Almas Mortas

Nikolai Gogol · Capítulo 7 de 15

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Almas Mortas

Capítulo 7

 

Feliz o viaj ante que, depois de longas cam inhadas, apanhando vento, chuva e lam a, farto do tilintar dos guizos, das reparações no m eio da estrada, da contínua e azeda troca de palavras com a canalha dos cam inhos — postilhões, ferradores, donos de pousadas m eio adorm ecidas, e tutti quanti — volta, por fim , a ver o seu teto e conhece o conforto de um caloroso acolhim ento: alegres gritos de pessoas que acodem , lanternas na m ão, ao seu encontro; turbulentos vaivéns de crianças; palavras de carinho m isturadas com afetuosos abraços que varrem da m em ória os trabalhos sofridos! Feliz o pai de fam ília! Mas ai do celibatário!

Feliz o escritor que foge dos triviais carateres cuj a excessiva banalidade real repugna e aborrece, para se dedicar à pintura das alm as nobres, orgulho da hum anidade; que, no torvelinho das im agens continuam ente substituídas, escolhe algum as raras exceções; que j am ais falseia a elevada gam a da sua lira, não se inclina até os hum ildes m ortais e se evola para longe da terra, para as regiões do sublim e. Duplam ente invej ável se nos apresenta a sorte desses seres de eleição e os ecos da sua glória ressoam por todo o universo. Exalta e em briaga os hom ens, oferecendo-lhes o que é real, não lhes m ostrando as taras da hum anidade, para que eles som ente vej am o que é grande e o que é belo. Todos o aplaudem e acom panham o seu carro triunfal. Proclam am -no grande poeta; afirm a-se que o seu génio coloca na penum bra os outros belos espíritos, com o a águia todas as outras aves de alto voo. Os corações j uvenis trem em ao ouvir o seu nom e; lágrim as de sim patia brilham em todos os olhos. Ninguém o sobreleva em poder!

Sorte m uito diversa espera o escritor que se atreve a rem exer o lodo das baixezas em que se atola a nossa vida; a descer ao abism o das naturezas frias, m esquinhas e vulgares — que se nos deparam , a cada instante, no decurso da nossa peregrinação terrestre, às vezes tão penosa, tão am arga! — a fim de, com buril im piedoso, revelar à luz do dia aquilo que os nossos olhos indiferentes se negavam a ver. Este não desfrutará o aplauso popular, nem as lágrim as de gratidão, nem os im pulsos de um entusiam o unânim e; não despertará nenhum a paixão heroica nos corações de dezasseis anos; não sofrerá a fascinação da sua própria voz; não evitará, por fim , a crítica dos seus hipócritas e insensíveis contem porâneos, que apodarão as suas queridas criações de escritos desprezíveis e extravagantes; que lhe atribuirão os vícios dos seus heróis, negando-lhe coração, alm a e a cham a divina do talento. Esses contem porâneos negam -se a adm itir que as lentes destinadas a exam inar os m ovim entos dos insetos im percetíveis são as m esm as que servem para observar o sol; negam que um grande poder de penetração sej a indispensável para ilum inar um quadro extraído da vida abj eta e fazer dele um a obra-prim a; negam que um a potente gargalhada valha tanto com o um belo m ovim ento lírico e que um abism o a separa do riso alvar dos palhaços. Negando tudo isto, os zoilos tornarão irrisórios os m éritos do escritor isolado no m eio do cam inho. Austera é a sua carreira; am arga a sua soledade.

Por m im , j á o sei. Um poder superior m e obriga a cam inhar durante m uito tem po ainda ao lado dos m eus estranhos heróis, a contem plar, através de um sorriso falso e de lágrim as de que ninguém suspeita, o infinito desenvolvim ento da vida. Ainda está longe o tem po em que a inspiração brotará em torrentes m ais caudalosas do m eu cérebro, preso do verbo sagrado; em que os hom ens, trem entes de em oção, pressintam o m aj estoso retum bar de outros discursos.

Adiante! Em m archa! Desenruguem os a fronte; integrem o-nos na vida, em seu tum ulto e suas guizalhadas, e vej am os o que faz Tchichikov.

Tchichikov acordou, espreguiçou-se e sentiu-se com novas energias. Esteve longos m inutos de barriga para o ar; m as, recordando-se prontam ente de que j á era senhor de quatrocentas alm as, fez estalar os dedos e tom ou um aspeto radiante. Ao saltar da cam a, não pensou em ver no espelho o rosto, que m uito adm irava, especialm ente o queixo, cuj a perfeição gostava de m ostrar aos seus am igos, sobretudo ao barbear-se. « Olha, com o tenho redonda a barbela!» dizia, quase sem pre, acariciando-o. Porém , desta vez, esquecendo o queixo e até o rosto, calçou rapidam ente um par dessas botas de m arroquim j aspeado, com que, por virtude da nossa m oleza de costum es, a cidade de Torj ok faz um negócio considerável. E unicam ente com essa indum entária à escocesa, esquecendo o aprum o devido à sua idade e ao seu caráter, executou um par de cam balhotas com m uita perfeição. Depois, sem m ais tardança, lançou m ãos à obra. Sentou-se à secretária com tanta satisfação com o, depois de um interrogatório, se instala diante de um a m esa bem arrum ada um j uiz íntegro, dela tirando os papéis que encerrava. Não querendo deixar que o caso se protelasse, decidiu redigir ele próprio o contrato e ainda copiá-lo, para não ter que pagar ao notário.

Muito fam iliarizado com o form ulário, escreveu ao correr da pena, prim eiro em letras graúdas: No ano de m il oitocentos... depois, em m iúdas: Eu, fulano, proprietário..., e tudo o m ais que se segue. Ao fim de duas horas, tinha tudo pronto.

Quando, depois disso, contem plou todas aquelas folhas, aqueles cam poneses que ainda há pouco eram seres de carne e osso, labutando, lavrando, carregando, em briagando-se, enganando os senhores — ou, porventura, sim ples e boas criaturas — apoderou-se dele um estranho sentim ento, que ele próprio não saberia definir. Cada um a das relações parecia ter um caráter particular, com unicando-se aos cam poneses que a constituíam . Os da senhora Koroboshka estavam quase todos cheios de alcunhas. A concisão distinguia a lista de Pliushkin; nela, com frequência, apareciam os nom es com iniciais seguidas de dois pontos. A de Sobakevich surpreendia pelo grande núm ero de porm enores: indicava todas as qualidades dos m uj iques. Certo nom e era seguido da referência: « bom carpinteiro» ; outro, da de « inteligente e nada bêbado» . Não se om itiam os nom es nem a conduta do pai e da m ãe de cada um . Apenas a um tal Fedotov se pusera a indicação: « nascido de pai incógnito e da donzela Capitolina, todavia honesto e de bons costum es» . Estas m inudências davam às listas um a frescura especial; aquelas boas pessoas só pareciam ter m orrido no dia anterior. Tchichikov enterneceu-se e exclam ou, suspirando:

— Bons am igos: aqui estais reunidos em num erosa com panhia! Quais eram , m eus bons am igos, os vossos m eios de existência? Com o conseguistes j untar os dois extrem os?

O seu olhar deteve-se involuntariam ente num apelido: o do fam oso Piotr Saveliev, Mete-os-pés-no-prato, antigo servo da senhora Koroboshka. Desta vez ainda, não pôde deixar de exclam ar:

— Que nom e tão com prido! Só ele ocupa um a linha inteira! Quem eras tu, valente? Operário ou sim ples cam ponês? Estou a ver que m orreste na taberna, a m enos que as rodas de um carro não te tenham esborrachado quando dorm ias estendido no m eio da estrada… Estêvão Tapon, « carpinteiro arm ador, de um a sobriedade exem plar» . Ah, cá tem os Estêvão Tapon, o gigante que estava talhado à m aravilha para figurar na guarda! Com certeza, bom rapaz, percorreste todas as províncias com as botas ao om bro e o m achado à cintura, sustentando-te com um oitavo de pão e dois de peixe sêeco, para trazeres, no regresso das tuas em preitadas, um cento de rublos de prata na algibeira, não falando nas notas que esconderias nas botas ou nas dobras das tuas calças de tecido grosseiro! Onde diabo decorreu a tua vida de nóm ada? Terás, porventura, para aum entar o teu pecúlio, em preendido a reparação de um cam panário e, escorregando num andaim e, ter-te-ias estatelado no solo, dando assim ocasião a que um qualquer Zé da Béstia coçasse a cabeça, m urm urando: « Que é isso, m eu rapaz? Que foi que te aconteceu? e logo subisse com um a corda enrolada à cintura, a exercer o teu lugar?» … Máxim o Telianikov, sapateiro. Caram ba! « Bêbado com o um sapateiro» , diz o provérbio russo. Bem te conheço, am igo e, se queres, vou reproduzir a tua história em poucas palavras. Aprendiz com um alem ão, que vos sustentava, a ti e aos outros, da m esm a escudela, reprim indo a vossa negligência com o tirapé no lom bo e proibindo-vos de vaguear pelas ruas. Tu trabalhavas na ponta da unha, e o alem ão, falando com a m ulher ou com o seu cam arada, não se cansava de te fazer elogios. Acabada a aprendizagem , disseste: « Agora vou-m e estabelecer; m as, em vez de puxar, com o avaro do alem ão, o diabo pela cauda, depressa ficarei rico» . Pagaste im posto ao teu senhor, lançaste m ãos à obra e choveu a clientela. Com praste, por um a insignificância, coiros de m á qualidade e, em cada par de calçado, ganhaste cem por cento; porém , ao fim de quinze dias, estavam as botas rôtas e os teus fregueses não te procuraram m ais. Sem freguesia na loj a, afogaste os teus desgostos no álcool. Refocilando-te na lam a da rua, m urm uraste: « O m undo está m al feito! Os russos não podem ganhar a vida e aqui não há espaço senão para os alem ães» … Mas quem é esta Isabel Pardal? Um a m ulher? Com o é que se encontra aqui? Esse bandido do Sobakevich achou m aneira de vigarizar-m e.

Tchichikov tinha razão: era m ulher e estava m etida na relação com um a astúcia inaudita. Tornava-se preciso suprim i-la.

— Gregório Anda-sempre-e-não-chega-nunca. Quem diabo serias tu? Um carroceiro, com toda a certeza, que, depois de ter com prado três cavalos e um a carripana indecente, disse adeus para sem pre à sua terrinha e passou a transportar m ercadorias de feira?... Entregaste a alm a ao criador na estrada? Deram cabo de ti os teus am igos, por causa de algum a gorda e rubicunda com adre? As tuas luvas de couro, os teus gordos m achos tentaram algum negociante de lenha? Ou, talvez, sonhando com um a boa pescaria, não pudeste resistir ao desej o de te encharcar na taberna, após o que, de cabeça para baixo, te precipitaste no rio, sem seres visto nem ouvido... Com o são originais estes nossos russos! Não lhes agrada m orrer de m orte natural! E vós, m eus queridos filhos — continuou, assestando o olhar na folha onde estavam escritos os nom es dos servos de Pliushkin — vós existis ainda, é certo; m as nem por isso valeis m ais. Onde vos levará agora a vossa rápida carreira? Efetivam ente, em casa de Pliushkin a vossa existência era assim tão penosa? Ou deixastes-vos atrair pela vida errante e sentis prazer em calcorrear as grandes estradas? Apodreceis num a cadeia ou servis outro senhor, lavrando as suas terras? Jerem ias, o Cabeçudo, e Nikita, o Corredor, são filhos de António, o Corredor!... Poucos apelidos, adivinha-se que estes dois sabiam m exer as pernas... Popov, criado. Este, com certeza, sabe ler e escrever. Não faz uso da faca: com ete os seus roubos com toda a honestidade. Mas apanharam -te sem passaporte e suportas galhardam ente o interrogatório do chefe de polícia. « De quem és?» pergunta este, dirigindo-te um a ou outra palavra amável. « De tal ou tal senhor» , respondes tu com arrogância. « Que fazes por aqui?» « Estou autorizado a ganhar dinheiro para pagar o m eu im posto» , respondes sem pestanej ar. « E o teu passaporte?» « Entreguei-o ao operário Pim enov, m eu patrão.» « Façam entrar Pim enov!» « És Pim enov?» « Sou.» « Diz este hom em que te entregou o seu passaporte. É verdade?» « Não é verdade!» « Então... m entiste?» , pergunta o polícia, com um a nova amabilidade. « Menti» , declaras com o m aior cinism o, « regressei j á m uito tarde e entreguei-o a Antipas Prokhrov, o sineiro.» « Tragam o sineiro! Este entregou-te o passaporte?» « Não, senhor!» « Mas, então, m entiste outra vez?» , exclam a o chefe, acom panhando as suas palavras com um dilúvio de pragas. « Vam os a saber: onde está o teu passaporte?» « Eu tinha um » , aldrabas tu, « m as, ao fim e ao cabo, é possível que o tenha perdido no cam inho.» « E este capote de soldado» , continua o polícia, aplicando-te um novo epíteto lisonjeiro, « e esta caixa onde se encontram as econom ias do padre, por que as roubaste?» « Roubei?» , insurges-te sem gaguej ar. « Nunca m e dediquei a essa profissão!» « Todavia, o capote foi apreendido em tua casa. De quem é ele?» « Não sei, talvez alguém o levasse para lá.» « Ah, larápio!» , diz o chefe, abanando a cabeça e com as m ãos nas ilhargas. « Grilhetas aos pés e levem -no para o calabouço!» « Faça de m im o que m uito bem quiser» , concordas. E, tirando a bolsa do tabaco, ofereces um cigarro aos dois inválidos que te prendem as correntes, inform ando-te am istosam ente da data em que lhes acaba a licença e das cam panhas em que tom aram parte. Já estás preso a sete chaves; o processo corre os seus term os. De Tsavero-Kokshaisk m andam -te para outra cidade; de lá para Vesiegonsk ou outro sítio qualquer. Passas, assim , de cadeia em cadeia e com entas, exam inando os novos, aposentos: « Não, decididam ente estava-se m elhor em Vesiegonsk e a m alta de lá era m ais escolhida» .

Abashum Fy rov! Por onde andarás tu, irm ão? Terás, acaso, chegado até o Volga e ter-te-ás deixado atrair pela vida livre dos barqueiros?

Tchichikov interrom peu o seu discurso e principiou a sonhar. Pensava na sorte de Abashum Fy rov ou recordava, sim plesm ente, a dilatada vida sem freio, sonho favorito dos russos de todas as idades, de todas as condições, de todas as classes? Realm ente, onde poderia estar Fy rov? Sem dúvida, presta os seus serviços a negociantes e, no m eio de alegre barafunda, carrega trigo para o porto. Com flores e fitinhas no chapéu, os com panheiros despedem -se alvoroçadam ente das m ulheres ou das am antes, lindas m oças adornadas com laços e colares. Misturam -se cânticos e danças, enquanto, por m eio de guinchos, os carregadores atiram para os om bros, entre gritos e pragas, até cento e setenta quilos de ervilhas ou de trigo que lançam ruidosam ente para as profundas barcaças. Fardos de aveia e outros cereais j uncam o chão; pirâm ides de sacos em pilham -se, com o cogum elos, até se perderem de vista: form idável arsenal destinado a sum ir-se nos fundos flancos das barcaças, que descerão o rio um as atrás das outras. Quando a interm inável caravana se puser em m archa, terá chegado a vossa hora, barqueiros. Com o há pouco ao prazer, entregar-vos-eis à tarefa de todo o coração, esticando, esticando a corda, ao com passo de um coro m onótono e interm inável com o tu própria, Rússia!

— Mas é j á m eio dia! — exclam ou, por fim , Tchichikov, olhando para o relógio. — E eu estou ainda aqui, a apanhar m oscas. Que im becil!

Ditas estas palavras, trocou o seu traj o escocês por um à europeia. Apertou o cinto até m ais não poder, pulverizou-se com água de Colónia, pegou no seu canhenho e no seu gorro acolchoado e dirigiu-se, pressuroso, ao tribunal civil, para registar os seus contratos. Não porque receasse chegar m uito tarde, pois o seu am igo presidente podia abreviar ou prolongar as audiências a seu belo prazer, com o o antigo Zeus de Hom ero estendia ou encurtava os dias, para perm itir aos seus heróis favoritos ganhar um com bate ou subitam ente acabar com as discussões. O que ele desej ava era acabar o m ais depressa possível. Enquanto a escritura não fosse registada, não lhe parecia firm e o negócio; as alm as não eram com pletam ente suas e, em casos destes, vale m ais dar o últim o passo sem perda de tem po. Saiu pensando nestas coisas, sem se esquecer de cobrir os om bros com um a pele de urso forrada de pano cor de canela. Mal tinha posto o nariz fora da porta, deu de cara, na prim eira esquina, com um senhor tam bém de gorro acolchoado e um a pele de urso forrada de pano cor de canela. O tipo soltou um grito e caiu-lhe nos braços: era Manilov. O abraço durou perto de cinco m inutos; o beij o foi tão violento, que todo o dia lhe doeu a cara. A alegria fez cegar com pletam ente Manilov. O seu rosto não era m ais que nariz e lábios. Durante um quarto de hora, apertou a m ão de Tchichikov com o se a quisesse quebrar. Nos term os m ais esquisitos, contou-lhe que ia precisam ente à procura de Pavel Ivanovitch para se lhe lançar ao pescoço, e term inou o seu discurso com uns salam aleques que não ficariam m al a um bailarino, convidando um a j ovem para dançar. Tchichikov abriu a boca, não sabendo em que term os agradecer-lhe, quando Manilov tirou da algibeira interior da peliça um rolo de papel atado com um a fita cor de rosa.

— Que é isso?

— Os cam poneses.

— Ah!

Tchichikov desfez o rolo e, tendo-o percorrido com o olhar, adm irou a perfeição da escrita.

— Belo trabalho! — disse. — Não é necessário copiá-lo. Merecia ser encaixilhado. Quem foi o artista?

— Não m o pergunte — disse Manilov.

— Foi o senhor?

— Não; m inha m ulher!

— Ai, m eu Deus! Sinto-m e verdadeiram ente envergonhado por lhe ter dado esse incóm odo.

— Para Pavel Ivanovitch nunca é dem ais o trabalho que se tenha.

Tchichikov fez um a vénia. Ao saber que Pavel Ivanovitch se dirigia ao tribunal para registar os contratos, Manilov ofereceu-se para o acom panhar. Os dois am igos para lá se dirigiram de braço dado. À m enor depressão, ao m ais pequeno desnivelam ento de terreno, Manilov sustinha, quase erguia Tchichikov, declarando, com am ável sorriso, não perm itir que Pavel Ivanovitch m agoasse os seus pezinhos. Tchichikov, m uito com prom etido, por saber que era um pouco pesado, desfazia-se em agradecim entos. Depois de um a verdadeira luta de finezas, chegaram , finalm ente, à praça onde ficava o tribunal, enorm e edifício de pedra, de dois andares, cuj a brancura de gesso devia, sem dúvida, sim bolizar a candura dos que nele trabalhavam . Este edifício contrastava, pelas suas dim ensões, com outros adornos da praça: um a guarita com um a sentinela; duas ou três parelhas de trens; e, por fim , extensos m uros enfeitados com os habituais desenhos a carvão ou a giz. Tal era o triste local a que hiperbolicam ente se cham ava um a form osa praça.

Assom ando um instante às j anelas do prim eiro e do segundo andar, os incorruptíveis sacerdotes de Them is eclipsaram -se rapidam ente. O chefe dava, sem dúvida, um a vista de olhos pela repartição. Os nossos am igos subiram ou, m elhor, treparam pela escada. Tchichikov apressava o passo, para se livrar das atenções de Manilov que, por sua vez, se atirava para a frente, com o fim de aliviar a fadiga de Pavel Ivanovitch. Assim chegaram , lado a lado, à escura antecâm ara. Nem nos corredores nem nos com partim entos se notava lim peza; ainda se não dava im portância a estas coisas. O que estava suj o — suj o ficava, e não tom ava nenhum aspeto desagradável. Them is recebia confiadam ente e sem atavios.

Conviria descrever aqui o com partim ento por onde tiveram de passar os nossos am igos; o autor, porém , experim enta, com referência a repartições públicas, um a invencível tim idez. Quando um determ inado assunto o leva a um a delas, ainda as m ais bem apresentadas — pavim ento de m adeira encerada, m esas brilhantes — só ali se m antém com os olhos hum ildem ente no chão; por isso ignora a sua m agnificência. Os nossos am igos viram m uito papel, branco e enegrecido, cabeças inclinadas, largos cachaços, fraques e redingotes à m oda da província e, sobressaindo dentre eles, um a singela casaca cinzento-clara. Aquele que a envergava, com a cabeça quase espetada obliquam ente no papel, copiava com desem baraço um processo sobre a usurpação de terrenos praticada por um fidalgote qualquer, que, em bora processado sem pre, não deixava por isso de term inar pacificam ente os seus dias — pai e avó veneráveis — sob a égide da senhora Justiça. De vez em quando, um a rouca voz deixava escapar exclam ações: « Fedosei Fedoseievich, dê-m e o testam ento 368. Você perde sem pre a tam pa do tinteiro!» . As vezes, um a voz im perativa, a de um superior, evidentem ente, dava um a ordem : « Copia-m e isso! Se não, levar-te-ão as botas e perm anecerás aqui seis dias inteiros sem com er nem beber!» O deslizar das penas no papel recordava o dos m olhos de brej o transportados, em carradas, por um cam inho florestal, sobre um tapete de folhas secas.

Tchichikov e Manilov dirigiram -se a dois am anuenses sentados à prim eira m esa.

— A secção dos contratos, faz-nos a fineza?

— Que desej a o senhor? — responderam , ao m esm o tem po, os dois copistas.

— Apresentar um requerim ento.

— Mas que com prou o senhor?

— Prim eiro, diga-m e o senhor qual é a secção dos contratos.

— Mas, para lha indicar, é necessário que saibam os o que o senhor com prou e por que preço.

Tchichikov com preendeu que, com o todos os em pregados novatos, aqueles dois pintalegretes eram curiosos e queriam dar-se ares de im portância.

— Escutem , seus franganotes — disse. — Sei m uito bem que os contratos, qualquer que sej a a sua im portância, estão dependentes do m esm o serviço; façam , pois, o favor de no-lo indicar; e, se o ignoram , dirigim o-nos a outra pessoa.

Esta réplica fez em buchar os m angas de alpaca; um deles indicava um canto da sala, onde um velho revolvia testam entos. Tchichikov e Manilov, m etendo-se por entre as m esas, foram direitos ao fantoche, que parecia absorto pelo seu trabalho.

— Perm ita-m e o senhor que lhe pergunte — disse Tchichikov, inclinando-se. — É aqui que se registam os contratos?

— Aqui não se regista nenhum contrato! — replicou o velho, levantando a cabeça.

— Onde é, então?

— Na secção dos contratos.

— E onde é essa secção?

— Dirij a-se a Ivan Antonovich.

— Mas onde está Ivan Antonovich?

O velhote designou o canto da sala do lado oposto. Tchichikov e Manilov dirigiram -se a Ivan Antonovich, que, vendo-os chegar, lhes deitou um olhar de soslaio c recom eçou logo a escrever.

— Perdão! — disse Tchichikov, inclinando-se. — É esta a secção dos contratos?

Ivan Antonovich fez-se surdo e desapareceu por detrás da papelada. Mal haj am estes j ovens estorninhos que passam o tem po m exericando! Ivan Antonovich, espírito ponderado, andava à volta dos cinquenta; o seu rosto coroado por espessos cabelos negros, sobressaía na parte m édia, form ando assim o que vulgarm ente se cham a um pico de cântaro.

— Desculpe-m e o senhor se o interrom po — insistiu Tchichikov. — É esta a secção dos contratos?

— É — respondeu Ivan Antonovich, levantando o seu pico, que tornou a afundar entre os papéis.

— Pois ouça lá ao que eu venho: para fins de colonização, com prei cam poneses a diversos proprietários deste distrito; estão redigidas as escrituras; só falta legalizá-las.

— Estão presentes os vendedores?

— Alguns, som ente; os outros passaram procuração.

— Trouxe requerim ento?

— Sim . Tenho pressa... e desej aria... Num a palavra, o assunto poderia arrum ar-se hoj e m esm o?

— Hoj e? É im possível — disse Ivan Antonovich. — Prim eiro, é preciso inform arm o-nos se há inibições.

— Eu estou bem relacionado com Ivan Grigorievich, o presidente, que com certeza apressará o caso.

— Ivan Grigorievich não é o único a intervir; há outras pessoas — replicou m aldosam ente Ivan Antonovich.

Com preendendo a alusão, Tchichikov declarou:

— Os outros tam bém não serão esquecidos. Eu fui, com o o senhor, funcionário e conheço os costum es.

— Vá o senhor falar com Ivan Grigorievich — disse o outro num tom m enos áspero. — Que dê as ordens necessárias; nós aqui não dem orarem os m uito tem po o assunto.

Tirando um a nota da algibeira, Tchichikov pô-la em cim a da m esa de Ivan Antonovich, que se fez desentendido, cobrindo-a com um registo. Tchichikov ia fazê-la notar quando, com um m ovim ento de cabeça, Ivan Antonovich lhe deu a perceber que era inútil.

— Conduza estes senhores à sala da audiência — ordenou Ivan Antonovich a um dos seus subordinados. Este m oço tinha servido Them is com tanto zelo que as suas m angas, ponteadas nos cotovelos, deixavam ver o forro, o que lhe perm itira granj ear o posto de arquivista do m inistério. Com o noutros tem pos Virgílio a Dante, servia este de guia aos nossos dois am igos, introduzindo-os na sala da audiência, onde, atrás de um a m esa que suportava dois grossos livros e o espelho da Justiça, se alinhava um a longa fila de garrafas. O presidente reinava ali, unicam ente, com o o sol. Em face do aspeto do santuário, o novo Virgílio, preso de um sagrado tem or, deixou ver, ao cam inhar, o om bro de um j aquetão rom pido até o forro e enchum açado com penas de galinha.

Ao penetrar na sala, os nossos am igos verificaram que o presidente não estava só. Sobakevich, com pletam ente oculto pelo espelho, fazia-lhe com panhia. Um a exclam ação os acolheu; as poltronas oficiais afastaram -se ruidosam ente. O presidente abriu os seus braços a Tchichikov; ressoou um m urm úrio de beij os. Inform aram -se reciprocam ente das suas saúdes: um e outro padeciam de lum bago, que atribuíam à vida sedentária. O presidente, sem dúvida posto ao corrente por Sobakevich, felicitou o nosso herói pelas suas aquisições. Tchichikov, ligeiram ente perturbado, vendo reunidos os dois vendedores a quem havia recom endado segredo, agradeceu com não m enor efusão ao presidente, e perguntou a Sobakevich pela sua saúde.

— Graças a Deus, eu cá não m e posso queixar — respondeu este, que, com efeito, não tinha para isso causa algum a: m ais facilm ente se quebraria o ferro que aquele m ancebo feito de pedra e cim ento.

— Sim , a sua saúde é proverbial — disse o presidente — e o seu defunto pai era tam bém um hom em rij o.

— Ele, só, lutava com um urso! — respondeu Sobakevich.

— Pois tam bém m e parece que o senhor o poderia derrubar, se quisesse.

— Não — replicou Sobakevich. — Meu pai era m ais forte que eu. Nós não som os j á desse tem po. Repare o senhor na triste vida que levo — continuou, dando um suspiro.

— Triste? Com o assim ? — perguntou o presidente.

— Sim ; um a triste vida — insistiu Sobakevich, m eneando a cabeça. — Im agine o senhor, Ivan Grigorievich: cheguei aos quarenta sem ter experim entado j am ais o m enor achaque: nem um tum or, nem um furúnculo, nem um as anginas. Tudo o que o senhor queira; m as é um m au sintom a. Tudo isto eu pagarei um dia.

Sobakevich enublou-se de tristeza.

« Que hom em !» , pensaram ao m esm o tem po Tchichikov e o presidente. « Por que se queixa ele?»

— Tenho um a carta para o senhor — disse Tchichikov, entregando ao presidente a m issiva de Pliushkin.

— De quem é? Ah, de Pliushkin! — exclam ou o presidente, depois de a ter aberto. — Mas ele ainda vive? Que destino! Um hom em tão rico há tão pouco tem po ainda, tão inteligente! E que é feito dele?

— Um cão indecente — disse Sobakevich. — Um canalha que deixa m orrer à fom e toda a sua gente!

— Bem , bem ! — disse o presidente, depois de ler a carta. — Concordo em representá-lo. Quando quer o senhor registar a sua escritura?

— Hoj e m esm o, se for possível, pois quero am anhã retirar-m e. Trouxe os contratos e o requerim ento.

— Bem , bem . Mas, ainda que o senhor o tente, não o deixarem os ir-se em bora. As escrituras serão legalizadas hoj e, está certo; o senhor, porém , há de passar ainda alguns dias connosco. Espere; vou dar as ordens necessárias — disse, abrindo a porta da repartição cheia de em pregados, sem elhantes a diligentes abelhas dissem inadas pelos seus favos, se é possível com parar os m aços de processos a favos de m el. — Está aí Ivan Antonovich?

— Sim — respondeu um a voz.

— Peça-lhe que venha cá.

Ivan Antonovich, por alcunha o Pico de Cântaro, j á conhecido do leitor, fez a sua aparição na sala de audiência e saudou os presentes com grande cortesia.

— Ivan Antonovich! Encarregue-se dos contratos destes senhores.

— Não se esqueça, Ivan Grigorievich — interrom peu Sobakevich — de que são precisas, pelo m enos, duas testem unhas para cada contrato. Mande, portanto, cham ar o procurador; nada tem que fazer, pois encarrega de todo o trabalho o seu substituto Zolotuhka, o prim eiro finório do m undo. Convoque tam bém o inspetor dos serviços sanitários, outro m andrião que está em casa com certeza, a não ser que se entretenha a j ogar as cartas, em qualquer parte. Além de que, tam bém encontrará outras testem unhas na vizinhança: Truj atchevski e Begushkin, por exem plo, dois seres que fazem estrem ecer a terra com um peso inútil.

— É m uito j usto — disse o presidente, que logo enviou um próprio a todos os personagens.

— Ainda tenho que fazer-lhe outro pedido — disse Tchichikov. — Quer intim ar o representante de um a senhora com quem legalm ente fiz um negócio? É um em pregado do senhor, o filho do Padre Cirilo, o arcipreste.

— Sim , sim ; vou m andá-lo cham ar. Estej a sossegado. Só lhe peço que não dê nem um cêntim o aos em pregados; os nossos am igos não pagam nada.

Em seguida a estas palavras, deu a Ivan Antonovich um a ordem que pareceu desagradar-lhe. As escrituras causaram excelente im pressão ao presidente, sobretudo quando viu que a som a total das com pras atingia quase cem m il rublos. Contem plou Tchichikov durante alguns m om entos, com expressão de profundo contentam ento, e disse, por fim :

— Com efeito, Pavel Ivanovitch, o senhor com prou tudo isto?

— Está claro que sim !

— Excelente ideia, realm ente; excelente ideia!

— Sim , creio que não poderia ter outra m elhor. Diz-se que o hom em não encontra o seu verdadeiro cam inho senão depois de abandonar as quim eras da j uventude para seguir com pés firm es sobre terreno seguro.

Depois de m uito falar, Tchichikov m anifestou-se contra o liberalism o da m ocidade. Não obstante, notava-se um a certa hesitação nas suas diatribes. « Estou a ser inconveniente!» , parecia dizer a si próprio. Não se atrevia sequer a olhar para Manilov nem para Sobakevich, receando ler nos seus olhos um a expressão trocista. Apreensão inútil: o rosto de Sobakevich perm anecia im passível, e Manilov, seduzido pelas belas frases, m eneava a cabeça com a beatífica satisfação de um m elóm ano em frente de um a cantora que, sobrepuj ando o violino, em ite um a nota aguda capaz de abafar o trilo de um pássaro.

— Mas por que — disse finalm ente Sobakevich — não diz o senhor a Ivan Grigorievich as fam osas aquisições que fez? E o senhor, Ivan Grigorievich, por que não lho pergunta? Valentes m ocetões! Ouro em pó! Im agine o senhor que eu próprio lhe cedi o m eu carpinteiro de carros, Mij eiev!

— Mij eiev! Não é possível! — exclam ou o presidente. — O carpinteiro Mij eiev! Um operário tão exím io! Conheço-o; fez a reparação de um coche m eu. Mas perm ita-m e um a observação: não m e tinha dito o senhor que ele havia m orrido?

— Nunca! — replicou Sobakevich sem titubear um m om ento. — Foi o irm ão que m orreu; o próprio encontra-se de perfeita saúde. Agora m esm o acaba de construir um a carruagem capaz de exaltar a invej a de todos os carpinteiros de Moscovo. Para falar com franqueza, ele só devia trabalhar para o im perador.

— Sim — disse o presidente. — Mij eiev é um m estre na sua arte. Por isso m e adm ira que se desfaça dele.

— Sim , não tem igual. Mas tam bém lhe cedo Estêvão Tapon, o carpinteiro, Milushkin, o ladrilheiro, Máxim o Teliatnikov, o sapateiro... Desfiz-m e de tudo!

E, a um a pergunta do presidente, surpreendido ao ver que se desfazia de tais tesouros: « Que quer o senhor?» , respondeu Sobakevich com um gesto vago.

— Foi um capricho m eu, que não pude evitar! E, baixando a cabeça, com o se lam entasse a sua loucura, acrescentou: — As cãs não deram aprum o à m inha cabeça!

— Perm ita-m e um a pergunta, Pavel Ivanovitch — disse então o presidente. — O senhor com pra os cam poneses sem a terra; decerto os destina à colonização...

— Justam ente.

— Ah, m uito bem ! E onde, se não é indiscrição?

— Onde?... Em Quersoneso.

— Oh! País fértil. Que viçosos pastos! São extensas as suas terras?

— O suficiente para os cam poneses que com pro.

— Tem rio ou lago?

— Rio e lago.

Depois destas palavras, Tchichikov lançou por descuido um olhar para Sobakevich e pareceu ler-lhe na cara, sem pre im passível: « Mentes! Não tens terras nem rio nem lago!»

Nisto com eçavam a apresentar-se as testem unhas: o gesticulante procurador, o inspetor dos serviços sanitários, Truj atchevsky, Begushkin e outros indivíduos que, segundo Sobakevich, esm agavam a terra com um peso inútil. Tchichikov desconhecia a m aior parte deles; alguns copistas com pletavam e até ultrapassavam o núm ero indispensável. Chegou não som ente o filho do Padre Cirilo, m as o próprio arcipreste em pessoa. Cada um a das testem unhas escrevia os seus nom es, graus e qualidades, com um a letra inclinada, estendida e ainda tom bada, carateres que pareciam , alguns, não pertencer ao alfabeto russo. Ivan Antonovich arranj ou as coisas com legalidade; as escrituras foram em seguida registadas, assinadas, catalogadas, e rapidam ente liquidado o im posto de 1,5 por cento. Tchichikov só teve que pagar um a ridicularia: por ordem do presidente, foi lançada m etade das despesas, por um processo cabalístico, na conta de outro requerente.

Quando tudo estava concluído, disse Ivan Grigorievich:

— Bem ; j á não falta senão festej ar o negócio!

— Quando o senhor queira — assentiu Tchichikov. — Honro-m e, oferecendo duas ou três garrafas de vinho espum oso a tão am ável com panhia.

— Não, não! — replicou o presidente. — O senhor não m e entendeu. Som os nós que o obsequiam os. É nosso hóspede e a nós é que com pete festej á-lo. Sabem os senhores o que devem os fazer? Irm os daqui para casa do chefe da polícia, esse hom em adm irável. Só é necessário fazer um a encom enda ao passar pelo depósito de peixe ou pelo arm azém de vinhos. Garanto-lhes um verdadeiro festim . E aproveitarem os a ocasião para j ogar um whist.

Não opuseram a m enor obj eção. Ao ouvirem a palavra « peixe» , as testem unhas sentiram -se com apetite. Cada um pegou logo no seu barrete ou no seu gorro de peles e foi suspensa a sessão.

Ao atravessar a repartição, Tchichikov foi detido por Ivan Antonovich, que o saudou, cochichando.

— Com pra o senhor cam poneses no valor de cem m il rublos e só despende um a ridicularia...

— Eh! — replicou-lhe, no m esm o tom , Tchichikov. — Sem elhante sucata não vale nem m etade!

Ivan Antonovich com preendeu que tinha errado o alvo e não insistiu m ais.

— E com o pagou o senhor as alm as a Pliushkin? — m urm urou Sobakevich ao outro ouvido de Tchichikov.

— E com o figura Pardal na sua lista? — replicou este, aparando o golpe.

— Que Pardal?

— A m ulher Isabel Pardal.

— Não, não; da m inha lista não consta nenhum a Pardal — grunhiu Sobakevich, reunindo-se apressadam ente aos outros.

O grupo chegou, sem precipitação, a casa do chefe da polícia. Quando este hom em , verdadeiram ente adm irável, soube o que se esperava dele, despediu im ediatam ente a ordenança, expedito m oço com botas de m ontar, a quem segredou duas palavras, seguidas de um « Entendido» ? pronunciado em voz alta. E enquanto os convidados j ogavam , fizeram a sua aparição no com partim ento im ediato arenques, esturj ões, salm ões, caviar, lom bos de esturj ão, línguas fum adas e queij os diversos. Todas estas boas coisas procediam do depósito de peixe. Por sua vez, da cozinha veio um a torta de m arisco adornada com as escam as e as cartilagens de um esturj ão de nove arrobas; um pastel de cogum elos, bolos de nata, filhós e com potas.

O chefe da polícia era, de certo m odo, o pai e o benfeitor da cidade. Sentindo-se à vontade entre os seus adm inistrados, servia-se, com o em sua casa, no m ercado e nos estabelecim entos. Cum pria tão adm iravelm ente os deveres do seu cargo, que não se sabia se era ele que fora feito para o em prego ou o em prego para ele. Este distinto funcionário, que tirava do em prego o dobro dos seus antecessores, soubera, não obstante, conquistar o afeto de toda a cidade. Os hom ens de negócio estim avam -no pela sua sim plicidade; sentava os seus filhos nos j oelhos, tratava-os por com padre e, quando os roubava, fazia-o com m odos finos, dando-lhes palm adinhas nos om bros, gracej ando com eles, prom etendo-lhes j ogar as dam as e inform ando-se dos seus pequenos negócios. Quando sabia que um a criança estava doente, acudia espontaneam ente a aconselhar m edicam entos. Total: um grande hom em ! Ao inspecionar de carro a cidade, tinha para cada um um a palavra am ável. « Bem , Mij eich: apesar disso, terem os que term inar a nossa partida de gorka» . « Sim , Alexei Ivanovitch» , dizia o outro, de gorro na m ão, « é preciso term iná-la» . « Muito bem , Param onovich: anda ver o m eu cavalo, m as tem o cuidado de engatar o teu; verem os quem ganhará» . O com erciante, que tinha a paixão dos cavalos, sorria com evidente prazer e respondia, cofiando a barba: « Já verem os, Alexei Ivanovitch» . Os próprios em pregados, respeitosam ente descobertos, trocavam entre si grossos olhares e pareciam dizer uns para os outros: « Que bom hom em é o nosso Alexei Ivanovitch!» Em resum o: tinha conquistado um a larga popularidade e os com erciantes diziam dele: « Alexei Ivanovitch depena a galinha, é certo, m as sem fazê-la cacarej ar» .

Vendo a m esa servida, o chefe da polícia propôs que se suspendesse a partida até depois do alm oço, e todos os convidados passaram à sala de j antar. Os agradáveis olores que dela vinham j á faziam cócegas ao seu olfato, e Sobakevich, que, pela porta entreaberta, lançava olhares furtivos, assinalou com o seu um form oso esturj ão servido um pouco à parte, num a grande travessa. Os convidados estim ulavam o apetite com um copo de aguardente cor de azeitona escura, com o as pedras da Sibéria, com as quais se fabricam sinetes na Rússia; após o que, de garfo na m ão, se dirigiam para a m esa, onde cada qual dem onstrava as suas predileções, atacando, este o caviar, aquele o salm ão, aqueloutro o queij o. Desprezando estas futilidades, Sobakevich foi direito ao esturj ão e, enquanto os dem ais bebiam , com iam e conversavam , devorou-o com pletam ente em m enos de um quarto de hora. Quando, por fim , o chefe da polícia encam inhou os seus convidados na direção do m onstro, dizendo: « Que lhes parece, m eus senhores, esta obra-prim a da natureza?» , não encontrou senão o rabo. Sobakevich, com prom etido, fez-se de inocente e foi para o extrem o da m esa picar com o seu garfo um m inúsculo peixinho defum ado. Bem depressa se deixou cair num sofá, ficando num a doce sonolência.

O chefe da polícia dem onstrou que não poupava os vinhos. Os brindes foram inum eráveis. Prim eiram ente, bebeu-se — com o talvez adivinhem os leitores — à saúde do novo senhor de Quersoneso; depois, pela prosperidade e pelo auspicioso trespasse dos cam poneses; em seguida, à saúde da sua futura e bela esposa, o que fez assom ar um agradável sorriso aos lábios do nosso herói. Todos o rodearam e lhe suplicaram que ficasse com eles m ais duas sem anas.

— Não, Pavel Ivanovitch; um a pessoa não se deve portar assim ! Abre a porta de um a « isba» só para que entre o frio! Mal transpôs os um brais, j á nos volta as costas! Não, não! Não o deixarem os ir. Espere; vam os casá-lo. Não é verdade, Ivan Grigorievich?

— Com certeza! Com certeza! — aprovou o presidente. — Resista o senhor o que quiser, esperneie e gesticule, que nós casá-lo-em os, apesar de tudo. Com os lobos é preciso uivar, e não gostam os de algazarras.

— Para resistir — disse Tchichikov, sorrindo — prim eiro era preciso que houvesse um a noiva.

— Já lhe arranj arem os um a. Arranj arem os tudo o que quiser.

— Nesse caso...

— Bravo! Bravo! Fica! Viva Pavel Ivanovitch! — gritavam todos.

Os convidados quiseram dedicar-lhe brindes; e assim se fez. « Mais, m ais!» , gritavam os m ais im petuosos. Pela segunda, pela terceira vez, tocavam as taças. A alegria prontam ente se generalizou. O presidente, cuj a em briaguez lhe dava para o sentim ento, beij ou várias vezes Tchichikov e estreitou-o contra o peito, cham ando-lhe: « Meu querido coração» e « m eu queridinho» . E até, fazendo estalar os dedos, pôs-se a saltar em redor dele, cantarolando o fam oso estribilho:

— Ah! Ah! Um tal, um tal mujique de Kamarinskoe...

Depois do cham panhe, o vinho da Hungria atiçou ainda m ais a assistência. Esqueceu-se o whist; discutiu-se, gritou-se, falou-se de tudo, até de política e arte m ilitar. Alguns em itiram ideias dem asiado livres pelas quais, noutra ocasião, teriam dado tareia nos seus filhos. De um m odo perentório, resolveram -se as questões m ais com plicadas. Tchichikov nunca se sentira tão bem hum orado: acreditava possuir realm ente terras em Quersoneso, falava de m elhoram entos, da drenagem trienal, da felicidade de dois corações unidos. Até quis recitar a Sobakevich um a epístola em verso, de Werther a « Carlota» ; m as o outro, que tinha a digestão laboriosa, cerrou as pálpebras e enterrou-se m ais no sofá.

Tchichikov acabou por verificar que cam baleava dem asiado, e pediu um coche. O procurador ofereceu-lhe o seu, revelando-se o cocheiro um hom em de experiência; guiava com um a das m ãos, e com a outra segurava o ébrio. Neste estado regressou Pavel Ivanovitch à estalagem , onde largo tem po divagou ainda, m isturando capitais, terras em Quersoneso, um m enino louro de face rosada e com um a covinha na bochecha direita. Selifan chegou a receber a ordem de reunir os novos colonos e fazer um a lista nom inal de todos eles.

Selifan ouviu em silêncio durante um bom bocado, saindo, por fim , e dizendo a Petrushka:

— Vai despir o senhor.

Petrushka esforçou-se m uito tem po por tirar as botas ao am o, m as só o conseguiu após ocorrer-lhe a ótim a ideia de o estender no chão. Despido Pavel Ivanovitch, e depois de se ter rebolado na cam a, que rangia horrivelm ente, ficou a dorm ir, crendo-se, na realidade, proprietário.

Entretanto, Petrushka levou as calças e o fraque am aranto-m osqueado, estendeu-os sobre a m ala e pôs-se a alisá-los e a escová-los com tal violência que o corredor rapidam ente se encheu de poeira. Preparava-se j á para os guardar quando avistou Selifan, lá em baixo, na galeria, a sair da cavalariça. Trocaram um olhar e instintivam ente se com preenderam . O senhor dorm e com o um j usto; é o m om ento de nos porm os a m exer. Im ediatam ente, estendidos o fraque e as calças no sítio do costum e, desceu Petrushka e am bos seguiram na m elhor cam aradagem , conversando e chalaceando, m as sem dizer um a palavra sobre o fim da sua viagem , que, aliás, não foi m ais que um passeio. Lim itaram -se a atravessar a rua e, chegados que foram à casa situada em frente da hospedaria, abriram um a porta envidraçada, baixa e encardida pelo fum o, e penetraram num a espécie de adega onde se encontravam à m esa hom ens de toda a catadura, barbados, escanhoados, com sam arras, com blusas e até com casacos de castor. Deus sabe o que lá puderam fazer Selifan e Petrushka. Dali saíram ao cabo de um a hora, de braço dado, dedicando um ao outro toda a classe de atenções e velando em silêncio pelo seu m útuo equilíbrio. De m ãos agarradas, sem se largarem , levaram um bom quarto de hora a subir a escada. Petrushka ficou durou alguns instantes em frente da cam a, refletindo, sem dúvida, acerca do m odo m ais conveniente de se deitar, e acabou por atirar-se de través, com os pés no chão. Esquecendo-se dos seus aposentos ou, até, da cavalariça, Selifan deixou-se cair na m esm a cam a, com a cabeça sobre a barriga de Petrushka. Os dois rom peram a dorm ir ao m esm o tem po, enchendo o quarto de uns roncos estertorosos, aos quais, do com partim ento im ediato, se j untava o silvo nasal de Tchichikov.

Rapidam ente todo o ruído em volta se desfez. A estalagem inteira ficou m ergulhada num sono profundo. Só um com partim ento ainda perm anecia ilum inado: o do tenente chegado de Riazan, grande am ador de botas, pois j á tinha experim entado quatro pares e não podia deixar de calçar o quinto. Mais de um a vez se aproxim ara, em vão, da cam a para as tirar; a sua suprem a elegância fascinava-o e, com a perna levantada, abism ava-se na contem plação do seu talhe.