Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 8 de 8 · parte 1/3

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Anjos e Demônios

Nas televisões do mundo todo, em tamanho…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Nas televisões do mundo todo, em tamanho grande, o camerlengo saía a toda a velocidade da Necrópole segurando o recipiente da antimatéria nos braços estendidos.

- Não haverá mais mortes esta noite!

Mas o camerlengo estava enganado.

CAPÍTULO 121

Exatamente às 11 h56 o camerlengo irrompeu pelas portas da Basílica de São Pedro para o espaço aberto. Vacilou à claridade estonteante dos holofotes, carregando a antimatéria nas duas mãos estendidas como se fosse uma oferenda divina. Seus olhos ardiam, mas ele via sua própria figura, semi-nua e ferida, em proprorções gigantescas nas telas das redes de emissoras espalhadas pela praça. O clamor que se ergueu da multidão na Praça de São Pedro foi algo que ele nunca tinha ouvido antes - choros, gritos, ladainhas, rezas, uma mistura de veneração e terror.

Livrai-nos do mal, ele murmurou.

Sentia-se completamente esgotado por sua corrida para sair da Necrópole. Aquela saída quase terminara em desastre. Robert Langdon e Vittoria Vetra tinham tentado interceptá-lo e levar o tubo de volta ao esconderijo subterrâneo, pretendendo depois correr para fora e se abrigar. Tolos, cegos!

O camerlengo via agora, com assustadora clareza, que jamais teria vencido aquela corrida em qualquer outra noite. Naquela, porém, Deus estivera com ele mais uma vez. Robert Langdon quase o alcançara, mas fora impedido por Chartrand, sempre confiante e leal aos seus rogos para que tivessem fé. Os repórteres, evidentemente, estavam enfeitiçados demais e sobrecarregados com muito equipamento para interferirem.

O Senhor trabalha de maneira misteriosa.

O camerlengo ouvia os outros vindo atrás dele agora - via-os nas telas, aproximando-se. Reuniu o resto de suas forças e levantou a antimatéria acima da cabeça. Então, endireitou os ombros nus, num gesto de desafio à marca dos Illuminati em seu peito, e desceu depressa as escadas.

Ainda haveria um ato final.

Vou com Deus! Vou com Deus!

Quatro minutos...

Langdon pouco enxergou assim que saiu da basílica. Mais uma vez o mar de luzes agrediu suas retinas. Só vislumbrava a silhueta indistinta do camerlengo, direto à sua frente, descendo depressa as escadas. Por um instante, refulgente com seu halo de luzes, o camerlengo pareceu celestial, uma espécie de divindade moderna. A batina caíra-lhe até a cintura e envolvia-o como um sudário. O corpo tinha sido queimado e ferido pelos inimigos e mesmo assim ele resistia. Corria para as massas com o corpo ereto, exortando o mundo a ter fé, levando a arma de destruição.

Langdon seguiu-o. O que ele está fazendo? Vai matar toda essa gente!

- A obra de Satã - gritava o camerlengo - não tem lugar na Casa de Deus!

E corria na direção das pessoas, agora apavoradas.

- Padre! - chamava Langdon atrás dele. - Não há mais para onde ir!

- Olhe para o céu! Esquecemos de olhar para o céu!

Ao entender para onde o camerlengo se encaminhava, Langdon sentiu

aquela magnífica verdade invadi-lo. Embora as luzes dos refletores não o deixassem enxergar, sabia que a salvação estava justamente acima deles.

No céu da Itália repleto de estrelas.

O helicóptero que o camerlengo solicitara para levá-lo ao hospital estava esperando ali perto, o piloto na cabine, as pás zumbindo em ponto morto. Correndo atrás do camerlengo, Langdon foi tomado por uma repentina e avassaladora alegria.

Uma enxurrada de pensamentos passou-lhe rapidamente pela cabeça.

Primeiro, veio a imagem do espaço aberto do mar Mediterrâneo. A que distância ficava dali? Oito quilômetros? Quinze? Sabia que a praia em Fiumicino ficava somente a uns sete minutos de trem. Mas de helicóptero, a mais de 400 quilômetros por hora, sem paradas... Se conseguissem levar o tubo bem longe acima do mar e jogá-lo do helicóptero... Havia outras opções ainda, lembrou, sentindo-se quase sem peso enquanto corria. La Cava Romana! As pedreiras de mármore ao norte da cidade ficavam a menos de cinco quilômetros de distância. Qual era o tamanho delas? Cinco quilômetros quadrados? Deviam estar desertas àquela hora! Jogar o tubo de antimatéria ali...

- Para trás! - berrava o camerlengo. Seu peito doía enquanto ele corria.

- Saiam daí! Agora!

A Guarda Suíça postada em torno do helicóptero olhava boquiaberta para o camerlengo que se aproximava.

- Saiam! - o padre gritava.

Os guardas se afastaram.

Com o mundo inteiro assistindo embasbacado, o camerlengo contornou o aparelho até a porta do piloto e a escancarou.

- Saia daí, meu filho! Já!

O piloto pulou fora.

O camerlengo avaliou a altura do assento da cabine e percebeu que, exausto como estava, precisaria das duas mãos para subir. Virou-se para o piloto, trêmulo a seu lado, e pôs o cilindro de antimatéria nas mãos dele.

- Segure isto. Me entregue quando eu estiver sentado.

Ao subir, o camerlengo ouviu Langdon gritando com grande excitação chegando perto do helicóptero.

Agora você compreendeu, pensou o camerlengo. Agora você tem fé!

O camerlengo acomodou-se no assento, ajustou algumas alavancas que já conhecia e debruçou-se para pegar o cilindro.

O piloto, porém, estava de mãos vazias.

- Ele o pegou! - exclamou.

O camerlengo sentiu um baque no coração.

-Quem?

O piloto apontou.

-Ele!

Robert Langdon surpreendeu-se ao verificar como o tubo era pesado. Correu para o outro lado do helicóptero e pulou para o compartimento traseiro onde ele e Vittoria tinham sentado poucas horas antes.

Deixou a porta aberta e afivelou o cinto de segurança. E gritou para o camerlengo no banco da frente.

- Decole, padre!

O camerlengo virou a cabeça para Langdon, o rosto branco de susto.

- O que vai fazer?

- O senhor pilota! Eu jogo o tubo! - vociferou Langdon. - Não há tempo! Faça o bendito helicóptero levantar vôo!

O camerlengo pareceu momentaneamente paralisado, a iluminação forte penetrando na cabine e acentuando os vincos em seu rosto.

- Posso fazer isto sozinho - murmurou. - Tenho de fazer isto sozinho.

Langdon não lhe deu ouvidos. Decole!, ouviu-se gritar. Agora! Estou aqui para ajudar! Olhou para o cilindro e sua garganta se apertou ao ver os números.

- Três minutos, padre! Três!

O número fez o camerlengo voltar a si. Sem titubear, voltou-se para os controles. Com um rugido, o helicóptero levantou vôo.

Através de uma nuvem de poeira, Langdon viu Vittoria chegar correndo. Seus olhos se encontraram e depois ela sumiu, como uma pedra que afunda na água.

CAPÍTULO 122

Dentro do aparelho, o barulho do motor e a ventania que entrava pela porta aberta assaltaram os sentidos de Langdon com um caos ensurdecedor. Firmou-se contra a força ampliada da gravidade à medida que o camerlengo acelerava o helicóptero para cima em linha reta. O brilho da Praça de São Pedro encolheu abaixo deles até se transformar em uma elipse luminosa, radiante no mar de luzes da cidade.

O tubo de antimatéria era como um peso morto nas mãos de Langdon. Segurava-o com força, as palmas das mãos escorregadias de suor e sangue. Dentro do cilindro, o glóbulo de antimatéria oscilava calmamente, pulsando sob a luz vermelha do relógio em contagem regressiva.

- Dois minutos! - gritou Langdon, tentando adivinhar onde o camerlengo pretendia jogar o tubo.

As luzes da cidade lá embaixo espalhavam-se por todas as direções. Para oeste, ao longe, ele avistava o contorno cintilante da costa do Mediterrâneo - uma orla pontilhada de luminescências, além da qual estendia-se uma infindável e escura extensão de nada. O mar parecia mais longínquo agora do que Langdon imaginara. Além disso, a concentração de luzes na costa era um lembrete amargo de que, mesmo bem longe, uma explosão no mar poderia ter conseqüências devastadoras. E ele nem chegara a considerar os efeitos de uma onda gigantesca de dez quilotons atingindo o litoral.

Ao olhar para a frente, através da janela da cabine de comando, ficou mais esperançoso. As sombras ondulantes dos contrafortes de Roma surgiam no meio da noite, salpicadas de luzes -as vilias dos muito ricos -; entretanto, a pouco mais de um quilômetro ao norte, as colinas ficavam escuras. Não havia nenhuma luz ali, só um enorme espaço negro. Nada mais.

As pedreiras! Langdon pensou. La Cava Romana!

Avaliando o trecho estéril de terreno, Langdon achou que seria grande o bastante. E parecia próximo, além disso. Mais próximo do que o mar. Animado, achou que era de fato para lá que o camerlengo planejava levar a antimatéria! O helicóptero estava apontado para aquela direção! As pedreiras! O estranho, porém, é que os motores faziam um ruído cada vez mais alto, o helicóptero movia-se no ar, mas as pedreiras não ficavam mais próximas.

Desconcertado, lançou um olhar pela porta lateral para se localizar. O que viu transformou sua animação em pânico. Diretamente abaixo deles, distantes, brilhavam as fortes luzes da imprensa na Praça de São Pedro.

Ainda estamos sobrevoando o Vaticano!

- Camerlengo! - chamou ele, engasgado de aflição. - Vá em frente! Já subimos bastante! Temos de começar a seguir em frente! Não podemos jogar o tubo de volta na Cidade do Vaticano!

O camerlengo não respondeu. Aparentemente, concentrava-se em pilotar o aparelho.

- Temos menos de dois minutos! - gritou Langdon, levantando o cilindro.

- Estou vendo daqui! La Cava Romana! Uns dois quilômetros ao norte! Não temos...

- Não - disse o camerlengo -, é perigoso demais. Sinto muito. - O helicóptero continuou subindo, O camerlengo virou-se e deu um sorriso triste para Langdon.

- Preferia que não tivesse vindo, meu amigo. Você fez o supremo sacrificio.

Langdon olhou para o rosto cansado do camerlengo e então compreendeu. Seu sangue congelou.

- Mas deve haver algum lugar para onde possamos ir!

- Para cima - respondeu o camerlengo, a voz resignada. - É a única alternativa garantida.

Langdon mal conseguia pensar. Interpretara de modo completamente errado o plano do camerlengo. Olhe para o céu!

O céu, só agora entendia, era literalmente para onde estavam indo, O camerlengo nunca tivera a intenção de lançar fora a antimatéria. Estava simplesmente se afastando o máximo possível da Cidade do Vaticano.

Aquela era uma viagem sem volta.

CAPÍTULO 123

Na Praça de São Pedro, Vittoria olhava para cima. O helicóptero não passava de um pontinho agora que as luzes dos refletores não o alcançavam mais. Até o barulho dos rotores transformara-se em um zumbido distante. Parecia que o mundo inteiro se concentrava no alto, emudecido antecipadamente, os rostos de todos voltados para o céu - todas as pessoas, de todas as crenças, todos os corações batendo como se fossem um só.

As emoções de Vittoria eram um turbilhão de agonias. Quando o helicóptero desapareceu, ela lembrou o rosto de Robert, afastando-se dentro dele. O que será que ele pensou? Será que não compreendeu?

Em torno da praça, as câmeras de televisão sondavam a escuridão, esperando. Milhares de rostos voltavam-se para o céu, unidos em uma contagem silenciosa. Todos os telões mostravam a mesma cena tranqüila: o céu romano pontilhado de estrelas brilhantes. Vittoria sentiu as lágrimas começarem a brotar.

Atrás dela, na escadaria de mármore, 161 cardeais olhavam para cima em silenciosa reverência. Alguns tinham as mãos juntas em oração. A maioria permanecia imóvel, aturdida. Alguns choravam. Os segundos passavam.

Nas casas das pessoas, em bares, escritórios, aeroportos, hospitais do mundo todo, os espíritos se uniam em testemunho universal. Homens e mulheres davam-se as mãos. Outros seguravam seus filhos. Como se o tempo pairasse no limbo, as almas suspensas em uníssono.

Então, cruelmente, os sinos de São Pedro começaram a tocar.

Vittoria deixou as lágrimas virem.

E, com o mundo inteiro assistindo, o tempo se esgotou.

O silêncio mortal do acontecimento foi seu aspecto mais aterrorizante.

Muito acima do Vaticano, um ponto de luz apareceu no céu. Por um instante fugaz, um novo corpo celeste nasceu, uma centelha de luz pura e branca como nunca se vira.

Depois, tudo começou.

Um lampejo. O ponto luminoso encapelou-se, como se se alimentasse de si mesmo, desenrolando-se pelo céu em um raio que se dilatava, de um branco ofuscante. Projetou-se para todas as direções, acelerando com indizível rapidez, devorando sofregamente a escuridão. À medida que a esfera de luz crescia, também se intensificava, como o rebento de um demônio preparando-se para consumir o céu inteiro. Correu para baixo, na direção deles, ganhando velocidade.

Estarrecidos, os milhares de rostos iluminados pela luz implacável arquejaram juntos, as mãos protegendo os olhos, todos deixaram escapar um grito estrangulado de medo.

A luz se propagou em todas as direções e, súbito, deu-se o inimaginável. Como se fosse contido pela própria vontade de Deus, o raio crescente pareceu bater em uma parede, como se de alguma forma a explosão ficasse retida dentro de uma gigantesca esfera de vidro. A luz ricocheteou, aguçando-se, ondulando sobre si mesma. A onda parecia ter alcançado um diâmetro predeterminado e pairava ali. Durante aquele instante, uma perfeita e silenciosa esfera de luz brilhou sobre Roma. A noite virou dia.

Então houve o impacto.

A concussão foi profunda e surda - uma estrondosa onda de choque vinda de cima. Desceu sobre eles como a ira do inferno, sacudindo as fundações de granito da Cidade do Vaticano, golpeando o ar para fora dos pulmões das pessoas, fazendo-as cambalear. A reverberação percorreu a colunata, seguida por uma repentina lufada de ar quente. O vento se abateu sobre a praça, soltando um gemido sepulcral ao sibilar entre as colunas e fustigar as paredes. A poeira redemoinhava no ar, as pessoas se encolhiam, testemunhas do Armagedon.

Em seguida, tão depressa quanto surgira, a esfera implodiu, sugando-se a si própria, comprimindo-se, retornando ao diminuto ponto de luz de onde viera.

CAPÍTULO124

Nunca antes tantos tinham ficado em silêncio ao mesmo tempo. Os rostos na Praça de São Pedro, um a um, desviaram os olhos do céu escuro e voltaram-se para baixo, cada pessoa em seu momento particular de assombro. Os refletores da imprensa fizeram o mesmo, baixando seus focos luminosos para a terra, como em reverência pelas trevas que se instalavam acima deles. Parecia que o mundo inteiro curvava a cabeça junto.

O cardeal Mortati ajoelhou-se para rezar e os outros cardeais acompanharam-no. A Guarda Suíça baixou suas longas lanças e imobilizou-se. Ninguém falava. Ninguém se mexia. Em toda parte, emoções espontâneas abalavam os corações. Consternação. Medo. Espanto. Crença. E um respeito temeroso pelo novo e impressionante poder cuja manifestação tinham acabado de presenciar.

Vittoria Vetra permanecia, trêmula, ao pé das amplas escadarias da basílica. Ela fechou os olhos. Através da tempestade de emoções que percorriam seu corpo, uma única palavra soava triste como o dobrar de um sino distante.

Intacta. Cruel. Ela tentava afastá-la, mas a palavra voltava e voltava. A dor era grande demais. Vittoria procurou ocupar-se com as imagens que inflamavam as mentes das outras pessoas - o poder inquietante da antimatéria, a salvação do Vaticano, o camerlengo, gestos de bravura, milagres, desprendimento.

E a palavra ainda ecoava, soando através do tumulto com uma amargura pungente.

Robert.

Ele fora atrás dela no Castelo Sant'Angelo.

Ele a salvara.

E agora fora destruído pela criação dela.

Enquanto rezava, o cardeal Mortati conjeturava se ele também ouviria a voz de Deus como o camerlengo tinha ouvido. Temos de acreditar em milagres para vivenciá-los? Mortati era um homem moderno que pertencia a uma antiga religião. Os milagres nunca tinham representado qualquer papel em sua crença.

Sua religião sem dúvida falava de milagres - chagas nas mãos, ascensão dos mortos, marcas em sudários - e, contudo, a mente racional de Mortati sempre explicara esses relatos como parte do mito. Eram simplesmente o resultado da maior fraqueza do homem - sua necessidade de provas. Os milagres eram nada mais que histórias a que nos apegávamos porque desejávamos que fossem verdade.

No entanto...

Será que sou tão moderno que não consigo aceitar o que acabei de ver com meus próprios olhos? Foi um milagre, não foi? Sim! Deus, ao sussurrar umas poucas palavras no ouvido do camerlengo, interferiu e salvou Sua Igreja. Por que seria assim tão dificil de acreditar? O que teríamos a dizer sobre Deus se Deus não tivesse feito nada? Que o Todo-Poderoso não se importa conosco? Que Ele não tinha poder para impedir a desgraça? Um milagre era a única resposta possível!

Mortati ajoelhou-se, reverente, e rezou pela alma do camerlengo. Deu graças pelo jovem camarista que, apesar da pouca idade, abrira os olhos de um velho para os milagres da fé inquestionável.

Mortati jamais poderia suspeitar, porém, até que ponto sua fé seria testada.

O silêncio na Praça de São Pedro foi quebrado por um leve ruído a princípio, que se transformou em murmúrio. E, então, repentinamente, em bramido. Sem aviso, a multidão gritava a uma só voz.

- Olhem! Olhem!

Mortati abriu os olhos e voltou-os para o povo. Todos apontavam para um mesmo lugar atrás dele, na fachada da Basílica de São Pedro. Estavam pálidos. Alguns caíram de joelhos. Alguns desmaiaram. Outros desataram a chorar.

- Olhem! Olhem!

Mortati, atarantado, acompanhou com o olhar as mãos estendidas que mostravam o nível mais alto da basílica, o terraço no telhado onde imensas estátuas de Cristo e dos apóstolos velavam pelo povo.

Ali, à direita de Jesus, com os braços estendidos para o mundo, estava o camerlengo Carlo Ventresca.

CAPÍTULO 125

Robert Langdon não estava mais caindo.

Acabara-se o pavor. E a dor. E o som sibilante do vento. Havia apenas o barulho suave da água, como se ele estivesse confortavelmente dormindo em uma praia.

Num paradoxo de autoconsciência, Langdon pressentiu que aquilo era a morte. Ficou contente.

Deixou-se levar pelo entorpecimento que tomava conta dele. Deixou que o levasse para onde tivesse de ir. Sua dor e seu medo tinham sido anestesiados e ele não os queria de volta de jeito nenhum. A última lembrança que tinha só poderia ter sido conjurada no inferno.

Leve-me. Por favor...

Mas o barulho da água que o acalentava com uma longínqua sensação de paz também estava trazendo-o de volta. Tentava despertá-lo de um sonho. Não! Deixe-me! Ele não queria acordar.

Entrevia demônios que o aguardavam nas fronteiras de sua bem-aventurança, insistindo em despedaçar sua beatitude. Imagens imprecisas giravam. Vozes gritavam. O vento agitava tudo.

Não, por favor! Quanto mais lutava, mais a fúria se infiltrava através de sua consciência.

Então, duramente, reviveu tudo...

...

O helicóptero prosseguia em sua subida vertiginosa. Ele estava preso lá dentro. Pela porta aberta via as luzes de Roma distanciando-se mais a cada segundo. Seu instinto de sobrevivência dizia-lhe para lançar fora o cilindro imediatamente. Langdon sabia que levaria menos de 20 segundos para o tubo cair uns 800 metros. Só que cairia em uma cidade cheia de gente.

Mais alto! Mais alto!

Calculava a que altura estariam. Jatos pequenos costumavam voar a altitudes de cerca de seis mil metros. Aquele helicóptero já devia estar a uma boa parcela disto. Três mil metros?

Quatro? Ainda havia uma chance. Se calculasse a queda perfeitamente, o tubo cairia só parte do caminho para a terra e explodiria a uma distância segura acima do solo e longe do helicóptero. Langdon olhou para a cidade que se espalhava lá embaixo.

- E se você calcular errado? - disse o camerlengo.

Langdon espantou-se. O camerlengo nem estava olhando para ele e provavelmente lera seus pensamentos vendo seu reflexo esbranquiçado no pára-brisa. Estranhamente, o camerlengo não estava mais ocupado com os controles. Suas mãos nem seguravam mais o manete. O helicóptero devia estar funcionando com o piloto automático, subindo sempre. O camerlengo levantou a mão para o teto da cabine e tirou de um compartimento de cabos uma chave, presa ali fora da vista.

Langdon viu desnorteado o camerlengo destrancar rapidamente a caixa metálica instalada entre os assentos. Tirou de lá um grande embrulho de náilon preto, que colocou no assento a seu lado. As idéias de Langdon se embaralharam. Os movimentos do camerlengo eram calmos e deliberados, como se ele já tivesse uma solução.

- Passe o cilindro para mim - disse, com um tom de voz sereno.

Langdon não sabia mais o que pensar. Entregou o cilindro.

- Noventa segundos!

O que o camerlengo fez com a antimatéria pegou Langdon completamente de surpresa. Segurando o cilindro com cuidado, ele o colocou dentro da caixa metálica. Depois, fechou a tampa pesada e trancou-a.

- O que está fazendo?! - perguntou Langdon.

- Afastando de nós a tentação - e jogou a chave pela janela aberta.

A chave mergulhou na escuridão da noite e Langdon sentiu sua alma caindo junto.

O camerlengo então pegou o embrulho de náilon e enfiou os braços nas alças. Fechou a presilha de uma outra tira que lhe envolveu o estômago e ajustou tudo como se fosse uma mochila. Finalmente, disse a um estupefato Robert Langdon:

- Sinto muito. Não era para acontecer desta maneira.

Em seguida, abriu a porta e atirou-se no espaço.

A imagem queimava no inconsciente de Langdon e com ela vinha a dor. Dor de verdade. Dor física.

Atormentando-o. Penetrante. Ele suplicou que fosse levado para que a dor terminasse, mas, com o som da água mais alto em seus ouvidos, novas imagens relampejavam em sua cabeça. O inferno apenas começara. Via pedaços dele, cenas esparsas de puro pânico. Encontrava-se entre a morte e o pesadelo, implorando para ser libertado, mas as imagens ficavam mais nítidas em sua mente.

O tubo de antimatéria estava trancado e inacessível. A contagem de seu relógio diminuía ao mesmo tempo que o helicóptero aumentava a altitude. Cinqüenta segundos. Mais alto. Mais alto. Langdon agitava-se loucamente dentro da cabine, tentando compreender o que acabara de presenciar. Quarenta e cinco segundos. Procurou outro pára-quedas debaixo dos assentos. Quarenta segundos. Não havia mais nenhum! Trinta e cinco segundos. Foi para a porta aberta do helicóptero, exposto ao vento furioso, e olhou para as luzes de Roma embaixo. Trinta e dois segundos.

Então, tomou sua decisão.

A incrível decisão.

Sem pára-quedas, Robert Langdon pulou do helicóptero. À medida que a noite engolia seu corpo, tinha a impressão de que o helicóptero subia como um foguete acima dele, o som de seus rotores dissipando-se no ruído ensurdecedor de sua própria queda livre.

Na descida a prumo para terra, Langdon sentiu algo que não vivenciava desde o tempo em que praticava salto de plataforma - a inexorável atração da gravidade durante um mergulho. Quanto mais rápido caía, mais a terra parecia puxá-lo, sugá-lo. Desta vez, porém, o mergulho não era de 15 metros dentro de uma piscina, mas de milhares de metros em uma cidade - uma extensão infindável de concreto e asfalto.

Em meio ao vento e ao desespero, a voz de Kohler ecoava do túmulo com as palavras que ele dissera naquela mesma tarde junto ao túnel de queda livre do CERN: Um metro quadrado de algo que ofereça resistência ao ar retarda a queda de um corpo em quase 20 por cento. Vinte por cento, Langdon constatava, nem chegava perto do que seria necessário para alguém sobreviver a uma queda como aquela. De qualquer modo, mais por inércia do que por esperança, apertou nas mãos com força a única coisa que agarrara ao pular do helicóptero. Era uma lembrança esquisita, mas que por um instante fugaz dera-lhe alguma esperança.

A lona protetora do pára-brisa estava jogada na traseira do aparelho. Era um retângulo que se amoldava à forma côncava do pára-brisa do helicóptero - de uns quatro metros por dois -semelhante a um grande lençol, o mais tosca- mente parecido com um pára-quedas que se possa imaginar. Não tinha arneses, só alças elásticas em cada extremidade para ajustá-lo à curvatura do vidro. Langdon pegara a lona, enfiara as mãos nas alças e saltara no vazio.

Seu último grande gesto de desafio juvenil.

Não tinha mais ilusões sobre a vida além daquele momento.

Langdon caía como uma pedra. Pés primeiro. Braços esticados para cima. Mãos agarradas nas alças. A lona ondulava acima de sua cabeça com o formato de um cogumelo. O vento se deslocava com grande velocidade em torno dele.

Durante a queda, deu-se a explosão no alto. Mais longe do que ele esperava. Quase instantaneamente a onda de choque atingiu-o. O impacto comprimiu seus pulmões. Um calor repentino espalhou-se pelo ar em torno dele. Langdon lutou para não largar a lona. Uma parede quente veio de cima para baixo. O topo da lona começou a arder, mas não se rompeu.

Langdon descia a toda a velocidade, no limiar de um véu ondulante de luz, sentindo-se como um surfista que tenta sair da frente de uma onda de quilômetros de altura. De repente, porém, o calor retrocedeu e ele voltou a mergulhar na fria escuridão.

Por um instante, teve esperança. No momento seguinte, entretanto, a esperança se foi, tal e qual a onda de calor. Apesar de seus braços estendidos garantirem-lhe que a lona desacelerava sua queda, o vento ainda passava por seu corpo com uma velocidade espantosa. Ele não tinha qualquer dúvida de que estivesse indo depressa demais para sobreviver à queda. Seria esmagado quando batesse no chão.

Cálculos matemáticos embaralhavam-se em sua cabeça, ele estava entorpecido demais para organizá-los - um metro quadrado de algo que ofereça resistência ao ar... quase 20 por cento de redução de velocidade. O máximo que conseguia raciocinar é que a lona acima de sua cabeça era grande o bastante para retardálo mais do que 20 por cento. Infelizmente, pela velocidade do vento, ele deduzia que a lona não bastava, por melhor que fosse. Estava caindo depressa demais, não sobreviveria ao impacto no mar de concreto que o esperava.

Lá embaixo, as luzes de Roma espalhavam-se para todos os lados. A cidade parecia um enorme céu estrelado no qual Langdon iria cair, só interrompido por uma faixa escura que dividia a cidade em dois - uma fita larga e não iluminada que serpenteava por entre os pontos de luz como uma cobra gorda.

Langdon olhou para os meandros escuros ao longe.

E, como a crista de uma onda inesperada, surgiu outra vez uma esperança.

Com um vigor quase maníaco, Langdon deu puxões fortes na lona com a mão direita. A lona agitou-se mais, ondulando, procurando o ponto à direita, de menor resistência.

Langdon sentiu-se deslizar de lado. Puxou de novo, com mais força, sem fazer caso da dor na palma de sua mão. A lona inflou-se e Langdon notou que seu corpo voava para o lado. Não muito. Mas um pouco!

Olhou de novo para baixo, para a sinuosa serpente negra. Ficava bem para a direita, mas ele ainda estava bastante alto. Será que tinha esperado demais? Puxou com toda a força que pôde e daí em diante aceitou que estava nas mãos de Deus. Concentrou-se na parte mais larga da serpente e, pela primeira vez em sua vida, rezou por um milagre.

O resto não passou de uma lembrança nebulosa.

A escuridão se fechando por cima dele, os reflexos do mergulhador voltando, o instintivo posicionamento da coluna e das pontas dos pés, os pulmões se inflando para proteger os órgãos vitais, as pernas flexionando-se para funcionar como um aríete e, finalmente, a gratidão pelo ondulante rio Tibre estar cheio e revolto, o que tornava suas águas espumantes e cheias de ar três vezes mais macias do que a água parada.

Depois houve o impacto e as trevas.

Foi o barulho trovejante da lona batendo que fez o grupo tirar os olhos da bola de fogo no alto. O céu de Roma estivera cheio de visões naquela noite: um helicóptero subindo em linha reta como um foguete, uma enorme explosão e agora aquele estranho objeto que mergulhara nas águas agitadas do rio Tibre, ao largo da pequenina ilha que havia no rio, a Isola Tiberina.

Desde o tempo em que a ilha fora usada para manter doentes de quarentena durante a praga que assolou Roma em 1656, dizia-se que possuía propriedades curativas místicas. Por esta razão, mais tarde fora ali instalado o Hospital Tiberina de Roma.

O corpo estava bastante machucado quando foi puxado para a margem. O homem ainda tinha uma leve pulsação, o que era espantoso, pensaram. Especularam se não teria sido a lendária reputação da Isola Tiberina para a cura que de alguma forma teria mantido o coração dele batendo. Minutos depois, quando o homem começou a tossir e a lentamente recuperar a consciência, o grupo concluiu que a ilha devia ser mesmo mágica.

CAPÍTULO 126

O cardeal Mortati sabia que não existiampalavras em nenhuma língua capazes de acrescentar o que quer que fosse ao mistério daquele momento. O silêncio da visão no alto da Praça de São Pedro era mais eloqüente do que um coro de anjos.

Quando levantou os olhos para o camerlengo Ventresca, Mortati sentiu um choque paralisante entre seu coração e sua mente. A visão parecia real, tangível. E, no entanto, como era possível?

Todos tinham visto o camerlengo entrar no helicóptero. Todos tinham testemunhado a presença da bola de luz no céu. E agora, sem que se soubesse como, o camerlengo estava no terraço da basílica. Transportado por anjos? Reencarnado pela mão de Deus?

Isso é impossível...

O coração de Mortati queria acreditar, mas sua mente exigia razões. E os cardeais que o cercavam, evidentemente vendo o mesmo que ele via, olhavam para cima imóveis, deslumbrados.

Era o camerlengo. Sem sombra de dúvida. Mas ele parecia de certa forma diferente. Divino.

Como se tivesse sido purificado. Um espírito? Um homem? Sua carne branca brilhava à luz dos refletores com uma leveza incorpórea.

Na praça havia choro, vivas, aplausos espontâneos. Um grupo de freiras caiu de joelhos e entoou saetas. Um ruído ritmado elevou-se da multidão. Súbito, a praça inteira repetia o nome do camerlengo. Os cardeais, alguns com lágrimas rolando nas faces, uniram-se ao povo. Mortati olhou em torno de si e tentou compreender. Isto realmente está acontecendo?

O camerlengo Carlo Ventresca, do terraço no telhado da Basílica de São Pedro, contemplava os milhares de pessoas voltadas para ele. Estava acordado ou sonhando? Sentia-se transformado, sobrenatural. Pensava se teria sido seu corpo ou somente seu espírito que tinha descido flutuando do céu para a maciez e a penumbra dos Jardins do Vaticano, pousando como um anjo silencioso nos gramados desertos, seu pára-quedas negro protegido da loucura pela sombra imponente da Basílica de São Pedro. Pensava se teria sido seu corpo ou seu espírito que tivera forças para subir a antiga Escadaria dos Medalhões até o terraço onde agora se encontrava.

Sentia-se leve como um fantasma. Embora as pessoas lá embaixo estivessem entoando seu nome, sabia que não era ele quem estavam saudando. Saudavam por um mero impulso de alegria, a mesma alegria que ele sentia todos os dias de sua vida quando meditava sobre o Todo-Poderoso. Vivenciavam o que todos sempre tinham desejado: uma garantia do alto, uma comprovação do poder do Criador.

O camerlengo Ventresca rezara toda a sua vida por esse momento e, ainda assim, nem ele conseguia acreditar inteiramente que Deus encontrara uma forma para torná-lo manifesto. Queria gritar para as pessoas. Seu Deus é um Deus vivo! Atentem para todos os milagres que as cercam!

Permaneceu um pouco ali, entorpecido e ao mesmo tempo sentindo tudo com mais intensidade do que jamais sentira. Quando afinal a disposição de espírito o fez mover-se, curvou a cabeça e recuou, afastando-se da beirada do terraço.

Sozinho, ajoelhou-se e rezou.

CAPÍTULO 127

Imagens imprecisas rodeavam-no, indo e vindo. Os olhos de Langdon lentamente começaram a vê-las em foco. Suas pernas doíam e seu corpo parecia ter sido atropelado por um caminhão. Estava deitado de lado no chão. Algo cheirava mal, como bílis. Ainda ouvia o ruído incessante de água. Não lhe soava tranqüilo como antes. Havia outros sons - gente falando perto dele. Entreviu vultos brancos, embaçados. Todos estavam vestidos de branco? Langdon concluiu que devia estar em um hospício ou então no céu.

Pelo ardor em sua garganta, achou que não poderia ser o céu.

- Ele parou de vomitar - disse um homem em italiano. - Virem-no. - A voz era firme e profissional.

Langdon sentiu mãos virarem seu corpo devagar para deitá-lo de costas. Sua cabeça girava. Tentou sentar-se, mas as mãos delicadamente o forçaram a permanecer deitado. Seu corpo submeteu-se. Então, sentiu alguém examinando seus bolsos, tirando coisas de dentro deles.

Depois, perdeu por completo os sentidos.

O doutor Jacobus não era um homem religioso. A medicina fizera-o deixar de ser já fazia muito tempo.

Contudo, os acontecimentos daquela noite na Cidade do Vaticano tinham posto em teste sua lógica sistemática. Agora caem corpos do céu?

O doutor Jacobus tomou o pulso do homem sujo e molhado que tinham retirado do rio Tibre. O médico admitiu que o próprio Deus entregara em mãos e em segurança aquele homem. O impacto com a água pusera-o inconsciente e, se não fosse Jacobus e sua equipe estarem na beira do rio assistindo ao espetáculo no céu, essa alma caída não teria sido notada e com certeza teria se afogado.

- É americano - disse uma enfermeira, revirando a carteira do homem depois de o terem levado para terra firme.

Americano? Os romanos costumavam caçoar que havia tantos americanos em Roma que os hambúrgueres deveriam passar a ser a comida oficial italiana. Mas americanos caindo do céu?

Jacobus piscou a luz de uma pequena lanterna nos olhos do homem para testar a dilatação da pupila.

- Senhor? Está ouvindo? Sabe onde está?

O homem estava inconsciente outra vez. Jacobus não se surpreendeu. Vomitara muita água depois que Jacobus lhe aplicara a ressuscitação cardiorrespiratória.

- Si chiama Robert Langdon - disse a enfermeira, lendo a carteira de motorista da vítima.

Todo o grupo reunido no cais parou de repente.

- Impossibile! - declarou Jacobus.

Robert Langdon era o homem da televisão - o professor americano que vinha ajudando o Vaticano.

Jacobus vira o senhor Langdon, poucos minutos antes, entrar em um helicóptero na Praça de São Pedro e voar quilômetros pelo ar. Jacobus e os outros tinham saído correndo para o cais para ver a explosão da antimatéria - uma fantástica esfera de luz, diferente de tudo o que já tinham visto. Como poderia ser a mesma pessoa?

- É ele mesmo! - exclamou a enfermeira, afastando-lhe da testa o cabelo molhado. -Estou reconhecendo o casaco de lã dele!

Subitamente, alguém gritou da entrada do hospital. Era uma das pacientes. A mulher berrava, parecia enlouquecida, segurando seu rádio portátil no braço estendido para o alto e dando graças a Deus. Dizia que o camerlengo Ventresca acabara de aparecer miraculosamente no telhado do Vaticano.

O doutor Jacobus decidiu que, quando seu plantão terminasse, às 8h, ele iria direto para a igreja.

As luzes acima da cabeça de Langdon eram mais brilhantes agora, frias. Ele se encontrava em uma espécie de mesa de exame. Sentia o cheiro de desinfetantes, de estranhos produtos químicos. Alguém lhe dera uma injeção e tinham tirado suas roupas.

Decididamente, não são ciganos, concluiu ele em seu delírio semiconsciente. Extraterrenos, talvez?

Já ouvira falar de coisas assim. Felizmente, esses seres não lhe fariam mal. Só queriam os seus...

- De jeito nenhum! - Langdon sentou-se abruptamente, abrindo os olhos.

- Attento! - gritou uma das criaturas, segurando-o. Usava um pequeno crachá onde estava escrito "Doutor Jacobus" Parecia bastante humano.

Langdon gaguejou:

- Eu... pensei...

- O senhor está em um hospital.

A névoa começou a se dissipar. Langdon sentiu uma onda de alívio. Detestava hospitais, mas decerto menos do que extraterrenos prestes a extrair seus testículos.

- Meu nome é doutor Jacobus - disse o homem. Explicou o que acabara de acontecer. -Tem muita sorte por estar vivo.

Langdon não se sentia muito sortudo. Mal concatenava suas próprias lembranças - o helicóptero, o camerlengo. Seu corpo doía todo. Deram-lhe um pouco de água e fizeram um curativo na palma de sua mão.

- Onde está a minha roupa? - perguntou. Estava vestido com uma túnica de papel.

Uma das enfermeiras mostrou-lhe um amontoado de pedaços rasgados de tecido cáqui e lã tweed pingando de cima de um balcão.

- Estavam encharcadas. Tivemos de cortar tudo para tirá-las do senhor.

Langdon olhou para seu tweed Harris em frangalhos e franziu a testa.

- O senhor tinha uma porção de lenços de papel em seu bolso - disse a enfermeira.

Só então Langdon notou os fragmentos de pergaminho espalhados pelo forro do paletó. O fólio do Diagramma de Galileu. O último exemplar do mundo se dissolvera. Ele estava abalado demais para saber como reagir. Ficou parado, apenas, olhando fixo para o balcão.

- Conseguimos salvar seus objetos pessoais - ela lhe estendeu uma caixa plástica. -Carteira, câmera portátil de vídeo e caneta. Sequei a câmera o melhor que pude.

- Não tenho nenhuma câmera de vídeo.

A enfermeira levantou as sobrancelhas e deu-lhe a caixa. Langdon olhou para os objetos que continha.

Junto com sua carteira e sua caneta havia uma pequena câmera de vídeo Sony. Agora se lembrava. Kohler entregara-a a ele, pedindo que a mostrasse à imprensa.

- Nós a encontramos em seu bolso. Acho que o senhor vai precisar de uma nova. - A enfermeira abriu a tela de duas polegadas na parte de trás da câmera.

- A tela está rachada. - Então, seu rosto se animou. - Mas o som ainda funciona! Mais ou menos. - Encostou a máquina no ouvido. - Fica repetindo a mesma coisa sem parar. - Escutou mais um pouco e depois ficou séria, entregando-a a Langdon. - São dois sujeitos discutindo, acho.

Intrigado, Langdon pegou a câmera e aproximou-a do ouvido. As vozes soavam anasaladas, metálicas, mas eram discerníveis. Uma, perto. A outra, longe. Langdon reconheceu ambas.

Sentado ali, vestido com a túnica descartável do hospital, Langdon escutou espantado toda a conversa.

Apesar de não poder ver o que estava acontecendo, deu graças por ter sido poupado da parte visual ao ouvir o final chocante.

Meu Deus!

Com a conversa recomeçando do início, Langdon abaixou a câmera de seu ouvido e continuou sentado, impressionado, estupefato. A antimatéria, o helicóptero... A mente de Langdon começou a funcionar.

Então, isso quer dizer que...

Teve vontade de vomitar outra vez. Agitado, com uma raiva crescente, ele desceu da mesa e ficou de pé, as pernas bambas.

- Senhor Langdon! - disse o médico, tentando impedi-lo.

- Preciso de umas roupas - pediu Langdon, sentindo a corrente de ar em seu traseiro por causa da túnica aberta atrás.

- Mas o senhor precisa descansar.

- Estou saindo. Agora. Preciso de roupa.

- Mas o senhor...

- Agora!

Todos se entreolharam, desconcertados.

- Não temos roupas - disse o médico. - Talvez amanhã algum amigo seu possa trazê-las para o senhor.

Langdon respirou fundo com uma expressão paciente e encarou o médico.

- Doutor Jacobus, vou sair por aquela porta agora mesmo. Preciso de roupas. Vou para a Cidade do Vaticano. Ninguém pode ir para o Vaticano de bunda de fora. Deu para entender?

O doutor Jacobus engoliu em seco.

- Dêem-lhe alguma coisa para vestir.

Quando Langdon saiu mancando do Hospital Tiberina, sentia-se como um lobinho, um escoteiro-mirim, só que crescido. Usava um macacão azul de paramédico com zíper na frente, enfeitado com distintivos de pano que aparentemente indicavam as numerosas qualificações do dono.

A mulher que o acompanhava era robusta e usava um macacão igual ao dele. O médico garantira a Langdon que ela o levaria ao Vaticano em tempo recorde.

- Molto traffico - disse Langdon, lembrando-lhe que a área em torno do Vaticano estaria congestionada por carros e pessoas.

A mulher não se mostrou preocupada. Apontou orgulhosa para um dos seus distintivos.

- Sono conducente di ambulanza.

- Ambulanza? - Então estava explicado. Langdon achou que um passeio de ambulância viria a calhar.

A mulher conduziu-o para a parte lateral do edificio. Em um aforamento de terra acima da água havia um deque de cimento onde o veículo a esperava. Quando Langdon o viu, parou. Era um velho helicóptero de transporte médico. Na carcaça estava escrito Aero-Ambulanza.

Ele baixou a cabeça.

A mulher sorriu.

- Voar Cidade do Vaticano. Muito rápido.

CAPÍTULO 128

O Colégio dos Cardeais estava em ebulição ao voltar para a Capela Sistina. Mortati, ao contrário, sentia crescer dentro de si uma confusão tão grande que quase poderia levantá-lo do chão e carregá-lo. Acreditava nos antigos milagres das Escrituras e, todavia, o que acabara de testemunhar era algo que não conseguia compreender. Depois de uma vida inteira de devoção, 79 anos, Mortati sabia que tais acontecimentos deveriam despertar nele uma piedosa exuberância, uma fé ardorosa e viva. No entanto, só sentia um constrangimento espectral e cada vez maior. Havia algo errado.

- Signore Mortati! - gritou um guarda suíço aproximando-se às pressas.

- Fomos ao telhado da basílica como o senhor pediu. O camerlengo é de carne

e osso! É um homem de verdade! Não é um espírito! É exatamente a pessoa

que conhecemos!

- Ele falou com vocês?

- Está ajoelhado rezando em silêncio! Ficamos com medo de tocar nele!

Mortati estava perdido.

- Digam a ele que seus cardeais estão esperando.

- Signore, por ele ser mesmo um homem... - o guarda hesitou.

- O que é?

- O peito dele... ele está queimado. Podemos fazer um curativo na ferida? Ele deve estar sentindo dor.

Mortati refletiu. Nada em todo o seu tempo de serviço à Igreja o preparara para aquela situação.

- Ele é um homem, portanto tratem dele como se trata de um homem. Lavem-no. Cuidem de suas feridas.

Dêem-lhe roupas limpas. Esperamos por ele na Capela Sistina.

O guarda saiu correndo.

Mortati seguiu para a capela. O resto dos cardeais já se encontrava lá dentro. Caminhando pelo corredor, viu Vittoria Vetra sozinha, com ar abatido, sentada em um banco ao pé da Escadaria Real. A dor e a solidão da perda eram visíveis no rosto dela e Mortati teve vontade de ir ao seu encontro, mas sabia que isso teria de esperar. Tinha trabalho a fazer, embora não tivesse a menor idéia de qual pudesse ser esse trabalho.

Mortati entrou na capela. Havia uma excitação ruidosa no ambiente. Fechou a porta. Que Deus me ajude.

A Aero-Ambulanza de dois rotores do Hospital Tiberina contornava a Cidade do Vaticano por trás, e Langdon cerrava os dentes, jurando por Deus que aquela seria a última viagem de helicóptero de sua vida.

Depois de convencer a mulher que fazia as vezes de piloto de que as regras que regiam o espaço aéreo do Vaticano eram o que menos preocupava a cidade do Papa naquele momento, ele a guiou, sem serem vistos, por cima do muro de trás, até a aterrissagem no heliporto do Vaticano.

Continuar: parte 2 de 3