Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 5 de 8 · parte 1/2

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Anjos e Demônios

Enquanto contemplava o monolito, porém, sua atenção…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Enquanto contemplava o monolito, porém, sua atenção foi atraída para algo mais ao fundo. Algo ainda mais extraordinário.

- Estamos no lugar certo - disse em voz baixa, sentindo uma cautela repentina. - Dê uma espiada naquilo. - E apontou para a imponente Porta del Popolo, a grande arcada de pedra na extremidade oposta da piazza.

Havia séculos que aquela estrutura se elevava acima da praça. No meio do ponto mais alto do arco destacava-se um relevo simbólico. - Já viu aquilo antes em algum lugar?

Vittoria examinou o imenso relevo.

- Uma estrela brilhando em cima de uma pilha triangular de pedras?

Langdon fez que sim.

- Uma fonte de iluminação, de esclarecimento, em cima de uma pirâmide.

Vittoria arregalou os olhos.

- Igual ao sinete dos Estados Unidos?

- Exato. O símbolo maçônico na nota de um dólar.

Vittoria tomou fôlego e correu os olhos pela praça.

- Então, onde fica essa bendita igreja?

A Igreja de Santa Maria dei Popolo, colocada de través na base de uma colina na extremidade sudoeste da piazza, lembrava um deslocado navio de guerra. A alta construção de pedra do século XI parecia ainda mais desajeitada com a torre de andaimes que lhe cobria a fachada.

Os pensamentos de Langdon eram um borrão enquanto eles se encaminhavam apressados para o edifício. Olhava para a igreja, atônito. Será que um assassinato iria mesmo se realizar lá dentro? Torcia para que Olivetti chegasse depressa. O revólver em seu bolso dava-lhe uma sensação incômoda.

As escadas na frente da igreja eram ventaglio - em acolhedor formato de leque -, uma ironia, no caso, porque estavam bloqueadas por andaimes, material de construção e uma placa com um aviso: CONSTRUZIONE. NON ENTRARE.

Uma igreja fechada para reformas significava total privacidade para um assassino. Ao contrário do Panteão. Aqui não havia necessidade de truques fantasiosos. Bastava achar um modo de entrar. Vittoria esgueirou-se sem hesitação entre os cavaletes e subiu a escada.

- Vittoria - Langdon, precavido, lembrou -, se ele ainda estiver aí...

Vittoria não lhe deu ouvidos. Subiu para o pórtico principal onde se encontrava a única porta da igreja, de madeira. Langdon subiu correndo as escadas atrás dela. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela segurou a maçaneta da porta e puxou-a. Langdon prendeu a respiração. A porta nem se mexeu.

- Deve haver outra entrada - disse ela.

- Provavelmente - disse Langdon, soltando o ar dos pulmões -, mas Olivetti vai estar aqui em um minuto. É perigoso demais entrar agora. Deveríamos ficar tomando conta da igreja daqui até...

Vittoria virou-se para ele, fulminando-o com os olhos.

- Se existe outra entrada, existe outra saída. Se esse cara sumir, estamos fungiti.

O italiano de Langdon era suficiente para saber que ela estava certa.

O corredor do lado direito da igreja era apertado e escuro, com muros altos dos dois lados. Cheirava a urina, um odor comum em uma cidade em que o número de bares superava o de banheiros públicos na proporção de 20 para 1.

Langdon e Vittoria mergulharam na fétida penumbra. Uns dez metros depois, Vittoria apertou o braço de Langdon e apontou para algo adiante.

Langdon também tinha visto. Tratava-se de uma porta simples de madeira com pesadas dobradiças. Ele a identificou como a habitual porta sacra - uma entrada particular para o clero. Fazia tempo que a maioria dessas portas deixara de ser usada, à medida que o avanço dos prédios novos e as limitações do setor imobiliário iam banindo as entradas laterais para vielas incômodas.

Vittoria correu para a porta. Ao chegar, olhou para baixo, perplexa, procurando a maçaneta. Langdon aproximou-se por trás e viu a peculiar argola em forma de rosquinha pendurada onde deveria estar a maçaneta.

- Um annulus - ele cochichou. Estendeu a mão e, sem fazer ruído, segurou o anel e puxou-o para si.

Ouviu-se um dique. Vittoria mexeu-se, de repente inquieta. Em silêncio, Langdon torceu o anel no sentido horário. O anel girou em falso 360 graus sem se encaixar. Langdon franziu a testa e tentou a outra direção, com o mesmo resultado.

Vittoria examinou o resto da viela.

- Será que pode haver outra entrada?

Ele achava que não. A maioria das igrejas da Renascença fora projetada para funcionar também como fortaleza improvisada caso a cidade fosse tomada de assalto. Por isso tinham o menor número possível de entradas.

- Se houver outra entrada - disse ele -, vai estar provavelmente escondida no bastião dos fundos, mais uma saída para fugas do que uma entrada.

Vittoria já estava a caminho.

Langdon seguiu-a um bom pedaço pela viela. Os muros elevavam-se dos dois lados. Em algum lugar, um sino bateu oito horas...

Robert Langdon não escutou quando Vittoria o chamou pela primeira vez. Ele parara junto a uma janela de vitral protegida por barras de ferro e estava tentando enxergar o interior da igreja.

- Robert! - a voz dela vinha em um sussurro alto.

Langdon levantou a cabeça. Vittoria estava no final da viela. Apontava para os fundos da igreja e acenava para que ele se aproximasse. Ele trotou com relutância na direção dela. Na base da parede traseira, um bastião de pedra projetava-se para fora escondendo uma cavidade estreita, uma espécie de passagem apertada que ia direto para a base da igreja.

- É uma entrada? - perguntou Vittoria.

Langdon concordou. Na realidade, trata-se de uma saída, mas não vamos discutir esses detalhes agora.

Vittoria ajoelhou-se e espiou para dentro do túnel.

- Vamos examinar a porta, ver se está aberta.

Ele abriu a boca para objetar, mas ela o pegou pela mão e puxou.

- Espere - disse Langdon.

Ela se virou para ele, impaciente.

Ele suspirou.

- Eu vou na frente.

Vittoria surpreendeu-se.

- Mais cavalheirismo?

- A idade antes da beleza.

- Isso foi um elogio?

Langdon sorriu e passou à frente dela para a escuridão.

- Cuidado com os degraus.

Ele avançou aos poucos, às cegas, com uma das mãos na parede lateral. Sentia a aspereza da pedra nas pontas dos dedos. Por um instante, lembrou-se do velho mito de Dédalo, de como o rapaz manteve a mão na parede através do labirinto do Minotauro, sabendo que com certeza encontraria o fim se jamais interrompesse o contato com a parede. Langdon seguia em frente sem saber muito bem se queria encontrar o fim.

O túnel estreitou-se ligeramente e Langdon diminuiu o ritmo. Sentia Vittoria bem atrás dele. A parede fez uma curva para a esquerda e o túnel se abriu em um nicho semicircular. Estranhamente, havia uma luminosidade fraca ali. Na penumbra, Langdon divisou o contorno de uma grossa porta de madeira.

- Opa - disse ele.

- Trancada?

- Estava.

- Estava? - Vittoria veio para o lado dele.

Ele apontou. Iluminada por uma réstia de luz que vinha de dentro, a porta pendia entreaberta, as dobradiças quebradas por um pé-de-cabra ainda preso à madeira.

Os dois ficaram parados em silêncio por um instante. Então, no escuro, Langdon sentiu as mãos de Vittoria em seu peito, tateando, esgueirando-se para dentro de seu casaco.

- Calma, professor - disse ela. - Só estou querendo pegar o revólver.

Naquele momento, dentro dos museus do Vaticano, uma força-tarefa de guardas suíços espalhava-se em todas as direções. A área estava às escuras e por isso eles usavam óculos especiais infravermelhos produzidos pelo Corpo de Fuzileiros Navais norte-americano. Os óculos faziam tudo aparecer sob um lúgubre tom de verde. Todos os guardas usavam fones de ouvido ligados a um detector parecido com uma antena que oscilava ritmicamente à frente deles - os mesmos aparelhos que utilizavam duas vezes por semana para fazer a varredura de grampos eletrônicos nas dependências do Vaticano. Movimentavam- se de maneira metódica, verificando atrás de estátuas, no interior de nichos, dentro de armários, sob os móveis. As antenas produziriam um ruído característico se detectassem qualquer campo magnético por menor que fosse.

Naquela noite, porém, não estavam emitindo nenhum sinal.

CAPÍTULO 65

O interior de Santa Maria dei Popolo era como uma caverna tenebrosa na claridade que se extinguia aos poucos. Parecia mais uma estação de metrô em obras do que uma catedral. A nave central assemelhava- se a uma pista de obstáculos, com montes de pedaços do piso arrancado, tijolos, areia, carrinhos de mão e até uma escavadeira enferrujada. Colunas gigantescas erguiam-se do chão sustentando o teto abobadado. No ar, uma poeira fina flutuava quase imóvel contra o brilho embaçado dos vitrais. Langdon e Vittoria encontravam-se sob um extenso afresco de Pinturicchio e corriam os olhos pelo santuário desmantelado.

Nada se movia. Havia um silêncio mortal.

Vittoria segurou o revólver com as duas mãos estendidas diante de si.

Langdon verificou seu relógio: 8h04 da noite. Somos malucos por vir aqui, pensou. É perigoso demais. No entanto, sabia que se o assassino estivesse dentro da igreja poderia sair pela porta que quisesse e, portanto, seria completamente inútil ficarem à espreita do lado de fora com uma única arma. O jeito seria pegá-lo ali dentro, isto é, se ele ainda não tivesse ido embora. Langdon culpava-se pelo fiasco que os fizera perder tempo no Panteão. Não lhe cabia agora insistir em precauções. Era ele o responsável por estarem naquele beco sem saída.

Vittoria, aflita, examinava a igreja.

- Então - cochichou ela -, onde é que fica essa Capela Chigi?

Langdon olhou para a parte de trás da catedral através daquela meia-luz fantasmagórica e estudou as paredes externas. Ao contrário do que se costuma pensar, as catedrais renascentistas invariavelmente tinham diversas capelas, sendo que grandes catedrais como a Notre-Dame possuíam muitas. Essas capelas não eram aposentos e sim vãos, concavidades -nichos semicirculares contendo tumbas ao longo do perímetro da igreja.

Más notícias, pensou Langdon ao divisar quatro recessos em cada uma das paredes laterais. Havia um total de oito capelas. Embora oito não fosse um número tão exagerado assim, as quatro aberturas estavam cobertas com imensos plásticos transparentes por causa da obra, as cortinas translúcidas provavelmente tendo a função de proteger da poeira as tumbas que ficavam dentro das capelas.

- Pode ser qualquer um desses espaços cobertos - respondeu Langdon.

- Não há como saber qual é a Capela Chigi sem olhar dentro de cada um. O que é uma boa razão para esperar por Oliv...

- Qual é a segunda abside à esquerda? - perguntou ela.

Surpreso ao vê-la dominar a terminologia de arquitetura, ele repetiu:

- Segunda abside à esquerda?

Vittoria mostrou a parede atrás de si. Havia um azulejo decorativo engastado na pedra. Nele estava gravado o mesmo símbolo que tinham visto do lado de fora - uma pirâmide sob uma estrela reluzente. Ao lado, em uma placa suja de poeira, lia-se:

BRASÃO DE ALEXANDER CHIGI

CUJA TUMBA ESTÁ LOCALIZADA NA

SEGUNDA ABSIDE À ESQUERDA DESTA CATEDRAL

Quer dizer que o brasão dos Chigi era uma pirâmide e uma estrela?, pensou Langdon. E conjeturou se o abastado patrono Chigi não teria sido um Illuminatus. Cumprimentou Vittoria.

- Bom trabalho, Nancy Drew.

- O quê?

- Nada. Eu...

Uma peça de metal caiu no chão a apenas alguns metros deles. O barulho ecoou pela igreja inteira.

Langdon puxou Vittoria para trás de uma coluna e ela, ao mesmo tempo, apontou o revólver para a direção de onde vinha o ruído, mantendo-o firme. Silêncio. Eles esperaram. De novo, ouviu-se um som, dessa vez um ruído farfalhante. Langdon prendeu a respiração. Nunca deveria ter consentido em virmos para cá! O barulho ficou mais próximo, um som intermitente de um pé se arrastando, como o de um homem que mancasse. Súbito, junto à base da coluna, apareceu algo assustador.

- Figlio di una puttana! - xingou Vittoria em voz baixa, pulando para trás. Langdon recuou junto com ela.

Ao lado da coluna, arrastando um sanduíche meio comido e embrulhado em papel, havia um rato enorme.

A criatura parou quando deu com eles, examinou longamente o cano do revólver de Vittoria e depois, sem se abalar, continuou a arrastar sua presa para algum recanto da igreja.

- Filho da... - arquejou Langdon, o coração em disparada.

Vittoria abaixou a arma, recompondo-se rapidamente. Langdon esticou a cabeça e viu, do outro lado da coluna, a lancheira de um operário caída no chão, que o engenhoso rato derrubara de cima de um cavalete.

Langdon procurou alguma coisa em movimento dentro da igreja e sussurrou:

- Se o sujeito está aqui, é claro que ouviu isso. Tem certeza de que não quer esperar por Olivetti?

- Segunda abside à esquerda - repetiu Vittoria -, onde é?

A contragosto, Langdon tentou se orientar. A terminologia das catedrais era igual à das instruções para a representação de uma peça teatral - o inverso do que manda o instinto. Ficou de frente para o altar-mor.

Centro do palco. Então, apontou com seu polegar para trás por cima do ombro.

Os dois se viraram e olharam para onde ele apontava.

A Capela Chigi estava localizada no terceiro dos quatro recessos à direita deles. A boa notícia é que eles estavam do lado certo da igreja. A má é que estavam na extremidade errada. Teriam de percorrer toda a extensão da catedral e passar por três outras capelas, todas elas, assim como a Capela Chigi, cobertas por cortinas de plástico translúcido.

- Espere - disse ele. - Vou na frente.

- Nem pensar.

- Fui eu quem fez a besteira de ir para o Panteão.

- Mas sou eu quem está com o revólver.

Ele via refletido em seu olhar, porém, o que ela estava realmente pensando. Fui eu quem perdeu o pai.

Fui eu quem ajudou a criar uma arma de destruição em massa. Quero a pele desse sujeito.

Langdon concluiu que era inútil insistir e deixou-a ir. Foi andando ao lado dela, cautelosamente, pelo lado leste da basílica. Ao deixarem para trás a primeira capela coberta, Langdon, tenso, sentiu-se como um concorrente de um daqueles jogos da televisão. Escolho a cortina número três, pensou.

A igreja estava silenciosa, as grossas paredes de pedra bloqueavam todo vestígio do mundo exterior. Ao passarem pelas absides, pálidas formas humanas oscilavam como fantasmas atrás dos plásticos farfalhantes. Esculturas de mármore, ele disse para si mesmo, torcendo para estar certo. Eram 8h06 da noite. Será que o assassino tinha sido pontual e caído fora antes que eles entrassem na igreja? Ou ainda estava lá dentro? Langdon não sabia bem o que era pior.

Passaram pela segunda abside, sinistra na escuridão crescente da catedral. A noite parecia estar caindo mais depressa, acentuada pelo colorido embaçado dos vitrais. Quando seguiam adiante, a cortina de plástico a seu lado enfunouse subitamente, como se fosse agitada por uma corrente de ar. Langdon se perguntou se alguém em algum lugar teria aberto uma porta.

Vittoria diminuiu o passo quando a terceira capela surgiu diante deles. Segurou o revólver à sua frente, indicando com a cabeça a estela ao lado da abside. Em um bloco de granito havia duas palavras esculpidas:

CAPELLA CHIGI

Langdon confirmou com um gesto. Sem fazer ruído, foram para um canto da abertura, postando-se atrás de uma larga coluna. Dali, Vittoria curvou-se e apontou o revólver para o plástico. Depois, fez sinal para

Langdon afastar o plástico.

Uma boa hora para começar a rezar, pensou ele. Relutante, estendeu o braço por cima do ombro dela. Com o maior cuidado possível, começou a puxar o plástico para o lado. O plástico deslocou-se alguns centímetros e encrespou-se com um ruído alto. Os dois ficaram imóveis. Silêncio. Após um instante, em câmara lenta, Vittoria inclinou-se para a frente e espiou através da brecha estreita. Langdon espiou também, ainda por cima do ombro dela.

Por alguns segundos, nenhum dos dois sequer respirou.

- Vazia - disse Vittoria, afinal, abaixando a arma. - Chegamos tarde demais. Langdon não escutou. Estava deslumbrado, transportado em um instante para outro mundo. Jamais imaginara em toda a sua vida uma capela como aquela. Inteiramente executada em mármore castanho, a Capela Chigi era de tirar o fôlego. Seu olho treinado devorava tudo avidamente, às porções. A capela não poderia ser mais terrena, quase como se Galileu e os Iliuminati a tivessem desenhado eles próprios.

No alto, a cúpula abobadada brilhava com um campo de estrelas iluminadas e os sete planetas astronômicos. Abaixo, os sete signos do zodíaco - símbolos pagãos, terrenos, cuja origem está associada à astronomia. O zodíaco também estava ligado diretamente a Terra, Ar, Fogo e Água, os quadrantes representando o poder, o intelecto, o ardor e a emoção respectivamente. Terra corresponde a poder, recordou Langdon.

Mais adiante, ele viu na parede tributos às quatro estações temporais da Terra -primavera, esta te, autunno, invérno. O mais incrível de tudo, porém, eram as duas imensas estruturas que se elevavam no local. Langdon contemplava-as em silêncio, pasmo. Não pode ser, pensava. Não é possível! Mas era.

De cada lado da capela, em rigorosa simetria, havia duas pirâmides de mármore de três metros de altura.

- Não estou vendo nenhum cardeal - cochichou Vittoria. - Nem um assassino.

Ela afastou o plástico e entrou na capela.

Os olhos de Langdon estavam fixos nas pirâmides. O que essas pirâmides estão fazendo dentro de uma capela cristã? E, inacreditavelmente, ainda havia mais. No centro de cada pirâmide, engastados em suas fachadas, encontravam- se dois medalhões de ouro, medalhões como poucos que Langdon jamais vira: elipses perfeitas. Os discos polidos brilhavam à luz do sol poente que se infiltrava pela cúpula. As elipses de Galileu? Pirâmides? Uma abóbada de estrelas? O aposento tinha mais significado liluminati do que se Langdon o tivesse inventado em sua cabeça.

- Robert - Vittoria disse abruptamente, a voz trêmula. - Olhe!

Langdon girou nos calcanhares, voltando à realidade ao bater com os olhos no que ela estava mostrando.

- Raios! - gritou ele, pulando para trás.

Rindo com escárnio para eles do chão havia a imagem de um esqueleto - um mosaico de mármore intricadamente detalhado representando "a morte em vôo". O esqueleto carregava uma placa com a mesma imagem da pirâmide e estrela que tinham visto lá fora. Não havia sido a figura, entretanto, que gelara o sangue de Langdon. Fora o fato de estar encaixada em uma pedra circular- chamada cupermento - que tinha sido removida como uma tampa de poço e estava agora pousada ao lado de uma negra abertura no piso.

- A cova do demônio - disse Langdon com voz entrecortada.

Ele ficara tão absorto no teto que nem notara aquilo. Aproximou-se devagar do poço. O mau cheiro que vinha dali era insuportável.

Vittoria colocou a mão sobre a boca.

- Che puzzo.

- Eflúvios - disse ele. - Emanações de ossos em decomposição. - Ele respirou através da manga de sua roupa e inclinou-se para o buraco tentando distinguir algo dentro dele. Trevas completas. - Não enxergo nada.

- Será que tem alguém lá embaixo?

- Não dá para saber.

Vittoria mostrou a outra extremidade do buraco, onde uma escada de madeira apodrecida descia para as profundezas.

Langdon sacudiu a cabeça.

- Nem pensar.

- Talvez haja uma lanterna aí fora, junto com aquelas ferramentas. - Ela parecia ansiosa por uma desculpa para escapar do mau cheiro. - Vou procurar.

- Cuidado! - preveniu ele. - Não temos certeza se o assassino...

Mas Vittoria já se fora.

Mulher voluntariosa, pensou Langdon.

Ao se virar de novo para a cova, ficou um pouco tonto com as emanações. Prendendo a respiração, deixou a cabeça cair abaixo da borda e esforçou-se para ver alguma coisa na escuridão. Lentamente, conforme seus olhos se acostumavam, começou a divisar vagas formas lá embaixo. A cova parecia dar em uma pequena câmara. A cova do demônio. Pensou em quantas gerações de Chigi teriam sido jogadas ali sem a menor cerimônia. Fechou os olhos e esperou, forçando suas pupilas a se dilatarem para enxergar melhor no escuro. Quando abriu os olhos de novo, uma figura muda e esmaecida pairou nas trevas. Langdon estremeceu, mas lutou contra a vontade instintiva de sair, de se levantar. Estou vendo coisas? Aquilo é um corpo? A figura sumiu aos poucos. Ele fechou os olhos outra vez e esperou mais tempo agora, de modo que seus olhos pudessem apreender a menor claridade que existisse.

Uma tonteira instalou-se e seus pensamentos vagaram na escuridão. Só mais uns segundos. Não sabia se era porque estava respirando aqueles gases ou se por estar com a cabeça inclinada para baixo, mas decididamente começava a se sentir nauseado. Quando enfim abriu os olhos, a imagem diante dele era totalmente inexplicável.

Estava olhando para uma cripta banhada em uma misteriosa luz azulada. Um leve som sibilante reverberava em seus ouvidos. A luz bruxuleava nas paredes escarpadas da cavidade. De repente, uma longa sombra materializou-se acima dele. Assustado, tentou levantar-se depressa.

- Preste atenção! - alguém exclamou atrás dele.

Antes que pudesse se virar, sentiu uma dor aguda na nuca. Deu com Vittoria afastando dele um maçarico aceso, a chama assoviando e lançando uma luz azul pela capela.

Langdon pôs a mão na nuca.

- Que diabos está fazendo?

- Estava iluminando o poço para você - disse ela. - Você levantou direto em cima de mim.

Langdon lançou um olhar feroz para o maçarico portátil na mão dela.

- Foi o melhor que consegui arranjar- explicou ela. - Não achei nenhuma lanterna.

Langdon esfregou o pescoço.

- Não ouvi você chegar.

Vittoria entregou-lhe o maçarico, fazendo uma careta para o fedor da cripta.

- Acha que esses gases são combustíveis?

- Tomara que não.

Ele pegou o maçarico e levou-o devagar para perto do buraco. Com cuidado, aproximou-se da borda e apontou a chama para baixo, para dentro do buraco, iluminando a parede lateral. Direcionou a luz, acompanhando o contorno da parede na descida. A cripta era circular e tinha cerca de seis metros de diâmetro. Uns dez metros abaixo, o facho de luz encontrou o chão. Um chão escuro e mosqueado. De terra.

Então Langdon viu o corpo.

Seu instinto foi recuar.

- Ele está lá - disse, forçando-se a não sair dali.

A figura pálida contrastava com o chão de terra.

- Acho que está nu - e a imagem do cadáver despido de Leonardo Vetra surgiu como um breve clarão em sua mente.

- É um dos cardeais?

Langdon não tinha a menor idéia, mas não imaginava quem mais poderia ser. Ele examinou a silhueta clara.

Imóvel. Sem vida. E no entanto... Langdon hesitou. Havia algo muito estranho na posição daquela figura. Parecia que ele estava...

Langdon chamou:

-Ei!

- Acha que ele está vivo?

Não houve resposta vinda de baixo.

- Ele não está se mexendo - disse Langdon -, mas parece... - Não, impossível.

- Parece o quê? - Vittoria agora também estava espiando lá para baixo.

Langdon apertou os olhos para a penumbra da cova.

- Parece que ele está de pé.

Vittoria prendeu a respiração e inclinou mais o rosto para enxergar melhor. Depois de um momento, ela ergueu o tronco.

- Você tem razão. Ele está de pé! Talvez esteja vivo e precise de ajuda! - Ela gritou para dentro do buraco. - Alô?! Mi puó sentire?

Nenhum eco voltou do fundo do buraco. Só silêncio.

Vittoria dirigiu-se para a frágil escada de madeira.

- Vou descer.

Langdon segurou o braço dela.

- Não. É perigoso. Eu vou. Dessa vez, Vittoria não discutiu.

CAPÍTULO 66

Chinita Macri estava furiosa. Encontrava-se sentada no banco do passageiro do furgão da BBC, parado em uma esquina na Via Tomacelli.

Gunther Glick estava verificando seu mapa de Roma, aparentemente perdido.

Como ela temia, o homem misterioso ligara de novo, dessa vez com informações.

- Piazza dei Popolo - insistia Glick. - É o que estamos procurando. Há uma igreja lá. E dentro está a prova.

- Prova. - Chinita parou de polir a lente que tinha na mão e voltou-se para ele. - Prova de que um cardeal foi morto?

- Foi o que ele disse.

- Você acredita em tudo o que ouve? - Chinita gostaria, como sempre, que fosse ela a tomar as decisões.

Os cinegrafistas, porém, ficavam à disposição dos repórteres malucos para quem gravavam as matérias. Se Gunther Glick queria seguir uma dica idiota que recebera pelo telefone, ela teria de ir atrás dele como um cachorrinho na coleira.

Ela o observou, sentado ao lado, a boca apertada, determinado. Os pais dele, na certa, deviam ser comediantes frustrados para lhe darem aquele nome. Não era à toa que o sujeito agia como se fizesse questão de provar alguma coisa. Mesmo assim, apesar do nome e daquela mania irritante de se afirmar, Glick era um doce, charmoso à sua moda, com aquela sua brancura e o jeito meio ansioso de inglês. Um Hugh Grant tomando lítio.

- Não seria melhor voltarmos para a Praça São Pedro? - disse Macri, com a maior paciência possível. - Podemos conferir esse mistério da igreja mais tarde. O conclave começou há uma hora. E se os cardeais chegarem a uma conclusão enquanto estamos fora?

Glick pareceu não escutar.

- Acho que temos de ir para a direita aqui. - Entortou o mapa e examinou-o outra vez. - É, se eu for para a direita e logo em seguida para a esquerda. - E arrancou com o carro pela rua estreita onde estavam.

- Cuidado! - gritou Macri.

Ela era operadora de vídeo e tinha visão aguçada. Felizmente, Glick também era rápido. Enfiou o pé no freio e não entrou no cruzamento exatamente quando uma fila de quatro Alpha Romeos surgiu do nada e passou correndo. Depois de passarem, os carros diminuíram a velocidade e, cantando pneus, entraram acelerados à esquerda no quarteirão seguinte, fazendo o mesmo caminho que Glick pretendia fazer.

- Doidos! - gritou Macri.

Glick parecia abalado.

- Você viu?

- Claro que vi! Eles quase nos mataram!

- Não, estou falando dos carros - disse ele, a voz de repente excitada. - Eram todos iguais.

- Então, eram doidos sem imaginação.

- Os carros também estavam cheios.

- E daí?

- Quatro carros idênticos, todos com quatro passageiros?

- Já ouviu falar de carona compartilhada?

- Na Itália? - Glick verificou o cruzamento. - Eles ainda nem ouviram falar de gasolina sem chumbo. - E pisou no acelerador, disparando atrás dos carros.

Macri foi atirada contra o encosto de seu banco.

- Que diabos está fazendo?

Glick desceu a rua à toda e dobrou à esquerda seguindo os Alpha Romeos.

- Algo me diz que você e eu não somos os únicos que estão indo para aquela igreja agora.

CAPÍTULO 67

A descida foi lenta.

Langdon ia de degrau em degrau pela escada que rangia, cada vez mais fundo sob o piso da Capela Chigi. Para dentro da cova do demônio, lembrou. Estava de frente para a parede lateral, de costas para a câmara e perguntou-se quantos espaços escuros e apertados mais um único dia poderia proporcionar. A escada gemia a cada passo e o cheiro penetrante de carne decomposta e de umidade era quase asfixiante. Onde estaria o cretino do Olivetti, pensava Langdon.

A silhueta de Vittoria ainda era visível acima segurando o maçarico dentro do buraco, iluminando o caminho de Langdon. À medida que ele descia, o brilho azulado que vinha do alto ficava mais fraco. A única coisa mais forte era o cheiro.

Doze degraus abaixo, aconteceu. O pé dele se apoiou em um ponto escorregadio da madeira apodrecida e ele se desequilibrou. Atirou o corpo para a frente e agarrou-se na escada, onde bateu com os antebraços, para evitar uma queda até o fundo. Amaldiçoando a dor latejante dos braços machucados, puxou o corpo de volta para os degraus e recomeçou a descida.

Três degraus depois, quase caiu de novo, mas dessa vez por um motivo diferente - um sobressalto de medo. Ao passar por um nicho escavado na parede, deu de cara com um monte de caveiras. Quando recuperou o fôlego e olhou em torno, percebeu que naquele trecho havia diversas aberturas em forma de prateleiras - nichos funerários -, todas cheias de esqueletos.

Formavam, sob a luminosidade fosforescente, uma colagem sobrenatural de órbitas vazias e gaiolas torácicas em decomposição tremeluzindo à sua volta.

Esqueletos à luz da fogueira, pensou ele, fazendo uma careta e lembrando que, por coincidência, vivera uma noite de certa forma semelhante no mês anterior. Uma noitada de ossos e chamas. O jantar beneficente à luz de velas do Museu de Arqueologia de Nova York - salmão flambado à sombra de um esqueleto de brontossauro. Comparecera a convite de Rebecca Strauss, ex-modelo e agora crítica de arte do Times, um turbilhão de veludo negro, cigarros e seios em destaque sem qualquer sutileza. Ela lhe telefonara duas vezes desde então e ele não ligara de volta. Muito pouco cavalheiresco, censurava-se, imaginando quanto tempo Rebecca Strauss resistiria em uma cloaca como aquela.

Foi um alívio sentir o chão de terra fofa depois do último degrau. Sob os sapatos, sentiu a umidade do solo. Depois de se assegurar que as paredes não se fechariam sobre ele, voltou-se para a cripta. Era circular, com uns seis metros de diâmetro. Respirando de novo através da manga do paletó, olhou para o corpo. Na semi-obscuridade, a imagem era indistinta. Um vulto branco, corpulento. Virado para o lado oposto. Imóvel. Silencioso.

Avançando pela cripta mal iluminada, Langdon tentou entender o que via. O homem estava de costas para ele, não podia ver-lhe o rosto, mas parecia mesmo estar de pé.

- Olá? - disse Langdon, a voz abafada na manga.

Nada. À medida que se aproximava, percebia que o homem era muito baixo. Baixo demais...

- O que está acontecendo aí? - Vittoria chamou do alto, deslocando o foco de luz.

Langdon não respondeu. Encontrava-se agora próximo o suficiente para ver tudo. Com um arrepio de repulsa, compreendeu de imediato. A cripta pareceu contrair-se em torno dele. Emergindo como um demônio do chão de terra, havia um homem idoso, ou metade dele. Fora enterrado até a cintura.

Completamente despido. As mãos atadas atrás do tronco com uma faixa vermelha de cardeal. Estava molemente inclinado, a espinha arqueada para trás como uma espécie de medonho saco de treinamento de pugilismo, os olhos voltados para o céu como se implorasse a ajuda do próprio Deus.

- Ele está morto? - perguntou Vittoria.

Langdon andou para perto do corpo. Espero que sim, para o próprio bem dele. A poucos centímetros, Langdon viu os olhos azuis voltados para o alto, esbugalhados e injetados. Curvou-se para escutar se o homem ainda respirava, mas recuou de imediato.

- Deus do céu!

- O que foi?

Langdon quase vomitou.

- Ele está morto, sim. Acabei de descobrir a causa da morte.

A cena era horripilante. A boca do homem fora escancarada e entulhada de terra.

- Alguém lhe enfiou uma porção de terra na boca. Ele morreu sufocado.

- Terra? - disse Vittoria.

Langdon caiu em si. Terra. Quase esquecera. As marcas. Terra, Ar, Fogo, Água. O assassino ameaçara marcar cada vítima com um dos antigos elementos da ciência. O primeiro elemento era Terra.

Da tumba terrena de San ti. Tonto por causa das emanações, Langdon rodeou o cadáver, ficando de frente para ele. Ao fazê-lo, o simbologista dentro dele reafirmou enfaticamente o desafio artístico de criar o mítico ambigrama. Terra? Como? E, entretanto, um instante depois, estava diante dele. Séculos de lendas sobre os Iliuminati rodopiaram em sua mente. A marca no peito do cardeal era uma queimadura de onde exsudava líquido. A carne estava carbonizada. La lingua pura...

Langdon fixou o olhar na marca e tudo começou a girar.

- Earth - ele sussurrou, virando a cabeça para ler o símbolo ao contrário.

- Terra.

Então, com uma sensação de terror, veio uma percepção final. Há mais três.

CAPÍTULO 68

A despeito da suave luz de velas na Capela Sistina, o cardeal Mortati estava nervoso, O conclave começara oficialmente. E começara de uma forma muito pouco auspiciosa.

Meia hora antes, no horário determinado, o camerlengo Cano Ventresca entrara na capela. Dirigira-se para o altar-mor e fizera a prece de abertura. Depois, abrira os braços e falara-lhes da maneira mais direta que Mortati jamais ouvira alguém falar daquele altar da Capela Sistina.

- Todos têm conhecimento - disse o camerlengo - de que nossos quatro preferiti não estão presentes no conclave neste momento. Peço-lhes, em nome de Sua Santidade falecida, que prossigam como deve ser, com fé e determinação. Que todos possam ter Deus diante de seus olhos. E preparou-se para sair.

Um dos cardeais não se conteve.

- Mas onde estão eles?

O camerlengo parou.

- Isso, sinceramente, não posso dizer.

- Quando vão voltar?

- Isso, sinceramente, não posso dizer.

- Eles estão bem?

- Isso, sinceramente, não posso dizer.

- Eles vão voltar?

Fez-se uma longa pausa.

- Tenham fé - disse o camerlengo. E saiu da capela.

As portas da Capela Sistina haviam sido seladas por fora, como era o costume, com duas pesadas correntes. Quatro guardas suíços estavam de sentinela no saguão ao lado. Mortati sabia que as portas só poderiam ser abertas agora, antes da eleição de um Papa, se alguém ali dentro caísse seriamente doente ou se os preferiti chegassem. Ele rezava para que fosse a última alternativa a acontecer, embora o nó em seu estômago não lhe desse tanta certeza.

Prossigamos como deve ser, decidiu Mortati, tomando como exemplo a firmeza na voz do camerlengo. Por isso, iniciara a votação. O que mais poderia fazer?

Haviam sido necessários trinta minutos para que se completassem os rituais preparatórios desse primeiro escrutínio. Mortati esperara pacientemente no altar-mor que cada cardeal, em ordem de antiguidade, se aproximasse e realizasse o procedimento específico de votação.

Agora, enfim, o último cardeal havia chegado ao altar e ajoelhava-se diante dele.

- Chamo como testemunha - declarou o cardeal, exatamente como todos os outros antes dele - Cristo, o Senhor, que saberá que meu voto está sendo dado àquele que, diante de Deus, julgo que deve ser o eleito.

O cardeal levantou-se. Ergueu sua ficha de voto bem alto, acima da cabeça, para todos verem. Depois, baixou-a até o altar, onde um prato estava pousado sobre um grande cálice. Colocou a ficha de voto em cima do prato. Em seguida, pegou o prato e usou-o para deixar cair a ficha de voto dentro do cálice. O uso do prato era para garantir que ninguém disfarçadamente pusesse mais de um papel no cálice.

Após dar seu voto, ele recolocou o prato sobre o cálice, inclinou-se na direção da cruz e voltou para seu lugar.

O último voto fora depositado no cálice.

Chegara a hora de Mortati trabalhar.

Deixando o prato sobre o cálice, Mortati sacudiu as fichas de voto para misturá-las. Em seguida, retirou o prato e tirou uma ao acaso de dentro do cálice. Desdobrou-o. A ficha de voto tinha exatos cinco centímetros de largura. Ele leu em voz alta para todos ouvirem.

"Eligo in summum pontifi cem...", declarou, lendo o texto gravado em relevo no alto de cada ficha de voto.

Elejo como Sumo Pontífice... E anunciou o nome do indicado que fora escrito abaixo. Depois de ler o nome, apanhou uma agulha preparada com um fio, levantou-a e furou a ficha de voto na palavra Eligo, fazendo-a deslizar com cuidado pelo fio. E tomou nota do voto em um livro de registro.

Em seguida, repetiu o procedimento. Escolheu uma ficha de voto dentro do cálice, leu o que estava escrito em voz alta, enfiou a ficha no fio e fez a anotação no livro. Quase mediatamente Mortati percebeu que essa primeira votação não daria em nada. Não havia consenso. Após sete votos apenas, sete diferentes cardeais já haviam sido citados. Como era normal, os cardeais haviam procurado disfarçar a própria letra floreando a escrita ou escrevendo em letra de imprensa. O disfarce era uma ironia nesse caso porque eles estavam obviamente votando em si mesmos. Mortati sabia que essa aparente vaidade nada tinha a ver com ambição pessoal. Tratava-se de uma forma de retenção. Uma manobra defensiva. Uma tática de protelação para que nenhum cardeal recebesse votos suficientes para vencer e fosse necessário realizar outra votação.

Os cardeais estavam esperando por seus preferiti

Quando a última ficha de voto foi marcada, Mortati declarou que a votação malograra.

Pegou o fio com todas as fichas de voto presas, amarrou suas pontas formando um anel e depositou o anel de votos em uma bandeja de prata. Acrescentou os produtos químicos devidos e levou a bandeja até uma pequena lareira atrás de si. Ali, pôs fogo nos papéis. Quando estes se queimaram, os produtos químicos que ele utilizara criaram uma fumaça negra. A fumaça subiu por um tubo até uma abertura no telhado, de onde se espalhou acima da capela para todos lá fora verem. O cardeal Mortati acabara de enviar sua primeira comunicação ao mundo exterior.

Uma primeira votação. O Papa não fora escolhido.

CAPÍTULO 69

Quase asfixiado pelos gases que emanavam da cova, Langdon subiu com dificuldade pela escada na direção da luz no alto do poço. Ouviu vozes acima, mas nada fazia sentido. Sua cabeça estava girando com imagens do cardeal marcado a fogo.

Terra... Terra...

Enquanto se esforçava para subir, sua visão escureceu e ele receou perder a consciência. A dois degraus da abertura perdeu o equilíbrio. Atirou-se para cima tentando segurar a borda, mas não a alcançou. As mãos soltaram-se da escada e ele quase caiu de costas na escuridão. Sentiu uma dor aguda embaixo dos braços e de repente estava no ar, as pernas balançando loucamente no abismo.

As mãos fortes de dois guardas suíços puxaram-no para cima pelas axilas. No momento seguinte, a cabeça de Langdon emergiu da cova do demônio, tossindo e arquejando. Os guardas arrastaram-no e deitaram-no de costas no piso frio de mármore.

Por um instante, Langdon não soube onde estava. Via estrelas lá em cima, planetas em órbita. Figuras nebulosas passavam por ele correndo. Pessoas gritavam. Tentou sentar-se. Estava deitado na base de uma pirâmide de pedra. O conhecido azedume de uma voz irritada ecoou dentro da capela e então ele voltou a si.

Olivetti estava gritando com Vittoria.

- Por que cargas d'água vocês não viram isso antes?

Vittoria tentava explicar a situação.

Olivetti interrompeu-a no meio de uma frase e vociferou uma saraivada de ordens para seus homens.

- Retirem aquele corpo de lá! Vasculhem o resto da igreja!

Langdon fez um esforço para se sentar. A Capela Chigi estava cheia de guardas suíços. A cortina de plástico que fechava a capela fora arrancada e o ar fresco encheu seus pulmões. Enquanto ele recobrava lentamente os sentidos, Vittoria veio em sua direção. Ela se ajoelhou, o rosto igual ao de um anjo.

- Você está bem? - Ela pegou o braço dele e examinou-lhe o pulso. Sentiu a maciez das mãos dela em sua pele.

- Obrigado - disse ele, sentando-se por completo. - Olivetti está uma fera.

Vittoria assentiu.

- Tem razão de estar. Nós estragamos tudo.

- Eu estraguei tudo.

- Então, redima-se. Pegue-o da próxima vez.

Próxima vez? Langdon achou o comentário cruel. Não haverá próxima vez! Nós perdemos a chance!

Vittoria verificou o relógio de Langdon.

- Mickey está dizendo que temos quarenta minutos. Ponha a cabeça de volta no lugar e me ajude a procurar o próximo marco.

- Já lhe disse, Vittoria, as esculturas foram retiradas. O Caminho da Iluminação está... - e ele se deteve.

Vittoria sorriu com suavidade.

De um salto, Langdon se pôs de pé, cambaleando. Girou de um lado para outro, zonzo, olhando para as obras de arte que o rodeavam. Pirâmides, estrelas, planetas, elipses. E tudo lhe voltou. Este é que é o primeiro altar da ciência! Não o Panteão! Deu-se conta de como toda a capela era tão perfeitamente liluminati, de uma forma muito mais sutil e seletiva do que o mundialmente famoso Panteão. A Capela Chigi era uma alcova afastada, literalmente um buraco na parede, um tributo a um grande patrono da ciência, decorada com simbologia referente à Terra. Perfeita.

Langdon encostou-se na parede e examinou as enormes pirâmides esculpidas. Vittoria estava coberta de razão. Sendo o primeiro altar da ciência, a capela devia conter ainda a escultura Illuminati que servira de primeiro marco. Veio- lhe uma sensação eletrizante de esperança ao perceber que ainda havia uma chance.

Se o marco ainda estivesse ali e pudessem segui-lo até o próximo altar da ciência, talvez houvesse mesmo outra oportunidade de pegar o assassino.

Vittoria aproximou-se.

- Descobri quem era o escultor Illuminati desconhecido.

A cabeça de Langdon virou-se como se fosse de mola.

-Você o quê?

- Agora só temos de descobrir qual das esculturas aqui dentro é o...

- Espere aí! Você disse que sabe quem era o escultor Illuminati?

Ele passara anos tentando encontrar aquela informação.

Vittoria sorriu.

- Era Bernini - e fez uma pausa. - O Bernini.

Ele tinha certeza de que Vittoria estava enganada. Bernini era uma impossibilidade. Gianlorenzo Bernini foi o segundo mais famoso escultor de todos os tempos, sua fama eclipsada apenas pela do próprio Michelangelo. Durante o século XVII, Bernini criou mais esculturas do que qualquer outro artista. O homem que procuravam era supostamente um desconhecido, um joão-ninguém.

Vittoria franziu as sobrancelhas.

- Você não ficou muito entusiasmado.

- É impossível ser Bernini.

- Por quê? Bernini foi contemporâneo de Galileu. Era um escultor brilhante.

- Era um homem muito famoso e era católico.

- Sim - replicou Vittoria -, exatamente como Galileu.

- Não - argumentou ele -, nem um pouco como Galileu. Galileu era uma pedra no sapato do Vaticano.

Bernini era o menino-prodígio do Vaticano. A Igreja adorava Bernini. Foi escolhido como a maior autoridade artística do Vaticano. Ele praticamente viveu a vida inteira dentro da Cidade do Vaticano!

- Um disfarce perfeito. Infiltração liluminati.

Langdon estava exaltado.

- Vittoria, os Illuminati referiam-se a seu artista secreto como il maestro ignoto, o mestre desconhecido!

- Sim, desconhecido para eles. Pense no sigilo dos maçons. Só os membros do escalão superior sabiam de tudo. Galileu pode ter mantido em segredo para a maior parte dos membros a verdadeira identidade de Bernini, tendo em vista a própria segurança de Bernini. Desse jeito, o Vaticano nunca descobriria.

Langdon não se convencera, mas tinha de admitir que a lógica de Vittoria fazia sentido. Os Illuminati eram famosos por manter informações secretas compartimentadas, só revelando a verdade aos membros de nível mais alto. Era a pedra de toque de sua capacidade de se manterem secretos: muito poucos sabiam a história completa.

- E a filiação de Bernini aos Iliuminati - Vittoria acrescentou com um sorriso - explica por que ele projetou estas duas pirâmides.

Langdon voltou-se para as duas imensas pirâmides esculpidas e sacudiu a cabeça.

- Bernini era um escultor religioso. Jamais teria esculpido estas pirâmides.

Vittoria deu de ombros.

- Diga isso para a placa atrás de você.

Langdon virou-se para a placa:

ARTE DA CAPELA CHIGI

Rafael foi o responsável pela arquitetura, e todas as peças de ornamentação interior são de autoria de Gianlorenzo Bernini.

Langdon leu a placa duas vezes e ainda assim não se convenceu. Gianlorenzo Bernini era célebre por suas intricadas esculturas religiosas da Virgem Maria, de anjos, profetas, de papas.

Como iria esculpir pirâmides?

Langdon olhou para os altivos monumentos e ficou completamente desorientado. Duas pirâmides, cada uma com um reluzente medalhão elíptico. Não poderia haver duas esculturas menos cristãs. As pirâmides, as estrelas acima, os signos do zodíaco. Todas as peças de ornamentação interior são de autoria de Gianlorenzo Bernini. Se isso fosse verdade, Vittoria tinha de estar certa. À revelia, Bernini era o mestre liluminati desconhecido. Ninguém mais contribuíra com obras de arte para a Capela Chigi! As implicações vieram rápido demais para que Langdon as processasse.

Bernini era um liluminatus.

Bernini desenhou os ambigramas dos Iliuminati.

Bernini projetou e realizou o Caminho da Iluminação.

Langdon mal conseguia falar. Seria possível que ali, na pequena Capela Chigi, o mundialmente famoso Bernini tivesse colocado uma escultura que apontava para o próximo altar da ciência através de Roma?

- Bernini - disse. - Jamais teria imaginado.

- Quem mais senão um famoso artista do Vaticano teria influência política para colocar suas obras de arte em capelas católicas específicas por Roma afora e criar o Caminho da Iluminação? Não um desconhecido qualquer.

Langdon ponderou a questão. Examinou as pirâmides, conjeturando se alguma delas poderia ser o marco.

Quem sabe, ambas?

- As pirâmides estão voltadas para direções opostas - disse Langdon, sem saber bem como avaliá-las. - Também são idênticas, por isso não sei qual...

- Não acho que as pirâmides sejam o que estamos procurando.

- Mas são as únicas esculturas aqui.

Vittoria interrompeu-o apontando na direção de Olivetti e alguns de seus guardas, reunidos em torno da cova do demônio.

Langdon acompanhou a linha da mão dela até a parede mais distante. A princípio, não viu nada. Então, alguém se moveu e ele entreviu alguma coisa. Mármore branco. Um braço. Um tronco. Depois, um rosto esculpido. Parcialmente oculto em seu nicho. Duas figuras juntas, em tamanho natural. O pulso de Langdon acelerou-se. Ficara tão absorvido pelas pirâmides e pela cova do demônio que sequer vira aquela escultura. Cruzou o recinto pelo meio de todas as pessoas. Ao se aproximar, reconheceu o puro estilo de Bernini na obra - a intensidade da composição artística, a complexidade dos rostos e os trajes ondulantes, tudo feito com o mais puro mármore branco que o dinheiro do Vaticano podia comprar. Somente quando ficou de frente para ela é que reconhece a própria escultura. Levantou a cabeça para contemplar os dois rostos e perdeu o fôlego.

- Quem são eles? - perguntou Vittoria, ansiosa, aproximando-se por trás dele.

Langdon continuava boquiaberto.

- Habacuc e o Anjo - disse ele, a voz quase inaudível.

A peça era um trabalho bastante conhecido de Bernini que aparecia em alguns livros de História da Arte.

Langdon esquecera que estava ali.

- Habacuc?

- É. O profeta que previu a aniquilação da Terra.

Apreensiva, Vittoria perguntou:

- E você acha que esse é o marco?

Langdon balançou a cabeça, extasiado. Nunca em sua vida tivera tanta certeza de alguma coisa. Aquele era o primeiro marco Illuminati. Sem qualquer dúvida. Embora esperasse que a escultura de alguma forma "apontasse" para o próximo altar da ciência, não contava que isso fosse literal. Tanto o anjo quanto Habacuc tinham os braços estendidos e apontavam para longe.

Vittoria estava excitada mas confusa.

- Ambos estão apontando, mas um contradiz o outro. O anjo está apontando para um lado e o profeta para o lado oposto.

Langdon deu uma risadinha. Era verdade. As duas figuras estavam de fato apontando para longe, mas para direções totalmente contrárias. No entanto, ele já resolvera este problema. Com um impulso de energia, dirigiu-se para a porta.

- Onde é que você vai? - perguntou Vittoria.

- Para fora da igreja! - As pernas de Langdon estavam leves outra vez quando ele correu para a porta. - Tenho de ver para qual direção a escultura está apontando!

- Espere aí! Como sabe qual dos dedos tem de acompanhar?

- O poema - ele gritou por cima do ombro. - O último verso!

- Que os anjos o guiem em sua busca sublime? - Ela levantou a cabeça e viu o dedo estendido do anjo. Seus olhos enevoaram-se sem querer. - Ora, não é que é mesmo?!

CAPÍTULO 70

Gunther Glick e Chinita Macri estavam sentados dentro do furgão da BBC do outro lado da Piazza del Popolo, onde havia menos claridade. Tinham chegado logo depois dos quatro Alpha Romeos, a tempo de presenciar uma inconcebível sucessão de acontecimentos. Chinita sequer fazia idéia do significado de tudo aquilo, mas mesmo assim mantivera a câmera funcionando.

Logo ao chegarem, Chinita e Glick tinham visto um verdadeiro exército de homens sair depressa dos Alpha Romeos e cercar a igreja. Alguns seguravam armas. Um deles, mais velho e empertigado, saiu acompanhado de um grupo direto para as escadarias da frente da igreja. Os soldados sacaram armas e arrebentaram com tiros os cadeados que trancavam as portas. Macri não ouviu nada e presumiu que eles deviam estar usando silenciadores. Aí, os soldados entraram na igreja.

Chinita recomendou que os dois ficassem sentados quietos filmando tudo de longe. Afinal de contas, os outros estavam armados e eles podiam ver tudo muito bem do furgão. Glick nem discutira. Agora, do outro lado da piazza, havia homens entrando e saindo da igreja. Gritavam uns para os outros. Chinita ajustou sua câmera para seguir uma equipe que estava revistando a área ao redor. Todos eles, apesar de vestidos com roupas civis, se moviam com precisão militar.

- Quem você acha que esses homens devem ser? - perguntou ela.

- Sei lá! - Glick parecia hipnotizado. - Tá pegando tudo?

- Cada cena.

Glick perguntou, cheio de si:

- Ainda acha que devíamos voltar para o plantão do Papa?

Chinita não tinha certeza. Obviamente, algo estava acontecendo ali, mas ela já trabalhava com jornalismo havia bastante tempo e sabia que muitas vezes acontecimentos interessantes têm explicações absolutamente sem graça.

- Isso pode não ser nada - disse ela. - Esses caras podem ter recebido a mesma dica que você e estarem só verificando. Pode ser um alarme falso.

Glick puxou o braço dela.

- Ali! Focalize bem! - e apontou para a igreja.

Chinita girou a câmera de volta para o alto das escadas.

- Olá! - disse ela, acompanhando o homem que agora saía da igreja.

- Quem é o arrumadinho? - perguntou Glick.

Chinita mexeu na lente para obter um dose.

- Nunca o vi antes. - Focalizou o rosto do homem e sorriu. - Mas não me importaria nem um pouco em vê-lo de novo.

Robert Langdon desceu correndo as escadas do lado de fora da igreja e foi para o meio da piazza.

Escurecia, o sol de primavera desaparecia tarde no sul de Roma. Àquela hora, já se escondera por trás dos prédios e havia sombras riscando a praça.

- Muito bem, Bernini - disse ele para si mesmo em voz alta. - Para onde o seu bendito anjo está apontando?

Examinou a posição da igreja de onde acabara de sair. Imaginou a Capela Chigi e a estátua do anjo dentro dela. Sem hesitar, virou-se diretamente para oeste, para o iminente pôr-do-sol. O tempo estava se evaporando.

- Sudoeste - disse, fechando a cara para as lojas e apartamentos que bloqueavam sua visão. - O próximo marco fica naquela direção.

Quebrando a cabeça, repassou página por página da História da Arte italiana.

Apesar de Langdon conhecer bem a obra de Bernini, o escultor fora prolixo demais para alguém que não fosse especialista em saber tudo sobre seu trabalho.

Ainda assim, considerando-se a relativa fama do primeiro marco, Habacuc e o Anjo, Langdon esperava que o segundo fosse uma obra de que ele se lembrasse.

Terra, Ar, Fogo, Água, pensou. Terra já tinham encontrado - dentro da Capela da Terra -, Habacuc, o profeta que prognosticara a aniquilação da Terra.

Ar é o próximo. Langdon obrigou-se a pensar depressa. Uma escultura de Bernini que tenha a ver com Ar! Sua cabeça era um branco total. De qualquer maneira, sentia-se energizado. Estou no Caminho da Iluminação! O caminho ainda está intacto!

Voltando-se para o sudoeste, esforçou-se para enxergar uma flecha ou uma torre de igreja projetando-se acima dos obstáculos. Não viu nada. Precisava de um mapa. Se conseguissem descobrir quais as igrejas que ficavam a sudoeste dali, talvez uma delas pudesse acender alguma luz na memória de Langdon. Ar, insistiu ele. Ar. Bernjnj. Escultura. Pense!

Ele subiu de volta as escadas da catedral. Encontrou-se com Vittoria e Olivetti debaixo do andaime.

- Sudoeste - disse, arfando. - A próxima igreja fica a sudoeste daqui.

O sussurro de Olivetti saiu frio.

- Tem certeza desta vez?

Langdon não aceitou a provocação.

- Precisamos de um mapa. Um que mostre todas as igrejas de Roma.

O comandante estudou-o um momento, o rosto impassível.

Langdon olhou para o seu relógio.

- Só temos meia hora.

Olivetti passou por ele, desceu as escadas e encaminhou-se para o seu carro, estacionado bem em frente à igreja. Langdon esperava que ele tivesse ido buscar um mapa.

Vittoria estava animada.

- Quer dizer que o anjo está apontando para sudoeste? Tem idéia de quais são as igrejas que ficam a sudoeste?

- Não consigo enxergar além dos malditos prédios. - Virou-se para a praça de novo. - E não conheço as igrejas de Roma o suficien... - Ele se deteve.

- O que foi? - perguntou Vittoria, assustada.

Langdon correu os olhos pela praça mais uma vez. Por ter subido as escadas, tinha uma visão melhor ali do alto. Ainda não dava para ver nada, mas sabia que a direção estava certa. Examinou a instável torre de andaimes acima de sua cabeça: da altura de um edificio de seis andares, chegava até a rosácea da igreja.

Em um instante Langdon resolveu o que faria em seguida.

Do outro lado da praça, Chinita Macri e Gunther Glick estavam grudados no pára-brisa do furgão da BBC.

- Tá pegando isso aí? - perguntou Gunther.

Macri concentrou-se no homem que agora subia pelos andaimes.

- Ele está bem vestido demais para brincar de Homem Aranha, na minha opinião.

- E quem é a senhora Aranha?

Chinita deu uma olhada na mulher atraente que estava embaixo dos andaimes.

- Aposto que você gostaria de descobrir.

- Acha que devo ligar para a redação?

- Ainda não. Vamos observar. É melhor ter alguma coisa mais concreta antes de admitir que abandonamos o conclave.

- Será que alguém matou mesmo um dos velhotes aí dentro da igreja?

Chinita deu uma risada.

- Você vai com toda certeza para o inferno.

- Mas vou levando o Pulitzer comigo.

CAPÍTULO 71

Os andaimes tornavam-se menos estáveis quanto mais Langdon subia. Sua visão de Roma, entretanto, ficava melhor a cada etapa. E ele continuou a subir.

Respirava com mais dificuldade do que esperava quando alcançou a última plataforma. Puxou o corpo para cima, sacudiu o pó da roupa e ficou de pé. A altura não o incomodava nada. Na realidade, era até revigorante.

A vista era espetacular. Como um oceano de fogo, os telhados vermelhos de Roma estendiam-se a seus pés, incandescentes ao pôr-do-sol escarlate. Daquele ponto, pela primeira vez em sua vida, Langdon viu Roma além da poluição e do tráfego, enxergou a cidade e suas antigas origens: Città di Dio, a cidade de Deus.

Apertando os olhos para o poente, examinou os telhados à procura de uma igreja. Mas, apesar de olhar cada vez mais longe na direção do horizonte, não viu nenhuma. Existem centenas de igrejas em Roma, pensou. Deve existir alguma a sudoeste daqui! Isto, se a igreja for visível, lembrou a si mesmo. Diabos, e se ainda estiver de pé!

Continuar: parte 2 de 2