Almas Mortas
Capítulo 6
Antigam ente, nos tem pos distantes da m inha m ocidade e nos da m inha infância, desaparecida para sem pre, todo m e regozij ava ao chegar pela prim eira vez a um sítio desconhecido, aldeia, vila ou cidade — pobre sede de algum distrito; os m eus olhos infantis encontravam por toda a parte onde satisfazer a sua curiosidade. Cada edifício, cada obj eto, desde que oferecesse um a particularidade qualquer — tudo deslum brava, tudo cativava o m eu olhar. Ou fosse um edifício público de pedra e cal, de arquitetura corriqueira, com a fachada guarnecida, em m ais de m etade, de j anelas fingidas, dom inando, sozinho, um grupo de hum ildes casebres de m adeira; ou fosse um a cúpula regular, coberta de folhas de ferro fundido, no cim o de um a igrej a nova, com alvorescências de neve: ou fosse um m ercador ou um j anota de aldeia que tivesse ido pavonear-se até a cidade — nada escapava à subtileza da m inha observação j uvenil. Metendo o nariz por um a porta, adm irava o corte desconhecido de um gabão, os caixotes com cravos, os frascos com bom bons m oscovitas, bolorentos, descortinados no interior de um a loj a. Interessava-m e de igual m aneira o oficial da guarnição, chegado sabe-se lá de onde, a m orrer de pasm o num a terreola de província, e o negociante de capote curto, que deslocava a leve carroça. E im aginava, então, a sua vida m iserável. Passava por um funcionário, e im ediatam ente perguntava a m im próprio: « Irá passar a noite a casa de algum colega ou regressará à sua, para aí esperar m eia hora, encostado à porta, e cear rapidam ente ao cair da noite, em com panhia de sua velha m ãe, da sua cunhada e de toda a restante fam ília? Que ocupação será a sua, quando, depois da refeição, um a criada com colar de vidrilhos ou um m oço com j aqueta grosseira lhe for levar um a vela, m etida num velho castiçal?»
Nas cercanias de um dom ínio rural, a m inha curiosidade despertava à vista de um alto cam panário de m adeira ou de um a velha igrej a escura e acaçapada. Através da ram aria, divisava o telhado verm elho e as brancas cham inés da casa solarenga; esperava, im paciente, que ela surgisse de entre o pequeno bosque e toda se apresentasse aos m eus olhos, olhos que — ai de m im ! — bem cedo com eçaram a estragar-se. Diante dele, esforçava-m e por adivinhar o caráter do seu dono. Tinha filhos ou antes m eia dúzia de filhas de olhos negros, risos cristalinos e alegres entusiasm os, a m ais nova das quais não seria a m enos bela? Era gordo e prazenteiro ou taciturno com o os fins de setem bro? Consultava incessantem ente o borda de água? Aborreceria a m ocidade com eternas perlengas acerca do centeio e do trigo?
Agora, aproxim o-m e com igual indiferença de todas as propriedades desconhecidas. Contem plo com tristeza a sua desconcertante vulgaridade. Nada m e excita; tudo quanto antigam ente haveria provocado em m im um gesto, um a explosão de riso, um a catadupa de palavras, tudo desliza antes os m eus olhos, entretanto que os lábios m antêm um silêncio im passível. Oh, a m inha m ocidade! Oh, a m inha candura!...
Enquanto Tchichikov ria intim am ente, m agicando na troça com que os aldeões acolheram o nom e de Pliushkin, a traquitana entrava num a grande povoação. Só deu conta disso quando sentiu um forte solavanco provocado por um calcetam ento de toros, ao pé do qual o em pedrado das cidades era um a autêntica delícia. Aqueles troncos levantavam -se e baixavam -se com o as teclas de um piano; e o desprevenido viaj ante recebeu um trem endo choque na testa, um arranhão na nuca, e m ordeu a ponta da língua, que ficou a sangrar.
O aspeto m iserável da povoação surpreendeu Tchichikov. Todas as casas apresentavam sinais de decadência. As vigas dos casebres estavam defum adas e carcom idas. Em m uitos tetos, havia a transparência de um crivo; alguns deles só tinham a escora m estra do cavalete e um esqueleto de travessas; as traves e barrotes dir-se-iam ter sido arrancadas pelos próprios habitantes raciocinando, e m uito bem , que em tem po chuvoso aquele telhado não podia servir-lhes de abrigo e que durante o bom tem po não havia m otivo para recear a chuva. Por outro lado, para que dem orarem -se em casa, tendo entrada franca na taberna da estrada ou onde m ais lhes apetecesse. Nenhum vidro nas j anelas, tapadas, m uitas vezes, com rem endos ou andraj os. Disform es, enegrecidas, as cornij as das balaustradas, que enfeitam , não se sabe porquê, a fachada de alguns casebres, eram apenas ruínas, sem nada de pitoresco. Detrás dos casebres, alinhavam -se m edas enorm es de trigo, esquecidas há m uito tem po; a sua cor recordava a de velhos tij olos m al cozidos; plantas bravas lhes cresciam no topo e arbustos aos lados. Evidentem ente, o trigo pertencia ao senhor dos dom ínios. À direita e à esquerda, seguindo as sinuosidades do cam inho, sobre as pilhas e os tetos arruinados, viam -se as duas igrej as da povoação, frente a frente: um a, de m adeira, j á abandonada; a outra, de pedra, com as paredes am arelecidas, suj as, e exibindo m uitas fendas. A casa senhorial ia-se adivinhando pouco a pouco. Surgiu, por fim , com pletam ente, quando à extensa fila de casebres sucedeu um a sem enteira ou cam po de couves, rodeado por um a baixa sebe, derruída em parte. A estranha casa senhorial, com a sua enorm e extensão fazia-nos lem brar um inválido. Em alguns pontos era de planta acaçapada, m as ascendia noutros a um andar; sobre o telhado enegrecido, que dificilm ente protegia a sua velhice, erguiam -se dois m iradouros em ruínas, com a pintura estragada, um em frente do outro. As paredes, que, por vezes, deixavam ver o travej am ento, tinham sofrido as inclem ências do tem po, da chuva e das borrascas do outono. Estava fechada a parte de m adeira da m aioria das j anelas e algum as delas estavam pregadas com tábuas; só duas, tortas por sinal, se encontravam abertas: um a delas m ostrava um rem endo triangular de papelão, de cor azul ferrete.
O velho parque abandonado, que se estendia por detrás de casa, entestava com a povoação e perdia-se no cam po, sendo a única nota da frescura pitoresca naquele im enso e lúgubre dom ínio. As ram agens m escladas das árvores desenvolviam -se caprichosam ente e tapavam o horizonte com nuvens esverdeadas, com irregulares cúpulas trem entes. O alvo tronco de um álam o gigantesco atirava-se para o ar com o um a coluna de m árm ore cintilante, por cim a daquele oceano de verdura. A sua pontiaguda copa, truncada pela tem pestade ou pelo raio, coroava aquela nívea brancura: a árvore parecia usar chapéu ou ter pousado em seus pináculos algum a negra passarola. O lúpulo, trepando pelos tufos de salgueiros, sorveiros e aveleiras, revestira todo o cercado e acabara por tom ar de assalto o truncado álam o. Chegado a m eio do tronco, caía, passando a agarrar-se à copa de outras árvores, ou ficava suspenso no ar, enroscando as suas finas gavinhas, que balouçavam suavem ente. O m aciço verde, inundado de sol, debruçava-se às vezes sobre um abism o gigantesco, escondido na som bra. Naquela profunda escuridão, adivinhava-se um fugitivo carreirinho, um a balaustrada derruída, um pavilhão m al seguro, o carcom ido tronco de um velho salgueiro, do qual saía o inextrincável tufo de um pé de ervilheira, um enredado de folhas e de galhos secos e, por fim , um m im oso ram o de ácer, que estendia obliquam ente as verdes folhas, em form a de palm a. Um raio de sol deslizava, sabe Deus com o, por cim a de um a delas, transform ando-a num obj eto transparente, ígneo, m aravilhosam ente radiante no m eio daquelas espessas trevas. Separados, no extrem o do parque, alguns álam os robustos, m ais altos que os outros, escondiam nas suas enorm es ram agens ninhos de corvos. Alguns deixavam sair seus ram os de folhas secas, m eio desgarrados dos troncos. Um quadro tão perfeito exige esforços continuados da natureza e da arte. Para o conseguir, é necessário que à obra, por vezes m uito com plicada do hom em , dê o seu últim o retoque o cinzel da natureza, que acepilhe os grosseiros flocos, que atenue o excesso de sim etria, afofando a rígida nudez dos planos, transm itindo o grato calor às frias criações da m edida e do bom -tom .
Após um a ou duas voltas e contravoltas, o nosso herói encontrou-se, ao cabo, em frente da casa senhorial que, de perto, lhe pareceu ainda m ais lúgubre. O m usgo cobria o portão e os taipais. Num erosas dependências, cobertos e arm azéns — de aparência arruinada — ocupavam o curral. À direita e à esquerda, um as cancelas davam acesso para outros pátios. Todos estes sinais de um a vida intensa denunciavam tristeza. Nada contribuía para anim ar aquele quadro: nenhum a porta se abria, não se via ninguém ; nenhum trabalho, nenhum a faina dom éstica. Só o portão principal estava aberto de par em par, unicam ente para dar passagem a um a carroça abrigada por um toldo, conduzida por um m uj ique, posto ali de propósito para dar um a aparência de vida àquele reino da m orte. Em qualquer outra ocasião, tê-la-íam os encontrado herm eticam ente fechada, a avaliar pelas gigantescas cadeias pendentes de um gancho de ferro. Junto de um a destas dependências, Tchichikov não tardou a lobrigar um ser estranho, a discutir com o hom em da carroça. Largo tem po esteve a dar tratos à m ioleira para descobrir a que sexo ele pertencia. Envergava um traj o incaracterístico, sem elhante a um vestido de senhora e, na cabeça, tinha um a coifa, ornam ento habitual das criadas Todavia, para ser de m ulher, a voz pareceu a Tchichikov dem asiado grave. « É um a m ulher» pensou, para se decidir prontam ente. « Não!» « Sim » concluiu, por fim , exam inando com m ais atenção a enigm ática criatura, que, por seu lado, fazia o m esm o. Sem dúvida, a chegada de um hóspede lhe parecia extraordinária, por isso que, depois de o contem plar, transferiu para Selifan as suas investigações e a seguir para os cavalos, que observou da cabeça até os cascos. A j ulgar pelo m olho de chaves dependuradas da cintura e pelas insolências com que repreendia o cam ponês, Tchichikov concluiu ter na sua frente um a governanta.
— Diga-m e, santinha — disse, apeando-se do coche — o patrão...
— Não está aqui — interrom peu a serviçal, sem esperar pelo resto da frase. — Que lhe queria o senhor? — acrescentou um m inuto depois.
— Trata-se de um negócio.
— Entre! — disse a boa m ulher, voltando-lhe as costas. As vestes enfarinhadas m ostravam um a grande brecha na parte inferior.
Tchichikov passou para um espaçoso e escuro vestíbulo, de onde vinha frio com o de um a cova; depois para um com partim ento igualm ente escuro, ilum inado apenas pela claridade que se escapava de um a grande fenda por debaixo da porta. Escancarada esta, viu por fim claro, e ficou surpreendido com a desordem que se apresentou aos seus olhos. Dir-se-ia que provisoriam ente ali tinham am ontoado todo o m obiliário, enquanto se esfregava o soalho. Em cim a de um a m esa, estava um a cadeira furada, ao lado da qual havia um relógio com o pêndulo parado, onde um a aranha tecera a sua teia. Logo a seguir, com as traseiras encostadas à parede, um aparador continha garrafões, prata antiga, porcelanas da China. Num a secretária, cuj o m osaico de nácar se descascava em certos pontos, m ostrando caixas am arelas cheias de cola, via-se um a infinidade de obj etos variados: um m ontão de papelada escrita em letra m iudinha, debaixo de um pisa-papéis de m árm ore esverdeado coroado por um ovo, e um velho volum e de folhas verm elhas, encadernado em couro; um lim ão j á m irrado, reduzido às proporções de um a avelã; o braço de um poltrona; um copo de pé, coberto com um a carta, e contendo um líquido onde nadavam três m oscas; um bocado de cera; um farrapo; duas penas suj as de tinta, secas com o um tísico; um a escova de dentes, am arelada, da qual, talvez, o dono se servia desde a invasão dos franceses ou antes disso.
Nas paredes, m isturavam -se alguns quadros, apertando-se uns contra os outros. Um a enorm e gravura am arela, representando um a batalha, grandes tam bores, soldados com tricórnio, que vociferavam , cavalos que se afogavam , tudo estava encerrado num a m oldura de acaj u sem vidro, m as cercada por finas chapas de bronze e com rosetas nos ângulos. Ao lado, ocupando m etade da parede, um im enso quadro enegrecido, representando flores e frutas, fatias de m elancia, um a cabeça de j avali, um pato com a cabeça a abanar. Do m eio do teto pendia um a lâm pada dentro de um invólucro cheio de pó, parecendo um casulo com a sua crisálida. A um canto acum ulavam -se os obj etos que, sendo m ais grosseiros, não m ereciam estar em cim a das m esas. Era difícil determ inar a natureza daquela pilha de coisas: o pó cobria-as até o ponto de deixar luvas nas m ãos que lhes tocavam . Mais claram ente, distinguia-se ali um fragm ento de pá de m adeira e um a sola velha. Poderia acreditar-se que aquele com partim ento estava desabitado, se um velho barrete de dorm ir que j azia sobre um a m esa não denunciasse a presença de um ser hum ano.
Enquanto Tchichikov exam inava um tal covil, de um a porta lateral saiu a governanta que tinha encontrado no pátio. Então, convenceu-se de que era antes um feitor. Um a m ulher não se barbeia, e aquele ser híbrido tinha recorrido à navalha, m as só m uito raram ente, por isso que o seu queixo parecia um a alm ofada. Com ar interrogador, Tchichikov esperava im paciente o que lhe ia dizer p m ordom o. Este, por seu lado, esperava que Tchichikov lhe falasse. Finalm ente, o nosso herói, diante daquela perplexidade, resolveu-se a perguntar;
— O seu patrão está ou não está em casa?
— Está aqui — disse o m ordom o.
— Onde?
— O senhor está cego? O patrão sou eu!
Naquele m om ento Tchichikov recuou, surpreendido, fixando o olhar no seu interlocutor. Tivera ocasião de ver toda a espécie de criaturas, até algum as que nem o leitor am igo nem eu j am ais chegarem os a ver; porém , até então nunca se lhe deparara um a personagem assim . O rosto daquele bonifrate, sem elhante ao de m uitos velhos achacadiços, nada oferecia de particular. Só a ponta do queixo sobressaía desm esuradam ente, até o ponto de ser preciso cobri-la com o lenço para o cuspo não lhe cair. Seus olhos, pequeninos, ainda que vivos, m exiam -se sob a alta coroa das sobrancelhas, com o as ratazanas quando chegam à entrada das suas escuras tocas, com o focinho pontiagudo, as orelhitas afitadas, inquietos bigodes, farej ando o ar com desconfiança, não vá o gato ou qualquer anim alej o agressivo estar oculto nas proxim idades... A indum entária era ainda m ais estapafúrdia. A m atéria prim a do seu capote desafiava qualquer análise: as m angas e as abas estavam tão ensebadas, tão reluzentes, que pareciam de couro; por detrás, volitavam quatro asas, de onde saía o algodão aos tufos. Ao pescoço, trazia um obj eto indeterm inável, acaso um a peúga, talvez um chale ou um plastron, porém , com toda a certeza, um a gravata. Resum indo: se Tchichikov o visse com aquela indum entária no pórtico de um a igrej a, ter-lhe-ia dado, sem dúvida, uns cobres, pois o nosso herói, sej a dito em seu abono, era caritativo e não podia privar-se de dar esm olas. Porém , diante dele não estava um m endigo, m as um gentil-hom em . E este gentil-hom em possuía m ais de m il alm as; os seus celeiros abarrotavam de trigo, de grão e de farinha; os seus cobertos, a sua eira e a sua despensa estavam repletos de teias de toda a espécie de panos, de peles de carneiro curtidas ou em bruto, de peixe defum ado, de legum es, de cogum elos, de salgados de toda a qualidade, com o dificilm ente se poderia encontrar em qualquer outra parte. Quem visitasse os seus arm azéns, cheios dos m ais diversos artigos, aliás nunca usados, j ulgar-se-ia num m ercado de Moscovo, onde as rotundas m atronas, seguidas das suas cozinheiras, vão todos os dias fazer as com pras; naquele m ercado, onde se em pilham m adeira lavrada, torneada, aparelhada, entrançada, tonéis, cubas, odres, prensas, j arros, cântaros, canastras em que os aldeões guardam a sua estopa e os seus variados apetrechos caseiros, caixas de álam o e m uitos outros utensílios, tanto de uso na Rússia pobre com o na Rússia opulenta.
Que utilidade podia ter para Pliushkin tal quantidade de sem elhantes obj etos? Durante toda a sua vida não se poderia ter utilizado deles, ainda que possuísse duas propriedades com o a sua. Todavia, aquilo não lhe bastava. Todos os dias percorria os cam inhos da aldeia, olhava por debaixo das pontes e dos passadiços e tudo quanto lhe caía nas m ãos — solas velhas, rem endos, pregos, bocados de louça — levava para casa, para o am ontoado que Tchichikov vira a um canto. « Lá vai o ferro-velho dar a sua volta!» diziam os cam poneses ao vê-lo sair de casa. Com efeito, nada havia em sua casa para deitar ao lixo. Se um oficial ao passar perdia a sua espora, a espora ia aum entar a pilha em questão; se um a cam ponesa esquecia a sua bilha j unto de um poço, ele tom ava conta da bilha. Se se dava o caso de um m uj ique vigilante o apanhar com a boca na botij a, restituía sem discussão o corpo de delito; porém , se este j á tinha sido atirado para a pilha, era assunto arrum ado. Então, j urava que era seu e m uito seu, com prado na época tal a fulano ou herdado de seu avô. No seu quarto recolhia tudo quanto via no chão: penas, bocados de papel, pingos de cera, e punha-os sobre a escrivaninha ou no peitoril da j anela. Contudo, noutros tem pos, este hom em não era m ais que chefe de fam ília, económ ico, a cuj a casa iam com er os vizinhos para aprender as regras da boa adm inistração. Tudo nela denunciava atividade e se fazia de um m odo regular; os m oinhos e as noras m oviam -se; trabalhava-se nas fábricas de tecidos, oficinas de carpinteiro e depósitos de panos. Por toda a parte se adivinhava o vigilante olhar do patrão, que, com o laboriosa aranha a inspecionar a sua teia, circulava, atarefado, por toda a extensão do dom ínio. Aquele rosto não revelava sentim entos violentos; m as lia-se a inteligência nos seus olhos. A sua conversação m ostrava conhecim ento e experiência da vida; era um gosto ouvi-lo. A dona da casa era apontada pela sua hospitalidade; duas lindas filhas, j ovens, louras, frescas com o rosas, acolhiam os visitantes, assim com o o filho do casal, um lindo rapaz que beij ava todas as pessoas sem cuidar se isto lhes agradava ou não. Nenhum a j anela estava entaipada. No rés do chão habitava o precetor francês, sem pre barbeado e grande conversador: quase sem pre levava para com er galos e patos bravos, ou som ente ovos de pardal, com os quais fazia um a pequena torta que só ele apreciava. Um a professora, sua com patriota, instalara-se tam bém no rés do chão. O dono da casa, à m esa, envergava um a sobrecasaca um pouco usada, m as decente, sem cerzidos nem rem endos.
Por fim , a boa dona da casa m orreu. Um a parte das chaves e, sim ultaneam ente, dos pequenos cuidados do lar, passaram para Pliushkin, cuj o caráter se tornou azedo. Com o todos os viúvos, fez-se m ais desconfiado e m ais avarento. Não podia confiar inteiram ente na filha m ais velha, Alexandra Stepanovna, e com razão, diga-se de passagem , pois a rapariga logo a seguir fugia de casa com um capitão de cavalaria — sabe-se lá de que regim ento — casando com ele, num a igrej a m iserável, sabendo que seu pai odiava os m ilitares, nos quais um estranho preconceito o fazia ver j ogadores e dissipadores de dinheiro. O pai, no seu íntim o, am aldiçoou-a; m as não quis persegui-la. A casa ficou vazia. O dono dava evidentes sinais da m aior avareza. Quanto m ais brancos se lhe tornavam os cabelos, m ais se entregava a essa paixão, tão certo é que a velhice e a avareza form am um a boa parelha. A professora foi despedida por suspeita de cum plicidade na fuga de Alexandra Stepanovna. O precetor tam bém foi dispensado; o filho j á atingira a idade de escolher um a carreira. Dirigido por seu pai ao tribunal da sede do distrito para iniciar-se no exercício de um a profissão decente, preferiu alistar-se com o soldado, pedindo um a farda a Pliushkin, que m uito habilm ente se recusou a dar-lha.
Por fim , tendo-lhe m orrido a últim a filha, o velho ficou senhor e guarda único das suas riquezas. A vida solitária proporcionava copioso alim ento à sua avareza. É sabido que esta paixão provoca um apetite de lobo; quanto m ais devora, m enos saciado está. Os sentim entos hum anos, j á nele m uito desvanecidos, iam dim inuindo gradualm ente. Aquela ruína am bulante desm oronava-se dia a dia. Com o que dando razão ao conceito que fazia dos senhores m ilitares, o filho perdeu ao j ogo de cartas um a avultada quantia. Enviou-lhe a sua cordial m aldição, e não m ais se interessou pela existência do rapaz. Pouco a pouco, foi sacrificando todas as j anelas da casa, à exceção de duas e, m esm o assim , um a delas apresentava, com o dissem os, um rem endo de papel.
De ano para ano, foi-se desinteressando dos principais ram os da sua atividade, para dedicar um a estranha atenção às plum as e ao ferro-velho, que colecionava no seu quarto. Dia a dia, tornava-se m ais intratável para os com pradores dos produtos das suas propriedades. Fartos daquele m iserável regatear, os negociantes abandonaram -no com o se fosse um dem ónio com figura de hom em . O feno e o trigo apodreciam , e as m edas, transform adas em estrum e, poderiam ser um bom adubo para a cultura das couves. Nos silos, a farinha, em pedernida, dir-se-ia esperar o m achado; receava-se tocar no bragal, nos panos e outros tecidos caseiros; não eram m ais que pó. Pliushkin, esquecendo as suas riquezas, lem brava-se de que em tal recanto do aparador existia um a vasilha contendo um resto de aguardente, na qual pusera um a m arca para im pedir que a sua gente a enxugasse sub-repticiam ente. Sabia tam bém o sítio exato de todas as suas plum as e de todos os seus cotos de cera. Todavia, as rendas eram pagas regularm ente; os cam poneses satisfaziam a m esm a im portância, as m ulheres entregavam -lhe o m esm o dízim o de nozes e as tecedeiras a m esm a quantidade de teia. Tudo isso era arrum ado nos arm azéns, em pilhava-se, transform ava-se em podridão e em trapos. O próprio Pliushkin era agora um andraj o com figura de hom em .
Alexandra Stepanovna foi lá um a ou duas vezes com seu filho, a ver se obtinha algum a coisa. A vida de guarnição não lhe oferecia j á, com certeza, o m esm o atrativo que antes do casam ento. Pliushkin dignou-se perdoar-lhe e até consentiu que o neto brincasse com um botão encontrado em cim a da m esa, m as não lhe deu um copeque. Alexandra Stepanovna voltou m ais tarde, levando, desta vez, duas crianças, um a torta e um guarda-pó, pois o que o pai trazia j á a envergonhava. Pliushkin acarinhou os dois netos, sentou-os nos j oelhos, andou com eles às cavaleiras, aceitou a torta e a bata, m as não puxou pelos cordões à bolsa. Alexandra Stepanovna foi-se com o tinha entrado.
Tal era a personagem que estava frente a frente a Tchichikov. Fenóm enos destes, havem os de confessar que se encontram raras vezes na Rússia, onde todas as coisas tendem a dilatar-se e não a contrair-se. E isto é tanto m ais para adm irar quanto, a seu lado, pode encontrar-se um cavalheiro que leva um a vida de dissipação, tanto de acordo com a nossa am plitude de espírito, e que queim a a sua vela, com o é costum e dizer-se, pelas duas pontas. Ao ver a m orada deste pródigo, o viaj ante, estupefacto, pergunta a si m esm o que príncipe reinante teve o capricho de construir o seu palácio entre aqueles fidalgos de m eia tigela. Um a m ultidão de cham inés, de grim pas, de m irantes, coroa um elegante corpo de edifício de pedra branca, flanqueado por alas e num erosos pavilhões para convidados. Bailes alternam -se com espetáculos; durante a noite inteira, ouvem -se as m úsicas no j ardim , ilum inado por focos e archotes. Alegre e descuidada, m etade de um a província passeia por baixo dos túneis de verdura, não reparando no que há de sinistro em toda aquela brutal ilum inação que, descorando aqui e ali algum ram o, o proj eta, num a atitude teatral, para fora dos tufos de verdura, enquanto o céu noturno se torna m ais obscurecido, m ais am eaçador, e as gigantescas árvores, cuj as copas trem endas parecem diluir-se m ais ao longe, nas trevas im penetráveis, exasperam em face daquele brilho artificial, que dir-se-ia atingir as próprias raízes.
Durante alguns m om entos, Tchichikov ficou perplexo em frente de Pliushkin, silencioso. Desconcertado pelo aspeto heteróclito da casa e do seu dono, perm aneceu incapaz de encetar a conversação, não sabendo em que term os explicar o m otivo da sua visita. Ia a dizer a Pliushkin que a fam a das suas virtudes o havia incitado a pagar-lhe pessoalm ente o m erecido tributo de sua hom enagem ; porém , um a subsequente vista de olhos por aquele antro persuadiu-o de que a palavra virtude seria vantaj osam ente substituída pela palavra economia e pela palavra ordem. Depressa voltou a si, declarando que, por ouvir exalçar-lhe o espírito de econom ia e um a especial com petência na adm inistração dos seus bens, j ulgara oportuno vir, em pessoa, certificar-se daquela afirm ativa. Poderia, sem dúvida, invocar m elhor pretexto, m as, de m om ento, não o soube encontrar.
Em resposta, Pliushkin m urm urou, não direi que entre dentes, pois j á não os tinha, m as entre lábios, alguns sons ininteligíveis que, certam ente, queriam dizer: « Diabos te levem m ais aos teus respeitos!» Porém , as leis da hospitalidade estão em nós tão arreigadas, que a elas nem um avarento podia fugir. De um m odo m ais percetível, acrescentou:
— Peço-lhe que se sente. Há m uito que não recebo visitas e confesso que não lhes reconheço utilidade. Maldito costum e! É preciso deixar cada um as suas ocupações e, ainda por cim a, dar feno aos cavalos desses senhores! Com i há um instante; a m inha cozinha é pequena, o forno está a cair aos bocados e, se o faço acender, arrisco-m e a pegar fogo à casa.
« Bonito!» , pensou Tchichikov. « Andei bem engolindo em casa de Sobakevich um pastelão e um pedaço de carneiro!»
— E calcule o senhor que não m e ficou nem um punhado de feno — continuou Pliushkin. — Além disso, com o poderia ser de outra m aneira? Não tenho m ais que um insignificante pedaço de terra; os m eus cam poneses cruzam os braços e não cuidam senão de beber... há de ver o senhor com o nos m eus últim os dias m e deixarão abandonado.
— Não obstante — insinuou Tchichikov — disseram -m e que o senhor possuía m ais de m il alm as.
— Quem lhe disse tal? Algum trapaceiro! Devia cuspir-lhe na cara, por ter zom bado de si. Mil alm as! Vá o senhor contá-las e verá o que delas m e ficou! De há três anos para cá, a m aldita febre m aligna fez-lhes um a razia.
— Se assim é! — exclam ou Tchichikov, com acentuada com iseração.
— Sim , senhor; é a pura verdade.
— E quantas, m ais ou m enos, se m e perm ite a pergunta?
— Oitenta!
— É lá possível!
— Não tenho o costum e de m entir, senhor.
— Outra pergunta: essas alm as, suponho que as terá contado depois do últim o recenseam ento?
— Isso de nada serviria! Se nos reportarm os a essa data, o m ínim o que teríam os de contar seria cento e vinte!
— Cento e vinte, disse o senhor? É possível? — exclam ou Tchichikov, de tal m odo estupefacto, que ficou com a boca aberta.
— Sou dem asiado velho para m e divertir m entindo, senhor; j á vou com oitenta anos — continuou Pliushkin, m ostrando-se ofendido por aquela exclam ação quase de alegria.
Tchichikov percebeu a inconveniência de m anifestar tão pouco interesse pela desgraça alheia. Em seguida, deixando escapar um suspiro, assegurou a Pliushkin a sua com paixão.
— Que adianto eu com a sua com paixão? — disse o fantoche. — Ela não poderia com pensar-m e. Tenho por vizinho um capitão (só Deus sabe de onde saiu!) que pretende ser m eu parente. « Tio! Tio!» grita, beij ando a m inha m ão. Enquanto se põe a lastim ar-m e, uiva a ponto de quase m e rom per os tím panos. Um grande am ador de álcool, a avaliar pelo seu nariz encarnado. Com certeza deu cabo do dinheiro levando um a vida faustosa, a não ser que se tenha deixado explorar por um a m ulher de teatro. Por isso, entende que será conveniente m anifestar-m e a sua com paixão.
Tchichikov esforçou-se por explicar que o seu pesar não se parecia com o do capitão e pretendeu dem onstrá-lo praticam ente. Por exem plo: oferecia-se para lhe pagar a contribuição relativa a todos aqueles cam poneses que, desgraçadam ente, tinham m orrido.
A proposta pareceu interessar Pliushkin. Abrindo os olhos, exam inou longam ente Tchichikov, acabando por lhe perguntar:
— Diga-m e, m eu bom senhor: não foi j á da tropa?
— Não — respondeu com velhacaria Tchichikov. — Fui funcionário do Estado.
— Funcionário do Estado? — repetiu Pliushkin, m ordendo os lábios. — Então, não ignorará que com isto será prej udicado...
— Para lhe ser agradável, sacrifico-m e de boa vontade.
— Ai, querido senhor! Ai, m eu benfeitor! — exclam ou Pliushkin, sem dar conta de que, com a alegria, o rapé lhe pingava do nariz com o o café pelo coador, nem que as abas do seu capote se escancaravam , deixando ver um fato bem pouco apresentável.
— Que alegria traz o senhor à m inha velhice! Ai, senhor! Ai, santos do céu!
Pliushkin não pôde continuar. Porém , ao fim de um instante, a alegria que subitam ente anim ara o seu rosto de pau deu lugar a um a preocupação igualm ente repentina. Lim pou-se a um lenço, am arfanhou-o e coçou o lábio superior.
— Perm ita-m e um a pergunta: tenciona pagar o im posto todos os anos?
Rem eter-m e-á a im portância respetiva ou entregá-la-á na repartição com petente?
— É fácil: assinarem os um contrato de venda com o se estivessem ainda vivos e o senhor passa-os para o m eu nom e.
— Sim , realm ente é um contrato de venda — repetiu Pliushkin, voltando a m ordiscar os lábios. — Mas isto acarretará despesas... Os nossos burocratas têm os dentes grandes. Dantes, arranj avam -se as coisas com uns tantos cêntim os e um saco de farinha; porém , agora é preciso um a carga de flor de trigo escolhido e um a nota de cem . São de m uito alim ento! Ainda não descobri a razão por que não há ninguém que ponha term o a esses abusos e lhes dirij a um a circular sobre o assunto. Quem poderá resistir a um a circular bem sentida?
« Resistirias tu m uito bem , palhaço!» , pensou Tchichikov, que se prontificou, em atenção a ele, a correr com as despesas da escritura.
Ao ouvir isto, Pliushkin certificou-se da estupidez do visitante. Debalde queria fazer-se passar por funcionário do Estado; m as não era, afinal, senão um oficial, um conquistador de atrizes. Incapaz de esconder a sua alegria, desej ou todas as felicidades possíveis a Tchichikov e a seus filhos, sem tratar de saber se os tinha ou não. Aproxim ou-se da j anela, bateu nos vidros e cham ou:
— Proshka!
Ao fim de um m inuto, ouviu-se na antessala um prolongado ruído. Por fim , abriu-se a porta, dando passagem a Proshka, rapaz de treze anos, com um as botas tão avantaj adas que, ao andar, am eaçavam fugir-lhe dos pés. Causará surpresa vê-lo calçado de tal m aneira: digam os desde j á por quê. Os criados de Pliushkin dispunham unicam ente de um par de botas para todos, as quais estavam sem pre na antessala. Quando um deles percebia que o cham avam , atravessava o pátio, descalço, a correr, e encafuava as botas antes de entrar na sala. Ao sair, tornava a pô-las no seu lugar e retirava-se outra vez descalço. Quem olhasse pela j anela, num a m anhã de outono, na altura das prim eiras nevadas, poderia ver todos os criados a dar cam balhotas a que, certam ente, não levaria a palm a, no tablado, o m ais fam oso dos nossos bailarinos.
— Olhe para este focinho, m eu bom senhor — disse Pliushkin indicando Proshka. — É burro com o só ele; m as deixe-o andar no m eio de algum a coisa e verá com o logo lhe deita a unha. Que vieste aqui fazer, im becil?
Manteve o am o um breve silêncio, a que Proshka respondeu com outro.
— Arranj a o sam ovar, ouviste? Dá esta chave a Mavra; diz-lhe que vá à despensa; lá encontrará um bocado de bolo, que trouxe Alexandra Stepanovna; que o sirva com chá. Mas espera, estúpido! Onde vais a correr dessa m aneira? Terás o diabo no corpo? Escuta prim eiro o que te digo. O bolo está com um pouco de bolor; diz-lhe que o raspe com um a faca e, sobretudo, que não deite fora as m igalhas: que as leve ao galinheiro. E tu, livra-te de entrar na despensa; aliás, sabes para que é o vergalho. Já tens bom apetite e isto abrir-to-á ainda m ais. Experim enta, experim enta entrar na despensa; eu te vigiarei da j anela… É im possível confiar neles — continuou, dirigindo-se a Tchichikov quando Proshka m ais as suas botas desapareceram . Mas logo voltou a desconfiança relativam ente ao hóspede; aquela liberalidade pareceu-lhe inverosím il.
« Ao fim e ao cabo» , pensou, « talvez não passe de um charlatão, com o todos os pródigos. Para que lhes ofereçam um a xícara de chá, prom etem m undos e fundos e depois… se te vi, não m e lem bro! Por isso, com o m edida de precaução e desej oso de experim entá-lo, insinuou que seria preferível fazer escritura sem m ais dem oras, tanto m ais que nunca um hom em está seguro do dia de am anhã.»
Tchichikov m ostrou-se disposto a firm ar o contrato naquele m om ento; exigia um a relação exata dos cam poneses.
Estas palavras tranquilizaram Pliushkin. Pareceu lem brar-se de qualquer coisa; pegou nas chaves, abriu a porta de um aparador, m exeu longo tem po nos copos e nas taças, e disse por fim :
— Mas eu tinha um a excelente ratafia. Dar-se-á o caso de a terem bebido esses m alditos? Não há m eio de dar com ela... Alto, não será isto?
Tchichikov tinha nas m ãos um garrafão carregado de pó.
— Isto ainda é do tem po da m inha falecida m ulher. Aquela velhaca da governanta não tinha em enda. Nem sequer arrolhava o garrafão. Afogavam -se aqui toda a espécie de anim aizinhos; m as j á os tirei e agora está lim pinho. Vou servir-lhe um cálice.
Com poucos desej os de provar aquele néctar, Tchichikov desculpou-se: j á com era e bebera o suficiente.
— Já com eu e bebeu? — disse Pliushkin. — Via-se logo que era um hom em de boa sociedade: não tinha necessidade de com er para ficar satisfeito; pelo contrário, a certos patifes nada há que os farte. Aí está, por exem plo, o capitão: « Tio» , diz ele, quando m e vem ver, « m ande que m e sirvam algum a coisa!» E tanto sou eu tio dele com o ele é m eu avô. Com o não tem em sua casa nada para m eter à boca, torna-se hóspede dos outros... Mas, perdão: quer um a lista de todos esses bandidos? Muito bem ! Por acaso, tenho um a que elaborei para dar baixa no próxim o recenseam ento.
Pliushkin pôs os óculos, rem exeu entre os seus papéis, desfez um m ontão de em brulhos. O pó que levantava fazia espirrar o hóspede. Destacou, afinal, um a folha cheia de carateres escritos. Os nom es dos cam poneses apertavam -se uns contra os outros com o gafanhotos. Havia-os de toda a casta: Param onov, Pim ionov, Panteleim onov, e até um certo Gregório Chega-que-não-chegarás; ao todo, m ais de cento e vinte. Em presença daquela quantidade, Tchichikov sorriu e guardou a folha na algibeira. Então com unicou a Pliushkin que teria de ir à cidade para redigir o contrato.
— À cidade? Julga-o necessário?... Com o abandonar a m inha casa? Todos os que m e rodeiam ou são ladrões ou velhacos; bastava um para a esvaziar de tal form a que não m e ficaria um prego onde pendurar o m eu cafetão.
— No entanto, o senhor deve ter alguém conhecido.
— Não; todos os m eus conhecim entos m orreram ou os perdi de vista... Ah, sim , sim ! Perdão, senhor. Onde tinha eu a cabeça? — exclam ou de súbito. — Ainda tenho um , o próprio presidente; dantes, vinha ver-m e a cada passo. Som os com panheiros de infância. Noutros tem pos, saltávam os j untos os m uros. Isto é o que se cham a um conhecim ento! Acha que devo escrever-lhe?
— Excelente ideia!
— Sim ; é um velho conhecido. A nossa am izade vem dos tem pos da escola.
Naquela face de pau incidiu, de repente, um raio de calor, um pálido reflexo de sentim ento. Acontece, às vezes, que um afogado aparece à superfície da água, arrancando um grito de alegria à m ultidão que se acotovela nas m argens. Porém , debalde lançam um cabo, na esperança de que reapareça um om bro, ou um braço do infeliz, extenuado pela luta. Nada se m ove j á, e o m ar volta â ficar silencioso, tornando-se ainda m ais im penetrável e m ais deserto. Assim , após aquele instante de anim ação, o rosto de Pliushkin tornou-se m ais calm o e m ais insensível.
— Tinha na m inha secretária um a folha de papel branco; só Deus sabe o que fizeram dela! Por aqui, j á vê o senhor se posso confiar nesta gente reles.
Passeou os olhos pela escrivaninha, depois revolveu tudo por baixo, e gritou, por fim :
— Mavra!... Ó Mavra!
A este berro acudiu um a m ulher, com um prato onde trazia o célebre pedaço de bolo. E estabeleceu-se o diálogo seguinte:
— Tiraste daqui o m eu papel, ladra?
— Que papel, senhor? Palavra de honra que não vi outro, além daquele pedaço com que o senhor cobre o copo.
— E eu vej o nos teus olhos que m o roubaste.
— Para quê? Não sei ler nem escrever...
— Mentes. Levaste-o ao filho do sacristão, que está sem pre a fazer garatuj as.
— Se ele precisa de papel, sabe m uito bem onde encontrá-lo e zom ba dos restos do senhor.
— Espera algum tem po. No dia do Juízo te haverás com os tridentes dos dem ónios. Verás com o eles te queim am !
— Porquê, m eu Deus, se estou inocente? Não m exi no seu papel. Posso ter as m inhas fraquezas, m as nunca m e atribuíram o m ais insignificante roubo.
— Verás com o te hão de atiçar: « Tom a, velhaca» , te dirão, « que enganavas o teu am o! Deem -lhe para baixo!» E os tridentes hão de entrar em atividade.
— Mas eu lhes gritarei: « Porquê, m eu Deus, porquê? Eu não peguei em nada!...» Mas olhe, senhor, ali está o seu papel, na secretária. Sem pre há de im plicar com todo o m undo sem razão!
Pliushkin reconheceu, efetivam ente, o seu papel. Mordeu os lábios e acabou por dizer:
— Vam os em bora! A galinha não acaba de cacarej ar! Digo-lhe um a palavra e ela responde com dez! Espera um bocado; se, em vez de cacarej ar, m e trouxesses um pouco de lum e para eu lacrar esta carta... Ouve: com certeza vais trazer-m e um a vela, sem reparar que o sebo se consom e inutilm ente. Não; será m elhor que m e tragas um a brasa.
Quando Mavra se retirou, Pliushkin sentou-se num a poltrona, pegou num a pena e virou por todos os lados a folha de papel. Por fim , certo de que não podia poupar o m enor bocado, m olhou a pena num tinteiro que continha um líquido tresandando a m ofo, com inúm eras m oscas no fundo, e com eçou a escrever um as letras sem elhantes a notas de m úsica. A cada m om ento refreava a m ão com o para a dom inar, encostava parcim oniosam ente um a linha à outra, lam entando os espaços em branco que, m au grado seu, não podia aproveitar.
É possível que um hom em possa degradar-se a tal ponto e se torne assim tão m iserável, tão ruim , tão avaro? Tudo é verosím il; a natureza hum ana é capaz de tudo. O j ovem im petuoso de hoj e estrem ece de horror diante do velho que terá de ser am anhã. Quando, ao deixar os anos encantadores da nossa m ocidade, nos lançarm os no árduo cam inho da idade m adura, levem os com o farnel os nossos prim eiros im pulsos de hum anidade. De outra m aneira, j á não os encontrarem os. A velhice am eaça-nos, essa im placável velhice que não perm ite reaver nada daquilo que um a vez se abandonou. O túm ulo é m ais clem ente; nele pode ler-se: « Aqui j az um hom em » , enquanto nos som brios e glaciais atos da desum ana velhice nada se pode entrever.
— Por acaso, terá o senhor algum am igo — disse Pliushkin — que necessite de alm as fugidas?
— Tem algum a? — perguntou Tchichikov, arrancado às suas reflexões.
— Ai, sim ! O m eu genro procedeu a um a revisão delas; diz que j á se lhe perdeu o rasto; m as esse m ilitar sabe m elhor fazer tilintar esporas do que apresentar um requerim ento à j ustiça.
— Quantas serão, ao todo?
— Um as setenta.
— É im possível!
— Palavra de honra! Estes m andriões não fazem senão beber, enquanto eu m orro de fom e. Assim , todos os anos, alguns desses gulosos resolvem fugir... Aceitaria por eles o que m e dessem . Aconselhe o seu am igo a que m os com pre. Ainda que som ente achasse um a dúzia, faria um esplêndido negócio. Cada alm a recenseada vale quinhentos rublos!
« Não deixarem os transpirar nada deste negócio!» , pensou Tchichikov. Im ediatam ente declarou que nenhum am igo seu queria com prar sem elhante m ercadoria; as despesas seriam elevadíssim as e, de preferência a perseguir os fugitivos, m ais valia abandoná-los ao seu próprio destino. No entanto, um a vez que Pliushkin estava tão aborrecido, ele, Tchichikov, por com paixão, estava disposto a com prar-lhe os fugitivos: m as só podia oferecer por eles um a ridicularia.
— Mas quanto? — interrogou Pliushkin, m etam orfoseado em autêntico j udeu: as suas m ãos trem iam com o varas verdes.
— Vinte e cinco copeques por cada alm a.
— Dinheiro sonante? Sim plesm ente, m eu bom senhor, tenha piedade da m inha m iséria; ao m enos, dê-m e quarenta copeques.
— Venerável ancião: não só lhe daria de bom grado quarenta copeques com o quinhentos rublos, tão condoído estou por ver um hom em vítim a do seu bom coração.
— É verdade! É verdade! — aprovou Pliushkin, abanando a cabeça, com pungido.
— Já vê o senhor. Com preendi rapidam ente o seu caráter. Dizia, pois, que de bom grado lhe daria quinhentos rublos por cada alm a; porém , desgraçadam ente... a m inha fortuna não o perm ite. Todavia, dou-lhe m ais cinco copeques, isto é, trinta por cada alm a.
— Ah, m eu bom senhor! Pelo m enos, m ais dois!
— Já que tanto m e pede, sej a. Quantos são os fugitivos? Creio que dizia setenta...
— Setenta e oito, ao todo...
— Setenta e oito, a trinta e dois copeques são... — Depois de refletir durante um segundo, o nosso herói, forte em aritm ética, acrescentou: — São vinte e quatro rublos e noventa e seis copeques.
Fez com que Pliushkin passasse um recibo e, em seguida, entregou-lhe o dinheiro, que o outro agarrou com as duas m ãos e foi guardar na escrivaninha com tanto cuidado com o se transportasse um líquido precioso, receando derram á-lo a todo o instante. Um a vez j unto da escrivaninha, recontou as notas e m eteu-as num dos caixotes destinados a servir-lhes de túm ulo até ao dia em que o padre Carpo e o padre Policarpo, os dois sacerdotes da paróquia, o enterrassem a ele, Pliushkin, com indizível satisfação do seu genro, da sua filha e, possivelm ente, do capitão que se inculcava seu parente. Aferrolhado o dinheiro, Pliushkin caiu de novo na poltrona, e dir-se-ia não encontrar m ais assunto para continuar a conversa.
— Já se quer ir em bora? — disse, por fim , observando um gesto esboçado por Tchichikov para tirar o lenço.
Esta pergunta fez lem brar ao nosso herói que, efetivam ente, não havia razão para se dem orar m ais.
— Sim , tenho necessidade de m e retirar — disse, pegando no chapéu.
— Mas o chá?
— Se m e dá licença, fica para outro dia.
— E eu que m andei arranj ar o sam ovar! Para m e exprim ir com franqueza, tom o poucas vezes chá: é um a bebida cara e o açúcar tornou-se inacessível. Proshka, j á não é preciso o sam ovar! Leva o pedaço do bolo a Mavra; diz-lhe que o ponha outra vez no seu lugar; ou m elhor, trá-lo, entrega-m o. Eu próprio o guardarei. Adeus, m eu bom am igo, que Deus o protej a! Não se esqueça da carta para o presidente; é um antigo conhecim ento; fom os condiscípulos!
Em seguida, aquele espantalho, engelhado, acom panhou o hóspede até o portão, que se fechou cuidadosam ente. Depois, inspecionou os arm azéns, certificando-se de que os guardas — que davam sinal de si batendo num tonel vazio, em lugar de baterem arcos de ferro fundido — estavam nos postos; lançou um a vista de olhos pela cozinha, onde, com pretexto de provar a com ida do pessoal, com eu sopa de couves e trigo. Por fim , depois de ter acoim ado toda a gente de m adraços e ladrões, retirou-se para os seus aposentos. Só, pôs-se a im aginar um processo de obsequiar o seu hóspede, com um a m agnanim idade verdadeiram ente inaudita.
— Oferecer-lhe-ei o m eu relógio, que é de boa prata e não de latão ou de aço. É certo que não regula m uito bem ; todavia, que o m ande consertar. Ele ainda é novo e, com certeza, precisa de um relógio para agradar à noiva. Mas, não — acrescentou, após alguns instantes de reflexão — é m elhor que lho deixe em testam ento, para que, depois da m inha m orte, conserve de m im um a boa recordação...
O nosso herói não precisava de relógio para dar provas da m ais excelente disposição de espírito. Um a aquisição tão inesperada superava o m ais belo dos presentes: entre m ortos e fugitivos, a som a ultrapassava duzentas alm as. Com efeito, logo que chegou a casa de Pliushkin farej ou um bom negócio; m as nunca esperara sem elhante pechincha. Por isso, durante todo o cam inho, m anifestou a sua louca alegria; assobiou, im itou a com eta, soprando com a m ão, trauteou um a cantiga de tal m odo insólita que Selifan, depois de ter prestado atenção durante m uito tem po, term inou por abanar a cabeça, dizendo:
— Caram ba, o patrão hoj e está alegre!
Ao lusco-fusco chegaram aos subúrbios da cidade. A luz confundia-se com a som bra, com o os obj etos se confundiam entre si. A grossa travessa pintada a duas cores que serve de barreira tinha adquirido uns tons indeterm inados. Não se lobrigava o nariz da sentinela; os seus bigodes pareciam colados à testa, m uito acim a dos olhos. Ruidosos solavancos anunciaram a chegada do coche à rua em pedrada. Os candeeiros não estavam acesos. Só nalgum as j anelas com eçava a aparecer luz, enquanto as travessas e os becos serviam de teatro a cenas e a conversas próprias de tais horas, em todas as cidades onde pululam soldados, cocheiros, operários, e em que as raparigas que usam chales encarnados e sapatos sem m eias volitam pelas esquinas com o m orcegos. Tchichikov não prestou a isso a m enor atenção, nem aos num erosos funcionários efem inados que, de bengala na m ão, regressavam de um passeio pelo cam po. Em certos m om entos, ouvia recrim inações, provavelm ente fem ininas: « Mentes, borrachão, nunca te perm iti nada disso!» ou: « Não m e toques, indecente. Vem à esquadra, que eu farei ver se tenho ou não razão!» Num a palavra, as expressões indecorosas que im pressionam o sonhador de vinte anos, quando, ao regressar do teatro, recorda um a noite espanhola, um a deliciosa rapariga com guitarra e cabelos frisados. Preso de um celeste feitiço, evola-se até os céus, conversa com Schiller, quando, subitam ente, aquelas desconcertantes palavras soam aos seus ouvidos com o um trovão: então, ele volta a encontrar-se na terra e até na praça do Feno, j unto de um a alfurj a, no m eio do bulício de todos os dias.
Afinal, depois de um últim o solavanco, a carripana afundou-se, com o num alçapão, dentro do portal da hospedaria, onde Petrushka recebeu Tchichikov, oferecendo-lhe a m ão para o aj udar a descer do carro, enquanto segurava as abas do seu albornoz, que ele não gostava de ver flutuar. O m oço da hospedaria apareceu tam bém , de lam pião em punho e guardanapo ao om bro. Se o regresso do am o o regozij ava, tal não o m anifestou Petrushka; apesar disso, trocando um olhar com Selifan, pareceu que se lhe desanuviava a carregada fisionom ia.
— O senhor fez boa viagem ? — perguntou o m oço, alum iando a escada.
— Sim — disse Tchichikov, ao chegar ao patam ar.
— E tu, com o vais?
— Graças a Deus, vou bem , senhor! — respondeu o m oço, inclinando-se.
— Ontem , chegou um oficial, um tenente. Foi para o dezasseis.
— Um tenente?
— Não saberei dizer ao senhor o que é; m as chega de Riazan e tem uns form osos cavalos baios.
— Perfeitam ente! Continua a portar-te bem — disse Tchichikov j á no seu quarto. Ao atravessar a antessala, torceu o nariz e disse a Petrushka: — Bem podias ter as j anelas abertas!
— Mas eu abria-as — replicou im pudentem ente Petrushka.
O am o, em bora soubesse que o pulhastro m entia, não insistiu. A viagem deixara-o exausto. Ceou um leitão, despiu-se, m eteu-se debaixo do cobertor e depressa adorm eceu profundam ente, com o m aravilhoso sono, apanágio dos ditosos m ortais que desconhecem o que são as pulgas, as hem orroidais e o excesso de inteligência.