Anjos e Demônios
Capítulo 1 · Do alto da pirâmide de Gizé, a…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Do alto da pirâmide de Gizé, a jovem riu e voltou-se para ele, lá embaixo, chamando-o.
- Ande, Robert! Devia ter me casado com um homem mais moço! - O sorriso dela era mágico.
Ele tentou acompanhá-la, mas suas pernas pesavam como se fossem feitas de pedra.
- Espere - pediu. - Por favor...
Enquanto subia, sua vista começou a turvar-se. Seus ouvidos latejavam. Preciso alcançá-la! Mas, quando olhou de novo para cima, a mulher desaparecera. Em seu lugar havia um velho de dentes estragados. O homem encarou-o, os lábios torcendo-se em uma careta melancólica. E ele deixou escapar um grito de angústia que ressoou pelo deserto.
Robert Langdon acordou sobressaltado do pesadelo. O telefone ao lado de sua cama estava tocando.
Tonto, levou-o ao ouvido.
- Alô?
- Gostaria de falar com Robert Langdon - disse uma voz masculina.
Langdon sentou-se na cama e tentou clarear sua mente.
- Aqui... é Robert Langdon - e apertou os olhos para o mostrador do relógio digital. Eram 5h18 da madrugada.
- Preciso encontrá-lo imediatamente.
- Quem está falando?
- Meu nome é Maximilian Kohler. Sou um físico de Partículas Discretas.
- Um o quê? - Langdon mal conseguia se concentrar. - Tem certeza de que procurou o Langdon certo?
- O senhor é professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. Escreveu três livros sobre simbologia e...
- Sabe que horas são?
- Peço desculpas. Há uma coisa que precisa ver. Não posso explicar pelo telefone.
Um resmungo conformado escapou dos lábios de Langdon. Aquilo já acontecera antes. Um dos perigos de se escrever livros sobre simbologia religiosa era o chamado de fanáticos querendo que ele confirmasse o último sinal que haviam recebido de Deus. No mês anterior, uma stripper de Oklahoma prometera a Langdon a melhor sessão de sexo de sua vida se ele pegasse um avião até cidade dela para verificar a autenticidade de uma figura cruciforme que parecera magicamente nos lençóis de sua cama. O sudário de Tulsa, como Langdon a chamara.
- Como conseguiu o número do meu telefone? - Langdon tentou ser amável, apesar
da hora.
- Na Internet. No site do seu livro.
Langdon franziu a testa. Tinha certeza de que o número do telefone de sua casa não constava do site de seu livro. O homem obviamente estava mentindo.
- Preciso vê-lo - a voz do outro lado insistiu. - Vou pagar bem.
Agora Langdon estava ficando furioso.
- Sinto muito, mas eu...
- Se sair agora, pode estar aqui por volta de...
- Não vou a lugar nenhum! São cinco horas da manhã!
Langdon desligou e caiu de volta na cama. Fechou os olhos e tentou adormecer novamente. Não adiantou.
O sonho estava entranhado em sua mente. elutante, vestiu um roupão e desceu.
Robert Langdon perambulou descalço por sua casa deserta, uma construção Vitoriana em Massachusetts, segurando seu remédio habitual contra a insônia: uma caneca de chocolate instantâneo fumegante. O luar de abril filtrava-se pelas janelas da sacada e formava desenhos nos tapetes orientais. Os colegas de Langdon sempre brincavam que o lugar parecia mais um museu de antropologia do que uma casa. As prateleiras estavam cheias de artefatos religiosos de todo o mundo - um akuaba de Gana, uma cruz dourada da Espanha, um ídolo cicladense do Egeu e um ainda mais raro boccus de Bornéu, o símbolo da perpétua juventude de um jovem guerreiro.
Sentado em uma arca de latão maharishi e saboreando o chocolate quente, deu com o seu reflexo nas vidraças das janelas. A imagem estava distorcida e pálida.., como a de um fantasma. Um fantasma envelhecido, pensou, sendo cruelmente lembrado de que o seu espírito da mocidade vivia dentro de um invólucro mortal.
Apesar de não ser propriamente bonito no sentido clássico, Langdon, com seus quarenta e cinco anos, possuía o que as colegas do sexo feminino classificavam de um encanto "erudito" – mechas grisalhas misturadas ao espesso cabelo castanho, perspicazes olhos azuis, uma voz grave atraente e o sorriso forte e despreocupado de um atleta universitário. Membro da equipe de mergulho da faculdade, Langdon ainda tinha um corpo de nadador, um metro e oitenta de boa forma, que ele mantinha cuidadosamente com 2.500 metros diários de exercício na piscina da universidade.
Seus amigos sempre o viram como uma espécie de enigma - um homem que pertencia a séculos diferentes. Nos fins de semana, viam-no andando pelo pátio da universidade vestido de jeans e conversando sobre computação gráfica e história religiosa com os alunos; outras vezes, aparecia com seu paletó de tweed e colete paisley nas páginas de importantes revistas de arte em aberturas de exposições de museus para as quais era convidado a dar palestras.
Mesmo sendo um professor rigoroso e muito severo quanto à disciplina, Langdon era o primeiro a acolher o que chamava de "a arte perdida de uma boa brincadeira" Apreciava os momentos de divertimento com um fanatismo contagiante, o que lhe valera uma aceitação fraternal entre seus alunos. Seu apelido no campus, "Golfinho", era uma referência tanto à sua natureza afável quanto à sua lendária capacidade de mergulhar em uma piscina e confundir a estratégia de toda a equipe adversária em um jogo de pólo aquático.
Enquanto estava ali, sozinho, olhando distraído para a escuridão, o silêncio da casa foi quebrado novamente, dessa vez pelo toque da máquina de fax. Exausto demais para se incomodar, Langdon forçou uma risadinha cansada.
O povo de Deus, pensou. Dois mil anos de espera pelo Messias e eles ainda são de uma persistência infernal.
Entediado, deixou a caneca vazia na cozinha e foi andando devagar para seu escritório revestido de painéis de carvalho. O fax recém-chegado estava na bandeja da máquina. Suspirando, pegou a folha de papel e olhou para ela.
No mesmo instante foi tomado por uma onda de náusea.
A imagem na página era a de um cadáver humano. O corpo fora despido e a cabeça fora torcida, virada completamente para trás. No peito da vítima havia uma terrível queimadura. O homem fora marcado a fogo... com uma única palavra. Uma palavra que Langdon conhecia bem, muito bem. Ele olhou fixamente, incrédulo, para as letras desenhadas.
Ililuininilil - Iliuminati - ele gaguejou, o coração batendo forte. - Não pode ser...
Lentamente, temendo o que estava para presenciar, Langdon girou o papel 80 graus. Olhou para a palavra de cabeça para baixo.
E quase perdeu o fôlego. Era como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Mal acreditando em seus olhos, virou a folha de novo, lendo a palavra nas duas posições.
- Illuminati - murmurou.
Aturdido, deixou-se cair em uma cadeira. Ficou ali por um momento, totalmente desnorteado. Aos poucos, sua atenção voltou-se para a luz vermelha que piscava na máquina. Quem mandara o fax ainda estava na linha.., esperando para falar. Langdon contemplou durante longo tempo o ponto luminoso piscando.
Depois, trêmulo, levantou o fone.
CAPÍTULO 2
- Vai me dar atenção agora? - disse o homem quando Langdon finalmente atendeu o telefone.
- Sim, senhor, com certeza, agora vou. Pode explicar melhor?
- Foi o que tentei lhe contar antes - a voz era rígida, mecânica. - Sou físico. Dirijo uma organização de pesquisas. Aconteceu um crime e o senhor viu o fax.
- Como me encontrou? - Langdon mal conseguia se concentrar na conversa. Sua mente estava na imagem no fax.
- Já lhe disse. Na Internet, no site de seu livro A arte dos Iliuminati.
Langdon procurou reunir seus pensamentos. Seu livro era praticamente desconhecido nos círculos literários convencionais mas tivera uma repercussão bastante significativa on-line. Ainda assim, a explicação não fazia sentido.
- A página não traz informações para contato - Langdon desafiou-o.
- Tenho certeza disto.
- No laboratório tenho gente que é especialista em extrair informações sobre os usuários da Internet.
Langdon ainda estava meio cético.
- Parece que seu laboratório sabe tudo sobre a Internet.
- Claro - o outro disparou -, fomos nós que a inventamos.
Algo na voz do homem dizia que ele não estava brincando.
- Preciso vê-lo - insistiu. - Não é assunto para se tratar pelo telefone. Meu laboratório fica a apenas uma hora de vôo de Boston.
Na penumbra de seu escritório, Langdon analisou o fax que tinha em mãos. A imagem era estarrecedora, talvez representasse a maior descoberta epigráfica do século, uma década de suas pesquisas confirmada em um único símbolo.
- É urgente - a voz pressionou-o.
Os olhos de Langdon estavam fixos na queimadura. Iliuminati, ele lia sem parar. Seu trabalho sempre se baseara no equivalente simbólico dos fósseis - documentos antigos e boatos históricos -, mas aquela imagem diante dele representava o hoje. O tempo presente. Sentia-se como um paleontólogo que dá de cara com um dinossauro vivo.
- Tomei a liberdade de mandar um avião buscá-lo - disse a voz. - Vai estar em Boston dentro de 20 minutos.
Langdon sentiu a boca seca. Uma hora de vôo...
- Por favor, desculpe minha impertinência - continuou o homem. - Preciso do senhor aqui.
Langdon olhou outra vez para a imagem no fax - um antigo mito confirmado em preto-e-branco. As implicações eram assustadoras. Levantou um olhar ausente para as janelas. Os primeiros vestígios da aurora insinuavam-se por entre os galhos das bétulas dos fundos de sua casa, mas a vista de alguma forma parecia diferente naquela manhã. À medida que uma estranha mistura de medo e animação ia tomando conta dele, Langdon percebeu que não tinha escolha.
- O senhor me convenceu - falou ele. - Agora me diga onde encontrar o avião.
CAPÍTULO 3
A milhares de quilômetros dali, dois homens encontravam-se.
O aposento era escuro. Medieval. De pedra.
- Benvenuto - disse o encarregado. Estava sentado nas sombras, fora de visão. - Foi bem-sucedido?
- Si - respondeu o vulto. - Perfectamente. - Suas palavras soavam duras como as paredes de pedra.
- E não haverá dúvidas quanto à responsabilidade?
- Nenhuma.
- Excelente. Trouxe o que pedi?
Os olhos do assassino brilharam, negros como petróleo. Pegou um pesado aparelho eletrônico e colocou-o sobre a mesa.
O homem nas sombras pareceu satisfeito.
- Você se saiu bem.
- Servir à fraternidade é uma honra - disse o assassino.
- A fase dois vai começar logo. Procure descansar um pouco. Esta noite vamos mudar o mundo.
CAPÍTULO 4
O Saab 900S de Robert Langdon saiu do túnel Callahan no lado leste do porto de Boston, perto da entrada para o Aeroporto Logan. Verificando o endereço, Langdon encontrou a Aviation Road e dobrou à esquerda depois do prédio da Eastern Airlines. Na estrada de acesso, uns 300 metros adiante, um hangar surgiu na escuridão. Pintado nele, um grande número "4". Langdon parou no
estacionamento e saiu do carro.
Um homem de rosto redondo vestindo um uniforme azul de vôo saiu de trás da construção.
- Robert Langdon? - indagou.
A voz era amigável, com um sotaque peculiar que Langdon não conseguiu identificar.
- Eu mesmo - respondeu ele, trancando o carro.
- Cálculo perfeito - disse o homem. - Acabei de aterrissar. Venha comigo, por favor.
Ao rodearem o prédio, Langdon sentiu-se tenso. Não estava acostumado a receber telefonemas enigmáticos nem a marcar encontros secretos com estranhos. Sem saber o que esperar, envergara seu traje habitual de dar aulas - calças de algodão, camisa de gola rulê e um paletó de tweed. Enquanto caminhavam, pensou no fax no bolso de seu paletó, ainda incapaz de acreditar na imagem que apresentava.
O piloto pareceu perceber a ansiedade de Langdon.
- Voar não é problema para o senhor, ou é?
- De jeito nenhum - Langdon replicou. Corpos marcados a fogo é que são. Voar não é nada.
O homem conduziu Langdon até o outro lado do hangar. Contornaram um dos cantos e saíram na pista de pouso.
Langdon estacou, boquiaberto diante da aeronave estacionada na pista.
- Vamos nisso aí?
O homem sorriu.
- Gostou dele?
Langdon ficou parado olhando algum tempo.
- Dele? Que diabos é isso?
O avião era enorme. Lembrava um pouco o ônibus espacial, exceto pelo topo, que parecia ter sido raspado fora, deixando-o perfeitamente plano. Estacionado ali, parecia uma cunha gigantesca. A primeira sensação de Langdon foi a de que estava sonhando. O veículo dava a impressão de ser tão capaz de voar quanto um Buick. As asas praticamente não existiam - apenas dois atarracados estabilizadores verticais na traseira da fuselagem. Um par de pequenos lemes dorsais erguia-se na ré. O resto do avião era apenas casco - cerca de sessenta metros de ponta a ponta -, sem janelas, nada mais além de casco.
- Pesa 250 toneladas com o tanque de combustível cheio - adiantou-se o piloto, como um pai se gabando do filho recém-nascido. - Movido a hidrogênio. O casco é feito de um molde de titânio com fibras de carbureto de silício. Arremete com um coeficiente de empuxo de 20:1; a maioria dos jatos só chega a 7:1.0
O diretor deve estar com uma pressa danada de encontrar o senhor. Ele não costuma mandar o possante assim à toa.
- Essa coisa voa? - espantou-se Langdon.
o piloto riu.
- Se voa!
Conduziu Langdon pela pista na direção do avião.
- Chega a assustar, eu sei, mas é bom ir se acostumando. Daqui a cinco anos, é só o que se vai ver – os HSCT, High Speed Civil Transports (Transporte Civil de Alta Velocidade). Nosso laboratório é um dos primeiros a ter um.
Deve ser um tremendo laboratório - pensou Langdon.
- Este é um protótipo do Boeing X-33 - continuou o piloto -, mas existem dezenas de outros: o National Aero Space Plane, o Scramjet dos russos, o Hotol dos ingleses. O futuro está aqui, só vai levar algum tempo para chegar ao setor público. Pode ir se despedindo dos jatos convencionais.
Langdon examinou o avião com ar desconfiado.
- Acho que teria preferido um jato convencional.
O piloto apontou para a escada de embarque.
- Vamos subir, por favor, senhor Langdon. Cuidado com os degraus.
Minutos depois, Langdon estava sentado dentro da cabine vazia. O piloto instalou-o na primeira fila e encaminhou-se para a frente do avião.
Surpreendentemente, a cabine em si parecia-se com a de um grande jato comercial comum. A única exceção era o fato de não possuir janelas, o que incomodava Langdon bastante. A vida inteira fora perseguido por uma leve claustrofobia, vestígio de um incidente de infância jamais superado por completo.
Sua aversão por espaços fechados não chegava a atrapalhar, mas sempre fora causa de algumas frustrações. Manifestava-se de formas sutis. Ele evitava a prática de esportes de quadras fechadas, como o squash, e pagara de bom grado uma pequena fortuna por sua casa vitoriana, arejada e com pé-direito alto, embora houvesse pronta disponibilidade de moradia mais econômica para professores da universidade. Às vezes, suspeitava que sua atração pelo mundo da arte desde muito jovem devia-se ao seu gosto pelos amplos espaços abertos dos museus.
Os motores roncaram sob os seus pés causando um estremecimento profundo que percorreu todo o corpo do avião. Langdon engoliu em seco e aguardou. Sentiu o avião começar a taxiar. Acima de sua cabeça espalhou-se suavemente o som de música country com instrumentos de sopro.
Um telefone na parede a seu lado tocou duas vezes. Langdon pegou o fone e levou-o ao ouvido.
- Alô?
- Está confortável, senhor Langdon?
- Nem um pouco.
- Procure relaxar. Vamos chegar lá em uma hora.
- E onde exatamente é lá? - perguntou Langdon, percebendo que não tinha noção de para onde estavam indo.
- Genebra- respondeu o piloto, acelerando os motores. - O laboratório é em Genebra.
- Genebra - repetiu Langdon, sentindo-se um pouco melhor. - No norte do estado de Nova York. Tenho parentes perto do lago Seneca. Não sabia que havia um laboratório de Física em Genebra.
O piloto deu uma risada.
- Não é a Genebra de Nova York, senhor Langdon. Estamos indo para a Genebra da Suíça.
A palavra demorou um longo momento para ser assimilada.
- Suíça? - O pulso de Langdon acelerou-se. - Mas você não disse que o laboratório ficava só a uma hora de viagem?
- E fica, senhor Langdon. - Ele deu mais uma risadinha. - Este avião voa a Mach 15.
CAPÍTULO 5
Em uma movimentada rua européia,o assassino deslocava-se de maneira sinuosa através da multidão. Era um homem vigoroso. Moreno e forte. De uma agilidade dissimulada. Seus músculos ainda estavam tensos pela emoção do encontro.
Correu tudo bem, disse a si mesmo. Embora seu empregador não tivesse em nenhum momento mostrado o rosto, o assassino sentia-se honrado por estar em sua presença. Fazia realmente apenas 15 dias que haviam feito o primeiro contato? O assassino ainda lembrava cada palavra da conversa...
- Meu nome é Janus - dissera a pessoa que telefonara. - Estamos de certa forma ligados pelos mesmos laços. Temos um inimigo comum. Soube que se pode contratar seus serviços profissionais.
- Depende de quem você representa - replicou o assassino.
O interlocutor disse um nome.
- Não acho graça nessa brincadeira.
- Vejo que já ouviu falar de nós - observou o homem.
- Claro que sim. A fraternidade é lendária.
- E mesmo assim noto que você duvida que eu seja um membro genuíno.
- Todos sabem que os irmãos foram reduzidos a pó.
- Um ardil para desviar a atenção. O inimigo mais perigoso é aquele que ninguém teme.
O matador mostrou-se cético.
- A fraternidade ainda subsiste?
- Mais às ocultas do que nunca. Nossas raízes estão infiltradas em tudo o que você vê... até na fortaleza sagrada de nosso inimigo mais declarado.
- Impossível. Eles são invulneráveis.
- Nosso braço é longo.
- Nenhum braço chega tão longe.
- Logo você vai acreditar. Uma demonstração irrefutável do poder da fraternidade já veio a público. Um único ato de traição e de prova.
- O que vocês fizeram?
O homem contou-lhe.
O matador arregalou os olhos.
- Uma tarefa impossível.
No dia seguinte, os jornais do mundo inteiro estampavam a mesma manchete. O matador passou a acreditar.
Agora, 15 dias depois, a fé do matador consolidara-se além de qualquer sombra de dúvida. A fraternidade subsiste, pensou. Hoje à noite eles virão à tona para revelar seu poder.
Caminhando pelas ruas, seus olhos negros brilhavam, cheios de expectativa. Uma das fraternidades mais ocultas e temidas que já haviam existido neste mundo convocara seus serviços. Escolheram com sabedoria, refletiu. Sua reputação de saber guardar segredo só era superada pela de infalibilidade.
Até ali, servira-os nobremente. Fizera a execução e entregara o objeto a Janus como fora solicitado. Agora, cabia a Janus lançar mão de seu poder para providenciar a instalação do objeto.
A instalação...
O assassino se perguntava como Janus realizaria aquela tarefa tão assombrosa. O homem certamente tinha contatos lá dentro. Os domínios da fraternidade pareciam ilimitados.
Janus, pensou ele. Um codinome, sem dúvida. Seria uma referência, ocorreu-lhe, ao deus romano de duas faces... ou à lua de Saturno? Não que fizesse qualquer diferença. Janus exercia um poder insondável.
Dera provas irrefutáveis disso.
Enquanto andava, o assassino imaginava seus próprios ancestrais rindo para ele. Ele estava lutando a mesma batalha deles, era o mesmo inimigo contra o qual haviam lutado durante séculos, talvez desde o século XI... quando os exércitos dos cruzados haviam começado a pilhar suas terras, violentando e matando seu povo, declarando-o impuro, despojando seus templos e deuses.
Seus antepassados haviam formado um pequeno mas mortífero exército para se defender. Esse exército tornou-se famoso na região, seus membros eram vistos como protetores -hábeis carrascos que percorriam o país trucidando o inimigo onde quer que o encontrassem. Eram afamados não só por seus extermínios brutais, como por celebrá-los entregando-se ao entorpecimento causado pelo uso de drogas. A droga escolhida era uma potente substância inebriante a que chamavam de hashish, o haxixe.
À medida que sua notoriedade se espalhava, esses homens letais passaram a ser conhecidos por uma única denominação: Hassassin - literalmente, "os seguidores do haxixe" O nome Hassassin tornou-se sinônimo de morte em quase todas as línguas da terra. A palavra ainda é usada hoje, até nas línguas modernas.., porém, assim como a arte de matar, o termo evoluiu.
Hoje pronuncia-se assassino.
CAPÍTULO 6
Sessenta e quatro minutos se passaram e um incrédulo eligeiramente nauseado Robert
Langdon desceu a escada do avião na pista banhada pelo sol. Uma brisa fresca fez ondular as lapelas de seu paletó de tweed. A sensação de espaço aberto era maravilhosa. Ele apertou os olhos para ver melhor o vale coberto de verde e, acima, os picos cobertos de neve que rodeavam inteiramente o local onde estavam.
Estou sonhando, disse a si mesmo. Vou acordar a qualquer momento.
- Bem-vindo à Suíça - gritou o piloto acima do ruído dos motores HEDM do X-33 por trás deles.
Langdon conferiu o horário. Eram 7h07 da manhã.
- O senhor acabou de cruzar seis fusos horários - explicou o piloto. - Já passa um pouco de uma hora da tarde aqui.
Langdon acertou o relógio.
- Como está se sentindo?
Ele esfregou o estômago.
- Como se tivesse comido um pedaço de isopor.
O piloto assentiu.
- Por causa da altitude. Estávamos a 60 mil pés. A gente fica 30 por cento mais leve lá. Sorte que foi apenas um pulinho de nada. Se tivéssemos ido para Tóquio, eu teria subido o máximo possível - mais de 160 mil metros. Isso é que deixa o estômago embrulhado para valer.
Langdon fez um gesto cansado de cabeça e apreciou a sua boa sorte. De modo geral, o vôo fora surpreendentemente comum. Exceto pela sensação de esmagamento acelerado nos ossos do corpo durante a decolagem, o movimento no interior do avião fora bem característico -uma leve turbulência de vez em quando, umas poucas mudanças de pressão enquanto ganhavam altura, mas nada que indicasse que estavam cortando o espaço a uma atordoante velocidade de 20 mil quilômetros por hora.
Uma porção de técnicos aproximou-se correndo para cuidar do X-33. O piloto acompanhou Langdon até um Peugeot sedã preto estacionado atrás da torre de controle. Pouco depois, seguiam por uma estrada asfaltada que se estendia através da parte baixa do vale. Um amontoado indistinto de construções delineava-se à distância. Do lado de fora do carro, os campos relvados passavam depressa, um borrão verde.
Langdon observou espantado o piloto fazer o velocímetro alcançar 170 quilômetros por hora.
Qual seria o problema daquele sujeito com relação à velocidade? - ponderou ele.
- São cinco quilômetros até o laboratório - disse o piloto. - Vai estar lá em dois minutos.
Langdon procurou em vão o cinto de segurança.
Por que não em três minutos para chegarmos vivos?
O carro seguia em disparada.
- O senhor gosta de Reba? - perguntou o piloto, empurrando uma fita cassete no toca-fitas do carro.
Uma mulher começou a cantar: "É só o medo de estar só..."
Esse medo eu não tenho, pensou Langdon, distraído. Suas colegas costumavam caçoar que sua coleção de peças de museu não passava de uma tentativa evidente de encher uma casa vazia, uma casa que, segundo elas, seria muito favorecida pela presença de uma mulher. Langdon sempre ria disso, lembrando-lhes que já tinha três amores em sua vida: a simbologia, o pólo aquático e o celibato, sendo o último uma liberdade que lhe permitia viajar pelo mundo, dormir até a hora que bem entendesse e desfrutar de noites sossegadas em casa com uma bebida e um bom livro.
- Aqui é como se fosse uma cidade pequena - explicou o piloto, arrancando Langdon de seu devaneio. - Não existe só o laboratório. Temos supermercados, um hospital e até um cinema.
Langdon balançou vagamente a cabeça e voltou a atenção para o aglomerado de construções que se aproximava.
- Na realidade - o piloto acrescentou -, temos aqui a maior máquina do mundo.
- É mesmo? - Langdon correu os olhos pelo campo.
- Não dá para vê-la daqui, senhor. - O homem sorriu. - Está enterrada a uns 20 metros de profundidade.
Langdon não teve tempo de perguntar mais nada. Sem avisar, o piloto pisou firme no freio. O carro derrapou e parou junto a uma cabine reforçada de segurança.
Langdon leu a placa diante deles: SECURITE. ARRÊTEZ. Foi tomado por uma súbita onda de pânico ao se dar conta de onde estava.
- Meu Deus! Eu não trouxe meu passaporte!
- Não é necessário - o motorista garantiu. - Temos um acordo com o governo suíço.
Langdon, pasmo, viu seu motorista entregar um cartão de identificação ao guarda, que o passou em um aparelho eletrônico de autenticação. Uma luz verde se acendeu na máquina.
- Nome do passageiro?
- Robert Langdon - respondeu o motorista.
- Convidado de quem?
- Do diretor.
O guarda arqueou as sobrancelhas. Virou-se e examinou uma lista impressa, conferindo o que lera nos dados da tela de seu computador. Depois, voltou para a janela.
- Boa estada, senhor Langdon.
O carro disparou outra vez, acelerando mais uns 200 metros em torno de um amplo acesso circular que levava à entrada principal das instalações. Diante deles erguia-se uma estrutura retangular ultramoderna toda feita de vidro e aço. Langdon admirou a notável construção transparente. Sempre fora um grande apreciador de arquitetura.
- A Catedral de Vidro - explicou seu acompanhante.
- Uma igreja?
- Que nada. Igreja é uma coisa que não temos aqui. A religião deste lugar é a Física. Pode usar o nome de Deus em vão quanto quiser - riu ele -, mas não se atreva a falar mal de quarks nem de mésons.
O motorista fez a curva e parou na frente do prédio de vidro. Langdon estava atônito. Quarks e mésons? Fronteira sem controle? Jato Mach 15? QUEM são esses caras, afinal? E leu a resposta gravada em uma placa de granito na fachada do prédio: CERN Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire
- Pesquisa nuclear? - perguntou Langdon, certo de que traduzira corretamente.
O motorista não respondeu. Inclinado para o painel do carro, ocupava-se em ajustar o toca-fitas.
- O senhor fica aqui. O diretor vem encontrá-lo nesta entrada.
Langdon viu um homem em uma cadeira de rodas saindo do prédio. Parecia ter pouco mais de 60 anos.
Magro e pálido, inteiramente calvo e com um rosto severo, vestia um jaleco branco e calçava sapatos sociais, que apoiava com firmeza no suporte da cadeira. Mesmo de longe, seus olhos pareciam sem vida, como duas pedras cinzentas.
- É ele? - Langdon perguntou.
O motorista ergueu os olhos, virou-se e deu um sorriso agourento para Langdon.
- Falando do diabo...
Sem saber muito bem o que o esperava, Langdon desceu do carro.
O homem da cadeira de rodas apressou-se na direção de Langdon e estendeu-lhe a mão fria e úmida.
- Senhor Langdon? Fui eu quem falou com o senhor ao telefone. Meu nome é Maximilian Kohler.
CAPÍTULO 7
Pelas costas, Maximilian Kohler, diretor-geral do CERN, era chamado de K nig - rei, em alemão. O título devia-se mais ao medo do que à reverência pela figura que governava o seu domínio sentado em um trono de rodas. Embora poucos o conhecessem pessoalmente, a horrível história da maneira como ficara aleijado era uma lenda no CERN, e também poucos ali o culpavam por sua amargura... ou por sua dedicação declarada à pura ciência.
Apenas alguns minutos na presença de Kohler bastaram para fazer Langdon notar que o diretor era um homem que se mantinha à distância. Langdon quase precisou correr para acompanhar a cadeira elétrica em direção à entrada principal. Era um tipo de cadeira de rodas que ele nunca vira antes - equipada com uma bancada de aparelhos eletrônicos, como um telefone com diversas linhas, um sistema de pager, uma tela de computador e até uma pequena câmara de vídeo destacável. O centro eletrônico de comando do rei Kohler.
Passaram por uma porta mecânica e entraram no descomunal saguão principal do CERN.
A Catedral de Vidro, Langdon refletiu, levantando os olhos para o alto.
Lá em cima, o teto de vidro azulado cintilava ao sol da tarde, lançando raios que formavam padrões geométricos no ar e davam ao local uma sensação de grandiosidade. Sombras angulares projetavam-se em forma de veias na cerâmica das paredes e no piso de mármore. O ar tinha um cheiro limpo, esterilizado.
Havia alguns cientistas circulando por ali, apressados, o som de suas passadas ecoando no espaço.
- Venha por aqui, senhor Langdon, por favor. - A voz soava quase computadorizada. Seu sotaque era rígido e preciso como os traços severos de seu rosto. Kohler tossiu e enxugou a boca em um lenço branco, fixando os olhos cinzentos e mortiços em Langdon. - Por favor, vamos depressa. - A cadeira de rodas parecia saltar sobre as lajotas do chão.
Langdon seguiu-o por incontáveis corredores que se ramificavam a partir do saguão principal. Todos esses corredores fervilhavam de atividade. Os cientistas que cruzavam com Kohler pareciam surpresos e olhavam para Langdon tentando imaginar quem seria ele para estar em tal companhia.
Langdon tentou puxar conversa.
- Confesso que estou encabulado por nunca ter ouvido falar do CERN.
- Não é de espantar - replicou Kohler, a resposta cortante soando áspera e eficiente. - A maioria dos americanos não vê a Europa como líder mundial em pesquisa científica e sim como um pitoresco distrito de compras, nada mais do que isso. O que é estranho, considerando-se as nacionalidades de homens como Einstein, Galileu e Newton.
Langdon ficou sem saber muito bem o que responder. Tirou o fax do bolso.
- Esse homem na fotografia, o senhor poderia...
Kohler interrompeu-o com um gesto.
- Por favor. Aqui, não. Estou levando o senhor até onde ele está agora. - Estendeu a mão. - Talvez seja melhor eu ficar com isso.
Langdon entregou-lhe o fax e continuou a caminhar em silêncio.
Kohler dobrou à esquerda bruscamente e enveredou por um corredor largo em cujas paredes estavam pendurados prêmios e comendas. Uma placa de bronze particularmente grande dominava a entrada.
Quando passaram por ela, Langdon diminuiu o ritmo para ler o que estava gravado.
PRÊMIO ARS ELETRÔNICA
Por Inovação Cultural na Era Digital
Concedido a Tim Berners Lee e ao CERN pela invenção da WORLDWIDE WEB Diabo! O sujeito não estava brincando! - pensou Langdon ao ler o texto. Sempre pensara que a Internet fosse uma invenção norte-americana. No entanto, seu conhecimento a respeito limitava-se ao site de seu próprio livro e a uma ocasional exploração do Louvre e do Prado em seu velho Macintosh.
- A Internet começou aqui - disse Kohler, tossindo novamente e enxugando a boca -como uma rede interna de computadores. Permitia a cientistas de diferentes departamentos partilhar as descobertas diárias uns com os outros. É claro, o mundo inteiro imagina que a Internet é tecnologia norte-americana.
Langdon seguia-o pelo corredor.
- Por que não esclarecem essa questão?
Kohler deu de ombros, aparentemente desinteressado.
- Um equívoco insignificante a respeito de uma tecnologia insignificante. O CERN é muito maior do que uma conexão global de computadores. Nossos cientistas produzem milagres quase todos os dias.
Langdon lançou-lhe um olhar interrogador.
- Milagres? - A palavra "milagre" não fazia parte do vocabulário dos freqüentadores do Edifício de Ciências Fairchild, em Harvard. Milagres eram com a Escola de Teologia.
- O senhor parece cético - disse Kohler. - Pensei que fosse um simbologista religioso. Não acredita em milagres?
- Sou um tanto indeciso quanto a milagres - Langdon respondeu. Principalmente quanto aos que se realizam em laboratórios científicos.
- Talvez milagre não seja a palavra certa. Eu estava simplesmente tentando falar a sua língua.
- Minha língua? - Langdon de repente se sentiu incomodado. - Não quero desapontá-lo, senhor, mas estudo simbologia religiosa. Sou um acadêmico, não um sacerdote.
Kohler diminuiu a velocidade e se virou, o olhar suavizando-se um pouco.
- É claro. Que tolice a minha. Não é preciso ter câncer para se analisar os sintomas da doença.
Langdon nunca ouvira a questão ser apresentada daquela forma.
Enquanto seguiam pelo corredor, Kohler fez um leve gesto de aceitação com a cabeça.
- Acho que vamos nos entender perfeitamente, senhor Langdon. De alguma forma, Langdon duvidava disso.
À medida que os dois avançavam, Langdon começou a perceber um ruído surdo adiante. O barulho foi ficando mais intenso a cada passo, reverberando pelas paredes. Parecia vir do final do corredor em frente a eles.
- O que é isso? - Langdon finalmente perguntou, tendo de gritar. Tinha a impressão de que se aproximavam de um vulcão em erupção.
- Túnel de Queda Livre - respondeu Kohler, a voz oca cortando o ar sem esforço.
Langdon não perguntou mais. Estava exausto e Maximilian Kohler não parecia interessado em ganhar nenhum prêmio de hospitalidade. Langdon procurou lembrar-se do motivo pelo qual estava ali.
Iliuminati. Presumiu que haveria um cadáver em algum ponto daquela organização colossal... um cadáver marcado com um símbolo que ele viajara uns cinco mil quilômetros para ver.
Ao se aproximarem do fim do corredor, o ruído tornou-se quase ensurdecedor, vibrando através das solas dos sapatos de Langdon. Contornaram uma pilastra e uma galeria de observação apareceu à direita. Quatro portais de grossas vidraças haviam sido encaixados em uma parede curva, como janelas de submarino.
Langdon parou e espiou por uma das aberturas.
O professor Robert Langdon já vira algumas coisas esquisitas em sua vida, mas aquela era a mais esquisita de todas. Deu umas piscadelas, achando que estivesse tendo alucinações. Encontrava-se diante de uma enorme câmara circular. Dentro da câmara, flutuando como se fossem desprovidas de peso, havia pessoas. Três. Uma delas acenou e deu uma cambalhota no ar.
Deus do céu, pensou, estou na Terra de Oz.
O piso da câmara era feito de uma tela reticulada, como uma gigantesca cerca de galinheiro. Visível sob a tela, o borrão metálico de uma hélice imensa.
- É um túnel de queda livre - disse Kohler, parando para esperar por ele. - É um túnel vertical de vento, um simulador de pára-quedismo para aliviar a tensão.
Langdon olhava, estupefato. Uma das pessoas, uma mulher obesa, manobrou o corpo em direção à janela.
Estava sendo fustigada por correntes de ar, mas deu um sorriso e fez um sinal com o polegar para cima.
Langdon sorriu amarelo e devolveu o gesto, pensando se ela saberia que aquele era o antigo símbolo fálico de virilidade masculina.
A mulher era a única usando o que aparentava ser um pára-quedas em miniatura. A faixa de tecido ondulava acima dela como se fosse um brinquedo.
- Para que serve o pequeno pára-quedas? - Langdon perguntou a Kohler.
- Não deve ter mais de um metro de diâmetro.
- Fricção - Kohler respondeu. - Diminui a aerodinâmica para que o ventilador possa erguer a pessoa. - E voltou a andar pelo corredor. - Um metro quadrado de algo que ofereça resistência ao ar retarda a queda de um corpo em quase 20 por cento.
Langdon assentiu mecanicamente com a cabeça.
Jamais poderia imaginar que mais tarde, na mesma noite, em um país a centenas de quilômetros de distância, aquela informação iria salvar-lhe a vida.
CAPÍTULO 8
Quando Langdon e Kohier saíram pelos fundos do conjunto principal do CERN para a luminosidade crua do sol da Suíça, Langdon sentiu-se como se tivesse sido levado de volta para casa. A cena diante dele era igual à de um campus da Ivy League.
Um gramado em declive estendia-se na direção de uma vasta extensão de terreno plano, com árvores sombreando pátios quadrangulares cercados por prédios de dormitórios e caminhos de pedestres. Pessoas com aparência de universitários, carregadas com pilhas de livros, entravam e saíam dos edifícios. Como para acentuar a atmosfera, dois hippies de cabelos compridos jogavam um frisbee para lá e para cá enquanto a Quarta Sinfonia de Mahler soava em alto volume vinda de uma das janelas de um prédio.
- Esses são nossos prédios residenciais - explicou Kohler, acelerando sua cadeira de rodas pelo caminho que ia dar nos edifícios. - Temos mais de três mil fisicos aqui. O CERN sozinho emprega mais da metade dos físicos de partículas do mundo, as mentes mais brilhantes do mundo: alemães, japoneses, italianos, holandeses, todos, enfim. Nossos fisicos representam mais de quinhentas universidades e sessenta nacionalidades.
Langdon estava impressionado.
- E como se comunicam?
- Em inglês, naturalmente. A língua universal da ciência.
Langdon sempre ouvira dizer que a matemática era a língua universal da ciência, mas estava cansado demais para discutir. Seguiu Kohler obedientemente pelo caminho.
Quase chegando na parte de baixo, um rapaz cruzou com eles correndo, fazendo exercício. Na camiseta dele, a mensagem: SEM TOE, SEM GLÓRIA!
Langdon acompanhou-o com o olhar, intrigado.
- Toe?
- Theory of Everything, Teoria sobre Tudo - disse Kohler em tom de gracejo.
- Sei - disse Langdon, sem saber coisa alguma.
- Tem alguma noção de Física de Partículas, senhor Langdon?
Langdon encolheu os ombros.
- Tenho noções sobre Física geral, queda dos corpos pesados e coisas assim.
- Sua experiência de mergulho dera-lhe um profundo respeito pelo poder impressionante da aceleração gravitacional. - A Física das Partículas é o estudo dos átomos, não é?
Kohler balançou a cabeça.
- Os átomos parecem planetas se comparados com as coisas com que lidamos. Nosso interesse está no núcleo do átomo, apenas dez milionésimos do tamanho do todo. - Tossiu de novo, parecendo adoentado.
- Os homens e mulheres do CERN estão aqui para encontrar respostas para as mesmas perguntas que o homem vem fazendo desde o começo dos tempos. De onde viemos? De que somos feitos?
- E as respostas estão em um laboratório de Física?
- O senhor ficou surpreso?
- Fiquei. Essas respostas parecem pertencer mais ao domínio do espiritual.
- Senhor Langdon, todas as perguntas algum dia foram espirituais. Desde o princípio dos tempos, a espiritualidade e a religião preencheram as lacunas que a ciência não compreendia. O nascer e o pôr do Sol eram outrora atribuídos a Helios e sua carruagem de fogo. Terremotos e maremotos deviam-se à ira de Poseidon. A ciência provou que esses deuses eram falsos ídolos. Logo será provado que todos os deuses são falsos ídolos. A ciência acabou fornecendo respostas para quase todas as perguntas que o homem pode fazer. Restam apenas algumas poucas, que são as esotéricas. De onde viemos? O que estamos fazendo aqui? Qual o sentido da vida e do universo?
Langdon era só perplexidade.
- E são essas as perguntas que o CERN está tentando responder?
- Corrigindo: são as perguntas que estamos respondendo.
Langdon calou-se e os dois continuaram a circular através dos pátios das residências. Enquanto andavam, um frisbee veio voando e caiu bem na frente deles. Kohler ignorou-o e prosseguiu.