Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 14 de 15

Páginas do PDF

Almas Mortas

Capítulo 3

 

« Se o coronel Koshkariov está realm ente doido, não há nisso nenhum inconveniente» , disse consigo Tchichikov, vendo-se de novo em pleno cam po. Só se divisavam espaços infinitos que se confundiam com a abóboda celeste, onde flutuavam algum as nuvens.

— Tom aste bem conta, Selifan, no cam inho que tem os de seguir para irm os a casa do coronel Koshkariov?

— Não tive tem po, Pavel Ivanovitch; estava ocupado com a reparação da caleche; m as Petrushka perguntou ao cocheiro.

— Perdeste o j uízo? Quantas vezes te tenho dito que não peças inform ações a Petrushka? Petrushka é um a besta, um a cavalgadura, e a esta hora, com certeza, está cozendo a bebedeira.

— Isto não é caso de bruxaria — disse Petrushka, voltando-se um pouco e com o olhar errabundo. — Salvo que, ao descer a encosta, terem os de m eter pelos cam pos, não tem nada que saber.

— E tu, salvo a aguardente, não m olhaste o gasganete? Valha-te o diabo!

Depois disto, Tchichikov acariciou o queixo, pensando: « Que diferença há, com efeito, entre um espírito cultivado e um reles lacaio!» .

O cam inho, entretanto, com eçava a descer. Outra vez apareceram as cam pinas e os tufos de álam os.

Brandam ente em balada pelas flexíveis m olas, a pacífica sege descia com precaução a suave ladeira, para m eter, por fim , pelos cam pos, ao largo dos m oinhos, com um surdo rum or quando transpunha um a ponte, um leve balanceio sobre o chão m acio e dando solavancos quando encontrava covas.

Todavia, Tchichikov não sentia a m enor sacudidela, com o se fosse sentado num a cadeira.

Passavam entre duas filas de salgueiros e prateados álam os, que pareciam afastar-se à sua passagem , fustigando com os ram os Selifan e Petrushka, sentados na boleia. A cada instante, este deixava cair o gorro. O rude serviçal saltava em terra, rogando pragas à árvore idiota e àquele que a tinha plantado. Contudo, sem pre com a esperança de que se não repetisse o incidente, não se decidia a enfiar o gorro nem sequer a levá-lo na m ão.

Às árvores j á referidas vinham agora j untar-se o choupo, o plátano e o pinheiro. O bosque obscurecia-se, com o se quisesse fundir-se com a noite. Em breve, porém , entre os ram os e os troncos, cintilavam regueiros de luz, com o espelhos refulgentes. As árvores foram rareando, os rastos de luz alargando-se... e os viaj antes encontraram -se em presença de um lago, líquida planura de quatro verstas de diâm etro. Dom inando-a, na m argem oposta, estendia um a aldeia as suas choupanas de m adeira cinzenta. Ouviram -se gritos. Duas dezenas de hom ens, com a água até a cintura e até os om bros, arrastavam para a m argem um a im ensa rede, em que, por um a estranha aventura, se tinha m etido, ao m esm o tem po que o peixe, um indivíduo tão alto com o largo, rotundo, m uito cheio, um a verdadeira m elancia, um tonel. Via tudo quanto se passava e gritava em alta voz:

— Dionísio, o pesado: passa o teu cabo a Kuzm a! Kuzm a: pega no cabo de Dionísio! Não puxes com tanta força! Tom az, o grande: aj uda Tom az, o pequeno! Com m enos força, a ver, com m enos força; assim rom pes a rede!...

O tonel, com o se vê, não tinha receio por ele; a sua rotundidade não o deixava afogar-se. Teria querido subm ergir-se e, apesar de todos os esforços, a água fazia-o flutuar. Ainda que m ais duas pessoas o cavalgassem , sobrenadaria com o um a bexiga teim osa, gem endo um pouco debaixo do seu peso e lançando bolhas de ar pelo nariz. O que ele tem ia, porém , era que a rede se rom pesse e que o peixe escapasse. Tam bém ele se fez arrastar por m eio de cordas, atiradas por vários hom ens que estavam na m argem .

— Esse deve ser o coronel Koshkariov — disse Selifan.

— Porquê?

— Porque tem o corpo m ais branco que os outros e um a respeitável obesidade. Vê-se logo que é um senhor.

— Entretanto, j á haviam tirado o hom em da rede, perto da m argem . Quando com preendeu que j á tinha pé, ergueu-se e divisou então a caleche que descia para o dique, e Tchichikov dentro dela.

— O senhor j antou? — gritou, aparecendo na m argem com o peixe apanhado, o senhor, ainda envolvido no aparelho, com o, no estio, a m ão de um a dam a surge de um a mitene. Tinha um a das suas servindo-lhe de um bela sobre os olhos, para o resguardar do sol, e a outra m ais abaixo com o a Vénus de Médicis saindo do banho.

— Não — disse Tchichikov, descobrindo-se e cum prim entando, ainda na caleche.

— Então, graças a Deus!

— Que aconteceu? — perguntou Tchichikov com curiosidade.

— O senhor j á vai ver!... Tom az, o pequeno: deixa a rede e m ostra-nos o esturj ão! Dionísio, o pesado, vem aj udar-m e!

Dois pescadores tiraram do balde a cabeça de um peixe enorm e.

— Que m onstro, não?! Vem diretam ente do rio — gritou o hom em gordo. — Mas entre o senhor! Cocheiro! Vai pelo cam inho de baixo, através da horta. Tom az, o grande: corre a abrir a grade. Andai, andai, que ele vos ensinará o cam inho. Eu volto j á.

Pés descalços, em cam isa, e Tom az, o grande, foram a correr à frente da caleche, através de toda a aldeia, onde, diante de cada casa, estavam a secar redes, nassas e tarrafas, pois todos os cam poneses eram pescadores. Aberta a grade e através da horta, a caleche chegou a um largo, perto de um a igrej a de m adeira, atrás da qual apareciam os telhados das dependências.

« É original este Koshkariov!» , pensou Tchichikov.

E voltou a cara. O hom em gordo chegava, vestido com um redingote de nanquin esverdeado, um as calças am arelas, o colarinho sem gravata, feito um Cupido. Ia sentado de lado num cochezinho que a sua volum osa pessoa ocupava com pletam ente.

Tchichikov gostaria de lhe ter dito algum a coisa; m as o hom em gordo havia desaparecido j á. O cochezinho reapareceu no lugar em que se pescara o peixe. De novo ressoaram as vozes:

— Tom az, o pequeno! Tom az, o grande! Kuzm a! Dionísio!

Quando Tchichikov chegou à escadaria, ficou profundam ente surpreendido ao encontrar ali o gordo senhor, que o recebeu de braços abertos. Tal celeridade era incom preensível. Deram um ao outro três abraços em cruz, segundo o antigo costum e russo. O senhor do lugar era um hom em de outros tem pos.

— Trago ao senhor cum prim entos de Sua Excelência! — disse Tchichikov.

— De que Excelência?

— Do seu parente, o general Alexandre Dm itrievich.

— Quem é essa personagem ?

— O general Betrischev — respondeu Tchichikov, um pouco surpreendido.

— Não conheço!

A surpresa de Tchichikov redobrou.

— Com o? Suponho que tenho a honra de falar ao coronel Koshkariov.

— Não; está enganado! Graças a Deus, não é a casa dele que o senhor chega, m as à m inha, Piotr Pietrovich Piotuj , Piotuj , Piotr Pietrovich!

Tchichikov ficou petrificado.

— Que significa isto? — disse, voltando-se para Selifan e Petrushka, que, com a boca e os olhos m uito abertos, estavam , um na boleia, outro à portinhola da carruagem . — Que fizestes, im becis? Mandei-vos ir a casa do coronel Koshkariov e eis-nos em casa de Piotr Pietrovich Piotuj !...

— Pois fizeram m uito bem ! Ide, ide à cozinha, e dar-vos-ão um bom copo de aguardente, bons rapazes! — disse Piotr Pietrovich Piotuj . — Desengatai j á os cavalos e ide em seguida para a cozinha.

— Francam ente, sinto escrúpulos; um equívoco tão inesperado... — disse Tchichikov.

— Qual equívoco! Prim eiro, prove o senhor a com ida; depois verá se foi realm ente um equívoco. Entre, faça favor — disse Piotuj , tom ando Tchichikov pelo braço.

Foram recebidos por dois rapazes em traj o de verão, altos e delgados com o j uncos, um palm o m ais altos que seu pai.

— Meus filhos; estudantes em férias... Nikolasha, acom panha este senhor; e tu, Alexasha, vem com igo.

O dono da casa desapareceu. Tchichikov conversou com Nikolasha, que dem onstrou não prestar para nada. Logo às prim eiras palavras, disse a Tchichikov que o colégio da cidade deixava m uito a desej ar; que seu irm ão e ele desej avam ir a S. Petersburgo, pois, na província, a vida não m erecia a pena ser vivida.

« Com preendo» , pensou Tchichikov; « sonham com cafés e passeios.»

— Diga-m e — continuou em voz alta —: em que estado se encontra a propriedade de seu pai?

— Hipotecada! — respondeu o próprio pai, regressando ao salão. — Hipotecada!

« E esta?!» , refletiu Tchichikov. « Em breve não ficará um a só propriedade nas m ãos do dono. É preciso andar ligeiro.»

— Pois fez m al o senhor hipotecando-a tão depressa — disse com ar com passivo.

— Não — replicou Piotuj —; até há quem diga que é vantaj oso. Toda a gente assim procede. Com o hei de ficar atrás dos outros? Além disso, tenho sem pre assim vivido; agora desej o experim entar a vida de Moscovo; os m eus filhos anim am -m e; querem aproveitar as luzes da capital.

« Que im becil!» , pensou Tchichikov. « Dissipará toda a fortuna e fará dos seus filhos uns estroinas. E, não obstante, é um a esplêndida propriedade! Segundo parece, nem eles nem os cam poneses são dignos de pena. Um a vez iniciados estes franganotes nos restaurantes e teatros, vai tudo pela água abaixo. Este brutinho podia viver tão bem no cam po!»

— Já sei o que o senhor está a pensar — disse Piotuj .

— Que é? — perguntou, um tanto preocupado, Tchichikov.

— O senhor está a pensar: « Que im becil é este Piotuj ! Convidou-m e para j antar e não está pronta a com ida! Em breve estará, querido, em m enos tem po do que necessita um a rapariga pelada para fazer a trança.

— Olha! Aí está Platon Mij ailovich! — disse Alexasha, que olhava pela j anela.

— Traz um cavalo baio — acrescentou Nikolasha.

— Onde? Onde? — inquiriu Piotuj , aproxim ando-se da j anela.

— Quem é Platon Mij ailovich? — perguntou Tchichikov a Alexasha.

— É o nosso vizinho, Platon Mij ailovich Platonov, um hom em encantador — respondeu este.

Nisto, viu-se entrar Platonov em pessoa, um belo m ocetão, esbelto, de cabelo crespo, de um louro-claro. Fazendo tilintar a coleira de cobre, apareceu atrás dele um enorm e cão, cham ado Iarbas.

— O senhor j antou? — perguntou o dono da casa.

— Jantei.

— Quer caçoar com igo?

— Estej a descansado; não com i nada, não tenho apetite.

— Se visse com o correu a pesca! Que grande esturj ão nós apanhám os!

— Com o m e custa ouvi-lo! Por que está sem pre alegre?

— Ora essa! Por que havia de estar triste?

— Porque a vida não tem encanto nenhum .

— O senhor não com e nada; aí tem a razão. Trate de com er bem . O fastio é um a invenção recente. Dantes, ninguém se aborrecia.

— Basta de palavreado! Com o se o senhor nunca se aborrecesse!

— Nunca! Jam ais! Ignoro o que sej a o aborrecim ento; falta-m e tem po para isso. Acorda um a pessoa pela m anhã; chega o cozinheiro; é preciso dar ordens sobre a com ida. Tom a-se o chá; apresenta-se o feitor; em seguida, vam os pescar, e eis-nos chegados à hora do alm oço. Apenas se cabeceia um pequeno sono, logo se trata dos preparativos para o j antar... Quando quer o senhor que eu m e aborreça?

Durante a conversa, Tchichikov observava o recém -chegado, adm irando nele, m ais que a form osura e a esbelteza, a frescura de um a j uventude intacta, a casta pureza de um as feições que não eram desfeadas pela m ais insignificante particularidade. Nem as paixões nem a tristeza nem até a aparência da m enor perturbação ou inquietude tinham ousado atacar aquele rosto virginal. Mas tam bém a vida estava dele ausente; perm anecia inerte, sonolento, apesar do sorriso irónico que, por vezes, o anim ava.

— Eu tam bém , perm ita-m e o senhor que lho diga — interveio Tchichikov. — Eu não com preendo que, com um aspeto com o tem , o senhor possa aborrecer-se. Certam ente, quando se necessita de dinheiro ou quando os inim igos am eaçam a nossa vida...

— Asseguro-lhe — interrom peu o visitante — que, às vezes, para variar, desej aria ter um m otivo de inquietação... Se, ao m enos, alguém m e irritasse! Não é nada disso, porém . Aborreço-m e, eis tudo!

— Talvez o senhor não tenha bastantes terras...

— Não é nada disso. Eu e o m eu cunhado possuím os dez m il hectares e m ais de m il colonos.

— É curioso! Não percebo! Talvez o senhor tivesse um a colheita m á; talvez um a epidem ia lhe tenha arrebatado m uita gente...

— Não, não. As nossas herdades acham -se em estado florescente. O m eu cunhado é um proprietário m odelo.

— E aborrece-se o senhor! Decididam ente, não com preendo — disse Tchichikov encolhendo os om bros.

— Espere um pouco; vam os afugentar-lhe o tédio! — disse Piotuj . — Alexasha: vai à cozinha e dize ao cozinheiro que nos traga j á a em pada. Que fazem Em ílio, o cabeçudo, e Antoshka, o ladrão? Por que diabo não trazem os aperitivos?

Mas a porta abriu-se. Em ílio, o cabeçudo, e Antoshka, o ladrão, apareceram , de toalha em punho, e puseram a m esa, na qual depositaram um a bandej a com seis garrafas de bebidas m ulticolores. Em breve as garrafas foram rodeadas por um rosário de pratos, guarnecidos de apetitosas vitualhas. Os criados m anifestaram grande agilidade, trazendo sem cessar novos pratos cobertos, através dos quais se sentia crepitar a m anteiga... Em ílio, o cabeçudo, e Antoshka, o ladrão, cum priam m aravilhosam ente a sua tarefa. Estas alcunhas tinham -lhas posto a título de anim ação. O bom do seu am o não era de m odo algum atreito a ralhar; o russo, porém , não pode passar sem palavras picantes; tem necessidade delas com o de vodka para a digestão. Que querem ? E esta sua índole. Não gosta de nada insípido.

Aos aperitivos sucedeu a com ida. O am ável anfitrião transform ou-se em cruel tirano. Mal um convidado ficava só com um bocado no prato, j á Piotuj lhe colocava outro, dizendo:

— Sem com panhia, nem hom em nem pássaro podem viver na terra.

Ao que tinha dois, j untava-lhe um terceiro, alegando: « Não é bom o núm ero dois! Nunca dois sem três!» .

Colocava ao convidado as três rações e exclam ava: « Onde é que o senhor viu um carro de três rodas? Quem constrói um a casa de três esquinas?» .

Para o núm ero quatro, tinha igualm ente o seu dito; e para o cinco, tam bém . Houve pratos dos quais Tchichikov teve de repetir um a dezena de vezes. « Uf! — pensava. — Agora vai deixar-m e em paz!» . Enganou-se. Piotuj , sem dizer nada, punha-lhe no prato um a talhada de vitela. E que vitela! Assada no espeto com toda a sua gordura.

— Foi criada dois anos a leite — dizia o anfitrião. — Cuidei dela com o de um filho!

— Im possível! — disse Tchichikov.

— O senhor prove-a. Depois m e dirá se é im possível.

— Digo-lhe que é im possível; j á não tenho espaço para ela.

— Tam bém não havia espaço na igrej a; m as quando entrou o gorodnitchi (chefe da polícia), encontrou-o. E, não obstante, havia tanta gente, que um a m açã atirada ao ar não cairia no chão. Prove. Este bocado será com o o gorodnitchi.

Tchichikov tentou; o bocado parecia-se, efetivam ente, com o gorodnitchi.

« E o desgraçado quer ir para Petersburgo ou para Moscovo! Pois, hospitaleiro com o é, daria cabo de tudo em três anos!» , pensava Tchichikov, ignorando que, nesta época, se aperfeiçoou tudo isso, e não há necessidade de hospitalidade para se arruinar um a pessoa, não digo em três anos, m as em três m eses.

Os vinhos não foram m ais poupados. A abarrotar de dinheiro tom ado de em préstim o, Piotr Petrovitch tinha-se abastecido para dez anos. Não fazia m ais que encher os copos. O que os convidados não acabavam , dava-o a Alexasha e a Nikolasha, que esvaziavam copos atrás de copos. Via-se j á que espécie de conhecim entos hum anos atrairiam a sua atenção quando chegasse à Capital.

Os convidados não podiam m ais. Com grande dificuldade se arrastaram até a varanda, instalando-se num as cadeiras. Tão depressa ocupou a sua, onde com odam ente poderiam sentar-se quatro pessoas, o anfitrião adorm eceu. A sua obesa pessoa, transform ada em fole de ferreiro, com eçou a em itir pela boca aberta e pelas fossas nasais tais ruídos, que dificilm ente os im aginaria um com positor m oderno. Aquilo tinha algum a coisa de flauta, de tam bor e de... alarido.

— Parece um órgão! — disse Platonov.

Tchichikov desatou a rir.

— Evidentem ente — continuou Platonov — quando se com e assim , o sono afugenta o fastio, não é verdade?

— Com certeza. Não obstante, e o senhor desculpe, não com preendo que alguém possa aborrecer-se. Há tantos recursos contra o aborrecim ento.

— Quais?

— Não hão de faltar a um j ovem ... os bailes, a m úsica... até o casam ento.

— O casam ento? Com quem ?

— Com o se faltassem por estes sítios raparigas ricas e bonitas.

— Não as há.

— Então é preciso procurá-las por outra parte... Viaj ar... — Um a feliz ideia acudiu de pronto à m ente de Tchichikov. — Eis um excelente m eio! — disse, fixando Platonov nos olhos.

— Qual?

— As viagens!

— E ir para onde?

— Se o senhor é livre, venha daí com igo — disse Tchichikov, que, olhando para Platonov, pensava: « Seria um a grande coisa. Poderíam os dividir as despesas e pôr na sua conta as reparações da caleche.

— E para onde vai o senhor?

— Provisoriam ente, viaj o; m enos para tratar dos m eus negócios que dos das outras pessoas. O general Betrischev, m eu am igo íntim o e, posso dizer, m eu benfeitor, pediu-m e que visite os seus parentes... Os parentes, é certo, tem a sua im portância; m as eu tam bém trabalho por m inha conta; pois ver o m undo e as suas ocorrências constitui, com o um livro aberto, um a segunda ciência.

A este respeito, pensava Tchichikov: « Realm ente, seria um a grande coisa! Até podia pagar todas as despesas e eu aproveitar os seus cavalos, enquanto os m eus descansavam em casa» .

« É verdade» , pensava Platonov, « que eu, em casa, não tenho nada que fazer. O m eu cunhado encarrega-se de tudo. A m inha ausência não causaria prej uízo algum . Porque não tentar?»

— Consentiria o senhor — disse em alta voz — em passar dois dias em casa do m eu cunhado? De outro m odo, não m e deixará partir.

— Com m uito gosto; e até três, se o senhor quiser.

— Então, está dito! Vam os em bora! — disse Platonov, anim ando-se.

— Está bem ; vam os.

— Aonde? Aonde? — exclam ou o dono da casa, despertando e abrindo os olhos. — Não, m eus ricos senhores. Mandei tirar as rodas da caleche, e o seu cavalo, Platon Mij ailovich, foi enviado a quinze verstas daqui. Não, o senhor passa a noite em m inha casa e am anhã, depois de alm oçar, pode seguir.

Com o resistir a um Piotuj ? Tiveram que ficar, à força. Em com pensação, proporcionou-se-lhes um a m aravilhosa noite de prim avera. O anfitrião organizou um passeio de barco. Rem ando e cantando, doze rapazes fizeram -lhes cruzar o lago, liso com o um espelho. Entraram depois no rio, que se espraiava sem fim entre as m argens de suave inclinação. A cada instante, passavam por debaixo de cordas atravessadas para a pesca. Nem um a prega arrepiava a superfície das águas; a paisagem desenrolava-se em silêncio; bosquezinhos de variado aspeto atraíam a cada passo os olhares. Os rem adores, m anej ando em uníssono os seus vinte e quatro rem os, levantaram -nos em breve. O barco, entregue a si próprio, deslizava com o um pássaro sobre a líquida estrada, de um a transparência cristalina. Um m oço robusto, o terceiro a contar do tim ão, entoou com voz lím pida e sonora um a canção cuj as prim eiras palavras dir-se-iam brotar da garganta de um rouxinol. Quatro dos seus cam aradas acom panhavam -no; os outros seis j untaram bem depressa as suas vozes ao coro. E a canção ia assim engrossando, vasta, potente, infinita com o a Rússia. Piotuj , vibrando, cantava tam bém , reforçando o coro quando este enfraquecia, e o próprio Tchichikov se sentia russo.

Só Platonov pensava: « A que vem esta lúgubre canção? Não faz m ais que redobrar a m inha angústia» .

Regressaram tarde, pelo crepúsculo. Na obscuridade, os rem os batiam cadenciadam ente na água, onde j á se não refletia o céu. Na m argem para a qual se dirigiam havia fogueiras acesas. Em cim a de um as trem pes, pescadores faziam ferver um a sopa de percas, ainda palpitantes. O gado e a criação haviam -se recolhido aos apriscos; os pastores que os tinham conduzido estacionavam diante da porta, à espera de um a caneca de leite e de um prato de sopa. Ouvia-se na escuridão o rum or das vozes; uivos longínquos vinham das aldeias circunvizinhas. Nasceu a lua e a som bria paisagem com eçou a ilum inar-se. Maravilhoso espetáculo! Mas ninguém reparava nisso. Em vez de lutar em velocidade sobre dois fogosos corcéis, Nikolasha e Alexasha sonham com Moscovo, com cafés, com teatros, de que lhes havia falado um dos seus am igos. O pai pensava no m odo de obsequiar os convidados; Platonov bocej ava. Tchichikov era o m ais entusiasm ado de todos. « Ainda um dia hei de com prar um a pequena propriedade» , pensava, e j á se j ulgava um venturoso pai de fam ília.

À ceia, em panturraram -se de novo. Quando Pavel Ivanovitch, um a vez recolhido ao seu quarto e estendido na cam a, apalpou a pança, disse:

— Está com o um tam bor! Não há gorodnitchi que possa caber dentro dela!

O acaso fez com que o aloj assem ao lado do gabinete de Piotuj . O tabique era pouco espesso e percebia-se tudo o que se dizia no outro com partim ento, À guisa de alm oço, o anfitrião encarregava o cozinheiro de um autêntico festim , capaz de despertar o apetite a um m orto. Ouvia-se continuam ente:

— A fogo lento, hein? E bem regado, bem tostadinho!

E o falsete do cozinheiro fazia eco:

— Com preendido, senhor: bem tostadinho.

— O em padão, fá-lo quadrado — continuava Piotuj , com deliciado estalido de beiços. — De um lado, pões caras de esturj ão e cartilagens de solho; do outro, um a boa m assa de m anteiga com cebola e cogum elos; depois, ovos, m iolos e... e, enfim , j á sabes o que te quero, dizer.

— Com certeza, senhor; com certeza.

— Tem cautela: quero que estej a de um lado bem crestadinho e do outro m ais descorado. É preciso que a m assa adira bem ao recheio, de m odo que se não esm igalhe, que não fique a rugir nos dentes, m as que se derreta na boca com o a neve na prim avera.

Dizendo isto, Piotuj fazia estalar a língua e friccionava a barriga.

« Diabos o levem , que não m e deixa descansar!» , resm ungou para si Tchichikov, tapando a cabeça com a colcha, para não ouvir m ais nada. Inútil precaução! A voz de Piotuj atravessava o cobertor:

— A lardear o esturj ão, pões rodelas de beterraba cortadas em form a de estrela, sardinhas, cogum elos e, enfim , j á sabes: rabanetes, cenoiras, vagens, enfim , bem guarnecido. Depois, arranj a um a tripa de porco, de recheio. Mete-lhe um pedacinho de gelo para que a pele fique dura...

Piotuj encom endou ainda m uitos outros m anj ares e repetia incessantem ente.

— A fogo lento, hein? Bem regado, bem tostadinho?

Finalm ente, Tchichikov adorm eceu a pensar num a perna de carneiro assada.

Na m anhã seguinte, os convidados em panturraram -se de tal m aneira que Platonov não pôde m ontar a cavalo. O seu corcel foi levado por um palafreneiro de Piotuj e eles subiram para a caleche. O cão de focinho com prido seguia-os indolentem ente; tam bém ele se enfartara.

— É dem ais! — disse Tchichikov quando j á tinham saído do pátio.

— E não se aborrece! Isto é o cúm ulo!

« Se eu tivesse, com o tu, setenta m il rublos para gastar por ano» , pensava Tchichikov, « não saberia o que era a falta de apetite. E dizer que Murazov, o arrendatário do álcool, se vê aflito com dez m ilhões!»

— Não se im porta de que cheguem os a casa de m inha irm ã e de m eu cunhado? Queria despedir-m e deles.

— Com m uito gosto! — respondeu Tchichikov.

— É o prim eiro proprietário da região. Tira, m eu querido senhor, duzentos m il rublos de rendim ento anual, de um a propriedade que não produzia vinte m il há oito anos.

— Ah! Com certeza é um hom em m uito respeitável. Tenho grande curiosidade em conhecê-lo. Com o se cham a?

— Kostanioglo.

— E que apelidos?

— Constantino Fiodorovich.

— Encanta-m e a ideia de o conhecer. Estudar um hom em assim não pode deixar de ser proveitoso.

Platonov encarregou-se de guiar Selifan, o que era bem preciso, pois este m al se segurava na boleia. Petrushka caiu duas vezes do carro. Houve necessidade de o atar. « Que bruto!» , repetia Tchichikov.

— Repare o senhor — disse Platonov. — Aqui principiam as terras do m eu cunhado. Tudo tem j á outro aspeto.

Efetivam ente, através da gleba via-se um a plantação de árvores tenras, direitas com o fusos; depois destas, outras, um pouco m ais crescidas; a seguir, um a alta espessura. Continuado, atravessaram cam pos onde os trigos se anunciavam m agníficos, após o que novos tratos de floresta, em que as árvores se sucediam pela m esm a ordem , desde as m ais novas até as m ais idosas. Os nossos viaj antes transpuseram , com o se fossem m uralhas, três zonas assim dispostas.

— Vej a o senhor. Ele consegue, em oito ou dez anos., um resultado que os outros não alcançam em vinte.

— Com o o consegue?

— Pergunte-lhe. É um agrónom o distinto. Não se contenta com estudar a natureza do solo: sabe a vizinhança que lhe convém e quais as árvores convenientes para aí serem cultivadas. Tudo em sua casa serve para vários fins. Além da sua própria riqueza, os bosques proporcionam certa um idade aos cam pos, em prestam -lhes um a grande beleza e fornecem -lhes adubo das suas folhas. Em bora a seca e a escassez reinem à sua volta, ele não sofre nunca tais contratem pos. É pena que eu não estej a m uito senhor deste assunto e que não saiba contar-lhe... Há coisas em sua casa... Cham am -lhe feiticeiro. Tudo isto, porém , é m uito aborrecido...

« Com efeito, é um hom em surpreendente!» , pensava Tchichikov. « Por desgraça, este rapaz é um superficial e não sabe inform ar-m e...»

A povoação surgiu, por fim , m ostrando os num erosos casebres alcandorados em três outeiros, coroados por três igrej as. Medas enorm es de palha erguiam -se por toda a parte. « Bem se vê» — dizia para si Tchichikov — « que estam os em casa de um m estre, em assunto? de agricultura» . As isbas estavam todas solidam ente edificadas; as ruas, am plas; os carros, novos e sólidos: os m uj iques, encontrados à passagem , tinham ares de pessoas inteligentes; os anim ais de chifre eram exem plares selecionados; até os porcos m ostravam um aspeto de nobreza. Ali, sem dúvida, viviam aqueles cam poneses que, com o diz a canção, recolhem o dinheiro com palhas. Nada parecido com um parque inglês; nada de canteiros com toda a espécie de flores; m as, à m oda antiga, um a alam eda form ada por celeiros e arm azém , estendia-se até a casa senhorial, a fim de que o dono pudesse ver o que se fazia em redor dele. No alto do telhado, levantava-se um m iradouro, destinado não a adorno da casa, m as à vigilância dos trabalhadores nos cam pos distantes.

Os que chegaram foram recebidos por expeditos criados, m uito diferentes do bêbado Petrushka, em bora estes, à guisa de fraque, vestissem casacas de pano azul de fabricação dom éstica. A senhora da casa acudiu à escadaria. Radiantem ente form osa, de um a tez cor de açucena-rósea, parecia-se com Platonov com o duas gotas de água, só com a diferença de não ser indolente com o ele, m as alegre e com unicativa.

— Bons dias, m eu irm ão; estou contente por te ver. Constantino não está em casa; m as não tarda a chegar.

— Onde está?

— Foi à vila, onde tem que fazer — disse, fazendo entrar os hóspedes.

Tchichikov exam inava com curiosidade a residência daquele hom em extraordinário, que arrancava da sua propriedade duzentos m il rublos de rendim ento. Das qualidades da casa, j ulgava inferir as do dono com o por um a concha se reconstitue a ostra ou o caracol, que viveu antes nele e aí deixou a form a do seu corpo. Todos os aposentos eram singelos, até vazios; nem frescos nem quadros nem bronzes nem flores nem arm ários carregados de porcelanas. Nem sequer livros. Num a palavra: tudo dem onstrava que a vida do ser que ali residia deslizava m elhor nos cam pos que entre quatro paredes, que não am adurecia as suas ideias antes de as executar, confortavelm ente instalado j unto da lareira, num a boa poltrona; onde lhe acudiam à m ente no teatro da ação e aí m esm o se transform avam em atos. Nos com partim entos, Tchichikov pôde ver apenas vestígios de um trabalho fem inino; nas m esas e nas cadeiras apareciam tabuleiros de tília, onde se tinham posto a secar pétalas de flores diversas.

— Que porcarias são estas, m inha irm ã? — disse Platonov.

— Porcarias, isto? — replicou a dona da casa. — Olha: aqui tens o m elhor rem édio contra a febre. O ano passado curám os com ele os nossos trabalhadores. Estas ervas darão um excelente licor; aquelas arom atizam as conservas. Ris-te sem pre dos doces e das conservas; m as, quando os provas, gostas bem deles.

Platonov aproxim ou-se do piano e pôs-se a exam inar as m úsicas.

— Meu Deus, que velharias! Não tens vergonha, m inha irm ã?

— Mil perdões, m eu irm ão, m as não posso desperdiçar o m eu tem po. Tenho um a filha de oito anos e, não te zangues, m as não a confiarei a um a professora estrangeira, só para consagrar à m úsica as m inhas horas de ócio.

— Com o te tornaste aborrecida, palavra! — disse Platonov, aproxim ando-se da j anela. — Ah, aí o tem os! — exclam ou.

Tchichikov precipitou-se para a j anela e divisou um hom em de quarenta anos, vivo, m oreno, com gorro de terciopelo e j aqueta de pele de cam elo. Via-se que não se preocupava com o arranj o da sua pessoa. Ao seu lado, de gorro na m ão, cam inhavam dois indivíduos de baixa condição, que lhe falavam . Um deles era um sim ples cam ponês; o outro, um negociante de cereais, caloteiro, que por ali se encontrava de passagem , vestindo um capote azul. Os três pararam j unto da escadaria. A sua conversa ouvia-se dentro de casa.

— Prim eiro, resgatai-vos do vosso senhor; eu em presto-vos o dinheiro e vós pagar-m e-eis em trabalho.

— Não, Constantino Fiodorovich, resgatarm o-nos para quê? Tom e-nos ao seu serviço. Na sua casa, a gente aprende a ter bom com portam ento. Por desgraça, agora é im possível conterm o-nos. Os taberneiros servem -nos essas am aldiçoadas beberagens! Depois de um copito, tem os desej os de beber um quartilho. Nem chegam os a dar conta de que j á não tem os um centavo. As tentações abundam . É o espírito do m al que deve dirigir o m undo, palavra! Tudo contribui para desencam inhar o desgraçado povo; o tabaco e o resto. Que quer o senhor, Constantino Fiodorovich? O hom em é fraco e não pode resistir.

— Olha bem para o que te digo. Na m inha casa não se é livre. É verdade que, ao entrar nela, se recebe tudo, cavalo e vaca; em contra partida, sou exigente com o ninguém . Antes de m ais nada, é preciso trabalhar. Eu próprio trabalho com o um boi e os m eus cam poneses tam bém , pois, am igo, a experiência m e tem ensinado que é precisam ente nas horas da folga que acodem à cabeça de um a pessoa todas as asneiras. Discuti esse caso lá entre vós, antes de tom ardes um a resolução.

— Já discutim os, Constantino Fiodorovich. Os velhos têm razão: todos e cada um dos seus trabalhadores são ricos; por algum a coisa há de ser. Além disso, os seus sacerdotes são com passivos. Tiraram -nos os que tínham os e j á não há ninguém para enterrar a gente.

— Contudo, vai falar com os teus com panheiros.

— Não há dúvida...

— Vam os, Constantino Fiodorovich, sej a razoável: faça-m e um a reduçãozinha... — continuou o negociante de capote azul.

— Não gosto de regatear, j á te disse. Não sou desses proprietários a cuj a porta bateis nas vésperas de apuros. Bem vos conheço, a ti e aos da tua laia. Tendes um a relação de devedores com a data dos vencim entos. É m uito sim ples. Apertados pela necessidade, cedem -te por m etade do preço o que desej as. Mas eu, que precisão tenho do teu dinheiro? Posso guardar três anos os m eus produtos agrícolas e não devo nada a ninguém .

— Está bem , Constantino Fiodorovich. O que eu dizia era apenas para fazer negócio com o senhor. Aqui tem m il rublos de sinal.

O negociante tirou do seio um m aço de sebentas notas do banco. Kostanioglo pegou neles fleum aticam ente e, sem as contar, guardou-as no bolso posterior do capote.

« Hum !» , pensou Tchichikov. « Com o se fosse um lenço!»

Kostanioglo apareceu à entrada do salão. A sua tez m orena, os seus fortes cabelos negros, prem aturam ente grisalhos nalguns sítios, a vivacidade dos seus olhos e um certo ar atrabiliário, que denotava um sangue fogoso e um a origem m eridional, surpreenderam ainda m ais Tchichikov. Kostanioglo não era verdadeiram ente russo; ignorava, porém , a origem dos seus antepassados, coisa, no seu entender, supérflua e sem qualquer valor prático.

Julgava-se russo e não conhecia outra língua além da russa.

Platonov apresentou Tchichikov. Os dois hom ens deram o abraço ritual.

— Para curar a m inha hipocondria, Constantino, tenho ideias de viaj ar — disse Platonov — e Pavel Ivanovitch prontificou-se a acom panhar-m e.

— Muito bem ! — disse Kostanioglo. — E onde pensaram ir os senhores? — acrescentou, dirigindo-se com afabilidade a Tchichikov.

— Confesso — disse este, com a cabeça graciosam ente inclinada e acariciando um braço da poltrona — que viaj o m enos por causa dos m eus interesses próprios que pelos dos outros. O general Betrischev, m eu am igo íntim o e posso dizer que m eu protetor, pediu-m e que visitasse os seus parentes... Os parentes, é certo, têm sua im portância; m as eu tam bém tiro o m eu proveito, pois, sem falar do que se ganha higienicam ente, ver o m undo e as suas vicissitudes constitui com o que um livro aberto, um a ciência experim ental.

— Sim , certos lugares m erecem ser visitados.

— Tem o senhor razão. Vêm -se coisas que não teriam sido vistas; encontram -se pessoas que não se encontrariam . Um a conversa é, às vezes, um tesouro; por exem plo, a ocasião que neste m om ento se nos proporciona... Eu recorro ao senhor, respeitável Constantino Fiodorovich: instrua-m e; ensine-m e; acalm e esta m inha sede de saber. Espero as suas palavras com o se fossem m aná.

— Mas que posso eu ensinar-lhe? — disse Constantino, contrariado. — Eu sou m uito pouco instruído.

— A cordura, querido senhor, a cordura, a arte de m anej ar o difícil tim ão de um a propriedade rural; de conseguir sólidos lucros, de adquirir bens autênticos e não im aginários, cum prindo, assim , o m eu dever de cidadão e m erecendo a estim a dos nossos com patriotas.

— Sabe o que o senhor pode fazer? — disse Kostanioglo, olhando para ele, enquanto refletia. — Passe um dia em m inha casa. Eu lhe m ostrarei com o tudo funciona. Verá, então, o senhor que não há nisto nada de feitiçaria.

— Sim , fique — disse a dona da casa, que, dirigindo-se ao irm ão, acrescentou: — Fica connosco, nada to im pede.

— É-m e indiferente. Que lhe parece, Pavel Ivanovitch?

— Por m im , ficarei, com grande prazer... Apenas um parente do general Betrischev, um tal coronel Koshkariov...

— Está m aluco!

— Talvez. Eu não iria vê-lo, m as o general Betrischev, m eu am igo íntim o e, posso dizê-lo, m eu protetor...

— Nesse caso, é m uito sim ples — disse Constantino. — Vá o senhor vê-lo; não tem que andar m ais de dez verstas. O m eu carro está engatado. Vá o senhor im ediatam ente e estará de volta à hora do chá.

— Excelente ideia! — exclam ou Tchichikov, pegando no chapéu.

Subiu para a caleche. Dali a m eia hora achava-se em casa do coronel. Toda a aldeia estava revolvida de cim a a baixo: edifícios em construção, m ontes de cal, azulej os, vigas, em todas as ruas. Um a fileira de casas pareciam repartições públicas. No frontispício de um a estava escrito, em letras de ouro: Depósito de máquinas agrícolas. Noutra: Comissão dos negócios rurais; Escola de ensino normal para os aldeãos. Deus sabe que m ais ainda.

Tchichikov encontrou o coronel num gabinete do solar, de pé, em frente de um a secretária, com um a pena entre os dentes. Koshkariov, que parecia um a excelente pessoa, das m ais afáveis, recebeu-o m uito agradavelm ente e com eçou a expor-lhe as dificuldades que tinha vencido para levar a propriedade ao seu atual estado de prosperidade.

Lam entava-se, com pungido, de quanto lhe havia custado a fazer com preender aos rústicos a superior satisfação que produzem no hom em o luxo delicado, a arte, a pintura. Não conseguira ainda que as aldeãs usassem corpete, quando, na Alem anha, onde acam para com o seu regim ento em 1918, a filha de um sapateiro até sabia tocar piano. Não obstante, apesar da teim osia da ignorância, esperava conseguir que o cam ponês da sua aldeia lesse, enquanto trabalhava, as Geórgicas, ou ainda qualquer obra sobre os para-raios de Franklin ou sobre a análise quím ica dos terrenos.

— Que tal! — pensava Tchichikov. — E eu que ainda não tive tem po de acabar A Duquesa de la Vallière!

O coronel dissertou ainda largam ente acerca dos m eios de levar aquela gente à prosperidade. O traj o, em seu entender, tinha um a grande im portância; j urava pela sua cabeça que bastaria convencer os mujiques russos a usar calças à europeia para que as ciências progredissem , para que florescesse o progresso e para que se iniciasse, na Rússia, um a idade de ouro.

Tchichikov escutava pacientem ente, fixando Koshkariov nos olhos. Por fim , disse para si: « Com este figurão é im possível a gente zangar-se!» . Logo a seguir, declarou ter necessidade de certas alm as, m ediante escritura em form a legal.

— Pelo que posso aj uizar das suas palavras — disse o coronel, sem se alterar — trata-se de um a requisição, não é verdade?

— Perfeitam ente.

— Nesse caso, apresente-a por escrito. O pedido irá à secção de pareceres, que m a enviará com inform ação, após o que será rem etida à Comissão de negócios rurais; dali, um a vez inform ada, irá ao diretor. Este, de acordo com o secretário...

— Por favor! — exclam ou Tchichikov. — Isso dem oraria sabe Deus quanto tem po! E com o tratar por escrito um assunto de tal natureza? As alm as são, bem entendido... defuntas.

— Muito bem . Escreva o senhor que as alm as são, bem entendido, defuntas.

— É im possível. Em bora estej am m ortas, é preciso que figurem com o vivas.

— Bem . Então, escreva o senhor: é preciso, exige-se, quer-se, deseja-se que figurem com o vivas. Estes trânsitos são indispensáveis. Servem de testem unhas a Inglaterra e o próprio Napoleão. O encarregado acom panhá-lo-á a todas as partes.

Tocou a cam painha e apareceu um suj eito. Era o secretário.

— Secretário! Cham e o encarregado.

Apresentou-se o encarregado, m eio cam ponês, m eio escrevente.

— Acom panhe este senhor aos lugares que lhe forem necessários.

Por curiosidade, Tchichikov decidiu-se a ir com o encarregado aos lugares necessários. A secção de pareceres só existia na tabuleta; a porta estava fechada; o chefe, Jruliov, tinha sido transferido para a Comissão de construções, organism o recentem ente instituído. O criado de quarto de Berezovski substituía-o; m as tam bém este se encontrava em exercício na Comissão de construções. Perguntaram pela Comissão dos negócios rurais; este departam ento estava em vias de sofrer um a reform a. Um bêbado, a quem acordaram , nada pôde inform ar. « Esta casa é um a verdadeira Torre de Babel» , disse, por fim , o encarregado a Tchichikov. « Com em a cabeça ao senhor. A Comissão de Construções m ete-se em tudo; desvia toda a gente para os seus trabalhos e depois m anda-a aonde lhe parece. Só tiram proveito dela os m em bros da Comissão.

O encarregado odiava, com o se está a ver, a Comissão de Construções. Tchichikov não quis ver m ais. Regressando, disse ao coronel que não entendia patavina de toda aquela em brulhada; a secção de pareceres não existia e a Comissão de Construções era um a cáfila de bandidos.

O coronel, dom inado por um a nobre indignação, estreitou fortem ente as m ãos de Tchichikov, em sinal de reconhecim ento. Pegando em seguida na pena, redigiu oito perguntas im perativas: Com que direito a Comissão de Construções tinha disposto, arbitrariam ente, de funcionários que não lhe pertenciam ? Com o podia tolerar o diretor geral que um chefe de repartição se tivesse ausentado, sem se fazer substituir nas suas funções? Com o é que a Comissão dos negócios rurais pôde ver com indiferença a inexistência da secção de pareceres?

« Que com plicação ele vai arm ar!» , disse para si Tchichikov, que quis despedir-se logo.

— Não. Eu não posso deixá-lo retirar-se assim , sem m ais nem m enos. Está nisso em penhado o m eu am or-próprio. Eu m ostrarei ao senhor o que significa um a organização racional da econom ia agrícola. O seu caso vai ser recom endado a um hom em que vale pelos outros todos: procede da Universidade. O senhor j á está a ver que servos eu tenho! Para não perderm os um tem po precioso, rogo-lhe que m e espere na biblioteca — disse o coronel, abrindo um a porta lateral. — Aí tem o senhor papel, penas e lápis. Aproveite-se deles; está em sua casa. A luz deve ser acessível a toda a gente.

A biblioteca era um a sala im ensa, cheia de livros de alto a baixo. Até havia anim ais dissecados. Os livros referiam -se a todos os ram os da ciência: silvicultura, criação, horticultura: revistas especiais de todos os géneros; daquelas que se assinam , porque sim , m as que ninguém lê. Vendo que nenhum as daquelas obras tinha para ele qualquer interesse, Tchichikov procurou noutro arm ário. Nova deceção: eram livros de filosofia. Seis enorm es volum es se lhe apresentaram com estes títulos: Introdução preparatória ao domínio do pensamento; Teoria da generalidade, da concomitância e da essência aplicada ao entendimento dos princípios orgânicos da dissociação recíproca da produtividade pública. Em todas as páginas para que Tchichikov olhava tratava-se de fenómeno, de evolução, de abstração, de perceção, de idiossincrasia, Deus sabe de que m ais ainda. « Isto é para m im » disse Tchichikov, voltando-se para um terceiro arm ário. Continha obras acerca das belas-artes. Pavel Ivanovitch alcançou um grosso volum e cuj as gravuras licenciosas de assuntos m itológicos o atraíam . Este género de gravuras agrada aos solteirões de certa idade e, às vezes, aos velhos, que ficam excitados, contem plando os bailes e outros espetáculos picantes. Term inado o exam e deste livro, Tchichikov ia a pegar noutro do m esm o género, quando apareceu o coronel Koshkariov, com um ar radiante e um papel na m ão.

— Está tudo feito e m uito bem feito! O hom em de quem falei ao senhor é um verdadeiro génio. Por isso o coloco acim a de todos e fundarei só para ele um m inistério. Repare o senhor que espírito lum inoso e com o ele resolveu tudo em alguns m inutos.

« Louvado sej a Deus!» , pensou Tchichikov, dispondo-se a ouvir.

O coronel com eçou a ler.

Depois de ter m editado acerca da m issão de que Vossa Senhoria

m e encarregou... etc... etc... tenho a honra de declarar:

1.º — O pedido do senhor Conselheiro de Ministério Pavel

Ivanovitch Tchichikov contém um a inexatidão de term os, pois, por

inadvertência, as alm as registadas são nele qualificadas de m ortas.

Ele, provavelm ente, entende por isso alm as próxim as da m orte; m as

não m ortas. Este apelativo indica, até, certa instrução em pírica,

lim itada, sem dúvida, a um a escola de ensino prim ário, pois a alm a é

im ortal...

— Que tratante! — disse com placente Tchichikov, refletindo. — Arranha um bocado, m as tem os de confessar que é um a pena hábil!

Em segundo lugar, não existem na propriedade alm as

registadas, livres de hipoteca, próxim as ou não da m orte, pois todas,

sem exceção, foram não som ente em penhadas, m as tornadas a

em penhar com um acrescentam ento de cento e cinquenta rublos por

cabeça, exceto a aldeia de Gurm ailovka, que se encontra em bargada,

em consequência de um pleito com o proprietário Predischev, e sobre

o qual há, portanto, contestação, segundo aviso publicado no núm ero

42 da Gazeta de Moscovo.

— Por que não m e disse logo o senhor tudo isto? Para que perdeu tem po com bagatelas? — exclam ou Tchichikov, m al hum orado.

— Todavia, era necessário que o senhor expusesse tudo na devida form a. De outra m aneira, de nada servia. Qualquer im becil pode ver as coisas inconscientem ente; m as o senhor precisa de inteirar-se delas.

Pavel Ivanovitch, colérico, apoderou-se do chapéu e, desprezando as conveniências, encam inhou-se para a porta. O cocheiro continuava ali ao pé da caleche, pronto a seguir, sabendo que era inútil desengatar, pois teria sido indispensável pedir por escrito a alim entação dos cavalos e a decisão só seria tom ada no dia seguinte. Não obstante, o coronel veio a correr, tom ou à força a m ão de Tchichikov, estreitou-a contra o coração e apresentou-lhe os seus agradecim entos por lhe ter proporcionado ocasião de ver funcionar a sua engrenagem burocrática. Era preciso estim ular as pessoas e repreendê-las, pois tudo pode relaxar-se, e as m olas da direção oxidam -se e enfraquecem . Este caso tinha-lhe inspirado um a ideia feliz: instituir um a nova com issão que se cham aria Comissão de Vigilância da comissão de construções. De m odo que j á ninguém se atreveria a roubar.

Tchichikov chegou aborrecido da sua expedição; era tarde; as velas j á ardiam há um bocado.

— Por que se dem orou o senhor? — perguntou Kostanioglo, quando o viu aparecer à porta.

— Sobre que discutiram os senhores tanto tem po? — inform ou-se Platonov.

— Nunca na m inha vida vi sem elhante im becil — respondeu Tchichikov.

— Pois isso não é nada — observou Kostanioglo. — Koshkariov é um fenóm eno consolador. Serve para retratar de form a caricatural os absurdos dos nossos espíritos superiores que, sem com preender o seu papel, se enchem de extravagâncias vindas de fora. Eis ao que chegaram os proprietários da nossa época: fundaram oficinas, escolas, fábricas. Deus sabe que m ais ainda! Ninguém se tinha m exido desde o ano 1812 e agora vão ver se escangalham tudo. Um a revolução pior que a dos franceses, pois, atualm ente, um Piotr Petrovitch Piotuj pode passar por um bom proprietário.

— Mas se tam bém este hipotecou os bens! — disse Tchichikov.

— Sim , para tudo se recorre ao em préstim o. — E, dizendo isto, Kostanioglo com eçou a excitar-se. — Montam -se chapelarias e fábricas de velas; m andam -se vir operários de Londres; convertem -se em m ercadores. Um fidalgo passa a ser fabricante! Fazem -se m usselinas para as m eninas da cidade!...

— Mas tu és tam bém dono de fábricas — obj etou Platonov.

— E de quem é a culpa? Elas criaram -se por si próprias. A lã acum ulava-se; era im possível vendê-la. Resolvi-m e a tecer panos, panos encorpados, grosseiros, com o os de que necessitam os m eus trabalhadores. E com pram -nos logo, por baixo preço. Durante seis anos, os pescadores atiraram para a m inha m argem as escam as do peixe... Que havia eu de fazer? Pus-m e a fabricar cola, o que m e rendeu quarenta m il rublos. E assim em todas as coisas

« Isto é que é um hom em !» , pensou Tchichikov, olhando para ele fixam ente. « De tudo sabe tirar partido!»

— E se m e resolvi a entrar nestas em presas foi porque, de outro m odo, num erosos trabalhadores teriam m orrido de fom e, sendo as colheitas m ás, graças aos senhores industriais que descurariam as suas sem enteiras. Fábricas com o esta não faltam em m inha casa, cunhado. Cada ano há um a m oda, conform e os desperdícios acum ulados. Quem seguir atentam ente a m archa da sua exploração agrícola pode tirar proveito de qualquer refugo que se atira fora, dizendo: « Não presta!» . Mas eu, para não desprezar estes desperdícios, não construo palácios com frontispícios e colunas.

— É surpreendente! E o m ais assom broso é que todos os rebotalhos podem aproveitar-se — disse Tchichikov.

— Sim , m as com a condição de encarar o assunto com sim plicidade, tal com o é. Por desgraça, todos querem ser m ecânicos; cada um desej a abrir a caixa por m eio de ferram enta, quando ela se pode abrir naturalm ente. E fazem -se, de propósito, viagens a Inglaterra! Parvos! Com o se não regressassem de um a viagem ao estrangeiro cem vezes m ais burros!

E Kostanioglo cuspiu, indignado.

— Vam os, Constantino, j á estás outra vez irritado! — disse-lhe, inquieta, a m ulher. — Bem sabes que isso te faz m al.

— Com o não hão de indignar tais coisas a um coração russo? O caráter russo azeda-se e é deplorável. Está j á im pregnado de quixotism o, o que nunca havia acontecido. Anim a-o a preocupação da sabedoria? Pois torna-se um D. Quixote da instrução e abrem -se escolas de que nenhum im becil faz um a pequena ideia, e delas saem hom ens que não servem para nada, nem na cidade nem no cam po, em briagados com o sentim ento da sua dignidade. Tende para a filantropia? Aí tem os um D. Quixote do altruísm o; gasta um m ilhão na construção de absurdos hospitais, edifícios com colunas, arruína-se e arrasta os outros para a m iséria. Boa filantropia, com efeito!

Tchichikov não se interessava pela instrução; quis conhecer, em todos os seus porm enores, a m aneira dos detritos produzirem grandes lucros. Kostanioglo, porém , não o deixou m eter bedelho, pois não podia conter as frases atrabiliárias que lhe assom avam aos lábios.

— Pergunta-se com o ilustrar o cam ponês. Tornai-o rico, prim eiro! Fazei dele um bom agricultor, depois do que ele próprio se instruirá! O senhor não pode calcular com o este m ando se torna estúpido! Que escrevem agora os nossos plum itivos? Pois, m al se publica um livro, todos se põem a lê-lo. E eis o que se diz correntem ente: « O cam ponês leva um a vida dem asiado sim ples; é preciso fazer-lhe conhecer os artigos de luxo; inspirar-lhes necessidades superiores à sua condição» . Eles próprios, graças ao tal luxo, transform aram -se em frangalhos, portadores de toda a espécie de doenças. Já não há j uventude de dezoito anos que não tenha experim entado tudo. Com o! O senhor j á não tem dentes, está calvo com o um a bexiga, e é para que fiquem assim que quer contam inar os nossos cam poneses? Graças a Deus, tem os ainda um a cam ada sã, que desconhece todos esses requintes! O lavrador é o que há de m ais respeitável entre nós. Com preende o senhor por quê? Prouvera ao céu que todos o im itassem .

— Pelo que vej o, o senhor entende que é m ais lucrativo dedicar-se um a pessoa à agricultura — disse Tchichikov.

— Mais legítim o, se não for m ais vantaj oso. Regarás a terra com o suor do teu rosto, eis o que está escrito. E não há que argum entar. A experiência de séculos dem onstra que, no estado agrícola, o hom em é m ais m oral, m ais puro, m ais nobre. Eu não pretendo que não sej a necessário fazer outra coisa; creio, unicam ente, que a agricultura deve ser a base de tudo. A indústria desenvolver-se-á por si própria, pelo m enos a que tenha razão de ser, aquela que corresponda às necessidades im ediatas do hom em e não às afetações que arrastam para a indolência a gente de hoj e. Nada de fábricas que, para sustentar-se e dar saída aos seus produtos, recorrem a m eios repugnantes, desm oralizando e corrom pendo o pobre povo. Nunca introduzirei em m inha casa (diga-se o que se disser em seu favor, e em bora eu tivesse que perder um m ilhão) esses fabricos que provocam necessidades requintadas. Não, não; nada de açúcar! Nada de tabaco! Se a corrupção invade o m undo, que não sej a obra m inha! A m im , basta-m e ter razão diante de Deus! Há vinte anos que vivo no m eio do povo e conheço os resultados desses flagelos.

— O que m ais m e adm ira — insinuou Tchichikov — é que, sabendo fazê-lo, se utilizem os sobej os e possam aproveitar-se todos os desperdícios.

— Sim , os econom istas! — disse Kostanioglo, sem o escutar e com expressão sarcástica. — Fam osos patetas que arrastam outros e que não sabem ver dois palm os adiante do nariz! Asnos que falam de cátedra e usam anteolhos! Corj a de idiotas!

E cuspiu de novo, colérico.

— Tens toda a razão; m as não te exaltes, suplico-te — disse-lhe a m ulher. — Com o se não se pudesse falar nestas coisas sem perder a cabeça!

— Ouvindo o senhor, respeitável Constantino Fiodorovich, penetra-se, por assim dizer, no sentido da vida; chega-se até ao fundo das coisas. Contudo, pondo de lado as questões gerais, perm ita o senhor que cham e a sua atenção para um caso particular. Suponham os que, tornado proprietário, eu quisesse enriquecer em pouco tem po, para cum prir assim os m eus deveres de cidadão. Que deveria fazer?

— Para ficar rico? — repetiu Kostanioglo. — Vou dizer-lhe a m aneira.

— Vam os cear — disse a dona da casa, que se levantou e foi até o centro da sala, envolvendo-se, friorenta, num chale.

Tchichikov levantou-se com agilidade quase m ilitar, aproxim ou-se dela com a galantaria de hom em da sociedade, ofereceu-lhe o braço e conduziu-a cerim oniosam ente à sala de j antar, onde j á da terrina descoberta se exalava o saboroso perfum e dos legum es frescos. Cada um ocupou o seu lugar. Os criados serviram ligeiram ente todos os pratos, por sua ordem , em recipientes fechados, e retiraram -se. Kostanioglo não queria que escutassem as conversas e m uito m enos que o vissem com er.

Depois da sopa, Tchichikov bebeu um cálice de um a excelente bebida parecida com o tokay (vinho húngaro) e disse ao anfitrião:

— Perm ita o senhor que reatem os a nossa conversa interrom pida. Perguntava eu com o fazer, qual era a m elhor m aneira...

— Um a propriedade pela qual eu daria sem vacilar quarenta m il rublos, se m os pedissem .

— Hum ! — Tchichikov pôs-se a pensar. — E por que não a com pra o senhor? — arriscou, com certa tim idez.

— É preciso saberm o-nos lim itar. Eu j á tenho bastantes dores de cabeça. E os nossos fidalgotes m urm uram contra m im , pretendendo que m e aproveito das suas dificuldades e da sua ruína para adquirir terras por baixo preço. Já estou até a ponta dos cabelos.

— Com o esta gente tem m á-língua! — disse Tchichikov.

— E nesta província m ais que noutra parte qualquer. Só m e cham am avarento, m iserável, usurário. Estes senhores arranj am desculpas para tudo. « O que é certo é que eu estou arruinado; m as por satisfazer necessidades superiores da vida — diz um deles — por ter dado a m ão aos industriais (entenda-se vadios). É claro que se pode viver com o um porco, à m aneira de Kostanioglo» .

— Eu bem quisera ser um porco desse género! — disse Tchichikov.

— Tudo isso é absurdo! Que necessidades superiores? A quem pretendem enganar? Têm livros, m as não leem . Tudo se resum e em baralhos de cartas e em cham panhe. E tudo isto porque não dou nem em presto o m eu dinheiro. Não dou dinheiro, porque m e incom odaria; não tenho por costum e fazê-lo. Quem quer que venha com partilhar a m inha ceia será bem -vindo. Quanto à recusa de em prestar dinheiro, é j á um caso diferente. Um a pessoa, de facto em apuros, pode dirigir-se-m e; explicar-m e-á porm enorizadam ente a que destina o m eu dinheiro; se, pelo que m e diz, vej o que fará bom uso dele e que obterá proveito rol, nunca lho nego e nem sequer lhe im ponho j uros.

— É bom saber! — pensou Tchichikov.

— Não! Nunca lho nego! — continuou Kostanioglo. — Mas sou incapaz de o gastar m al gasto. Com seiscentos diabos! Lá porque este presenteia a am ante, m obila um a casa com espavento ou frequenta os bailes de m áscaras com um a m ulher feia, com em ora j ubilosam ente um a vida inútil… segue-se que eu havia de em prestar fundos a este cavalheiro?

Neste m om ento, Kostanioglo cuspiu e pouco lhe faltou para proferir palavras inconvenientes na presença de sua m ulher. Um a negra m elancolia lhe enublou o rosto. A testa sulcou-se-lhe de rugas que denotavam a sua cólera e a agitação da sua bílis.

— Perm ita-m e, m eu querido senhor, que reatem os a nossa interrom pida conversa — disse Tchichikov, bebendo outro cálice de licor de fram boesa, realm ente delicioso. — Adm itindo que eu m e fizesse proprietário da herdade de que o senhor m e fala, em quanto tem po poderia enriquecer até o ponto de...?

— Se o senhor quer enriquecer rapidam ente — continuou Kostanioglo, com voz cortante e brusca — j am ais fará fortuna. Se não dá im portância ao tem po, em breve será rico.

— Ah, realm ente! — disse Tchichikov.

— Sim — acrescentou Kostanioglo, bruscam ente, com o se o enfadasse Tchichikov. — É preciso ter am or ao trabalho; sem isso, nada se consegue. É preciso am ar a vida da aldeia; e isso não é de todo aborrecido. Eu, confesso, m orreria de tédio se passasse um dia que fosse na cidade, com o fazem esses senhores, em luxuosos casinos, nas tabernas, nos teatros. Cam bada de palerm as! Súcia de idiotas! O lavrador não tem tem po para se neurastenizar. A sua vida está constantem ente ocupada, sem interrupção. Repare na variedade dos seus trabalhos. E que trabalhos! Trabalhos que lhe exaltam o m oral. Aqui, o hom em acom panha a natureza, as estações, colabora em todos os seus atos criadores. Im agine um ano inteiro de labor: prim eiro, aguarda a prim avera, quando a vida com eça a m anifestar-se, em toda a sua puj ança; a preparação das sem entes, a sua escolha, o exam e do trigo nos celeiros, a distribuição do pessoal. Tudo se faz com a devida antecipação e se calcula desde o princípio. E, enquanto os rios vão dim inuindo o seu caudal e a terra acorda, a enxada trabalha nas hortas e j ardins; o arado e a charrua abrem as leivas; planta-se, sem eia-se. Sem eia-se, o quê? A próxim a colheita! A felicidade de toda a terra! A alim entação de m ilhões de seres! Chega o verão. A ceifa do feno atinge o apogeu. Depois chegam , por seu turno, as m esses. Ao centeio sucede o trigo; a seguir a cevada, logo, a aveia... Tudo está em efervescência; não há um m inuto a perder; vinte olhos teriam em que ocupar-se. Term inada a faina, é necessário enceleirar; tem os agora as canseiras do outono, a distribuição pelos arm azéns, pelos cobertos, pelos estábulos, ao m esm o tem po que os trabalhos das m ulheres; faz-se o balanço, vê-se realizada a obra... E o inverno! O m alhar do trigo ao ar livre, o carrear dos cereais da eira para os celeiros; o derrubar e a poda das árvores; transporte dos tij olos e das traves para as construções da prim avera. Passa-se um a vista de olhos pelo m oinho, pelas oficinas. Quanto a m im , se um carpinteiro m anej a bem o seu m achado, posso passar horas a contem plá-lo, pois o seu trabalho enche-m e de regozij o. E, se se vê que tudo isto se efetua com um fim qualquer, que tudo em redor cresce e se m ultiplica, produzindo gozo e proveito, então não sei explicar o que sinto. E não porque a nossa fortuna aum enta (o dinheiro é um assunto à parte) m as porque tudo é obra nossa, porque um a pessoa se sente o criador de quem tudo depende, o m ago que esparge à sua volta a abundância e o bem -estar. Onde encontraria o senhor prazer sem elhante? — concluiu Kostanioglo erguendo a fronte, de onde as rugas tinham desaparecido. Com o um rei no dia da sua coroação, estava radiante. Do seu rosto pareciam brotar raios de luz. — Sim , no m undo inteiro não achará o senhor alegria sem elhante! Aqui é onde o hom em im ita Deus! Deus reservou-se a criação com o prazer suprem o e exige que o hom em crie tam bém a prosperidade em torno de si! Aqui tem aquilo a que se cham a um a coisa fastidiosa!...

Com o se fosse o canto de um a ave do paraíso, Tchichikov ouvia estas palavras cheias de ternura. Crescia-lhe água na boca. Os seus olhos hum edeciam -se e exprim iam beatitude. Teria continuado a ouvir, sem cessar.

— Constantino, vam os para o salão? — disse a senhora Kostanioglo, levantando-se.

Toda a gente a im itou. Tchichikov ofereceu-lhe o braço; m as os seus passos j á não m ostravam a m esm a agilidade; os seus pensam entos tinham tom ado um rum o sério.

— Diz lá o que quiseres; a vida no cam po é, não obstante, aborrecida — declarou Platonov, que os acom panhava.

— O nosso hóspede não é tolo — pensava Kostanioglo —; é atencioso, circunspecto nas suas palavras, pouco falador. E, perante esta ideia, desvaneceu-se, com o satisfeito das suas próprias palavras, e felicitava-se por ter encontrado um hom em capaz de escutar sábios conselhos.

Sentaram -se todos num a salinha confortável, alum iada por velas, em frente de um a varanda envidraçada que dava para o j ardim . Entretanto as estrelas contem plavam -nos por cim a do parque adorm ecido. Em breve Tchichikov experim entou um encanto com o não sentia há m uito tem po. Parecia-lhe regressar a sua casa, depois de longa peregrinação e, satisfeitos os seus desej os, atirar para um canto o seu bordão, dizendo: « Já chega!» . Este bom hum or era devido às sensatas palavras do seu hospedeiro.

Para todo o hom em existem assuntos que m ais o com ovem , que lhe são m ais gratos que outros. E, frequentem ente, de im proviso, num recanto ignorado, num a verdadeira Tebaida, encontra-se um a pessoa cuj a anim adora conversa faz esquecer os cam inhos pedregosos, as desconfortáveis pousadas, a vã agitação contem porânea, o logro das ilusões hum anas. O serão passado desta m aneira grava-se para sem pre na m em ória, que retém fielm ente todos os seus porm enores; os assistentes, o lugar de cada um deles, o que tinham nas m ãos, as paredes, os cantos, a m enor bagatela.

Por isso Tchichikov, naquela noite, observou todas estas coisas: a bonita sala, m obilada sem pretensões, a confiada expressão que refletia a cara do dono da casa e até a cor dos tapetes...; o cachim bo de boquilha de âm bar dado a Platonov, o fum o que este com eçava a m andar para o nariz de Iarbas, o resfolegar do anim al; o riso da gentil senhora, interrom pido por estas palavras: « Deixa de o consum ir!» : a deslum brante ilum inação das velas, o grilo que cantava num interstício da lareira; a porta envidraçada; a noite prim averil que os contem plava do alto das árvores, salpicada de estrelas, enquanto os rouxinóis deixavam ouvir os seus m elodiosos acordes nos bosquezinhos verdej antes.

— Gosto m uito de o ouvir, venerável Constantino Fiodorovich — disse Tchichikov. — Posso assegurar-lhe que nunca ouvi, em parte algum a da Rússia, um hom em com a sua inteligência.

Kostanioglo sorriu, com preendendo que nestas palavras nada havia de exagerado.

— Não, Pavel Ivanovitch, se o senhor quer conhecer um hom em inteligente, há entre nós um , verdadeiram ente digno deste nom e, a cuj os calcanhares eu não chego.

— Quem pode ser? — perguntou Tchichikov, surpreendido.

— Murazov, o nosso arrendatário do álcool.

— É a segunda vez que ouço falar nele — exclam ou Tchichikov.

— Esse hom em adm inistra não só um a propriedade rural, m as todo um Estado. Se eu fosse rei, faria dele o m eu m inistro das finanças.

— Segundo se diz, é hom em que ultrapassa os lim ites do vulgar. Teria j untado dez m ilhões.

— O senhor está m uito longe da verdadeira conta. Tem m ais de quarenta.

Em breve lhe pertencerá m etade da Rússia.

— Que diz o senhor? — exclam ou Tchichikov, abrindo os olhos.

— É a pura verdade. E com preende-se. O que possui algum as centenas de m ilhar de rublos enriquece lentam ente; m as aquele que tem m ilhões o seu cam po de ação é im enso. A quem quer que lhe caia nas m ãos supera-o duas ou três vezes em cabedais. Ninguém rivaliza com ele; ninguém se lhe pode com parar. O preço que ele faça é a lei; ninguém o pode exceder.

— Santo nom e de Deus! — exclam ou Tchichikov, benzendo-se e olhando para Kostanioglo fixam ente. Custava-lhe a respirar. — É inconcebível! O pensam ento gela-se de espanto! Adm ira-se a divina sabedoria a propósito de um escaravelho; m ais m e adm iro eu de que um sim ples m ortal possa m anej ar som as tão consideráveis. Perm ita-m e o senhor que m e elucide sobre um facto; não se pode dizer que, de com eço, essa fortuna fosse adquirida honradam ente...

— De um m odo irrepreensível e pelos m ais honestos m eios.

— Não acredito! É im possível! Milhares de rublos, está bem ; m as m ilhões!...

— Pelo contrário. O difícil é ganhar m il rublos honradam ente; os m ilhões am ontoam -se sem dificuldade. Um m ilionário não precisa de m eter por vias tortuosas; não tem m ais que seguir direito e recolher o que se lhe depara no cam inho. Os outros não têm força para fazer o m esm o. Não há concorrentes, portanto. O cam po de ação é im enso, digo ao senhor. Tudo o que ele abarca duplica ou triplica de valor. Porém , que se ganhará com dez rublos? Uns dez ou vinte por cento.

— O m ais difícil de com preender é que tenha principiado sem nada.

— Assim é que acontece sem pre — disse Kostanioglo. — O que j á nasceu com riqueza nada m ais adquire; há nele dem asiados caprichos inatos. É preciso com eçar pelo princípio e não pelo m eio; pelos copeques e não pelos rublos; por baixo e não por cim a. Só deste m odo se aprende a conhecer bem as pessoas e o m eio em que se desenvolverá o negócio. Depois de ter suportado sobre a própria cabeça uns e outros, depois de aprender que cada copeque se adquire por m eio de um trabalho encarniçado; depois de ter passado por todas as atribulações, fica um a pessoa instruída e carrilada, de m odo a não fracassar em nenhum a em presa e a não quebrar a cabeça. Acredite: esta é que é a verdade. É preciso com eçar pelo princípio e não pelo m eio. O que diz: « Dai-m e cem m il rublos, e eu farei fortuna» não m e inspira confiança; aponta ao acaso e não acerta no alvo. É preciso com eçar pelos copeques.

— Então, eu farei fortuna — disse Tchichikov, pensando, contra a sua vontade, nas alm as m ortas — pois eu, efetivam ente, com eço com nada.

— Constantino: são horas de deixar descansar Pavel Ivanovitch — disse a senhora — e tu continuas a palrar.

— Com certeza, o senhor fará fortuna — disse Kostanioglo, sem ouvir a m ulher. — O ouro irá ter consigo. Não saberá que fazer das suas receitas.

Com o fascinado, Pavel Ivanovitch transportava-se à região encantada dos seus sonhos. As suas ideias giravam em torvelinhos. Sobre o áureo tecido dos futuros bens, a sua im aginação bordava arabescos e nos seus ouvidos ressoavam estas palavras: o ouro irá ter consigo...

— Com franqueza, Constantino, Pavel Ivanovitch tem necessidade de dorm ir.

— Bem , vai tu dorm ir, se queres!

Kostanioglo deixou de falar, pois, por toda a sala, ouvia-se o sonoro ressoar de Platonov, ao qual Iarbas fazia eco. Vendo que realm ente eram horas de se deitar, sacudiu Platonov, dizendo-lhe: « Basta de roncar!» e deu as boas noites a Tchichikov. Separaram -se e, dentro em pouco, todos dorm iam .

Só Tchichikov estava acordado. O seu pensam ento velava.

Refletia sobre os m eios de chegar a ser proprietário de um dom ínio, não fictício, m as real. Depois daquela conversa, essa possibilidade parecia-lhe tão evidente! O difícil problem a da exploração tornava-se fácil e com preensível, e adaptava-se tão bem ao seu tem peram ento! Só tinha que desfazer-se dos seus m ortos, hipotecando-os, e adquirir um a propriedade. Via-se j á pondo em prática as lições de Kostanioglo — agindo com rapidez e prudência, não procedendo a qualquer inovação sem conhecer a fundo o antigo estado de coisas, exam inando tudo com os seus próprios olhos, inform ando-se sobre cada um dos trabalhadores, pondo de parte todas as superfluidades, para se dedicar apenas à cultura da terra. Saboreava antecipadam ente o prazer que experim entaria ao verificar a existência de um a perfeita ordem e que todas as peças da m áquina económ ica funcionavam com regularidade, im pulsionando-se um as às outras. O trabalho seguiria em bom ritm o e, da m esm a m aneira que num m oinho infatigável o grão se transform a rapidam ente em farinha, os detritos e desperdícios de toda a espécie se transform ariam em receita. Kostanioglo, o m aravilhoso adm inistrador, surgia na sua im aginação a cada instante. Era o prim eiro hom em da Rússia por quem sentia um a verdadeira estim a, pois, até então, havia respeitado as pessoas pela sua posição social ou pela sua grande fortuna; nunca, porém , pela sua inteligência. Com preendia que, com um hom em tal, as suas tram polinices do costum e não dariam resultado. Outro proj eto ainda o preocupava: com prar a herdade, de Jlobuiev. Ele possuía dez m il rublos e queria pedir em prestados quinze m il a Kostanioglo, um a vez que este se declarou disposto a aj udar todo o hom em desej oso de enriquecer. Para o resto, havia de se arranj ar, ou hipotecando ou, m ais sim plesm ente, pedindo um a m oratória. Isto podia fazer-se: o vendedor não teria que recorrer aos tribunais, segundo lhe parecia.

Tchichikov refletiu largo tem po sobre estas coisas. Por fim , o sono, que, com o é costum e dizer-se, tinha toda a casa nos seus braços, foi tam bém buscá-lo, e Pavel Ivanovitch adorm eceu profundam ente.