Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 3 de 8 · parte 1/2

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Anjos e Demônios

Langdon estava oficialmente perdido. Criar um universo? Recriar o Big-Bang?

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

- Foi feito em muito menor escala, evidentemente - disse Vittoria, agora falando mais depressa. – O processo era extremamente simples. Ele acelerou dois feixes de partículas ultrafinas em direções opostas no tubo acelerador. Os dois feixes colidiram de frente a uma extraordinária velocidade, entrando um pelo outro e comprimindo toda a sua energia em um único ponto. Assim, ele conseguiu obter densidades extremas de energia.

Ela começou a citar uma longa sucessão de unidades e os olhos do diretor se arregalaram.

Langdon esforçava-se para acompanhar o assunto.

Quer dizer que Leonardo Vetra estava simulando o ponto comprimido de energia a partir do qual o universo supostamente nasceu.

- O resultado - disse Vittoria - foi nada mais nada menos do que maravilhoso. Quando for publicado, vai abalar a própria estrutura da Física moderna.

- Ela passou a falar devagar, saboreando a dimensão daquilo que estava revelando. - De repente, dentro do tubo do acelerador, desse ponto de energia altamente concentrada, partículas de matéria começaram a aparecer do nada.

Kohler não esboçava qualquer reação, olhava para ela estático.

- Matéria - repetiu Vittoria. - Brotando do nada. Um incrível espetáculo de fogos de artificio subatômicos.

Um universo em miniatura desabrochando para a vida. Meu pai não só provou que a matéria pode ser criada do nada, como demonstrou que o Big-Bang e o Gênese podem ser explicados se simplesmente aceitarmos a presença de uma imensa fonte de energia.

- Você quer dizer Deus? - perguntou Kohler.

- Deus, Buda, A Força, Iavé, a singularidade, o ponto de unicidade, chame como quiser, o resultado é o mesmo. Ciência e religião apóiam a mesma verdade: a energia pura é a mãe da criação.

Quando Kohler finalmente falou, sua voz era soturna.

- Vittoria, você me deixou perdido. Será que está mesmo me dizendo que seu pai criou matéria.., a partir do nada?

- Estou. - Vittoria apontou para os tubos. - A prova está ali. Naqueles tubos, há espécimes da matéria que ele criou.

Kohler tossiu e dirigiu-se para os tubos como um animal desconfiado rodeando alguma coisa que, por instinto, pressente não ser boa.

- Eu devo ter perdido alguma parte da sua explicação - disse ele. - Como quer que eu acredite que esses tubos contêm partículas de matéria criada por seu pai? Poderiam ser partículas vindas de qualquer lugar.

- Na verdade - disse Vittoria, confiante -, não poderiam. Essas partículas são únicas. São um tipo de matéria que não existe em nenhum lugar da Terra, portanto, só poderiam ter sido criadas.

O rosto de Kohler tornou-se sombrío.

-Vittoria, o que quer dizer com "um tipo de matéria"? Só existe um tipo, e...

- Kohler parou de falar.

Vittoria tinha uma expressão triunfante no rosto.

- O senhor mesmo falou sobre o assunto em suas palestras, diretor. O universo contém dois tipos de matéria. É um fato científico. - Vittoria voltou-se para Langdon. - Senhor Langdon, o que a Bíblia diz sobre a criação? O que Deus criou?

Langdon ficou embaraçado, sem saber o que aquilo tinha a ver com a questão.

- Humm, Deus criou.., luz e trevas, céu e inferno...

- Exato - interrompeu Vittoria. Deus criou tudo em opostos. Em simetria. Em perfeito equilíbrio. - Voltou-se novamente para Kohler. - Diretor, a ciência afirma o mesmo que a religião, que o Big-Bang criou tudo no universo com um oposto.

- Inclusive a própria matéria - Kohler murmurou, como se falasse para si mesmo.

Vittoria balançou a cabeça.

- E quando meu pai realizou essa experiência, indiscutivelmente, dois tipos de matéria apareceram.

Langdon especulava o que isso significaria. Leonardo Vetra criou o oposto da matéria?

Kohler parecia zangado.

- A substância a que você se refere só existe em algum outro lugar do universo. Certamente não na Terra. E possivelmente nem na nossa galáxia!

- Exatamente - replicou Vittoria. - O que prova que as partículas que estão nesses tubos teriam de ser criadas.

O rosto de Kohler endureceu.

- Vittoria, você não pode estar dizendo que esses tubos contêm espécimes de verdade?

- Estou - e ela olhou com orgulho para os tubos. - Diretor, o senhor está diante dos primeiros espécimes do mundo de antimatéria.

CAPÍTULO 20

Fase dois, pensou o Hassassin, caminhando a passos largos pelo túnel escuro.

A tocha na mão dele era um exagero, ele sabia. Mas servia para causar efeito. Efeito era tudo. O medo, aprendera, era seu aliado. O medo mutila mais depressa do que qualquer implemento de guerra.

Não havia nenhum espelho no caminho para ele apreciar seu disfarce, mas, pela sombra ondulante do manto, dava para perceber que estava perfeito. Misturar-se às pessoas fazia parte do plano, parte da depravação da intriga. Em seus sonhos mais loucos, jamais imaginara desempenhar aquele papel.

Duas semanas antes, teria considerado a tarefa que o esperava no final daquele túnel como sendo impossível. Uma missão suicida. Entrar desarmado no covil do leão. Mas Janus transformara a definição de impossível.

Os segredos que Janus partilhara com o Hassassin nas duas últimas semanas haviam sido muitos – aquele túnel era um deles. Antigo, mas ainda perfeitamente usável.

À medida que se aproximava de seu inimigo, o Hassassin ponderava se o que o esperava lá dentro seria mesmo tão fácil quanto Janus prometera. Janus garantira que alguém no interior faria os arranjos necessários. Alguém no interior. Incrível. Quanto mais refletia, mais chegava à conclusão de que seria brincadeira de criança.

Wahad... tintain... thalatha... arbaa, disse para si mesmo em árabe ao se aproximar do final. Um... dois... três... quatro...

CAPÍTULO 21

- Imagino que já tenha ouvido falar de antimatéria, não é, senhor Langdon? – Vittoria estudava-o, sua pele morena contrastando nitidamente com a brancura do laboratório.

Langdon levantou a cabeça. Estava bastante zonzo.

- Sim, isto é, mais ou menos.

Um ligeiro sorriso aflorou-lhe aos lábios.

- O senhor vê Jornada nas Estrelas.

Langdon enrubesceu.

- Bem, meus alunos gostam... - Ele franziu a testa. - Antimatéria é o combustível da Enterprise?

Ela concordou com um gesto.

- A boa ficção científica tem suas raízes na boa ciência.

- Quer dizer que existe antimatéria?

- Um fato da natureza. Tudo tem seu oposto. Os prótons têm os elétrons. Os up-quarks têm os down-quarks. Há uma simetria cósmica no nível subatômico. A antimatéria é o yin do yang da matéria. Equilibra a equação fisica.

Langdon lembrou Galileu e sua crença na dualidade.

- Os cientistas sabem desde 1918 - explicou ela - que dois tipos de matéria foram criados no Big-Bang. Um deles é o que vemos aqui na Terra, formando rochas, árvores, pessoas. O outro é o inverso, idêntico à matéria em todos os sentidos, exceto que as cargas de suas partículas são invertidas.

Kohler falou como se emergisse de um nevoeiro, a voz instável.

- Existem enormes barreiras tecnológicas para se armazenar antimatéria. E quanto à neutralização?

- Meu pai criou um vácuo de polaridade inversa para puxar os pósitrons de antimatéria para fora do acelerador antes que se desintegrassem.

Kohler objetou.

- Mas o vácuo também puxaria a matéria para fora. Não haveria como separar as partículas.

- Ele aplicou um campo magnético. A matéria arqueia-se para a direita, a antimatéria, para a esquerda. Têm polaridades opostas.

Naquele instante, abriu-se uma brecha na muralha de dúvidas de Kohler. Ele levantou os olhos para Vittoria claramente espantado e, em seguida, foi tomado por um acesso de tosse.

- Ina... credi... tável - disse, enxugando a boca. - No entanto... - parecia que sua lógica ainda resistia -, mesmo que o vácuo funcionasse, esses tubos são feitos de matéria. A antimatéria não pode ser armazenada dentro de tubos feitos de matéria. A antimatéria reagiria de imediato com...

- O espécime não está tocando o tubo - disse Vittoria, que já devia esperar a pergunta. -A antimatéria está suspensa. Os tubos são chamados de "armadilhas de antimatéria" porque literalmente prendem a antimatéria no centro do tubo, suspendendo-a a uma distância segura das laterais e do fundo.

- Suspensa? Mas... como?

- Na interseção de dois campos magnéticos. Venha, dê uma olhada aqui.

Vittoria atravessou a sala e apanhou um grande aparelho eletrônico. Lembrou a Langdon uma espécie de pistola luminosa para projetar desenhos animados: um cano largo parecido com o de um canhão, um visor no topo e um emaranhado de dispositivos eletrônicos pendurado atrás. Vittoria alinhou o visor com um dos tubos, olhou pela lente e calibrou alguns botões. Depois, afastou-se para Kohler poder olhar. Este perguntou, pasmo:

- Vocês coletaram porções visíveis?

- Cinco mil nanogramas - respondeu Vittoria. - Plasma líquido contendo milhões de pósitrons.

- Milhões? Mas umas poucas partículas foi tudo o que já se detectou... em qualquer lugar.

- Xenônio - disse Vittoria, categórica. - Ele acelerou um feixe de partículas através de um jato de xenônio, separando os elétrons. Insistia em manter em segredo o procedimento exato, mas este implicava injetar simultaneamente elétrons puros no acelerador.

Langdon estava perdido, tinha a impressão de que não falavam mais a mesma língua.

Kohler parou, as linhas de sua testa aprofundando-se. Súbito, prendeu rapidamente a respiração e seus ombros se curvaram, como se tivesse sido atingido por uma bala.

- Tecnicamente, isso deixaria...

Vittoria sacudiu a cabeça.

- É. Um bocado.

Kohler voltou a atenção para o tubo diante dele. Vacilante, ergueu o corpo na cadeira e colocou um olho no visor. Ficou olhando durante muito tempo sem dizer palavra. Quando afinal se sentou, sua testa estava coberta de suor. As linhas em seu rosto haviam desaparecido. Sua voz era um sussurro.

- Meu Deus... Você conseguiu mesmo.

Vittoria corrigiu-o.

- Meu pai conseguiu.

- Nem sei o que dizer.

Vittoria virou-se para Langdon.

- Gostaria de dar uma espiada? - E fez um gesto para o aparelho.

Sem saber o que tinha pela frente, Langdon aproximou-se. A dois passos de distância, o tubo parecia vazio. O que quer que houvesse lá dentro, era diminuto. Ele encostou o olho no visor. Levou um instante até a imagem entrar em foco.

Então, ele viu. O objeto não estava no fundo do recipiente como ele esperava, mas flutuando no meio, suspenso no ar, um glóbulo tremeluzente de um líquido parecido com mercúrio. Pairando como em um passe de mágica, o líquido agitava-se no espaço. Pequenas ondulações metálicas percorriam a superficie da gotícula. O fluido em suspensão trouxe à mente de Langdon um vídeo em que vira uma gota de água em gravidade zero. Mesmo sabendo que o glóbulo era microscópico, podia acompanhar cada mudança de forma à medida que a bola de plasma ia se movimentando vagarosamente.

- Está flutuando - disse.

- É bom que esteja - replicou Vittoria. - A antimatéria é altamente instável. Do ponto de vista energético, a antimatéria é a imagem espelhada da matéria, de modo que as duas instantaneamente se cancelam uma à outra se entram em contato. Manter a antimatéria isolada da matéria é sem dúvida um desafio, porque tudo na Terra é feito de matéria. As amostras têm de ser guardadas sem jamais tocarem qualquer coisa, até o ar.

Langdon estava admirado. Imagine trabalhar no vácuo.

- Esses recipientes da antimatéria - interrompeu Kohler, deslizando um dedo pálido em volta de uma das bases -, foi seu pai quem os projetou?

- Não, na verdade, fui eu.

Kohler encarou-a.

A voz dela soava despretensiosa.

- Meu pai produziu as primeiras partículas de antimatéria, mas viu-se em apuros para armazená-las. Eu sugeri esses recipientes. Cápsulas herméticas nanocompósitas com eletromagnetos opostos em cada extremidade.

- Parece que a genialidade de seu pai passou para você.

- Na verdade, não. Tirei a idéia da natureza. As caravelas, ou águas-vivas, capturam peixes entre seus tentáculos usando cargas de líquido urticante de nematocistos. Temos o mesmo princípio aqui. Cada tubo tem dois eletroímãs, um em cada extremidade. Seus campos magnéticos opostos cruzam-se no centro do tubo e mantêm a antimatéria ali, suspensa no vácuo.

Langdon voltou-se mais uma vez para o tubo. Antimatéria flutuando no vácuo, sem tocar coisa alguma.

Kohler tinha razão. Era genial.

- Onde está a fonte de energia para os ímãs? - perguntou Kohler.

Vittoria apontou.

- Na coluna que fica embaixo de cada tubo. Os tubos são aparafusados em módulos de acoplamento que os recarregam continuamente, de modo que os magnetos nunca param de funcionar.

- E se o campo magnético parar de funcionar?

- Acontece o óbvio. A antimatéria cai, atinge o fundo do tubo e dá-se um aniquilamento.

Langdon apurou os ouvidos e repetiu:

- Aniquilamento? - A palavra não lhe soava nada bem.

Vittoria não demonstrava preocupação.

- Sim. Se a antimatéria e a matéria entram em contato uma com a outra, ambas são destruídas instantaneamente. Os físicos chamam a esse processo de aniquilamento, ou desmaterialização.

-Ah.

- É a reação mais simples da natureza, uma partícula de matéria e uma partícula de antimatéria combinam-se para liberar duas novas partículas, chamadas fótons. Um fóton é na verdade uma diminuta chispa de luz.

Langdon já lera sobre fótons - partículas de luz -, a mais pura forma de energia. Resolveu não perguntar sobre o uso de torpedos de fótons pelo capitão Kirk contra os Klingons.

- Então, se a antimatéria cair, vemos uma minúscula centelha de luz?

- Depende do que chama de minúscula. Veja, vou mostrar como é.

E ela começou a desatarrachar um dos tubos da coluna condutora de eletricidade que o mantinha carregado.

Kohler deu um grito apavorado e atirou-se para a frente, empurrando as mãos dela.

- Vittoria! Você enlouqueceu?!

CAPÍTULO 22

Kohler, por incrível que pudesse parecer, ficou de pé por um momento, cambaleando nas

duas pernas atrofiadas. Seu rosto estava branco de medo.

- Vittoria! Você não pode tirar esse tubo daí!

O pânico repentino do diretor assustou Langdon.

- Quinhentos nanogramas! - exclamou Kohler. - Se você interromper o campo magnético...

- Diretor - Vittoria tranqüilizou-o -, é totalmente seguro. Cada tubo tem um dispositivo de segurança, uma bateria própria para o caso de ser removido de seu recarregador. O espécime continua em suspensão mesmo que eu tire o tubo da coluna.

Kohler não parecia muito convencido. Depois, hesitante, instalou-se de volta na cadeira.

- As baterias são ativadas automaticamente - continuou Vittoria - quando o tubo é retirado do recarregador.

Funcionam durante 24 horas. Como um tanque de reserva de gasolina. - Ela se virou para Langdon, percebendo sua preocupação. - A antimatéria tem algumas características surpreendentes, senhor Langdon, que a tornam um bocado perigosa. Calcula-se que uma amostra de dez miligramas, do tamanho de um grão de areia, contenha tanta energia quanto umas 200 toneladas de combustível comum de foguetes.

A cabeça de Langdon estava girando outra vez.

- É a fonte de energia do futuro. Mil vezes mais poderosa do que a energia nuclear. Cem por cento eficiente. Sem produzir derivados, subprodutos. Sem produzir radiação. Sem produzir poluição. Alguns gramas bastariam para suprir de energia uma grande cidade durante uma semana.

Gramas? Langdon recuou alguns passos, inquieto.

- Não se preocupe - repetiu Vittoria. - Essas amostras são frações minúsculas de um grama, milionésimos. Relativamente inofensivas. - Ela estendeu a mão novamente para o tubo e desencaixou-o de sua plataforma de recarregamento.

Kohler estremeceu ligeiramente, mas não interferiu. Quando o tubo foi solto, ouviu-se um bipe agudo e acendeu-se um pequeno mostrador luminoso perto da sua base. Os dígitos vermelhos piscavam, em uma contagem regressiva de 24 horas.

24:00:00...

23:59:59...

23:59:58...

Inquietante como uma bomba-relógio, pensou Langdon, acompanhando a seqüência descendente dos números.

- A bateria - explicou Vittoria - vai funcionar durante 24 horas completas antes de acabar. Para recarregá-la, basta colocar o tubo de volta no lugar. Foi projetada como medida de segurança, mas também é conveniente para transporte.

- Transporte? - Kohler parecia ter sido fulminado por um raio. - Você leva isso para fora do laboratório?

- Claro que não - disse Vittoria. - Mas a mobilidade nos permite estudá-lo.

Vittoria levou os dois para a extremidade da sala, puxou uma cortina atrás da qual havia uma janela, que por sua vez revelou um amplo quarto. As paredes, o piso e o teto haviam sido inteiramente revestidos de aço. Langdon lembrou-se do tanque de um petroleiro em que viajara para Papua, Nova Guiné, para estudar a pintura corporal Hanta.

- É um tanque de aniquilamento - declarou Vittoria.

Kohler levantou a cabeça.

- Você consegue observar de fato os aniquilamentos?

- Meu pai era fascinado pela física do Big-Bang. Uma enorme quantidade de energia vinda de minúsculos

grãos de matéria. - Vittoria puxou uma gaveta de aço embutida sob a janela. Colocou o tubo dentro dela e fechou-a. Em seguida, moveu uma alavanca ao lado da gaveta. Logo depois, o tubo apareceu do outro lado do vidro, deslizando suavemente em um amplo movimento circular pelo chão de metal até parar perto do centro do aposento.

Vittoria deu um sorriso tenso.

- Vocês estão prestes a assistir a seu primeiro aniquilamento matéria-anti- matéria. Alguns milionésimos de grama. Uma amostra relativamente minúscula.

Langdon olhou para o tubo de antimatéria pousado no chão do enorme tanque. Kohler também se virou para a janela, com ar de incerteza.

- Normalmente - explicou Vittoria -, teríamos de esperar as 24 horas completas até a bateria acabar, mas esta câmara tem ímãs sob o piso que podem anular o efeito da bateria, fazendo a antimatéria sair do estado de suspensão. E, quando matéria e antimatéria se tocam...

- Aniquilamento - murmurou Kohler.

- Mais uma coisa - disse ela. - A antimatéria libera energia pura. É 100 por cento de conversão de massa em fótons. Por isso, não olhem diretamente para a amostra. Protejam os olhos.

Langdon costumava ser cuidadoso, mas achou que Vittoria estava sendo teatral demais. Não olhem direto para a amostra! O tubo encontrava-se a mais de 30 metros de distância, atrás de uma parede de plexiglas fumê. Além do mais, a partícula nem se enxergava dentro do tubo, invisível, microscópica.

Proteger meus olhos? O quanto de energia aquele grã ozinho poderia...

Vittoria apertou um botão.

E a claridade cegou Langdon instantaneamente. Um ponto brilhante de luz cintilou no tubo e depois explodiu para fora em uma onda de choque de luz que se irradiou em todas as direções, indo de encontro à janela diante dele com uma força tremenda. Ele recuou quando a detonação sacudiu a câmara. A luz ofuscou por um momento, incandescente, cortante, e depois se recolheu depressa, absorvendo-se em si mesma e transformando-se em um cisco diminuto que desapareceu, virou um nada. Langdon piscou, com dor, aos poucos recuperando a visão. Apertou os olhos. O tubo que estivera no chão desaparecera completamente. Evaporara-se. Não havia sequer vestígio dele.

Boquiaberto, ele exclamou:

-D... Deus!

Vittoria balançou tristemente a cabeça.

- Era exatamente o que meu pai dizia.

CAPÍTULO 23

Kohler estava voltado para a câmara de aniquilamento, completamente embasbacado com o espetáculo que acabara de presenciar. Ao lado dele, Robert Langdon parecia ainda mais estupefato.

- Quero ver meu pai - exigiu Vittoria. - Já lhe mostrei o laboratório. Agora, quero ver meu pai.

Kohler virou-se devagar, aparentemente não a escutando.

- Por que esperaram tanto, Vittoria? Você e seu pai deveriam ter-me contado logo sobre essa descoberta.

Vittoria encarou-o. Quantas razões quer que eu apresente?

- Diretor, podemos falar sobre isso mais tarde. Neste momento, quero ver meu pai.

- Sabe o que essa tecnologia implica?

- Claro - respondeu ela, ríspida. - Dinheiro para o CERN. Muito. Agora, quero...

- Foi por isso que mantiveram segredo? - perguntou Kohler, claramente tentando fazê-la engolir a isca. - Porque temiam que o conselho e eu votássemos para que fosse licenciada?

- Deveria ser licenciada -Vittoria disparou de volta, sentindo-se obrigada a discutir. - A antimatéria é uma tecnologia importante. Mas também é perigosa. Meu pai e eu queríamos tempo para aperfeiçoar os procedimentos e torná-la segura.

- Ou seja, vocês não confiaram que o conselho de diretores colocasse a ciência prudente antes da ganância financeira.

Vittoria surpreendeu-se com a indiferença no tom de voz dele.

- Havia ainda outras questões a considerar - disse ela. - Meu pai e eu queríamos apresentar a antimatéria sob uma luz adequada.

- O que quer dizer, exatamente...?

O que ele acha que quero dizer?

- Matéria vinda da energia? Algo vindo do nada? É praticamente uma prova de que o Gênese é uma possibilidade científica.

- Então, seu pai não queria que as implicações da descoberta se perdessem em uma investida furiosa de comercialismo?

- De certa forma, é isso mesmo.

- E você?

As preocupações dela, ironicamente, eram um tanto contrárias. O comercialismo era crucial para o sucesso de qualquer nova fonte de energia. Embora a antimatéria tivesse um tremendo potencial como fonte de energia eficiente e não-poluente, se fosse divulgada prematuramente corria o risco de ser difamada pelos políticos e sofrer os mesmos fracassos de relações públicas que haviam arrasado com as energias nuclear e solar. A energia nuclear proliferara antes de se tornar segura, e tinham acontecido acidentes. A energia solar proliferara antes de se tornar eficiente e muita gente perdera dinheiro. As duas tecnologias haviam adquirido má reputação e murchado antes de serem colhidas.

- Meus interesses - disse Vittoria - eram um pouco menos elevados do que o de unir ciência e religião.

- O meio ambiente - sugeriu Kohler, confiante.

- Energia ilimitada. O fim da mineração de carvão de superficie. O fim da poluição. Da radiação. A tecnologia da antimatéria poderia salvar o planeta.

- Ou destruí-lo - objetou Kohler, sarcástico. - Dependendo de quem o usasse e para quê.- Uma frieza emanava das formas aleijadas de Kohler.

- Quem mais sabia disso? - perguntou ele.

- Ninguém - Vittoria responde. - Já lhe disse.

- Então, por que acha que mataram seu pai?

Os músculos de Vittoria se retesaram.

- Não tenho a menor idéia. Ele tinha inimigos aqui no CERN, como sabe, mas não poderia haver nenhuma ligação com a antimatéria. Juramos um ao outro manter sigilo durante mais alguns meses até estarmos devidamente preparados.

- E você tem certeza de que seu pai manteve esse voto de silêncio?

Vittoria zangou-se.

- Meu pai soube manter votos mais dificeis do que esse!

- E você não contou a ninguém?

- Claro que não!

Kohler deixou escapar um suspiro. Fez uma pausa, como se tivesse escolhendo as palavras seguintes com cuidado.

- Vamos supor que alguém tenha descoberto. E que tenha conseguido entrar no laboratório. O que você imagina que essa pessoa poderia querer? Seu pai guardava anotações aqui embaixo? Alguma documentação sobre o processo criativo?

- Diretor, fui muito paciente. Preciso de algumas respostas agora. O senhor continua falando sobre uma invasão do laboratório mesmo tendo visto o scanner de retina. Meu pai era muito atento à segurança e ao sigilo.

- Seja um pouco mais tolerante comigo - replicou Kohler, espantando-a.

- O que poderia estar faltando?

- Não tenho noção. - Irritada, Vittoria correu os olhos pelo laboratório. Conferiu todas as amostras de antimatéria. A área de trabalho de seu pai parecia em ordem. - Ninguém entrou aqui -declarou ela. – Tudo aqui em cima parece estar bem.

Kohler ficou surpreso.

- Aqui em cima?

Vittoria falara sem pensar.

- É, aqui no laboratório de cima.

- Vocês estão usando o laboratório de baixo também?

- Para armazenamento.

Kohler deslizou sua cadeira na direção dela, tossindo outra vez.

- Você está usando a câmara Haz-Mat para armazenamento? Armazenamento de quê?

Material perigoso, ora essa! Vittoria estava perdendo a paciência.

- Antimatéria.

Kohler ergueu o corpo apoiando-se nos braços de sua cadeira.

- Existem outros espécimes? Por que diabos não me disse?

- Estou dizendo agora - rebateu ela. - E o senhor mal me deu uma oportunidade!

- Temos de verificar esses espécimes - disse Kohler. - Agora.

- Esse espécime - corrigiu Vittoria. - No singular. E o espécime está bem guardado. Ninguém jamais poderia...

- Só um? - Kohler hesitou. - E por que não está aqui em cima?

- Meu pai queria que ficasse sob o leito de rocha como precaução. É maior do que os outros.

Os olhares alarmados que Langdon e Kohler trocaram não passaram despercebidos por Vittoria. Kohler aproximou-se novamente dela:

- Vocês criaram um espécime maior do que o de quinhentos nanogramas?

- Foi necessário - justificou Vittoria. - Tínhamos de provar que o limiar de subsídio/rendimento poderia ser cruzado com segurança.

Segundo ela, a questão principal relacionada a novas fontes de combustível era sempre a de subsídio versus rendimento, ou seja, quanto dinheiro era preciso gastar para obter o combustível. Instalar uma perfuratriz de petróleo para produzir um único barril seria um empreendimento perdido. Entretanto, se essa mesma perfuratriz, com um acréscimo mínimo de despesa, conseguisse produzir milhões de barris, então o negócio valeria a pena. O mesmo se aplicava à antimatéria. Ativar 25 quilômetros de eletromagnetos para criar um espécime diminuto de antimatéria gastava mais energia do que a antimatéria produzida continha.

Para provar que a antimatéria era eficiente e viável, fora necessário criar espécimes de tamanho maior.

O pai de Vittoria relutara em criar um grande espécime, mas ela insistira muito que o fizesse. Argumentava que, para a antimatéria ser levada a sério, eles teriam de provar duas coisas: que era possível produzir quantidades que tornariam o custo compensador e que os espécimes poderiam ser armazenados com segurança. No final, ela vencera e o pai concordara a contragosto. Entretanto, não sem determinar algumas diretrizes firmes com relação a sigilo e acesso. A antimatéria, seu pai fizera questão, ficaria guardada em Haz-Mat - uma pequena cavidade de granito localizada a uns 30 metros mais abaixo do solo. Aquele espécime seria seu segredo particular. E só os dois teriam acesso a ele.

- Vittoria? - insistiu Kohler, a voz tensa. - De que tamanho é esse espécime que você e seu pai criaram?

Vittoria sentiu um estranho prazer. Sabia que a quantidade iria chocar até mesmo o grande Maximilian Kohler. Visualizou a antimatéria lá embaixo. Uma imagem incrível. Suspensa dentro do tubo, perfeitamente visível a olho nu, dançava uma diminuta esfera de antimatéria. Não se tratava dessa vez de um grão microscópico. Era uma gotícula do tamanho de uma bateria BB.

Vittoria respirou fundo.

- Tem 250 miligramas.

O sangue fugiu do rosto de Kohler.

- O quê! - Ele teve um acesso de tosse. - Duzentos e cinqüenta miligramas? Isso se converte em... quase

cinco quilotons!

Quilotons. Vittoria detestava aquela palavra. Ela e o pai nunca a usavam. Um quiloton era igual a 1.000 toneladas de TNT. Quilotons eram para armas.

Mísseis. Poder destrutivo. Vittoria e seu pai só falavam de elétron-volts e joules, produção construtiva de energia.

- Essa quantidade de antimatéria pode literalmente liquidar tudo em um raio de quase um quilômetro! - exclamou Kohler.

- Sim, se for aniquilada toda de uma vez - revidou Vittoria -, o que ninguém jamais fará!

- Exceto quem não tenha conhecimento disso! Ou se as suas baterias falharem!

Kohler já se dirigia para o elevador.

- Razão por que meu pai a mantinha em Haz-Mat com dispositivos de energia à prova de falhas e um sistema de segurança a mais.

Kohler virou-se, esperançoso.

- Vocês têm segurança adicional em Haz-Mat?

- Sim, um segundo scanner de retina.

Kohler só pronunciou três palavras.

- Vamos descer. Agora.

O elevador de carga despencou como uma pedra mais trinta metros para dentro da terra.

Vittoria percebeu que havia medo nos dois homens à medida que o elevador descia. O rosto habitualmente impassível de Kohler estava retesado. Eu sei que o espécime é enorme, pensou ela, mas as precauções que tomamos são...

Chegaram ao fundo.

O elevador se abriu e Vittoria saiu na frente pelo corredor mal iluminado. Adiante, o corredor terminava em uma grande porta de aço. Haz-Mat. O scanner de retina era idêntico ao do andar de cima. Ela se aproximou.

Com cuidado, alinhou seu olho com a lente.

E recuou. Algo estava errado. A lente em geral imaculada estava respingada, manchada com alguma coisa que se parecia com.., sangue? Confusa, ela se virou para os dois homens e deu com seus rostos cor de cera. Tanto Kohler quanto Langdon estavam pálidos, os olhos fixos no chão perto dos pés dela.

Vittoria acompanhou a direção do olhar deles...

- Não! - gritou Langdon, inclinando-se para ela. Mas era tarde demais.

A visão de Vittoria ficou presa ao objeto no chão. Era-lhe ao mesmo tempo totalmente estranho e intimamente familiar.

Levou apenas um instante.

Então, com uma sensação vertiginosa de horror, ela soube o que era.

Olhando-a do chão, atirado ali como se fosse lixo, havia um globo ocular. Ela teria reconhecido aquele tom de castanho em qualquer lugar.

CAPÍTULO 24

O técnico de segurança prendeu a respiração quando seu chefe se inclinou por cima de seu ombro, examinando a bancada de monitores de vigilância diante dos dois. Passou-se um minuto.

O silêncio do chefe era de se esperar, disse o técnico para si mesmo. O chefe era um homem que seguia rigidamente o protocolo. Não chegara ao comando de uma das forças de segurança de elite do mundo por falar primeiro e pensar depois.

Mas o que ele estaria pensando?

O objeto que eles observavam no monitor era um tipo de tubo, um cilindro com laterais transparentes. Até aí, era fácil. O resto é que era difícil.

Dentro do recipiente, como se por algum efeito especial, uma pequena gota de líquido metálico parecia flutuar no vazio. A gotícula aparecia e desaparecia com o piscar da luz vermelha robótica de um mostrador digital marcando uma contagem resolutamente descendente, o que fazia o técnico se arrepiar todo.

- Dá para clarear o contraste? - perguntou o comandante, fazendo o técnico sobressaltar-se.

O técnico seguiu a instrução e a imagem clareou um pouco. O comandante curvou-se para a frente, fixando os olhos em algo que acabara de se tornar visível na base do recipiente.

O técnico acompanhou o olhar de seu chefe. Quase indistinto, impresso ao lado do mostrador, havia um acrônimo. Quatro letras maiúsculas brilhavam nos fachos intermitentes de luz.

- Fique aqui - determinou o comandante. - Não diga nada a ninguém. Eu cuido disso.

CAPÍTULO 25

Haz-Mat. Cinqüenta metros abaixo do solo.

Vittoria Vetra cambaleou para a frente, quase indo de encontro ao scanner. Percebeu que o americano se precipitava para ajudá-la, para ampará-la. No chão a seus pés, o globo ocular de seu pai estava voltado para cima. Ela sentiu a pressão nos pulmões, o ar escapando. Arrancaram o olho dele! Seu mundo girava em um redemoinho. Kohler falava perto dela, pressionando-a. Langdon guiava-a. Como em um sonho, viu-se olhando no scanner de retina. O mecanismo emitiu um bipe.

A porta deslizou e se abriu.

Mesmo com o terror do olho do pai assombrando sua alma, Vittoria pressentiu que um outro motivo de terror a esperava lá dentro. Quando ergueu o olhar anuviado para o interior do aposento, confirmou-se o capítulo seguinte do pesadelo. A solitária coluna de recarga encontrava-se vazia.

O tubo que ficava acoplado à coluna se fora. Haviam cortado o olho de seu pai para roubá-lo. As implicações vieram depressa demais para que ela as compreendesse por completo. Tudo resultara contrário ao esperado. O espécime destinado a provar que a antimatéria era uma fonte de energia segura e viável havia sido roubado. Mas ninguém sequer sabia que esse espécime existia! A verdade, contudo, era irrefutável. Alguém descobrira. Ela não conseguia imaginar quem poderia ser. Até Kohler, que, dizia-se, sabia de tudo no CERN, claramente desconhecia a existência do projeto.

Seu pai estava morto. Assassinado por ser um gênio.

Enquanto a dor apertava seu coração, uma nova emoção tomava forma na consciência de Vittoria. Muito pior. Esmagadora. Mortificando-a. Essa emoção era a culpa. Culpa incontrolável, implacável. Havia sido ela quem convencera o pai a criar o espécime. A contragosto. E ele morrera por causa disso.

Um quarto de grama...

Como qualquer tecnologia - o fogo, a pólvora, o motor de combustão -, nas mãos erradas, a antimatéria podia ser nefasta. Muito nefasta. A antimatéria era uma arma letal. Potente e incontrolável. Uma vez removida de sua plataforma de recarga no CERN, começaria a inexorável marcação regressiva no contador.

Seria como um trem desgovernado.

E quando o tempo se esgotasse...

Uma luz cegante. O rugido de um trovão. Incineração espontânea. Apenas o clarão.., e uma cratera vazia.

Uma imensa cratera vazia.

A imagem da serena genialidade de seu pai sendo usada como ferramenta de destruição era como um veneno em seu sangue. A antimatéria era a arma terrorista por excelência. Não possuía peças de metal a serem identificadas por detetores de metal, não continha elementos químicos que pudessem ser rastreados por cães, não tinha detonador a ser desativado se as autoridades localizassem o recipiente. A contagem regressiva começara.

Langdon não sabia mais o que fazer. Pegou seu lenço e cobriu com ele o olho de Leonardo Vetra no chão.

Vittoria parara na entrada da câmara Haz-Mat, no rosto uma uma mistura de sofrimento e pânico. Langdon dirigiu-se instintiva- mente para ela outra vez, mas Kohler interveio.

- Senhor Langdon? - disse ele, a face inexpressiva. Fez sinal para que Langdon se afastasse para não serem ouvidos. O outro seguiu-o relutante, deixando Vittoria entregue a si mesma. - O senhor é o especialista - disse Kohler, em um sussurro enfático. - Quero saber o que esses desgraçados desses Iliuminati pretendem fazer com a antimatéria.

Langdon tentou se concentrar. A despeito de toda a loucura a seu redor, sua primeira reação foi lógica.

Rejeição acadêmica. Kohler ainda estava fazendo suposições, suposições impossíveis.

- Os Iliuminati estão extintos, senhor Kohler, eu lhe garanto. Esse crime poderia ter qualquer explicação, talvez um outro funcionário do CERN tenha descoberto algo sobre o trabalho do senhor Vetra e achado que o projeto seria perigoso demais para prosseguir.

Kohler admirou-se.

- O senhor acredita que esse seja um crime de consciência, senhor Langdon? Absurdo. Quem matou Leonardo Vetra queria apenas uma coisa: a amostra de antimatéria. E sem dúvida tem planos de usá-la.

- Quer dizer, terrorismo.

- Com certeza.

- Mas os Iliuminati não eram terroristas.

- Diga isso a Leonardo Vetra.

Havia um fundo de verdade na afirmação. Leonardo Vetra fora de fato marcado a ferro em brasa com o símbolo dos Illuminati. De onde viera aquilo? A marca sagrada seria uma mistificação difícil demais para ser usada por alguém que quisesse despistar lançando as suspeitas em outro lugar. Deveria haver uma outra explicação.

Mais uma vez, Langdon se viu forçado a considerar o implausível. Se os Iliuminati ainda estivessem ativos e se tivessem roubado a antimatéria, qual seria a sua intenção? Qual seria o seu alvo? A resposta que sua mente forneceu foi instantânea. Langdon descartou-a igualmente depressa. É verdade que os Iliuminati tinham um inimigo óbvio, mas um ataque terrorista em larga escala a esse inimigo era inconcebível. E em total desacordo com o caráter da fraternidade. Sim, os Iliuminati haviam matado pessoas, mas indivíduos, alvos cuidadosamente escolhidos. Destruição em massa, de certa forma, era algo mais grosseiro. Langdon fez uma pausa. Entretanto, refletiu, haveria uma eloqüência majestosa naquilo, a antimatéria, proeza científica definitiva, sendo usada para fazer desaparecer...

Recusava-se a aceitar aquele pensamento absurdo. E disse subitamente:

- Existe uma explicação lógica além do terrorismo.

Kohler esperou que ele continuasse.

Langdon procurou pôr em ordem o raciocínio. Os Iliuminati sempre haviam exercido um poder extraordinário utilizando-se de recursos financeiros. Eles controlavam bancos. Guardavam lingotes de ouro e prata. Dizia-se inclusive que possuíam a pedra preciosa mais valiosa do mundo, o Diamante Iliuminati, um diamante de grandes proporções, absolutamente perfeito.

- Dinheiro - disse Langdon. - A antimatéria pode ter sido roubada para a obtenção de ganho financeiro.

Kohler demonstrou incredulidade.

- Ganho financeiro? Onde se pode vender uma gotícula de antimatéria?

- Não a amostra - rebateu Langdon. - A tecnologia. A tecnologia da anti- matéria deve valer uma fábula.

Talvez alguém a tenha roubado para analisá-la e fazer P&D - Pesquisa e Desenvolvimento.

- Espionagem industrial? Aquele tubo vai durar só 24 horas até as baterias acabarem. Os pesquisadores explodiriam antes de conseguirem descobrir qualquer coisa.

- Poderiam recarregá-las antes que explodissem. Poderiam construir uma plataforma compatível de recarregamento, igual às daqui do CERN.

- Em 24 horas? - desafiou Kohler - Mesmo que roubassem o projeto, um recarregador como aquele levaria meses para ser construído, não horas!

- Ele tem razão - disse Vittoria, a voz fraca.

Os dois homens se viraram. Vittoria aproximava-se, os passos tão trêmulos quanto suas palavras.

- Ele tem razão. Ninguém conseguiria projetar e construir um recarregador como aquele a tempo. Só a interface levaria semanas. Filtros de fluxo, sistemas de servocontrole das bobinas, ligas condicionadoras de força, todos calibrados para o grau de energia específico da peça.

Langdon franziu o cenho. Não havia mais o que discutir. A peça que continha a antimatéria não podia ser simplesmente ligada a uma tomada na parede. Uma vez removido do CERN, o tubo especial iniciava uma viagem de ida sem volta, uma viagem de 24 horas rumo ao fim, ao esquecimento.

O que deixava apenas uma conclusão muito perturbadora.

- Precisamos chamar a Interpol - disse Vittoria. Até para si mesma, sua voz soava distante. - Temos de chamar as autoridades competentes. Agora, já.

Kohler meneou a cabeça.

- De jeito nenhum.

Essas palavras atordoaram-na.

- Por que não?

- Você e seu pai puseram-me em uma situação muito difícil.

- Diretor, precisamos de ajuda. Temos de encontrar aquele tubo e trazê-lo de volta para cá antes que alguém se machuque. É nossa responsabilidade!

- Temos a responsabilidade de pensar - disse Kohler, com dureza na voz.

- Esta situação pode ter repercussões muito, muito sérias para o CERN.

- Está preocupado com a reputação do CERN? Sabe o que aquele material poderia fazer com uma área urbana? Tem um raio de explosão de oitocentos metros! Nove quarteirões!

- Talvez você e seu pai devessem ter levado isso em consideração antes de criarem o espécime.

Vittoria teve a sensação de estar sendo apunhalada.

Mas... nós tomamos todas as precauções.

- Ao que tudo indica, não foram suficientes.

- E ninguém sabia da existência da antimatéria.

Ela se deu conta, evidentemente, de que aquele argumento era absurdo. Claro que alguém soubera.

Alguém descobrira.

Vittoria não contara a ninguém. Restavam então apenas duas explicações. Ou seu pai fizera confidências a alguém sem dizer nada a ela, o que não fazia sentido porque havia sido ele quem exigira que jurassem segredo, ou ela e o pai haviam sido monitorados. Quem sabe, pelo telefone celular? Eles haviam falado um com o outro algumas vezes enquanto Vittoria estava viajando. Teriam falado demais? Era possível. Havia também os e-mails de ambos. Mas eles ha via sido discretos, não é? O sistema de segurança do CERN? Teriam sido monitorados sem que soubessem?

Nada daquilo importava mais. O que fora feito estava feito. Meu pai está morto.

O pensamento incitou-a a agir. Tirou o telefone celular do bolso do short.

Kohler acelerou a cadeira em sua direção, tossindo violentamente, os olhos faiscando de raiva.

- Quem você está chamando?

- A mesa telefônica do CERN. Eles podem nos ligar com a Interpol.

- Pense! - Kohler esgasgou-se, a cadeira freando com um guincho na frente dela. - Será que é assim tão ingênua? Aquele tubo pode estar em qualquer lugar do mundo agora! Nenhum serviço secreto vai ser capaz de se mobilizar para encontrá-lo a tempo.

- Então não fazemos nada? - Vittoria sentia remorsos por desafiar um homem de saúde tão frágil, mas o diretor estava de tal maneira fora dos eixos que ela não o reconhecia mais.

- Fazemos o que é mais inteligente - disse Kohler. - Não colocamos a reputação do CERN em risco envolvendo autoridades que de qualquer modo não podem ajudar. Ainda não. Não sem antes pensar.

Vittoria admitia que havia uma certa lógica na argumentação dele, mas sabia que a lógica, por definição, era destituída de responsabilidade moral. Seu pai vivera pela responsabilidade moral: ciência cautelosa, compromisso de prestar contas, fé na bondade inerente do homem. Vittoria também acreditava nestas coisas, mas as via em termos de carma. Afastou-se de Kohler e abriu o telefone com um gesto rápido.

- Você não pode fazer isso - ele disse.

- Tente me impedir.

Ele não saiu do lugar.

No instante seguinte, Vittoria percebeu por quê. Àquela profundidade, o celular não tinha sinal. Furiosa, ela seguiu para o elevador.

CAPÍTULO 26

O Hassassin encontrava-se no fim do túnel de pedra. Sua tocha ainda ardia, a fumaça misturando-se com o cheiro de musgo e de ar parado. O silêncio o rodeava. A porta de ferro que lhe fechava o caminho parecia tão velha quanto o próprio túnel, enferrujada mas ainda firme. Ele esperou na penumbra, confiante.

Estava quase na hora.

Janus prometera que alguém lá de dentro abriria a porta. O Hassassin estava encantado com aquela traição. Teria esperado a noite inteira diante da porta para realizar sua tarefa, mas pressentia que isso não seria necessário. Estava trabalhando para homens determinados.

Minutos depois, precisamente à hora combinada, ouviu o ruído alto de chaves pesadas entrechocando-se do outro lado. O atrito do metal contra o metal à medida que múltiplas fechaduras se desencaixavam. Uma a uma, três imensas cavilhas rangeram, abrindo-se. As dobradiças estalavam, pois não tinham sido usadas durante séculos. Por fim, tudo foi destrancado.

Então, fez-se silêncio.

O Hassassin esperou, paciente, os cinco minutos, exatamente como lhe haviam dito que fizesse. Depois, com eletricidade correndo-lhe no sangue, ele deu um empurrão. A grande porta se abriu.

CAPÍTULO 27

- Vittoria, não vou permitir! - Kohler respirava com dificuldade e foi piorando enquanto o elevador subia. Vittoria isolou-se dele. Ansiava por um refúgio, por algo familiar naquele local que não se parecia mais com sua casa. Sabia que não poderia ser. Naquele momento, precisava engolir a tristeza e agir. Procure um telefone.

Robert Langdon encontrava-se a seu lado, silencioso como sempre. Vittoria desistira de tentar adivinhar quem seria ele. Um especialista? Kohler não poderia ter sido menos preciso. O senhor Langdon pode nos ajudar a encontrar o assassino de seu pai. Langdon não estava ajudando em nada. Sua cordialidade e bondade pareciam bastante genuínas, mas era evidente que estava escondendo alguma coisa. Os dois homens estavam.

Kohler investiu contra ela outra vez.

- Como diretor do CERN, tenho responsabilidades com o futuro da ciência. Se você ampliar isto, transformar a situação em um incidente internacional e o CERN for afetado...

- Futuro da ciência? - Vittoria voltou-se para ele. - O senhor realmente planeja deixar de prestar contas e não admitir que a antimatéria saiu do CERN? Pretende ignorar a vida das pessoas que pusemos em perigo?

- Nós não pusemos - contra-atacou Kohler. - Você, você e seu pai, sim.

Vittoria virou o rosto para o lado.

- E no que se refere a vidas em perigo - completou Kohler -, a própria vida é que está em questão. Você sabe que a tecnologia da antimatéria tem enormes implicações para a vida neste planeta. Se o CERN falir, destruído por um escândalo, todos saem perdendo. O futuro do homem está nas mãos de organizações como o CERN, de cientistas como você e seu pai, que trabalham para resolver os problemas do amanhã.

Vittoria já escutara antes as teorias de Kohler a respeito de Deus e a Ciência, e nunca as engolira. A própria ciência causava a metade dos problemas que tentava resolver. O "Progresso" era a derradeira doença maligna da Mãe Terra.

- O avanço científico traz riscos - argumentava Kohler. - Sempre trouxe.

Programas espaciais, pesquisa genética, medicina, todos cometem erros. A ciência precisa sobreviver a seus próprios enganos e a qualquer custo. Para o bem de todos.

Vittoria constatou a notável capacidade de Kohler para ponderar questões morais com imparcialidade científica. O intelecto dele parecia ser o produto de um gélido divórcio com seu próprio espírito interior.

- O senhor acredita que o CERN seja tão crucial para o futuro da Terra que deva ficar imune a responsabilidades morais?

- Não me venha falar de moral. Você passou dos limites quando criou aquele espécime e botou todas as nossas instalações em risco. Estou tentando proteger não só os empregos dos três mil cientistas que trabalham aqui, como também a reputação de seu pai. Pense nele. Um homem como seu pai não merece ser lembrado como o criador de uma arma de destruição em massa.

Ele atingira o alvo certo. Fui eu quem convenceu meu pai a criar aquele espécime. A culpa de tudo isso é minha!

Quando a porta se abriu, Kohler ainda estava falando. Vittoria saiu do elevador, pegou seu telefone e tentou de novo.

Nada de sinal. Droga! Ela se encaminhou para a porta.

- Vittoria, pare. - A respiração do diretor soava mais asmática enquanto ele acelerava sua cadeira atrás da moça. - Vá mais devagar. Precisamos falar.

- Basta di parlare!

- Pense em seu pai - insistiu Kohler. - O que ele faria?

Ela continuou andando.

- Vittoria, não fui totalmente sincero com você.

Ela diminuiu o ritmo.

- Não sei o que eu estava pensando - disse Kohler -, só queria proteger você. Diga o que quer. Temos de trabalhar juntos nesta questão.

Vittoria parou perto do laboratório mas não se virou.

- Quero encontrar a antimatéria. E quero saber quem matou meu pai.

Ela ficou esperando. Kohler suspirou.

- Nós já sabemos quem matou seu pai. Sinto muito.

Surpresa, ela se virou para ele.

- Vocês o quê?

- Eu não sabia como contar a você. É difícil...

- Vocês sabem quem matou meu pai?

- Temos uma noção, sim. O assassino deixou uma espécie de cartão de visitas. Foi por isso que chamei o senhor Langdon. O grupo que assumiu a autoria do crime é a especialidade dele.

- O grupo? Um grupo terrorista?

- Vittoria, eles roubaram duzentos e cinqüenta miligramas de antimatéria.

Vittoria olhou para Robert Langdon ali perto, parado. Tudo começou a se encaixar. Isto explica o sigilo.

Como não lhe ocorrera antes? Kohler então havia chamado as autoridades, afinal. As autoridades. Agora, parecia óbvio. Robert Langdon era norte-americano, de boa aparência, conservador, provavelmente muito sagaz. Quem mais ele poderia ser? Ela deveria ter adivinhado desde o começo. Sentiu uma renovada esperança ao se dirigir a ele.

- Senhor Langdon, quero saber quem matou meu pai. E também se sua agência pode encontrar a antimatéria.

Langdon ficou embaraçado.

- Minha agência?

- O senhor é do serviço secreto americano, suponho.

- Na realidade.., não, não sou.

Kohler interveio.

- O senhor Langdon é professor de História da Arte na Universidade de Harvard.

A informação caiu como um balde de água fria em Vittoria.

- Professor de Arte?

- Ele é especialista em simbologia de cultos - suspirou Kohler. - Vittoria, acreditamos que a morte de seu pai foi parte de um culto satânico.

As palavras ecoaram na mente dela sem serem assimiladas. Um culto satânico.

- O grupo que assumiu a autoria chama-se Illuminati.

Vittoria olhou de um para outro, imaginando se seria uma brincadeira de mau gosto.

- Os Illuminati? - perguntou ela. - Como os Iliuminati Bávaros?

- Você já ouviu falar deles? -- perguntou Kohler, admirado.

Ela sentiu as lágrimas de frustração se formando.

- Os liluminati Bávaros: a Nova Ordem Mundial. Um jogo de computador. Metade dos fanáticos por informática daqui joga isso na Internet. - A voz dela falhou. - Mas não entendo...

Langdon concordou.

- É um jogo bem popular. Uma antiga fraternidade toma conta do mundo. É semi-histórico. Não sabia que estava na Europa também.

- De que está falando? - disse Vittoria, exaltada. - Os Illuminati? Mas se trata de um jogo de computador!

- Vittoria - disse Kohler -, os Illuminati são o grupo que alega responsabilidade pela morte de seu pai.

Ela reuniu toda a coragem que pôde encontrar para lutar contra as lágrimas. Fez força para se controlar e avaliar a situação com lógica. Porém, quanto mais se concentrava, menos compreendia. Seu pai fora assassinado. Ocorrera uma grave falha de segurança no CERN. Havia uma bomba em contagem regressiva em algum lugar e ela era responsável por isso. E o diretor chamara um professor de História da Arte para ajudá-los a encontrar uma fraternidade mística de satanistas

Sentiu-se repentinamente muito só. Virou-se para ir embora, mas Kohler Postou-se à sua frente. Tirou algo do bolso, um papel de fax amassado, e entregou-o a ela.

Ela cambaleou, horrorizada, ao ver a imagem.

- Eles o marcaram a fogo - disse Kohler. - Os desgraçados marcaram o peito dele a fogo.

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CAPÍTULO 28

A secretária Sylvie Baudeloque estava em pânico. Andava de um lado para outro diante da porta da sala vazia do diretor. Onde diabos andará ele? O que faço agora?

Havia sido um dia esquisito. Claro, todos os dias de trabalho com Maximilian Kohler tinham potencial para serem estranhos, mas o homem estivera em grande forma naquele.

- Encontre Leonardo Vetra! - ordenara ele quando Sylvie chegou naquela manhã.

Obedientemente, Sylvie enviara mensagem pelo pager, telefonara e mandara e-mails para Leonardo Vetra.

E nada.

Então, Kohler saíra mal-humorado, tudo indicava que para procurar Vetra ele próprio. Quando surgiu de volta algumas horas mais tarde, Kohler decididamente não parecia bem... não que ele alguma vez de fato parecesse bem, mas parecia pior do que de costume. Trancou-se no escritório e ela o ouviu telefonar, falar, usar o computador, o fax. Depois, saiu de novo. E ainda não tinha voltado desde então.

Sylvie decidira ignorar as extravagâncias de mais um melodrama kohleriano, mas ficou preocupada quando ele não apareceu na hora certa de suas injeções diárias. O estado de saúde do diretor exigia um tratamento regular e, quando ele decidia abusar, os resultados nunca eram agradáveis: choque respiratório, acessos de tosse e uma correria danada para o pessoal da enfermaria. Às vezes, Sylvie achava que Maximilian Kohler tinha um desejo inconsciente de morrer.

Ela considerou a possibilidade de mandar-lhe uma mensagem pelo pager para lembrar as injeções, mas havia aprendido que o orgulho de Kohler não tolerava aquele tipo de gesto. Na semana anterior, ele havia ficado tão enfurecido com um cientista visitante que demonstrara pena dele a ponto de se equilibrar nas pernas e atirar uma pasta na cabeça do homem. O rei Kohler ficava surpreendentemente ágil quando estava pissé.

No momento, todavia, a preocupação de Sylvie pela saúde do diretor deixara de ser prioridade e fora substituida por um dilema bem mais urgente. A telefonista do CERN ligara cinco minutos antes, frenética, para dizer que tinha uma chamada importantíssima para o diretor.

- Ele não está aqui, não pode atender agora - dissera Sylvie.

Então, a telefonista lhe disse quem estava chamando.

Sylvie deu uma risada alta.

- Está brincando, não é?

Escutou o que a outra dizia, incrédula.

- E a identificação dessa pessoa confirma... - Sylvie estava intrigada. - Está bem. Será que você pode perguntar ao... - Ela suspirou. - Não. Está certo. Peça a ele para esperar. Vou localizar o diretor agora mesmo. Sei, já entendi. Vou fazer isso agora.

Mas Sylvie não conseguira encontrar o diretor. Ligara três vezes para o seu celular e todas as vezes ouvira a mesma mensagem: "A linha está fora de área ou desligada." Fora de área? Até onde ele poderia ter ido? Então, Sylvie ligara para o bipe dele. Duas vezes. Sem resposta. Muito esquisito, ele não costumava agir assim. Chegara até a mandar um e-mail para o computador portátil dele. Nada. Como se o homem tivesse desaparecido da face da Terra.

E agora, o que faço? - pensava, aflita.

Além de sair ela própria procurando pelo CERN inteiro, Sylvie sabia que havia somente uma outra maneira de chamar a atenção do diretor. Ele não ia ficar nada satisfeito, mas o homem ao telefone não era alguém que o diretor pudesse deixar esperando. E também parecia que a pessoa não estava muito disposta a ouvir que o diretor não fora encontrado.

Impressionada com a própria audácia, Sylvie tomou a decisão. Entrou na sala de Kohler e se dirigiu para a caixa de metal na parede atrás da escrivaninha dele. Abriu a portinhola, examinou os controles e encontrou o botão certo.

Em seguida, respirou fundo e apanhou o microfone.

CAPÍTULO 29

Vittoria não se lembrava como eles haviam chegado ao elevador principal, mas lá estavam eles. Subindo. Kohler encontrava-se atrás dela, a respiração ruidosa e difícil. O olhar preocupado de Langdon passava por ela como se atravessasse um fantasma. Ele lhe tirara o fax da mão e enfiara-o no bolso de seu paletó, longe de sua vista, mas a imagem ainda lhe queimava a memória.

Enquanto o elevador se deslocava, o mundo de Vittoria mergulhava na escuridão. Papa! Em sua mente, ela ia ao encontro dele. Por um momento, no oásis de sua memória, Vittoria estava com ele. Tinha nove anos de idade, correndo por colinas cheias de edelvais, o céu da Suíça acima de suas cabeças.

Papa! Papa!

Leonardo Vetra estava rindo ao lado dela, radiante.

- O que é, meu anjo?

- Papa! - ela ria, aconchegando-se a ele. - Faça uma pergunta sobre a matéria!

- Sobre qual matéria, filha, como posso saber? É alguma coisa nova que aprendeu na escola?

E ela imediatamente caiu na gargalhada.

- Ora, papai, pergunte sobre pedras, árvores, átomos, qualquer coisa! Porque tudo é matéria! Ah, agora enganei você!

Ele riu com ela.

- Você inventou isso sozinha?

- Fui bem esperta, não fui?

- Minha pequena Einstein!

Ela fez cara feia.

- Ele tem um cabelo horrível. Vi um retrato dele.

- Mas tem uma boa cabeça. Já contei a você o que ele provou?

Os olhos dela se arregalaram, como se estivesse assustada.

- Papai! Você prometeu!

- EMC2! - E fez cócegas nela. - E=MC2!

- Matemática, não! Eu já disse! Detesto matemática!

- Ainda bem que você detesta, porque as meninas não têm permissão para aprender matemática.

Ela parou na mesma hora.

-Não?!

- Claro que não. Qualquer pessoa sabe disso. Meninas brincam com bonecas. Meninos estudam matemática. Nada de matemática para as meninas. Não tenho autorização nem para falar sobre matemática com as meninas.

- O quê? Mas isso não é justo!

- Regras são regras. Absolutamente nada de matemática para as meninas.

Vittoria ficou horrorizada.

Continuar: parte 2 de 2