Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 7 de 8 · parte 1/3

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Anjos e Demônios

- O ex-presidente George Bush? Um Illuminatus?

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Glick sorriu. Nada podia ser mais evidente. George Bush era um comprovado maçom de trigésimo terceiro grau e ocupava o mais alto posto da CIA quando a agência encerrou as investigações sobre os Illuminati por falta de provas. E todos aqueles discursos sobre "milhares de pontos de luz" e uma "Nova Ordem Mundial" Claro que Bush era um dos Illuminati.

- E aquela parte sobre o CERN? - disse Macri em tom de reprovação.

- Amanhã, você vai encontrar uma fila bem comprida de advogados à sua porta.

- O CERN? Ora, pare com isso! Está tão na cara! Pense bem! Os Iliuminati desapareceram da face da Terra por volta de 1950, mais ou menos na mesma ocasião em que o CERN foi fundado. O CERN é um paraíso para as pessoas mais esclarecidas da Terra. Eles recebem toneladas de recursos financeiros de origem privada e conseguiram construir uma arma com capacidade para destruir a Igreja que, opa, eles não sabem onde foi parar?!

- E aí você espalha para o mundo inteiro que o CERN é a nova sede dos Illuminati?

- É claro! As fraterniclades não desaparecem assim sem mais nem menos. Os liluminati tinham de ir para algum lugar. E o CERN é o esconderijo perfeito. Não estou dizendo que todo mundo no CERN seja liluminati. Provavelmente, aquilo funciona como uma colossal loja maçônica, onde a maioria é inocente, mas o escalão superior...

- Já ouviu falar em difamação, Glick? Em responsabilidade civil?

- Já ouviu falar de jornalismo de verdade?

- Jornalismo? Você está inventando chifre em cabeça de burro! Eu devia ter desligado a câmera! E que besteira foi aquela sobre o logotipo do CERN? Aquela história de simbologia satânica? Perdeu o juízo?

Glick sorriu. A inveja de Macri estava toda à mostra. O logotipo do CERN foi a sua proeza de maior brilhantismo. Desde o discurso do camerlengo, todas as emissoras estavam falando sobre o CERN e a antimatéria. Alguns canais mostravam o logotipo do CERN como tela de fundo. O logotipo parecia bastante comum - dois círculos que se cruzam, representando dois aceleradores de partículas, e cinco linhas tangenciais representando tubos de injeção de partículas. O mundo inteiro não tirava os olhos desse logotipo, mas fora Glick, que também tinha os seus conhecimentos sobre símbolos, quem primeiro havia reparado na simbologia dos Illuminati ali camuflada.

- Você não é especialista em simbologia - reclamou Macri -, é apenas um repórter com sorte. Devia ter deixado a simbologia por conta do tal sujeito de Harvard.

- O sujeito de Harvard deixou passar essa - respondeu Glick.

A expressão dos Iliuminati neste logotipo é muito óbvia!

Glick estava rindo de alegria por dentro. Embora o CERN tivesse inúmeros aceleradores, o logotipo mostrava apenas dois. Dois é o número da dualidade para os Illuminati. E embora a maioria dos aceleradores tivesse apenas um tubo de injeção, o logo mostrava cinco. Cinco é o número do pentagrama dos Iliuminati. Então veio o golpe de mestre, o mais brilhante de todos. Glick observou que no logotipo estava desenhado o número "6" bem grande, formado por uma das linhas e um dos círculos, e, se o logotipo fosse girado, apareceria outro número seis e depois mais um. O logotipo tinha três números seis! 666! O número do demônio! A marca da besta!

Glick era um gênio.

Macri estava a ponto de agredi-lo.

A inveja dela passaria, disso Glick tinha certeza, enquanto sua mente já se desviava para outro pensamento. Se o CERN fosse mesmo a sede dos Illuminati, seria lá o local onde eles guardavam o famoso Diamante Illuminati? Glick lera sobre isso na Internet: "um diamante sem jaça, nascido dos antigos elementos com tamanha perfeição que todos os que o viam ficavam extasiados'

Glick ficou imaginando se o paradeiro secreto do Diamante Illuminati poderia vir a ser mais um mistério que ele desvendaria naquela noite.

CAPÍTULO 102

Pazza Navona, Fonte dos Quatro Rios.

As noites em Roma, como as do deserto, podem ser surpreendentemente frias, mesmo depois de um dia quente. Langdon estava todo encolhido nos arredores da Piazza Navona, apertando o paletó contra o corpo. Assim como o ruído do tráfego à distância, uma cacofonia de reportagens ressoava por toda a cidade. Olhou o relógio. Quinze minutos. Era bom ter alguns momentos para descansar.

A piazza estava deserta. A magistral fonte de Bernini agitava suas águas diante dele, enfeitiçante, imponente. O tanque espumante lançava para cima uma névoa mágica, iluminada por holofotes submersos.

Langdon captava uma gélida eletricidade no ar.

A característica mais impressionante da fonte era sua altura. A parte central sozinha ultrapassava seis metros - uma montanha escarpada de mármore travertino talhado em cavernas e grutas entre as quais a água se revolvia. Toda a elevação era rodeada de símbolos pagãos. No alto, ficava um obelisco que avançava mais 12 metros. Langdon acompanhou-o com o olhar. Na ponta do obelisco, uma tênue silhueta desenhava-se no céu: um pombo solitário pousado silenciosamente.

Uma cruz, pensou Langdon, ainda admirado com a disposição dos marcos através de Roma. A Fonte dos Quatro Rios de Bernini era o último altar da ciência. Fazia apenas algumas horas, Langdon estava dentro do Panteão, certo de que o Caminho da Iluminação havia sido interrompido e de que ele jamais chegaria até ali. Que grande tolice. Na verdade, o caminho inteiro estava intacto. Terra, Ar, Fogo, Água. E Langdon o havia percorrido do começo ao fim.

Não exatamente até ofim, fez-se lembrar. O caminho tinha cinco pontos, não quatro. Essa fonte, o quarto marco, de certa maneira apontava para o destino final, o refúgio sagrado dos Illuminati: a Igreja da Iluminação. Ele conjeturava se o esconderijo ainda existiria. Pensava se teria sido para lá que o Hassassin levara Vittoria.

Langdon examinava as figuras da fonte em busca de alguma pista do caminho para o esconderijo. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. Quase que imediatamente, porém, uma percepção inquietante ocupou seus pensamentos. Não havia sequer um anjo nessa fonte. Nenhum anjo, pelo menos nenhum que se avistasse de onde Langdon se encontrava, e nenhum que ele tivesse visto no passado. A Fonte dos Quatro Rios era uma obra pagã. As esculturas eram todas profanas - seres humanos, animais, até mesmo um deselegante tatu. Um anjo aqui não passaria despercebido.

Seria o lugar errado? Meditou sobre a disposição em cruz dos quatro obeliscos. Cerrou os punhos. Esta fonte é perfeita.

Ainda eram 10h46 da noite quando um furgão preto apareceu na ruela do lado mais afastado da praça. Langdon não teria prestado maior atenção se o furgão não estivesse com os faróis desligados. Como um tubarão rondando em uma baía enluarada, o carro circulou em volta da praça.

Langdon pôs-se junto ao chão, agachado nas sombras da imensa escadaria que leva à igreja de Santa Inês em Agonia.

Olhou em direção à praça, o pulso acelerado.

Depois de dar duas voltas completas, o furgão descreveu uma curva na direção da fonte de Bernini. Parou junto ao tanque e deslocou-se paralelamente à borda até a lateral do furgão ficar ao nível da fonte. Estacou de repente, a porta corrediça somente alguns centímetros acima das águas revoltas.

A névoa erguia-se em turbilhões pelo ar.

Langdon teve um pressentimento ruim. Será que o Hassassin viera antes da hora? Teria vindo em um furgão? Langdon imaginara o assassino escoltando sua última vítima a pé pela praça, como tinha feito em São Pedro, o que permitiria que Langdon atirasse a descoberto. Mas se o Hassassin tivesse chegado em um furgão, as regras tinham acabado de mudar.

De repente, a porta lateral do furgão se abriu.

Sobre o piso do furgão, contorcido de dor, jazia um homem nu, o corpo enrolado em muitos metros de pesadas correntes. Ele se debatia em vão em meio aos elos de ferro. Um deles atravessava-lhe a boca como um freio de cavalo, sufocando seus gritos de socorro. Foi então que Langdon viu uma segunda figura movimentando-se no escuro atrás do prisioneiro, como se finalizasse os preparativos.

Langdon sabia que tinha apenas segundos para agir.

Pegou a arma, tirou o paletó e jogou-o no chão. Não queria o estorvo adicional de um paletó de lã, nem tinha intenção nenhuma de levar o Diagramma de Galileu para perto da água. O documento ali ficaria em segurança e seco.

Langdon seguiu com cautela pela direita. Fez uma volta em torno da fonte e parou de frente para o furgão. A imensa peça central da fonte impedia-lhe a visão. Levantou-se e correu direto para o tanque. Contava que o barulho da água abafasse o ruído de seus passos. Ao alcançar a fonte, passou por cima da borda e caiu no tanque espumante.

A água lhe batia na altura da cintura e estava gelada. Langdon cerrou os dentes e avançou com esforço. O fundo escorregadio era duplamente traiçoeiro devido a uma camada de moedas jogadas para atrair sorte.

Langdon percebeu que iria precisar de mais do que boa sorte. À medida que a névoa o envolvia, ficou imaginando se seria o frio ou o medo que fazia com que a arma lhe tremesse nas mãos.

Conseguiu chegar ao interior da fonte e circundou-a pela esquerda de onde estava. Caminhava com dificuldade, mantendo-se encoberto pelas figuras de mármore. Escondido atrás de uma imensa escultura em forma de cavalo, Langdon parou para espreitar. O furgão encontrava-se a pouco mais de cinco metros.

O Hassassin estava agachado no assoalho do furgão, as mãos sobre o cardeal enrolado nas correntes, prestes a empurrá-lo porta afora para dentro da fonte.

Com água pela cintura, Robert Langdon levantou a arma e saiu da névoa, sentindo-se como uma espécie de caubói aquático pronto para gravar uma cena final.

- Não se mexa - disse, a voz mais firme que a arma.

O Hassassin ergueu os olhos. Por um instante pareceu confuso, como se tivesse visto um fantasma.

Depois, os lábios se apertaram em um sorriso maldoso. Pôs os braços para cima em sinal de obediência e respondeu:

- Assim seja.

- Para fora do furgão.

- Você está um pouco molhado.

- E você chegou cedo.

- Estou louco para voltar para a minha presa.

Langdon apontou-lhe a arma.

- Não vou hesitar em atirar.

- Já hesitou.

Langdon sentiu a pressão do dedo no gatilho. O cardeal já não se mexia. Parecia exausto, à beira da morte.

- Solte-o.

- Esqueça-o. Você veio por causa da mulher. Não finja que não.

Langdon fez um grande esforço naquela hora para não terminar tudo de uma vez.

- Onde ela está?

- Em um lugar seguro. Esperando que eu volte.

Está viva. Langdon sentiu um fio de esperança.

- Na Igreja da Iluminação?

O assassino sorriu.

- Jamais vai descobrir onde é.

Era difícil de acreditar. O esconderijo ainda está de pé. Apontou a arma.

- Onde?

- O lugar é um mistério há séculos. Eu mesmo só vim a saber dele há pouco. Prefiro a morte a trair este segredo.

- Vou conseguir encontrá-lo sem você.

- Uma idéia bem arrogante.

Langdon gesticulou na direção da fonte.

- Cheguei até aqui.

- Como muitos outros. A etapa final é a mais difícil.

Langdon foi-se aproximando, os pés instáveis sob a água. O Hassassin parecia extraordinariamente calmo agachado no fundo do furgão, os braços erguidos sobre a cabeça. Langdon apontou direto para o peito dele, ponderando se deveria simplesmente atirar e acabar logo com o assunto. Não. Ele sabe onde está Vittoria. Sabe onde está a antimatéria. Preciso obter essas informações!

Da escuridão do furgão, o Hassassin observava o agressor. Não pôde deixar de achar graça e ao mesmo tempo sentir uma certa pena dele. O americano era corajoso, isto ele já comprovara. Mas também não tinha muita prática. O que também havia sido comprovado. Heroísmo sem experiência era suicídio. Havia regras de sobrevivência. Regras antigas. E o americano estava quebrando todas elas.

Você tinha uma vantagem, o elemento surpresa. E desperdiçou-a.

O americano estava indeciso, provavelmente esperando reforços ou talvez um ato falho do assassino que deixasse escapar informações decisivas.

Nunca faça um interrogatório antes de neutralizar a vítima. Um inimigo encurralado é um inimigo mortífero.

De novo, o americano estava falando. Sondando. Manipulando.

O assassino estava a ponto de cair na gargalhada. Este não é um dos seus filmes de Hollywood, nada de longas discussões com a arma na mão antes do tiro final. Este é o final. Agora.

Sem desgrudar os olhos do outro, o assassino foi estendendo as mãos bem devagar até encontrar o que procurava no teto do furgão. Olhando direto para frente, agarrou o objeto.

E fez a sua jogada.

O movimento foi absolutamente inesperado. Por um instante, Langdon achou que as leis da física haviam deixado de existir. O assassino pareceu pairar no ar enquanto suas pernas se desdobravam em um salto, as botas atingindo um lado do cardeal, empurrando seu corpo carregado de correntes para fora. O cardeal afundou, espalhando água para todo lado.

Com a água escorrendo-lhe pelo rosto, Langdon compreendeu tarde demais o que tinha acontecido. O assassino tinha agarrado uma das barras da estrutura do furgão e a usara como ponto de apoio para balançar o corpo. Agora, vinha em sua direção, os pés na frente, em meio à chuva de respingos d'água.

Langdon puxou o gatilho e o silenciador cuspiu fogo. A bala explodiu na bota esquerda do Hassassin, atravessando-a na altura do dedo grande. No mesmo segundo, Langdon sentiu as solas das duas botas do Hassassin no seu peito, atirando-o para trás com um chute violento.

Os dois homens caíram espadanando água e sangue.

Quando o líquido gelado engoliu o corpo de Langdon, a primeira coisa que sentiu foi dor. O instinto de sobrevivência veio depois. Notou que não segurava mais a arma. Ela tinha caído. Mergulhou, tateando o fundo lamacento. A mão tocou em metal. Um punhado de moedas. Deixou-as cair. Abriu os olhos e explorou o tanque iluminado. As águas agitavam-se ao redor de Langdon como se ele estivesse em uma Jacuzzi gelada.

Apesar do instinto de subir para respirar, o medo fez com que permanecesse no fundo. Mexia-se o tempo todo. Não fazia a menor idéia de onde viria o próximo golpe. Precisava encontrar a arma!

Desesperadamente, suas mãos procuravam às apalpadelas.

Você está em vantagem agora, disse consigo. Está em seu elemento. Mesmo vestido com uma camisa de gola rulê ensopada, era um nadador ágil. A água é o seu elemento.

Quando, pela segunda vez, os dedos de Langdon tocaram metal, acreditou que a sorte havia mudado de lado. O objeto que segurava não era um punhado de moedas. Agarrou-o e tentou puxá-lo para si, mas, ao fazê-lo, sentiu o próprio corpo deslizando pela água. O objeto estava preso.

Langdon percebeu, antes mesmo de alcançar o corpo contorcido do cardeal, que havia agarrado parte da corrente de metal que o mantinha submerso. Ele hesitou por um momento, imobilizado com a visão apavorante do rosto que o encarava do fundo da fonte.

Espantado por ainda encontrar vida nos olhos do homem, Langdon estende as mãos para baixo e segurou com força as correntes, tentando levantá-lo até a superficie. O corpo movimentou-se devagar, como uma âncora. Langdon puxou com mais força. Quando a cabeça do cardeal irrompeu da água, ele aspirou o ar umas poucas vezes, desesperado. Então, com grande ímpeto, o corpo girou, o que fez com que Langdon perdesse a pega da corrente escorregadia. Como uma pedra, Baggia foi de novo para o fundo e desapareceu por baixo da espuma da água.

Langdon mergulhou, olhos abertos na água turva. Encontrou o cardeal. Dessa vez, quando Langdon o agarrou, as correntes na altura do peito de Baggia deslocaram-se e revelaram mais uma crueldade: a palavra marcada em sua carne com ferro em brasa.

Uma fração de segundo depois, Langdon avistou duas botas. De uma delas, jorrava sangue.

CAPÍTULO 103

Como jogador de pólo aquático, Robert Langdon já sofrera mais ataques debaixo d'água do que merecia. A selvageria competitiva que impera sob a superficie de uma piscina de pólo aquático, longe dos olhos dos árbitros, pode ser comparada à das mais grosseiras competições de luta livre. Langdon já tinha sido chutado, arranhado, retido e até mesmo, uma vez, mordido por um zagueiro frustrado, de quem procurara se desviar durante o jogo todo.

Agora, porém, lutando nas águas gélidas da fonte de Bernini, Langdon reconhecia estar a anos-luz da piscina de Harvard. Aquele não era um jogo por pontos, mas pela própria vida. Era a segunda vez que os dois estavam lutando. Sem árbitros. Sem revanche. Os braços que lhe forçavam a cabeça de encontro ao fundo exerciam tamanha pressão que não deixavam dúvidas sobre sua intenção de matar.

Num gesto instintivo, Langdon girou o corpo igual a um torpedo. Livrar-se da pega! Mas o atacante, aproveitando-se da vantagem que nenhum jogador de pólo aquático jamais teve, a de estar com os pés firmes no chão, girou-o de volta. Langdon se contorceu, tentando apoiar os pés. O Hassassin parecia estar afrouxando a pressão em um dos braços, mas apesar disso continuava segurando firme. Langdon convenceu-se de que não iria conseguir subir à superfície. Fez, então, a única coisa que lhe passou pela cabeça. Parou de fazer força para subir. Se não dá para ir para o norte, vá para leste. Juntando as últimas forças que lhe restavam, bateu as pernas como um golfinho e movimentou os braços por baixo do corpo em uma desajeitada braçada de estilo borboleta. Seu corpo avançou para frente.

A repentina mudança de direção pegou o Hassassin desprevenido, O movimento lateral de Langdon empurrou os braços do outro para os lados, prejudicando-lhe o equilíbrio. Ao sentir uma leve diminuição de pressão, Langdon bateu as pernas de novo. A sensação foi como se um cabo de reboque se partisse.

De repente, Langdon estava livre. Expirou o que lhe restava de ar nos pulmões e, num arranco, foi para a superfície. Respirar uma única vez foi tudo o que conseguiu. Com uma força arrasadora, o Hassassin estava de novo em cima dele, as palmas das mãos nos ombros de Langdon, todo o peso do seu corpo sobre o adversário. Langdon tentou levantar-se, mas uma perna do Hassassin projetou-se para a frente, derrubando-o.

E ele afundou outra vez.

Os músculos de Langdon queimavam enquanto tentava desvencilhar-se. Dessa vez, todas as investidas foram em vão. Através da água borbulhante, Langdon vasculhava o fundo atrás da arma. Tudo estava embaçado, as borbulhas cada vez mais densas. Uma luz ofuscante bateu-lhe no rosto quando o assassino o empurrou para baixo, na direção de um refletor instalado no fundo. Langdon esticou os braços e agarrou a caixa do refletor. Estava quente. Langdon fez força para arrancá-la, mas estava fixada por meio de dobradiças, girou em sua mão e ele perdeu o apoio.

O Hassassin empurrou-o mais ainda para baixo.

Foi então que Langdon o viu. Fincado nas moedas, bem na frente de seus olhos. O cilindro estreito, preto.

O silenciador da arma de Olivetti! Langdon se esticou, mas quando seus dedos seguraram o cilindro não sentiu o contato com metal, mas com plástico. Ao puxá-lo, uma mangueira flexível veio molemente em sua direção como se fosse uma cobra. Tinha uns 60 centímetros e as bolhas de ar jorrando de uma das pontas.

Langdon não tinha encontrado arma nenhuma. Era um dos muitos spumanti, inocentes aparelhos de fazer bolhas de ar, instalados na fonte.

Bem perto dali, o cardeal Baggia sentia a alma deixando-lhe o corpo. Embora tivesse se preparado a vida inteira para aquele momento, jamais imaginara que seu fim seria desse jeito. Seu corpo sofria intensamente - havia sido queimado, machucado e mantido submerso sob um peso intolerável. Lembrou- se de que o próprio sofrimento não era nada se comparado com o de Jesus.

Ele morreu pelos meus pecados...

Baggia escutava os golpes da luta violenta que se desenrolava por perto. Era demais pensar que quem o tinha capturado estava também quase terminando com outra vida, a do homem de olhos bondosos que tentara socorrê-lo.

Quando a dor aumentou, Baggia mirou, através da água, o céu escuro que encobria tudo. Por um momento, pensou ter visto estrelas.

Era chegada a hora.

Libertando-se de todo medo e dúvida, abriu a boca e expeliu o que seria o último sopro de sua vida. Observou seu próprio espírito gorgolejar na direção do céu em um jorro de bolhas de ar transparentes. Então, em uma reação involuntária, respirou. A água penetrou como finos punhais de gelo em seus flancos. A dor durou apenas alguns segundos.

Depois, veio a paz.

O Hassassin ignorava o pé que doía, concentrado apenas em afogar o americano, que agora mantinha imobilizado sob o peso do seu corpo, no meio da água turbulenta. Destruí-lo por completo. Apertou com mais força ainda, sabendo que desta vez Robert Langdon não sobreviveria. Conforme havia previsto, sua vítima mostrava cada vez menos reação.

De repente, o corpo de Langdon ficou rígido. Começou a tremer loucamente. Sim, pensou o Hassassin. Os tremores.

Quando a água afinal chega aos pulmões. Os tremores, sabia, iriam durar uns cinco segundos.

Duraram seis.

Então, exatamente como o Hassassin havia calculado, o corpo da vítima de repente ficou flácido. Como um imenso balão que perdesse o ar, Robert Langdon relaxou. Estava morto. O Hassassin ainda o segurou por mais uns trinta segundos, para que a água inundasse todo o tecido pulmonar. Aos poucos, sentiu que o corpo de Langdon afundava por conta própria. Afinal, o Hassassin o soltou.

A imprensa encontraria uma dupla surpresa na Fonte dos Quatro Rios.

Tabban!, praguejou o Hassassin, saindo da fonte e examinando o dedo do pé que sangrava sem parar. A ponta da bota estava arrebentada e a extremidade do dedo grande havia sido arrancada. Furioso consigo mesmo pelo descuido, rasgou a bainha da calça e enfiou o tecido pelo buraco da bota, comprimindo-o contra a ferida. A dor subiu-lhe pela perna. Ibn al-kalb!

Cerrou os punhos de dor e empurrou o pano com mais força. O sangramento foi diminuindo até restar apenas um filete de sangue.

Tirando seus pensamentos da dor e voltando-os para o prazer, o Hassassin entrou no furgão. O trabalho em Roma estava terminado. Sabia muito bem o que lhe aliviaria o incômodo. Vittoria Vetra estava amarrada e à sua espera. O Hassassin, mesmo com frio e ensopado, sentiu-se sexualmente excitado.

Fiz por onde merecer meu prêmio.

Do outro lado da cidade, Vittoria acordou toda dolorida. Estava deitada de costas. Todos os músculos estavam duros como pedra. Tensos. Retesados. Os braços doíam. Tentou se mexer, mas sentiu espasmos nos ombros. Levou poucos segundos para compreender que suas mãos estavam amarradas nas costas. A primeira reação foi de confusão. Estou sonhando? Mas, quando quis levantar a cabeça, a dor lancinante na base do crânio avisou-a de que estava totalmente acordada.

A confusão inicial deu lugar ao medo, e ela examinou o lugar.

Encontrava-se em uma sala despojada, grande e bem mobiliada, iluminada por tochas acesas e com paredes de pedra. Uma espécie de antigo salão de reuniões. Havia bancos antiquados dispostos em círculo mais adiante.

Vittoria sentiu uma brisa, agora fria, percorrer-lhe a pele. Não longe de onde estava, um conjunto de portas duplas abria-se para uma sacada. Através das brechas da balaustrada,

Vittoria podia jurar ter visto o Vaticano.

CAPÍTULO 104

Robert Langdon jazia deitado sobre uma camada de moedas no fundo da Fonte dos Quatro Rios, a mangueira de plástico ainda na boca. O ar que era bombeado através do tubo dos spumanti para fazer a fonte borbulhar vinha poluído e sua garganta ardia. Não podia reclamar, porém. Afinal, estava vivo.

Não tinha certeza se sua imitação de um afogado fora convincente, mas, tendo passado a vida inteira em contato com a água, Langdon já ouvira muitas descrições de afogamentos. Fizera o melhor que podia. Quase no final, teve de expirar todo o ar dos pulmões e parar de respirar para que a massa muscular levasse seu corpo para o fundo.

Por sorte, o Hassassin engolira a história e o soltara.

Agora, deitado no fundo da fonte, Langdon esperou o quanto pôde. Estava prestes a morrer asfixiado. Tentou adivinhar se o Hassassin ainda estaria lá fora. Aspirou o ar queimado que vinha do tubo, entregou os pontos e atravessou nadando o fundo da fonte até encontrar a elevação da parte central. Bem devagar, subiu acompanhando-a e emergindo sem ser visto nas sombras projetadas na água pelas imensas figuras de mármore.

O furgão tinha ido embora.

Era tudo o que Langdon precisava ver. Respirou bem fundo, enchendo os pulmões de ar, e voltou para o local onde o cardeal Baggia afundara. Langdon sabia que o homem já estaria inconsciente e que as chances de sobrevivência eram mínimas, mas tinha de tentar. Quando encontrou o corpo, abriu as pernas sobre ele e apoiou bem os pés, abaixou as mãos e agarrou as correntes que envolviam o cardeal. Então, Langdon puxou. Quando o cardeal saiu da água, Langdon viu que os olhos dele já estavam revirados para cima, salientes. Não era um bom sinal.

Não havia respiração nem pulso.

Sabendo que jamais conseguiria levantar o corpo e fazê-lo passar pela borda do tanque da fonte, Langdon puxou o cardeal Baggia pela água até uma concavidade sob a elevação central. Ali era mais raso e havia uma espécie de saliência inclinada. Langdon arrastou o corpo nu para cima da saliência o mais que lhe foi possível. E pôs-se a trabalhar.

Comprimiu o peito coberto de correntes do cardeal e bombeou a água para fora dos seus pulmões. Depois aplicou a ressuscitação cardiopulmonar, fazendo a contagem com todo o cuidado, cheio de determinação e resistindo ao instinto de soprar com força demais ou depressa demais. Durante três minutos, Langdon tentou reanimar o cardeal. Passados cinco minutos, reconheceu que não havia mais nada a fazer.

Ii preferito. O homem que teria sido Papa. Morto diante dele.

De algum modo, mesmo naquelas circunstâncias, caído no escuro sobre a pedra meio submersa, o cardeal Baggia ainda mantinha um ar de serena dignidade. A água agitava-se mansamente sobre o seu peito, parecendo arrependida, como se pedisse perdão por ter sido a assassina final, como se quisesse purificar a ferida da queimadura que tinha o seu nome.

Delicadamente, Langdon passou a mão no rosto do homem e fechou-lhe os olhos. Ao fazê-lo, sentiu dentro de si um estremecimento e lágrimas de exaustão inundaram seus olhos. Espantou-se com isto. E, pela primeira vez em anos, Langdon chorou.

CAPÍTULO 105

A nebulosa sensação de esgotamento emocional foi sedissipando aos poucos à medida que Langdon, andando dentro da água, se afastava do cardeal morto e voltava para o trecho mais fundo. Extenuado e só, ele pensava que fosse desmaiar no meio da fonte. Mas, em vez disso, sentiu uma nova compulsão ir crescendo em seu íntimo. Incontestável. Veemente. Seus músculos se retesaram com uma súbita firmeza. A mente, ignorando a tristeza do coração, pôs de lado os acontecimentos passados para dar lugar à única e arriscada tarefa que tinha pela frente.

Encontrar o refúgio dos liluminati. Ajudar Vittoria.

Virando-se para o centro montanhoso da fonte de Bernini, Langdon reuniu suas esperanças e lançou-se na busca do último marco dos Illuminati. Tinha certeza de que em algum lugar, no meio das massas contorcidas de figuras, estava a pista que indicaria o refúgio. Enquanto vasculhava a fonte, entretanto, suas esperanças esvaíram-se rapidamente. As palavras do segno pareciam vir, zombeteiras, do burburinho das águas que o rodeavam. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. Langdon olhava para as figuras à sua frente. A fonte é pagã! Não há nenhum anjo em lugar algum!

Depois de terminar sem resultado a busca na parte central, seu olhar instintivamente subiu pela altiva coluna de pedra. Quatro marcos, pensou, espalhados por Roma em uma cruz gigantesca.

Examinou os hieróglifos que cobriam o obelisco e ficou imaginando se haveria uma pista escondida nos símbolos egípcios. Rejeitou a idéia imediatamente. Os hieróglifos eram anteriores a Bernini em muitos séculos e só tinham sido decifrados depois da descoberta da Pedra de Rosetta. Ainda assim, Langdon arriscou, quem sabe Bernini teria esculpido ali mais um símbolo? Um símbolo que passasse despercebido no meio dos hieróglifos?

Sentindo uma centelha de esperança, Langdon caminhou ao redor da fonte, mais uma vez analisando as quatro fachadas do obelisco. Levou uns dois minutos e, quando chegou ao final da última face, suas esperanças desapareceram. Nada nos hieróglifos se destacava como sendo qualquer tipo de acréscimo. E muito menos havia anjos.

Langdon verificou o relógio. Onze horas em ponto. Não saberia dizer se o tempo estava voando ou andando devagar. Imagens de Vittoria e do Hassassin começaram a obcecá-lo enquanto circundava a fonte, impaciente, a frustração crescendo a cada volta inútil. Abatido e exausto, Langdon estava a ponto de cair. Levantou a cabeça para gritar para a noite.

O som ficou preso na sua garganta.

Langdon estava olhando direto para o topo do obelisco. O objeto empoleirado era um que vira antes sem dar qualquer importância. Dessa vez, porém, ele o fez parar. Não era um anjo. Longe disso. Na verdade, não o havia percebido como parte da fonte de Bernini. Pensou que estivesse vivo, que fosse mais um dos pequenos animais que ciscavam nas ruas da cidade, encarapitado em cima da torre.

Um pombo.

Langdon apertou os olhos na direção do vulto, a visão embaçada pela névoa luminosa à volta. Era um pombo, não era? Via nitidamente o contorno da cabeça e do bico contra um aglomerado de estrelas. No entanto, o pássaro não se movera desde a chegada de Langdon na praça, mesmo com todo aquele alvoroço em baixo. Estava exatamente na mesma posição. Empoleirado no alto do obelisco, mirando tranqüilamente o oeste da cidade.

Langdon olhou fixo para ele por um momento e depois mergulhou a mão na fonte, agarrou um punhado de moedas e arremessou-as para cima. Bateram com um ruído seco contra a parte superior do obelisco de granito. O pássaro não se mexeu. Tentou de novo. Dessa vez, uma das moedas atingiu o alvo. Um leve som de metal contra metal ecoou pela praça.

O maldito pombo era de bronze.

Você está procurando um anjo, não um pombo, lembrou-o uma voz em sua cabeça. Tarde demais. Langdon já fizera a associação. Percebeu que a ave não era propriamente um pombo comum.

Era uma pomba.

Sem se dar conta dos próprios atos, Langdon saiu espalhando água para o centro da fonte e começou a escalar a montanha de mármore travertino, subindo em imensos braços e cabeças, cada vez mais alto. A meio caminho da base do obelisco conseguiu vencer a camada de névoa que encobria todo o tanque e ver melhor a cabeça do pássaro.

Não tinha dúvida. Era uma pomba. A enganadora coloração escura do pássaro era resultado da poluição de Roma, que manchava o tom original do bronze. E o significado ficou claro para ele. Vira, horas antes, um par de pombas no Panteão. Um par de pombas não representa nenhum símbolo. Essa pomba, porém, estava só.

A pomba solittfria é o símbolo pagão do Anjo da Paz.

A descoberta praticamente transportou Langdon pelo resto do percurso para o obelisco. Bernini escolhera um símbolo pagão para o anjo de forma a poder disfarçá-lo em uma fonte pagã. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. A pomba é o anjo! Langdon não poderia conceber pouso mais sublime para o último marco dos liluminati do que no alto desse obelisco.

O pássaro apontava para oeste. Langdon tentou acompanhar sua mirada, mas não conseguia enxergar por cima dos prédios. Subiu mais. Uma citação de São Gregório de Nyssa veio-lhe à mente: Quando o espírito é iluminado, toma a magnífica forma de uma pomba.

Langdon subiu rumo ao céu. Rumo à pomba. Quase voando. Alcançou a plataforma que servia de base para o obelisco, de onde não poderia subir mais. Mas bastou uma olhada ao redor para saber que isso não seria necessário. Roma se estendia diante dele. A vista era deslumbrante.

À esquerda, a iluminação caótica dos carros da imprensa em torno de São Pedro. À direita, a cúpula envolta em fumaça de Santa Maria delia Vittoria. Em frente, à distância, a Piazza dei Popolo. Abaixo dele, o quarto e último marco. Uma cruz gigantesca de obeliscos.

Trêmulo, Langdon olhou para a pomba lá em cima. Virou-se para a direção correta e depois abaixou os olhos para a linha do horizonte.

Em um instante, viu tudo.

Tão óbvio. Tão claro. Tão tortuosamente simples.

Observando-o agora, Langdon achava quase inacreditável que o refúgio dos Illuminati tivesse permanecido secreto por tantos anos. Tinha a impressão de que a cidade toda desaparecia aos poucos em torno da monstruosa estrutura de pedra do outro lado do rio, diante dele. Um dos muitos prédios famosos de Roma. Ficava às margens do rio Tibre, próximo, em diagonal, ao Vaticano. A geometria da construção era perfeita - um castelo circular construído dentro de uma fortaleza quadrada e, do lado de fora dos muros, rodeando toda a estrutura, um parque em forma de pentagrama.

As antigas muralhas de pedra diante de Langdon recebiam uma iluminação suave vinda de holofotes, com um efeito espetacular. No alto do castelo, o colossal anjo de bronze. O anjo apontava sua espada para baixo, para o centro exato do prédio. E, como se não bastasse, levando única e exclusivamente para a entrada principal do castelo, havia a célebre Ponte dos Anjos, uma impressionante via de acesso, ornamentada com 12 majestosos anjos esculpidos por ninguém menos que o próprio Bernini.

Em uma última revelação sensacional, Langdon concluiu que a cruz de obeliscos de Bernini, que abarcava toda a cidade, também marcava a fortaleza da forma mais condizente com os princípios dos liluminati: o braço central da cruz passava diretamente pelo meio da ponte do castelo, dividindo-a em duas metades idênticas.

Langdon pegou o paletó de lã, segurando-o afastado do corpo que pingava. Entrou no carro roubado e apertou o acelerador com o sapato encharcado, saindo a toda velocidade pela noite.

CAPÍTULO 106

Eram 11h07. O carro de Langdon corria pela noite romana.

Descendo a Lungotevere Tor di Nona, paralela ao rio, Langdon via seu destino avolumando-se à direita como uma grande montanha.

Castel Sant'Angelo. Castelo do Anjo.

Sem indicação prévia, o acesso à estreita Ponte dos Anjos - a Ponte Sant'Angelo - surgiu de repente.

Langdon enfiou o pé no freio e deu uma guinada. Conseguiu, mas a ponte estava fechada com barreiras.

Ele derrapou uns três metros e bateu em uma porção de pequeninas colunas de cimento que lhe barravam o caminho. Langdon cambaleou para a frente e o motor do carro afogou, falhando e estremecendo. Não sabia que a Ponte dos Anjos, para ser preservada, agora se convertera em área exclusiva para pedestres.

Desconcertado, Langdon saltou do carro amassado desejando ter escolhido um dos outros acessos.

Tremia de frio, a roupa molhada da água da fonte. Vestiu o casaco de tweed em cima da camisa úmida, contente com o forro duplo que o fabricante colocava nos casacos. O fólio do Diagramma continuaria seco. À sua frente, erguia-se a fortaleza feita de pedra. Enfraquecido, doido, Langdon saiu correndo, as passadas pouco firmes.

Dos seus dois lados, como uma escolta enfileirada, o cortejo de anjos de Bernini ia ficando para trás, fechando o percurso e encaminhando-o para seu destino final. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. O castelo aumentava conforme ele avançava, montanha impossível de escalar, inatingível, ainda mais intimidador do que São Pedro lhe parecera. Correu para lá em meio aos vapores da noite, vendo o anjo descomunal brandindo a espada no alto do núcleo circular da cidadela.

O castelo parecia deserto.

Langdon sabia que, no decorrer dos séculos, a construção fora usada pelo Vaticano como tumba, fortaleza, esconderijo do Papa, prisão para inimigos da Igreja e museu. Pelo jeito, o castelo tivera igualmente outros inquilinos - os Illuminati. De certa forma, até que fazia um sentido sinistro. Apesar de ser propriedade do Vaticano, o castelo só era utilizado esporadicamente e Bernini realizara diversas reformas ali ao longo dos anos. Hoje acredita-se que ele seria um labirinto de entradas secretas, passagens e câmaras escondidas. Langdon tinha certeza de que o anjo e o parque pentagonal que o cercava eram também trabalho de Bernini.

Ao chegar às descomunais portas duplas da entrada, Langdon empurrou-as o mais que pôde. Como era de se esperar, as portas não se moveram. Possuíam duas aldravas de ferro penduradas na altura do rosto de uma pessoa. Langdon não fez caso delas. Recuou alguns passos, examinando a parede externa até em cima. Aquelas muralhas tinham resistido a exércitos de bérberes, pagãos e mouros. Achou que suas probabilidades de penetrar ali à força eram exíguas.

Vittoria, pensou Langdon, será que você está aí dentro?

Langdon contornou a parede externa. Deve haver outra entrada!

Rodeando a segunda muralha a oeste, chegou ofegante a um pequeno estacionamento próximo à Lungotevere Casteilo. Nessa muralha encontrou uma segunda entrada para o castelo, uma espécie de ponte levadiça, suspensa e trancada. Langdon olhou para cima outra vez.

As únicas luzes no castelo eram as dos holofotes externos que iluminavam a fachada. Todas as diminutas janelas no interior estavam às escuras. Os olhos de Langdon foram subindo. No ponto mais alto da torre central, 30 metros acima, precisamente sob a espada do anjo, projetava-se uma sacada isolada. O parapeito de mármore reluzia ligeiramente, como se o aposento adjacente estivesse iluminado por uma tocha acesa. Langdon parou, com um calafrio súbito em seu corpo encharcado. Uma sombra? Ele esperou, tenso. E viu a sombra outra vez!

Um arrepio percorreu sua espinha. Há alguém lá em cima!

- Vittoria! - gritou, incapaz de se conter, mas sua voz foi engolida pelo rugir do rio Tibre atrás dele.

Andou em círculos, perguntando-se onde estaria a maldita Guarda Suíça. Será que tinham ouvido sua transmissão?

Do outro lado do estacionamento havia um grande caminhão de alguma emissora parado. Langdon correu para ele. Um homem barrigudo com fones de ouvido na cabeça estava sentado na cabine ajustando seu equipamento. Langdon bateu com a mão na lateral do caminhão. O homem deu um pulo, viu as roupas molhadas de Langdon e arrancou os fones da cabeça.

- Qual o problema, companheiro? - tinha um sotaque australiano.

- Preciso usar seu telefone - Langdon estava frenético.

O homem deu de ombros.

- Não tem sinal. Estou tentando há horas. Os circuitos estão todos congestionados.

Langdon praguejou em voz alta.

- Viu alguém entrar aí? - e apontou para a ponte levadiça.

- Para falar a verdade, vi, sim. Um furgão preto saiu e entrou uma porção de vezes esta noite.

Langdon sentiu um peso na boca do estômago.

- Sortudo desgraçado - disse o australiano, olhando para a torre e fazendo uma careta para sua vista obstruída do Vaticano. - Aposto que a visão de lá é perfeita. Não consegui passar pelo tráfego em São Pedro, por isso estou transmitindo daqui.

Langdon não estava escutando. Procurava opções.

- O que é que você acha? - perguntou o australiano. - Será que o Samaritano da Décima Primeira Hora é para valer?

Langdon virou-se.

- O quê?

- Não ouviu? O capitão da Guarda Suíça recebeu um telefonema de alguém que diz ter informações de primeira. O cara está vindo para cá de avião. Só sei é que, se ele conseguir salvar a pátria, lá se vão os nossos índices!

O homem deu uma risada.

Langdon não compreendia. Um bom samaritano ia chegar de avião para ajudar? E sabia onde estava a antimatéria? Então, por que não dizia logo para a Guarda Suíça? Por que estava vindo em pessoa? Era tudo muito esquisito, mas Langdon não dispunha de tempo para tentar decifrar a questão.

- Ei - disse o australiano, observando o rosto de Langdon mais atentamente -, você não é o sujeito que vi na televisão? O que tentou salvar aquele cardeal na Praça de São Pedro?

Langdon não respondeu. Sua atenção fixara-se em um aparelho preso no teto do caminhão - uma antena parabólica com uma haste dobrável. Olhou de novo para o castelo. A muralha externa tinha uns 15 metros de altura. A fortaleza interior era ainda mais alta. Uma dupla defesa. Não daria para alcançar a parte de cima dali, mas talvez, se passasse do primeiro muro...

Langdon girou nos calcanhares e apontou para o braço da antena.

- Até que altura aquilo vai?

O homem ficou meio desconcertado.

- Quinze metros. Por quê?

- Tire o caminhão daí. Estacione junto ao muro. Preciso de ajuda.

- Que história é essa?

Langdon explicou.

O australiano arregalou os olhos.

- Ficou maluco? Aquilo ali é uma extensão telescópica de 200 mil dólares. Não é uma escada!

- Quer seus índices? Tenho informações que vão fazer você ganhar o dia.

Langdon estava desesperado.

- Informações que também valem essa nota toda?

Langdon disse a ele o que revelaria em troca do favor.

Noventa segundos mais tarde, Robert Langdon encontrava-se agarrado à ponta de um braço de antena parabólica, balançando na brisa a 15 metros do solo. Inclinando-se, segurou a beirada da primeira muralha, arrastou-se para cima da parede e pulou para dentro do bastião mais baixo do castelo.

- Agora mantenha sua promessa! - gritou lá de baixo o australiano. - Onde ele está?

Langdon sentiu-se culpado por revelar essa informação, mas trato era trato. Além do mais, o Hassassin provavelmente daria a informação à imprensa de qualquer maneira.

- Piazza Navona - gritou Langdon. - Ele está dentro da fonte.

O australiano recolheu sua antena parabólica e foi atrás do maior furo de sua carreira.

Em uma câmara de pedra acima da cidade, o Hassassin tirou as botas encharcadas e enfaixou o dedo do pé ferido. Doía muito, mas não tanto que o impedisse de se divertir.

Dirigiu-se para seu prêmio.

Ela estava em um canto do aposento, deitada em um divã primitivo, as mãos atadas atrás do corpo e amordaçada. O Hassassin encaminhou-se para ela. A mulher estava acordada. Isso o agradou.

Surpreendentemente, viu fogo em seus olhos em vez de medo.

O medo virá.

CAPÍTULO 107

Robert Langdon percorreu rapidamente a muralha externa do castelo, satisfeito por poder contar com a iluminação dos holofotes. O pátio abaixo dele parecia um museu das guerras da Antiguidade - catapultas, pilhas de balas de canhão feitas de mármore e um arsenal de terríveis artefatos.

Partes do castelo eram abertas aos turistas durante o dia, e o pátio fora parcialmente restaurado e devolvido ao seu estado original.

Do outro lado do pátio encontrava-se o núcleo central da fortaleza. A cidadela circular elevava-se mais de trinta metros até o anjo de bronze que a encimava. Na sacada do alto ainda havia luz. Langdon queria chamar, mas achou melhor não o fazer. Teria de encontrar uma forma de entrar.

Olhou o relógio.

11h12 da noite.

Descendo depressa a rampa de pedra que contornava o interior do muro, Langdon chegou ao pátio. De volta ao nível do chão, oculto pelas sombras, circundou a fortaleza no sentido dos ponteiros do relógio.

Passou por três pórticos, todos hermeticamente fechados. Como o Hassassin entrou? E Langdon prosseguiu. Passou por duas entradas modernas, ambas trancadas por fora com cadeados. Não foi por aqui. E continuou a correr.

Já rodeara quase todo o prédio quando viu um caminho de cascalho cruzando o pátio. Numa das extremidades do caminho, na parede externa do castelo, viu a ponte levadiça que levava à saída. Na outra extremidade, o caminho desaparecia dentro da fortaleza. Parecia dar em uma espécie de túnel - uma abertura para o núcleo central. Ii traforo! Langdon lera sobre o traforo desse castelo, uma gigantesca rampa em espiral que circulava dentro do forte, usada pelos comandantes para ir a cavalo da base ao topo com mais rapidez. O Hassassin entrou de carro! O portão de ferro do túnel estava aberto, levantado, indicando por onde Langdon deveria seguir. Ele se sentia quase exultante ao correr para o túnel. Quando se aproximou da abertura, porém, seu entusiasmo arrefeceu.

O túnel descia em espiral.

O caminho não era aquele. Aquele trecho do traforo, pelo jeito, ia para as masmorras, não para cima.

Parado junto ao poço escuro que penetrava fundo na terra, ele hesitou, levantando os olhos mais uma vez para a sacada. Seria capaz de jurar que vira algum movimento ali. Decida-se! Sem outra opção, entrou no túnel.

Lá em cima, o Hassassin debruçava-se sobre sua presa. Correu a mão pelo braço dela. A pele era macia como seda. A expectativa de explorar os tesouros do corpo daquela mulher o inebriava. De quantas maneiras poderia violentá-la?

Sabia que merecia a mulher. Servira bem a Janus. Ela era um espólio de guerra e, quando terminasse, a empurraria do divã e a obrigaria a ficar de joelhos. E a mulher o serviria de novo. A submissão extrema.

Então, no momento em que ele atingisse o clímax, cortaria a garganta dela.

Ghayat assa'adah, como diziam. O prazer extremo.

Mais tarde, saboreando sua glória, ficaria na sacada para apreciar o apogeu do triunfo dos Iliuminati, uma vingança desejada por tantos durante tanto tempo.

O túnel tornou-se mais escuro. Langdon descia sem parar.

Depois de uma volta completa sob a terra, a luz se fora por completo. O piso nivelou-se e Langdon diminuiu o ritmo, pressentindo, pelo eco de seus passos, que entrara em uma grande câmara. Na sua frente, em meio às trevas, julgou ter vislumbrado ligeiros lampejos, vagos reflexos luminosos. Avançou, estendendo a mão. Encontrou superficies lisas. Vidro e metais cromados. Era um veículo. Tateou a superficie, encontrou uma porta e a abriu.

A luz interna do veículo acendeu-se. Langdon deu um passo atrás e reconheceu o furgão preto.

Uma onda de aversão o fez parar um instante, mas logo ele entrou, revirando tudo na esperança de encontrar uma arma para substituir a que perdera na fonte. Não encontrou nenhuma. Achou, contudo, o telefone celular de Vittoria. Quebrado, sem condições de uso. Ao vê-lo, sentiu medo.

Rezou para não ter chegado tarde demais.

Acendeu os faróis do furgão. O ambiente iluminou-se, sombras severas projetaram-se em uma câmara simples. Langdon deduziu que o local talvez já tivesse sido usado para guardar cavalos e munição. Era, além disso, um beco sem saída.

Vim pelo caminho errado!

Angustiado, saltou do furgão e examinou as paredes ao redor. Nenhuma porta nem portão.

Lembrou-se do anjo acima da entrada do túnel e pensou se teria sido uma coincidência. Não! Ouviu de novo as palavras do matador na fonte. Ela está na Igreja da Iluminação, esperando a minha volta. Langdon não chegara tão longe para falhar no final. Seu coração batia com força. A frustração e o ódio estavam começando a prejudicar seus sentidos.

Quando viu sangue no chão, seu primeiro pensamento foi para Vittoria. Todavia, acompanhando as manchas de sangue, percebeu que eram pegadas. Os passos eram grandes. Os borrões vermelhos eram produzidos apenas pelo pé esquerdo. O Hassassin!

Langdon seguiu as pegadas, que iam na direção de um ângulo do aposento, sua sombra espalhada se tornando menos nítida a cada passo. À medida que se aproximava da parede, ficava mais intrigado. As marcas de sangue pareciam ir diretamente para aquele canto e depois sumiam.

Ao chegar perto da quina, mal pôde acreditar no que viu. Ali, o bloco de granito do piso não era quadrado como os outros. Langdon encontrava-se diante de mais um sinalizador. O bloco fora esculpido na forma de um perfeito pentagrama, com uma extremidade apontando para o canto.

Engenhosamente disfarçada por paredes superpostas, uma estreita fenda na pedra servia de saída. Langdon esgueirou-se por ela. Saiu em um corredor. Mais adiante, viu os restos da vedação de madeira que antes estivera fechando aquele túnel.

Além, havia luz.

Langdon correu. Passou por cima dos pedaços de madeira em direção à luz.

O corredor logo chegou a outra câmara, maior do que a anterior. Ali, uma única tocha acesa reluzia, presa na parede. Langdon estava em um setor do castelo onde não havia luz elétrica, um setor que nenhum turista jamais veria.

Continuar: parte 2 de 3