Anjos e Demônios
- . . . minha cinegrafista conseguiu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- . . . minha cinegrafista conseguiu gravar a cena do cardeal sendo removido da Capela Chigi.
- Devo lembrar aos nossos espectadores - disse o âncora em Londres - que o repórter Gunther Glick, da BBC, foi quem primeiro divulgou esta história.
Até agora manteve dois contatos telefônicos com o suposto assassino Iliuminati. Gunther, você confirma que o assassino telefonou há pouco para transmitir uma mensagem dos Illuminati?
- Sim, confirmo.
- E a mensagem informava que os Illuminati foram de alguma forma responsáveis pela morte do Papa? - A voz do âncora revelava incredulidade.
- Correto. A pessoa me disse que a morte do Papa não foi causada por um derrame, como o Vaticano pensou, mas que o Papa foi envenenado pelos liluminati.
No escritório do Papa todos estavam paralisados.
- Envenenado? - perguntou o âncora. - Mas como?
- Ele não especificou - respondeu Glick - só me disse que o mataram com uma droga conhecida como... - ouviu-se um ruído de papéis sendo folheados
- alguma coisa conhecida como heparina.
O camerlengo, Olivetti e Rocher trocaram olhares embaraçados.
- Heparina? - Rocher perguntou, espantado. - Mas não era...?
O camerlengo empalideceu.
- A medicação do Papa.
Vittoria ficou atordoada.
- O Papa estava tomando heparina?
- Ele tinha tromboflebite - disse o camerlengo. - Tomava uma injeção por dia.
Rocher estava perplexo.
- Mas a heparina não é veneno. Por que os Illuminati diriam que...
- A heparina é letal nas dosagens erradas - esclareceu Vittoria. - Trata-se de um anticoagulante poderoso. Uma dose excessiva poderia causar uma grande hemorragia interna e hemorragia cerebral.
Olivetti perguntou, desconfiado:
- Como sabe disso?
- Os biólogos usam heparina em mamíferos marinhos em cativeiro para evitar coágulos causados pela diminuição de atividade. Já morreram animais por administração errada do remédio.- Ela fez uma pausa. - Uma dose excessiva de heparina em um ser humano pode causar sintomas que seriam facilmente confundidos com os de um derrame, sobretudo se não se fizer uma autópsia adequada.
O camerlengo agora se mostrava profundamente perturbado.
- Signore - disse Olivetti -, isso é obviamente uma manobra dos Iliuminati para atrair mais publicidade. Seria impossível alguém dar uma dose excessiva de remédio ao Papa. Ninguém tinha acesso. E mesmo que engolíssemos a isca e tentássemos refutar a declaração deles, como poderíamos? A lei papal proíbe a autópsia. E mesmo que se fizesse a autópsia, nada ficaria esclarecido, porque se encontraria heparina no corpo dele, a das injeções que ele tomava todos os dias.
- É verdade. - E a voz do camerlengo tornou-se mais penetrante. - No entanto, algo mais me incomoda. Ninguém de fora sabia que Sua Santidade estava tomando heparina.
Fez-se silêncio.
- Se ele tomou uma dose excessiva de heparina - disse Vittoria -, seu corpo teria sinais disso.
Olivetti girou o corpo para encará-la.
- Senhorita Vetra, caso não tenha escutado, as autópsias papais são proibidas pela Lei do Vaticano. Não vamos profanar o corpo de Sua Santidade, cortando-o todo só porque um inimigo fez declarações ridículas!
Vittoria sentiu-se constrangida.
- Eu não estava sugerindo... - Ela não tivera intenção de desrespeitar ninguém. - Com certeza, não sugeri que exumassem o Papa...
Ainda assim, hesitava em falar. Algo que Robert lhe contara em Chigi passara por sua mente como um fantasma. Ele mencionara que os sarcófagos papais eram mantidos acima do solo e nunca fechados com cimento, talvez um costume vindo do tempo dos faraós, quando se acreditava que lacrar e enterrar um caixão prendia a alma do defunto lá dentro. A gravidade tornara-se a alternativa à argamassa, com tampas de caixões que às vezes pesavam centenas de quilos.
Tecnicamente, ela percebia, seria possível...
- Que espécie de sinais? - perguntou inesperadamente o camerlengo.
Vittoria sentiu seu coração palpitar de medo.
- As doses excessivas podem causar sangramento da mucosa oral.
-Da...
- As gengivas da vítima sangrariam. Algum tempo após a morte, o sangue coagularia e o interior da boca ficaria negro.
Certa vez, Vittoria tinha visto uma foto tirada em um aquário de Londres em que um par de baleias havia sido medicado em excesso por um engano de seu treinador. As baleias boiavam mortas dentro do tanque, as bocas abertas e as línguas negras como piche.
O camerlengo não fez nenhum comentário. Pensativo, olhava pela janela.
A voz de Rocher perdera todo o otimismo.
- Signore, se essa história de envenenamento for verdadeira...
- Não é - declarou Olivetti, categórico. - O acesso ao Papa por uma pessoa de fora é absolutamente impossível.
- Se a história for verdadeira - repetiu Rocher - e nosso Santo Padre tiver sido mesmo envenenado, isto tem enormes implicações para a procura da anti- matéria. Um suposto assassinato significa uma infiltração muito maior no Vaticano do que calculamos. Procurar só nas zonas brancas pode ser inútil. Se estivermos a tal ponto comprometidos, talvez não encontremos o tubo de anti- matéria a tempo.
Olivetti dirigiu um olhar gelado a seu capitão.
- Capitão, vou lhe dizer o que vai acontecer.
- Não - disse o camerlengo, virando-se repentinamente. - Eu vou lhe dizer o que vai acontecer. - Encarou Olivetti. - Isso já foi longe demais. Em 20 minutos vou decidir se cancelo o conclave e esvazio a Cidade do Vaticano ou não.
Minha decisão vai ser definitiva. Ficou bem claro?
Olivetti nem piscou. Nem reagiu.
O camerlengo falava agora energicamente, como se recorresse a uma reserva escondida de força.
- O capitão Rocher vai completar sua busca nas zonas brancas e prestar contas diretamente a mim quando terminar.
Rocher curvou a cabeça, endereçando um olhar constrangido a Olivetti.
O camerlengo então destacou dois guardas.
- Quero o repórter da BBC, o senhor Glick, aqui neste escritório imediatamente. Se os liluminati andaram se comunicando com ele, talvez possa nos ajudar. Andem.
Os dois soldados desapareceram.
O camerlengo então dirigiu-se aos guardas restantes.
- Cavalheiros, não vou permitir que mais vidas se percam esta noite. Até as dez horas vocês vão localizar os dois últimos cardeais e capturar o monstro responsável por essas mortes. Será que me fiz compreender?
- Mas, signore - objetou Olivetti -, não temos a menor idéia de onde...
- O senhor Langdon está trabalhando nisso. Ele parece competente. Tenho esperanças.
Com isto, o camerlengo encaminhou-se para a porta, suas passadas revelando uma nova determinação. Antes de sair, apontou para três guardas.
- Vocês três, venham comigo. Agora.
Os guardas o seguiram.
Junto da porta, o camerlengo se deteve. Falou com Vittoria.
- Senhorita Vetra, venha também, por favor.
Vittoria ficou insegura.
- Aonde vamos?
Ele saiu porta afora.
- Ver um velho amigo.
CAPÍTULO 82
No CERN, a secretária Sylvie Baudeloque estava faminta, querendo ir para casa. Para sua decepção, Kohler parecia ter sobrevivido ao seu passeio à enfermaria. Ele telefonara e mandara - não pedira, mandara - que Sylvie ficasse até mais tarde naquele dia. Sem a menor explicação.
No decorrer dos anos, Sylvie programara-se para ignorar as bizarras oscilações de humor e as excentricidades de Kohler - sua convivência silenciosa, sua mania irritante de filmar reuniões em segredo com a câmera de vídeo portátil de sua cadeira de rodas. Intimamente, desejava que um dia ele desse um tiro por engano em si mesmo durante a sua visita semanal ao estande recreativo de tiro ao alvo do CERN, mas pelo jeito ele era um exímio atirador.
Agora, sentada sozinha diante de sua escrivaninha, Sylvie sentia o estômago roncar. Kohler não voltara nem lhe dera nenhum trabalho extra para aquela noite. Pois sim que vou ficar plantada aqui passando fome e me aborrecendo sem fazer nada, decidiu. Deixou um bilhete para Kohler e foi até a cantina fazer um lanche.
Mas não chegou lá.
Ao passar pelas suites de loisir do CERN, uma área de lazer formada por um comprido corredor com saguões onde havia televisões, notou que as salas estavam transbordando de empregados que deviam ter abandonado o jantar para assistir às notícias. Alguma coisa importante estava acontecendo. Sylvie entrou na primeira suíte. Estava lotada de jovens programadores de computador. Quando viu as manchetes na TV, ela tomou um susto.
TERRORISMO NO VATICANO
Sylvie escutou o comentário, mal acreditando no que ouvia. Uma fraternidade antiga matando cardeais? Para provar o quê? O ódio deles? O domínio? A ignorância?
E o mais inacreditável é que o humor reinante naquela suíte era tudo, menos sombrio.
Dois jovens técnicos passaram correndo, exibindo camisetas que traziam um retrato de Bill Gates e a inscrição: E OS NERDS HERDARÃO A TERRA!
- Illuminati! - gritou um. - Eu disse para você que esses caras existiam!
- Incrível! Pensei que fosse só um jogo!
- Eles mataram o Papa, cara! O Papa!
- É! Quanto pontos será que se ganha por isto?
E foram embora dando risadas.
Sylvie ficou parada ali, estarrecida. Como católica e trabalhando em um meio de cientistas, de vez em quando ouvia uma ou outra observação anti-religiosa, mas a festa que os garotos estavam fazendo era de total euforia pela perda que a Igreja sofrera. Como podiam ser tão insensíveis? Por que tanto ódio?
Para Sylvie, a Igreja fora sempre uma entidade inofensiva, um local de companheirismo e introspecção e, às vezes, apenas um lugar onde podia cantar em voz alta sem que as pessoas olhassem para ela. A Igreja registrava as referências de sua vida - funerais, casamentos, batismos, feriados - e não pedia nada em troca.
Até as doações em dinheiro eram voluntárias. Seus filhos todas as semanas saíam melhores da igreja dominical, cheios de idéias sobre ajudarem os outros e serem mais bondosos. O que poderia haver de errado aí?
Sempre se admirara que tantas das chamadas "mentes brilhantes" do CERN deixassem de compreender a importância da Igreja. Será que de fato acreditavam que quarks e mésons também serviam de inspiração para a média dos seres humanos? Ou que as equações podiam substituir a necessidade de uma pessoa ter fé no divino?
Aturdida, Sylvie foi andando pelo corredor e passando pelos outros saguões. Todas as salas de TV estavam cheias de gente. Refletiu sobre aquele telefonema que Kohler recebera do Vaticano mais cedo.
Coincidência? Talvez. O Vaticano ligava para o CERN de tempos em tempos como "cortesia" antes de divulgar declarações mordazes condenando as pesquisas do CERN - a mais recente fora sobre os avanços do CERN em nanotecnologia, um campo que a Igreja denunciava por causa de suas implicações para a engenharia genética. O CERN jamais dava importância às críticas. Invariavelmente, minutos após uma das investidas do Vaticano, o telefone de Kohler tocava sem parar com chamadas das companhias de investimento em tecnologia querendo permissão para utilizar a nova descoberta. Kohler sempre dizia:
"Nada melhor do que a má propaganda."
Sylvie ponderou se deveria mandar uma mensagem pelo pager de Kohler, onde quer que ele estivesse metido, e dizer-lhe para ver as notícias. Será que se interessaria? Ou já ouvira tudo? Claro que já deveria ter ouvido. Provavelmente, estava gravando toda a reportagem com sua frenética filmadora, sorrindo pela primeira vez em todo o ano.
Continuando seu percurso pelo corredor, ela finalmente encontrou um saguão com um ambiente mais calmo, quase melancólico. Os cientistas que se encontravam ali vendo televisão eram alguns dos mais velhos e mais respeitados do CERN. Nem repararam quando Sylvie entrou e se sentou.
Do outro lado do CERN, no frígido apartamento de Leonardo Vetra, Maximiian Kohler acabara de ler o diário de capa de couro que tirara da mesa-de-cabeceira de Vetra. Agora, estava assistindo às notícias da televisão. Depois de alguns minutos, guardou o diário, desligou a TV e saiu do apartamento.
Longe dali, na Cidade do Vaticano, o cardeal Mortati levou outra bandeja cheia de fichas de voto para a lareira da Capela Sistina. Queimou-as e a fumaça saiu negra.
Duas votações. Não se elegera o Papa.
CAPÍTULO 83
A luz fraca das lanternas pouco adiantava naquele volumoso negrume da Basílica de São Pedro. O vácuo acima de suas cabeças pesava sobre eles como uma noite sem estrelas. Vittoria sentiu o vazio espalhar-se em torno dela como um oceano solitário. Mantinha-se perto do camerlengo e dos guardas suíços enquanto caminhavam. No alto, uma pomba arrulhou e esvoaçou para longe, as asas farfalhando.
Parecendo notar aquele desconforto, o camerlengo deixou-se ficar para trás e pousou a mão em seu ombro.
Uma força tangível transferiu-se para ela com aquele toque, como se o homem magicamente lhe infundisse a calma de que precisava para o que iam fazer.
O que vamos fazer?, pensou. Isto é loucura!
Contudo, Vittoria sabia que, apesar de toda a irreverência e do inevitável horror da situação, a tarefa que se apresentava era inescapável. As graves decisões que o camerlengo tinha de tomar exigiam informações - informações encerradas em um sarcófago nas Grutas do Vaticano. Perguntava a si mesma o que iriam encontrar. Será que os Iliuminati mataram mesmo o Papa? O poder deles chegaria de fato tão longe? Será que estou prestes a realizar a primeira autópsia em um Papa?
Vittoria achou uma ironia estar mais apreensiva naquela igreja escura do que se estivesse nadando à noite no mar no meio das barracudas. A natureza era seu refúgio. Ela compreendia a natureza. As questões humanas e espirituais é que a deixavam desorientada. A idéia de peixes assassinos reunindo-se no escuro trazia-lhe à cabeça imagens da imprensa reunindo-se do lado de fora da basílica. As filmagens dos corpos marcados lembravam-lhe o cadáver de seu pai e a risada grosseira do matador. O matador estava à solta lá fora, em algum lugar. A raiva abafou o medo de Vittoria.
Quando contornaram uma coluna - de diâmetro maior do que o de qualquer sequóia imaginável -, Vittoria divisou um brilho alaranjado adiante. A luz parecia emanar de baixo do piso no centro da basílica. Ao se aproximarem, ela compreendeu o que estava vendo. Tratava-se do famoso santuário escavado sob o altar principal - a suntuosa câmara subterrânea que continha as relíquias mais sagradas do Vaticano. Junto ao portão que rodeava a abertura, Vittoria olhou para baixo e viu a arca dourada no meio de inúmeras lamparinas a óleo acesas.
- São os ossos de São Pedro? - perguntou, sabendo muito bem que eram. Todo mundo que visitava a Basílica de São Pedro sabia o que havia dentro da pequena arca dourada.
- Na realidade, não - respondeu o camerlengo. - Um engano bastante comum. Isso não é um relicário. Dentro da arca são guardados os palliums, faixas tecidas que o Papa dá aos cardeais recém-eleitos.
- Mas pensei...
- Como todos. Os guias turísticos dizem que aqui é a tumba de São Pedro, mas o verdadeiro túmulo dele fica dois níveis abaixo de nós, enterrado no solo. O Vaticano escavou-o nos anos 1940. Ninguém tem permissão para descer lá.
Vittoria estava impressionada. À medida que saíam do nicho reluzente e voltavam para a escuridão, pensou nas histórias que ouvira de peregrinos que viajavam milhares de quilômetros para ver aquela caixa dourada, achando que estavam na presença de São Pedro.
- O Vaticano não deveria dar essa informação às pessoas?
- Todos nos beneficiamos de uma sensação de contato com a divindade, mesmo que a sensação seja apenas imaginada.
Vittoria, como cientista, não podia discutir aquela lógica. Lera inúmeros estudos sobre os efeitos do placebo - aspirinas curando câncer de pessoas que acreditavam estar usando uma droga milagrosa. O que era afé, afinal de contas?
- Mudanças - disse o camerlengo - não são algo que fazemos muito bem aqui na Cidade do Vaticano. Admitir nossos erros do passado, modernização, são coisas que historicamente evitamos. Sua Santidade estava tentando modificar isto. - Ele fez uma pausa. - Para alcançar o mundo moderno. Procurar novos caminhos para chegar a Deus.
Mesmo no escuro, Vittoria fez um gesto de concordância.
- Como a ciência?
- Para ser franco, a ciência me parece irrelevante.
- Irrelevante? - Vittoria conseguia pensar em uma porção de palavras para definir ciência, mas, no mundo moderno,
"irrelevante" não era uma delas.
- Quando o senhor sentiu sua vocação?
- Antes do meu nascimento.
Vittoria olhou para ele.
- Desculpe - explicou o camerlengo -, essa questão sempre parece estranha. O que quero dizer é que sempre soube que iria servir a Deus. Desde o momento em que comecei a pensar. Só quando rapaz, porém, no exército, é que compreendi verdadeiramente meu objetivo.
Ela ficou surpresa.
- O senhor esteve no exército?
- Dois anos. Recusei-me a disparar uma arma, então me puseram para pilotar helicópteros Medevac. Na realidade, ainda vôo de vez em quando.
Vittoria tentou imaginar o jovem padre pilotando um helicóptero. O interessante é que conseguia vê-lo perfeitamente por trás dos controles. O camerlengo Ventresca possuía uma firmeza de caráter que intensificava suas convicções em vez de tirar-lhes o brilho.
- O senhor chegou a transportar o Papa alguma vez?
- Não, de jeito nenhum. Deixávamos esse passageiro precioso para os profissionais. Sua Santidade às vezes permitia que eu levasse o helicóptero para nosso retiro em Gandolfo. - Ele fez uma pausa, olhando para ela. - Senhorita Vetra, obrigada por sua ajuda aqui hoje. Sinto muito por seu pai. Sinceramente.
- Obrigada.
- Nunca conheci meu pai. Morreu antes que eu nascesse. Perdi minha mãe quando tinha dez anos.
- O senhor ficou órfão? - ela sentiu uma afinidade repentina entre eles.
- Sobrevivi a um acidente. Um acidente que levou minha mãe.
- Quem tomou conta do senhor?
- Deus - disse o camerlengo. - Ele quase literalmente me enviou outro pai. Um bispo de Palermo apareceu junto à minha cama de hospital e tomou conta de mim. Na ocasião, não me surpreendi. Já sentia a mão vigilante de Deus sobre mim desde pequeno. O aparecimento do bispo simplesmente confirmou o que eu já desconfiava, que Deus de certa forma me escolhera para servi-lo.
- O senhor acreditava que Deus o havia escolhido?
- Sim, e ainda acredito. - Não havia qualquer vestígio de vaidade na voz do camerlengo, só de gratidão. - Trabalhei sob a tutela do bispo durante muitos anos. Ele acabou se tornando cardeal. Mas nunca me esqueceu. Ele é o pai de quem me lembro.
A luz de uma das lanternas passou pelo rosto do camerlengo e Vittoria vislumbrou a solidão em seus olhos.
O grupo chegou junto a uma coluna gigantesca e a luz de suas lanternas convergiu para uma abertura no chão. Ao olhar para a escadaria que mergulhava no vazio, Vittoria de repente teve vontade de voltar atrás.
Os guardas já estavam ajudando o camerlengo a descer. Em seguida, ajudaram Vittoria.
- O que aconteceu com ele? - ela perguntou enquanto desciam, tentando manter a voz firme. - Com o cardeal que tomou conta do senhor?
- Ele deixou o Colégio dos Cardeais para assumir outro posto.
Vittoria surpreendeu-se.
- E depois, sinto muito dizer, ele faleceu.
- Le mie condoglianze - disse ela. - Recentemente?
O camerlengo virou-se para ela, as sombras acentuando a dor em seu rosto.
- Há exatamente 15 dias. Vamos vê-lo agora.
CAPÍTULO 84
As luzes escuras espalhavam seu fulgor avermelhado no interior da câmara dos Arquivos do Vaticano. Essa câmara era muito menor do que aquela em que Langdon estivera antes. Menos ar. Menos tempo. Arrependeu-se de não ter pedido a Olivetti para ligar os ventiladores de renovação do ar.
Langdon localizou rapidamente a seção de ativos que continha os livros de registros das Belie Arti. Não havia como não encontrar a seção. Ocupava quase oito estantes completas. A Igreja Católica possuía milhões de peças pelo mundo todo.
Ele examinou as prateleiras à procura do nome de Gianlorenzo Bernini.
Começou sua busca no meio do segundo grupo de estantes, mais ou menos onde deveria começar a letra B. Depois de um breve momento de pânico temendo que aquele catálogo em especial estivesse faltando, ele descobriu, desanimado, que os catálogos não tinham sido dispostos em ordem alfabética. Por que isto não me surpreende tanto assim?
Só depois de contornar tudo, voltar ao início e subir uma escada com rodízios para chegar à prateleira mais alta é que compreendeu o critério da organização da câmara. Empoleirado na parte superior das estantes, encontrou os catálogos mais grossos, referentes aos mestres da Renascença: Michelangelo, Rafael, Da Vinci e Botticelli. Bem de acordo com uma câmara chamada "Ativos do Vaticano", os catálogos eram dispostos segundo o valor monetário total da coleção de cada artista. Entre os de Rafael e Michelangelo, Langdon encontrou o catálogo com o nome de Bernini. Tinha uns 12 centímetros de espessura.
Já sem fôlego e segurando desajeitadamente o incômodo volume, Langdon desceu a escada. Então, como um garoto que vai ler uma revista em quadrinhos, estendeu-se no chão e abriu o livro.
O catálogo tinha capa de pano e era muito compacto. Fora escrito à mão em italiano. Cada página tratava de uma única obra, com uma breve descrição, a data, a localização, o custo dos materiais e às vezes um esboço simples da peça.
Langdon folheou o livro de mais de 800 páginas. Bernini fora um homem ocupado.
Quando Langdon era um jovem estudante de arte, sempre o intrigara como um único artista podia produzir tantos trabalhos durante a vida. Mais tarde, para grande desapontamento seu, descobriu que os artistas famosos criavam na realidade muito pouco de sua própria obra. Dirigiam estúdios onde treinavam jovens artistas para executar seus projetos. Escultores como Bernini criavam miniaturas em barro e contratavam outros para ampliá-las em mármore. Se Bernini tivesse sido obrigado a realizar pessoalmente todas as suas encomendas, ainda estaria trabalhando até hoje.
- Índice - disse ele em voz alta, tentando manter afastadas as teias de aranha mentais. Foi para o final do livro com a intenção de procurar na letra F os títulos com a palavra fuàco - fogo -, mas os Fs não estavam juntos. Que diabos esse pessoal tem contra a ordem alfabética?
As entradas obedeciam a uma ordem cronológica, uma a uma, à medida que Bernini criava uma nova obra. Tudo estava listado por data. Não adiantava procurar ali.
Enquanto contemplava a lista, outro pensamento desalentador ocorreu-lhe. O título da escultura que procurava podia nem conter a palavra Fogo. As duas obras anteriores - Habacuc e o Anjo e West Ponente - não tinham referências específicas a Terra ou Ar.
Passou um ou dois minutos folheando o catálogo ao acaso na esperança de alguma ilustração lhe dar alguma pista. Nenhuma deu. Encontrou inúmeras obras obscuras de que nunca ouvira falar, mas também muitas que reconheceu: Daniel e o Leão, Apolo e Dafne, além de várias fontes. Ao encontrar as fontes, seus pensamentos deram um salto momentâneo para a frente. Água. Imaginou se o quarto altar da ciência seria uma fonte.
Uma fonte seria um perfeito tributo à água. Langdon esperava que pegassem o assassino antes que ele tivesse de considerar o elemento Água - Bernini esculpira dezenas de fontes em Roma, a maioria em frente a igrejas.
E voltou para o assunto em questão, Fogo. Virando as folhas do livro, lembrou-se das palavras de Vittoria para incentivá-lo. Você conhecia as duas primeiras esculturas, provavelmente conhece essa também. Abriu o índice novamente e procurou títulos que conhecia. Alguns lhe eram bem familiares, mas nenhum despertou sua atenção. Langdon concluiu que jamais terminaria aquela busca sem antes desmaiar e então decidiu, a contragosto, que teria de levar o catálogo para fora do arquivo. É só um catálogo, disse a si mesmo. Não é como tirar daqui um fólio original de Galileu. Lembrou-se do fólio no bolso de seu paletó e recomendou a si mesmo que não podia esquecer de devolvê-lo antes de sair.
Apressando-se, estendeu a mão para pegar o livro, mas, ao fazê-lo, viu algo que o fez parar. Embora o índice fosse constituído de numerosas anotações, a que atraiu seu olhar era significativa.
A anotação indicava que a famosa escultura de Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, pouco tempo depois de inaugurada, fora transferida de sua localização original no Vaticano. Mas não foi esse o fato que chamou a atenção de Langdon, sabedor das vicissitudes por que passara aquela escultura. Considerada uma obra-prima por alguns, o Papa Urbano VIII recusou O Êxtase de Santa Teresa alegando que se tratava de uma obra sexualmente muito explícita para o Vaticano. Baniu-a para uma capela obscura do outro lado da cidade. O que despertou o interesse de Langdon foi constatar que essa capela era uma das cinco igrejas de sua lista. E, ainda por cima, que a escultura fora transferida para lá per suggerimento dei artista.
Por sugestão do artista? Não fazia sentido Bernini sugerir que sua obra-prima ficasse escondida em um lugar pouco conhecido. Todo artista quer sua obra exposta em local destacado, não em uma remota...
Langdon hesitava. A menos que...
Receava até acalentar a idéia. Seria possível? Teria Bernini criado intencionalmente uma obra tão explícita que forçara o Vaticano a enfurná-la em algum lugar afastado? Um lugar que talvez Bernini pudesse sugerir?
Quem sabe uma igreja distante que ficasse em linha reta com o sopro de West Ponente?
À medida que aumentava a excitação de Langdon, sua vaga familiaridade com a estátua interferia, insistindo que a obra nada tinha a ver com fogo. A escultura, como qualquer pessoa que a tivesse visto poderia confirmar, era tudo, menos científica - pornográfica até, mas não científica, sem dúvida. Um crítico inglês condenou O Êxtase de Santa Teresa, afirmando que era "o ornamento mais impróprio que jamais fora colocado em uma igreja cristã" Langdon entendia a razão da controvérsia. Apesar de brilhantemente executada, a estátua representava Santa Teresa deitada de costas entregue a um orgasmo dos bons. Nada de acordo com o gosto do Vaticano.
Langdon passou depressa para a descrição da obra no catálogo. Quando viu o desenho, sentiu uma instantânea e inesperada centelha de esperança. No esboço, Santa Teresa realmente parecia estar entregue ao gozo, mas havia uma outra figura que Langdon esquecera e que fazia parte do conjunto.
Um anjo.
A sórdida lenda de repente voltou-lhe à memória...
Santa Teresa era uma freira que fora santificada depois de afirmar que um anjo lhe fizera uma beatífica visita durante o sono. Os críticos mais tarde concluíram que o encontro provavelmente havia sido mais sexual do que espiritual. Rabiscado ao pé da página, Langdon leu um trecho conhecido do diário da santa.
As próprias palavras de Santa Teresa pouco deixavam para a imaginação: sua grande lança dourada... cheia de fogo... penetrou em mim várias vezes.., até minhas entranhas... uma doçura tão extrema que se desejaria que nunca cessasse.
Langdon sorriu. Se isto não é uma metáfora de sexo para valer, não sei o que é. Sorriu também por causa da descrição da obra. Apesar de o parágrafo estar escrito em italiano, a palavra fuàco aparecia uma meia dúzia de vezes.
. . .lança do anjo com a ponta de fogo...
. . .raios de fogo emanando da cabeça do anjo...
. . . mulher inflamada pelo fogo da paixão...
Langdon ainda não se convencera por completo até olhar de novo para o desenho. A lança de fogo do anjo estava erguida como um farol apontando o caminho. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. E até o tipo de anjo que Bernini escolhera parecia significativo. É um serafim, observou Langdon. Serafim significa literalmente "o que é feito de fogo".
Robert Langdon não era um homem que algum dia tivesse esperado por uma confirmação vinda do alto, mas quando leu o nome da igreja onde a escultura agora se encontrava resolveu que, afinal de contas, poderia começar a acreditar em alguma coisa.
Santa Maria dela Vittoria.
Vittoria, pensou ele, rindo. Perfeito.
Pôs-se de pé meio cambaleante e sentiu uma tonteira. Olhou para o alto da escada, ponderando se deveria repor o livro no lugar. Ora, dane-se, pensou. O Padre Jaqui pode fazer isso depois. Fechou o livro e colocou-o educadamente ao pé da estante.
Quando se encaminhou para o botão luminoso na saída eletrônica da câmara, sua respiração estava curta.
Ainda assim, sentia-se rejuvenescido por sua boa sorte.
Sua boa sorte, porém, terminou antes que alcançasse a saída.
Sem aviso, a câmara exalou um suspiro penoso. As luzes diminuíram e o botão luminoso apagou-se. Então, como um enorme animal que expira, o arquivo inteiro ficou às escuras. Alguém desligara a energia elétrica.
CAPÍTULO 85
As Grutas Santas do Vaticano estão situadas sob o chão da Basílica de São Pedro. É lá que são enterrados os Papas.
Vittoria chegou ao fim da escada em espiral e entrou na gruta. O túnel escuro lembrava o do Grande Colisor de Hádrons do CERN, o acelerador de partículas - negro e frio. Iluminado agora apenas pela luz das lanternas da Guarda Suíça, o túnel transmitia uma sensação nitidamente incorpórea. Dos dois lados havia nichos cavados ao longo das paredes. Dentro desses vãos, até onde a luz lhes permitia enxergar, assomavam volumosas as sombras dos sarcófagos.
Um calafrio fez seu corpo estremecer. É o ar frio, disse a si mesma, sabendo entretanto que só em parte era verdade. Tinha a impressão de estarem sendo observados, não por alguém de carne e osso, mas por espectros na penumbra.
Em cima de cada túmulo, com todas as vestimentas papais, repousavam figuras em tamanho natural com os traços de cada Papa falecido, retratado como morto, os braços dobrados sobre o peito. Os corpos deitados pareciam emergir das tumbas como se pressionados de encontro às tampas de mármore para tentar escapar de sua reclusão mortal. A procissão de lanternas avançava e as silhuetas dos Papas subiam e desciam nas paredes, prolongando-se e desaparecendo como um macabro teatro de sombras.
Caíra um silêncio sobre o grupo, Vittoria não saberia dizer se de respeito ou de apreensão. Ambos, talvez.
O camerlengo andava de olhos fechados, como se soubesse de cor cada passo. Vittoria desconfiava que ele já fizera aquele lúgubre passeio muitas vezes desde a morte do Papa, talvez para rezar junto à sua tumba em busca de orientação.
Trabalhei sob a sua tutela durante muitos anos. Ele foi um pai para mim, dissera o camerlengo. Vittoria lembrou-se do camerlengo dizendo essas palavras ao se referir ao religioso que o "salvara" do exército. Agora, porém, ela compreendia o resto da história. O mesmo homem que tomara o camerlengo sob sua proteção chegara mais tarde ao papado e levara consigo seu jovem protegido para servir como camarista.
Isto explica muita coisa, pensou Vittoria. Ela sempre possuíra uma intuição bem afinada para as emoções íntimas das pessoas, e algo no camerlengo a vinha intrigando o dia inteiro. Desde que o encontrara, percebera nele uma angústia mais sentimental e pessoal do que a causada pela crise avassaladora que enfrentava naquele momento. Por trás daquela calma piedosa, via um homem atormentado por demônios particulares. Não só enfrentava a ameaça mais devastadora da história do Vaticano, como o fazia sem seu amigo e mentor, voando solo.
Os guardas diminuíram o passo, como se não soubessem exatamente onde, naquela escuridão, o último Papa fora enterrado. O camerlengo continuou andando, seguro, e se deteve diante de uma tumba cujo mármore ainda conservava um brilho que as outras não tinham mais. Deitada sobre ela, uma imagem esculpida do Papa falecido. Quando Vittoria reconheceu o rosto que via sempre na televisão, sentiu uma pontada de medo. O que estamos fazendo?
- Sei que não temos muito tempo - disse o camerlengo -, mas ainda assim pediria que fizéssemos uma rápida oração.
Os guardas suíços curvaram a cabeça. Vittoria fez o mesmo, seu coração batendo forte naquele silêncio. O camerlengo ajoelhou-se junto à tumba e rezou em italiano. Escutando aquelas palavras, Vittoria sentiu um pesar inesperado vir à tona em forma de lágrimas - lágrimas por seu próprio mentor, seu próprio santo pai. As palavras do camerlengo eram tão adequadas para o Papa quanto para seu pai.
- Pai supremo, conselheiro, amigo. - A voz do camerlengo ecoava mansamente na roda de pessoas. - O senhor me disse, quando eu era jovem, que a voz de meu coração era a voz de Deus. Disse que eu deveria segui-la ainda que me levasse para caminhos difíceis. Ouço essa voz agora, exigindo de mim tarefas impossíveis. Dê-me forças. Conceda-me o perdão. O que faço é em nome de tudo em que o senhor acreditava. Amém.
- Amém - murmuraram os guardas.
Amém, pai. Vittoria enxugou os olhos.
O camerlengo levantou-se devagar e afastou-se da tumba.
- Empurrem a tampa para o lado.
Os guardas suíços ficaram indecisos.
- Signore - disse um deles -, por lei, estamos sob suas ordens. - Fez uma pausa. -Faremos o que mandar...
O camerlengo pareceu ler a mente do rapaz.
- Um dia, vou pedir perdão a vocês por tê-los colocado nesta situação. Hoje, peço que me obedeçam. As leis do Vaticano foram estabelecidas para proteger esta igreja. Com esse mesmo espírito, exijo que agora as infrinjam.
Houve um momento de silêncio e então o líder dos guardas deu a ordem. Os três homens colocaram as lanternas no chão e suas sombras saltaram para o alto. Iluminados de baixo para cima, aproximaram-se da tumba. Apoiaram as mãos na tampa de mármore na altura da cabeceira da tumba, plantaram os pés no chão com firmeza e prepararam-se para empurrar. A um sinal, todos empurraram juntos, retesados de encontro à enorme lápide. Ao ver que a lápide não se deslocara nem um pouco, Vittoria se deu conta de estar quase torcendo para que fosse pesada demais. Temia o que poderiam encontrar ali dentro.
Os homens empurraram mais e a lápide não saiu do lugar.
- Ancora - disse o camerlengo, enrolando as mangas de sua batina e tomando posição para empurrar junto com eles. - Ora! - Todos empurraram ao mesmo tempo.
Vittoria estava prestes a oferecer ajuda, quando a lápide começou a deslizar. Os homens deram impulso outra vez e, com um rangido de pedra contra pedra que parecia um grunhido primal, a lápide girou em cima da tumba e parou formando um ângulo - a cabeça esculpida do Papa dentro do nicho e seus pés estendidos no corredor.
Todos recuaram.
Tateando, um dos guardas abaixou-se e apanhou sua lanterna no chão. Depois, apontou-a para o interior da tumba. O facho de luz tremeu um pouco e então o guarda o firmou. Os outros guardas reuniram-se ao primeiro, um a um. Mesmo no escuro, Vittoria percebeu que eles recuaram e, sucessivamente, se benzeram.
O camerlengo estremeceu quando olhou para dentro da tumba e seus ombros caíram, pesados. Ficou parado algum tempo antes de se virar.
Vittoria receava que a boca do cadáver estivesse cerrada com o rigor mortis e ela sugeriu que se quebrasse a mandíbula para ver a língua. Mas isso não seria necessário. As faces haviam caído e a boca do Papa estava aberta.
Sua língua estava negra como a morte.
CAPÍTULO 86
Nenhuma UZ. Nenhum som.
Os Arquivos Secretos estavam imersos em negra escuridão.
O medo, notou Langdon, era um forte motivador. Sem fôlego, saiu vacilante na direção da porta rotativa.
Encontrou o botão na parede e bateu nele com a palma da mão. Nada aconteceu. Tentou de novo. A porta estava desligada.
Rodopiou às cegas, tentou chamar em voz alta, mas a voz saiu estrangulada.
O estado crítico de sua situação tomou conta dele por completo. Seus pulmões lutavam por oxigênio quanto mais a adrenalina acelerava sua batida cardíaca.
A sensação era a de um soco no estômago.
Quando se atirou com todo o seu peso contra a porta, por um segundo achou que ela começara a girar.
Empurrou de novo e viu estrelas. Deu-se conta de que era a sala inteira que rodava, não a porta.
Desequilibrou-se, tropeçou na base de uma escada de rodízios e caiu pesadamente no chão. Cortou o joelho na quina de uma estante. Xingando, levantou-se e saiu procurando a escada.
Encontrou-a. Esperava que fosse de madeira pesada ou de ferro, mas era de alumínio. Agarrou-a, segurou-a como um aríete e correu com ela no escuro para a parede de vidro. A parede ficava mais perto do que ele imaginara. A escada bateu e voltou. Pelo som fraco da colisão, ele percebeu que precisaria de muito mais do que uma escada de alumínio para quebrar aquele vidro.
Ocorreu-lhe usar o revólver, mas suas esperanças se esvaíram tão depressa quanto haviam surgido. A arma não estava mais com ele. Olivetti a tomara dele no escritório do Papa, dizendo que não queria armas carregadas por perto com o camerlengo presente. Na hora, fizera sentido.
Langdon chamou de novo, produzindo ainda menos som do que antes.
Em seguida, lembrou-se do walkie-talkie que o guarda deixara na mesa fora da câmara. Por que diabos não o trouxe para dentro! Estrelinhas roxas começaram a dançar diante de seus olhos e ele se esforçou para pensar. Você já ficou preso antes, disse a si mesmo. Já sobreviveu a coisa pior.
Era só uma criança e conseguiu se safar. A escuridão tenebrosa inundou tudo. Pense!
Langdon então se abaixou, deitou de costas no chão e estendeu os braços ao lado do corpo. O primeiro passo era recuperar o autocontrole.
Relaxe. Poupe-se.
Sem ter mais que lutar contra a gravidade para bombear o sangue, o coração de Langdon começou a bater mais devagar. Aquele era um truque que os nadadores usavam para reoxigenar o sangue entre competições subseqüentes.
Tem ar mais do que suficiente aqui dentro, disse a si mesmo. Mais do que suficiente. Agora, pense. Esperou, quase acreditando que a luz voltaria a qualquer momento. Não voltou. Deitado ali, conseguindo respirar melhor, uma sinistra resignação o invadiu. Sentiu-se em paz. E lutou contra aquela sensação.
Você vai se mexer, droga! Mas onde...
No seu pulso, Mickey Mouse brilhava alegremente, como se estivesse gostando do escuro: 9h33 da noite.
Meia hora para o Fogo. Tinha a impressão de que fosse muito mais tarde. Em sua cabeça, em vez de um plano para sair dali, vinham perguntas, a necessidade de uma explicação. Quem teria desligado a luz?
Será que teria sido Rocher, expandindo sua busca? E Olivetti, por que não informou Rocher que eu estava aqui dentro? Langdon sabia entretanto que, àquela altura, não fazia diferença alguma.
Abrindo bem a boca e inclinando um pouco a cabeça para trás, conseguia inalar o mais fundo que lhe era possível. A cada vez, a respiração ardia menos do que a anterior. Sua mente clareou. Reorganizou seus pensamentos e forçou as engrenagens a se movimentarem.
Paredes de vidro, ponderou. Mas um vidro danado de grosso.
Conjeturou se haveria livros guardados em um daqueles arquivos de aço pesados, à prova de fogo.
Langdon já os encontrara algumas vezes em outros lugares, mas não vira nenhum ali. Além disso, procurar no escuro levaria tempo demais. Não que ele, de qualquer modo, fosse capaz de levantar um arquivo de aço, ainda mais naquele estado.
Que tal a mesa de exame? Sabia que naquela câmara, como na anterior, havia uma no meio das estantes. E daí? Não conseguiria levantá-la também. Sem falar que, mesmo que tivesse forças para arrastar a mesa, não poderia ir muito longe. As estantes ficavam muito juntas e as passagens entre elas eram estreitas demais.
As passagens são estreitas...
De repente, soube o que iria fazer.
Em um rompante de confiança, pôs-se de pé mais depressa do que deveria. Tonto, estendeu a mão à procura de um ponto de apoio. Sua mão encontrou uma estante. Parou alguns segundos, obrigando-se a poupar energia. Precisaria de toda a sua força para fazer o que pretendia.
Encostou o corpo na estante, firmou os pés no chão e empurrou. Se conseguir fazer a estante se inclinar... Mas ela nem se moveu. Mudou de posição e empurrou outra vez. Seus pés escorregaram para trás. A estante rangeu, mas nem se abalou.
Precisava de uma alavanca.
Encontrou a parede de vidro de novo e pousou uma das mãos nela, correndo até o fim da câmara. A parede do fundo surgiu de repente e ele bateu com o ombro nela. Soltou um palavrão, contornou a prateleira e agarrou a estante na altura do seu rosto. Em seguida, escorando um dos pés na parede de vidro atrás de si e o outro nas prateleiras inferiores, começou a subir. Livros caíam em torno dele, farfalhando na escuridão.
Nem se importou. O instinto de sobrevivência há muito que superara seu decoro arquivístico. Reparou que a escuridão total afetava seu equilíbrio e fechou os olhos, incentivando sua mente a ignorar o estímulo visual. Aos poucos foi se deslocando com mais rapidez. Quanto mais subia, mais rarefeito ficava o ar.
Chegou com grande esforço às prateleiras do alto, pisando nos livros, procurando apoio, puxando o corpo para cima. Então, como um alpinista que acabou de conquistar uma plataforma de pedra, alcançou a última prateleira. Estendendo as pernas para trás, fez seus pés andarem pela parede de vidro até seu corpo ficar quase na horizontal.
É agora ou nunca, Robert, uma voz animou-o. Igual ao aparelho de musculação para as pernas da academia de ginástica de Harvard.
Com um esforço sobre-humano, firmou os pés na parede atrás de si, encostou o peito e os braços na estante e empurrou. Nada aconteceu.
Lutando para respirar, reposicionou-se e tentou de novo, esticando as pernas. A estante mexeu-se ligeiramente, ele empurrou outra vez, a estante balançou uns centímetros para a frente e voltou. Langdon aproveitou o balanço, inalando o que lhe pareceu uma ausência total de oxigênio e deu novo impulso. A estante oscilou mais um pouco.
Como um balanço, disse consigo. Mantenha o ritmo. Um pouco mais.
Langdon balançava a estante esticando mais as pernas a cada impulso. Seus quadríceps ardiam, mas ele procurava bloquear a dor. O pêndulo estava em movimento. Três empurrões mais, incentivou a si mesmo.
Só precisou de dois.
Houve um instante de incerteza, de ausência de peso. Depois, com uma trovoada de livros escorregando das prateleiras, Langdon e a estante caíram para a frente.
No meio do caminho, a estante bateu na estante seguinte. Langdon segurou- se, jogando seu peso para a frente, obrigando a segunda estante a tombar. Um segundo de pânico imóvel e, estalando com o peso, a segunda estante começou a inclinar-se. Langdon recomeçou a cair.
Tal e qual enormes peças de dominó, as estantes tombaram uma após a outra. Metal chocando-se com metal, livros vindo abaixo por todos os lados, Langdon segurou-se como pôde enquanto sua estante se inclinava como uma lingüeta de catraca em um macaco de automóvel. Tentava calcular quantas estantes haveria no total. Quanto pesariam? O vidro na outra extremidade da câmara era grosso...
A estante de Langdon caíra em uma posição quase horizontal quando ele ouviu o que esperava - um tipo diferente de colisão. Longe. Do outro lado da câmara. O choque estridente do metal no vidro. A câmara à sua volta foi sacudida e ele teve certeza de que a última estante, derrubada pelo peso das outras, batera violentamente no vidro, O som que se seguiu foi o menos bem-vindo que ele ouvira até então.
Silêncio absoluto.
Não houve o ruído do vidro se despedaçando, só o baque surdo do peso das estantes todas juntas encostando-se na parede. Langdon ficou parado em cima da pilha dos livros, os olhos arregalados, à espera. Em algum ponto distante houve um estalo. Langdon teria de bom grado prendido a respiração para escutar melhor se ainda conseguisse respirar.
Um segundo. Dois...
Então, à beira da inconsciência, Langdon ouviu algo ceder, um murmúrio propagando-se pelo vidro afora.
De repente, igual a um tiro de canhão, o vidro explodiu. A estante sobre a qual ele estava acabou de despencar.
Como uma deliciosa chuva no deserto, estilhaços de vidro caíram tilintando no escuro. Houve um grande silvo de sucção e o ar entrou jorrando.
Trinta segundos depois, nas Grutas do Vaticano, Vittoria estava de pé diante de um cadáver quando o ruído eletrônico de um walkie-talkie rompeu o silêncio. A voz alta e aguda soou arquejante.
- Aqui é Robert Langdon! Alguém está me ouvindo?
Vittoria levantou depressa a cabeça. Robert! Mal acreditava o quanto desejava que ele estivesse ali naquela hora.
Os guardas trocaram olhares, confusos. Um deles tirou o aparelho do cinto.
- Senhor Langdon? O senhor está no canal três, O comandante está esperando para falar com o senhor no canal um.
- Sei que ele está no canal um, droga! Não quero falar com ele. Quero falar com o camerlengo. Agora!
Alguém o encontre para mim!
Na obscuridade dos Arquivos Secretos, Langdon encontrava-se no meio de pedaços espatifados de vidro e tentava recuperar o fôlego. Sentiu algo quente escorrendo em sua mão e notou que estava sangrando. A voz do camerlengo veio de imediato, fazendo-o assustar-se.
- Aqui é o camerlengo Ventresca. O que está havendo?
Langdon apertou o botão, o coração ainda batendo forte.
- Acho que alguém tentou me matar!
Fez-se silêncio do outro lado da linha.
Langdon procurou acalmar-se.
- Também sei onde vai ser o próximo assassinato.
A voz que ouviu de volta não foi a do camerlengo. Foi a do comandante Olivetti.
- Senhor Langdon. Não diga mais nenhuma palavra.
CAPÍTULO 87
O relógio de Langdon, todo lambuzado de sangue, marcava 9h41 quando ele atravessou correndo o Pátio do Belvedere e se aproximou da fonte diante do centro de segurança da Guarda Suíça. Sua mão parara de sangrar e agora doía mais do que sua aparência fazia supor. Quando ele chegou, foi como se todos tivessem chegado também ao mesmo tempo - Olivetti, Rocher, o camerlengo, Vittoria e uma porção de guardas.
Vittoria correu para ele.
- Robert, você está machucado.
Antes que Langdon pudesse responder, Olivetti postou-se diante dele.
- Senhor Langdon, é um alívio vê-lo bem. Sinto muito pelas falhas de comunicação nos Arquivos.
- Falhas de comunicação? - reclamou Langdon. - Você sabia muito bem...
- Foi minha culpa - adiantou-se Rocher, com ar contrito. - Não sabia que o senhor estava nos Arquivos.
Parte de nossas zonas brancas tem ligação com aquele prédio. Estávamos ampliando nossa busca. Fui eu quem desligou a energia elétrica. Se tivesse sabido...
- Robert - disse Vittoria, segurando a mão ferida dele e examinando-a - o Papa foi envenenado, Os Iliuminati o mataram.
Langdon ouviu as palavras, mas não as registrou. Estava exausto. Só era capaz de sentir o calor das mãos de Vittoria.
O camerlengo tirou um lenço de seda de sua batina e o entregou a Langdon para que ele se limpasse. O homem não dizia nada. Seus olhos pareciam brilhar com um novo fogo.
- Robert - insistiu Vittoria -, você disse que descobriu onde o próximo cardeal vai ser morto?
Langdon sentia-se meio frívolo.
- Descobri, é na...
- Não - interrompeu Olivetti. - Senhor Langdon, quando lhe pedi para não dizer mais nada no walkie-talkie, havia um motivo. - Virou-se para os guardas suíços que os rodeavam. - Senhores, dêem-nos licença.
Os soldados desapareceram no centro de segurança. Sem qualquer indignidade. Só submissão.
Olivetti voltou-se para o grupo que restara.
- Por mais que seja doloroso para mim dizer isto, o assassinato do nosso Papa foi um ato perpetrado com a ajuda de alguém que vive dentro destes muros. Para o bem de todos, não podemos confiar em mais ninguém. Até mesmo em nossos guardas. - Ele parecia estar sofrendo ao falar aquilo.
Rocher, ansioso, disse:
- Conspiração interna, quer dizer que...
- Sim - disse Olivetti -, que a validade de sua busca está comprometida. No entanto, é um risco que temos de correr. Continue procurando.
Rocher ia dizer alguma coisa, mas pensou melhor e foi embora.
O camerlengo respirou fundo. Ainda não dissera uma palavra sequer e Langdon notou que havia uma nova austeridade no homem, como se tivesse chegado a um momento decisivo.