Almas Mortas
Primeira Parte
1
De par em par, abriu-se o portão de um a hospedaria de capital de distrito, para dar passagem a um a caleche de m olas, um desses cochezinhos usados por solteirões, com andantes e capitães de reserva, fazendeiros, donos de um a centena de servos, em sum a, todos os cham ados « nobres da classe m édia» . Na caleche vinha um cavalheiro, nem feio nem bonito, nem gordo nem m agro, nem velho nem novo. A sua chegada à cidade passou com pletam ente despercebida: apenas dois hom ens do povo, que estavam à porta de um a taberna, defronte da hospedaria, trocaram entre si olhares significativos, m ais referentes ao veículo que ao viaj ante.
— Repara nessa roda — disse um deles. — Em caso de necessidade, chegaria a Moscovo?
— Acho que sim — respondeu o outro.
— Mas até Kazan é que não aguentava...
— Isso é m ais que certo — foi a resposta.
A conversa ficou por aqui. Próxim o do hotel, a traquitana passou por um m ancebo, de calças de bom bazina branca, estreitas e curtas, com um fraque a arrem edar a m oda e um a gravata presa por um alfinete de bronze de Tulá em form a de pistola. Voltou-se o rapaz, contem plou o veículo, segurou o chapéu que am eaçava voar, e seguiu o seu cam inho.
Quando o cavalheiro chegou ao pátio, foi recebido por um criado tão expedito, tão m exido, que dificilm ente podiam distinguir-se-lhe as feições. Correu com um a toalha na m ão, encafuado num largo sobretudo de fustão que o cobria até acim a da nuca, sacudiu a gola de peles e conduziu o cavalheiro ao prim eiro andar, pela escada exterior, de m adeira, para indicar o aloj am ento que a Providência lhe destinava. O tal aloj am ento era vulgaríssim o, com o a própria hospedaria, sem elhante a todas as hospedarias de capital de distrito, nas quais, a dois rublos por dia, desfrutam os viaj antes um quarto sossegado, e onde, por todos os cantos, aparecem carochas gordas com o am eixas; com um a porta sem pre em bargada por um a cóm oda que se abre para o com partim ento contíguo, ocupado por outro hóspede, ávido de conhecer tudo o que se passa no aposento do vizinho. A fachada do hotel correspondia ao interior e estava dividida em dois andares. O prim eiro, pintado de am arelo, conform e o im utável costum e; o rés do chão, não rebocado, exibia ladrilhos cuj a prim itiva suj idade fora aum entando com as intem péries. Ocupavam -no tendas de correeiros, cordoeiros e padeiros. A da esquina, ou m elhor, um a das j anelas, dava asilo a um vendedor de hidrom el, possuidor de um sam ovar de cobre verm elho e de um a cabeça tão rubicunda que, se não fosse a sua barba de azeviche, tom ar-se-ia, de longe, por outro sam ovar.
Enquanto o viaj ante exam inava a casa, chegou a bagagem : prim eiro, um a m aleta de pele branca, algo estragada, cuj a viagem inicial não era aquela, certam ente; trouxeram -na o cocheiro Selifan, hom enzito com um a sam arra de carneiro, e o lacaio Petrushka, m oço de trinta anos, m etido num a avantaj ada sobrecasaca herdada de seu am o, de aspeto um tanto feroz, de nariz m uito grande e beiços grossos. Depois, transportaram um a caixa de acaj u, de tam anho m ediano, artisticam ente em butida de ébano de Carélia, em form a de bota e, por fim , um frango assado, em brulhado em papel azul. A seguir ao que, o cocheiro Selifan foi cuidar dos cavalos à estrebaria, enquanto o lacaio Petrushka se instalava na exígua antecâm ara, recinto escuro onde tinha deixado j á a sua capa, assim com o um cheiro m uito peculiar. Levou para aí um saco contendo os obj etos de seu uso particular, im pregnado tam bém do referido odor. Nesse cubículo arm ou, ao longo da parede, um a estreita j azida de três pernas, sobre a qual estendeu qualquer coisa que, de longe, se parecia com um enxergão, am assado e chato com o um a om elete, e que, à força de súplicas, tinha conseguido obter do dono da hospedaria.
Enquanto os criados se arranj avam , o am o dirigia-se à sala de visitas, fam iliar a todos os viaj antes. As m esm as paredes pintadas a óleo, enegrecidas pelo fum o na parte superior, suj as na inferior pelas costas dos fregueses e, sobretudo, pelos negociantes da região que, em grupos de seis ou sete, ali iam tom ar chá nos dias de feira; o m esm o teto defum ado; a m esm a aranha m ofosa cuj os com pactos bordados trem em de cada vez que o criado entra na sala, balanceando um a bandej a, na qual os copos se encostam uns aos outros com o gaivotas na praia; os m esm os quadros a óleo, ocupando todo o com prim ento da parede. Em sum a: o que se vê por toda a parte. A única particularidade era um a ninfa, com o peito de um a tão inverosím il opulência, que o bom leitor j am ais terá encontrado coisa assim . Este capricho da natureza encontra-se, por vezes, em certos quadros históricos trazidos para a Rússia, não se sabe quando nem por quem ; decerto pelos nossos ricaços am antes da arte, que os terão com prado na Itália, talvez por indicação dos seus guias.
O cavalheiro tirou o gorro e aliviou o pescoço da m anta de lã m ulticolor que o envolvia, um desses agasalhos que as m ulheres fazem para os m aridos, com sábias recom endações acerca do m odo com o devem trazê-las. Não as tendo nunca usado, ignoro em absoluto quem tom a esse cuidado em relação aos solteiros. Depois, o cavalheiro pediu de com er. Colocaram -lhe em frente a lista habitual das hospedarias: sopa de couves acom panhada de um a torta de m assa folhada, conservada, à cautela, desde há várias sem anas; m iolos guisados; salchichas; um frango assado; salada de pepino; e o sem piterno pastel de m arm elada, bom para todas as em ergências. Enquanto lhe serviam estes m anj ares, frios ou requentados, o cavalheiro interrogou o criado sobre toda a espécie de futilidades. Quanto rendia a pousada? A quem pertencia dantes? Era um grande velhaco o atual dono? Esta últim a pergunta confirm ou-a o m oço com a resposta da praxe:
— Oh, sim , senhor, é um pássaro de alto lá com ele!
Decididam ente, na Rússia, com o aliás em toda a Europa, pululam em nossos dias pessoas m uito respeitáveis que não podem desj ej uar na hospedaria sem entabular conversa e gracej ar com o criado. Além de que, o hóspede não perguntava senão coisas ociosas. Inteirou-se com m eticulosidade a respeito dos nom es do governador, do presidente do tribunal, do procurador, de todos os altos funcionários. Pediu porm enores ainda m ais concretos sobre os proprietários rurais dos arredores; quantos servos tinham , a que distância m oravam da cidade, se vinham a ela com frequência e qual era o seu feitio. Inform ou-se cuidadosam ente do estado da com arca; não teria sofrido algum a epidem ia, febre infeciosa, varíola ou outra doença do m esm o género? Todos os dados eram pedidos com tanta insistência, que revelaram algum a coisa m ais que sim ples curiosidade. Este cavalheiro tinha uns m odos desem baraçados; notava-se-lhe a particularidade de assoar-se com um ruído extraordinário; não sei com o arranj ava isso, m as o certo é que o seu nariz ressoava com o um a trom beta. Este porm enor, m uito inofensivo certam ente, valeu-lhe a decidida consideração do m oço que, a cada nova nota, sacudia a gola de peles, adotava um a atitude m ais respeitosa e, inclinada a cabeça com ar aristocrático, perguntava:
— O senhor desej a...?
Depois de com er, o viaj ante pediu um a xícara de café e afundou-se no sofá, com as costas apoiadas num alm ofadão, cheio, em lugar de crinas, de um a substância que dava a ideia de ladrilhos ou pedras, com o é costum e nas pousadas russas. Depressa com eçou a bocej ar e fez-se conduzir ao seu quarto, onde repousou um as boas duas horas. Depois de ter descansado, escreveu num bocado de papel, a pedido do criado, o seu nom e, apelido, graus, solícito em com unicá-los a quem de direito. Enquanto descia a escada, o m oço leu: Pavel Ivanovitch Tchichikov, proprietário rural, viajando para assuntos do seu interesse.
Não tinha ainda acabado de decifrar o bilhete e j á Pavel Ivanovitch Tchichikov em pessoa percorria a cidade, de que pareceu gostar, pois não a achou inferior a outras capitais de distrito. A cor am arela das casas de pedra surpreendia a vista, em contraste com a m odesta cor cinzenta das casas de m adeira. As construções consistiam num rés do chão, coroado às vezes por um andar e até por um a sobreloj a, a eterna mazzanine, tanto do gosto dos nossos arquitetos de província. Em certos sítios, estas casas pareciam perdidas entre um a rua larga com o um cam po e interm ináveis estacadas; por vezes, apertavam -se um as contra as outras e notava-se então m ais m ovim ento, m ais anim ação. Viam -se aqui e ali, m eio apagadas pela chuva, tabuletas representando rosquinhas, botas...; um a calças azuis indicavam o estabelecim ento de certo Alfaiate de Arsóvia; gorros e chapéus o arm azém de Vassili Fedorov, estrangeiro. Mais ao longe, um bilhar em torno do qual dois j ogadores, envergando am bos fraques sem elhantes aos dos convidados no quinto ato das nossas peças, apontavam , com os om bros ligeiram ente recuados, enquanto as pernas, afastadas, acabavam de dar um a cabriola. Na tabuleta liam -se estas palavras: Aqui está o estabelecimento. Noutros sítios, m esas arm adas em plena rua exibiam nozes, sabonetes, bolos de m el parecidos com pastilhas de sabão; noutros, um garfo, cravado no lom bo de um enorm e peixe, anunciava um a taberna. Sobretudo, encontravam -se águias bicéfalas, enegrecidas, ornam ento substituído hoj e em dia pela concisa inscrição: Casa de bebidas. O em pedrado era m au por toda a parte. O viaj ante lançou um a vista de olhos para o parque público, m eia dúzia de árvores raquíticas, am paradas por estacas pintadas de verde, de form a triangular. Estes arbustos tinham pouco m ais que a altura das canas; não obstante, os j ornais descreveram nestes term os a solene inauguração da praçazinha: « A solicitude do presidente do nosso m unicípio acaba de dotar a cidade com um j ardim , rico em árvores copadas e frondosas, cuj a som bra e frescura nos perm itirão ver com o palpitam de reconhecim ento os corações dos nossos cidadãos e com o brotam de seus olhos torrentes de lágrim as, em sinal de gratidão para com o senhor Gradonachalnik» .
Depois de ter sido inform ado, por um guarda, sobre o cam inho m ais curto para a igrej a, o tribunal e a casa do governador, o viaj ante foi contem plando o rio que corria através da cidade. Pelo cam inho arrancou um anúncio pregado a um a coluna, e guardou-o, para ler depois em casa, com todo o vagar. A sua atenção foi despertada por um a senhora bonitinha que seguia pelo passeio de m adeira, acom panhada de um pequeno lacaio com uniform e m ilitar e um em brulho na m ão. Depois de um a últim a olhadela para tudo aquilo, a fim de recordar bem a disposição dos lugares, regressou diretam ente ao seu quarto e trepou pela escada com a aj uda do m oço. Tom ou chá, sentou-se logo à m esa, pediu um a vela, tirou o anúncio do bolso, aproxim ou-se da luz e com eçou a lê-lo, com o olho direito m eio fechado. O tal anúncio nada tinha de interessante: falava de um dram a do senhor Kotzbu, em que o senhor Popliovin desem penhava o papel de Roll, e a senhora Ziablov o de Cora. Os restantes atores eram ainda m enos conhecidos. Apesar disso, leu todos os nom es, chegou ao preço das poltronas da plateia e até notou que o anúncio provinha da Im prensa Oficial; depois, virou-o e exam inou-o pelo lado de trás, m as, não descobrindo aí nada, esfregou os olhos, dobrou o papel e guardou-o no cofrezinho em que costum ava arrecadar tudo o que lhe vinha às m ãos. Pelo visto, dava por term inado o seu dia, com endo um a ração de vitela, regada com um a garrafa de m olho ferm entado, e dali a bocado dorm ia trovej ando com o nariz, com o se diz em certos pontos do vasto im pério russo.
A m anhã seguinte foi inteiram ente consagrada a visitas. O viaj ante cum prim entou todas as autoridades m unicipais. Prim eiro, apresentou os seus respeitos ao governador que, com o Tchichikov, nem era m agro nem gordo; ostentava o colar da cruz de Santa Ana, e até se dizia que estava proposto para o grande cordão com estrelas. Além disso, era um bom hom em que, no seu tem po, não desdenhava bordar em tule.
Depois, foi a casa do vice-governador, do procurador, do presidente do tribunal, do chefe da polícia, do arrendatário da aguardente, do diretor das m anufaturas do Estado, etc. Infelizm ente, é m uito difícil lem brarm o-nos de todos os poderosos deste m undo. Basta dizer que Tchichikov desenvolveu um a atividade inusitada pelo que respeita a visitas, até o ponto de apresentar as suas hom enagens ao inspetor dos serviços de saúde e ao arquiteto m unicipal. Term inadas elas, perm aneceu algum tem po no seu coche, pensativo, procurando em vão descobrir outro funcionário na cidade. Ao conversar com cada um destes detentores do poder, soube-os adular com refinada habilidade. Deu a entender ao governador que entrar na sua província era penetrar no paraíso; os cam inhos eram suaves com o terciopelo e os m inistros que nom eavam tais funcionários m ereciam os m aiores elogios. Ao chefe da polícia insinuou algum as lisonj eiras palavras acerca da boa apresentação dos guardas. Enganou-se propositadam ente, dando duas vezes Excelência ao vice-governador e ao presidente do tribunal. Estes sim ples conselheiros de Estado m ostravam -se extrem am ente confundidos. O governador convidou-o para um sarau fam iliar e os dem ais funcionários fizeram convite idêntico, uns para com er, outros para um a partida de boston, outros para tom ar chá.
O viaj ante só com extrem a m odéstia falava de si-próprio, em pregando lugares com uns e dando às suas frases um tom livresco. « Um insignificante gusano da terra, com o ele, não m erecia ocupar a sua atenção. Durante a sua existência, subm etera-se a m uitas provas: em pregado público, a sua retidão havia-lhe granj eado m uitos inim igos, alguns dos quais tinham até chegado a atentar contra a sua vida. Atualm ente, procurava um retiro sossegado e, ao passar por aquela cidade, im pusera-se-lhe o dever de apresentar as suas hom enagens às m ais altas autoridades» .
Isto foi tudo quanto se soube do recém -chegado, o qual, para principiar desde logo, não deixou de assistir ao sarau do governador. Preparou-se para ele durante duas horas, pouco m ais ou m enos, procurando, no seu arranj o, um esm ero pouco vulgar. Após um a breve sesta, pediu com que lavar-se, e friccionou largo tem po as faces, inflando-as com a aj uda da língua para m elhor as poder ensaboar. Pegou, em seguida, na toalha que estava sobre um dos om bros do m oço e, depois de lhe ter soprado duas vezes em pleno rosto, enxugou cuidadosam ente, a partir das orelhas, a refrescada cara.
Em seguida, aj eitou a gravata diante do espelho, arrancou dois pelos que lhe saíam do nariz e vestiu um a sobrecasaca de cor violeta-m osqueada.
Um a vez instalado na caleche, fê-la seguir pelas com pridas ruas que pareciam não ter fim , alum iadas, de longe em longe, pela débil claridade que se escapava de algum a j anela. Em com pensação, o palácio do governador estava ilum inado com o para um baile: coches com faróis acesos; dois vadios diante da porta, gritos de cocheiros ao longe; nada faltava na festa. Ao entrar na grande sala inundada de luz, Tchichikov teve de fechar os olhos, por instantes, deslum brado pelo ofuscante brilho das velas, das lâm padas e dos vestidos. Os fraques negros revoluteavam aqui e ali, com o m oscas sobre o torrão de açúcar, que, num quente dia de j ulho, um a velha despenseira parte em bocadinhos, no peitoril de um a j anela aberta. Os m eninos que a rodeiam , gulosos, acom panham os m ovim entos do nodoso braço que levanta o m artelo, enquanto um enxam e de m oscas, ora dispersas, ora em grupos com pactos, voam ligeiras no ar, lançando-se, atrevidas, sobre os bocados do açúcar, de cum plicidade com o sol que cega a velha, de vista debilitada. Em panturradas pelo saboroso m anj ar que lhes prodigaliza a cada passo o opulento estio, pensam m enos em com er que em m anifestar-se, passando por cim a do açúcar, friccionando as patas um as contra as outras, coçam -se debaixo das asas, prendem a cabeça com as patas dianteiras estendidas e voam , por fim , para voltar ao m esm o ponto, em novos e im portantes esquadrões.
Tchichikov nem teve tem po de reparar que j á o governador lhe tom ava o braço e o apresentava naquele m om ento a sua esposa. Um a vez m ais o viaj ante deu provas de boa educação: fez um cum prim ento m uito apropriado às circunstâncias, tal com o se podia esperar de um hom em de certa idade e da classe m édia. Quando com eçou o baile e toda a gente teve de alinhar-se ao longo da parede para ceder espaço aos que dançavam , Tchichikov, com os braços cruzados atrás das costas, observou dois largos m inutos os pares que passavam diante dele. Muitas senhoras estavam elegantem ente vestidas, m as havia outras enfarpeladas à m oda provinciana. Os hom ens, com o em toda a parte, dividiam -se em duas categorias. Os m agros cortej avam o belo sexo. Alguns lem bravam , ao ponto de se confundirem com eles, os enfatuados de S. Petersburgo: com o eles, usavam suíças penteadas com arte ou m ostravam o rosto recentem ente barbeado; com o eles, afetavam com as dam as m odos desenvoltos e conversavam com elas em francês até fazê-las, por vezes, ruborizar. Os da outra categoria, ou sej a os gordos ou os que, com o Tchichikov, nem eram gordos nem m agros, preocupavam -se pouco com galantarias e espreitavam a todo o m om ento a chegada do criado encarregado de preparar as m esas do whist, forradas de pano verde. Estes senhores apresentavam caras cheias, de feições arredondadas, com m arcas de verrugas ou picadas de bexigas. Não exibiam penteados de poupa nem cabelos encaracolados, m as cortados à escovinha ou colados às fontes. Eram os m ais respeitáveis funcionários da cidade. Nesta sociedade m édia — ai! — os gordos arranj am -se m elhor que os m agros quando se trata dos seus interesses. Frequentem ente, estes são supranum erários e apenas lhes entregam funções sem responsabilidade; agitam -se de um lado para o outro; a sua existência é inconsistente e precária. Os gordos, pelo contrário, pavoneiam -se em em pregos confortáveis; o lugar é bom c agarram -se a ele; dobram talvez, com o seu peso; m as não o largam . Nada sacrificam pela aparência; se a sobrecasaca não é de corte tão elegante com o a dos m agros, o seu gorro está m elhor guarnecido. Ao cabo de três anos, o m agro apenas tem um servo a quem m andar, e m esm o esse em penhado até às orelhas; durante este tem po, o gordo, sem se preocupar com nada, com pra regaladam ente, em nom e da sua m ulher, um a casa no extrem o da cidade; a seguir, outra no extrem o oposto; depois, um a aldeia e, por fim , um a povoação vizinha, com todas as suas casas. Realizado isto, o gordo, depois de ter servido bem a Deus e ao Im perador, recolhe às suas terras, onde tem m esa posta e leva a esplêndida vida de senhor da povoação, de um típico varão russo. Mas depressa os seus m agros herdeiros — caso corrente na Rússia — cogitam na m aneira de desbaratar o patrim ónio.
Declarem os que, pouco m ais ou m enos, eram estes os raciocínios de Tchichikov ao contem plar a assem bleia; e acabou por j untar-se aos gordos. Entre eles encontrou caras conhecidas: o procurador, sério, taciturno, de espessas sobrancelhas negras, cuj o olho esquerdo, piscando ligeiram ente, parecia insinuar « passem os à sala próxim a; tenho um a palavra a dizer-te, am iguinho» ; o diretor do Correio, atarracado, hom enzinho espirituoso e filósofo; o presidente do tribunal, m uito j udicioso e am ável. Todos acolheram Tchichikov, com o um velho am igo; este correspondia aos cum prim entos com um a saudação não desprovida de graça. Então, apresentaram -lhe os gentis-hom ens cam poneses; o m uito cortês e m uito afável Manilov e o alentado Sobakevich que, logo no prim eiro m om ento, lhe pisou um pé, dizendo: « Perdão!»
Em seguida, convidaram -no para um a partida de whist, entregando-lhe com um a vénia, a prim eira carta, que ele aceitou com igual cortesia. Os cavalheiros instalaram -se diante das m esas verdes e j á não arredaram dali até a hora de cear. Todas as conversas tinham acabado, com o sucede quando um a pessoa se dedica a um a ocupação im portante. Se bem que m uito loquaz, o diretor dos Correios, um a vez com as cartas na m ão, adotou um sem blante pensativo, m ordiscou os lábios e conservou esta atitude até o fim da partida. Quando j ogava um a figura, atirava um soco valente na m esa, dizendo, se era um a dam a: « Para a frente, velha sacerdotisa!» Se era um rei: « Eh, mujik de Tam bov!» , ao que o presidente do tribunal replicava: « Pois j á lhe parto os narizes» . Às vezes, ao tirar nervosam ente as cartas, os j ogadores exclam avam : « Adivinhe quem puder, eu cá atiro-m e de cabeça para baixo!» ou anunciavam sim plesm ente as cores, sob as denom inações usadas na sociedade.
Term inada a partida, sobreveio, com o de costum e, um a viva discussão. O nosso viaj ante tom ou parte nela; m as com um tato e um a urbanidade que saltavam à vista. Ele não dizia: « O senhor j ogou tal ou tal carta...» , m as « O senhor dignou-se j ogar... Eu tive a honra de cortar o seu duque» , etc. Com o fim de tornar as suas palavras m ais persuasivas, oferecia aos seus opositores a tabaqueira de prata esm altada que duas violetas perfum avam . Os proprietários Manilov e Sobakevich cativaram , entre todos, a sua atenção. Cham ando de parte o diretor dos Correios, teve com este funcionário um a rápida conversa a respeito deles. A linha com que procedia denotava um espírito curioso e um j uízo sólido. Não se interessou pelos nom es e apelidos dos proprietários senão depois de se ter inform ado do núm ero de pessoas que tinham ao seu serviço e da sua situação financeira. Depois, rapidam ente conquistou a sim patia dos dois fidalgos. Manilov, hom em ainda não envelhecido de todo, cuj os olhos, doces com o açúcar, piscavam de cada vez que se ria, afeiçoou-se ao viaj ante até perder o siso. Apertou-lhe a m ão com força e suplicou-lhe que o honrasse com um a visita à sua propriedade, a um a distância de quinze verstas, pouco m ais ou m enos. Tchichikov agradeceu, inclinando-se cortesm ente e correspondendo com um cordial aperto de m ão, e afirm ou-lhe que considerava com o o dever m ais sagrado aceitar aquele convite. Sobakevich, por sua vez, disse-lhe com uns m odos lacónicos: « Venha tam bém ver-m e, o senhor!» fazendo ranger as suas botas de gigante que, sem dúvida, nenhum outro poderia ter calçado, dado que vai desaparecendo na Rússia a raça dos Hércules.
No dia seguinte, Tchichikov foi alm oçar e passar a tarde a casa do chefe da polícia, onde se j ogou o whist sem interrupção, depois da sobrem esa, desde as três da tarde até às duas da m adrugada. Ali encontrou outro proprietário cham ado Nozdriov, um bom hom em de um a trintena de anos, que, depois de duas ou três frases, com eçou a tratá-lo por « tu» . Nozdriov tratava tam bém por « tu» o chefe da polícia e o procurador, com quem parecia estar nas m elhores relações; porém , quando com eçou a j ogar-se forte, aqueles senhores observavam atentam ente as suas paradas, exam inando quase todas as cartas que saíam do baralho. Ao outro, dia, Tchichikov passou a tarde em casa do presidente do tribunal, que recebeu os seus convidados, entre eles duas senhoras, com um traj o caseiro de duvidosa lim peza. Depois foi convidado para um serão em casa do vice-governador, para um j antar na do arrendatário das aguardentes, para um lanche — que valia por um a refeição — em casa do procurador; para um a sobrem esa na do adm inistrador m unicipal.
Em resum o: não perm anecia um a hora no quarto e só regressava ao hotel para dorm ir. Além de que, revelou-se um hom em da sociedade, sabendo sem pre e em qualquer parte sustentar um a conversa. Tratava-se de m anadas de éguas? Pois falava de éguas. Falava-se de cães? Pois em itia algum as j udiciosas considerações. Tratava-se de um inquérito feito pelo Tribunal Pleno? Ele m ostrava-se ao corrente dos pecados de dona Justiça. Discutia-se sobre o bilhar ou sobre o punch? Ele dem onstrava conhecer o bilhar e o punch. Se da virtude, discorria com as lágrim as nos olhos; se de alfândegas, tratava do caso com o pessoa versada em assuntos aduaneiros. Coisa notável! Falava sem pre com um a certa gravidade e em pregava sem pre o tom adequado. Num a palavra: em toda a parte era o seu lugar; a sua chegada encheu de alegria todos os funcionários. O governador cham ou-lhe « hom em bem intencionado» ; o procurador « um hom em capaz» ; o coronel dos gendarm es « hom em sábio» ; o presidente do tribunal « um hom em instruído e respeitável» ; o chefe da polícia « um hom em digno e am ável» ; a m ulher deste « o m ais am ável e o m ais cortês dos hom ens» . O próprio Sobakevich — que raram ente em itia j uízos favoráveis — ao regressar, j á m uito tarde, da cidade, disse, quando se deitou j unto da sua extenuada esposa:
— Sabes, coração m eu: j antei em casa do chefe da polícia, passei o serão em casa do governador e lá conheci um tal Pavel Ivanovitch Tchichikov, conselheiro de m inistério. Que rapaz encantador!
Ao que respondeu a esposa:
— Hum ! — E em purrou-o com um pé.
Esta opinião, em extrem o lisonj eira para o recém -chegado, m anteve-se até ao dia em que um raro capricho do viaj ante e um a aventura ou lance que o leitor conhecerá em breve lançaram a estupefação em quase toda a cidade.