Anjos e Demônios
- Mas ele está aqui. E o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Mas ele está aqui. E o senhor responde a ele.
Olivetti cruzou os braços.
- Senhor Langdon, é verdade que as regras do Vaticano determinam que o camerlengo assuma a superintendência durante o conclave, mas é apenas porque a sua inelegibilidade para o papado garante uma eleição imparcial. É como se o seu presidente morresse e um de seus assistentes temporariamente se sentasse na Sala Oval. O camerlengo é jovem e seus conhecimentos sobre segurança, ou qualquer coisa relacionada a isso, são extremamente limitados. Para todos os efeitos, o responsável aqui sou eu.
- Leve-nos até ele - pediu Vittoria.
- Impossível. O conclave começa dentro de 40 minutos. O camerlengo está no escritório do Papa, preparando tudo. Não pretendo incomodá-lo com assuntos de segurança.
Vittoria abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma batida na porta. Olivetti abriu-a.
Um guarda em traje de gala estava do lado de fora, apontando para o relógio.
- P l'ora, comandante.
Olivetti verificou seu próprio relógio e sacudiu a cabeça, concordando. Virou-se para Langdon e Vittoria como um juiz que decidisse o destino deles.
- Sigam-me.
Saiu com eles da sala de monitoramento, cruzando o centro de segurança até um cubículo claro junto à parede do fundo.
- Meu escritório.
Olivetti fez com que entrassem. A sala não tinha nada de especial: uma escrivaninha cheia de coisas, além de arquivos, cadeiras dobráveis e um refrigerador.
- Volto em dez minutos. Sugiro que aproveitem o tempo para decidir como querem agir.
Vittoria girou nos calcanhares.
- Não pode sair assim! Aquele tubo é...
- Não tenho tempo para isso agora - Olivetti estava agitado. - Talvez tenha de prendê-los até depois do conclave, quando terei tempo.
- Signore - insistiu o guarda, apontando de novo para o relógio. - Spazzare di capeila.
Olivetti sacudiu a cabeça e dirigiu-se para a porta.
- Spazzare di capeila? - perguntou Vittoria. - Estão saindo para varrer a capela?
Olivetti virou-se com um olhar penetrante.
- Vamos fazer uma varredura, procurar grampos, escuta eletrônica, senhorita Vetra. Por uma questão de discrição. - E ele fez um gesto para as pernas dela.
- Embora eu não espere que a senhorita compreenda o que quer dizer isto.
E bateu a porta, sacudindo o vidro pesado. Com um movimento ligeiro, fez aparecer uma chave, colocou-a na fechadura e girou-a. Uma tranca pesada encaixou-se no lugar.
- Idiota! - gritou Vittoria. - Não pode nos prender aqui!
Através do vidro, Langdon viu Olivetti dizer alguma coisa para um guarda. A sentinela concordou.
Quando Olivetti saiu da sala, o guarda veio e ficou de frente para eles do outro lado do vidro, os braços cruzados, uma arma pendurada no quadril, bem à vista.
Perfeito, pensou Langdon, simplesmente perfeito.
CAPÍTULO 37
Vittoria fulminou com o olhar o guarda suíço do outro lado da porta trancada do escritório de Olivetti. O guarda devolveu-lhe o olhar fulminante, o uniforme colorido em desacordo com seu ar ameaçador.
Que fiasco, pensou Vittoria. Mantida presa por um homem armado vestido de pijamas.
Langdon calara-se e Vittoria esperava que ele estivesse usando seu cérebro de Harvard para achar um jeito de escapulirem dali. Pela cara dele, porém, tinha a impressão de que estava mais em estado de choque do que entregue a pensamentos. Lamentava tê-lo envolvido naquela situação.
O primeiro instinto de Vittoria havia sido pegar o telefone celular e ligar para Kohler, mas sabia que teria sido inútil. Primeiro, o guarda provavelmente entraria e tomaria seu telefone. Segundo, se aquele episódio de Kohler tivesse seguido o curso habitual, ele provavelmente ainda estaria incapacitado. Não que fizesse diferença... Olivetti não parecia inclinado a acreditar na palavra de quem quer que fosse naquele momento.
Lembre-se!, disse a si mesma. Lembre-se da solução para este problema!
A lembrança era um truque filosófico budista. Em vez de pedir à sua mente para procurar uma solução para um desafio potencialmente impossível, Vittoria pedia-lhe que apenas se lembrasse da solução. O pressuposto de que sabia a resposta criava a disposição mental de que a resposta deveria existir, eliminando assim o conceito paralisante de desesperança. Vittoria costumava utilizar aquele processo para resolver incertezas científicas, aquelas que a maioria das pessoas achava não terem solução.
Naquela hora, todavia, o truque da lembrança só produzia um grande branco.
Portanto, ela avaliou suas opções, suas necessidades. Precisava avisar alguém. Alguém no Vaticano precisava levá-la a sério. Mas quem? O camerlengo? Como? Ela estava dentro de uma caixa de vidro com uma única porta de saída. Ferramentas, disse consigo. Sempre existem ferramentas. Reavalie seu ambiente.
Instintivamente, ela abaixou os ombros, relaxou o rosto e respirou fundo três vezes. Sentiu seu ritmo cardíaco diminuir e seus músculos se descontraírem. O pânico caótico em sua mente dissipou-se. Muito bem, pensou, deixe a mente livre. O que há de positivo nesta situação? Quais são minhas vantagens?
A mente analítica de Vittoria Vetra, tendo se acalmado, tornava-se uma força poderosa. Em segundos, ela verificou que o fato de estarem encarcerados constituía na verdade a chave de sua fuga daquele lugar.
- Vou dar um telefonema - anunciou, de súbito, a Langdon.
- Eu já ia sugerir que ligasse para Kohler, mas...
- Kohler, não. Outra pessoa.
- Quem?
- O camerlengo.
- Você vai ligar para o camerlengo? Como?
- Olivetti disse que o camerlengo estava no escritório do Papa.
- Certo. E você sabe o número do telefone do Papa?
- Não. Mas não é do meu telefone que vou ligar. - E fez um sinal na direção de um sofisticado sistema de telefonia na mesa de Olivetti. Havia uma porção de botões de discagem direta. - O chefe da segurança deve ter uma linha direta para o escritório do Papa.
- E também temos um halterofilista com uma arma plantado a dois metros daqui.
- E nós estamos trancados aqui dentro.
- Eu já tinha notado.
- Quero dizer é que o guarda não pode entrar. Este é o escritório particular de Olivetti. Duvido que alguém mais tenha a chave.
Langdon deu uma espiada no guarda.
- O vidro é bem fino e a arma é bem grande.
- E o que ele vai fazer, atirar em mim porque estou usando o telefone?
- Sabe-se lá! Este lugar é bem esquisito, e do jeito que as coisas vão...
- Ou isso - disse Vittoria - ou podemos passar as próximas cinco horas e quarenta e oito minutos na prisão do Vaticano. Pelo menos, vamos assistir de camarote quando a antimatéria explodir.
Langdon empalideceu.
- O guarda vai chamar Olivetti assim que você pegar aquele telefone. Além disso, há uns 20 botões ali. E não estou vendo nenhuma identificação. Vai tentar todos eles e torcer para acertar de primeira?
- Não - disse ela, dirigindo-se para o telefone. - Só vou tentar um. - Vittoria pegou o fone e apertou o primeiro botão. - Número um. Aposto um daqueles dólares dos Illuminati que você tem no bolso que este é o botão do escritório do Papa. O que mais teria importância prioritária para um comandante da Guarda Suíça?
Langdon não teve tempo de responder. O guarda lá fora começou a bater no vidro com a coronha de sua arma. Fazia sinal para que ela largasse o telefone.
Vittoria piscou para ele. O guarda pareceu inflar de tanta raiva.
Langdon afastou-se da porta e falou com Vittoria.
- É bom você estar certa, porque esse sujeito não está muito satisfeito.
- Droga! - disse ela, escutando. - Uma gravação!
- Gravação? - perguntou Langdon. - O Papa tem secretária eletrônica?
- Não era o escritório do Papa - disse Vittoria, desligando. - Era o maldito cardápio semanal da intendência do Vaticano.
Langdon deu um sorriso amarelo para o guarda lá fora, que agora estava com uma cara furiosa, comunicando-se com Olivetti pelo walkie-talkie.
CAPÍTULO 38
A mesa telefônica do Vaticano localiza-se no Ufficio di Communicazione, atrás do Correio do Vaticano. Fica em uma sala relativamente pequena contendo um equipamento Corelco 141 de oito linhas, O departamento atende a 2.000 ligações por dia, a maioria encaminhada automaticamente para o sistema gravado de informações. Naquela noite, o único telefonista de plantão estava sentado sossegadamente tomando sua xícara de chá. Sentia-se orgulhoso por ser um dos poucos funcionários autorizados a permanecer dentro do Vaticano durante o conclave.
É claro que a honra ficava de certa forma abalada pela presença dos guardas suíços rondando sua porta. Uma escolta para ir ao banheiro, pensou ele. Ah, as indignidades que somos obrigados a aturar em nome do Santo Conclave! Felizmente, as chamadas até então haviam sido poucas. O que talvez não fosse tão bom assim.
O interesse mundial pelos negócios do Vaticano diminuíra nos últimos anos, O número de ligações da imprensa fora menor e até os malucos não ligavam mais com tanta freqüência. A secretaria de imprensa esperava que houvesse um alvoroço mais festivo em torno do acontecimento da noite. Entretanto, lamentavelmente, embora a Praça de São Pedro estivesse cheia de carros de reportagem, aparentemente a maioria dos furgões pertencia à imprensa italiana ou européia. Só um pequeno número de redes internacionais estava presente... e sem dúvida haviam enviado apenas seus giornalisti secundari.
O telefonista pegou sua caneca e conjeturou se a noite seria longa. Até meia- noite, mais ou menos, calculou ele. Hoje em dia, muita gente bem informada já sabia quem era o favorito para se tornar Papa muito antes de o conclave se reunir, de modo que o processo acabava sendo mais um ritual de três ou quatro horas do que propriamente uma eleição. Claro que dissensões de última hora podiam prolongar a cerimônia pela madrugada afora... ou além. O conclave de 1831 durara 54 dias. Mas não o de hoje, disse consigo. Falava-se que este conclave seria uma "vigília de fumaça".
Os pensamentos do telefonista evaporaram-se com o zumbido de uma linha interna em seu painel. Olhou para a luz vermelha piscando e coçou a cabeça. Que coisa estranha, pensou. A linha zero. Quem será que está ligando daqui de dentro para o telefonista de informações? E quem é que ainda está aqui dentro, afinal?
- Città dei Vaticano, prego? - disse ele, atendendo.
A voz que estava na linha falava um italiano rápido. O telefonista reconheceu vagamente o sotaque como sendo o que era comum aos guardas suíços, italiano fluente com leve influência franco-suíça. Aquela pessoa, porém, decididamente não pertencia à Guarda Suíça.
Ao ouvir a voz da mulher, o telefonista levantou-se de um pulo, quase derramando seu chá. Verificou o painel outra vez. Não se enganara. Era uma extensão interna. A ligação vinha de dentro. Não era possível, algo estava errado! Uma mulher dentro da Cidade do Vaticano? Hoje? A mulher falava depressa e furiosamente. O telefonista passara tempo suficiente naquele trabalho para saber quando estava lidando com um pazzo. Aquela mulher não parecia maluca. Seu tom era urgente mas racional. Calmo e eficiente. Ele escutou o pedido dela, aturdido.
- Ii camerlengo? - disse o telefonista, ainda tentando descobrir de onde estaria vindo a ligação. – Não posso completar... sim, sei que ele está no escritório do Papa mas... quem é a senhora, mesmo? E quer avisar a ele que... - O homem escutava, cada vez mais desconcertado. Todos em perigo? Como? E de onde está chamando? - Talvez seja melhor entrar em contato com a Guarda Su... - O telefonista parou no meio da frase. - Onde é que a senhora está? Onde?
Ele escutou, atônito, depois tomou uma decisão.
- Aguarde um pouco, por favor - disse, colocando a mulher na espera antes que ela pudesse responder. Em seguida, ligou para a linha direta do comandante Olivetti. Não é possível que a mulher esteja realmente...
A ligação foi atendida de imediato.
- Per l'amore di Dio! - a voz feminina conhecida gritou. - Faça a bendita ligação!
A porta do centro de segurança da Guarda Suíça abriu-se com um silvo. Os guardas abriram caminho quando o comandante Olivetti entrou na sala como um foguete. Chegando à porta de seu escritório, constatou o que o guarda no walkie-talkie acabara de lhe contar: Vittoria Vetra estava de pé diante da mesa dele falando em seu telefone particular.
Che coglioni che ha questa!, pensou ele.
Lívido, aproximou-se, enfiou a chave na fechadura e abriu a porta, perguntando:
- O que está fazendo?
Vittoria ignorou-o.
- Sim - dizia ela ao telefone. - E tenho de prevenir...
Olivetti arrancou o telefone da mão dela e colocou-o no próprio ouvido.
- Quem diabos está falando?
Em uma fração de segundo, a postura rígida de Olivetti desfez-se repentinamente.
- Sim, camerlengo... - disse ele. - Correto, signore... mas questões de segurança exigem... claro que não... estou mantendo-a aqui por... com certeza, mas... - Ele escutou. - Sim, senhor - disse, afinal. - Vou subir com eles imediatamente.
CAPÍTULO 39
O Palácio Apostólico consiste em um aglomerado de prédios situados perto da Capela Sistina, no ângulo nordeste da Cidade do Vaticano. Com uma ampla vista da Praça de São Pedro, o palácio abriga não só os apartamentos papais como o escritório do Papa.
Vittoria e Langdon seguiram calados o comandante Olivetti por um longo corredor rococó, os músculos do pescoço dele pulsando de raiva. Depois de subir três lances de escada, entraram em um grande vestíbulo meio imerso na penumbra.
Langdon mal acreditava nas obras de arte que via nas paredes: bustos, tapeçarias e baixos-relevos em perfeito estado de conservação, obras que valiam centenas de milhares de dólares. Ao cruzarem o vestíbulo, passaram por uma fonte de alabastro. Olivetti dobrou à esquerda e, em um vão, deram com uma das maiores portas que Langdon já vira.
- Ufficio di Papa - declarou o comandante, com um olhar corrosivo para Vittoria.
Ela não hesitou, adiantou-se e bateu com força na porta.
O escritório do Papa, Langdon repetiu mentalmente, com dificuldade para se conscientizar de que estava à porta de uma das salas mais sagradas da religião mundial.
- Avanti! - alguém disse lá dentro.
Quando a porta se abriu, Langdon teve de proteger os olhos com as mãos. A luminosidade do sol era ofuscante. Devagar, a imagem à sua frente entrou em foco.
O escritório do Papa lembrava mais um salão de baile, O piso de mármore vermelho estendia-se até as paredes enfeitadas com afrescos de cores vivas. Um lustre colossal pendia do teto e uma série de janelas em arco oferecia um panorama deslumbrante da Praça de São Pedro banhada de sol.
Meu Deus, pensou ele. Isto é que é um quarto com vista.
Na extremidade oposta do aposento, em uma escrivaninha de madeira entalhada, um homem estava sentado escrevendo energicamente.
- Avanti - repetiu ele, pousando a caneta e fazendo sinal para que se aproximassem.
Olivetti foi na frente, com seu passo militar.
- Signore - disse ele, desculpando-se -, no ho potuto...
O homem interrompeu-o. Levantou-se e estudou os dois visitantes.
O camerlengo não tinha nada da imagem dos frágeis e beatíficos homens idosos que Langdon costumava imaginar circulando pelo Vaticano. Não trazia rosários ou pingentes. Nem usava uma daquelas túnicas pesadas. Estava vestido com uma batina preta simples que ampliava a solidez de sua substancial constituição física. Deveria estar com quase quarenta anos, uma criança para os padrões do Vaticano. Seu rosto era surpreendentemente bonito, com bastos cabelos revoltos e olhos verdes quase radiantes que brilhavam como se fossem acesos e movidos pelos mistérios do universo. Mais de perto, porém, Langdon viu naqueles olhos uma profunda exaustão, como a de uma pessoa que tivesse acabado de viver os dias mais difíceis de sua vida.
- Sou Carlo Ventresca - disse, em inglês perfeito. - O camerlengo do último Papa.
- Sua voz era despretensiosa e amável, com apenas um ligeiro sotaque italiano.
- Vittoria Vetra - disse ela, dando um passo à frente e estendendo-lhe a mão.
- Obrigada por nos receber.
O rosto de Olivetti crispou-se quando o camerlengo apertou a mão de Vittoria.
- Este é Robert Langdon - disse Vittoria -, um historiador de religiões da Universidade de Harvard.
- Padre - disse Langdon, pronunciando o melhor possível o seu italiano. E curvou a cabeça ao estender a mão.
- Não, não - insistiu o camerlengo, fazendo Langdon levantar o corpo. - O escritório de Sua Santidade não me torna santo. Sou apenas um padre, um camarista servindo em uma hora de necessidade.
Langdon endireitou o corpo.
- Por favor - disse o camerlengo -, sentem-se todos.
Dispôs algumas cadeiras em torno de sua mesa. Langdon e Vittoria sentaram-se, Olivetti preferiu ficar de pé.
O camerlengo sentou-se em sua cadeira diante da escrivaninha, entrelaçou as mãos, suspirou e olhou para seus visitantes.
- Signore - disse Olivetti -, o traje da moça é culpa minha. Eu...
- A roupa dela não é o que me preocupa - replicou o camerlengo, a voz revelando que estava fatigado demais para ser incomodado. - Quando o telefonista do Vaticano liga para mim meia hora antes do início do conclave e diz que uma mulher está telefonando da sua sala particular para me alertar sobre uma grande ameaça à segurança sobre a qual não fui informado, isso sim me preocupa.
Olivetti permaneceu rígido, as costas arqueadas como se fosse um soldado passando por intensa inspeção.
Langdon estava hipnotizado pela presença do camerlengo. Mesmo sendo moço e estando tão cansado, o padre tinha um quê de herói mítico, irradiando carisma e autoridade.
- Signore - falou Olivetti, em tom de desculpas mas ainda inflexível -, não devia se preocupar com questões de segurança. O senhor tem outras responsabilidades.
- Sei muito bem de minhas outras responsabilidades. Também sei que, como direttore intermediario, sou responsável pela segurança e bem-estar de todos os que participam deste conclave. O que está havendo aqui?
- A situação está sob controle.
- Não parece.
- Padre - interrompeu Langdon, tirando do bolso o fax amassado e estendendo-o para o camerlengo -, por favor.
O comandante Olivetti adiantou-se, tentando intervir.
- Padre, por favor, não perturbe seus pensamentos com...
O camerlengo pegou o fax, ignorando Olivetti por alguns momentos. Olhou a imagem de Leonardo Vetra morto e prendeu a respiração, estupefato.
- O que é isto?
- É meu pai - disse Vittoria, a voz trêmula. - Era um padre e um homem de ciência. Foi assassinado na noite passada.
O rosto do camerlengo suavizou-se no mesmo instante. Levantou os olhos para ela.
- Minha filha, sinto muito. - Fez o sinal da cruz e olhou de novo para o fax, sua expressão revelando ondas sucessivas de repulsa. - Quem faria.., e essa queimadura no... - o camerlengo parou de falar, apertando os olhos para enxergar a imagem mais de perto.
- Está escrito liluminati - disse Langdon. - O senhor decerto conhece o nome.
Uma estranha sombra passou pelo rosto do camerlengo.
- Já ouvi o nome, sim, mas...
- Os liluminati mataram Leonardo Vetra para roubar uma nova tecnologia que ele estava...
- Signore - aparteou Olivetti. - Isso é um absurdo. Os Illuminati? É evidente que se trata de alguma fraude sofisticada.
O camerlengo pareceu ponderar as palavras do comandante. Depois, virou- se e contemplou Langdon com tanta intensidade que ele sentiu o ar lhe fugir dos pulmões.
- Senhor Langdon, passei toda a minha vida na Igreja Católica. Conheço bem as histórias dos Illuminati e a lenda das marcações a fogo. Ainda assim, devo preveni-lo de que sou um homem do presente. O cristianismo já tem inimigos demais, não precisamos ressuscitar os fantasmas.
- O símbolo é autêntico - afirmou Langdon, de modo um pouco mais defensivo do que pensou. Inclinou-se para a mesa e girou o papel.
O camerlengo ficou calado quando viu a simetria.
- Nem os computadores modernos - acrescentou Langdon - conseguiram criar um ambigrama simétrico dessa palavra.
O camerlengo cruzou as mãos e não disse nada por alguns instantes.
- Os Illuminati estão mortos - disse finalmente. - Há muito tempo. É fato histórico.
Langdon assentiu.
- Ontem, eu teria concordado com o senhor.
- Ontem?
- Antes da série de acontecimentos de hoje. Acredito que os Illuminati tenham ressurgido para cumprir um antigo pacto.
- Perdoe-me, meus conhecimentos de história estão enferrujados. Que antigo pacto é esse?
Langdon respirou fundo.
- A destruição da Cidade do Vaticano.
- A destruição do Vaticano? - o camerlengo estava mais confuso do que assustado. - Mas isto seria impossível.
Vittoria sacudiu a cabeça.
- Sinto muito, mas ainda não acabamos de lhe dar as más notícias.
CAPÍTULO 40
- Isso é verdade? - indagou o camerlengo, olhando espantado de Vittoria para Olivetti.
- Signore - garantiu Olivetti -, admito que haja um certo dispositivo aqui no Vaticano. Está visível em um de nossos monitores de segurança, mas, quanto ao poder que a senhorita Vetra afirma que essa substância tem, não posso de maneira alguma...
- Espere aí - disse o camerlengo. - Vocês conseguem ver essa coisa?
- Sim, signore. Na câmera sem fio 86.
- E por que não foram buscá-la? - o camerlengo agora falava zangado.
- Muito dificil, signore - Olivetti explicou a situação, muito empinado.
O camerlengo escutava e Vittoria notou a sua preocupação crescente.
- Tem certeza de que está dentro do Vaticano? - perguntou ele. - Alguém pode ter levado a câmera para fora e estar transmitindo de outro lugar.
- Impossível - disse Olivetti. - Nossos muros externos são blindados eletronicamente para proteger nossas comunicações internas. Esse sinal só pode estar vindo de dentro, ou não o estaríamos recebendo.
- E suponho - continuou o camerlengo - que vocês estejam procurando essa câmera perdida com todos os recursos disponíveis?
Olivetti sacudiu a cabeça.
- Não, signore. Localizar aquela câmera poderia levar centenas de homens- hora. Temos várias outras preocupações de segurança no momento e, com todo o respeito à senhorita Vetra, essa gotícula de que ela fala é muito pequena. Não pode ser tão explosiva quanto ela alega.
A paciência de Vittoria evaporou-se.
- Aquela gotícula é suficiente para arrasar a Cidade do Vaticano! Será que não escutou nenhuma palavra do que eu disse?
- Minha senhora - disse Olivetti, a voz dura como aço -, tenho vasta experiência em explosivos.
- Sua experiência está obsoleta - revidou ela, igualmente dura. - Apesar da minha roupa, que vejo que o senhor acha inconveniente, sou uma fisica de nível sênior na instituição de pesquisas subatômicas mais avançada do mundo. Fui eu quem projetou pessoalmente o recipiente da antimatéria que impede o aniquilamento imediato daquela amostra. E estou avisando ao senhor que, a menos que encontre aquele tubo nas próximas seis horas, seus guardas não terão nada para proteger no próximo século a não ser um grande buraco no chão.
Olivetti girou nos calcanhares e encarou o camerlengo, seus olhos de inseto fuzilando de raiva.
- Signore, não posso, em sã consciência, permitir que isto se prolongue. Seu tempo está sendo desperdiçado por impostores. Os Illuminati? Uma gotinha que vai destruir tudo?
- Basta - declarou o camerlengo. Pronunciou a palavra em voz baixa e no entanto ela pareceu ecoar pelo aposento. Depois, ficou em silêncio. E então continuou, em um sussurro. -Perigoso ou não, Illuminati ou não, o que quer que seja, este objeto não deveria estar dentro do Vaticano. Muito menos na véspera do conclave. Quero que seja encontrado e retirado daqui. Organize uma busca imediatamente.
Olivetti não desistiu.
- Signore, mesmo que utilizemos todos os guardas para fazer uma busca geral em todos os prédios, levaria dias para encontrarmos essa câmera. Além disso, depois de falar com a senhorita Vetra, mandei um dos meus guardas procurar em nosso mais avançado guia de balística qualquer referência a essa substância chamada antimatéria. E ele não encontrou nada, nem uma citação sequer. Nada.
Idiota arrogante, pensou Vittoria. Um guia de balística? Que tal uma enciclopédia? Na letra A!
Olivetti continuava falando.
- Signore, se está sugerindo uma busca a olho nu na Cidade do Vaticano inteira, então preciso protestar. - Comandante - a voz do camerlengo fervia de irritação. - Tenho de lembrar-lhe que, quando se dirige a mim, está se dirigindo a este cargo. Percebo que o senhor não está levando a sério a minha posição. Mesmo assim, pela lei, sou eu quem decide. Se não me engano, os cardeais encontram-se agora seguros dentro da Capela Sistina e as suas preocupações com a segurança são mínimas até o encerramento do conclave. Não compreendo por que reluta em procurar esse objeto. Se não o conhecesse, diria que está submetendo este conclave a um perigo internacional.
Olivetti respondeu com desdém.
- Como ousa! Servi seu Papa durante 12 anos! E o Papa antes dele durante 14 anos! Desde 1438, a Guarda Suíça...
O walkie-talkje no cinto de Qlivetti emitiu um chamado alto, interrompendo-o.
- Comandante?
Olivetti agarrou-o e apertou o botão do transmissor.
- Sto ocupato! Cosa voi?!!!
- Scusi - disse o guarda suíço ao rádio. - Aqui é do setor de Comunicações. Achei que o senhor gostaria de ser informado de que recebemos uma ameaça de bomba.
Olivetti não demonstrou qualquer interesse.
- Então, resolvam isso! Sigam os procedimentos de sempre e façam o relatório!
- Foi o que fizemos, senhor, mas o homem que ligou... - o guarda fez uma pausa. - Eu não queria incomodá-lo, comandante, mas ele mencionou a substância que o senhor me pediu para pesquisar. Antimatéria.
Todos na sala se entreolharam.
- Ele mencionou o quê? - gaguejou Olivetti.
- Antimatéria, senhor. Enquanto seguíamos a rotina, fiz mais umas pesquisas a respeito. As informações sobre a antimatéria são... bem, para falar a verdade, são bem preocupantes.
- Mas você disse que não havia nenhuma referência a ela no guia de balística.
- Encontrei referências na Internet.
Aleluia, pensou Vittoria.
- A substância parece ser bastante explosiva - disse o guarda. - É difícil de acreditar que esta informação é correta, mas aqui diz que a antimatéria carrega aproximadamente cem vezes mais carga útil do que uma ogiva nuclear.
Olivetti curvou os ombros. Era como assistir a uma montanha desmoronando. A sensação de triunfo de Vittoria dissipou-se ao ver a expressão de horror no rosto do camerlengo.
- Vocês rastrearam a chamada? - disse Olivetti, a voz trêmula.
- Não conseguimos. Veio de um celular criptografado. As linhas estão embaralhadas, portanto a triangulação é impossível. A assinatura digital indica que ele está em algum ponto de Roma, mas não há realmente nenhuma forma de rastreá-lo.
- Ele fez alguma exigência? - disse Olivetti, em voz baixa.
- Não, senhor. Só avisou que há antimatéria escondida dentro dos prédios do Vaticano. Pareceu surpreso por não sabermos. Perguntou se eu ainda não a tinha visto, O senhor perguntou sobre a antimatéria, por isso decidi comunicar-lhe.
- Fez muito bem - disse Olivetti. - Vou descer em um minuto. Avise imediatamente se ele ligar de novo.
Houve um momento de silêncio no walkie-talkie.
- A pessoa ainda está na linha, senhor.
Olivetti ficou com a aparência de alguém que acabou de ser eletrocutado.
- O quê? A linha está aberta?
- Sim, senhor. Faz dez minutos que estamos tentando rastreá-la sem conseguir. Ele deve saber que não podemos encontrá-lo porque se recusa a desligar enquanto não falar com o camerlengo.
- Transfira a ligação para cá - ordenou o camerlengo. - Agora!
Olivetti virou-se para ele.
- Padre, não. Um guarda suíço seria muito mais indicado como negociador para lidar com isso.
-Agora!
Olivetti deu a ordem.
Logo depois, o telefone na mesa do camerlengo Ventresca começou a tocar. O religioso apertou o botão do viva-voz.
- Quem, em nome de Deus, você pensa que é?
CAPÍTULO 41
A voz que emanava do aparelho na mesa do camerlengo era metálica e fria, com traços de arrogância. Todos na sala a escutavam.
Langdon tentou localizar o sotaque. Oriente Médio, talvez?
- Sou o mensageiro de uma antiga fraternidade - a voz anunciou, com uma cadência estrangeira. – Uma fraternidade que vocês ultrajaram durante séculos. Sou um mensageiro dos Illuminati.
Langdon sentiu seus músculos se retesarem, os últimos vestígios de dúvida se esvaírem. Por um segundo experimentou a mistura conhecida de emoção, privilégio e medo mortal que tomara conta dele naquela manhã ao ver o ambigrama pela primeira vez.
- O que você quer? - perguntou o camerlengo.
- Represento os homens de ciência. Homens que, como vocês, procuram respostas. Respostas sobre o destino do homem, seu propósito, seu criador.
- Quem quer que você seja - disse o camerlengo - eu...
- Silenzio. É melhor escutar. Durante dois milênios, sua igreja dominou a busca da verdade. Vocês esmagaram seus oponentes com mentiras e profecias de condenação. Manipularam a verdade para servir às suas necessidades, matando aqueles cujas descobertas não prestavam serviço às suas políticas. Estão espantados por serem alvo de homens esclarecidos de todo o mundo?
- Homens esclarecidos não recorrem a chantagem para promover suas causas.
- Chantagem? - o homem riu. - Isto não é chantagem. Não temos exigências a fazer. A extinção do Vaticano não é negociável. Esperamos 400 anos por este dia. À meia-noite sua cidade será destruída. Não há nada que possam fazer.
Olivetti vociferou para o aparelho:
- É impossível ter acesso a esta cidade! Vocês não podem de modo algum ter plantado explosivos aqui!
- Você fala com a devoção ignorante de um guarda suíço. Talvez seja até um oficial. Com certeza, deve saber que, durante séculos, os Illuminati se infiltraram em organizações de elite do mundo inteiro. Acha que só o Vaticano iria ficar imune a isto?
Jesus, pensou Langdon, eles têm gente aqui dentro. Não era nenhum mistério a tática da infiltração ser a marca registrada do poder dos Iliuminati. Haviam- se infiltrado entre os maçons, nas grandes redes de bancos, organismos dos governos. Churchill, certa vez, chegara a dizer a jornalistas que, se os espiões ingleses tivessem se infiltrado entre os nazistas da mesma forma que os Iliuminati tinham se infiltrado no Parlamento inglês, a guerra teria terminado em um mês.
- Um blefe mais do que evidente - disse Olivetti, áspero. - Não é possível que a sua influência se estenda tanto assim.
- Por quê? Porque seus guardas suíços estão vigilantes? Porque eles tomam conta de cada pedacinho de seu mundo particular? E que tal os próprios guardas suíços? Não são homens? Acredita mesmo que arriscariam suas vidas pela fábula de um homem que anda sobre a água? Pergunte a si mesmo de que outra maneira a antimatéria poderia ter entrado em sua cidade. Ou como quatro de seus mais preciosos ativos poderiam ter desaparecido esta tarde.
- Nossos ativos? - Olivetti franziu o cenho. - O que quer dizer com isso?
- Um, dois, três, quatro. Até agora não deram falta deles?
- De que diabos está falan... - Olivetti parou de falar, os olhos arregalados como se tivesse levado um soco no estômago.
- A luz se faz - disse o homem. - Quer que eu diga os nomes?
- O que está havendo? - perguntou o camerlengo atordoado.
O homem deu uma risada.
- Seu oficial ainda não lhe informou? Que pecado! Não me surpreende com tanta vaidade. Imagine a desmoralização, contar a verdade, que quatro cardeais que ele jurou proteger desapareceram...
Olivetti explodiu.
- Onde conseguiu essa informação?
- Camerlengo - tripudiou o homem -, pergunte ao seu comandante se todos os cardeais estão presentes na Capela Sistina.
O camerlengo voltou-se para Olivetti, os olhos verdes exigindo uma explicação.
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- Signore - Olivetti sussurrou no ouvido do camerlengo -, é verdade que quatro de nossos cardeais ainda não se apresentaram na Capela Sistina, mas não há motivo para alarme. Todos eles tiveram a entrada registrada no edifício residencial esta manhã, portanto sabemos que estão em segurança dentro da Cidade do Vaticano. O senhor mesmo tomou chá com eles há poucas horas. Devem ter apenas se atrasado para a reunião que precede o conclave. Estamos procurando, mas tenho certeza de que somente perderam a hora e ainda estão por aí apreciando as belezas do lugar.
- Apreciando as belezas do lugar? - A calma abandonou a voz do camerlengo. - Eles deveriam estar na capela há mais de uma hora!
Langdon olhou assombrado para Vittoria. Cardeais desaparecidos? Então eram eles que estavam sendo procurados lá embaixo?
- Eis nossa lista - disse o homem -, que vocês vão achar bem convincente. Há o cardeal Lamassé, de Paris, o cardeal Guidera, de Barcelona, o cardeal Ebner, de Frankfurt...
Olivetti parecia encolher um pouco a cada nome citado.
O homem fez uma pausa, como se saboreasse com prazer especial o último nome.
- E, da Itália..., o cardeal Baggia.
O camerlengo bambeou, como um alto veleiro cujas velas acabassem de perder o vento em uma calmaria.
Sua batina ondulou e ele se deixou cair em sua cadeira.
- 1 preferiti - murmurou. - Os quatro favoritos.., inclusive Baggia, o mais provável sucessor do Sumo Pontífice... Como é possível?
Langdon já lera bastante sobre as modernas eleições papais e compreendia o desespero no rosto do camerlengo. Embora tecnicamente todo cardeal com menos de oitenta anos pudesse tornar-se Papa, apenas uns poucos possuíam a capacidade necessária de infundir respeito para obter uma maioria de dois terços no processo de votação intensamente partidário. Eram conhecidos como os preferiti. E todos haviam sumido.
O suor escorria na testa do camerlengo.
- O que pretende com esses homens?
- O que acha que pretendo? Sou descendente dos Hassassin.
Langdon sentiu um calafrio. Conhecia bem aquele nome. A Igreja fizera alguns inimigos mortais através dos anos - os Hassassin, os Cavaleiros Templários, exércitos que haviam sido perseguidos ou traídos pelo Vaticano.
- Liberte os cardeais - disse o camerlengo. - Já não basta a ameaça de destruir a cidade de Deus?
- Esqueça seus quatro cardeais. Eles já estão perdidos para você. Mas fique certo de que suas mortes serão lembradas por milhões de pessoas. É o sonho de todo mártir. Farei deles luminares da mídia. Um a um. Até a meia-noite, os Iliuminati vão atrair a atenção de todos. Para que mudar o mundo se o mundo não estiver assistindo? Os assassinatos públicos têm um certo horror inebriante, não é verdade? Vocês provaram isto há muito tempo com a Inquisição, a tortura dos Templários, as Cruzadas. - Ele fez uma pausa.
- E, é claro, la purga.
O camerlengo ficou calado.
- Não se lembra de la purga? - perguntou o homem. - Claro que não, você é uma criança. Os padres não são bons historiadores. Talvez porque sua história os envergonhe?
- La purga - Langdon ouviu-se dizer. - 1668. A Igreja marcou a fogo quatro cientistas illuminati com o símbolo da cruz. Para purgar seus pecados.
- Quem está falando? - perguntou a voz, num tom mais intrigado do que preocupado. -Quem está aí?
Langdon estremeceu.
- Meu nome não é importante - disse ele, tentando manter sua voz firme. Falar com um liluminati vivo desorientava-o. Tanto quanto se estivesse falando com George Washington. - Sou um acadêmico que estudou a história de sua fraternidade.
- Excelente - replicou a voz. - Estou satisfeito por saber que ainda há gente que conhece os crimes que foram cometidos contra nós.
- A maioria dos estudiosos pensa que vocês morreram todos.
- Um equívoco que a fraternidade trabalhou muito para promover. O que mais sabe sobre la purga?
Langdon hesitou. O que mais eu sei? Que esta situação é insana, é o que sei!
- Depois de serem marcados a fogo, os cientistas foram assassinados e seus corpos foram deixados em locais públicos em torno de Roma como advertência a outros cientistas para que não se juntassem aos Illuminati.
- Sim, é isso. Portanto, vamos fazer o mesmo. Quid pro quo. Considerem o gesto como represália por nossos irmãos assassinados. Seus quatro cardeais vão morrer, um a cada hora, começando às oito. À meia-noite teremos a atenção do mundo inteiro.
Langdon foi para perto do fone.
- Vocês pretendem mesmo marcar a fogo e matar esses quatro homens?
- A história se repete, não é? Claro que vamos ser mais elegantes e audaciosos do que a Igreja foi. Eles mataram em particular, abandonando os corpos quando ninguém estava olhando. Uma atitude tão covarde!
- O que está dizendo? Que vai marcar e matar esses homens em público?
- Muito bem! Embora isso dependa do que você considera público. Noto que não há mais tanta gente assim indo à igreja.
Langdon arriscou mais uma vez.
- Vai matá-los dentro de igrejas?
- Um gesto de bondade. Permitir que Deus convoque as suas almas ao Paraíso com maior presteza. Nada mais justo. Evidentemente, a imprensa também vai adorar, penso eu.
- Você está blefando - disse Olivetti, a frieza de volta na voz. - Não pode matar um homem dentro de uma igreja e achar que pode escapar impune.
- Blefando? Nós nos movimentamos entre os seus guardas suíços como se fôssemos fantasmas, tiramos quatro de seus cardeais de dentro de suas paredes, plantamos um explosivo mortal no meio de seu santuário mais sagrado e você acha que estou blefando? À medida que as mortes se sucederem e as vítimas forem encontradas, todos os meios de comunicação vão acorrer como um verdadeiro enxame para cá. À meia-noite o mundo vai tomar conhecimento da causa dos Illuminati.
- E se colocarmos guardas em cada igreja? - disse Olivetti.
O homem riu.
- Receio que a natureza prolífica de sua religião torne essa tarefa difícil. Tem feito contas ultimamente? Há mais de quatrocentas igrejas católicas em Roma. Catedrais, capelas, tabernáculos, abadias, monastérios, conventos, escolas paroquiais...
O rosto de Olivetti continuou impassível.
- Em noventa minutos, vou começar - disse o homem, conclusivo. - Um por hora. Em uma progressão matemática e mortal. Agora, preciso ir.
- Espere! - pediu Langdon. - Fale-me das marcas que pretende usar nesses homens.
O matador pareceu divertir-se.
- Desconfio que já saiba quais serão as marcas. Ou será que você é um cético? Vai vê-las logo, logo. Vão provar que as lendas antigas são verdade.
A cabeça de Langdon girou. Sabia exatamente o que o outro estava dizendo. Lembrou a marca no peito de Leonardo Vetra. O folclore dos Iliuminati mencionava cinco marcas ao todo. Restam quatro marcas e faltam quatro cardeais.
- Fiz o juramento - disse o camerlengo - de eleger um novo Papa esta noite. Jurei a Deus.
- Camerlengo - disse o homem -, o mundo não precisa de um novo Papa. Depois da meia-noite ele terá apenas um monte de entulho para governar. A Igreja Católica está acabada. Seu reino na Terra terminou.
Fez-se um silêncio pesado.
O camerlengo parecia sinceramente triste.
-Você está enganado. Uma igreja é muito mais do que pedra e cimento. Não pode simplesmente apagar dois mil anos de fé, de qualquer fé, seja ela qual for. Não pode destruir a fé apenas removendo suas manifestações terrenas. A Igreja Católica vai continuar com ou sem a Cidade do Vaticano.
- Uma nobre mentira. Mas ainda assim uma mentira. Ambos sabemos qual é a verdade. Diga, por que o Vaticano é uma cidade murada?
- Os homens de Deus vivem em um mundo perigoso - disse o camerlengo.
- Quantos anos você tem? O Vaticano é uma fortaleza porque a Igreja Católica mantém metade de seu patrimônio dentro desses muros - pinturas e esculturas raras, jóias de valor incalculável, livros preciosos... e ouro em barras e títulos imobiliários nos cofres do Banco do Vaticano. Estima-se que o valor bruto da Cidade do Vaticano seja de 48,5 bilhões de dólares. Um pé-de-meia bastante razoável. Amanhã, será um monte de pó. Ativos liquidados, para dizer a verdade. Vocês estarão falidos. Nem os homens do clero podem trabalhar de graça.
A exatidão das afirmativas refletia-se na expressão de Olivetti e do camerlengo, a de pessoas em estado de choque. Langdon não sabia o que era mais impressionante: a Igreja Católica ter todo aquele dinheiro ou os Illuminati terem conhecimento dele.
O camerlengo suspirou pesadamente.
- É a fé, não o dinheiro, que constitui a espinha dorsal da Igreja.
- Mais mentiras - disse o homem. - No ano passado, vocês gastaram 183 milhões de dólares tentando apoiar suas dioceses em dificuldades pelo mundo afora. O comparecimento às igrejas teve a maior queda de todos os tempos - menos 46 por cento na última década. As doações caíram à metade do que eram há apenas sete anos. Cada vez menos homens entram para os seminários. Embora vocês não admitam, sua igreja está morrendo. Considerem isto como uma chance de acabar bem.
Olivetti deu um passo à frente. Mostrava-se menos combativo agora, como se tomasse consciência da realidade a enfrentar. Era um homem procurando uma saída. Qualquer uma.
- E se um pouco daquele ouro passasse a financiar a sua causa?
- Não nos insulte a ambos.
- Temos dinheiro.
- Nós também. Mais do que pode calcular.
Em um lampejo, Langdon relembrou as supostas fortunas dos Illuminati, as antigas riquezas dos pedreiros
bávaros, os Rothschilds, os Bilderbergers, o lendário diamante Iliuminati.
- 1 preferiti - disse o camerlengo, mudando de assunto. Sua voz suplicava.
- Poupe-os. São velhos. Eles...
- Serão sacrificios de virgens - o homem riu. - Diga, acredita mesmo que eles sejam virgens? Será que os carneirinhos vão balir ao morrer? Sacrifici vergini nell'altare di scienza.
O camerlengo ficou em silêncio um longo tempo.
- São homens de fé - disse afinal. - Não temem a morte.
O homem escarneceu.
- Leonardo Vetra era um homem de fé e contudo vi medo em seus olhos na noite passada. Um medo que eliminei.
Vittoria, até então calada, de repente deu um salto, o corpo retesado de ódio, e exclamou.
- Assassino! Ele era meu pai!
Uma gargalhada ecoou do outro lado do telefone.
- Seu pai? Que história é essa? Vetra tinha uma filha? Você tem de saber que seu pai choramingou como uma criança no final. De dar pena, realmente. Um homem patético.
Vittoria cambaleou como se tivesse sido agredida fisicamente pelas palavras dele. Langdon correu para ampará-la, mas ela recuperou o equilíbrio e fixou os olhos escuros no aparelho.
- Juro pela minha vida que antes que esta noite acabe vou encontrar você.
- A voz dela saiu cortante como um laser. - E quando isto acontecer...
O homem riu de modo grosseiro.
- Uma mulher de fibra. Estou excitado. Talvez, antes que esta noite acabe, eu encontre você. E quando isto acontecer...
As palavras pairaram como uma lâmina no ar. Ele se fora.
CAPÍTULO 42
O cardeal Mortati agora suava dentro de sua batina preta. Não só a Capela Sistina começava a se parecer com uma sauna, como o conclave estava programado para começar daí a 20 minutos e ainda não se tinha notícia dos quatro cardeais que faltavam.
Com a ausência deles, os iniciais cochichos de perplexidade dos outros cardeais haviam se transformado em ansiedade declarada.
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Mortati não podia imaginar onde estariam os ausentes. Com o camerlengo, quem sabe? Sabia que o camerlengo realizara o tradicional chá particular para os quatro preferiti mais cedo naquela tarde, mas aquilo fora horas atrás. Será que estavam passando mal? Com algo que tivessem comido? Mortati duvidava. Mesmo à beira da morte, os preferiti estariam ali. Só uma vez na vida, geralmente nunca, um cardeal tinha a oportunidade de ser eleito Sumo Pontífice e, pela Lei Vaticana, esse cardeal tinha de estar dentro da Capela Sistina quando a votação se realizasse. Caso contrário, ele seria inelegível.
Apesar de haver quatro preferiti, poucos cardeais tinham qualquer dúvida sobre quem seria o próximo Papa. Nos últimos 15 dias, inúmeros faxes e telefonemas haviam sido trocados para discutir os candidatos em potencial. Como era o costume, quatro nomes haviam sido selecionados como preferiti, cada um deles preenchendo os requisitos tácitos para se tornar Papa: fluente em italiano, espanhol e inglês; sem qualquer mancha em seu passado; ter entre 65 e 80 anos de idade.
Como sempre, um dos preferiti destacara-se como o homem que o Colégio se propunha a eleger. Naquela noite, tratava-se do cardeal Aldo Baggia, de Milão. O histórico impecável de Baggia, combinado com excepcionais habilidades lingüísticas e a capacidade de transmitir a essência da espiritualidade, haviam feito dele o indiscutível favorito.
E onde será que ele se meteu?, cismava Mortati.
Mortati estava particularmente irritado com os cardeais faltosos porque a tarefa de supervisionar o conclave coubera a ele. Uma semana antes, o Colégio dos Cardeais escolhera unanimemente Mortati para o cargo conhecido como O Grande Eleitor, o mestre-de-cerimônias interno do conclave. Ainda que o camerlengo fosse o funcionário mais graduado da Igreja, era apenas um padre e pouco familiarizado com o complexo processo eleitoral, de modo que um cardeal era selecionado para dirigir a cerimônia de dentro da Capela Sistina.
Os cardeais costumavam brincar que ser indicado como Grande Eleitor era a honra mais cruel da cristandade. A indicação tornava a pessoa inelegível, além de exigir que passasse muitos dias antes do conclave debruçada sobre as páginas do Universi Dominici Gregis reestudando as sutilezas dos misteriosos rituais do conclave para garantir que a eleição fosse administrada convenientemente.
Mortati não se ressentia por isso, todavia. Sabia que era a escolha lógica. Não só por ser o cardeal mais velho, como por ter sido confidente do último Papa, um fato que aumentava o apreço por sua pessoa. Embora ainda estivesse tecnicamente dentro da faixa etária legal para a eleição, já estava um pouco velho para ser um candidato de peso. Com 79 anos, já ultrapassara o limiar não expresso em palavras além do qual o Colégio não mais confiava na saúde da pessoa para agüentar a rigorosa programação do papado. Um Papa geralmente trabalhava 14 horas por dia, sete dias por semana e morria de exaustão em uma média de 6,3 anos.
A piada que circulava internamente dizia que aceitar o papado era "o caminho mais curto para o Céu" para um cardeal.
Mortati, muitos acreditavam, poderia ter sido Papa quando mais moço se não fosse tão liberal. Quando se tratava de alcançar o papado, havia uma Santíssima Trindade a considerar: Conservadorismo, Conservadorismo e Conservadorismo.
Mortati sempre se divertira muito com a ironia de o último Papa - que Deus guardasse a sua alma - ter-se revelado surpreendentemente liberal assim que assumiu o cargo. Talvez por perceber que o mundo moderno progredia afastando-se da Igreja, o Papa promovera aberturas, suavizando a posição da Igreja com relação às ciências e até fazendo doações em dinheiro para causas científicas selecionadas.
Lamentavelmente, aquilo acabara se constituindo em suicídio político. Os católicos conservadores declararam que o Papa estava "senil" e os puristas científicos acusaram-no de tentar disseminar a influência da Igreja onde não era chamado.
- Então, onde estão eles?
Mortati virou-se.
Um dos cardeais batia nervosamente no ombro dele.
- Sabe onde eles estão, não sabe?
Mortati procurou não demonstrar muita preocupação.
- Talvez ainda com o camerlengo.
- A esta hora? Isto estaria altamente em desacordo com as regras! - O rosto do cardeal ensombreceu-se, desconfiado. - Talvez o camerlengo tenha perdido a noção da hora?
Mortati duvidava muito disso, mas nada disse. Estava bem consciente de que a maioria dos cardeais não simpatizava muito com o camerlengo, achando-o muito moço para servir ao Papa tão de perto. Mortati suspeitava de que grande parte dessa animosidade fosse de fato causada por ciúme, e ele próprio admirava muito o jovem padre, tendo aplaudido em segredo o gesto do último Papa quando este o escolhera para seu camarista. Mortati só via convicção nos olhos do camerlengo e, ao contrário de muitos cardeais, o camerlengo colocava a Igreja e a fé antes da política trivial. Ele era verdadeiramente um homem de Deus.
Durante todo o tempo em que desempenhou suas funções, a inabalável devoção do camerlengo tornara-se lendária. Muitos a atribuíam a um aconte cimento milagroso na sua infância, que teria deixado uma impressão permanente no coração de qualquer pessoa. O milagre e a sensação do maravilhoso, pensou Mortati, que algumas vezes desejara que sua infância lhe tivesse proporcionado um acontecimento capaz de despertar uma fé sem dúvidas como aquela.
Infelizmente para a Igreja, Mortati sabia, o camerlengo nunca se tornaria Papa quando fosse mais maduro.
Chegar ao papado requeria uma certa quantidade de ambição política, algo que parecia faltar ao jovem padre. Ele recusara várias ofertas do Papa para ocupar posições mais elevadas, dizendo que preferia servir à Igreja como um simples homem.
- E então? - o cardeal bateu no ombro de Mortati, esperando.
Mortati ergueu os olhos para ele.
- Como assim?
- Eles estão atrasados! O que vamos fazer?
- O que podemos fazer? - retrucou Mortati. - Esperar. E ter fé.
Nem um pouco satisfeito com a resposta de Mortati, o cardeal desapareceu nas sombras outra vez.
Mortati ficou parado um momento, dando pancadinhas nas têmporas e tentando clarear sua mente.
De fato, o que vamos fazer? Olhou, além do altar, para o afresco restaurado de Michelangelo, O Último Julgamento. A pintura não acalmou sua ansiedade. Era uma apavorante representação de mais de 15 metros de altura de Jesus Cristo separando a humanidade entre virtuosos e pecadores, e lançando os pecadores no inferno. Havia carne viva exposta, corpos queimando e até um dos rivais de Michelangelo usando orelhas de burro sentado no inferno. Guy de Maupassant escrevera certa vez que aquela pintura parecia ter sido criada para uma barraca de lutas de parque de diversões por um carvoeiro ignorante.
O cardeal Mortati tinha de concordar.
CAPÍTULO 43
Langdon ficou parado, imóvel,diante da janela à prova de bala do escritório do Papa, olhando para baixo, para o alvoroço dos trailers da imprensa na Praça de São Pedro. A sinistra conversa telefônica o deixara confuso, aturdido. Não parecia ele mesmo.
Os Tiluminati, como uma serpente saída das profundezas esquecidas da História, haviam surgido e se enrolado em torno de um antigo adversário. Nenhuma exigência. Sem negociações. Só retaliação.
Demoniacamente simples. Exercendo pressão. Uma vingança preparada durante 400 anos. Ao que parecia, depois de séculos de perseguição, a ciência revidava.
O camerlengo estava de pé diante da escrivaninha, olhando para o telefone com um ar parado. Olivetti foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Carlo - disse, usando o primeiro nome do camerlengo e parecendo mais um amigo fatigado do que um oficial. - Há 26 anos, jurei dar a minha vida para proteger esta função. Acho que hoje perdi minha honra.
O camerlengo balançou a cabeça.
- Você e eu servimos a Deus de formas diferentes, mas este serviço sempre traz honra.
- Estes acontecimentos... não posso imaginar como... esta situação...
Olivetti estava arrasado.
- Temos somente uma atitude possível a tomar. Sou responsável pela segurança do Colégio dos Cardeais.
- Acho que esta responsabilidade era minha, signore.
- Então, seus homens vão cuidar da evacuação imediata.
- Signore?
- Mais tarde podemos nos ocupar das outras opções, como procurar o aparelho, promover a busca dos cardeais desaparecidos e de seus captores. Mas, primeiro, os cardeais devem ser levados para um local seguro. A santidade da vida humana está acima de tudo. Esses homens são a base desta Igreja.
- O senhor está sugerindo que cancelemos o conclave de imediato?
- Que outra escolha tenho?
- E quanto à sua tarefa de fazer eleger um novo Papa?
O camarista suspirou e voltou-se para a janela, o olhar se desviando para Roma, que se estendia lá embaixo.
- Sua Santidade me disse certa vez que o Papa é um homem dividido entre dois mundos, o mundo verdadeiro e o divino. E que a igreja que ignorasse a realidade não sobreviveria para desfrutar do divino. - Sua voz soava de repente mais madura do que a de alguém de sua idade. - O mundo real está diante de nós esta noite. Seria uma ilusão ignorá-lo. Orgulho e precedência não podem obscurecer a razão.
Olivetti concordou com um gesto de cabeça, impressionado.
- Eu o subestimei, senhor.
O camerlengo não pareceu ouvir. Seu olhar estava distante, voltado para a janela.
- Vou falar abertamente, signore. O mundo real é o meu mundo. Mergulho todos os dias em sua feiúra para que outros fiquem livres dessa incumbência e possam buscar algo mais puro. Permita que o aconselhe na presente situação. É para isso que sou treinado. Seu instinto, cujo valor ainda assim reconheço, pode ter conseqüências desastrosas.
O camerlengo voltou-se para ele.
Olivetti suspirou.
- Tirar o Colégio dos Cardeais da Capela Sistina é a pior coisa que se poderia fazer neste momento.
O camerlengo não se mostrou indignado com a sugestão, apenas desnorteado.
- O que sugere, então?
- Não diga nada aos cardeais. Sele o conclave. Vai nos dar tempo para tentar outras alternativas.
O camerlengo ficou perturbado.
- Está sugerindo que eu tranque o Colégio dos Cardeais inteiro em cima de uma bomba-relógio?
- Sim, signore. Por ora. Mais tarde, se for necessário, podemos providenciar a evacuação.
O camerlengo sacudiu a cabeça.
- Adiar a cerimônia antes que comece já é razão suficiente para um inquérito, mas depois que as portas são lacradas, nada mais pode interferir com o processo. Os procedimentos do conclave exigem...
- O mundo real, signore. O senhor está nele esta noite. Preste atenção. - Olivetti falava agora com a animação de um oficial de campo. - Deslocar 165 cardeais despreparados e desprotegidos para Roma seria uma imprudência. Causaria pânico e confusão em alguns homens muito idosos e, francamente, um derrame fatal este mês já foi o bastante.