Anjos e Demônios
Enquanto contemplava o monolito, porém, sua atenção…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Obrigando os olhos a traçarem a linha bem devagar, ele reiniciou a busca. Sabia que nem todas as igrejas teriam flechas visíveis, principalmente as menores e mais afastadas. Sem falar que Roma mudara muito desde o século XVII, quando as igrejas eram por lei as construções mais altas. Agora, havia edificios de apartamentos, prédios altíssimos, torres de TV.
Pela segunda vez, o olhar de Langdon alcançou o horizonte sem distinguir nada. Nem uma única flecha.
Ao longe, nos limites de Roma, o colossal domo de Michelangelo encobria o pôr-do-sol. A Basílica de São Pedro. A Cidade do Vaticano. Langdon deu por si imaginando como os cardeais estariam se saindo, se a Guarda Suíça já teria encontrado a antimatéria. Algo lhe dizia que ainda não tinham encontrado nada e que não iriam encontrar.
O poema ecoava de novo em sua cabeça. Ele o analisou com cuidado, verso por verso. Da tumba terrena de San ti com a cova do demônio. Já tinham encontrado a tumba de Santi. Através de Roma se estendem os místicos elementos. Os místicos elementos eram Terra, Ar, Fogo e Água. O caminho da luz está preparado, o teste sagrado. O Caminho da Iluminação formado pelas esculturas de Bernini. Que os anjos o guiem em sua busca sublime.
E o anjo apontava para sudoeste...
CAPÍTULO 72
- As escadas da frente! - Glick exclamou, apontando freneticamente através do pára-brisa do furgão da BBC. - Alguma coisa está acontecendo!
Chinita voltou sua câmera para a entrada principal. Alguma coisa sem dúvida estava acontecendo. O homem de aparência militar estacionara um dos Alpha-Romeos ao do pé da escadaria e abrira a mala do carro. Agora, estava correndo os olhos pela praça para verificar se havia alguém observando. Por um segundo, Macri achou que o homem os localizara, mas os olhos continuaram o exame. Aparentemente satisfeito, ele pegou um walkie-talkie e falou no aparelho.
Quase no mesmo instante, foi como se um exército saísse de dentro da igreja. Tal qual um time de futebol americano se organizando, os soldados formaram uma linha reta no alto da escada. Movendo-se como uma parede humana, começaram a descer. Atrás deles, quase completamente ocultos pela parede, quatro soldados carregavam um volume. Pesado. Desajeitado.
Glick inclinou-se mais para perto do pára-brisa.
- Será que estão roubando alguma coisa da igreja?
Chinita aproximou mais ainda a imagem de sua câmera, usando a teleobjetiva para sondar a barreira humana e tentar achar uma abertura. Uma fração de segundo, pediu ela. Uma enquadrada. Basta uma, só preciso de uma. Mas os homens deslocavam-se em bloco. Vamos lá! Ela acompanhou-os e valeu a pena. Quando os soldados tentaram levantar o objeto para colocá-lo na mala do carro, Macri conseguiu a brecha. Por ironia, foi o chefe quem cometeu o erro. Apenas por um instante, mas pelo tempo suficiente, ela conseguiu o enquadramento. Na realidade, conseguiu mais do que isso, conseguiu registrar bem a imagem.
- Ligue para a redação - disse Chinita. - Temos um cadáver aqui.
Longe dali, no CERN, Maximilian Kohler manobrou sua cadeira de rodas dentro do escritório de Leonardo Vetra. Com eficiência mecânica, revistou os arquivos de Vetra. Sem ter encontrado o que buscava, Kohler passou para o quarto de dormir de Vetra. A gaveta de cima da mesa-de-cabeceira estava trancada. Kohler arrombou-a com uma faca da cozinha.
Dentro, achou exatamente o que estava procurando.
Langdon desceu do andaime para o chão. Limpou a poeira da roupa. Vittoria o esperava.
- E então, nada?
Ele fez que não com a cabeça.
- Puseram o cardeal na mala do carro.
Langdon olhou para o carro estacionado e viu Olivetti e um grupo de guardas com um mapa aberto sobre o capô.
- Estão procurando na direção sudoeste?
Ela concordou.
- Mas não há igrejas. Daqui, a primeira é São Pedro.
Langdon murmurou algo. Pelo menos, nisso eles estavam de acordo. Foi ao encontro de Olivetti. Os soldados afastaram-se para deixá-lo passar.
Olivetti dirigiu-se a ele.
- Nada. Mas este mapa não mostra todas as igrejas, só as grandes. Mais ou menos umas cinqüenta.
- Onde estamos? - perguntou Langdon.
Olivetti mostrou a Piazza del Popolo e traçou uma linha reta para sudoeste. A linha passava longe, e bem longe, do agrupamento de quadrados escuros que indicavam a posição das maiores igrejas de Roma.
Lamentavelmente, as grandes igrejas de Roma também eram as mais antigas que teriam existido no século XVII.
- Tenho de resolver algumas coisas - disse Olivetti. - Tem certeza mesmo de que a direção é essa?
Langdon lembrou do dedo estendido do anjo e uma sensação de urgência tomou conta dele outra vez.
- Sim, senhor, absoluta.
Olivetti deu de ombros e traçou a linha reta outra vez. O caminho cruzava a Ponte Margherita, a Via Cola di Riezo e passava pela Piazza dei Risorgimento sem encontrar qualquer igreja até terminar abruptamente no centro da Praça de São Pedro.
- Por que não pode ser São Pedro? - perguntou um dos soldados. Ele tinha uma cicatriz profunda sob o olho esquerdo. - É uma igreja.
Langdon sacudiu a cabeça.
- Tem de ser um lugar público. Neste momento, não é nada público.
- Mas a linha atravessa a Praça de São Pedro - acrescentou Vittoria, olhando por cima do ombro de Langdon -, e a praça é pública.
Langdon já considerara aquela possibilidade.
- Mas não há estátuas lá.
- Não há um monumento de pedra no centro?
Ela estava certa. Havia um monólito egípcio na Praça de São Pedro. Langdon olhou para o monólito diante deles na praça. Pirâmide elevada. Uma estranha coincidência, pensou ele. Mas deixou-a de lado.
- O monólito do Vaticano não é de Bernini. Foi levado para lá por Calígula. E não tem nada a ver com Ar. - Ainda havia outro problema. - Além disso, o poema diz que os elementos estão espalhados através de Roma. A Praça de São Pedro é na Cidade do Vaticano, não é em Roma.
- Depende do ponto de vista - aparteou um guarda.
Langdon encarou-o.
- O quê?
- Sempre foi um pomo de discórdia. A maioria dos mapas mostra a Praça de São Pedro como pertencendo à Cidade do Vaticano, mas, por ficar fora dos muros da cidade, há séculos que as autoridades romanas alegam que é parte de Roma.
- Está brincando - disse Langdon, que nunca soubera disso.
- Só mencionei o assunto - continuou o guarda - porque o comandante Olivetti e a senhorita Vetra estavam falando sobre uma escultura relacionada ao Ar.
Langdon arregalou os olhos.
- E você conhece uma na Praça de São Pedro?
- Mais ou menos. Não é bem uma escultura. Talvez nem seja relevante.
- Fale - Olivetti pressionou-o.
O homem fez um gesto com o ombro.
- Só sei disso porque em geral fico de sentinela na piazza. Conheço cada cantinho da Praça de São Pedro.
- A escultura - insistiu Langdon. - Como é? - Ele já considerava a possibilidade de os Iliuminati terem tido a audácia de instalar o segundo marco na frente da Basílica de São Pedro.
- Passo por ela todos os dias, a serviço - disse o guarda. - Fica no centro, direto para onde esta linha aponta. Foi o que me fez pensar nela. Como já disse, não se trata propriamente de uma escultura. É mais um bloco.
Olivetti, agitado, perguntou:
- Um bloco?
- Sim, senhor, um bloco de mármore no meio da praça. Na base do monólito. Mas o bloco não é um retângulo, é uma elipse. E tem gravado nele a imagem de um sopro de vento, ondulante.- Ele fez uma pausa. - De Ar, para usar a palavra mais científica.
Langdon, estupefato, tinha os olhos fixos no jovem soldado.
- Um relevo! - exclamou de repente.
Todos olharam para ele.
- Relevo - disse Langdon - é a outra modalidade de escultura! - Escultura é a arte de dar forma a figuras em redondo e também em relevo. Escrevera a definição em quadros-negros durante anos a fio. Os relevos eram essencialmente esculturas bidimensionais, como o perfil de Abraão Lincoin nas moedas norte-americanas de centavo. Os medalhões de Bernini na Capela Chigi eram outro exemplo perfeito.
- Bassorelevo? - perguntou o guarda, usando o termo artístico italiano.
- Isso! Baixo-relevo! - Langdon deu pancadinhas seguidas no capô do carro.
- Nem me ocorreu essa expressão! A pedra de que está falando se chama West Ponente- Vento Oeste. Também é conhecida como Respiro di Dio.
- Sopro de Deus?
- Isso! Ar! E foi esculpida e colocada lá pelo arquiteto original!
Vittoria não entendeu.
- Mas não foi Michelangelo que projetou São Pedro?
- Foi, a basílica! - exclamou Langdon, com triunfo na voz. - A praça foi projetada por Bernini!
Quando a caravana de Alpha Romeos saiu correndo da Piazza dei Popolo, todos estavam com tanta pressa que nem notaram o furgão da BBC arrancando atrás deles.
CAPÍTULO 73
Gunther Glick afundou o no acelerador do furgão da BBC e foi dando guinadas e se desviando do trânsito para seguir os quatro rápidos Alpha Romeos através do rio Tibre pela Ponte Margherita. Normalmente, Glick teria procurado manter uma distância que não chamasse a atenção, mas naquela hora ele mal conseguia acompanhá-los.
Os caras estavam voando.
Macri estava em seu local de trabalho dentro do furgão, acabando de falar ao telefone com Londres.
Quando desligou, gritou para ser ouvida por Glick em meio ao ruído do trânsito:
- Quer as boas ou as más notícias?
Glick fechou a cara. Nada jamais era simples quando se lidava com a sede.
-As más.
- Os editores ficaram furiosos porque abandonamos nosso posto.
- Grande surpresa.
- Eles também acham que o seu informante é um impostor.
- Claro.
- E o chefe acabou de me avisar que devem estar faltando uns parafusos na sua cabeça.
Glick ficou carrancudo.
- Beleza. E as boas notícias?
- Eles concordaram em dar uma espiada na fita que gravamos.
A carranca de Glick amenizou-se em um sorriso irônico. Então, vamos ver na cabeça de quem é que faltam parafusos.
- Então, despache logo essa coisa.
- Não posso transmitir enquanto não pararmos e eu tiver um sinal estável.
Glick entrou com o furgão a toda velocidade na Via Cola di Rienzo.
- Não dá para parar agora.
Foi atrás dos Alpha Romeos dando uma guinada violenta à esquerda para contornar a Piazza Risorgimento.
Macri agarrou seu equipamento lá atrás enquanto tudo deslizava.
- Se quebrar meu transmissor - avisou ela -, vamos ter de levar a fita a pé até Londres.
- Segure firme, meu bem. Algo me diz que estamos quase chegando.
-Onde?
Glick lançou um olhar para o conhecido domo que ia crescendo na frente deles. E deu um sorriso.
- Ao lugar de onde saímos.
Os quatro Alpha Romeos desviaram-se com agilidade do tráfego ao redor da Praça de São Pedro.
Separaram-se e espalharam-se contornando a piazza, enquanto deixavam homens discretamente em pontos escolhidos. Os guardas que desceram dos carros se misturaram à multidão de turistas e furgões da imprensa e logo ficaram invisíveis. Alguns deles se dirigiram para a floresta de colunas que rodeava a praça. Esses também pareceram evaporar-se nos arredores. Observando tudo através do vidro do carro, Langdon sentiu que um cerco se fechava em torno de São Pedro.
Além dos homens que acabara de despachar, Olivetti comunicara-se antes com o Vaticano e destacara mais guardas à paisana para o ponto central onde o West Ponente de Bernini estava localizado. Os amplos espaços abertos da praça trouxeram de volta à mente de Langdon a velha pergunta. Como o assassino Illuminati planeja se safar? Como vai passar com um cardeal por todas essas pessoas e matá-lo diante de todos? O seu relógio de Mickey Mouse marcava 8h54 da noite. Faltavam seis minutos.
Do banco da frente, Olivetti virou-se para Langdon e Vittoria.
- Quero vocês dois plantados bem em cima daquela placa de Bernini, ou bloco, ou seja lá o que for. O mesmo truque de antes. Fingindo que são turistas. Usem o telefone se virem alguma coisa.
Antes que Langdon pudesse responder, Vittoria agarrou a mão dele e puxou-o para fora do carro. O sol de primavera escondia-se por trás da Basílica de São Pedro e uma imensa sombra se espalhava, engolindo toda a praça. Langdon teve um mau pressentimento quando os dois penetraram na fria e negra penumbra. Infiltrando-se na multidão, Langdon examinava cada rosto pelo qual passavam, imaginando se o assassino estaria por perto. Sentia o calor da mão de Vittoria na sua.
Ao cruzarem o amplo espaço aberto da Praça de São Pedro, ele constatou como a praça produzia o efeito exato que o artista pretendera ao criá-la, o que lhe fora encomendado: o de despertar um sentimento de humildade em todos que nela entrassem" Langdon com certeza sentia-se mais humilde naquele momento.
Humilde e faminto, percebeu ele, espantado que uma idéia tão corriqueira lhe viesse à cabeça àquela altura dos acontecimentos.
- Para o obelisco? - perguntou Vittoria.
Langdon concordou, dirigindo-se para a esquerda através da praça.
- Que horas são? - perguntou Vittoria, andando em passo ligeiro mas descontraído.
- Faltam cinco.
Vittoria não disse nada, mas apertou com mais força a mão dele. Langdon ainda trazia o revólver no bolso.
Esperava que Vittoria não decidisse que precisava dele. Não conseguia imaginá-la sacando uma arma na Praça de São Pedro e explodindo os miolos de um assassino para toda a imprensa mundial assistir. Entretanto, um incidente desses não seria nada em comparação com um assassinato ali, em público, de um cardeal marcado a fogo.
Ar, pensou Langdon. O segundo elemento da ciência. Tentou imaginar como seria a marca. O método do assassinato. Mais uma vez, correu os olhos pelo pavimento de granito sob seus pés - a Praça de São Pedro, um descampado rodeado pela Guarda Suíça. Se o assassino realmente ousasse fazer aquilo, Langdon não sabia como ele poderia escapar.
No centro da piazza elevava-se o obelisco egípcio de Calígula, pesando 350 toneladas. Tinha 25 metros de altura até a ponta piramidal, encimada por uma cruz de aço vazada. Alta o suficiente para captar os últimos raios do sol, a cruz brilhava como se acesa por um passe de mágica, supostamente contendo relíquias da cruz em que Jesus fora crucificado.
Duas fontes ladeavam o obelisco em perfeita simetria. Os historiadores sabiam que as fontes assinalavam com precisão os focos da elipse da piazza de Bernini, mas constituíam uma singularidade arquitetural que Langdon até então não levara em conta. Parecia que Roma de repente estava cheia de elipses, pirâmides e elementos geométricos surpreendentes.
Ao se aproximarem do obelisco, Vittoria diminuiu o ritmo. Expeliu com força o ar dos pulmões, como se incentivasse seu companheiro a relaxar junto com ela. Langdon colaborou soltando os músculos dos ombros e afrouxando a tensão dos maxilares.
Em algum ponto em torno do obelisco, audaciosamente colocado junto à maior igreja do mundo, estava o segundo altar da ciência - o West Ponente de Bernini, uma placa elíptica na Praça de São Pedro.
Gunther Glick observava tudo protegido pelas sombras das colunas que circundavam a Praça de São Pedro. Em qualquer outro dia, o homem de paletó de tweed e a mulher de short cáqui não lhe teriam despertado o mínimo interesse. Aparentavam ser nada mais do que turistas passeando na praça. Mas aquele não era um dia qualquer. Aquele fora um dia de informações pelo telefone, carros policiais sem identificação correndo por Roma afora e um homem de paletó de tweed subindo em andaimes à procura de sabe-se lá o quê Glick ia ficar atrás dos dois.
Olhou para o outro lado da praça e viu Macri. Ela fora direto para onde ele lhe dissera para ir, para o outro lado do casal, rondando na retaguarda deles. Macri carregava sua câmera de vídeo com ar informal, mas, apesar de estar fazendo força para imitar uma entediada representante da imprensa, ela chamava mais atenção do que Glick gostaria. Não havia outros repórteres naquele ponto da praça e a sigla BBC bem visível em sua câmera estava atraindo os olhares de alguns turistas.
A fita que Macri gravara mostrando o corpo despido sendo colocado na mala do carro estava naquele mesmo instante no transmissor de vídeo instalado na parte detrás do furgão. Glick sabia que as imagens estariam viajando agora via satélite a caminho de Londres. Imaginava o que o pessoal de lá iria dizer.
Lamentava que ele e Macri não tivessem chegado e encontrado o corpo mais cedo, antes que o exército de soldados à paisana aparecesse. O mesmo exército, ele sabia, agora se espalhara e rodeara a praça. Alguma coisa muito importante estava para acontecer.
A mídia é o braço direito da anarquia, dissera o assassino. Glick conjeturava se não teria perdido sua grande chance. Olhou os outros furgões da imprensa à distância e viu Macri seguindo o casal misterioso pela praça. Algo lhe dizia que o jogo ainda não terminara.
CAPÍTULO 74
Langdon encontrou o que procurava uns dez metros antes de chegarem. Em meio aos turistas esparsos, a elipse de mármore branco do West Ponente de Bernini destacava-se dos cubos de granito cinzento que compunham o piso do resto da piazza. Vittoria também a avistou. Sua mão ficou mais tensa.
- Relaxe - murmurou Langdon. - Faça aquela coisa da respiração.
Vittoria afrouxou o aperto da mão.
À medida que chegavam mais perto, tudo lhes parecia inquietantemente normal. Turistas vagavam, freiras conversavam ao longo da praça, uma menina dava comida aos pombos junto à base do obelisco.
Langdon preferiu não olhar o relógio. Sabia que estava quase na hora.
A seus pés surgiu a elipse de pedra e os dois pararam, como se fossem apenas dois turistas que se detêm para admirar um detalhe de ligeiro interesse.
- West Ponente - disse Vittoria, lendo a inscrição na pedra.
Langdon contemplou o relevo de mármore e sentiu-se subitamente ingênuo. Nunca, em seus livros de arte ou em suas numerosas viagens a Roma, nunca o significado pleno do West Ponente lhe saltara tanto aos olhos.
Nunca, até aquele momento.
O relevo era elíptico, com uns 90 centímetros de comprimento, e mostrava um rosto rudimentar, uma representação do Vento Oeste com um semblante de anjo. Saindo da boca do anjo, Bernini desenhara um vigoroso sopro de ar que vinha da direção do Vaticano - o Sopro de Deus. Esse era o tributo de Bernini ao segundo elemento, Ar, um zéfiro etéreo brotando dos lábios de um anjo. Enquanto o examinava, Langdon deu-se conta de que o significado do relevo era ainda mais profundo. Bernini esculpira o sopro de ar com cinco traços distintos - cinco! E mais, havia duas estrelas reluzentes ladeando o medalhão. Langdon pensou em Galileu. Duas estrelas, o sopro de cinco traços, elipses, simetria. Sentiu um vazio e sua cabeça doía.
Vittoria recomeçou a andar quase imediatamente, guiando-o para longe do relevo.
- Acho que alguém está nos seguindo - disse ela.
- Onde? - perguntou Langdon, levantando a cabeça.
Vittoria deslocou-se bem uns 30 metros antes de falar. Apontou para o alto do Vaticano como se mostrasse algo no domo a Langdon.
- A mesma pessoa que vem vindo atrás de nós o tempo todo através da praça. - De modo despreocupado, deu uma espiada para trás. - E ainda está aí. Continue andando.
- Acha que é o Hassassin?
Vittoria fez que não com a cabeça.
- A não ser que os Iliuminati contratem mulheres com câmeras da BBC.
Quando os sinos de São Pedro iniciaram seu alarido ensurdecedor, tanto Langdon quanto Vittoria se sobressaltaram. Estava na hora. Tinham se afastado do West Ponente fazendo um movimento circular mas agora estavam voltando para perto do relevo.
Apesar do ressoar dos sinos, o local parecia perfeitamente calmo. Turistas andavam de um lado para outro.
Um mendigo bêbado cochilava meio desajeitado na base do obelisco. A menina dava comida aos pombos.
Langdon ponderou se a repórter teria espantado o assassino. Duvido, concluiu ele, lembrando-se da promessa do matador. Farei de seus cardeais luminares da mídia.
Quando o eco da nona badalada dissipou-se ao longe, um silêncio tranqüilo desceu sobre a praça.
Então, a menina começou a gritar.
CAPÍTULO 75
Langdon foi o primeiro a alcançar a menina que gritava. Aterrorizada, a garotinha apontava para a base do obelisco, onde um bêbado decrépito e maltrapilho estava meio caído nas escadas. O homem tinha um aspecto miserável, devia ser um dos sem-teto de Roma.
As mechas gordurosas do cabelo grisalho caíam-lhe pelo rosto e o corpo inteiro estava enrolado em um pano sujo. A menina continuou a gritar enquanto corria para longe, misturando-se às pessoas.
Langdon foi tomado por uma nova onda de apreensão ao correr na direção do velho. Havia uma mancha escura se espalhando pelos trapos do homem. Sangue fresco.
Depois, foi como se tudo acontecesse ao mesmo tempo.
O velho tombou para a frente, oscilante. Langdon precipitou-se para ampará-lo, mas não houve tempo. O homem rolou as escadas e bateu no chão com o rosto para baixo. Imóvel.
Langdon caiu de joelhos. Vittoria chegou ao seu lado. Formou-se um ajuntamento de pessoas.
Vittoria colocou os dedos no pescoço do homem por trás.
- Tem pulso - afirmou. - Vire-o.
Langdon já estava em ação. Segurou o homem pelos ombros e virou-lhe o corpo. Ao fazê-lo, os trapos que o envolviam soltaram-se como pele morta. O homem caiu de costas, flácido. Bem no meio de seu peito nu havia uma grande queimadura.
Vittoria prendeu a respiração e recuou.
Langdon ficou paralisado, em um estado intermediário entre a náusea e o assombro. O símbolo era de uma simplicidade aterrorizante.
- Ar - arquejou Vittoria. - É ele.
Os guardas suíços surgiram vindos do nada, gritando ordens, correndo atrás de um assassino invisível.
Perto, um turista explicou que, minutos antes, um homem de pele escura tivera a gentileza de ajudar aquele pobre mendigo ofegante a atravessar a praça e chegara a sentar-se por um momento nas escadas com o enfermo antes de voltar e sumir na multidão.
Vittoria arrancou o resto dos trapos de cima do abdômen do velho. Havia duas perfurações profundas, uma de cada lado da marca, logo abaixo das costelas. Ela inclinou a cabeça do homem para trás e iniciou uma respiração boca a boca.
Langdon não estava preparado para o que aconteceu em seguida. Quando Vittoria soprou, as duas feridas no tórax do homem sibilaram e esguicharam sangue como se fossem respiradouros de baleia. O líquido salgado atingiu Langdon no rosto.
Vittoria parou, horrorizada.
- Os pulmões dele... - ela gaguejou - foram perfurados.
Langdon enxugou os olhos e viu as perfurações. Os orifícios gorgolejavam. Os pulmões do cardeal haviam sido destruídos. Ele estava morto.
Vittoria tentou ocultar o corpo enquanto os guardas suíços se aproximavam.
Langdon levantou-se, desorientado. E foi quando a viu. A mulher que os seguira antes estava agachada ali perto. Tinha sua câmera de vídeo com a sigla BBC apoiada no ombro, voltada para ele e funcionando. Os dois se entreolharam e ele percebeu que ela gravara tudo. Depois, como um gato, ela fugiu.
CAPÍTULO 76
Chinita Macri estava fugindo. Conseguira a melhor matéria de toda a sua vida.
Sua câmera de vídeo pesava-lhe como uma âncora enquanto ela atravessava com dificuldade a Praça de São Pedro, abrindo caminho entre a multidão cada vez maior. A maioria vinha no sentido oposto ao dela, em direção ao tumulto que se formara. Macri estava tentando se afastar ao máximo de lá. O homem do paletó de tweed a vira e agora ela tinha a impressão de que havia outros em seu encalço, outros que ela não sabia onde estavam e que se aproximavam de todos os lados.
Macri ainda estava horrorizada com as imagens que acabara de gravar. Pensava se o homem morto seria realmente quem ela imaginava que fosse. O contato telefônico misterioso de Glick agora lhe parecia menos maluco.
Ela continuava a seguir apressada para o furgão da BBC quando um rapaz com inconfundível aspecto militar destacou-se do meio da multidão diante dela. Seus olhos se encontraram e ambos pararam. Rápido, ele sacou um walkie-talkie e falou ao aparelho. Depois, andou ao encontro dela. Macri fez meia-volta e misturou-se às pessoas, o coração batendo forte.
Tropeçando no mar de braços e pernas, ela retirou a fita de vídeo gravada de dentro da câmera. Ouro puro, pensou, enfiando a fita na parte de trás do seu cinto, escondida pelas abas do casaco. Ao menos uma vez estava satisfeita com seu excesso de peso. Glick, seu desgraçado, onde está você?
Outro soldado apareceu à sua esquerda, aproximando-se. Macri sabia que tinha pouco tempo. Meteu-se pelo meio do povaréu outra vez. Tirou uma fita virgem da maleta e enfiou-a na câmera. E começou a rezar.
Estava a uns 30 metros do furgão quando os dois homens se materializaram na frente dela, os braços cruzados. Ela não iria a mais lugar nenhum.
- O filme - disse um. - Agora.
Macri recuou, protegendo sua câmera com os dois braços.
- De jeito nenhum.
Um dos homens abriu a jaqueta, mostrando uma arma no coldre.
- Pode atirar em mim, se quiser - disse Macri, espantada com o atrevimento de sua própria voz.
- O filme - repetiu o primeiro.
Onde foi parar esse maldito Glick? Macri bateu o pé e gritou o mais alto que pôde.
- Sou uma profissional da BBC! Pelo artigo 12 da Lei da Liberdade de Imprensa, este filme é propriedade da British Broadcast Corporation!
Os homens nem se abalaram. O que mostrara a arma deu um passo em sua direção e disse:
- Sou tenente da Guarda Suíça e, de acordo com a Sagrada Doutrina que rege a propriedade na qual se encontra agora, a senhora está sujeita a busca e apreensão.
Muitas pessoas agora começavam a se reunir em torno deles.
Macri gritou:
- Eu me recuso terminantemente a entregar a vocês o filme que está nesta câmera antes de falar com meu editor em Londres. Sugiro que vocês...
Os guardas não a deixaram continuar. Um arrancou a câmera das mãos dela. O outro agarrou-a à força pelo braço e virou-a na direção do Vaticano.
- Grazie - dizia ele, empurrando-a através da multidão que se acotovelava.
Macri rezava para que não a revistassem e encontrassem a fita. Se de algum jeito conseguisse esconder o filme até dar tempo para...
Subitamente, aconteceu o impensável. Alguém estava pondo a mão por baixo do seu casaco. Macri sentiu a fita ser puxada. Girou o corpo depressa, mas engoliu as palavras. Atrás dela, um ofegante Glick piscou com uma cara marota e desapareceu outra vez no meio da multidão.
CAPÍTULO 77
Robert Langdon entrou meio cambaleante no banheiro particular ao lado do escritório do Papa. Enxugou o sangue no rosto e nos lábios. O sangue não era seu, mas do cardeal Lamassé, que morrera de modo terrível havia pouco na praça cheia de gente. Sacrifícios de virgens nos altares da ciência. Até então, o Hassassin cumprira sua ameaça.
Langdon sentiu-se sem forças ao olhar no espelho. Seu rosto estava abatido, a barba curta começara a escurecer sua face. O aposento em que se encontrava era imaculado e luxuoso -mármore negro com ferragens douradas, toalhas de algodão e sabonetes perfumados.
Tentou apagar de sua mente a marca cruel que vira no peito do cardeal. Ar. A imagem permanecia. Já vira três ambigramas desde que acordara naquela manhã e sabia que mais dois estavam a caminho.
Do lado de fora da porta, Olivetti, o camerlengo e o capitão Rocher estavam discutindo o que fazer em seguida. Pelo jeito, a busca da antimatéria não dera em nada até aquele momento. Ou os guardas não tinham visto o tubo ou o intruso fora mais longe dentro do Vaticano do que o comandante Olivetti gostaria de admitir.
Langdon enxugou o rosto e as mãos. Depois, procurou um mictório. Não havia mictório, somente um vaso sanitário. Ele levantou a tampa do vaso.
De pé ali, a tensão de seu corpo diminuindo, um atordoamento e uma grande exaustão invadiram-no. As emoções que se emaranhavam em seu peito eram muitas e muito incongruentes. Estava cansado, sem dormir nem comer, percorrendo o Caminho da Iluminação e traumatizado por dois assassinatos brutais.
Experimentou um sentimento de horror ainda mais profundo quando pensou no possível desenlace daquele drama.
Pense, disse a si mesmo. Mas sua mente estava em branco.
Quando acionou a descarga, ocorreu-lhe um pensamento inesperado. Este é o banheiro do Papa.
Acabei de fazer pipi no banheiro do Papa. Teve de rir. No Trono Sagrado.
CAPÍTULO 78
Em Londres, uma funcionária da BBC tirou uma fita de vídeo de um gravador conectado via satélite e saiu às pressas da sala de controle. Irrompeu pela sala do chefe de redação, colocou a fita no aparelho de vídeo dele e apertou o botão play.
Enquanto viam a fita, ela lhe contou sobre a conversa que acabara de ter com Gunther Glick na Cidade do Vaticano. E acrescentou que obtivera logo depois uma confirmação da identidade da vítima da Praça de São Pedro nos arquivos fotográficos da BBC.
Quando o redator-chefe saiu de sua sala, veio tocando uma sineta. Tudo parou na redação.
- Ao vivo em cinco minutos! - bradou o homem com voz estrondosa.
- Quero gente com talento para editar e colocar no ar! Coordenadores de mídia, quero seus contatos on-line! Temos uma história para vender! E temos o filme!
Eles pegaram depressa seus cadernos de telefone.
- Especificação do filme? - gritou um deles.
- Tomada de 30 segundos! - respondeu o chefe.
- Assunto?
- Homicídio ao vivo.
Os coordenadores mostraram-se animados.
- Preço para uso e licença?
- Um milhão de dólares.
Cabeças levantaram-se, rápidas.
- O quê?
- Isto mesmo que vocês ouviram! Quero o topo da cadeia alimentar. CNN, MSNBC e depois as três grandes!
Ofereçam uma apresentação prévia. Dêem a eles uns cinco minutos para se organizarem antes que a BBC solte a matéria.
- Que diabos aconteceu? - alguém perguntou. - O primeiro-ministro foi esfolado vivo?
O chefe balançou a cabeça.
- Muito melhor.
Naquele instante preciso, em algum ponto de Roma, o Hassassin desfrutava de um fugaz momento de repouso em uma cadeira confortável. Admirava o lendário aposento onde se encontrava. Estou sentado na Igreja da Iluminação, pensou. No refúgio dos Iliuminati. Quase não acreditava que o local ainda estivesse ali depois de passados tantos séculos.
Zeloso, discou o número do repórter da BBC com quem falara antes. Estava na hora. O mundo ainda não ouvira a notícia mais chocante de todas.
CAPÍTULO 79
Vittoria Vetra tomou pequenos goles de água e beliscou distraída uns bolinhos que um dos guardas suíços acabara de lhe servir. Sabia que precisava comer, mas não tinha vontade, O escritório do Papa estava fervilhante agora, cheio do som de conversas tensas. O capitão Rocher, o comandante Olivetti e uma meia dúzia de guardas avaliavam os prejuízos e debatiam o próximo passo a ser dado.
Robert Langdon estava por perto olhando para fora, para a Praça de São Pedro, com um ar bastante desanimado. Vittoria foi até ele.
- Alguma idéia?
Ele fez que não.
- Quer um bolinho?
O ânimo dele pareceu melhorar ao ver algo para comer.
- Puxa, se quero. Obrigado. - E devorou uns bolinhos.
A conversa atrás deles silenciou de repente quando o camerlengo entrou pela porta acompanhado por dois guardas suíços. Se o camerlengo já parecera esgotado antes, pensou Vittoria, agora parecia vazio.
- O que aconteceu? - ele perguntou a Olivetti. Pela expressão de seu rosto, já tinham lhe contado o pior.
O informe oficial de Olivetti soou como um relatório de baixas em combate. Enumerou os fatos com seca eficiência.
- O cardeal Ebner foi encontrado morto na igreja de Santa Maria del Popolo logo depois das oito horas.
Havia sido asfixiado e marcado com a palavra ambigramática "Terra". O cardeal Lamassé foi assassinado na Praça de São Pedro dez minutos atrás. Morreu de perfurações no peito. Foi marcado a fogo com a palavra "Ar', também ambigramática. O assassino escapou nas duas oportunidades.
O camerlengo cruzou a sala, sentou-se pesadamente atrás da escrivaninha do Papa e baixou a cabeça.
- Os cardeais Guidera e Baggia, entretanto, ainda estão vivos.
A cabeça do camerlengo levantou-se de um golpe, no rosto uma expressão de dor.
- E isso por acaso nos serve de consolo? Dois cardeais foram assassinados, comandante. E os outros dois pelo jeito também não vão permanecer vivos por muito tempo, a não ser que o senhor os encontre.
- Vamos encontrá-los - garantiu Olivetti -, estamos esperançosos.
- Esperançosos? Só tivemos fracassos.
- Não é verdade. Perdemos duas batalhas, signore, mas estamos vencendo a guerra. Os Iliuminati pretendiam transformar esta noite em um espetáculo para a mídia. Até agora, frustramos os planos deles.
Os corpos dos dois cardeais foram resgatados sem incidentes. Além disso - continuou Olivetti -, o capitão Rocher contou-me que está fazendo grandes avanços na busca da antimatéria.
O capitão Rocher, com sua boina vermelha na cabeça, deu um passo à frente. Vittoria observou que de certa forma ele parecia mais humano do que os outros guardas, firme mas não tão rígido. A voz de Rocher era cristalina, com um tom emocionado, como um violino.
- Espero trazer o tubo para o senhor dentro de uma hora, signore.
- Capitão - disse o camerlengo -, desculpe-me se não demonstro confiança, mas tive a impressão de que a busca da Cidade do Vaticano levaria muito mais tempo do que isso.
- Uma busca completa, sim. No entanto, depois de avaliar a situação, creio que o tubo de antimatéria esteja localizado em uma de nossas zonas brancas, os setores do Vaticano acessíveis ao público em geral, os museus e a Basílica de São Pedro, por exemplo. Já desligamos a energia elétrica nessas zonas e estamos realizando a nossa varredura.
- Vocês pretendem procurar em só uma pequena parcela da Cidade do Vaticano?
- Sim, signore. É muito improvável que um intruso tenha tido acesso às zonas mais centrais do Vaticano, O fato de a câmera de segurança em questão ter sido roubada em uma área aberta ao público, um vão de escada de um dos museus, claramente indica que o invasor tinha acesso limitado. Portanto, só poderia reinstalar a câmera e deixar a antimatéria em outra área aberta ao público. É nestas áreas que estamos concentrando nossas buscas.
- Mas esse homem seqüestrou quatro cardeais. O que decerto supõe uma infiltração mais profunda do que pensávamos.
- Não necessariamente. Precisamos lembrar que os quatro cardeais passaram grande parte do dia nos museus do Vaticano e na Basílica de São Pedro, desfrutando destes locais sem a presença do público. É provável que os cardeais tenham sido capturados em um desses pontos.
- E como foram levados para fora de nossos muros?
- Ainda estamos analisando isto.
- Compreendo. - O camerlengo suspirou e levantou-se. Aproximou-se de Olivetti. -Comandante, gostaria de saber qual é o seu plano de contingência para uma evacuação da cidade.
- Ainda estamos formalizando isto, signore. Nesse meio tempo, acredito que o capitão Rocher vá encontrar o tubo.
Rocher bateu os calcanhares em apreço pelo voto de confiança.
- Meus homens já examinaram dois terços das zonas brancas. Há um alto grau de confiança.
O camerlengo não demonstrava o mesmo sentimento.
Naquele momento, o guarda com a cicatriz sob um dos olhos entrou trazendo uma pequena prancheta e um mapa.
Dirigiu-se a Langdon.
- Senhor Langdon? Trouxe a informação que o senhor solicitou sobre o West Ponente.
Langdon engoliu seu bolinho.
- Ótimo. Vamos a ela.
Os outros continuaram conversando enquanto Vittoria juntava-se a Robert e aos guardas e eles abriam o mapa sobre a escrivaninha do Papa.
O soldado apontou para a Praça de São Pedro.
- Aqui é onde estamos. O traço do meio do sopro de West Ponente aponta para leste, direto para fora da Cidade do Vaticano. - O guarda traçou uma linha com seu dedo a partir da Praça de São Pedro, atravessando o rio Tibre e entrando no coração da velha Roma. - Como vêem, a linha passa por quase toda Roma. Existem umas 20 igrejas católicas perto desta linha.
Langdon quase desmontou.
- Vinte?
- Talvez mais.
- A linha passa exatamente em cima de alguma dessas igrejas?
- Algumas estão mais próximas - disse o guarda -, mas transferir as orientações do West Ponente para um mapa vai dar margem a muitos erros.
Langdon olhou para a Praça de São Pedro por um instante. Depois, coçou o queixo e perguntou.
- E com relação afogo? Será que uma delas não teria alguma obra de Bernini relacionada a fogo?
Silêncio.
- E obeliscos? - perguntou ele. - Existe alguma perto de um obelisco?
O guarda examinou de novo o mapa.
Vittoria viu um lampejo de esperança no rosto de Langdon e adivinhou o que ele estava pensando. Ele tem razão! Os dois primeiros marcos ficavam perto de praças que tinham obeliscos. Quem sabe se os obeliscos não seriam o tema?
Pirâmides elevadas marcando a trilha dos Iliuminati? Quanto mais Vittoria pensava mais apropriado lhe parecia: quatro sinais proeminentes erguendo-se acima de Roma para marcar os altares da ciência.
- É uma probabilidade remota - disse Langdon -, mas sei que muitos dos obeliscos de Roma foram erigidos ou levados de um lugar para outro no tempo de Bernini. Ele com certeza esteve envolvido na instalação deles.
- Ou - acrescentou Vittoria - Bernini poderia ter colocado seus marcos perto de obeliscos já existentes.
- É verdade - concordou Langdon.
- Más notícias - disse o guarda. - Nenhum obelisco nessa reta. - Correu o dedo pelo mapa. - Nem perto dela. Nada.
Langdon suspirou.
Vittoria deixou os ombros caírem. Achara a idéia boa, mas, pelo jeito, não ia ser tão fácil quanto esperavam. Esforçou-se para continuar sendo positiva.
- Robert, pense. Você deve conhecer alguma estátua de Bernini que tenha alguma coisa a ver com fogo. Qualquer coisa.
- Acredite, estive pensando nisso. Bernini era incrivelmente produtivo. Criou centenas de obras. Contava que o West Ponente indicasse uma única igreja. Algo que chamasse a atenção.
- Fuàco - insistiu ela. - Fogo. Nenhum título de obra de Bernini lhe ocorre?
- Existem os famosos desenhos de Fogos de Artificio, mas não são escultura e estão em Leipzig, na Alemanha.
Vittoria fez uma careta.
- E tem certeza de que o sopro é o que indica a direção?
- Você viu o relevo, Vittoria. O desenho é inteiramente simétrico. A única referência a direção é o sopro.
Vittoria sabia que ele tinha razão.
- Sem falar que, pelo fato de o West Ponente significar Ar, seguir o sopro é simbolicamente apropriado - acrescentou ele.
Muito bem, pensou ela, então vamos seguir o sopro. Mas para onde?
Olivetti aproximou-se.
- O que encontraram?
- Igrejas demais - disse o soldado. - Umas vinte e tantas. Se puséssemos quatro homens em cada igreja...
- Esqueça - disse Olivetti. - Já deixamos esse sujeito escapar duas vezes sabendo exatamente onde ele ia estar. Um cerco maciço deixaria a Cidade do Vaticano desprotegida e nos obrigaria a cancelar a busca à antimatéria.
- Precisamos de uma obra de referência - disse Vittoria. - Um índice das obras de Bernini. Se examinarmos os títulos delas, talvez nos ocorra alguma idéia.
- Não sei, não - disse Langdon. - Se for uma obra que Bernini criou especificamente para os Illuminati, pode ser muito obscura. Não é muito provável que conste de alguma lista em um livro.
Vittoria recusava-se a acreditar.
- As outras duas esculturas eram muito famosas. Você as conhecia.
- Pois é - disse Langdon.
- Se procurarmos referências à palavra "fogo" em uma lista de títulos, talvez encontremos uma estátua que esteja na direção certa.
Langdon convenceu-se de que valia a pena tentar. Dirigiu-se a Olivetti.
- Preciso de uma lista de todas as obras de Bernini. Será que vocês têm por aqui um desses livros grandes sobre Bernini, desses que as pessoas colocam em cima de mesas baixas para serem folheados?
Olivetti não entendeu a que tipo de livro Langdon se referia.
- Deixe para lá. Qualquer lista de obras serve. No Museu do Vaticano eles devem ter referências sobre Bernini.
O guarda com a cicatriz fez um aparte.
- O museu está sem luz no momento e a sala de registros é gigantesca. Sem a equipe de lá para ajudar...
- A obra de Bernini em questão - interrompeu Olivetti - teria sido criada enquanto Bernini trabalhava aqui no Vaticano?
- Isso é praticamente certo - respondeu Langdon. - Ele passou quase toda a carreira aqui. E certamente estava aqui durante o período dos conflitos da Igreja com Galileu.
Olivetti balançou a cabeça.
- Então, existem outras referências.
Vittoria sentiu um lampejo de otimismo.
- Onde?
O comandante não respondeu. Falou à parte e em voz baixa com o guarda. O guarda pareceu inseguro, mas assentiu com a cabeça, obediente. Quando Olivetti acabou de falar, o guarda dirigiu-se a Langdon.
- Venha comigo, por favor, senhor Langdon. São 9h 15. Temos de nos apressar.
Langdon e o guarda se dirigiram para a porta.
Vittoria saiu atrás deles.
- Vou junto para ajudar.
Olivetti pegou-a pelo braço.
- Não, senhorita Vetra. Preciso falar com a senhorita.
A pressão da mão dele era firme.
Langdon e o guarda saíram. O rosto de Olivetti parecia uma dura máscara de madeira quando a levou para um lado.
Entretanto, o que quer que ele fosse dizer, não teve mais oportunidade. Seu walkie-talkie crepitou alto.
- Commandante?
Todos na sala se viraram.
A voz no transmissor soou desagradável.
- É melhor o senhor ligar a televisão.
CAPÍTULO 80
Ao deixar os Arquivos Secretos do Vaticano apenas duas horas antes, Langdon jamais pensou que fosse voltar lá. Agora, meio sem fôlego por ter feito todo o percurso correndo com o guarda suíço que o acompanhava, Langdon encontrava-se de volta.
Seu acompanhante, o guarda com a cicatriz, conduziu Langdon ao longo das filas de cubículos transparentes. O silêncio nos arquivos de certa forma parecia mais ameaçador do que antes e Langdon ficou satisfeito quando o guarda o quebrou.
- Ali adiante, acho - disse ele, conduzindo Langdon para os fundos da sala, onde uma sucessão de câmaras menores enfileirava-se ao longo da parede. O guarda examinou os títulos das câmaras e indicou uma delas.
- Isso mesmo, aqui está. Onde o comandante disse que estaria.
Langdon leu o título. ATTIVI VATICANI. Ativos do Vaticano? Deu uma espiada na lista de assuntos. Imóveis, moeda, Banco do Vaticano, antiguidades - a lista prosseguia.
- Documentos de todos os ativos do Vaticano - disse o guarda.
Langdon olhou para o cubículo. Jesus! Mesmo no escuro, dava para ver que estava lotado.
- Meu comandante disse que tudo o que Bernini criou enquanto trabalhava para o Vaticano deve estar listado aqui como ativo.
Langdon concordou, achando que o palpite do comandante talvez desse resultado. No tempo de Bernini, tudo o que um artista criava sob o patrocínio do Papa tornava-se, por lei, propriedade do Vaticano. Era mais feudalismo do que mecenato, mas os grandes artistas viviam bem e raramente se queixavam.
- Inclusive obras localizadas em igrejas fora da Cidade do Vaticano?
O soldado lançou-lhe um olhar enviesado.
- Claro. Todas as igrejas católicas de Roma são propriedade do Vaticano.
Langdon deu uma olhada na lista que tinha na mão. Continha o nome das vinte e tantas igrejas localizadas na linha reta determinada pelo sopro de West Ponente.
O terceiro altar da ciência era uma delas e ele esperava que tivesse tempo de descobrir qual. Em outras circunstâncias, teria de muito bom grado explorado pessoalmente cada uma das igrejas. Naquele dia, porém, tinha cerca de 20 minutos para encontrar o que procurava: a igreja que guardava um tributo de Bernini ao fogo.
Encaminhou-se para a porta giratória eletrônica da câmara. O guarda não o seguiu. Langdon percebeu uma hesitação nele. Deu um sorriso.
- O ar está ótimo. Rarefeito, mas respirável.
- Minhas ordens foram para acompanhá-lo até aqui e depois voltar imediatamente para o centro de segurança.
- Você vai embora?
- Vou. A Guarda Suíça não tem permissão para entrar nos Arquivos. Já estou quebrando o protocolo por acompanhá-lo até este ponto. O comandante mencionou isto para mim.
- Quebrando o protocolo? Tem alguma noção de o que está se passando por aqui esta noite? De que lado o seu comandante está, afinal?
Toda a afabilidade desapareceu do rosto do guarda. A cicatriz sob seu olho estremeceu. Suas feições endureceram e ele ficou bastante parecido com o próprio Olivetti.
- Desculpe - disse Langdon, arrependendo-se de ter feito o comentário. - É só porque um pouco de ajuda seria bom.
O guarda nem pestanejou.
- Fui treinado para cumprir ordens. Não para discuti-las. Quando encontrar o que procura, entre em contato com o comandante imediatamente.
Langdon ficou confuso.
- Mas onde ele vai estar?
O guarda retirou seu walkie-talkie e colocou-o sobre uma mesa próxima.
- Canal um.
E desapareceu na escuridão.
CAPÍTULO 81
O aparelho de televisão que havia no escritório do Papa era um enorme Hitachi escondido em um armário do lado oposto da escrivaninha. As portas do armário tinham sido abertas e todos estavam reunidos diante da TV. Vittoria também foi para perto do aparelho. Quando a tela se acendeu, mostrou uma jovem repórter morena com olhos castanhos de gazela.
- Para o jornal da MSNBC - anunciou ela -, sou Kelly Horan-Jones, ao vivo da Cidade do Vaticano.
Atrás da moça, uma imagem noturna da Basílica de São Pedro com todas as luzes brilhando.
- Você não está ao vivo coisa nenhuma - disparou Rocher. - As luzes da basílica estão apagadas neste momento!
Olivetti calou-o com um psiu.
A repórter continuou, com voz tensa.
- Graves acontecimentos abalaram a eleição no Vaticano esta noite. Temos a informação de que dois membros do Colégio dos Cardeais foram brutalmente assassinados em Roma.
Olivetti soltou uma praga em voz baixa.
Enquanto a moça falava na televisão, um guarda apareceu à porta, esbaforido.
- Comandante, a mesa telefônica central comunicou que todas as linhas estão chamando. Solicitam nossa posição oficial sobre...
- Desliguem a mesa telefônica - disse Olivetti, sem tirar os olhos da TV.
O guarda ficou hesitante.
- Mas, comandante...
-Vá!
O guarda saiu correndo.
Vittoria notou que o camerlengo quis dizer alguma coisa, mas se conteve. Em vez de falar, ele olhou prolongada e firmemente para Olivetti antes de se voltar outra vez para a televisão.
A MSNBC estava agora mostrando cenas gravadas. A Guarda Suíça descendo as escadas de Santa Maria del Popolo com o corpo do cardeal Ebner, depois o levantando-o para colocar no Alpha Romeo. A imagem era congelada e o corpo despido do cardeal aparecia em dose antes de ser depositado na mala do carro.
- Quem foi o desgraçado que filmou isso? - perguntou Olivetti.
A repórter da MSNBC continuava falando.
- Acredita-se que esse seja o corpo do cardeal Ebner, de Frankfurt, Alemanha. Os homens que estão retirando seu corpo da igreja pertencem provavelmente à Guarda Suíça do Vaticano.
A repórter dava a impressão de estar fazendo o máximo de esforço para aparentar emoção. Em seguida, um close de seu rosto sugeria uma profunda consternação.
- Neste momento, a MSNBC gostaria de avisar aos seus espectadores que as imagens que vamos mostrar agora são extremamente dramáticas e não são recomendadas para todas as pessoas.
Vittoria fez pouco da falsa preocupação da emissora com a sensibilidade dos espectadores, reconhecendo aquela observação como o supremo recurso da mídia para chamar a atenção. Ninguém mudava de canal depois de um aviso como aquele.
A repórter insistiu.
- Repetimos, as cenas a que vamos assistir podem perturbar alguns espectadores.
- Que cenas? - perguntou Olivetti. - Vocês já mostraram...
Surgiu na TV um casal andando no meio da multidão da Praça de São Pedro. Vittoria logo reconheceu as duas pessoas como sendo ela própria e Robert Langdon. Em um canto da tela, lia-se em letras pequenas um texto sobreposto:
CORTESIA DA BBC. Um sino tocava ao fundo.
- Ah, não - disse Vittoria em voz alta. - Ah... não.
O camerlengo parecia não compreender. Dirigiu-se a Olivetti.
- Você não me disse que havia confiscado essa fita?
Subitamente, na televisão, havia uma criança gritando. A câmera deslocou-se
para uma garotinha apontando para o que aparentava ser um mendigo ensangüentado. Robert Langdon apareceu abruptamente tentando ajudar a menina. O cinegrafista estabilizou a câmera no mesmo ponto.
Todos no escritório do Papa assistiram em silêncio, horrorizados, ao drama desenrolar-se diante deles. O corpo do cardeal tombou e ele caiu com o rosto no chão. Vittoria apareceu e começou a agir. Havia sangue. A marca a fogo. Uma tentativa horripilante e fracassada de administrar respiração boca a boca.
- Essas cenas incríveis - a repórter estava dizendo - foram filmadas poucos minutos atrás fora do Vaticano. Nossas fontes nos informam que se trata do cardeal Lamassé, da França. Por que ele estaria vestido daquela maneira e por que não estava no conclave são perguntas que permanecem sem resposta. Até agora, o Vaticano recusou-se a fazer qualquer comentário. - E a fita recomeçou a ser exibida.
- "Recusou-se a fazer qualquer comentário"? - disse Rocher. - Não tivemos nem tempo! A repórter continuava a falar com grande intensidade, as sobrancelhas franzidas.
- A MSNBC ainda não obteve confirmação sobre o motivo do ataque, mas nossas fontes asseguram que um grupo que se autodenomina Illuminati assumiu a responsabilidade pelos assassinatos.
Olivetti explodiu.
- O quê?!
- . . . saiba mais sobre os Illuminati visitando nosso site em...
- Non é posibile! - declarou Olivetti. E mudou de canal.
Na outra estação havia um repórter hispânico falando:
- . . . um culto satânico conhecido como os Illuminati, que alguns historiadores acreditam... Olivetti começou a apertar freneticamente o controle remoto. Todos os canais estavam transmitindo a notícia ao vivo. Muitos deles, em inglês.
- . . . Guarda Suíça removendo um corpo de uma igreja no princípio desta noite. Acredita-se que o corpo seja o do cardeal...
- . . . as luzes da basílica e dos museus foram apagadas e especula-se que...
- . . . dentro em pouco falaremos com o especialista em teorias conspiratórias Tyler Tingley sobre esse espantoso reaparecimento...
- .. .há rumores sobre mais dois assassinatos planejados para mais tarde esta noite...
- . . .dúvidas se o provável Papa, o cardeal Baggia, estaria entre os desaparecidos...
Vittoria afastou-se. Tudo estava acontecendo rápido demais. Lá fora, na noite que descia, o rude magnetismo da tragédia humana parecia atrair mais pessoas para a Cidade do Vaticano. A multidão na praça aumentava quase a cada instante. Os pedestres chegavam incessantemente enquanto novas equipes de imprensa descarregavam seus furgões e faziam valer seus direitos na Praça de São Pedro.
Olivetti largou o controle remoto e dirigiu-se ao camerlengo.
- Signore, não posso imaginar como isso aconteceu. Nós pegamos a fita que estava aquela câmera!
O camerlengo parecia momentaneamente atordoado para falar.
Ninguém dizia uma palavra sequer. A Guarda Suíça mantinha-se rígida, atenta.
- Tudo indica - disse finalmente o camerlengo, em um tom de voz arrasado demais para estar zangado - que não soubemos conter essa crise tão bem quanto fui levado a acreditar. -Olhou pela janela, para a massa de gente que se formava lá fora. - Preciso fazer um pronunciamento.
Olivetti sacudiu a cabeça.
- Não, signore. Isso é precisamente o que os liluminati querem que faça. Legitimá-los, admitir seu poder. Temos de nos manter em silêncio.
- E essas pessoas? - O camerlengo apontou para a janela. - Logo haverá milhares. Depois, centenas de milhares. Deixar que essa charada prossiga só vai colocá-las em perigo. Tenho de preveni-las. E em seguida temos de tirar daqui o nosso Colégio de Cardeais.
- Ainda há tempo. Deixe que o capitão Rocher encontre a antimatéria.
O camerlengo encarou-o.
- Está querendo me dar ordens?
- Não, estou lhe dando um conselho. Se está preocupado com o povo lá fora, podemos anunciar que houve um escapamento de gás e desimpedir a área, mas admitir a nossa vulnerabilidade pode ser perigoso.
- Comandante, só vou dizer isto uma vez. Não vou usar esse cargo como um púlpito para mentir para o mundo. Se eu anunciar alguma coisa, só poderá ser a verdade.
- A verdade? A Cidade do Vaticano está ameaçada de ser destruída por terroristas satânicos! Só vai enfraquecer nossa posição.
O camerlengo fulminou-o com o olhar.
- Nossa posição não pode ficar mais fraca do que já está.
Rocher gritou repentinamente, apoderando-se do controle remoto e aumentando o volume da televisão. Todos se viraram para o aparelho.
No ar, a mulher da MSNBC parecia agora verdadeiramente amedrontada. Ao lado dela haviam sobreposto uma fotografia do último Papa.
- ... divulgar informações. Acabamos de receber a notícia da BBC... - ela relanceou o olhar para a câmera como se quisesse confirmar que tinha realmente de dar aquela notícia. Aparentemente tendo recebido confirmação, voltou-se para os espectadores. - Os liluminati acabaram de assumir a responsabilidade pela... - ela hesitou. - Eles assumiram a responsabilidade pela morte do Papa 15 dias atrás.
O queixo do camerlengo caiu.
Rocher largou o controle remoto.
Vittoria mal conseguia processar a informação.
- Pela lei do Vaticano - a mulher prosseguiu -, jamais se realiza uma autópsia formal em um Papa, portanto não se pode confirmar a declaração de assassinato feita pelos Illuminati. Seja como for, os Illuminati afirmam que a causa da morte do último Papa não foi um derrame, como relatou o Vaticano, mas envenenamento.
A sala inteira ficou em silêncio completo outra vez.
Olivetti irrompeu em exclamações.
- Loucura! Que mentira descarada!
Rocher começou a mudar rapidamente os canais outra vez. O boletim espalhara-se como uma praga de uma estação para outra. Todas tinham a mesma história. As chamadas competiam pelo maior sensacionalismo possível.
ASSASSINATO NO VATICANO PAPA ENVENENADO SATÃ NA CASA DE DEUS
O camerlengo afastou os olhos da tela.
- Que Deus nos ajude.
Quando Rocher estava mudando de canal, passou pela BBC.
- . . .me avisou sobre o assassinato em Santa Maria del Popolo...
- Espere! - disse o camerlengo. - Volte.
Rocher voltou. Na tela, um locutor empertigado estava sentado diante da escrivaninha do jornal da BBC. Acima do ombro dele destacava-se uma foto de um homem esquisito com uma barba ruiva. Sob a foto estava escrito:
GUNTHER GLICK - AO VIVO DA CIDADE DO VATICANO. O repórter Glick transmitia suas notícias pelo telefone, a ligação entremeada de chiados intermitentes.