Almas Mortas
Capítulo 11
Todavia, nada se passou conform e as previsões de Tchichikov. Prim eira contrariedade — despertou m ais tarde do que pensava; levantou-se logo, m andou perguntar se j á estava atrelada a caleche; responderam -lhe, porém — segunda contrariedade — que não se fizera o m enor preparativo. De m uito m au hum or, dispunha-se a dar um forte safanão ao nosso am igo Selifan, im paciente por conhecer o m otivo que este alegaria para se j ustificar. Im ediatam ente se apresentou Selifan; e o seu patrão experim entou a alegria de ouvir as palavras que geralm ente dizem os criados, quando se tem pressa de seguir.
— Mas, Pavel Ivanovitch, é preciso prim eiro ferrar os cavalos...
— Ah, patife! Por que não o disseste antes? Com certeza, não tiveste tem po!
— Certam ente, tive tem po... E, além disso, é preciso cuidar das rodas, Pavel Ivanovitch; há que substituir os aros, pois os cam inhos estão agora escalavrados. Outra observação, com licença: a dianteira do coche j á não se aguenta; quando m uito, resistirá um par de etapas.
— És um refinadíssim o m alandro! — exclam ou Tchichikov, cerrando os punhos. E aproxim ou-se tanto de Selifan, que este, com m edo de receber um a carícia, retrocedeu dois passos.
— O que tu desej as é a m inha m orte, hein? Queres ver-m e aniquilado? Pensas assassinar-m e na estrada real, bandido, m onstro, desavergonhado! Há três sem anas que estam os aqui, e não m e disseste um a palavra, m iserável! Esperaste até o últim o m om ento, quando eu pensava não ter senão que subir para o coche! Isto é um a vilania das tuas! Não o sabias j á? Responde! Não sabias?
— Sim , sabia! — confessou Selifan, baixando a cabeça.
— Então por que não m o disseste?
Selifan deixou sem resposta esta pergunta. Inclinando a cabeça, parecia dizer a si próprio: « Que engraçado isto é! Sabia e não disse nada!»
— Vai cham ar um ferreiro, e que tudo fique pronto em duas horas. Ouves? Em duas horas, sem falta! Se não, terás de haver-te com igo. Am arro-te com o um a salsicha.
Selifan, que se dirigia para a porta, a fim de executar a ordem , deteve-se e disse:
— O senhor devia vender o Picaço. Esse cavalo é um a verdadeira m iséria! Não serve para nada e só nos causará arrelias pelo cam inho.
— Está bem ! Eu vou j á vendê-lo ao m ercado!
— Palavra, Pavel Ivanovitch, que só tem apresentação. Afirm o ao senhor que é m anhoso com o nenhum outro.
— Im becil! hei de vendê-lo, quando m uito bem entender. Ainda te perm ites discutir! Espera aí um pouco. Se não m e trazes j á dois ferreiros e se isto não está pronto dentro de duas horas, ferro-te um a sova, que nem ficas a conhecer a tua casa. Vam os! Rua! Já és aqui dem ais!
Tchichikov, m uito irritado, atirou para o chão a espada que trazia, para inspirar um m edo salutar a quem o visse. Discutiu m ais de um quarto de hora, antes de chegar a acordo com os ferreiros, autênticos larápios, com o de costum e. Percebendo que o trabalho exigia a m aior urgência, pediram o sêxtuplo do que era razoável. Por m ais que se esforçasse e os acoim asse de gatunos, bandidos que saqueiam os viaj antes, e lhes falasse do dia de Juízo, os ferreiros fizeram ouvidos de m ercador e m ostraram -se inflexíveis. Não só m antiveram as suas condições, m as até gastaram cinco horas e m eia num trabalho que requeria duas.
Durante este tem po, o nosso herói teve a satisfação de saborear os m inutos bem conhecidos dos viaj antes, quando tudo está em pacotado, só há nos com partim entos trapos e papéis e, sem ter partido ainda, j á nenhum a pessoa está em sua casa. Pela j anela, veem -se passar os transeuntes que falam dos seus pequenos negócios, que levantam os olhos e seguem o seu cam inho, depois de nos exam inarem com estúpida curiosidade, o que aum enta a arrelia do infeliz viaj ante. Tudo quanto este consegue ver — a tenda da frente, a cabeça de um a velha que m ora na casa vizinha e que se aproxim a da j anela, de pequenas cortinas — tudo lhe aborrece; e, no entanto, continua ali. Ou sonhando ou prestando um a vaga atenção a quanto se m ove ou ergue diante dos seus olhos, esm aga, por despeito, um a m osca que zum be e que esbarra contra os vidros, ao alcance da sua m ão.
Mas tudo tem fim , e chega o m inuto tão esperado. Estava tudo pronto; havia-se reparado a dianteira da carruagem , substituído os aros das rodas, dado de beber aos cavalos, e os bandidos dos ferreiros tinham -se j á retirado, depois de contarem e recontarem os rublos recebidos e de desej arem boa viagem . Atrelado o coche, puseram -se nele dois pães frescos (Selifan ocultara j á, para ele, algum as petisqueiras na caixa da boleia) e, entre os costum ados incidentes, próprios de casos tais, instalou-se o patrão na caleche, sob o olhar do criado, sem pre com o seu capote, que agitava o gorro no m eio de um grupo de lacaios e cocheiros, chegados para presenciar a partida. Então, o coche do celibatário, tanto tem po m etido na cidade, que talvez j á aborreça o leitor, franqueou, por fim , o portão da hospedaria!
« Louvado sej a Deus!» , pensou Tchichikov, benzendo-se. Selifan fez estalar o chicote. Petrushka, saltando logo para o estribo, tom ou assento a seu lado. O nosso herói, refestelado sobre o tapete de Geórgia que cobria as provisões, pôs atrás dos rins um a alm ofada de couro, am achucando os pães, e novam ente se viram todos aos saltos e aos tom bos de que a estrada se m ostrava pródiga. Distraidam ente, ia contem plando as casas, as paredes, os valados que se afastavam lentam ente, parecendo saltar tam bém , e que, talvez, não tornasse m ais a ver em toda a sua vida. Ao voltar para um a rua, obstruída em toda a sua extensão por um enterro, debruçando-se, ordenou a Petrushka que fosse saber quem tinha m orrido e soube que se tratava do procurador. Desagradavelm ente im pressionado, encolheu-se a um canto, em brulhando-se no cobertor de couro, e cerrou as cortinas.
Enquanto o veículo esteve parado, Selifan e Petrushka, piedosam ente descobertos, exam inaram o desfile, as indum entárias das pessoas que nele seguiam , calculando o núm ero dos que iam a pé ou de carro. O patrão recom endou-lhes que se não m ostrassem nem saudassem os lacaios conhecidos e pôs-se a olhar tim idam ente, através das vidraças providas de cortinados de couro. Todos os funcionários, de cabeça descoberta, seguiam atrás do féretro. Um m om ento, receou ser reconhecido; aqueles senhores, porém , tinham m uitas outras preocupações. Não trocavam entre si nem ao m enos as frases de fam iliaridade que é costum e trocarem os que acom panham um enterro. Todos os seus pensam entos estavam concentrados neles próprios. Perguntavam -se que espécie de hom em seria o nosso governador geral e que acolhim ento ele lhes dispensaria. Depois, iam os coches com as senhoras vestidas de luto. Pelo m ovim ento dos seus lábios e dos seus braços, via-se que falavam com anim ação; talvez bisbilhotassem tam bém sobre a chegada do novo governador, fazendo cálculos acerca dos bailes que daria e ocupando-se dos seus adornos e laçarotes. Alguns carros vazios, em fila, fechavam o cortej o.
Novam ente desocupada a rua, o nosso herói pôde continuar a sua m archa. Descerrou as cortinas, suspirou, e disse, com pungido: « Chegou a hora do procurador. Este foi o cam inho por onde ele passou a últim a vez. Nos j ornais há de anunciar-se a m orte de um honrado cidadão, pranteado pelos seus subordinados e pela hum anidade inteira, m odelo de m aridos e pais, etc., etc. ... Acrescentar-se-á que o acom panhavam as lágrim as da viúva e dos órfãos. Exam inando, porém , as coisas de perto, o seu único m érito consistia em ter as sobrancelhas m uito espessas» .
Então, ordenou a Selifan que estugasse o passo, sem deixar de pensar: « Bom . Não m e desagrada ter passado por um enterro. Dizem que dá boa sorte» .
A caleche, entretanto, penetrava j á nas ruas m ais desertas. Viam -se, apenas, com pridas paliçadas que anunciavam o term o da cidade. Deixou-se o em pedrado para rodar de novo pela estrada. E outra vez apareceram os postes quilom étricos, tabernas, poços, estrebarias. Hum ildes lugarej os com os seus sam ovares, as suas bondosas m ulheres, hospedeiros espiões e barbudos que acudiam com um a provisão de aveia. Cam inhos cuj as oitocentas verstas tinham rom pido botas cardadas; povoações construídas à pressa e a correr, com as suas tendazinhas de m adeira, tonéis de farinha, calçado de cortiça, pão fresco e outras m iudezas; grades pintalgadas, pontes reconstruídas, cam pos a perder de vista, fidalgotes e carroças velhas; um soldado a cavalo, levando um a caixa verde, cheia de alim paduras, com o dístico: Nova bateria de artilharia; faixas verdes e am arelas sobressaindo na planície sobre o negro das lavouras; pinheiros, nos cum es perdidos entre as brum as; o eco de um a canção ou de um a coleira de guizos, bandos de corvos e o horizonte sem lim ites...
Oh, Rússia, Rússia! Das paragens m aravilhosas em que resido, vej o-te, pobre terra, inóspita e rude, em que nenhum a m aravilha artística se j unta às da natureza para alegrar ou fazer pasm ar os olhos. Em vão se procuram em ti essas m ansões com palácios suspensos sobre precipícios; esses prédios tapetados de hera, onde, entre o ruído de espessas cascatas, crescem árvores pitorescas. Não há que voltar a cabeça para contem plar blocos de pedra am ontoados a um a altura vertiginosa; não se veem , através de um a fileira de arcos tisnados em que se entrelaçam pâm panos, heras e roseiras bravas, resplandecer ao longe as linhas im utáveis das m ontanhas que se recortam no céu prateado. A solidão na uniform idade; é isto o que ofereces em qualquer parte; pontos im percetíveis, as tuas casas acaçapadas confundem -se com a planura. Mas que secreta força m e arrasta para ti? Por que ressoa continuam ente nos m eus ouvidos a lastim osa canção que, de um m ar ao outro, vibra por toda a parte sobre a vasta im ensidade? Que quer dizer este soluçante apelo que nos rouba a alm a? Que sussurros penetram , com o um a carícia dolorosa, no m eu coração e o em polgam incessantem ente? Rússia, que pretendes de m im ? Que laço incom preensível nos liga um ao outro? Que tens, para m e olhar dessa m aneira? Por que é que tudo quanto encerras se volta para m im com os olhos cheios de esperança?... Quando, cheio de hesitação, perm aneço im óvel, um negrum e am eaçador, prestes a desfazer-se em chuva, escurece sobre m im o céu, e o m eu pensam ento fica m udo em presença da sua im ensidade. Que pressagia esta incom ensurável extensão? Sendo ilim itada, por que não darás à luz um génio tão vasto com o tu? Não estás predestinada a engendrar heróis, tu que lhes ofereces tanto espaço para correr? A tua potente enorm idade enche-m e de entusiasm o, perturba-rae até o m ais profundo do m eu ser, um a força sobrenatural abre os m eus olhos... Oh, Rússia! País dos deslum bram entos e sublim es horizontes, desconhecidos do resto da hum anidade...
— Cuidado! Cuidado, im becil! — gritou Tchichikov a Selifan.
— Queres levar um a espadeirada? — ululou um correio de com pridos bigodes, galopando ao encontro dos nossos viaj antes. — Que os lobos te com am ! Não podes afastar-te para um lado, para deixar passar quem vai em serviço oficial?
E entre pó e com estrépito, passou um a carruagem , que se desvaneceu com o um a visão.
Que estranho feitiço, que fascinação exerce a palavra viagem ! E que m agra, a da própria viagem ! Tem po am eno, folhas de outono, ar lavado... Envolve-se um a pessoa, friorenta, no seu agasalho; enterra o gorro até as orelhas; agacha-se a um canto do carro. O calafrio que há m om entos percorria os nossos m em bros transform ou-se num calor suave. Galopam os cavalos... Um a agradável sonolência nos invade, as pálpebras cerram -se; ouve-se, com o entre sonhos, a cantiga do postilhão, o barulho das rodas, o arquej ar dos cavalos — e j á ressonam os, encostados ao om bro do vizinho.
Percorridos cinco acidentes de terreno, despertam os à luz da lua num a cidade desconhecida. Avistam -se igrej as de cúpulas antigas e agulhas enegrecidas; casas de m adeira, com pletam ente negras; casas de pedra, absolutam ente brancas. Um raio da lua com o que desenha lenços, nas paredes e no em pedrado; em alguns pontos, cortam -nos som bras retilíneas. Ilum inados obliquam ente, os tetos de m adeira brilham com cintilações m etálicas; nem vivalm a; tudo dorm e. Apenas um a solitária claridade brilha num a ou noutra j anela; talvez um sapateiro, atarefado, cosendo um par de botas, ou um padeiro entregue à sua fornada. Que im porta? E que noite, potências divinas, que noite serena no firm am ento! E o ar, o céu longínquo, que se estende na sua profundidade inacessível, na sua im ensidão sonora e clara!... Mas o hálito glacial da noite sopra -nos o rosto, em bala-nos, e nós adorm ecem os e com eçam os a ressonar — e o infortunado vizinho, im pelido para o canto, agita-se, m al disposto, sentindo um fardo sobre si.
Ao despertar, cam pos e estepes novam ente, um a região deserta em que não existe nada. Um poste quilom étrico ergue-se diante dos nossos olhos; desponta a m anhã; um a faixa de ouro pálido surge no horizonte esbranquiçado; torna-se m ais áspero o vento; aconchegam o-nos bem ao nosso agasalho!... Que delicioso frio!... Entrou-se no reino dos sonhos. Um a sacudidela volta a despertar-nos. O sol j á vai alto. « Devagar! devagar!» grita um a voz. O coche desce um a rápida ladeira; lá em baixo, um potente dique e um tanque extenso que brilha ao sol com o um açafate de cobre; os casebres de um a aldeia espalham -se pelo outeiro; a cruz de um a igrej a cintila com o um a estrela; conversam os cam poneses; sente-se um apetite feroz. Deus m eu! Com o é bom , às vezes, em preender um a larga viagem ! Quantas vezes, ó cam inho!, m e serviste, com o a um hom em que se afoga, de tábua de salvação. Que form osos pensam entos, que sonhos poéticos m e tens inspirado! Que divinas im pressões experim entei, percorrendo-te!...
O nosso Tchichikov tam bém debulhava sonhos, não de todo prosaicos. Vej am os algo do que ele sentia. A princípio, nada, lim itando-se a olhar para trás, a fim de convencer-se de que tinha abandonado a cidade; quando, porém , verificou que ela j á desaparecera, assim com o as oficinas de ferreiro, os m oinhos e outros ornamentos dos aldeões, e que nem sequer se via agora qualquer das torres das igrej as, pôs-se a contem plar a paisagem . A cidade de N... parecia então apagar-se na sua m em ória, com o se lá não tivesse posto os pés, desde a sua infância. Por fim , o cam inho deixou de interessá-lo; fechou os olhos e reclinou-se sobre o alm ofadão. O autor felicita-se por esta circunstância, e confessa-o, pois isto lhe dará ocasião para falar do seu herói. Até agora, com o viu o leitor, foi-lhe im possível fazê-lo, por o ter im pedido, j á Nozdriov, j á os bailes, j á as senhoras, j á as m urm urações, j á, enfim , os m il e um porm enores que parecem insignificantes, um a vez consignados num livro, m as aos quais se dá no m undo um a enorm e im portância. E agora, deixando todos os outros, falem os do nosso hom em .
É m uito duvidoso que o herói por nós escolhido agrade a toda a gente. Desagradará às senhoras, pode afirm ar-se, pois elas exigem que o herói sej a a perfeição absoluta; e, se tem a m enor tara física ou m oral, acabou-se! Por m ais que o autor lhe sonde a alm a e faça refletir a sua im agem tão fielm ente com o um espelho, negar-se-lhe-á todo o m érito. A obesidade incipiente e a m eia idade de Tchichikov prej udicaram -no m uito. Não se perdoa nunca a um herói ser gordo, e num erosas dam as voltarão a cabeça, dizendo: « Ih, que feio!» Tudo isto sabe-o m uito bem o autor; e, não obstante, não pode escolher para herói um hom em virtuoso. Todavia... é possível que, m esm o nesta história, se sintam vibrar cordas até aqui desconhecidas; que se vej a aparecer a potência do espírito russo, um hom em de alto valor ou um a adm irável j ovem russa, cuj o par não se encontrasse no m undo, com a alm a cintilante de um a beleza divina, plena de nobres aspirações e ardendo por m anifestar-se. E, ao lado deles, todos os virtuosos das restantes nações parecerão m ortos, com o está m orto um livro ao lado da palavra falada. A riqueza m oral da natureza russa m anifestar-se-á... e ver-se-á quão arreigada está na alm a eslava, quando não fez m ais que resvalar pela de outros povos... Mas, para que falar do que está em perspetiva? Não convém ao autor, hom em m aduro, educado por um a rude vida interior e bloqueado pela solidão, entregar-se com o um rapaz. Cada coisa a seu tem po e no seu lugar.
Não, o hom em virtuoso não foi escolhido para herói. Até se pode indicar a razão disso. Porque j á é tem po, enfim , de dar descanso a este desventurado; porque, venha ou não venha a propósito, não caem dos lábios estas palavras: um homem virtuoso; porque delas se fez um a m ontada em que todo o escritor cavalga; porque se extenuou o hom em virtuoso até o ponto de j á não ter som bra de virtude, não lhe restando m ais que a pele e os ossos; porque se invoca hipocritam ente o hom em virtuoso, sem ter por ele a m enor consideração. Não, j á são horas de tom arm os por assunto um m aroto. Tom em os, pois, por assunto um m aroto.
A origem do nosso herói é obscura e m odesta. Os seus pais pertenciam à nobreza — hereditária ou pessoal, só Deus o sabe! Não se parecia com eles, fisicam ente; pelo m enos, um a parenta que assistia à sua entrada no m undo, um a dessas anãs populares na Rússia, tom ando o m enino nos braços, exclam ou: « Não é precisam ente o que eu esperava! Deveria ter alguns traços da avó m aterna; isso valeria m ais que parecer-se com o prim eiro recém -chegado; em todo o caso não se parece com os pais!» .
A vida, a princípio, encarou-o com um gesto avinagrado, com o através de um a turva claraboia, velada pela neve. Um pequeno quarto com j anelinhas que perm aneciam fechadas, tanto de inverno com o de verão; um pai de com pleição enferm iça, com largo capote forrado de astracã e calçado com escarpins, que suspirava sem cessar, percorrendo a casa, e que expetorava num vaso cheio de areia, posto a um canto. Largas perm anências num banco, com a pena na m ão e tinta nos dedos e até nos lábios. Via sem pre diante dos olhos a inscrição: « Não m intas. Reverencia as altas personagens e leva no teu coração a virtude» . Não parava o chinelar dos sapatos no soalho, e um a voz fam iliar, m as invariavelm ente resm ungona, dizia: « Sem pre tunanteadas!» quando o m enino, enfastiado pela m onotonia do seu trabalho, tinha acrescentado algum floreio às letras, a que se seguia a m uito dolorosa e bem conhecida sensação no relevo da orelha, m ordiscado pelas unhas de com pridos dedos aduncos. Este é o triste quadro da sua prim eira infância, da qual não conservava m ais que um a pálida recordação.
Tudo, porém , m uda rapidam ente na vida.
No prim eiro dia bonito da prim avera, depois do desgelo, o pai levou o m enino num a carripana puxada por um garrano; um desses cavalos baios, com testa branca, a que os nossos negociantes de gado cham am pegas; o cocheiro era um m arreca, chefe da única fam ília de servos que pertencia ao pai de Tchichikov e que na casa servia para tudo. A viagem foi longa. Dorm iram pelo cam inho, atravessaram o rio, alim entaram -se com um em padão frio e um pedaço de carneiro, e só dois dias depois, pela m anhã, chegaram à cidade. O pequeno ficou surpreendido com a beleza das ruas e perm aneceu algum tem po com a boca aberta. Meteram em seguida o cavalo, m ais o coche, por um despenhadeiro, onde com eçava um a estreita viela, íngrem e, cheia de lam a; por ali pateou largo tem po, estim ulado pelo corcunda e pelo próprio am o, conduzindo-os por fim a um curralzinho, a m eio da calçada. Duas m acieiras floresciam diante de um a velha casa; por detrás, um j ardinzinho, constituído som ente por sorvas de sabugueiros, ocultava um a cabana coberta com velhas tábuas e com um a claraboia de vidro esm erilado. Ali vivia a sua parenta, um a velha m agrizela que ainda ia ao m ercado todas as m anhãs e secava depois as m eias no sam ovar. Deu ao m enino algum as palm adinhas na cara e adm irou a sua gordura. Era ali que ele tinha de viver, para frequentar todos os dias a escola m unicipal. O pai, depois de lá ter passado a noite, foi-se em bora de m anhã. Não chorou ao despedir-se do filho, m as deu-lhe cinquenta copeques de cobre para as despesas m iúdas, e o que ainda valia m ais sábios conselhos.
— Escuta, Pavluska; aprende; nada de asneiras nem de rapaziadas; especialm ente, esforça-te por agradares aos teus m estres e aos teus superiores. Assim , m esm o que te faltem qualidades, m esm o que Deus não te tenha dado talento, hás de triunfar na vida e atirarás os outros para um canto. Não convivas com os cam aradas; nada te ensinarão que sej a útil; m as, se, apesar de tudo, isso acontecer, liga-te aos m ais ricos, a fim de que te possam ser úteis, quando deles precisares. Não obsequeies ninguém nem ofereças nada; pelo contrário: orienta sem pre as coisas de m odo que te deem a ti. Sobretudo, econom iza; j unta todos os centavos; nada há m ais seguro na vida. Um cam arada ou um am igo abandonar-te-ão, se te acontecer algum a desgraça; ao passo que o dinheiro não te abandonará, sej a qual for a situação em que te encontres. Não há nada que não se possa conseguir com dinheiro.
Aconselhados estes sábios preceitos, o pai em preendeu a viagem de regresso a casa. Não tornaria a ver o filho; as suas palavras, porém , ficaram gravadas na alm a do rapaz.
No dia seguinte, Pavluska com eçou a ir para a escola. Não m ostrava predicados especiais, distinguindo-se particularm ente pela sua aplicação e lim peza. Em com pensação, dem onstrou grande inteligência, por outro lado, sob o ponto-de-vista prático. Depressa com preendeu com quem devia acam aradar e portou-se com os colegas de tal m aneira, que eram sem pre eles a obsequiá-lo; e, longe de retribuir, vendia-lhes, às vezes, as bugigangas deles recebidas, depois de as ter disfarçado. Desde a infância, habituou-se a privar-se de tudo. Em vez de gastar as cinquenta copeques do pai, aum entou-as de ano para ano, dem onstrando neste ponto um engenho quase extraordinário. Prim eiro, m odelou em casa um pássaro, pintou-o e vendeu-o m uito bem vendido. Depois, atirou-se a outras especulações. Com prava guloseim as no m ercado e sentava-se na classe ao pé de cam aradas ricos; quando um destes com eçava a ter náuseas — sintom as de fom e — passava-lhe, com o por acaso, um bocadinho de bolo ou um biscoito e, excitando-lhe assim o apetite, fazia-se pagar em proporção. Passou dois m eses sem descansar, adestrando um rato encerrado num a gaiola de m adeira, e conseguiu, ao cabo, fazê-lo pôr-se de pé, sobre as patas traseiras, e deixar-se cair e levantar-se quando ele m andava, depois do que tam bém o vendeu por bom preço. Quando j untou cinco rublos, coseu-os num a bolsinha e com eçou a arranj ar lugar para outros.
A respeito dos seus m estres, ainda se m ostrou m ais avisado. É preciso declarar que o professor, apreciando m uito o silêncio e o bom com portam ento, não podia suportar os colegiais vivos e inteligentes: j ulgava-os sem pre dispostos a troçar dele. Quando um rapaz se salientava pelo seu intelecto, bastava-lhe m over-se, pestanej ar por descuido, para provocar a sua cólera; e repreendia-o e castigava-o desapiedadam ente.
— Eu castigarei j á a tua insolência e a tua insubordinação — dizia. — Conheço-te a fundo, m elhor do que tu-próprio te conheces. Ficarás de j oelhos e a pão seco, para que aprendas.
E a pobre criança esfolava os j oelhos e j ej uava dias inteiros, sem saber por quê.
— Talentos! Capacidades! Pataratices, tudo pataratices! — repetia. — Para m im , só vale o com portam ento. Considero o m elhor todo aquele que se porte bem , ainda que não saiba nada; àquele, porém , que eu reconheça com o um irrequieto, um caráter zom beteiro, dou-lhe um zero, dou-lhe um zero, ainda que sej a superior ao próprio Sólon.
Assim falava o professor, que detestava Kry lov por ter dito: Bebe, se queres; mas conhece o teu negócio, e perorava sem pre, com ar superior, que, na escola onde ele ensinava dantes, o silêncio era tal que se ouvia zum bir um a m osca; que, durante todo o ano, nenhum discípulo tossia nem se assoava; e que, até a cam painha tocar, não se podia saber se havia alguém na aula.
Tchichikov com preendeu logo o caráter do seu m estre e com o havia de portar-se com ele. Podiam até beliscá-lo nas costas; não se m exia durante a lição. Ao prim eiro toque da cam painha, precipitava-se para dar ao professor, antes dos outros, o gorro de badanas que o fantoche costum ava trazer; depois do que, era o prim eiro a sair da classe e esforçava-se por encontrar-se três vezes, de gorro em punho, com o m estre. Este procedim ento teve um êxito rotundo. Enquanto frequentou a escola, conseguiu sem pre boas notas e, ao sair dela, recebeu um a certidão e um livro no qual estava gravado em letras de ouro: A Pavel Tchichikov, em recompensa da sua assiduidade exemplar e do seu comportamento irrepreensível.
Era então um j ovem de apresentação agradável, com um queixo que pedia j á navalha. Naquela época m orreu-lhe o pai. Na herança figuravam quatro j alecos coçados até o fio, dois velhos capotes forrados de astracã e um a som a irrisória. O defunto, com o se vê, não tinha praticado m uito os seus conselhos sobre econom ia. Tchichikov vendeu em seguida, por m il rublos, a casa arruinada, com a pouca terra que lhe pertencia, e transferiu para a cidade a fam ília de servos, propondo-se estabelecer-se ali e em pregar-se com o funcionário -do Estado. Naquele tem po, o pobre pedagogo, que am ava o silêncio e o bom com portam ento, foi dem itido pela sua estupidez ou por qualquer falta. Com o desgosto, deu em beber; finalm ente, ficou sem um centavo. Enferm o, sem pão e sem auxílio, agonizava num desabrigado tugúrio. Inteirados da sua m iséria, os antigos discípulos, aqueles desalm ados rapazes em quem ele encontrara sem pre a insubordinação e a insolência, prom overam um a subscrição em seu benefício e até venderam , com o m esm o fim , obj etos que lhes eram necessários; só Pavluska Tchichikov pretextou falta de recursos e deu cinco copeques de prata, que os seus cam aradas lhe devolveram ato contínuo, acoim ando-o de m iserável. Quando soube do procedim ento dos seus antigos alunos, o pobre m estre-escola escondeu o rosto entre as m ãos e as lágrim as resvalaram pelas suas faces m acilentas, com o um a débil criatura:
— Deus quis que eu chorasse no m eu leito de m orte — disse com voz sum ida.
O procedim ento de Tchichikov arrancou-lhe um profundo suspiro.
— Ai, Pavluska! Com o os hom ens m udam ! Um rapaz tão sério, tão sossegado! Um santinho! Enganei-m e ao j ulgá-lo.
Todavia, não se pode dizer que o natural do nosso herói fosse duro e sêeo, nem que os seus sentim entos estivessem em botados até o ponto de ignorar a piedade e a com paixão. Nada desej aria m ais que socorrer o próxim o; m as, com um a quantia pequena, para não m exer no dinheiro que tinha resolvido conservar intacto. Num a palavra, o conselho paterno: « Põe o teu dinheiro a um lado» foi-lhe proveitoso. Ele, porém , não am ava o dinheiro pelo dinheiro; a m esquinhez, a avareza, eram -lhe estranhas. Sonhava com um a vida de nababo, em que nada lhe faltasse. Um a casa bem posta, excelente com ida, luxuosas carruagens: era isto o que lhe form igava na cabeça. E, a fim de poder saborear um dia tudo isto, econom izava brutalm ente, tanto consigo com o com os outros. Quando via um rico num a boa caleche, com cavalos m agnificam ente aj aezados, parava com o que fascinado, e logo, voltando a si, dizia:
— E noutros tem pos era em pregado de um a tenda; usava o cabelo cortado em redondo, à volta da nuca!
Tudo quanto respirava opulência e bem estar o im pressionava extraordinariam ente.
Ao sair da escola, nem ao m enos quis descansar, tão vivo era o seu desej o de lançar im ediatam ente m ãos à obra. Todavia, apesar dos seus brilhantes diplom as, foi-lhe m uito difícil entrar para o funcionalism o público. Até para um a terreola da província são precisas recom endações. O lugar que lhe deram era insignificante: trinta ou quarenta rublos de ordenado por ano! Resolveu, porém , consagrar-se às suas funções com entusiasm o e vencer todos os obstáculos. Deu provas de um a abnegação, de um a constância e de um a sobriedade invulgares. Desde a m anhã até a noite, infatigável de corpo e alm a, escrevia, m etido entre a papelada; não voltava a casa, dorm ia na repartição, em cim a de um a m esa, alm oçava, às vezes, com os contínuos, sabendo conservar-se sem pre asseado, bem posto, dando um a expressão insinuante à fisionom ia e até um a certa nobreza aos m ovim entos. É preciso dizer que os seus colegas se distinguiam por um a apresentação desagradável. O rosto de alguns deles fazia recordar um pão m al cozido; a cara inchada num dos lados, o queixo torto, o lábio superior erguido com o um a am pola e, além disso, rachado. Em sum a: um horror. Todos falavam com voz áspera, com o se se preparassem para esm agar alguém . Frequentem ente prestavam culto a Baco, dem onstrando assim que a natureza eslava ainda conservava m uito do seu caráter pagão. Às vezes, até, chegavam à repartição um pouco tocados do vinho, ofendendo os olfatos delicados. Pela sua boa apresentação, sua voz bem tim brada, e pela com pleta abstinência de bebidas alcoólicas, Tchichikov oferecia, um surpreendente contraste com os outros m angas de alpaca: era im possível não o distinguir. No entanto a sua vida estava cheia de dificuldades. Tinha com o chefe um velho inacessível a toda a em oção; nunca um sorriso ilum inava o seu rosto im passível; nunca dirigia a qualquer pessoa um a palavra am ável, nem que fosse para se inform ar da sua saúde. Ninguém o tinha visto abandonar aquela frieza, nem m esm o na rua ou em sua casa. Se, ao m enos, tivesse m anifestado algum a vez um interesse qualquer; se se tivesse em briagado e desenrugado a cara ao m esm o tem po; se até se entregasse à alegria selvagem que se apodera do bandido em horas de em briaguez! Mas não, tudo isto lhe era estranho. Não o anim ava nenhum sentim ento; e nesta com pleta apatia havia algum a coisa de sinistro. O seu rosto de m árm ore, sem irregularidades pronunciadas, não evocava nenhum as parecenças; as suas feições tinham um a rígida harm onia. Unicam ente as num erosas m arcas de bexigas o colocavam na categoria das caras por cim a das quais, segundo a expressão popular, o diabo anda de noite a m oer ervilhas.
Angariar a sim patia de um hom em destes parecia tarefa sobre-hum ana. Não obstante, Tchichikov tentou.
Prim eiro, procurou m aneira de lhe agradar nos m ais insignificantes porm enores. Exam inava atentam ente a talho das pernas que usava o bonifrates e fez algum as do m esm o tipo, que lhe ia pondo ao alcance; lim pava-lhe cuidadosam ente a m esa, do pó e do tabaco; arranj ou, panos para lhe cobrir a secretária e não se esquecia de lhe levar o chapéu, m ais velho que ele próprio; um m inuto antes da saída da repartição, escovava-lhe as costas, se, por acaso, estavam suj as de cal. Mas tudo isto lhe passava despercebido. Finalm ente, m eteu o nariz na vida da fam ília; soube que o velho tinha um a filha casadoira, com um a cara sobre a qual se podiam tam bém m oer ervilhas, de noite. Para este alvo dirigiu os seus tiros. Averiguou a que tem plo ia ao dom ingo e punha-se na frente dela, sem pre que podia, bem vestido, com o seu peitilho engom ado. A m anobra deu resultado. O rígido chefe da repartição fez-se am ável e convidou-o a tom ar chá.
Num abrir e fechar de olhos m udaram as coisas, de form a que Tchichikov passou a m orar em casa deles, tornando-se indispensável. Ele com prava a farinha e o açúcar; tratava com o noiva a filha da casa; cham ava papá ao velho e beij ava-lhe a m ão. Na repartição, toda a gente pensava que o casam ento se efetuaria em fins de fevereiro, antes da quarentena. O conspícuo funcionário com eçou a recom endar Tchichikov aos seus superiores, o que lhe valeu, ao fim de algum tem po, ser nom eado chefe de outra repartição. Ao que parece, era este o principal obj etivo das suas relações com o velho funcionário, pois m andou retirar secretam ente a sua m ala e m udou de dom icílio no dia seguinte. Deixou de cham ar papá ao velho e de lhe beij ar a m ão; quanto ao casam ento, não se falou m ais nele. Contudo, quando encontrava o chefe, não deixava de o cum prim entar cordialm ente e de o convidar a tom ar chá, por m ais que o velhote, couraçado na sua indiferença, abanasse a cabeça m urm urando: « Bem m e com eu a cabeça, o grande patife!»
Vencida assim a m aior dificuldade, a carreira do» nosso herói j á se tornou m ais cóm oda. Em breve se transform ou num hom em im portante, possuindo todas as qualidades requeridas na sua profissão: m odos afetuosos e decisão nos assuntos. Com tais recursos, obteve em pouco tem po um lugar chorudo de que tirou excelente partido. É preciso dizer que, naquela época, com eçaram a perseguir rigorosam ente as gratificações de toda a espécie. Longe de assustar-se com a proibição, Pavel Ivanovitch aproveitou-se dela im ediatam ente, dando assim um a prova do engenho russo, que só se m anifesta nos m om entos difíceis. Quando se apresentava um pretendente que m etia a m ão à algibeira para tirar dela, com o dizem os na Rússia, cartas de recomendação assinadas pelo príncipe Jovanski:
— Não, não! — dizia Tchichikov, segurando-lhe no braço e sorrindo. — O senhor pensa que eu?... Não, não!! Nós cum prim os o nosso dever sem retribuição algum a. Vá o senhor tranquilo; am anhã o caso ficará arrum ado. Faça o favor de m e deixar a sua direção e não se preocupe. Lá chegará ao seu dom icílio.
O interessado, contentíssim o, regressava a casa, entusiasm ado quase, pensando: « Ora aqui está um hom em com o devia haver m uitos. É um a pérola!» . Mas passa um dia; depois dois, e ele espera em vão; o terceiro, da m esm a form a. O hom em volta à repartição — nem sequer m exeram no assunto — e dirige-se à pérola fina:
— Ah! O senhor desculpe! — dizia Tchichikov, m uito cortesm ente, apertando-lhe as m ãos. — Estam os sobrecarregados com serviço. Mas am anhã isso estará pronto; am anhã sem falta! Realm ente, estou até com prom etido...
E estas palavras eram acom panhadas de um gesto afável. Se, ao falar, se afastava um a banda do seu casaco, esforçava-se por a aj eitar e pô-la im ediatam ente no sítio próprio.
Contudo, nem am anhã nem nos dias seguintes os docum entos chegavam ao seu dom icílio. O interessado punha-se a m atutar: « Não haverá aqui qualquer coisa!» . Inform a-se e dizem -lhe:
— É necessário gratificar os em pregados.
— Pois sej a; estou disposto a dar-lhes um ou dois rublos.
— Nem um nem dois rublos, será precisa um a nota de banco.
— Um a nota aos em pregados? — exclam a o pretendente.
— Por que se irrita o senhor? — respondem -lhe. — É absolutam ente j usto: um rublo para os escriturários; o resto para os chefes.
O interessado, pouco perspicaz, bate na testa e m aldiz o nosso estado de coisas, a proibição das gorj etas e os m odos corteses dos em pregados. « Antigam ente, ao m enos, sabia-se o que se tinha a fazer; passavam -se dez rublos para as m ãos do chefe e o negócio estava pronto; agora são precisos vinte e passa-se um a sem ana sem que o possam os adivinhar. Que vão para o diabo o desinteresse e a nobreza dos funcionários!» . O pretendente tinha razão, é certo; em com pensação, agora j á não há gorj etas, todos os chefes são de um a honradez e de um a lealdade perfeitas; só os subordinados são uns ladrões.
Em breve se ofereceu a Tchichikov um m ais vasto cam po de atividade. Constituiu-se um a com issão para a construção de um edifício público de certa im portância. Ele fez parte dela, m ostrando-se um dos seus m ais ativos elem entos. A com issão lançou im ediatam ente m ãos à obra. Durou seis anos; porém , ou porque o clim a lhe fosse prej udicial ou porque os m ateriais deixassem a desej ar, o edifício não passou além dos alicerces. Entretanto, cada um dos m em bros da com issão achou-se, noutros pontos da cidade, dono de um a linda casa, de arquitetura burguesa; evidentem ente, o terreno era m elhor ali. Estes senhores com eçavam a prosperar e a constituir fam ília. Só então Tchichikov deixou relaxar, a pouco e pouco, a abstinência feroz e a abnegação inexorável que se havia im posto. Suavizou, por fim , o seu regim e austero, e dir-se-ia ter pendido sem pre para os diversos prazeres de que tinha sabido abster-se nos fogosos anos da j uventude, em que, ordinariam ente, ninguém se dom ina por com pleto. Entregou-se ao supérfluo: contratou um ótim o cozinheiro e com prou cam isas de cam braia fina. Já tinha adquirido roupas com o ninguém usava na província, afeiçoando-se, então, ao am aranto m osqueado; j á com prara um a fogosa parelha de cavalos e, abandonando um a das rédeas ao cocheiro, conservava outra nas m ãos, para obrigar o de sela a descrever um a curva; j á tinha apanhado o costum e de friccionar-se com água de colónia; j á adquirira um sabonete m uito caro para am aciar a pele; j á...
Mas o antigo chefe, um boneco de trapo, foi substituído por outro, novo, m ilitar, aprum ado inim igo declarado de abusos e de tudo quanto se cham e iniquidade. Desde o prim eiro dia, pôs toda a gente a trabalhar, exigiu contas, averiguou irregularidades e as im portâncias que faltavam em cada um a das rubricas. E cada qual apanhou conform e os seus atos. Os funcionários culpados foram destituídos, as casas de arquitetura burguesa foram confiscadas em benefício do Estado e transform adas em estabelecim entos de caridade e em escolas para os filhos de m ilitares. Todos foram repreendidos severam ente e Tchichikov m ais que os outros. A sua casa, em bora agradável, não agradou ao chefe — Deus sabe por quê! Em casos sem elhantes, às vezes, não há m otivos para isso. Tom ou-o à sua conta. Este hom em im placável era terrível para todos os seus subordinados; porém , com o era m ilitar, ignorando, por consequência, todas as arteirices dos civis, ao cabo de algum tem po, graças ao seu ar de retidão e à sua esperteza de em tudo lhe fazerem a vontade, outros funcionários lhe captavam a sim patia, e o general bem depressa se deixou enrodilhar por velhacos ainda piores, que ele estava m uito longe de considerar com o tais. Até se felicitava por ter escolhido, finalm ente, pessoas capazes, e envaidecia-se a valer por ter dedo para a escolha das com petências. Os em pregados com preenderam logo o seu espírito e o seu caráter. Todos quantos estavam sob as suas ordens converteram -se em inim igos ferozes da iniquidade; perseguiram -na de qualquer m aneira, com o o pescador persegue com o arpão um esturj ão de grande corpulência; e isto com tal êxito, que bem depressa cada um deles se encontrou na posse de alguns m ilhares de rublos. Ao m esm o tem po, m uitos dos antigos funcionários entraram no bom cam inho e foram reintegrados. Em relação a Tchichikov, porém , foi trabalho perdido. O prim eiro secretário do general, a quem havia untado as m ãos e que sabia intruj ar à m aravilha o seu chefe, por m ais que intercedesse a favor dele, nada conseguiu, pois o general, em bora lhe desse ouvidos (e sabendo-o, por outro lado), era por tal form a obcecado que nada podia desfazer-lhe um a ideia, quando esta lhe havia entrado com o um cravo na cabeça. Tudo o que o hábil secretário pôde obter foi a suspensão das notas de serviço que o com prom etiam , e até para isto foi preciso apiedar o chefe, pintando-lhe com vivas cores a com ovedora sorte da desventurada fam ília de Tchichikov, fam ília, felizm ente, im aginária.
« Tanto pior!» , disse para si Tchichikov. « Não m e saí bem deste negócio; são inúteis as lam entações. As lágrim as não rem edeiam um a desgraça; é necessário trabalhar!»
E resolveu encetar um a nova carreira, couraçar-se novam ente de paciência, m oderar os seus apetites, apesar do prazer que tinha experim entado dando-lhes livre curso. Im punha-se um a m udança de ares, dar-se a conhecer noutra parte. Isto, porém , não era fácil. Em pouco tem po, teve que m udar de em prego duas ou três vezes. Os em pregos eram enfadonhos, inferiores. É preciso dizer que Tchichikov era o hom em m ais correto que até hoj e tem existido. Em bora obrigado, nos seus princípios, a frequentar um m eio corrom pido, perm anecera sem pre lim po, sobretudo no fundo da alm a Gostava que, nas repartições, as m esas fossem de m adeira envernizada e a instalação fosse decente. Jam ais se perm itia um a palavra m alsoante e surpreendia-se ao ver que os outros faltavam ao respeito devido à posição ou à qualidade das pessoas. Agradará ao leitor, com certeza, saber que m udava de roupa interior de dois em dois dias, e diariam ente no verão, durante o calor. Todo o m au cheiro, por pouco desagradável que fosse, repugnava ao seu nariz. Assim , sem pre que Petrushka ia despi-lo e tirar-lhe as botas, aspirava um cravo. Em m uitos casos, tinha os nervos tão delicados com o um a senhora. Por isso lhe custava tanto viver num m eio em que se respirava o cheiro de aguardente e onde os m odos eram grosseiros. Apesar da sua constância, tinha em agrecido e até ficara verde, durante estes reveses. Já com eçava a engordar e a adquirir as form as arredondadas e respeitáveis com que se apresentou ao leitor. Várias vezes, ao olhar para o espelho, lhe surgiram agradáveis ideias — um a esposa j ovem , filhos — e um sorriso as acom panhava. Agora, porém , ao m irar-se de novo, por casualidade, não pôde deixar de exclam ar: « Santa Mãe de Deus, que feio m e tornei!» . E durante m uito tem po não quis tornar a ver-se ao espelho.
Todavia, o nosso herói tudo suportava com paciência evangélica e term inou por entrar para a Alfândega. É preciso dizer que, havia m uito tem po, sonhava em segredo com esta carreira. Ele tinha visto as lindas coisas que possuíam os em pregados da Alfândega; as porcelanas e as fazendas que enviavam a suas tias, a suas prim as e às suas am iguinhas. Mais de um a vez dissera suspirando: « Para aqui é que eu gostava de entrar! A fronteira está próxim a; as pessoas são educadas; e que esplêndidas cam isas de cam braia fina se podem arranj ar!» . Acrescentem os que pensava num sabonete francês, o qual tornava as faces m acias e a pele extraordinariam ente branca. Ele desconhecia-lhe o nom e; contudo, estava persuadido de que o encontraria na fronteira. Por isso, a Alfândega o atraía há m uito; m as as diversas restituições que lhe ordenara a com issão do edifício haviam -se oposto à realização dos seus desej os. Agora tinha j urado para lá entrar, custasse o que custasse, e soube m anter a sua palavra.
Desenvolveu nas suas funções um tão extraordinário zelo, que dir-se-ia predestinado para em pregado aduaneiro. Ninguém conhecia m elhor o seu ofício, nunca se vira tal penetração nem tal perspicácia, ou se tinha ouvido, sequer, falar de coisa parecida. Ao cabo de três, de quatro sem anas, era j á tão desem baraçado na sua nova profissão, que nada o atrapalhava; sem pesar nem m edir, sabia pela fatura quantos m etros havia num a peça de pano; bastava-lhe pegar num pacote, para deduzir o seu peso. Enquanto a buscas, tinha para elas, segundo a expressão dos seus cam aradas, olfato de perdigueiro. Não podia deixar de assom brar um a pessoa a paciência de que dava provas, verificando botão por botão, e tudo com um sangue-frio esm agador e um a cortesia fora do vulgar. Enquanto as pessoas exam inadas se exasperavam , rogavam pragas e experim entavam um furioso desej o de lhe quebrar a cara, Tchichikov, sem alterar as feições e sem pre com a m aior delicadeza, lim itava-se a dizer:
— Não poderia o senhor ser tão am ável, que tivesse o incóm odo de se levantar? — Ou então: — Quereria V. Ex.ª, m inha senhora, passar para este com partim ento? A m ulher de um colega nosso lhe dará explicações... — Ou tam bém : — Perm ita-m e o senhor que lhe descosa a dobra do seu capote. — E, sem deixar de falar, ia tirando chales e lenços, com sangue-frio, com o se os tirasse de um a sua m ala.
Até os seus chefes diziam que ele era o próprio diabo em figura de hom em ; descobria contrabando nas rodas, nos varais, nas orelhas dos cavalos, lugares onde m ais ninguém se teria lem brado de afuroar, e onde só um em pregado da Alfândega pode perm itir-se fazê-lo. Um a vez atravessada a fronteira, o pobre viaj ante perm anecia vários m inutos a refazer-se, e benzia-se, m urm urando: « Oh! Oh!» . Era um a situação m uito parecida com a do colegial, enviado ao diretor sob o pretexto de receber um a reprim enda e que, de im proviso, se vê fustigado.
Em pouco tem po, Tchichikov tornou insuportável a vida dos contrabandistas. Era o pesadelo, a som bra negra de todos os j udeus polacos. De um a honradez e de um a incorruptibilidade inatacáveis, quase sobrenaturais, nem sequer tinha j untado um pequeno capital com as bagatelas apreendidas que, para evitar papeladas, não iam parar ao fisco. Este zelo e este desinteresse deviam ser obj eto de surpresa geral e chegar facilm ente ao conhecim ento dos chefes. Obteve um a prom oção e apresentou, depois, um proj eto para prender todos os contrabandistas, pedindo só os m eios para o executar ele-próprio. Em breve foi posto à sua disposição um destacam ento, com o direito ilim itado de proceder a todas as pesquisas. Era isso precisam ente o que ele queria. Naquele tem po, havia-se constituído um a poderosa quadrilha de contrabandistas, organizada com todas as regras. Esta atrevida em presa prom etia m ilhões de benefícios. Tchichikov, ao corrente de tudo, havia tem pos, teria respondido secam ente aos em issários enviados para o subornar: « Ainda é cedo.»
Quando teve plenos poderes, avisou im ediatam ente a sociedade de que chegara a altura de agir. O negócio era seguro. Num ano, teve a sorte de ganhar o que econom izaria em vinte anos de leais serviços. Prim eiro, não queria relacionar-se com eles, pois, na qualidade de com parsa, não receberia grande coisa; m as agora, agora j á não era assim : podia im por as condições que quisesse. Para evitar dificuldades, peitou um colega que, apesar dos seus cabelos grisalhos, não pôde resistir à tentação. Chegou-se a um acordo, e a sociedade lançou m ãos à obra. As operações com eçaram brilhantem ente. O leitor, sem dúvida, conhece a história, frequentem ente contada, da divertida viagem dos carneiros que atravessaram a fronteira com o velo em duplicado, introduzindo fraudulentam ente rendas de Malines no valor de um m ilhão. Isto passou-se exatam ente nos tem pos de Tchichikov. Se ele não tom asse parte na em presa, nenhum j udeu do m undo conseguiria levá-la a cabo. Depois de os carneiros terem passado três ou quatro vezes a fronteira, os dois trapaceiros encontraram -se em frente de um capital de quatrocentos m il rublos; até se dizia que Tchichikov tinha ultrapassado o m eio m ilhão, por ser m ais atrevido. Deus sabe que cifra enorm e alcançariam estas fabulosas quantias, se a discórdia não se tivesse m etido entre eles O diabo pregou um a boa partida aos dois cúm plices; subiu-lhes o fum o à cabeça e contenderam por um a ninharia. No decorrer de um anim ada conversa, Tchichikov, um pouco em briagado, talvez, cham ou ao sócio filho de padre. O outro — em bora isso fosse verdade — ofendeu-se seriam ente, não se sabe por quê, e replicou azedam ente:
— Mentes! Sou conselheiro de Estado, e não filho de padre. Tu, sim , que o és!
Em bora com isto j á tivesse tapado a boca ao seu interlocutor, devolvendo-lhe o insulto, não ficou satisfeito e denunciou-o em carta anónim a. Outros dizem que, entre os dois, houvera disputa por causa de um a m ocetona « boa e fresca com o um form oso nabo» , com o dizem os em pregados da Alfândega; que até foram com prados alguns indivíduos para agredir o nosso herói, ao cair da noite, num a viela escura; m as os dois rivais foram enganados e a sociedade elegeu um certo Cham shariov, capitão suplente. Ignora-se o que realm ente se passou; deixam os ao leitor o cuidado de o averiguar, se quiser. O essencial é que as revelações secretas aos contrabandistas foram descobertas. Ao perder-se, o conselheiro de Estado deitou a perder o seu cam arada. Os nossos funcionários foram processados, e apreendidos e confiscados todos os seus haveres. Aquilo foi um raio que lhes caiu em cim a da cabeça. Com o ao despertar de um a borracheira, quando recobraram os sentidos, viram , com espanto, o que tinham feito. O conselheiro de Estado não pôde suportar o golpe e sucum biu num canto ignorado; o conselheiro do Ministério, porém , m anteve-se firm e. Apesar das buscas das autoridades que lhe andavam na pista, conseguiu esconder um a parte do seu pecúlio e pôr em ação todos os recursos do seu engenho e da sua grande experiência. Utilizando, j á a sedução dos seus m odos, j á a adulação, que não falha nunca; em pregando, por outro lado, argum entos constantes e sonantes, arranj ou-se de m aneira a não ser destituído de form a tão ignom iniosa com o o seu colega e livrou-se do procedim ento j udicial. Mas foi-lhe preciso dizer adeus ao seu capital e às bagatelas im portadas do estrangeiro; tudo isto encontrara dono. Conservou dez m il rublos, postos a bom recato para os m om entos de adversidade, duas dezenas de cam isas finas, a caleche para uso dos solteirões e dois criados; o cocheiro Selifan e o lacaio Petrushka; enfim , a benevolência dos em pregados aduaneiros deixou-lhe, ainda, cinco ou seis pedaços de sabão para conservar a frescura da cútis.
Tal era a situação em que de novo se encontrava o nosso herói. Eis o alude de desgraças que tinham caído sobre ele. Era ao que ele cham ava « haver sofrido na sua carreira por am or à Justiça» . Poderia supor-se que, depois de tem pestades assim , provas, vicissitudes e desgostos, se retiraria com o seu pé-de-m eia para a solidão aprazível de um a pequena povoação do distrito, em que se refestelaria para sem pre, com o seu roupão à j anela de um a casita, apaziguando, ao dom ingo, um a disputa entre cam poneses, suscitada debaixo da sua j anela, a fim de desentorpecer as pernas, indo à capoeira apalpar pessoalm ente a galinha destinada para a sopa; que, deste m odo, desfrutaria um a vida sem ruído, m as não sem utilidade. Porém , não aconteceu assim . Há que prestar j ustiça à força indom ável do seu caráter. Depois de tudo o que bastaria, senão para m atar um hom em , ao m enos para esm agá-lo e feri-lo, um ardor incom preensível ainda o anim ava. Dorido, exasperado, m urm urando contra o m undo inteiro, irritando-se contra a sua m ofina sorte e contra a inj ustiça dos hom ens, não podia, no entanto, renunciar a outras tentativas. Dem onstrou um a paciência ao lado da qual a paciência inerte do alem ão, baseada na circulação lenta, preguiçosa, do sangue, parecia um a insignificância. O sangue de Tchichikov, pelo contrário, fervia e necessitava de um a grande coragem para refrear todos os im pulsos do seu tem peram ento. Eis com o raciocinava, e vej am os se o seu raciocínio estava dentro da lógica:
— Por que fui atingido por esta desgraça? Quem é que perde agora o seu tem po, sej a lá onde for? Todos enriquecem ; eu não prej udiquei ninguém ; não espoliei um a viúva nem atirei para a m iséria qualquer pessoa. Apropriei-m e do supérfluo. Se o não fizesse eu, outros se aproveitariam . Por que prosperam os outros, enquanto eu tenho que arrastar-m e com o um gusano? Que vai ser de m im agora? Para que sirvo eu? Com o poderei olhar, cara a cara, para um respeitável chefe de fam ília? Com o não sentir rem orsos, sabendo que peso inutilm ente sobre a terra? Que dirão m ais tarde os m eus filhos? « O estúpido do nosso pai não nos deixou nada!»
Sabe-se j á que Tchichikov se preocupava m uito com a sua descendência. Era um a ideia que lhe arrebatava o coração. Tal personagem teria, porventura, roubado m enos, sem a pergunta que, não se sabe com o, se apresenta por si-própria: « Que dirão os m eus filhos?» . E o futuro chefe de fam ília — com o um prudente gatarrão que lança um a olhadela oblíqua para verificar se o dono o não observa, e se apressa a agarrar quanto lhe está ao alcance, sej a toucinho, velas ou um canário que lhe cai debaixo da pata — não deixava escapar nada.
Assim se lam entava e gem ia o nosso herói. Não obstante, o seu espírito, m ais ativo que nunca, só esperava um plano para deitar m ãos à obra. De novo se reconcentrou, tornou a levar um a vida m etódica e difícil, a privar-se de tudo e, de um a posição desafogada, caiu num a outra, baixa e aviltante. Esperando m elhores tem pos, fez-se hom em de negócios, m odo-de-vida que não tinha ainda adquirido entre nós direitos de cidadania, tratado em toda a parte sem respeito, pouco considerado pela chusm a burocrática e até pelos que com ele tinham relações, condenado a arrastar-se pelas antessalas, exposto a afrontas, etc., etc. Mas a necessidade obrigava-o a aceitar tudo.
Entre outras com issões, foi encarregado de em penhar ao Conselho de Tutela algum as centenas de cam poneses. A propriedade achava-se num estado desastroso, em consequência de epizootias, de roubalheiras dos feitores, de colheitas m ás, de epidem ias que lhe tinham levado os m elhores trabalhadores e, finalm ente, por causa da estupidez do proprietário, que tinha construído e m obilado, em Moscovo, um a casa à últim a m oda, dissipando nela toda a sua fortuna, de tal m odo que j á não lhe restava com que se pudesse sustentar. Por isso, fora preciso hipotecar a últim a propriedade. A fiança ao Estado era então coisa nova, a que ninguém se arriscava sem apreensões. Tchichikov, depois de predispor favoravelm ente tudo e todos (é sabido que sem esta operação prelim inar torna-se im possível obter os m enores elem entos, a m enor retificação; em cada garganta é preciso entornar, pelo m enos, um a garrafa do Madeira), Tchichikov, portanto, depois de fazer o que era necessário, explicou, a fim de evitar com plicações futuras, que tinham m orrido m etade dos cam poneses.
— Mas figuram na lista do recenseam ento? — perguntou o secretário.
— Certam ente — respondeu Tchichikov.
— Então porque se preocupa? Os óbitos são com pensados pelos nascim entos, e dá sem pre certo.
Foi então que ocorreu ao nosso herói a ideia m ais feliz que j am ais tivera.
— Que burro eu sou! — disse. — Ando a procurar os m eus óculos e tenho-os em cim a do nariz. Se eu com prar todos os que m orreram antes que sej am enviadas as novas listas de recenseam ento, e se, por exem plo, adquirir um m ilhar, o Conselho de Tutela dar-m e-á, à vontade, m il rublos por cada alm a. Isto j á são duzentos m il rublos. É este o m om ento próprio. Um a epidem ia levou, graças a Deus, m uita gente. Os proprietários deram cabo do seu dinheiro, no j ogo e nas pândegas; m uitos tom aram criados em Petersburgo; os dom ínios estão abandonados, ao Deus dará; cada ano se torna m ais difícil pagar as contribuições, de m odo que todos e cada um deles m e cederão, de bom grado, alm as m ortas, ainda que sej a só para não pagarem os im postos. Talvez com isto arranj e algum dinheiro. O negócio, está claro, é delicado, pouco seguro; suj eito-m e a entalar os dedos, a sofrer desgostos. Mas ao hom em foi-lhe dada inteligência para a utilizar. Felizm ente, a operação parecia inverosím il; nenhum a pessoa acreditaria nela. Para dizer a verdade, sem terras ninguém pode com prar cam poneses nem hipotecá-los; eu, porém , com prá-los-ei para colonização. Atualm ente em Taurida e Quersoneso podem obter-se terras por um a tuta-e-m eia, com a condição de as experim entar. Para ali os levarei a todos. Que vão im ediatam ente para Quersoneso! A transferência pode efetivar-se pelas vias legais. Se se exige um atestado acerca dos cam poneses, arranj a-se sem dificuldade; não vej o nisso im pedim ento algum . Conseguirei um a certidão passada pelo com andante da polícia. A colónia poderá cham ar-se Chichikovmen ou Pavlovskoe, atendendo ao m eu nom e de batism o.
Aqui têm com o germ inou no cérebro do nosso herói a lum inosa ideia que lhe valeu, senão o reconhecim ento do leitor, a profunda gratidão do autor; pois, se tal ideia não houvesse ocorrido a Tchichikov, este poem a não teria visto a luz do dia.
Depois de se benzer, segundo o costum e russo, lançou m ãos à obra. Sob diversos pretextos, com o, por exem plo, procurar um a residência, com eçou a percorrer diversas regiões do nosso país, sobretudo aquelas que tinham sofrido m aiores calam idades — péssim as colheitas, m ortandades — em resum o: onde pudesse com prar m ais facilm ente e ao m elhor preço os servos de que necessitava. Não se dirigiu ao acaso a qualquer proprietário, escolheu pessoas a seu gosto ou aquelas com quem , sem grandes dificuldades, pudesse fazer sem elhantes contratos, esforçando-se por conseguir am izades prévias, predispondo-as a seu favor, a fim de adquirir, se fosse possível, os cam poneses m ais por am izade que por m eios financeiros. Não se deve perturbar o leitor, se lhe desagradam as personagens até aqui apresentadas; a culpa é de Tchichikov; a este respeito, ele é dono e senhor, e nós tem os que segui-lo para onde ele quiser. Pois se nos censuraram a insignificância e a m á catadura das personagens e dos carateres, direm os som ente que nunca, desde o princípio de um a obra, ela pode ser j ulgada em toda a sua extensão. A chegada a um a cidade, m esm o que esta sej a um a capital, é sem pre um a desagradável surpresa; a princípio, tudo parece taciturno e m onótono; oficinas e fábricas fum egantes estendem -se até perder de vista; a seguir, entre o brilho, o ruído e o estrépito, aparecem as casas de seis andares, os arm azéns, as tabuletas, a im ensa perspetiva das ruas, os seus cam panários, colunas, estátuas, torres, tudo o que a m ão e o génio do hom em hão produzido para m aravilha dos olhos. O leitor assistiu às prim eiras com pras; o que sucedeu depois, os êxitos e os fracassos do herói, os obstáculos m ais difíceis que teve de vencer, as figuras grandiosas que surgiram , o m ecanism o das peças secretas do dram a, o alargam ento do seu horizonte, o lirism o m aj estoso que atinj a — tudo isto chegará a seu tem po. Falta ainda um largo traj eto para percorrer, à equipagem form ada por um cavalheiro de m eia idade, um a caleche para uso de solteirões, o lacaio Petrushka, o cocheiro Selifan e três cavalos j á conhecidos pelo seu nom e, desde o Assessor até o patife do Picaço.
Eis, pois, o nosso herói pintado ao natural. Talvez, porém , sej a conveniente, para o retoque final, fixar um traço: quem é ele sob o ponto de vista m oral? Vê-se logo que não é um herói cheio de virtudes e perfeições. É, portanto, um canalha. Um canalha, porquê? Porquê, m ostrar-nos tão severos a respeito de um a pessoa? Em nossos dias j á não há canalhas; há gente bem intencionada, sim pática. Quanto àqueles que se expõem à vergonha de ser esbofeteados em público, encontrar-se-ão, ao todo, dois ou três; e m esm o estes falam agora de virtude. A denom inação m ais aj ustada é a de adquiridor. A sede de adquirir é a causa de tudo; é ela que dá o im pulso às ações de toda a gente, ações qualificadas de não muito limpas. Para falar com franqueza, um caráter deste género tem j á algum a coisa de repugnante; e certo leitor, que na vida real se relaciona com sem elhante indivíduo, oferece-lhe a casa e passa m om entos agradáveis na sua com panhia, olhará para ele de soslaio se se converte em herói de um dram a ou de um poem a. Discreto, porém , é aquele que, longe de desdenhar de um caráter, o exam ina com penetrante olhar e o sonda desde o princípio. Tudo m uda rapidam ente no hom em ; em m enos de nada, um terrível gusano se desenvolve dentro do nosso ser e se apropria de toda a substância vital. E m ais de um a vez a paixão — grande ou m esquinha — m edrou num indivíduo nascido para m elhor sorte, fazendo-o esquecer enorm es e sagradas obrigações, para as substituir por ínfim as bagatelas. As paixões são inum eráveis, com o as areias do m ar, e todas diferem entre si, todas, vergonhosas e nobres, com eçam por ser dom inadas pelo hom em ; em breve se convertem em tiranos. Bem -aventurado aquele que escolheu a m ais nobre! A sua felicidade cresce e aum enta continuam ente, e ele penetra cada vez m ais no paraíso m oral. Mas há paixões cuj a escolha não depende do hom em ; que vieram ao m undo ao m esm a tem po que ele, e faltam -lhe forças para delas se desem baraçar. Um plano superior as dirige; há nelas um a solicitação contínua que dura toda a vida. Estão destinadas a desem penhar cá em baixo um papel im portante. Ou sob um a form a obscura ou com o lum inosas aparições, têm por obj eto um fim com pletam ente desconhecido do hom em . E, talvez, no próprio Tchichikov, a paixão que o arrasta não proceda dele; talvez a sua existência m elancólica encerre algum a coisa com que confundir m ais tarde os hom ens e fazê-los aj oelhar ante a divina sabedoria. A aparição desta figura no presente poem a é em si m esm a um m istério.
O lastim ável, porém , não é que o herói desagrade; é a certeza absoluta de que este próprio herói, o próprio Tchichikov tenha podido desagradar aos leitores. Se o autor não lhe sondasse os recessos da alm a, não revolvesse, no fundo, o que escapa e se oculta da luz, não revelasse os pensam entos m ais secretos que o hom em não confia a ninguém , e o tivesse m ostrado, tal com o o j ulgava Manilov e toda a cidade, os leitores ficariam enfeitiçados e tê-lo-iam achado interessante. Seria um m anequim desprovido de vida? É possível; m as tam bém , finda a leitura, poderiam voltar com a m aior tranquilidade à m esa do j ogo, tão querida à Rússia inteira. Não, am ados leitores; vós não desej ais contem plar sem disfarce a m iséria hum ana. « Para quê? — dizeis. — Não sabem os j á que na vida existem coisas desprezíveis e absurdas? Não faltam ocasiões de presenciar cenas dolorosas. Apresentem -nos, antes, quadros atraentes. Mais vale aturdirm o-nos...»
— Para que m e dizes, am igo, que os negócios correm m al, na herdade? — perguntava um proprietário ao seu feitor. — Bem o sei. Não tens outras notícias a transm itir-m e? Deixa-m e esquecer, ignorar, e serei feliz.
E o dinheiro, que porventura m elhoraria a situação, é em pregado em distrações de diversas espécies. Um espírito que talvez im provisasse férteis recursos — dorm ita. E nisto a herdade é vendida em hasta pública e o proprietário recorre aos divertim entos para aturdir-se, com a alm a ulcerada, e presta-se a baixezas que, noutros tem pos, lhe causariam horror.
O autor será ainda alvo das acusações dos pretensos patriotas. Essa gente perm anece tranquila no seu rincão; j unta capitais, faz o seu negócio à custa de outros; todavia, quando sobrevêm um incidente que j ulga ofensivo da pátria, quando aparece um a obra onde se dizem verdades, às vezes am argas, acode prontam ente com o a aranha que vê um a m osca na sua teia. Então, exclam a: « Tudo quanto aí está escrito refere-se a nós. Há razões para o expor à luz do dia? Que dirá o estrangeiro? É agradável ouvir exprim ir um a opinião m á a nosso respeito? Não causa pena isto? Não som os patriotas?» .
A tão prudentes observações, sobretudo quanto à opinião estrangeira, confesso que não há nada a responder, salvo isto, quiçá: « Dois hom ens bons residiam num ignorado ponto da Rússia. Um deles, cham ado Kifa Mokievich, levava um a desm azelada existência sem cuidar da fam ília; a sua vida estava m elhor orientada para a especulação e preocupada com a questão seguinte, que ele, gravem ente, denom inava um a questão filosófica.
— Tom em os, para exem plo, as feras — dizia, dando passadas pelo quarto. — Todas nascem nuas. Por que é isto? Por que não saem de um ovo com o as aves? Na verdade, quanto m ais se perscruta a natureza, m enos a com preendem os!
Assim pensava Kifa Mokievich. Isto, porém , não é o essencial. O outro hom em bom era Mokii Kifovich, seu filho. Era um m oço de natureza hercúlea e, enquanto o pai se ocupava com o nascim ento das feras, a sua exuberante natureza de vinte anos ardia por desabrochar. Não sabia em preender nada lentam ente; ficava sem pre, por este ou aquele m otivo, com um braço deslocado ou o nariz contuso. Em sua casa e na vizinhança, tudo fugia diante dele, desde a criada até o cão de guarda. Até havia feito em pedaços a sua própria cam a. Tal era Mokii Kifovich, sem deixar de ser o m elhor filho do m undo. Mas tam bém ainda não é isto o essencial, Ei-lo:
— Por favor, nosso am o Kifa Mokievich — diziam ao pai os criados e os vizinhos; — que filho te destinou Deus em Mokii Kifovich! Faz rabiar toda a gente! Tem o diabo no corpo!
— Sim , é petulante — respondia ordinariam ente o pai — m as que lhe hei de fazer? É dem asiado tarde para o castigar e todo o m undo m e cham aria cruel. Além disso, ele tem am or-próprio; se o repreendo diante de alguém , com certeza acalm a-se; m as, por desgraça, fica-se a saber; sabê-lo-á a cidade inteira, e tratá-lo-á com o a um cão. Acreditais que, efetivam ente, isto não m e sej a doloroso? Não sou eu pai? Porque, em bora m e dedique à filosofia e, às vezes, m e falte o tem po, nem por isso deixo de ser pai, que diabo! É aqui, aqui, no m eu coração, que trago Mokii Kifovich!
E Kifa Mokievich, enfurecido, batia no peito.
— Sim , o m eu filho é um cão, e deve continuar a sê-lo, m as, ao m enos, que não sej a por m im que se saiba; que não sej a eu quem o denuncie!
Manifestados assim os seus sentim entos paternos, deixou que Mokii Kifovich prosseguisse nas suas proezas e, voltando ao seu tem a favorito, fazia para si observações deste género:
— Se o elefante nascesse de um ovo, a casca havia de ser de um a espessura extraordinária; não se poderia quebrar nem com um canhão; seria preciso inventar um a nova arm a de fogo.
Assim viviam estes dois habitantes de um pacífico rincão, aparecidos repentinam ente, com o assom ando a um a j anela, no final do nosso poem a, para responder com m odéstia à acusação dos afervorados patriotas, entretidos sossegadam ente, até agora, a filosofar e a enriquecer à custa da sua querida pátria e para quem o im portante não é fazer o m al: é que se não saiba que o fazem . Mas não; nem o patriotism o nem a filosofia j ustificam estas acusações; elas escondem outras coisas. Para que calar-se? Quem , pois, senão o autor, deve proclam ar a santa verdade? Receais um olhar penetrante; tendes m edo, vós próprios, de perscrutar profundam ente as coisas; gostais de deslizar por cim a de tudo, com olhares vazios de pensam ento. Até vos rides sinceram ente de Tchichikov; talvez, até, louveis o autor, dizendo: « Contudo, observou bem certos tipos! Deve ser um belo cam arada!»
Depois do que, com um redobram ento de ferocidade, um sorriso presunçoso aparece nos vossos lábios, e continuais:
« Tem os de confessar que em certas províncias há pessoas m uito divertidas, m uito cóm icas; e perfeitos bandidos, tam bém !»
Agora, vej am os: Quem , de entre nós, cheio de hum ildade cristã, na calm a e solidão dos rebates da consciência, aprofundará esta dolorosa pergunta: « Não há em m im tam bém algum a coisa de Tchichikov?» . Ninguém , estou certo disso! Todavia, que passe, neste m om ento, a seu lado, algum conhecido de m ediana posição, e logo tocará com o cotovelo no vizinho e lhe dirá em voz baixa: « Olha! Aí vai Tchichikov!»
E depois, com o um garotelho, esquecendo a consideração devida à sua posição e à sua idade, correrá atrás dele, repetindo com o um a cam painha:
— Tchichikov! Tchichikov! Tchichikov!...
Mas tem o-nos posto a falar dem asiado alto, sem pensar que o nosso herói, que dorm ia enquanto se contava a sua história, j á despertou e pode ouvir o seu nom e repetido com tanta frequência. É m uito suspicaz e aborrece-se quando lhe faltam ao respeito. Pouco im porta ao leitor que Tchichikov se enfade com ele; o autor, porém , não deve, em caso algum , contender com o seu herói; am bos têm ainda m uito cam inho a percorrer, de braço dado: dois grandes com etim entos em perspetiva, e isto não é nenhum a bagatela.
— Olha lá, em que pensas? — disse Tchichikov a Selifan.
— Quê? — respondeu ele com voz arrastada.
— Com o quê? Im becil! Que passo é este? Vam os, acorda os cavalos!
A verdade é que, há m uito tem po, Selifan ia com os olhos fechados, sacudindo, a largos intervalos, a sonolência, com as rédeas sobre os lom bos dos anim ais, tam bém adorm ecidos. Quanto a Petrushka, o vento tinha-lhe levado o gorro; e ele próprio, debruçado, apoiava a cabeça no j oelho de Tchichikov, de sorte que este teve de lhe dar um piparote. Selifan recobrou energias e, depois de ter fustigado várias vezes o lom bo do Picaço, que fez trotar, e brandindo o chicote sobre os cavalos, proferiu com voz aflautada, cantante: « Olá! Eh! Não tenhais m edo!» .
Os cavalos galoparam e arrastaram com o um a pena a ligeira caleche. Selifan contentava-se com gesticular e gritar: « Eh! Eh! Eh!» escorregando pelo assento conform e o coche subia ou descia as ladeiras de que estava cheia a estrada, que resvalava agora em leve declive. Tchichikov sorria, saltando ligeiram ente sobre o seu alm ofadão de couro, pois gostava da carreira rápida.
E qual é o russo que não gosta? Poderia ser de outro m odo, quando a sua alm a aspirava a aturdir-se, a revoltear, a dizer por vezes: « Que vá tudo para o diabo!» . Poderia não gostar desta carreira, quando nela se experim enta um m aravilhoso entusiasm o? Parece que um a força desconhecida nos transporta nas suas asas. Voa-se, e tudo voa ao m esm o tem po: os postes, os com erciantes que se encontram no cam inho, sentados na borda da sua carroça, a floresta de am bos os lados, as suas escuras filas de pinheiros e de áceres; o estrépito dos m achados e o crocitar dos corvos. A estrada voa toda e perde-se na distância. Algo de espantoso há nestas breves aparições, em que os obj etos não dão tem po a ser identificados. O céu, as ligeiras nuvens e a lua que passa através delas, são os únicos que parecem im óveis. Oh, troika, coche-passarinho, troika! Quem te inventou? Tu não poderias nascer senão de um povo ousado, nesta terra que nunca fez as coisas a m eio term o e que se estendeu com o um a m ancha de azeite por m etade do globo, na qual se cansariam os olhos antes de ter contado exatam ente o seu núm ero de verstas! O veículo é pouco com plicado, dir-se-á; não foi construído com parafusos de ferro, m as m ontado e afinado ao deus-dará com o m achado e a enxó, pelo habilidoso m uj ique de Yaroslav. O cocheiro não traz botas fortes, à estrangeira; com a sua barba e as suas luvas, senta-se, sabe Deus com o; sem em bargo, quando se levanta e gesticula, trauteando um a canção, os cavalos atiram -se im petuosam ente, as rodas não form am senão um a superfície contínua; a terra trem e; o peão, assustado, solta um a exclam ação — e a troika foge, devorando o espaço... E j á, ao longe, se divisa algo que perfura e que fende o ar.
E tu, Rússia, não voas com o um a troika relam pej ante, que não se poderia alcançar? Passas com estrépito entre um a nuvem de pó, deixando tudo atrás de ti. O espectador detém -se, confundido com este prodígio divino. Não será um raio caído do céu? Que significa esta desenfreada carreira que provoca espanto? Que força desconhecida encobrem estes cavalos, que o m undo j am ais viu? Oh corredores, corredores sublim es! Que torvelinhos agitam as vossas crinas! Dir-se-ia que o vosso corpo estrem ecido é todo orelhas. Ao cair sobre eles a canção fam iliar, soam em uníssono as suas correias de latão e, aflorando apenas a terra com os seus cascos, não form am m ais que um a linda reta fendendo o espaço. Assim voa a Rússia debaixo da inspiração divina... « Para onde corres? Responde!» . Não há resposta. Os guizos tilintam m elodiosam ente; revolto, o ar agita-se e converte-se em vento; tudo quanto se encontra sobre a terra é ultrapassado e, com , um olhar de invej a, as restantes nações afastam -se para lhe dar livre passagem .