Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 8 de 8 · parte 2/3

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Anjos e Demônios

Nas televisões do mundo todo, em tamanho…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Grazie - disse ele, descendo penosamente. Ela lhe soprou um beijo e decolou rápido, desaparecendo dentro da noite na direção de onde viera.

Langdon respirou fundo, tentou clarear a mente, procurando entender o que estava prestes a fazer. Com a câmera na mão, embarcou no mesmo carrinho de golfe em que andara mais cedo naquele mesmo dia. Não tinha sido recarregado e o medidor indicava que a bateria estava no final. Ele dirigiu com os faróis apagados para economizar energia.

Também preferia que ninguém o visse chegar.

Nos fundos da Capela Sistina, o cardeal Mortati parou atordoado diante do pandemônio que se formara.

- Foi um milagre! - um dos cardeais gritava. - Foi obra de Deus!

- Sim! - exclamavam outros. - Deus manifestou sua vontade!

- O camerlengo será nosso Papa! - gritou outro. - Ele não é cardeal, mas Deus enviou um sinal milagroso!

- Sim! - concordou alguém. - As leis do conclave são leis do homem. A vontade de Deus está diante de nós! Solicito uma eleição imediatamente!

- Uma eleição? - perguntou Mortati, caminhando na direção deles. - Acho que esta é minha função.

Todos se viraram.

Mortati notou que os cardeais o examinavam. Pareciam distantes, desnorteados, ofendidos com a sua sobriedade. Mortati desejava muito que seu coração também fosse arrebatado por aquela miraculosa exaltação que via nos rostos que o cercavam. Mas não conseguia. Sentia uma dor inexplicável em seu íntimo, uma dolorosa tristeza que não sabia definir. Havia jurado dirigir aqueles procedimentos com pureza de alma e sua hesitação era algo que não podia negar.

- Meus amigos - disse Mortati, subindo ao altar. Quase não reconhecia a própria voz. -Acho que até o fim dos meus dias vou debater comigo mesmo o significado daquilo que testemunhamos hoje. E, no entanto, o que sugerem com relação ao camerlengo não pode ser de jeito algum a vontade de Deus.

Fez-se silêncio na capela.

- Como pode dizer isso? - perguntou afinal um dos cardeais. - O camerlengo salvou a Igreja. Deus falou diretamente ao camerlengo! O homem sobreviveu à própria morte! De que outro sinal precisamos mais?

- O camerlengo virá ao nosso encontro aqui - disse Mortati. - Vamos esperar. Vamos escutá-lo antes de fazer uma eleição. Pode haver uma explicação.

- Uma explicação?

- Como seu Grande Eleitor, jurei preservar as leis do conclave. Todos sem dúvida estão cientes de que, pela Santa Lei, o camerlengo é inelegível para o papado. Ele não é cardeal. É um padre, um camarista. Há também a questão de sua idade inadequada. - Mortati notou olhares mais duros. - Ao consentir que se realizasse uma eleição, eu estaria permitindo que os senhores aprovassem um homem que a Lei Vaticana considera inelegível. Estaria pedindo a cada um que quebrasse um juramento sagrado.

- Mas o que aconteceu aqui esta noite - alguém disse, titubeante - certamente transcende as nossas leis!

- Será mesmo? - Mortati replicou, cheio de autoridade, sem ao menos saber de onde vinham suas palavras.

- Será que é a vontade de Deus que deixemos de lado as regras da Igreja? Será que Deus quer que abandonemos a razão e nos entreguemos ao delírio?

- Mas o senhor não viu o que nós vimos? - um outro o desafiou, irritado.

- Como pode se atrever a questionar um poder como aquele?

A voz de Mortati projetou-se então com uma ressonância que ele jamais conhecera.

- Não estou questionando o poder de Deus! Foi Deus quem nos concedeu razão e circunspecção! É a Deus que servimos exercendo a prudência!

CAPÍTULO 129

Sentada em um banco junto à base da Escadaria Real, no corredor do lado de fora da Capela Sistina, Vittoria Vetra parecia entorpecida. Quando avistou a figura que entrava pela porta dos fundos, pensou que estivesse vendo outro espírito. Ele estava enfaixado, mancando e vestido com uma espécie de uniforme médico.

Ela se levantou, incapaz de acreditar na visão.

- Ro... bert?

Ele nem respondeu. Caminhou direto para ela e a envolveu em seus braços. Apertou seus lábios contra os dela em um beijo impulsivo, longamente desejado, cheio de gratidão.

Vittoria sentiu as lágrimas chegando.

- Oh, Deus.., oh, obrigada, meu Deus...

Ele a beijou de novo, um beijo mais apaixonado, e ela comprimiu seu corpo contra o dele, perdendo-se no abraço. Seus corpos se uniram como se já se conhecessem há anos. Ela esqueceu o medo e a dor e fechou os olhos, a alma leve, naquele momento perfeito.

- É a vontade de Deus! - alguém gritava, a voz ecoando na Capela Sistina.

- Quem mais além do escolhido poderia ter sobrevivido àquela explosão diabólica?

- Eu - uma voz reverberou do fundo da capela.

Mortati e os outros viraram-se espantados para a figura maltratada que se aproximava pelo centro da nave.

- Senhor Langdon?!

Sem uma palavra, Langdon encaminhou-se devagar para a frente da capela. Vittoria Vetra entrou também.

Logo depois, dois guardas surgiram apressados empurrando um carrinho com uma grande televisão em cima. Langdon esperou enquanto eles ligavam o aparelho, a tela voltada para os cardeais. Então, Langdon fez sinal para que os guardas se retirassem. Eles o fizeram, fechando as portas atrás de si. Agora era entre Langdon, Vittoria e os cardeais. Langdon conectou a câmera Sony à televisão e apertou o botão play.

A tela se acendeu.

A cena que se materializou diante dos cardeais passava-se no escritório do Papa. O vídeo fora filmado de forma desajeitada, como se a câmera estivesse escondida. Descentrado na tela, o camerlengo aparecia meio na penumbra, em frente à lareira acesa. Embora parecesse estar falando diretamente para a câmera, logo ficou evidente que estava falando com alguém - a pessoa que filmava. Langdon disse aos cardeais que o vídeo fora filmado por Maximilian Kohler, o diretor do CERN. Apenas uma hora antes, Kohler filmara secreta- mente seu encontro com o camerlengo usando a minúscula câmera de vídeo que trazia disfarçada sob um dos braços de sua cadeira de rodas.

Mortati e os cardeais assistiam a tudo perplexos. A conversa já começara, mas Langdon não se deu ao trabalho de rebobinar a fita. O que ele queria que os cardeais vissem ainda estava por vir.

...

- Leonardo Vetra mantinha um diário? - dizia o camerlengo. - Imagino que isso seja uma boa notícia para o CERN. Se os diários contêm seus processos para criar antimatéria...

- Não contêm - disse Kohler. - Vai ser um alívio para o senhor saber que esses processos morreram com Leonardo. No entanto, os diários falam de um assunto diferente. Do senhor.

O camerlengo pareceu perturbar-se.

- Não compreendo.

- Descrevem um encontro que Leonardo teve no mês passado. Com o senhor.

O camerlengo hesitou, depois olhou para a porta.

- Rocher não deveria ter autorizado sua entrada sem me consultar. Como chegou aqui?

- Rocher sabe da verdade. Telefonei antes de vir e contei a ele o que o senhor fez.

- O que eu fiz? Seja qual for a história que contou a ele, Rocher é da Guarda Suíça e fiel demais a esta Igreja, não acreditaria mais em um cientista amargo do que em seu camerlengo.

- Na realidade, ele é fiel demais para não acreditar. É tão fiel que, apesar da prova de que um dos seus leais guardas traiu a Igreja, ele se recusou a aceitar o fato. O dia inteiro vem procurando outra explicação.

- Que o senhor deu a ele.

- A verdade. Por mais chocante que fosse.

- Se Rocher tivesse acreditado no senhor, teria me prendido.

- Não. Eu não deixei. Ofereci a ele o meu silêncio em troca deste encontro.

O camerlengo deu uma risada estranha.

- O senhor pretende chantagear a Igreja com uma história em que ninguém vai acreditar?

- Não preciso fazer chantagem nenhuma. Quero simplesmente ouvir a verdade de sua boca. Leonardo Vetra era meu amigo.

O camerlengo nada disse. Limitou-se a olhar para Kohler.

- Vejamos, então - começou Kohler, áspero. - Há cerca de um mês, Leonardo Vetra entrou em contato com o senhor solicitando uma audiência urgente com o Papa. Uma audiência que o senhor concedeu porque o Papa admirava o trabalho de Leonardo e porque Leonardo disse que era uma emergência.

O camerlengo voltou-se para o fogo da lareira. Não disse nada.

- Leonardo veio ao Vaticano em absoluto segredo. Estava traindo a confiança de sua filha ao vir aqui, um fato que o perturbava grandemente, mas ele achava que não tinha opção. Suas pesquisas haviam criado um profundo conflito em seu íntimo e ele sentia necessidade de orientação espiritual da Igreja. Em um encontro particular, contou ao Papa que havia feito uma descoberta científica com profundas implicações religiosas. Havia provado que o Gênese era fisicamente possível e que intensas fontes de energia, que Vetra chamava de Deus, poderiam reproduzir o momento da Criação.

Silêncio.

- O Papa ficou entusiasmado - Kohler continuou. - Queria que Leonardo divulgasse a experiência. Sua Santidade achava que essa descoberta poderia começar a aproximar a ciência da religião, um dos sonhos da vida do Papa. Então, Leonardo explicou ao senhor o aspecto negativo da descoberta, o motivo pelo qual ele solicitara a orientação da Igreja. Parecia que sua experiência da Criação, exatamente como a Bíblia relata, produzia tudo aos pares. Opostos. Luz e trevas. Além do processo de criação da matéria, Vetra descobriu o da criação da antimatéria. Devo prosseguir?

O camerlengo manteve-se calado. Inclinou-se para atiçar as brasas da lareira.

- Depois que Leonardo Vetra veio aqui - disse Kohler -, o senhor foi ao CERN ver o trabalho dele. Os diários de Leonardo dizem que o senhor fez uma visita pessoal ao laboratório dele.

O camerlengo levantou a cabeça.

Kohler foi em frente.

- O Papa não poderia viajar sem atrair a atenção da mídia, por isso mandou o senhor. Leonardo levou-o para uma excursão secreta pelo laboratório. Fez uma demonstração de aniquilamento de antimatéria, o Big-Bang, o poder da Criação. Também lhe mostrou um grande espécime que mantinha escondido e que provava que seu novo método poderia produzir antimatéria em larga escala. O senhor ficou assombrado.

Voltou para a Cidade do Vaticano para contar ao Papa o que tinha presenciado.

O camerlengo suspirou.

- E é isso que o incomoda? Que eu tenha respeitado a confiança de Leonardo ao fingir perante o mundo esta noite que nada sabia sobre a antimatéria?

- Não! O que me incomoda é que Leonardo Vetra praticamente provou a existência de seu Deus e o senhor fez com que ele fosse assassinado!

O camerlengo voltou-se para ele afinal, o rosto impenetrável.

O único som era o estalar do fogo.

Súbito, a câmera balançou e o braço de Kohler apareceu no enquadramento. Ele se curvou para a frente, tentando alcançar algo preso debaixo de sua cadeira de rodas. Quando endireitou o corpo, segurava uma pistola. O ângulo da câmera era arrepiante: visto por trás, o braço estendido apontava o revólver direto para o camerlengo.

Kohler disse:

- Confesse os seus pecados, padre. Agora.

O camerlengo parecia assustado.

- Não vai sair vivo daqui.

- A morte seria um alívio bem-vindo para o sofrimento pelo qual sua religião me faz passar desde que eu era criança - Kohler segurava o revólver com as duas mãos agora. - Estou lhe dando uma chance. Confesse os seus pecados ou morra agora mesmo.

O camerlengo olhou de soslaio para a porta.

- Rocher está lá fora - desafiou-o Kohler. - Ele também está preparado para matá-lo.

- Rocher jurou proteger a Ig...

- Rocher deixou que eu entrasse aqui. Armado. Está enojado com as suas mentiras. O senhor tem uma única opção. Confessar-se a mim. Tenho de ouvir tudo de sua própria boca.

O camerlengo hesitou.

Kohler levantou a arma.

- Realmente duvida que eu vá matá-lo?

- Não importa o que lhe conte - disse o camerlengo - um homem como o senhor nunca entenderia.

- Experimente.

O camerlengo permaneceu imóvel por um instante, uma silhueta dominante em meio à vaga luminosidade do fogo. Quando falou, suas palavras ecoaram com uma dignidade mais apropriada a uma gloriosa narrativa de altruísmo do que a uma confissão.

- Desde o princípio dos tempos - disse o camerlengo -, a Igreja lutou contra os inimigos de Deus. Às vezes com palavras. Outras vezes com espadas. E sempre sobrevivemos.

O camerlengo irradiava convicção.

- Os demônios do passado - continuou ele - eram demônios de fogo e abominação. Esses eram inimigos contra os quais podíamos lutar, inimigos que inspiravam medo. Mas Satã é astuto. Com o passar do tempo, abandonou sua fisionomia diabólica e assumiu uma nova face: a face da pura razão. Transparente e insidiosa, mas também sem alma. - A voz do camerlengo enraiveceu-se de modo inesperado, numa transição quase insana. - Diga-me, senhor Kohler, como pode a Igreja condenar o que faz sentido, o que é lógico para nossas mentes? Como podemos censurar o que hoje é o próprio fundamento de nossa sociedade? Cada vez que a Igreja levanta a voz para fazer uma advertência, vocês gritam mais alto e nos chamam de ignorantes. De paranóicos. De controladores! E assim a sua maldade cresce. Encoberta por um véu de virtuoso intelectualismo. Espalha-se como um câncer. Santificada pelos milagres de sua própria tecnologia. Deificando-se a si mesma! Até se dissipar a nossa desconfiança e passarmos a achar que é pura bondade. A ciência chegou para nos salvar de nossas doenças, de nossa fome e de nosso sofrimento! Eis a ciência, o novo Deus de infinitos milagres, onipotente e benevolente! Ignorem as armas e o caos. Esqueçam a solidão dilacerada e os perigos intermináveis! A ciência está aqui! - O camerlengo deu um passo na direção do revólver. - Mas eu vi o rosto de Satã à espreita, vi o perigo.

- O que é que está dizendo! A ciência de Vetra praticamente provou a existência de seu Deus! Ele era seu aliado!

- Aliado? A ciência e a religião não andam juntas nisso! Não buscamos o mesmo Deus, você e eu! Quem é seu Deus? Um Deus de prótons, massa e cargas de partículas? Como o seu Deus inspira seus fiéis?

Como é que o seu Deus chega ao coração do homem para lembrar-lhe que ele é explicável por um poder maior? Ou que ele é responsável por seus semelhantes? Vetra estava desencaminhado. Seu trabalho não era religioso, era sacrílego! O homem não pode colocar a Criação de Deus dentro de um tubo de ensaio e exibi-la para o mundo! Isto não glorifica Deus, isto desmerece Deus!

O camerlengo, a essa altura, apertava o próprio corpo com as mãos em garra, a voz enlouquecida.

- E por isso mandou matar Leonardo Vetra!

- Pela Igreja! Por toda a humanidade! Que loucura era aquela! O homem não está preparado para ter o poder de Deus em suas mãos. Deus em um tubo de ensaio? Uma gotinha de líquido que pode desintegrar uma cidade inteira? Ele tinha de ser detido!

O camerlengo calou-se abruptamente. Parecia estar considerando suas opções.

As mãos de Kohler levantaram o revólver.

- Você confessou. Não tem mais escapatória.

O camerlengo riu um riso triste.

- Então não sabe que confessar os pecados é a forma de escapar? - Olhou para a porta.- Quando Deus está do nosso lado, temos opções que um homem como você não é capaz de compreender.

Com essas palavras ainda ressoando no ar, o camerlengo agarrou a sua batina pela gola e rasgou-a com violência, deixando seu peito nu.

Kohler fez um movimento brusco, obviamente espantado.

- O que está fazendo?

O camerlengo não respondeu. Deu um passo para trás, para junto da lareira, e tirou um objeto das brasas reluzentes.

- Pare! - ordenou Kohler, a arma ainda levantada. - O que está fazendo?

Quando o camerlengo se virou, segurava um ferro de marcar em brasa. O diamante Illuminati. O homem tinha uma expressão desvairada.

- Pretendia fazer isto sozinho - falava com uma intensidade selvagem -, mas agora vejo que Deus queria que você estivesse aqui. Você é minha salvação.

Antes que Kohler pudesse esboçar qualquer reação, o camerlengo fechou os olhos, arqueou as costas e comprimiu o ferro em brasa no centro do próprio peito. Sua carne chiou.

- Mãe Maria! Mãe Bendita! Olhe seu filho! - e gritou alto de dor. Kohler surgiu no enquadramento mal se equilibrando nas pernas, o revólver agitando-se descontroladamente.

O camerlengo gritou mais alto, o corpo oscilando. Ele lançou o ferro de marcar aos pés de Kohler e caiu no chão, contorcendo-se em agonia.

O que aconteceu em seguida foi difícil de distinguir.

Houve um grande tremor na imagem da tela quando a Guarda Suíça irrompeu na sala. Ouviu-se o som de tiroteio. Kohler dobrou os braços no peito, foi lançado para trás, sangrando, e caiu da cadeira de rodas.

Não! - gritou Rocher, tentando impedir seus guardas de atirarem em Kohler.

O camerlengo, ainda se contorcendo no chão, girou o corpo e apontou freneticamente para Rocher:

- Iliuminatus!

- Canalha! - berrou Rocher, correndo para ele. - Seu canalha santarrão...

Chartrand abateu-o com três tiros. Rocher caiu morto no chão da sala.

Então, os guardas correram para o camerlengo ferido, rodeando-o. Ao mesmo tempo que eles se reuniam, o vídeo pegava o rosto estarrecido de Robert Langdon, ajoelhado perto da cadeira de rodas, olhando para o ferro de marcar. Depois, a imagem sacudiu fortemente. Kohler recuperara a consciência e estava soltando a pequenina câmera do suporte localizado debaixo do braço de sua cadeira. Em seguida, tentava estender a mão com a câmera para Langdon.

- Ent. . .tregue... - arquejou Kohler -, en. . .tregue isto... à imprensa.

E a tela ficou branca.

CAPÍTULO 130

O camerlengo começou a sentir a névoa de exaltação e de adrenalina se dissipar. Enquanto a Guarda Suíça o ajudava a descer a Escadaria Real para ir para a Capela Sistina, o camerlengo escutou cânticos na Praça de São Pedro e soube que montanhas haviam sido removidas. Grazie Dio.

Ele rezara pedindo forças e Deus as concedera. Nos momentos em que duvidara, Deus falara. Tua missão é Santa, Deus dissera. Dar-te-ei forças. Mesmo com a força de Deus, o camerlengo sentira medo, questionara a correção de seu caminho.

Se não fores tu, Deus o desafiara, QUEM o fará?

Se não for agora, QUANDO será?

Se não for assim, COMO será?

Jesus, Deus lembra-lhe, salvara-os todos, salvara-os da própria apatia. Com dois atos, Jesus abrira-lhes os olhos. Horror e Esperança. A crucificação e a ressurreição. Ele mudara o mundo.

Mas isto acontecera havia milênios. O tempo corroera o milagre. As pessoas haviam se esquecido. Tinham se voltado para os falsos ídolos - tecnodivindades e milagres da mente. E quanto aos milagres do coração?

O camerlengo sempre rezava para que Deus lhe mostrasse como fazer os homens acreditarem outra vez.

Mas Deus permanecia em silêncio. Foi somente no momento mais sombrio que Deus veio ao encontro do camerlengo. Ah, que noite terrível!

O camerlengo ainda se lembrava de estar deitado no chão com a roupa de dormir em frangalhos cravando as unhas na própria carne, tentando purgar sua alma do sofrimento provocado por uma verdade infame que descobrira pouco antes. Não pode ser!, gritara. Entretanto, sabia que era. O engano queimava-o como o fogo do inferno. O bispo que o acolhera, o homem que fora como um pai para ele, o religioso ao lado de quem o camerlengo sempre ficara enquanto ele subia até chegar ao papado, era uma fraude. Um pecador comum. Mentindo para o mundo sobre um ato tão traiçoeiro em sua essência que o camerlengo duvidava que o próprio Deus pudesse perdoá-lo.

- Seu juramento! - o camerlengo gritara para o Papa. - O senhor quebrou seu juramento a Deus! Logo o senhor, entre todos os homens!

O Papa tentou se explicar, mas o camerlengo não lhe deu ouvidos. Saiu correndo, cambaleando às cegas pelos corredores, vomitando, rasgando a própria pele até dar por si ensangüentado e sozinho, caído no chão de terra diante da tumba de São Pedro. Mãe Maria, o que faço agora? Foi naquele momento de dor e traição, quando o camerlengo estava prostrado na Necrópole, rezando para Deus levá-lo deste mundo sem fé, que Ele veio.

A voz em sua cabeça ressoou como um trovão.

Juraste servir teu Deus?

- Sim! - bradou o camerlengo.

Morrerias por teu Deus?

- Sim! Leve-me agora!

Morrerias por tua Igreja?

- Sim! Liberte-me, por favor!

Mas morrerias pela humanidade?

No silêncio que se seguiu, o camerlengo sentiu-se despencando no abismo. Cada vez mais fundo, cada vez mais depressa, sem controle. No entanto, sabia a resposta. Sempre soubera.

- Sim! - gritou em meio à loucura. - Eu morreria pelos homens! Como Teu filho, morreria por eles!

Horas depois, o camerlengo ainda tiritava caído no chão. Viu o rosto de sua mãe. Deus tem planos para você, ela dizia. O camerlengo mergulhou mais ainda no desvario. Então, Deus falou de novo. Desta vez, com silêncio. Mas o camerlengo compreendeu. Restaure a fé dos homens.

Se não fosse eu, quem seria?

Se não fosse agora, quando seria?

Quando os guardas destrancaram a porta da Capela Sistina, o camerlengo Ventresca sentiu o poder fluindo em suas veias, exatamente como quando ele era menino. Deus o escolhera. Muito tempo antes.

Seja feita a Sua vontade.

O camerlengo sentia-se renascido. A Guarda Suíça encarregara-se de enfaixar seu peito, de banhá-lo e vestir nele uma batina limpa de linho branco. Tinham-lhe dado também uma injeção de morfina para a dor da queimadura. O camerlengo desejara não ter tomado analgésico algum. Jesus suportou Suas dores durante três dias na cruz! Já sentia a droga lhe amortecendo os sentidos, uma vertigem que o arrastava.

Ao entrar na capela, não se surpreendeu nada com os olhares admirados dos cardeais para ele. É uma admiração reverente por Deus, lembrou a si mesmo.

Não por mim, mas pela maneira como Deus trabalha ATRAVÉS da minha pessoa. Enquanto caminhava pelo centro da nave, via perplexidade em todos os rostos. A cada rosto por que passava, porém, percebia algo mais no olhar. O que seria? O camerlengo imaginara antes como eles o receberiam naquela noite. Com alegria? Com respeito? Tentou ler seus olhos e não encontrou neles nenhuma dessas duas emoções.

Foi então que o camerlengo olhou para o altar e viu Robert Langdon.

CAPÍTULO 131

O camerlengo Cano Ventresca parou entre as fileiras de cadeiras, no meio da Capela Sistina. Os cardeais estavam todos de pé, próximos da frente da igreja, olhando para ele. Robert Langdon estava no altar ao lado de uma televisão ligada, onde se desenrolava uma cena que o camerlengo reconhecia mas não podia imaginar como fora parar ali. Vittoria Vetra encontrava- se junto de Langdon, o rosto tenso.

O camerlengo fechou os olhos por um momento, esperando que tudo fosse uma alucinação causada pela morfina e que, quando os reabrisse, a cena pudesse ser diferente. Mas não era.

Eles sabiam.

Curiosamente, não sentiu medo. Mostre-me o caminho, Pai. Dê-me as palavras para fazê-los ver a Sua visão, pediu.

Mas o camerlengo não obteve resposta.

Pai, chegamos longe demais para fracassar agora.

Silêncio.

Eles não compreendem o que Nós fizemos.

O camerlengo não soube de quem era a voz que ele escutou em sua própria mente, mas a mensagem era brutalmente simples.

E a verdade o libertará...

...

E foi assim que o camerlengo Ventresca manteve a cabeça erguida ao avançar pela Capela Sistina. Andando na direção dos cardeais, nem a difusa luminosidade

das velas suavizava os olhares penetrantes que eles lhe lançavam. Explique-se, diziam os rostos. Dê sentido a esta loucura. Diga que nossos temores são infundados!

A verdade, disse o camerlengo a si mesmo. Só a verdade. Havia segredos demais entre aquelas paredes, um deles tão sombrio que o levara à loucura. Mas da loucura viera a luz.

- Se pudessem dar sua própria alma para salvar milhões - disse ele, enquanto andava -, não o fariam?

Os rostos na capela limitaram-se a olhar para ele. Ninguém se mexia. Ninguém falava. Além das paredes, trechos alegres de cânticos vinham da praça.

O camerlengo caminhava para eles.

- Qual é o maior pecado? Matar o inimigo? Ou ficar inativo enquanto seu verdadeiro amor é esmagado?

Eles estão cantando na Praça de São Pedro! - O camerlengo parou por um instante e contemplou o teto da Capela Sistina. O Deus de Michelangelo, na abóbada obscurecida, olhava para baixo e parecia satisfeito.

- Eu não podia ficar parado - disse o camerlengo. Cada vez mais próximo dos cardeais, ainda assim não encontrou nenhum lampejo de compreensão nos olhares deles. Será que não enxergavam a radiante simplicidade de seus atos? Não percebiam a sua necessidade absoluta?

Haviam sido tão puros.

Os Illuminati. Ciência e Satã juntos.

Ressuscitar o antigo medo. Depois o esmagar.

Horror e Esperança. Fazê-los acreditar outra vez.

Naquela noite, o poder dos llluminati fora desencadeado mais uma vez, com conseqüências gloriosas. A apatia se evaporara. O medo percorrera todo o mundo como um relâmpago, unindo as pessoas. E então a majestade de Deus vencera as trevas.

Eu não podia deixar de interferir!

A inspiração viera do próprio Deus - aparecendo como um farol luminoso na noite de agonia do camerlengo. Ah, mundo sem fé! Alguém tem de salvá-lo. Você. Se não for você, quem será?

Você foi salvo por uma razão. Mostre-lhes os velhos demônios. Lembre-os de como tinham medo. Apatia é morte. Sem trevas, não há luz. Faça-os escolher. Luz ou trevas. Onde está o medo? Onde estão os heróis? Se não for agora, quando será?

O camerlengo andou pelo centro da nave direto para a multidão de cardeais. Sentiu-se como Moisés quando o mar de faixas e capelos vermelhos abriu-se à sua frente dando-lhe passagem. No altar, Robert Langdon desligou a televisão, pegou a mão de Vittoria e abandonou o altar. O fato de Robert Langdon ter sobrevivido, o camerlengo sabia, só podia ser a vontade de Deus. Deus salvara Robert Langdon. O camerlengo se perguntava por quê.

A voz que quebrou o silêncio foi a da única mulher presente na Capela Sistina.

- Você matou meu pai? - perguntou ela, dando um passo à frente.

Quando o camerlengo encarou Vittoria Vetra, não soube definir bem a expressão no rosto dela - sofrimento, sim, mas raiva? Ela certamente devia compreender. O talento de seu pai era perigoso. Ele tinha de ser impedido de continuar. Para o bem da humanidade.

- Ele estava fazendo o trabalho de Deus - disse Vittoria.

- O trabalho de Deus não é feito dentro de um laboratório. É feito no coração.

- O coração de meu pai era puro! E as pesquisas dele provaram...

- As pesquisas dele provaram outra vez que a mente do homem está progredindo mais depressa do que a sua alma! - a voz do camerlengo soou mais estridente do que ele esperava. Ele baixou o tom. - Se um homem tão espiritualizado quanto seu pai foi capaz de criar uma arma como a que vimos esta noite, imagine o que um homem comum não faria com essa tecnologia que ele criou!

- Um homem como você?

O camerlengo respirou fundo. Será que ela não via? A moral humana não avançava tão depressa quanto a ciência. A humanidade não era bastante evoluída espiritualmente para os poderes que possuía. Nunca criamos uma arma que não tenhamos usado! E ainda assim ele sabia que a antimatéria não era nada - apenas mais uma arma no já copioso arsenal do homem. O homem ainda podia destruir. O homem aprendera a matar havia muito tempo. E o sangue de sua mãe caíra como chuva. O talento de Leonardo Vetra era perigoso por outra razão.

- Durante séculos - disse o camerlengo -, a Igreja se manteve impassível enquanto a ciência desmoralizava a religião pouco a pouco. Desmascarando milagres. Treinando a mente para superar o coração. Condenando a religião como o ópio das massas. Deus foi acusado de ser uma alucinação - um arrimo ilusório para os muito fracos, incapazes de aceitar que a vida não tem qualquer sentido. Eu não podia ficar parado enquanto a ciência se atrevia a captar o poder do próprio Deus! Você falou de prova? Sim, prova da ignorância da ciênda! O que está errado em admitir que algo existe além de nossa compreensão? O dia em que a ciência comprovar a existência de Deus em um laboratório será o dia em que as pessoas não terão mais necessidade da fé!

- Você quer dizer o dia em que as pessoas não terão mais necessidade da Igreja -desafiou-o Vittoria, andando na sua direção. - A dúvida é o seu último farrapo de controle. É a dúvida que traz as almas para vocês. A necessidade humana de saber se a vida tem sentido. A insegurança e a necessidade do homem de uma mente instruída que lhe garanta que tudo é parte de um plano geral. Só que a Igreja não é a única mente instruída do planeta! Nós todos buscamos Deus de diferentes maneiras. De que tem medo? Que Deus se mostre em algum outro lugar fora destas paredes? Que as pessoas O encontrem em suas próprias vidas e deixem esses rituais antiquados para trás? As religiões evoluem! A mente encontra respostas, o coração se apega

a novas verdades. Meu pai buscava o mesmo que você! Em um caminho paralelo! Como não enxergou isto? Deus não é uma autoridade onipotente que nos olha de cima, ameaçando nos atirar em um poço de fogo se desobedecermos. Deus é a energia que flui através das sinapses de nossos sistemas nervosos e dos ventrículos de nossos corações! Deus está em todas as coisas!

- Exceto na ciência - rebateu o camerlengo, os olhos demonstrando somente pena. - A ciência, por definição, não tem alma. É alheia ao coração. Os milagres intelectuais como a antimatéria chegam ao mundo sem instruções éticas anexas. Isto em si mesmo é perigoso! E quando a ciência alardeia suas atividades ímpias como sendo o caminho esclarecido a seguir? Prometendo respostas a perguntas cuja beleza é não ter resposta? - ele sacudiu a cabeça. - Não.

Houve um momento de silêncio. O camerlengo sentiu-se de repente cansado sob o olhar inflexível de Vittoria. Não era assim que deveria ser. Deus o estaria submetendo a um teste final?

Foi Mortati quem quebrou o feitiço do momento.

- Os preferiti - disse ele, num murmúrio horrorizado. - Baggia e os outros. Por favor, diga que não...

O camerlengo voltou-se para ele, surpreso com a dor que transparecia em sua voz. Decerto Mortati seria capaz de compreender. Os milagres da ciência ocupavam as manchetes dos jornais todos os dias. Fazia quanto tempo que o mesmo não acontecia com a religião? Séculos? A religião precisava de um milagre!

Algo que despertasse o mundo adormecido. Que o levasse de volta para o caminho da retidão. Que restaurasse a fé. De qualquer maneira, os preferiti não eram líderes, eram transformadores. Liberais preparados para abraçar o novo mundo e abandonar os velhos métodos! Só havia um jeito. Um novo líder.

Jovem. Vigoroso. Vibrante. Milagroso. Os preferiti serviram mais à Igreja na morte do que jamais o teriam feito quando vivos. Horror e Esperança. Oferecer quatro almas para saívar milhões. O mundo lembraria deles para sempre como mártires. A Igreja prestaria gloriosas homenagens a seus nomes. Quantos milhares morreram pela glória de Deus? Eles eram somente quatro.

- Os preferiti - repetiu Mortati.

- Partilhei a dor deles - defendeu-se o camerlengo, apontando para o peito.

- E eu também teria morrido por Deus, mas meu trabalho apenas começou. Estão cantando na Praça de São Pedro!

O camerlengo vislumbrou horror nos olhos de Mortati e novamente ficou confuso. Seria a morfina?

Mortati olhava para ele como se o camerlengo tivesse matado aqueles homens com suas próprias mãos.

Até isto eu teria feito por Deus, pensou o camerlengo, e contudo não o fizera. A tarefa tinha sido realizada pelo Hassassin, uma alma pagã que fora levada a acreditar que estava trabalhando para os Illuminati. Sou Janus, dissera-lhe o camerlengo. Vou provar meu poder. E o fizera. O ódio do Hassassin transformara-o em um joguete nas mãos de Deus.

- Escutem os cânticos - disse o camerlengo, sorrindo, seu coração se enchendo de alegria. - Nada une mais os corações do que a presença do mal. Queimem uma igreja e a comunidade se levanta, dando-se as mãos, cantando hinos de desafio enquanto a reconstrói. Vejam como eles afluem hoje para cá. O medo os trouxe de volta para casa. Temos de forjar demônios modernos para o homem moderno. A apatia está morta.

Mostremos a eles a face do mal, os adoradores de Satanás à espreita no meio de nós, dirigindo nossos governos, nossos bancos, nossas escolas, ameaçando destruir a própria Casa de Deus com sua ciência pervertida. A corrupção é profunda. O homem precisa estar vigilante. Procurar a virtude. Tornar-se a virtude!

No silêncio, o camerlengo esperava que agora eles tivessem entendido. Os Illuminati não tinham ressurgido. Os Iliuminati estavam mortos fazia muito tempo. Apenas seu mito ainda vivia. O camerlengo fizera os Illuminati ressurgirem como um lembrete. Aqueles que conheciam a história dos liluminati reviveram sua maldade. Os que não conheciam passaram a conhecer e ficaram espantados por terem sido tão cegos. Os antigos demônios tinham sido ressuscitados para despertar um mundo indiferente.

- Mas... os ferros de marcar? - a voz de Mortati soava dura de tanta repulsa.

O camerlengo não respondeu. Mortati não tinha como saber, mas as marcas haviam sido confiscadas pelo Vaticano mais de um século antes. Tinham ficado trancadas, esquecidas e cobertas de poeira no cofre papal, o relicário particular do Papa, no fundo dos Aposentos Bórgia. O cofre papal continha certos objetos que a Igreja considerava perigosos demais para outros olhos a não ser os do Papa.

Por que escondiam algo que inspirava medo? O medo levava as pessoas a Deus!

A chave do cofre-forte passava de um Papa para outro. O camerlengo Ventresca tinha furtado a chave e entrado. O mito que envolvia o conteúdo do cofre era fascinante: o manuscrito original dos 14 livros da Bíblia conhecidos como Apocrypha, a terceira profecia de Fátima, as duas primeiras tendo se realizado e a terceira sendo tão terrível que a Igreja nunca a revelara.

Além de tudo isso, o camerlengo encontrara a Coleção Illuminati, todos os segredos que a Igreja descobrira depois de banir o grupo de Roma: seu infame Caminho da Iluminação, a astuciosa fraude de um dos principais artistas do Vaticano, Bernini, os cientistas mais importantes da Europa zombando da religião ao se reunirem secretamente no Castelo Sant'Angelo, propriedade do Vaticano. A coleção incluía uma caixa pentagonal contendo os ferros de marcar, um deles o mítico diamante Illuminati. Aquela era uma parte da história do Vaticano que os antigos achavam melhor esquecer. O camerlengo, porém, não concordava com isso.

- Mas a antimatéria... - disse Vittoria. - O Vaticano correu o risco de ser destruído!

- Não há riscos quando Deus está a seu lado - objetou o camerlengo. - Esta causa era Dele.

- Você é louco! - exclamou ela, fervendo de indignação.

- Milhões foram salvos.

- Pessoas morreram!

- Almas foram salvas.

- Diga isto a meu pai e a Max Kohler!

- A arrogância do CERN tinha de ser revelada. Uma gotícula de líquido que pode desintegrar um quilômetro? E é a mim que você chama de louco?

- O camerlengo sentiu a raiva subir. Será que achavam que a incumbência dele era simples? - Aqueles que crêem são submetidos a grandes testes por amor a Deus! Deus pediu a Abraão para lhe sacrificar seu filho! Deus ordenou a Jesus que passasse pelo tormento da crucificação! E nós penduramos o símbolo da cruz diante de nossos olhos, sangrento, doloroso, agoniante, para nos lembrarmos do poder do mal! Para manter nossos corações vigilantes! As chagas no corpo de Jesus são uma lembrança viva dos poderes das trevas! Minhas feridas são uma lembrança viva da mesma coisa! O mal está vivo, mas o poder de Deus triunfará!

Seus brados ecoaram na parede dos fundos da Capela Sistina e depois um profundo silêncio caiu sobre todos. O tempo parou. O Último Julgamento, de Michelangelo, erguia-se ameaçador atrás do camerlengo - Jesus lançando os pecadores no inferno. Os olhos de Mortati encheram-se de lágrimas.

- O que você fez, Carlo - perguntou Mortati, num sussurro. Ele fechou os olhos e uma lágrima rolou por sua face -, com o Santo Padre?

Um suspiro coletivo de dor ergueu-se, como se todos até então tivessem esquecido o fato, O Papa.

Envenenado.

- Um mentiroso vil - disse o camerlengo.

Mortati protestou, chocado.

- O que quer dizer? Ele era honesto! E amava você!

- E eu a ele. Ah, como o amava! Mas a fraude! O juramento a Deus que foi quebrado!

O camerlengo sabia que naquele momento eles não compreendiam, mas logo compreenderiam. Quando lhes contasse, eles veriam! O Santo Padre era a fraude mais nefasta que a Igreja jamais tivera. O camerlengo ainda se lembrava daquela noite terrível. Ele voltara de sua viagem ao CERN com as informações sobre o Gênese de Vetra e o poder horripilante da antimatéria. O camerlengo estava certo de que o Papa veria os perigos envolvidos na descoberta, mas o Santo Padre viu apenas esperança nos avanços científicos de Vetra. Chegou a levantar a possibilidade de o Vaticano financiar o trabalho de Vetra como um gesto de boa vontade para com a pesquisa científica baseada na espiritualidade.

Loucura! A Igreja investir em uma pesquisa que ameaçava tornar a própria Igreja obsoleta? Em um trabalho que produzia armas de destruição em massa? A bomba que matara sua mãe...

- O senhor não pode fazer isto! - exclamara o camerlengo.

- Tenho uma dívida muito grande com a ciência - replicara o Papa.

- Algo que escondi a minha vida inteira. A ciência me concedeu uma dádiva quando eu era jovem. Uma dádiva que nunca esqueci.

- Não compreendo. O que teria a ciência a oferecer a um homem de Deus?

- É complicado - dissera o Papa. - Vou precisar de tempo para fazê-lo compreender. Mas antes há um fato a meu respeito que você precisa saber. Mantive segredo sobre isto durante todos estes anos. Acho que já é hora de lhe contar.

E o Papa contara a ele a assombrosa verdade.

CAPÍTULO 132

O camerlengo jazia encolhido no chão de terra diante datumba de São Pedro. Fazia frio na Necrópole, mas isto ajudava a coagular o sangue das feridas que ele fizera na própria carne. O Santo Padre não o encontraria ali.

É complicado - a voz do Papa ecoava em sua mente. Vou precisar de tempo para fazê-lo compreender...

Entretanto, o camerlengo sabia que tempo nenhum o faria compreender.

Mentiroso! Acreditei em você! DEUS acreditou em você!

Com uma única frase, o Papa fizera desmoronar o mundo do camerlengo. Tudo em que o camerlengo acreditara sobre seu mentor fora despedaçado diante de seus olhos. A verdade atingiu o coração do camerlengo com tanta força que ele recuou vacilante para fora do escritório do Papa e vomitou no corredor.

- Espere! - o Papa o chamara, indo atrás dele. - Por favor, deixe-me explicar!

Mas o camerlengo fugiu. Como o Santo Padre poderia esperar que ele agüentasse mais alguma coisa? Ah, que desgraça, quanta depravação! E se alguém descobrisse? Que profanação da Igreja! Então os votos sagrados do Papa nada significavam?

A loucura chegou rápida, gritando em seus ouvidos, até ele acordar diante da tumba de São Pedro. Foi quando Deus veio a ele com uma assombrosa ferocidade.

TEU DEUS É UM DEUS VINGADOR!

Juntos, tinham feito planos. Juntos, iriam proteger a Igreja. Juntos, iriam devolver a fé a este mundo sem fé.

O mal estava em toda parte. E todavia o mundo se tornara imune a ele! Juntos, iriam mostrar a escuridão do mal e Deus triunfaria no fim! Horror e Esperança. Então, o mundo iria acreditar!

O teste final de Deus não fora tão horrível quanto o camerlengo imaginara. Esgueirar-se no quarto de dormir do Papa, encher a sua seringa, cobrir a boca do embusteiro enquanto o corpo dele se entregava aos espasmos da morte. À luz da lua, o camerlengo via nos olhos aflitos do Papa que havia algo que ele queria dizer.

Tarde demais.

O Papa já dissera o suficiente.

CAPÍTULO 133

- O Papa teve um filho.

Dentro da Capela Sistina, o camerlengo permaneceu inabalável enquanto falava. Cinco palavras solitárias e uma conclusão estarrecedora. Toda a assembléia pareceu recuar em conjunto. Os sembiantes acusadores dos cardeais transformaram-se em expressões de pasmo, como se cada criatura ali dentro rezasse para o camerlengo estar errado.

O Papa teve um filho.

O choque atingiu Langdon também. A mão de Vittoria na sua estremeceu, e a mente de Langdon, já atordoada com perguntas não respondidas, procurou encontrar um centro de gravidade.

A declaração do camerlengo parecia que iria pairar acima deles para sempre. Mesmo no olhar delirante do camerlengo, Langdon conseguia ver pura convicção. E tinha vontade de fugir dali, dizer a si mesmo que tudo não passava de um grotesco pesadelo e acordar em um mundo que fizesse sentido.

- Deve ser mentira! - gritou um dos cardeais.

- Não acredito! - protestou outro. - O Santo Padre era um dos homens mais piedosos e sinceros que já existiram!

Foi Mortati quem falou em seguida, com um fio de voz, abalado.

- Meus amigos, o que o camerlengo diz é verdade. - Todos os cardeais na capela voltaram-se para ele ao mesmo tempo, como se ele tivesse proferido uma obscenidade. - O Papa realmente teve um filho.

Os cardeais empalideceram de susto.

O camerlengo ficou estupefato.

- Você sabia? Mas como poderia saber uma coisa dessas?

Mortati suspirou.

- Quando Sua Santidade foi eleito, eu fui o Advogado do Diabo.

Ouviu-se o ruído de todos prendendo a respiração em uníssono.

Langdon compreendeu. Aquilo significava que a informação era provavelmente verdadeira. O abominável "Advogado do Diabo" era a autoridade máxima quando se tratava de informações escandalosas dentro do Vaticano. Segredos vergonhosos nas vidas dos Papas eram perigosos e, antes das eleições, eram realizadas investigações secretas sobre o passado dos candidatos por um único cardeal que servia de "Advogado do Diabo", a pessoa encarregada de desenterrar razões por que cada um dos cardeais elegíveis não deveria se tornar Papa. Essa função era uma indicação antecipada do Papa em exercício como um preparativo para a sua própria morte. O Advogado do Diabo nunca revelava a sua identidade. Jamais.

Continuar: parte 3 de 3