! — disse, aproxim ando-se da j anela, para ver a caleche que atravessava o azinhal. Um a nuvem de pó, que não tinha tido tem po de se dissipar, flutuava ainda a distância.

Mas deixem os Tentietnikov para seguir Tchichikov.