Anjos e Demônios

Dan Brown · Capítulo 3 de 8 · parte 2/2

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Anjos e Demônios

Langdon estava oficialmente perdido. Criar um universo? Recriar o Big-Bang?

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

- Mas brincar de bonecas é muito chato!

- Sinto muito - disse seu pai. - Eu poderia falar sobre matemática com você, mas se descobrirem... - E ele inspecionou as colinas desertas fingindo um ar affito.

Vittoria acompanhou o olhar dele.

- Está bem - ela cochichou. - Então fale bem baixinho.

Vittoria sobressaltou-se com o movimento do elevador. Abriu os olhos. O pai se fora.

A realidade abateu-se sobre ela, envolvendo-a com suas garras geladas. Olhou para Langdon. A expressão de sincera preocupação que ele tinha no rosto aqueceu seu coração como a presença de um anjo da guarda, sobretudo em contraste com a frieza de Kohler.

Um único pensamento nitidamente consciente começou a atormentar Vittoria com uma força implacável.

Onde está a antimatéria?

A terrível resposta viria minutos depois.

CAPÍTULO 30

Maximilian Kohler. Por gentileza, entre em contato com seu escritório imediatamente.

Raios de sol resplandecentes ofuscaram a visão de Langdon quando as portas do levador se abriram no saguão principal. Antes que se dissipasse o eco do aviso no sistema de comunicação interna, todos os aparelhos eletrônicos na cadeira de rodas de Kohler começaram a apitar e zumbir simultaneamente. Seu pager. Seu telefone. Seu e-mail. Kohler ficou meio tonto diante das luzes que piscavam. O diretor voltara à superficie e estava de novo ao alcance.

Diretor Kohler. Por favor, ligue para seu escritório.

O som de seu nome nas caixas de som pareceu espantar Kohler.

Ele levantou a cabeça com ar zangado que, quase de imediato, se tornou preocupado.

Os três se entreolharam. Ficaram imóveis por alguns segundos, como se toda a tensão entre eles se apagasse e fosse substituída por um só pressentimento a uni-los.

Kohler tirou o telefone encaixado no apoio de braço de sua cadeira. Discou um ramal e esforçou-se para conter um novo ataque de tosse. Vittoria e Langdon esperaram.

- Aqui é o diretor Kohler - disse ele, a respiração saindo com um chiado.

- Sim? Eu estava no subterrâneo, fora de alcance. - Ele escutou, arregalando os olhos cinzentos. - Quem?

Sim, transfira a ligação para mim. - Houve uma

pausa. - Alô? Aqui é Maximilian Kohler. Sou o diretor do CERN. Com quem estou falando?

Os outros dois observavam em silêncio enquanto ele escutava seu interlocutor.

- Não acho prudente - Kohler disse finalmente - falar sobre isso ao telefone. Vou para aí imediatamente. - Começou a tossir outra vez. - Encontre-me no Aeroporto Leonardo Da Vinci. Dentro de 40 minutos. - Já lhe faltava a respiração. Foi acometido por um ataque de tosse e, sufocando, mal conseguiu pronunciar as palavras. - Localizem o tubo depressa... estou indo. - E desligou o telefone.

Vittoria correu para perto de Kohler, mas ele não conseguia mais falar. Ela pegou seu próprio telefone e chamou a enfermaria do CERN. Langdon sentia- se como um navio na periferia de uma tempestade, abalado mas distante.

Encontre-me no Aeroporto Leonardo Da Vinci, ecoaram as palavras de Kohler.

Em um instante, as sombras incertas que haviam nublado a mente de Langdon durante toda a manhã consolidaram-se em uma imagem vivida. No meio daquela confusão, ele sentiu uma porta se abrir dentro de si, como se algum limiar místico fosse ultrapassado. O ambigrama. O padre-cientista morto. A antimatéria. E agora, o alvo. A menção ao Aeroporto Leonardo Da Vinci só poderia significar uma coisa. Em um lampejo de absoluta conscientização, ele soube que acabara de cruzar aquele limiar. Agora, acreditava.

Cinco quilotons. Que se faça a luz.

Dois paramédicos apareceram correndo pelo saguão vestidos de branco. Ajoelharam-se ao lado de Kohler e colocaram uma máscara de oxigênio em seu rosto. Cientistas que circulavam pelo local pararam e postaram-se à distância, observando.

Kohler respirou fundo duas vezes, puxou a máscara para o lado e, ainda lutando para respirar, dirigiu-se a Vittoria e Langdon:

- Roma.

- Roma? - perguntou Vittoria. - A antimatéria está em Roma? Quem telefonou?

O rosto de Kohler contorceu-se, os olhos cinzentos marejados.

- A... Suíça.

Ele engasgou ao falar e os paramédicos puseram a máscara de volta em seu rosto. Quando se preparavam para levá-lo, Kohler estendeu a mão e agarrou o braço de Langdon.

Langdon fez um gesto com a cabeça. Ele sabia.

- Vá... - sussurrou Kohler sob a máscara. - Vá... Ligue para mim.

E os paramédicos saíram às pressas, empurrando-o.

Vittoria permaneceu estática, vendo-o afastar-se. Então, voltou-se para Langdon.

- Roma? O que ele quis dizer com a Suíça?

Langdon pousou a mão no braço dela e disse em voz muito baixa:

- A Guarda Suíça. As sentinelas juradas da Cidade do Vaticano.

CAPÍTULO 31

O avião espacial X 33 decolou com um ruído estrondoso, inclinando-se para o sul em direção a Roma. A bordo, Langdon ia sentado em silêncio. Os últimos 15 minutos haviam sido como um borrão. Agora que acabara de resumir para Vittoria a história dos Illuminati e de seu pacto contra o Vaticano, começava a se dar conta do alcance da situação.

Que diabos estou fazendo?, ponderava ele. Deveria ter ido para casa quando ainda era possível! No fundo, porém, sabia que de fato não fora possível em nenhum momento.

Seu bom senso recomendara em voz bem alta que voltasse para Boston. Ainda assim, a curiosidade acadêmica de alguma forma vetara a prudência. Tudo em que ele sempre acreditara sobre a extinção dos Illuminati assemelhava-se de uma hora para outra a uma brilhante impostura. Um dos lados de sua cabeça ansiava por obter provas, confirmação. Havia também uma questão de consciência. Com Kohler doente e Vittoria sozinha, Langdon sabia que, caso os seus conhecimentos sobre os Illuminati pudessem ser de alguma ajuda, ele tinha a obrigação moral de estar ali.

E havia mais a considerar. Embora tivesse vergonha de admitir, o horror inicial que sentira ao saber onde estava a antimatéria referia-se não só ao perigo para as vidas humanas na Cidade do Vaticano, mas também para algo mais.

A arte.

A maior coleção de arte do mundo encontrava-se naquele instante em cima de uma bomba-relógio. O Museu do Vaticano abrigava mais de 60 mil peças de valor incalculável em 1.407 salas: Michelangelo, Da Vinci, Bernini, Botticelli. Langdon ponderava sobre a possibilidade de tirar as peças de lá se fosse necessário. Mas sabia que seria impossível. Muitas eram esculturas que pesavam toneladas. Sem falar que alguns dos maiores tesouros eram arquiteturais, como a Capela Sistina, a Basílica de São Pedro, a famosa escadaria em espiral de Michelangelo que levava ao Museo Vaticano, testemunhos inestimáveis do gênio criativo do homem.

Langdon tentou calcular quanto tempo restaria ao tubo de antimatéria.

- Obrigada por ter vindo - disse Vittoria em voz baixa.

Langdon emergiu de seu devaneio e virou o rosto para ela. Vittoria estava sentada na poltrona do outro lado do corredor. Mesmo à luz fluorescente da cabine, havia uma aura de serenidade e domínio de si em torno dela, uma irradiação quase magnética de inteireza. Sua respiração tornara-se mais profunda, como se um lampejo de autopreservação se acendesse dentro dela... um desejo de justiça e de desforra, despertado por seu amor de filha.

Ela não tivera tempo de trocar seu short e sua blusa sem mangas, e as pernas queimadas de sol estavam arrepiadas com o frio da cabine. Instintivamente, Langdon tirou o paletó e ofereceu-o a ela.

- Cavalheirismo americano? - Ela aceitou, agradecendo silenciosamente com o olhar.

O avião balançou com um pouco de turbulência e Langdon teve uma sensação de perigo. A cabine sem janelas pareceu-lhe apertada outra vez e ele tentou imaginar-se em um campo aberto. A idéia, percebia, era irônica. Fora em um campo aberto que tudo acontecera. A escuridão esmagadora. Afastou a lembrança de sua mente. Velha história.

Vittoria o observava.

- Acredita em Deus, senhor Langdon?

Ele não esperava aquele tipo de pergunta. A seriedade na voz de Vittoria era ainda mais desconcertante do que a indagação. Se eu acredito em Deus? Esperava que pudessem conversar sobre um assunto mais leve para o tempo da viagem passar mais depressa.

Um enigma espiritual, pensou Langdon. É assim que meus amigos me chamam. Apesar de ter estudado religião durante anos, não era um homem religioso. Respeitava o poder da fé, a bondade das igrejas, a força que a religião dava a tantas pessoas. Entretanto, para ele, a suspensão intelectual da descrença que era imperativa se alguém verdadeiramente desejava "crer" havia sido sempre um obstáculo grande demais para sua mente acadêmica.

- Quero acreditar - ouviu-se dizendo.

O tom da réplica de Vittoria não dava a entender que ela estivesse fazendo qualquer julgamento ou desafio.

- E por que não acredita?

Ele deu uma risadinha.

- Bem, não é assim tão fácil. Ter fé requer entrega, aceitação cerebral de milagres, como a imaculada conceição e a intervenção divina. E existem ainda os códigos de conduta. A Bíblia, o Corão, as escrituras budistas, em todos há exigências semelhantes e penalidades semelhantes.

Determinam que se eu não viver de acordo com certo código, irei para o inferno. Não consigo imaginar um Deus que governe desta maneira.

- Espero que não deixe seus alunos se esquivarem de perguntas assim com tanta desfaçatez.

O comentário pegou-o desprevenido.

- O quê?

- Senhor Langdon, não perguntei se acredita no que o homem diz sobre Deus. Perguntei se acredita em Deus. Existe uma diferença. As escrituras sagradas são histórias.., lendas e a história da busca do homem para compreender sua própria necessidade de significado. Não pedi que desse sua opinião sobre literatura.

Estou perguntando se acredita em Deus. Quando se deita sob as estrelas, não sente a presença do divino? Não sente em seu íntimo que está diante da obra de Deus?

Langdon refletiu um instante.

- Estou me intrometendo - desculpou-se ela.

- Não, é que...

- O senhor com certeza deve debater assuntos de fé com seus alunos.

- Sem parar.

- E imagino que deva fazer sempre o papel do advogado do diabo. Sempre estimulando as discussões.

Langdon sorriu.

- Também deve ser professora.

- Não, mas aprendi com um mestre. Meu pai era capaz de discutir os dois lados de uma Faixa de Mõbius.

Langdon riu, visualizando a engenhosa Faixa de Mõbius, um anel torcido de papel que tecnicamente possui apenas um lado. Langdon vira aquela forma pela primeira vez nos trabalhos do artista M. C. Escher.

- Posso lhe fazer uma pergunta, senhorita Vetra?

- Prefiro que me chame de Vittoria. "Senhorita" Vetra faz com que me sinta velha.

Ele suspirou intimamente, de repente se dando conta de sua própria idade.

- Vittoria, e eu sou Robert.

- Você ia fazer uma pergunta.

- Certo. Como cientista e filha de um padre católico, o que você pensa da religião?

Ela fez uma pausa, afastando uma mecha de cabelo dos olhos.

- Religião é como um traje ou uma língua. Gravitamos em torno das práticas com as quais fomos criados. No final, porém, todos proclamamos a mesma coisa. Que a vida tem um

sentido. Que somos gratos ao poder que nos criou.

A resposta intrigou Langdon.

- Então, está dizendo que ser cristão ou muçulmano depende do lugar onde se nasceu?

- Não é óbvio? Veja a difusão da religião pelo mundo afora.

- Quer dizer que a fé é aleatória?

- Dificilmente. A fé é universal. Nossos métodos específicos para compreendê-la são arbitrários. Algumas pessoas rezam para Jesus, outras vão a Meca, outras estudam partículas subatômicas. No final, estamos todos apenas buscando a verdade, aquela que é maior do que nós mesmos.

Langdon desejou que seus alunos fossem capazes de se expressar com tanta clareza. Ele próprio gostaria de saber se expressar com aquela clareza!

- E Deus? - ele perguntou. - Você acredita em Deus?

Vittoria ficou calada por um longo tempo.

- A ciência me diz que Deus tem de existir. Minha mente me diz que nunca vou compreender Deus. E meu coração me diz que não fui feita para isto.

Isto é que é concisão, pensou ele.

- Então, acredita que Deus é fato mas que nunca o compreenderemos.

- A compreenderemos - corrigiu ela, com um sorriso. - Seus índios nativos tinham razão.

Langdon deu uma risadinha.

- A Mãe Terra.

- Gaea. O planeta é um organismo. Todos nós somos células com diferentes finalidades. No entanto, somos entrelaçados. Servindo uns aos outros. Servindo ao todo.

Ouvindo-a falar, Langdon sentiu despertar dentro de si algo que não sentia há muito tempo. Havia uma limpidez cativante em seus olhos... uma pureza em sua voz. Ele se sentiu atraído.

- Senhor Langdon, deixe que eu lhe faça uma outra pergunta.

- Robert -corrigiu ele. - Senhor Langdon faz com que me sinta velho. Eu sou velho!

- Se não se importa, gostaria de saber como se envolveu com os Illuminati?

Langdon pensou um pouco.

- Na verdade, foi por causa de dinheiro.

Vittoria pareceu desapontada.

- Dinheiro? Consultoria, não é?

Ele riu, percebendo como sua resposta fora interpretada.

- Não, dinheiro como moeda de um país. - Enfiou a mão no bolso da calça e tirou algumas notas. Encontrou uma de um dólar. - Fiquei fascinado com o culto quando soube que o dinheiro norte-americano traz um elemento da simbologia dos Iliuminati.

Vittoria semicerrou os olhos, sem saber se o levava a sério ou não.

Langdon passou-lhe a nota.

- Olhe o verso. Está vendo o sinete oficial à esquerda?

Ela virou a nota.

- A pirâmide?

- É, a pirâmide. Sabe o que as pirâmides têm a ver com a história dos Estados Unidos?

Vittoria deu de ombros. -

- Exato - disse Langdon. - Absolutamente nada.

- E por que é o símbolo central do seu sinete oficial?

- É uma história estranha - disse Langdon. - A pirâmide é um símbolo secreto que representa a convergência para cima, para a extrema fonte de Iluminação. Está vendo o que aparece em cima dela?

Vittorja examinou a nota.

- Um olho dentro de um triângulo.

- Chama-se trinacria. Já viu esse olho dentro do triângulo em algum outro lugar?

Ela ficou em silêncio um instante.

- Na realidade já vi, mas não sei muito bem onde.

- Na fachada de lojas maçônicas do mundo inteiro.

- O símbolo é maçônico?

- Na verdade, não, é dos Iliuminati. Eles o chamavam de seu "delta brilhante" Um chamado para a mudança esclarecida. O olho significa a habilidade dos Illuminati de se infiltrarem e verem todas as coisas. O triângulo reluzente simboliza o esclarecimento, a instrução. E o triângulo é também a letra grega delta, que é o símbolo matemático de...

- Mudança. Transição.

Langdon sorriu.

- Esqueci que estava falando com uma cientista.

- Então, está dizendo que o sinete oficial norte-americano é um chamado para a mudança esclarecida, que tudo vê?

- Que alguns chamam de Nova Ordem Mundial.

Vittoria estava espantada. Examinou a nota mais uma vez.

- A inscrição sob a pirâmide diz Novus... Ordo...

- Novus Ordo Seculorurn - completou Langdon. - Nova Ordem Secular.

- Secular, querendo dizer não-religiosa?

- É, não-religiosa. A frase não só enuncia claramente o objetivo dos Iliuminati como contradiz flagrantemente a frase que está ao lado. Em Deus Confiamos.

Aquelas informações eram perturbadoras.

- Como se explica que toda essa simbologia tenha ido parar na moeda mais poderosa do mundo?

- Muitos acadêmicos acham que foi através do vice-presidente Henry Wallace. Ele era um maçom dos altos escalões e certamente tinha ligações com os Iliuminati. Se era um membro ou estava inocentemente sob a influência deles, não se sabe. Mas foi Wallace quem vendeu o desenho do sinete oficial para o presidente.

- Como? Por que o presidente teria concordado em...

- O presidente era Franklin D. Roosevelt. Wallace simplesmente lhe disse que Novus Ordo Seculorum significava New Deal.

Vittoria mostrou-se cética.

- E Roosevelt não tinha ninguém mais que examinasse o símbolo antes de mandar o Tesouro imprimi-lo?

- Não foi preciso. Ele e Wallace eram como irmãos.

- Irmãos?

- Dê uma conferida em seus livros de História - disse Langdon com um sorriso. - Franklin D. Roosevelt era um maçom conhecido.

CAPÍTULO 32

Langdon prendeu a respiração enquanto o X-33 fazia uma descida em espiral na direção do Aeroporto Internacional Leonardo Da Vinci. Vittoria, sentada à sua frente, fechou os olhos, como se procurasse submeter a situação ao seu controle. A aeronave tocou o solo e taxiou para um hangar particular.

- Desculpem ovôo lento - desculpou-se o piloto, saindo da cabine de comando.

- Tive de segurá-lo por causa dos regulamentos sobre ruído em áreas povoadas.

Langdon verificou o relógio. O vôo tinha levado 37 minutos.

O piloto abriu a porta externa.

- Alguém pode me dizer o que está acontecendo?

Nenhum dos dois respondeu.

- Ótimo - disse ele, alongando-se. -Vou esperar na cabine de comando com o ar condicionado e minha música. Só eu e Garth.

Fora do hangar, o sol do fim de tarde ardia, intenso. Langdon carregava seu paletó de tweed pendurado no ombro. Vittoria levantou o rosto para o sol e respirou fundo, como se a luz solar de alguma forma transferisse para ela uma energia revigorante e mística.

Povos mediterrâneos... observou Langdon para si mesmo, já suando.

- Você está um pouco velho para desenhos animados, não acha? - perguntou Vittoria, sem abrir os olhos.

- Como disse?

- Seu relógio de pulso. Vi lá dentro do avião.

Langdon enrubesceu um pouco. Estava acostumado a ter de defender seu relógio. Era uma peça de coleção, um relógio do Mickey Mouse que lhe fora dado de presente na infância por seus pais. Apesar do ridículo dos braços esticados do Mickey indicando a hora, fora o único relógio de pulso que Langdon usara em toda a sua vida. À prova d'água e com um mostrador que brilhava no escuro, era perfeito para nadar e para andar à noite pelos caminhos sem iluminação da universidade. Quando seus alunos questionavam seu conceito de moda, ele respondia que usava aquele relógio para se lembrar diariamente que queria manter seu espírito jovem.

- São seis horas - disse.

Vittoria balançou a cabeça, os olhos ainda fechados.

- Acho que nossa carona chegou.

Langdon ouviu o zumbido distante e olhou para cima, com o coração apertado. Vindo do norte, um helicóptero se aproximava, voando baixo acima da pista de pouso. Langdon andara de helicóptero uma vez no vale Palpa andino para ver os desenhos de areia Nazca e não gostara nem um pouco. Uma caixa de sapatos voadora. Depois de passar a manhã voando em um avião espacial, contava que o Vaticano enviasse um carro para buscá-los.

Tudo indicava que não seria o caso.

O helicóptero reduziu a velocidade, pairou um instante e desceu na pista de pouso diante deles. Era branco e trazia na lateral um brasão pintado - duas chaves mestras cruzadas sobre um escudo encimado pela mitra papal. Ele conhecia bem aquele símbolo. Era o brasão tradicional do Vaticano, o símbolo sagrado da Santa Sé, ou "santa sede" do governo, literalmente o antigo trono de São Pedro.

O Santo Helicóptero, resmungou Langdon, acompanhando o pouso. Esquecera-se de que o Vaticano possuía um, usado para transportar o Papa para o aeroporto, para reuniões ou para seu castelo de verão em Gandolfo. Langdon decididamente teria preferido um carro.

O piloto saltou e caminhou na direção deles pela pista.

Agora era Vittoria que parecia apreensiva.

- Esse é o nosso piloto?

Langdon também ficou preocupado.

- Voar ou não voar, eis a questão.

O piloto parecia estar vestido para um melodrama shakespeariano. Sua túnica bufante era listrada verticalmente de azul-vivo e dourado. Usava calças e polainas combinando. Estava calçado com sapatos rasos pretos que pareciam chinelos. Na cabeça, trazia uma boina preta de feltro.

- O uniforme tradicional da Guarda Suíça - explicou Langdon. - Desenhado pelo próprio Michelangelo. -

Quando o homem se aproximou mais, Langdon estremeceu. - E, admito, não foi um dos melhores trabalhos dele.

A despeito do traje extravagante do homem, Langdon viu logo que ele não estava brincando. Movia-se ao encontro deles com a mesma rigidez e dignidade de um fuzileiro naval norte-americano. Langdon lera muitas vezes sobre as rigorosas exigências para se fazer parte da elitista Guarda Suíça. Recrutados em um dos quatro cantões católicos da Suíça, os candidatos tinham de ser rapazes suíços natos com idade entre 19 e 30 anos, pelo menos 1,74 m de altura, solteiros e treinados pelo exército suíço. Esse soberbo corpo militar era invejado por governos de todo o mundo por ser a mais fiel e mortífera força de segurança que existe.

- Vocês são do CERN? - perguntou o guarda, ao chegar diante deles. Sua voz era dura como aço.

- Sim, senhor - respondeu Langdon.

- Fizeram um tempo notável - disse ele, lançando um olhar intrigado para o X-33. Virou-se para Vittoria. - A senhora tem outra roupa para vestir?

- Como disse?

Ele apontou para as pernas dela.

- Não é permitido entrar de calças curtas no Vaticano.

Langdon olhou para as pernas de Vittoria e fez uma careta. Esquecera daquilo. Na Cidade do Vaticano era rigorosamente proibido ter as pernas à mostra acima do joelho, tanto para as mulheres quanto para os homens. A norma era uma forma de mostrar respeito pela santidade da cidade de Deus.

- Só tenho esta - ela disse. - Saímos de lá com muita pressa.

O guarda sacudiu a cabeça, aborrecido. Em seguida, dirigiu-se a Langdon.

- O senhor está carregando alguma arma?

Arma? pensou Langdon. Eu não trouxe nem uma muda de roupa de baixo! E negou com um gesto de cabeça.

O oficial agachou-se aos pés de Langdon e começou a apalpá-lo por baixo, começando pelas meias.

Rapaz confiante, pensou Langdon. As mãos fortes do guarda subiram pelas pernas de Langdon chegando desconfortavelmente perto de sua virilha. Por fim, deslocaram-se para seu peito e ombros.

Aparentemente satisfeito por nada ter encontrado, o guarda virou-se para Vittoria. Correu os olhos pelo tronco e pelas pernas dela.

Ela lhe lançou um olhar feroz.

- Nem pense nisso.

O guarda encarou-a com uma expressão que claramente pretendia intimidála. Ela não cedeu.

- O que é isso? - disse o guarda, apontando para uma leve protuberância quadrada no bolso da frente do short dela.

Vittoria tirou do bolso um telefone celular ultrafino. O guarda pegou-o, ligou-o, aguardou o sinal de linha e, tendo verificado que o aparelho não passava realmente de um telefone, devolveu-o a ela.

- Dê uma volta, por favor - disse o guarda.

Vittoria obedeceu, levantando os braços e girando o corpo 360 graus.

O guarda examinou-a com cuidado. Langdon já observara que a blusa e o short justos de Vittoria não mostravam nenhuma saliência onde não deveriam. Parecia que o guarda chegara à mesma conclusão.

- Obrigado. Venham, por favor.

O helicóptero da Guarda Suíça funcionava em ponto morto quando Vittoria e Langdon se aproximaram dele. Vittoria embarcou primeiro, como uma freqüentadora habitual, mal se curvando ao passar por baixo das pás em movimento. Langdon parou um instante.

- Nenhuma possibilidade de irmos de carro? - gritou, meio brincando, para o guarda suíço, que se acomodava no banco do piloto.

O homem nem respondeu.

Com os motoristas loucos de Roma, Langdon sabia que, de qualquer maneira, voar seria provavelmente mais seguro. Respirou fundo e embarcou, depois de ter o cuidado de se abaixar bem para passar sob os rotores.

Enquanto o guarda preparava a decolagem, Vittoria perguntou:

- Já localizaram o tubo?

O guarda olhou para ela por cima do ombro, sem compreender.

- O quê?

- O tubo. Vocês não telefonaram para o CERN por causa de um tubo?

O homem deu de ombros.

- Não sei sobre o que está falando. Estivemos muito ocupados hoje. Meu comandante mandou que eu viesse buscá-los. É tudo o que sei.

Vittoria virou-se para Langdon com o rosto inquieto.

- Coloquem os cintos, por favor - disse o piloto quando aumentou a velocidade do motor.

Langdon procurou seu cinto de segurança e afivelou-o. Tinha a impressão de que a fuselagem diminuta encolhia à sua volta. Então, com um ronco, a aeronave subiu e inclinou-se abruptamente para o lado, descrevendo uma curva para o norte na direção de Roma.

Roma... o caput mundi, onde César um dia reinou, onde São Pedro foi crucificado. O berço da civilização moderna. E em seu âmago... o tique-taque de uma bomba.

CAPÍTULO 33

Roma vista de cima é um labirinto - um emaranhado indecifrável de antigas estradas serpenteando em volta de prédios, fontes e ruínas.

O helicóptero do Vaticano voava baixo no céu rumo a noroeste através da camada permanente de fumaça produzida pelos congestionamentos da cidade. Langdon via as bicicletas motorizadas, os ônibus de turismo e o enxame de miniaturas de Fiats sedã contornando pressados os entroncamentos rotatórios e espalhando-se em todas as direções. Koyaanisqatsi, pensou ele, lembrando o termo hopi que significa "vida desequilibrada' Vittoria mantinha-se em silenciosa determinação no assento ao lado dele.

O helicóptero inclinou-se fortemente para o lado.

Com um vazio no estômago, Langdon procurou fixar os olhos em pontos mais distantes. E encontrou as ruínas do Coliseu romano. Ele sempre considerara o Coliseu uma das maiores ironias da História. Hoje um símbolo consagrado do desenvolvimento da cultura e da civilização humana, o estádio fora construído para exibir séculos de eventos bárbaros - leões famintos despedaçando prisioneiros, exércitos de escravos combatendo-se até a morte, estupros coletivos de mulheres exóticas capturadas em terras remotas, assim como decapitações e castrações públicas. Era também irônico, na opinião dele, ou talvez apropriado, que a estrutura arquitetônica do Coliseu tivesse servido de modelo para o Soldier Field de Harvard, o estádio de futebol onde as antigas tradições de selvageria eram reencenadas todos os outonos, com fãs enlouquecidos clamando por sangue quando Harvard enfrentava Yale.

Olhando para o norte, Langdon avistou o Fórum romano, o coração da Roma pré-cristã. As colunas em ruínas pareciam lápides de túmulos caídas em um cemitério que de alguma forma conseguira não ser engolido pela metrópole que o rodeava.

A oeste, a ampla bacia do rio Tibre desenhava enormes arcos através da cidade. Mesmo de cima, dava para notar que o rio era fundo. As torrentes revoltas eram escuras, cheias de sedimentos e espuma causados por fortes chuvas.

- Bem à nossa frente - disse o piloto, subindo mais.

Langdon e Vittoria olharam para fora e viram. Como uma montanha rompendo a bruma, o domo colossal erguia-se diante deles: a Basílica de São Pedro.

- Nisso aí, por exemplo - disse Langdon para Vittoria -, Michelangelo saiu-se muito bem.

Langdon nunca vira a basílica de cima. A fachada de mármore resplandecia ao sol da tarde. Adornado com 140 estátuas de santos, mártires e anjos, o hercúleo edificio tinha a mesma largura de dois campos de futebol e o comprimento assombroso de seis. O descomunal interior da basílica tinha capacidade para abrigar mais de 60 mil devotos, cem vezes mais que a população da Cidade do Vaticano, o menor país do mundo.

Por inacreditável que fosse, nem mesmo uma cidadela dessa magnitude conseguia fazer a piazza à sua frente parecer menor. Uma vastidão de granito, a Praça de São Pedro era um extenso espaço aberto no congestionamento de Roma, como um Central Park clássico. Diante da basílica, contornando o gr ande espaço aberto, 284 colunas espalhavam-se em quatro arcos concêntricos cujos tamanhos iam diminuindo... um trompe l'wil arquitetural utilizado para intensificar a impressão de grandiosidade da piazza. Contemplando aquele magnífico santuário, Langdon imaginou o que São Pedro pensaria se estivesse ali. O santo morrera de modo horripilante, crucificado de cabeça para baixo naquele mesmo local. Hoje, repousava na mais sagrada das tumbas, muitos metros abaixo do solo, diretamente sob a cúpula central da basílica.

- A Cidade do Vaticano - disse o piloto, num tom de voz que poderia ser tudo, menos hospitaleiro.

Altos bastiões de pedra elevavam-se adiante - fortificações impenetráveis cercando o complexo de construções, uma estranha defesa terrena para um mundo espiritual de segredos, poder e mistério.

- Veja! - disse Vittoria de repente, agarrando o braço de Langdon. Ela apontou, veemente, para a Praça de São Pedro logo abaixo deles. Langdon aproximou o rosto da janela para enxergar melhor.

- Ali adiante - indicou ela.

A parte de trás da piazza parecia um estacionamento, lotada com uns dez trailers. No teto dos trailers, imensas antenas parabólicas estavam viradas para o céu, todas elas exibindo nomes conhecidos:

TELEVISOR EUROPEA

VIDEO ITALIA

BBC

UNITED PRESS INTERNATIONAL

Ocorreu a Langdon que a notícia sobre a antimatéria já pudesse ter vazado.

Vittoria ficou tensa.

- Por que a imprensa está aqui? O que está havendo?

O piloto virou a cabeça e lançou-lhe um olhar estranho.

- O que está havendo? Então, não sabe?

- Não - ela respondeu depressa, o sotaque soando rouco e forte.

- Ii Conclavo - disse. - As portas vão ser lacradas dentro de uma hora. O mundo inteiro está acompanhando.

A palavra reverberou por um longo instante nos ouvidos de Langdon antes da sensação de ter um tijolo caindo na boca de seu estômago. Ii Conclavo. O Conclave do Vaticano. Como esquecera daquilo? A notícia estivera nos jornais recentemente.

Quinze dias antes, o Papa falecera, depois de um pontificado tremendamente popular de doze anos. Todos os jornais do mundo haviam contado a história do derrame fatal que acometera o Papa durante o sono - morte repentina e inesperada que muitos consideravam suspeita. Agora porém, mantendo a tradição sagrada, 15 dias depois da morte de um Papa, o Vaticano realizava Ii Conclavo: a cerimônia em que os 165 cardeais do mundo, os homens mais poderosos da cristandade, reuniam-se na Cidade do Vaticano para eleger o novo pontífice.

Todos os cardeais do planeta estão aqui hoje, Langdon refletiu enquanto o helicóptero passava por cima da Basílica de São Pedro. O vasto mundo interior da Cidade do Vaticano estendia-se abaixo deles.

Toda a estrutura de poder da Igreja Católica Romana está em cima de uma bomba-relógio.

CAPÍTULO 34

O cardeal Mortati levantou o olhar para o teto exuberante da Capela Sistina e procurou recolher-se em um momento de quieta reflexão. Nas paredes cobertas de afrescos ecoavam as vozes de cardeais de todas as nações do globo. Os homens acotovelavam-se no santuário iluminado pela luz de velas, cochichando alvoroçados e trocando opiniões em diversas línguas, as universais sendo o inglês, o italiano e o espanhol.

A luz na capela era geralmente sublime - longos raios coloridos de sol cortando a escuridão como se viessem direto do Paraíso -, mas não hoje. Como era o costume, todas as janelas da Capela haviam sido cobertas de veludo negro em função do sigilo. Assim, ninguém lá dentro podia mandar sinais ou comunicar-se de que maneira fosse com o mundo exterior. O resultado era uma profunda escuridão iluminada apenas por velas e uma luminosidade difusa que parecia purificar todos os que tocava, tornando-os imateriais, como santos.

Que privilégio, pensou Mortati, eu ser o supervisor deste acontecimento santificado.

Os cardeais acima de oitenta anos eram considerados velhos demais para se candidatarem à eleição e não participavam do conclave, mas, aos 79 anos, Mortati era o mais velho de todos e fora designado para dirigir os procedimentos.

Seguindo a tradição, os cardeais reuniam-se ali duas horas antes do conclave para reatarem o contato com os amigos e debaterem questões de última hora. Às sete da noite, o camarista do último Papa chegava, fazia a oração de entrada e depois ia embora. Em seguida, a Guarda Suíça lacrava as portas, trancando todos os cardeais dentro da capela. Então, tinha início o ritual político mais secreto do mundo. Os cardeais só podiam sair depois de decidirem quem entre eles seria o novo Papa.

Conclave. Até o nome sugeria segredo. "Con clave" significava literalmente "trancado à chave' Os cardeais não podiam ter qualquer contato com o mundo exterior. Nada de ligações telefônicas, nada de mensagens, nada de sussurros através de portas. O conclave era um vácuo, não podia ser influenciado por nada que viesse de fora. Para garantir que os cardeais tivessem Solum Deum prae oculis – somente Deus diante dos olhos.

Do lado de fora da capela, naturalmente, a mídia observava e esperava, especulando qual dos cardeais seria o líder de um bilhão de católicos em todo o mundo. Os conclaves criavam uma atmosfera intensa, politicamente carregada e, ao longo dos séculos, haviam-se tornado às vezes fatais: envenenamentos, lutas corporais e até assassinatos já haviam irrompido entre as paredes sagradas. História antiga, pensou Mortati. O conclave daquela noite seria marcado pela união, pela aventura e, acima de tudo, seria breve.

Pelo menos, fora o que pensara.

Agora, todavia, surgira um transtorno inesperado. Inexplicavelmente quatro cardeais estavam ausentes da capela. Mortati sabia que todas as saídas da Cidade do Vaticano estavam guardadas e que os cardeais que faltavam não poderiam estar longe. Ainda assim, a menos de uma hora da prece de abertura, ele se sentia desconcertado. Afinal de contas, os quatro homens não eram cardeais comuns. Eram os cardeais.

Os quatro escolhidos.

Como supervisor do conclave, Mortati já mandara avisar a Guarda Suíça através dos canais competentes, alertando-a para a ausência deles. Ainda não tivera nenhuma resposta. Outros cardeais já haviam notado a incompreensível ausência. Haviam começado os cochichos ansiosos. De todos, aqueles quatro eram os que deveriam ter sido mais pontuais! O cardeal Mortati começava a recear que a noite pudesse ser longa, afinal.

Ele nem imaginava quanto.

CAPÍTULO 35

O heliponto do Vaticano, por questões de segurança ou de controle de ruído, localiza-se na extremidade nordeste da Cidade do Vaticano, tão longe da Basílica de São Pedro quanto possível. - Terra firma - anunciou o piloto quando pousaram. Ele saiu e abriu a porta de correr para Vittoria e Langdon.

Langdon desceu e virou-se para ajudar Vittoria, mas ela já tinha saltado com facilidade. Todos os músculos do corpo dela pareciam estar afinados para um único objetivo: encontrar a antimatéria antes que esta deixasse um terrível legado.

Depois de estender um painel refletor para proteger o vidro da cabine de comando contra o sol, o piloto conduziu-os para um carrinho elétrico de golfe que aguardava ali perto. O carrinho, silencioso e rápido, levou-os ao longo da fronteira oeste do Vaticano - um baluarte de cimento de 15 metros de altura, grosso o bastante para resistir até mesmo à investida de tanques. Enfileirados na parte interna do muro, postados a intervalos de 50 metros, os guardas suíços mantinham-se atentos, vigilantes. O carrinho dobrou à direita e saiu na Via dell'Osservatorio. Havia placas de sinalização apontando para todas as direções:

PALAZZO GOVERNATORIO

COLLEGIO ETHIOPIANA

BASILICA SAN PIETRO

CAPELLA SISTINA

Aceleraram pela rua bem cuidada e passaram por uma construção atarracada onde havia uma placa com os dizeres: RADIO VATICANA. Langdon deu-se conta de que dali vinha a programação de rádio mais ouvida do planeta, a que espalhava a palavra de Deus para milhões de ouvintes no mundo inteiro.

- Attenzione - disse o piloto, dobrando abruptamente em um entroncamento rotatório.

Enquanto o carro circulava, Langdon mal podia crer na vista que se apresentava diante deles. Giardini Vaticani, pensou. O coração da Cidade do Vaticano. Bem à frente, encontrava-se a parte dos fundos da Basílica de São Pedro, que muita gente jamais vira. À direita erguia-se o Palácio do Tribunal, a opulenta residência papal cuja decoração barroca rivalizava apenas com Versailles. O prédio do Governatorato, de aparência severa, estava agora atrás deles e abrigava a adminstração da Cidade do Vaticano. E, mais além, à esquerda, estava o maciço edifício retangular do Museu Vaticano. Langdon sabia que não haveria tempo para visitar nenhum museu naquela viagem.

- Onde estão todos? - perguntou Vittoria, observando os gramados e calçadas desertos.

O guarda conferiu seu cronógrafo preto, de estilo militar - um curioso anacronismo sob sua manga bufante.

- Os cardeais estão reunidos na Capela Sistina. O conclave começa em menos de uma hora.

Langdon balançou a cabeça, lembrando-se vagamente que, antes do conclave, os cardeais passavam duas horas dentro da Capela Sistina em tranqüila reflexão e estabelecendo contato com seus companheiros do resto do mundo. O período de tempo tinha como finalidade renovar velhas amizades e fazer com que o processo eleitoral fosse menos acalorado.

- E o resto dos residentes e funcionários?

- Proibidos de entrar na cidade para garantir que haja sigilo e segurança até que o Conclave termine.

- E quando termina?

O guarda deu de ombros.

- Só Deus sabe.

As palavras soaram estranhamente literais.

Depois de estacionar o carrinho no vasto gramado logo atrás da Basílica de São Pedro, o guarda escoltou Vittoria e Langdon por uma rampa de pedra que dava acesso a uma esplanada junto aos fundos da basílica. Atravessaram a esplanada, aproximaram-se da basílica e contornaram-na passando por um pátio triangular, cruzando a Via Belvedere e um conjunto de edifícios muito próximos uns dos outros. As aulas de História da Arte de Langdon haviam-lhe permitido que aprendesse italiano o suficiente para identificar ali a Gráfica do Vaticano, o Laboratório de Restauração de Tapeçarias, a Administração do Correio e a Igreja de Santa Ana. Atravessaram mais uma pequena praça e chegaram a seu destino.

O Escritório da Guarda Suíça fica ao lado de le Corpo di Vigilanza, a nordeste da basílica, em uma construção robusta, de pedra. De cada lado da entrada, como duas rígidas estátuas, havia um guarda.

Langdon teve de admitir que esses guardas não pareciam tão cômicos. Também usavam o uniforme azul e dourado, mas seguravam a tradicional "espada longa do Vaticano' uma lança de dois metros e meio de comprimento com uma ponta falciforme, afiada como uma navalha, que teria sido usada para decapitar inúmeros muçulmanos na defesa dos cruzados cristãos no século XV.

Quando Langdon e Vittoria se aproximaram, os dois guardas deram um passo à frente e cruzaram suas longas espadas, bloqueando a entrada. Um deles olhou para o piloto, confuso.

- Ipantaloni - disse, indicando o short de Vittoria.

O piloto fez um gesto para que os deixasse passar.

- Ii comandante vuole vederli subito.

Os guardas fizeram cara feia. Relutantes, afastaram-se para o lado.

Dentro, o ar estava frio. Não se parecia em nada com a sede administrativa de um serviço de segurança que Langdon teria imaginado. Decorados e impecavelmente mobiliados, os corredores continham quadros que qualquer museu ficaria contente em expor em sua sala principal.

O piloto apontou para uma escadaria íngreme.

- Vamos descer, por favor.

Langdon e Vittoria desceram os degraus de mármore entre uma fileira de estátuas masculinas nuas. Todas elas usavam folhas de parreira de um material de tonalidade mais clara que o do resto do corpo.

A Grande Castração, pensou Langdon.

Foi uma das piores tragédias da arte da Renascença. Em 1857, o Papa Pio IX decidiu que a representação exata do corpo masculino poderia incitar à luxúria. Então, pegou um cinzel e um malho e decepou a genitália de todas as estátuas masculinas da Cidade do Vaticano. Desfigurou obras de Michelangelo, Bramante e Bernini. Folhas de parreira feitas de gesso serviram de remendo para o estrago. Langdon muitas vezes imaginara se não haveria um enorme caixote cheio de pênis em algum lugar.

- Aqui - anunciou o guarda.

Haviam chegado ao pé da escada, que só dava acesso a uma pesada porta de aço. O guarda digitou um código de entrada e a porta correu, abrindo-se. Os dois entraram.

Lá dentro reinava o caos absoluto.

CAPÍTULO 36

O Escritório da Guarda Suíça.

Langdon parou na porta, observando a colisão de séculos à sua frente. Multimídia, pensou. A sala era uma biblioteca renascentista suntuosamente decorada, com estantes de madeira marchetada, tapetes orientais e tapeçarias coloridas. Entretanto, fervilhava de equipamentos eletrônicos de última geração - computadores, faxes, mapas eletrônicos do conjunto de construções do Vaticano e televisões ligadas na CNN. Homens de calças bufantes coloridas digitavam febrilmente nos teclados dos computadores e escutavam atentos seus fones de ouvido futurísticos.

- Esperem aqui - disse o guarda.

Os dois viram-no cruzar a sala e aproximar se de um homem excepcionalmente alto e magro, vestido com um uniforme militar azul. Ele falava ao telefone celular e mantinha-se tão ereto que quase se curvava para trás. O guarda disse-lhe algo e o homem lançou um olhar para Langdon e Vittoria. Cumprimentou-os com um gesto de cabeça, depois se virou de costas para eles e continuou a falar ao telefone.

O guarda voltou.

- O comandante Olivetti vai estar com os senhores em um minuto.

- Obrigado.

O guarda saiu e subiu as escadas de volta.

Langdon analisou o comandante Olivetti através da sala, dando-se conta de que ele era na realidade o comandante-em-chefe das forças armadas de um país inteiro. Enquanto esperavam, Vittoria e Langdon observavam a movimentação ao seu redor. Guardas vestidos de cores vivas andavam apressados de um lado para outro gritando ordens em italiano.

- Continua cercando! - um deles exclamou ao telefone.

- Probasti ii museo? - perguntava outro.

Langdon não precisava falar italiano fluente para verificar que o centro de segurança estava naquele momento intensamente empenhado em procurar alguma coisa. Essa era a boa notícia. A má era que obviamente ainda não haviam encontrado a antimatéria.

- Você está bem? - ele perguntou a Vittoria.

Ela deu de ombros, com um sorriso cansado.

Quando o comandante finalmente desligou o telefone e veio na direção

deles, deu a impressão de crescer a cada passo. O próprio Langdon era alto e não estava acostumado a levantar a cabeça para falar com as pessoas, mas a estatura do comandante Olivetti exigia isso. Langdon percebeu de imediato que aquele homem já passara por várias tempestades, por seu rosto duro e vigoroso.

Tinha o cabelo escuro em um corte rente de estilo militar e seus olhos ardiam com a rígida determinação que só se adquire depois de anos de muito treinamento. Movimentava-se com uma precisão enérgica, um pequeno fone discretamente colocado atrás da orelha fazendo com que se parecesse mais com um membro do serviço secreto norte-americano do que da Guarda Suíça.

Falou-lhes em inglês com sotaque. A voz era espantosamente baixa para um homem tão grande - ele quase sussurrava. Mas era cortante, e ele falava com uma contida eficiência militar.

- Boa tarde - disse. - Sou o comandante Olivetti, Comandante Principale da Guarda Suíça. Fui eu quem telefonou para seu diretor.

- Obrigada por nos receber, senhor - disse Vittoria, o rosto levantado para ele. O comandante não disse mais nada. Fez sinal para que o seguissem e conduziu-os através do labirinto de máquinas para uma porta na parede lateral da sala.

- Entrem - disse, segurando a porta para eles.

Os dois entraram e viram-se na penumbra de uma sala de controle, onde, em uma parede cheia de monitores de vídeo, sucediam-se devagar imagens em preto-e-branco do conjunto de edifícios. Um jovem guarda estava sentado observando as imagens com atenção.

- Fuori - disse Olivetti.

O guarda pegou suas coisas e saiu.

Olivetti encaminhou-se para uma das telas e apontou para ela. Depois, virou-se para seus visitantes.

- Esta imagem é de uma câmera remota escondida em algum ponto da Cidade do Vaticano. Gostaria de uma explicação.

Langdon e Vitto ria prenderam a respiração ao mesmo tempo. A imagem era categórica. Não havia qualquer dúvida. Tratava-se do tubo de antimatéria do CERN. Dentro dele, a ameaça de uma reluzente gotícula suspensa no ar, iluminada pelo piscar ritmado do mostrador eletrônico do relógio digital. De modo sinistro, a área em torno do tubo estava quase por completo às escuras, como se a antimatéria estivesse dentro de um armário ou de um quarto sem iluminação. No alto da tela aparecia um texto: AO VIVO - CÂMERA 86.

Vittoria verificou o tempo restante no indicador do tubo.

- Menos de seis horas - murmurou para Langdon, o rosto tenso.

Langdon olhou para o relógio.

- Então, temos até... - ele parou de falar, um nó apertando-lhe o estômago.

- Meia-noite - completou Vittoria, com um ar abatido.

Meia-noite, pensou Langdon. Um toque dramático. Pelo jeito, quem roubara o tubo na noite anterior calculara o tempo com perfeição. Veio-lhe um mau pressentimento ao lembrar que estava exatamente na área de explosão de uma bomba.

O cochichar de Olivetti soava agora mais como o sibilar de uma cobra.

- Esse objeto pertence à sua empresa?

Vittoria concordou com um gesto.

- Sim, senhor. Foi roubado de lá. Contém uma substância extremamente combustível chamada antimatéria.

Olivetti não se mostrou abalado.

- Estou bem familiarizado com materiais incendiários, senhorita. Nunca ouvi falar de antimatéria.

- É uma nova tecnologia. Precisamos localizá-la imediatamente ou evacuar a Cidade do Vaticano.

Olivetti fechou os olhos devagar e reabriu-os, como se focalizando-os de novo em Vittoria pudesse mudar o que acabara de ouvir.

- Evacuar? Tem noção do que está havendo aqui esta noite?

- Sim, senhor. E as vidas de seus cardeais estão em perigo. Temos cerca de seis horas. Já obteve algum progresso na localização do tubo?

Olivetti sacudiu a cabeça.

- Nem começamos a procurar.

Vittoria quase engasgou.

- O quê? Mas escutamos nitidamente seus guardas falando sobre procurar o...

- Sobre procurar, sim - interrompeu Olivetti -, mas não o seu tubo. Meus homens estão procurando outra coisa que não lhes diz respeito.

A voz de Vittoria chegou a falhar.

- Vocês ainda nem começaram a procurar esse tubo?

As pupilas de Olivetti pareceram recuar para dentro de sua cabeça. Ficou com a aparência impassível de um inseto.

- Senhorita Vetra, não é? Deixe-me explicar-lhe algo. O diretor de sua empresa recusou-se a me fornecer qualquer detalhe ao telefone sobre esse objeto, a não ser para me dizer que eu precisava encontrá-lo imediatamente. Estamos bastante ocupados aqui e não posso me dar ao luxo de destacar efetivo para uma situação sem apurar alguns fatos.

- Só existe um fato relevante neste momento, senhor - disse Vittoria.

- Dentro de seis horas aquele aparelho vai desintegrar todos estes prédios.

Olivetti ficou imóvel.

- Senhorita Vetra, há uma coisa que precisa saber - disse ele, num tom de voz meio condescendente. - Apesar da aparência arcaica da Cidade do Vaticano, cada uma das entradas, tanto as públicas como as particulares, está equipada com os sensores mais avançados que se conhece. Se alguém tentar entrar com qualquer tipo de dispositivo incendiário, isto será detectado no mesmo instante. Temos scanners de isótopos radioativos, filtros olfatórios projetados pelo DEA (Drug Enforcement Administration), a agência norte-americana de combate ao narcotráfico, para detectar o mais tênue vestígio químico de combustíveis e toxinas. Também usamos os mais avançados detectores de metais e scanners de raios X disponíveis.

- Excelente - disse Vittoria, com a mesma frieza de Olivetti. - Infelizmente, a antimatéria não é radioativa, sua assinatura química é a de hidrogênio puro e o tubo é feito de plástico. Nenhum desses aparelhos a teria detectado.

- Mas o dispositivo tem uma fonte de energia - disse Olivetti, apontando para o mostrador luminoso que piscava. - O menor vestígio de níquel-cádmio seria identificado como...

- As baterias também são de plástico.

Via-se claramente que a paciência de Olivetti estava a ponto de terminar.

- Baterias de plástico?

- Eletrólito de gel-polímero com teflon.

Olivetti inclinou-se para ela, como se quisesse acentuar a diferença de altura entre ambos.

- Signorina, o Vaticano é alvo de dezenas de ameaças de bomba por mês. Sou eu pessoalmente quem treina toda a Guarda Suíça em moderna tecnologia de explosivos. Sei muito bem que não existe substância neste mundo tão poderosa assim para fazer o que está dizendo, a não ser que esteja se referindo a uma ogiva nuclear com um núcleo de combustível do tamanho de uma bola de beisebol.

Vittoria fulminou-o com o olhar.

- A natureza tem muitos mistérios ainda por revelar.

Olivetti inclinou-se mais para ela.

- Posso perguntar quem exatamente é a senhorita? Qual é a sua função no CERN?

- Sou membro sênior da equipe de pesquisas e fui designada para ser o contato com o Vaticano nesta crise.

- Desculpe-me a indelicadeza, mas, se esta é de fato uma crise, por que estou lidando com a senhorita e não com seu diretor? E o que pretende com o desrespeito de entrar no Vaticano com essa roupa?

Langdon deu um gemido. Não podia acreditar que, naquelas circunstâncias, o homem estivesse preocupado com trajes. Contudo, refletiu, se pênis de pedra podiam despertar pensamentos lascivos nos moradores do Vaticano, Vittoria Vetra de short certamente seria uma ameaça à segurança nacional.

- Comandante Olivetti - intrometeu-se Langdon, tentando desarmar o que parecia ser uma segunda bomba prestes a explodir -, meu nome é Robert Langdon. Sou professor de estudos religiosos nos Estados Unidos e sem vínculos com o CERN. Assisti a uma demonstração dos efeitos da antimatéria e posso confirmar a afirmação da senhorita Vetra de que se trata de uma substância excepcionalmente perigosa. Temos motivos para crer que foi colocada dentro do Vaticano por representantes de um culto anti-religioso com a intenção de destruir o conclave.

Olivetti virou-se, olhando Langdon de cima.

- Tenho aqui uma mulher de short me dizendo que uma gotinha de líquido vai explodir o Vaticano e um professor americano me dizendo que somos o alvo de um culto anti-religioso. O que afinal querem que eu faça?

- Encontre o tubo - disse Vittoria. - Agora mesmo.

- Impossível. Pode estar em qualquer lugar. A Cidade do Vaticano é enorme.

- Suas câmaras não têm localizadores GPS?

- Não costumam ser roubadas. Levaríamos dias para localizar essa câmara.

- Não temos dias - replicou Vittoria, inflexível. - Temos seis horas.

- Seis horas para que, senhorita Vetra? - A voz de Olivetti ficou alta de repente.

Apontou para a imagem na tela. - Até que essa contagem chegue a zero? Até que a Cidade do Vaticano desapareça? Acredite, não gosto nem um pouco que alguém venha burlar meu sistema de segurança. Nem me agrada que uma geringonça dessas apareça misteriosamente dentro dos meus edifícios. Eu estou preocupado. È minha obrigação estar preocupado. Mas o que me contou é inaceitável.

Langdon não se conteve:

- O senhor já ouviu falar dos Illuminati?

A atitude glacial do comandante rompeu-se. Seus olhos ficaram brancos, como os de um tubarão pronto para atacar.

- Estou avisando a vocês. Não tenho tempo para isso.

- Então, quer dizer que o senhor já ouviu falar dos Illuminati?

Os olhos de Olivetti pareciam perfurar como golpes de baioneta.

- Sou um defensor jurado da Igreja Católica. Claro que já ouvi falar dos Illuminatj. Estão mortos há décadas.

Langdon enfiou a mão no bolso e tirou o fax com a imagem do corpo marcado a fogo de Leonardo Vetra.

Estendeu-o para Olivetti.

- Sou um estudioso dos Illuminati - disse Langdon, enquanto Olivetti examinava o papel. -Estou tendo grande dificuldade em aceitar que os Iliuminati ainda estejam em atividade, mas a aparência dessa marca combinada com o fato de que os Iliuminati têm um conhecido pacto contra o Vaticano me fizeram mudar de idéia.

- Uma fraude produzida por computador. - Olivetti devolveu o fax a Langdon.

Este exclamou, incrédulo:

- Fraude? Veja a simetria! O senhor melhor do que ninguém deveria reconhecer a autenticidade de...

- Autenticidade é exatamente o que falta a vocês. A senhorita Vetra talvez não tenha lhe informado, mas os cientistas do CERN vêm criticando as políticas do Vaticano há anos. Eles regularmente nos encaminham pedidos de retratação da teoria criacionista, de desculpas formais a Galileu e Copérnico e repelem nossas críticas a pesquisas perigosas ou imorais. O que parece mais provável aos senhores: que um culto satânico de quatrocentos anos tenha ressurgido com uma arma avançada de destruição em massa ou que algum engraçadinho no CERN esteja tentando acabar com um evento sagrado do Vaticano lançando mão de uma fraude bem executada?

- Aquela foto - disse Vittoria, a voz igual a lava incandescente - é do meu pai. Assassinado. Acha que eu iria brincar com uma coisa dessas?

- Não sei, senhorita Vetra. O que sei é que, até conseguir algumas respostas que façam sentido, não vou acionar qualquer tipo de alarme. Vigilância e discrição são meu dever para que as questões espirituais possam ter lugar aqui com clareza de mente. Hoje mais do que nunca.

Langdon disse:

- Ao menos, então, adie o evento.

- Adiar? - o queixo de Olivetti caiu. - Que arrogância! Um conclave não é um jogo qualquer de beisebol que se pode transferir por causa da chuva! É um evento sagrado com um código e um processo rigorosos. Não faz mal que um bilhão de católicos estejam esperando por um líder! Não faz mal que a imprensa mundial esteja lá fora! O protocolo deste evento é sagrado, não está sujeito a modificações. Desde 1179, os conclaves sobreviveram a terremotos, fome e até à peste. Acreditem, não vai ser cancelado por causa de um cientista morto e de uma gotinha de sabe-se lá o quê.

- Leve-me à pessoa encarregada - exigiu Vittoria.

Olivetti lançou-lhe um olhar furibundo.

- Está diante dela.

- Não - disse ela -, alguém do clero.

As veias na testa de Olivetti começaram a crescer.

- O clero se foi. Com exceção da Guarda Suíça, só quem está presente no momento é o Colégio dos

Cardeais. E eles estão no interior da Capela Sistina.

- E quanto ao camarista do Papa? - perguntou Langdon, incisivo.

- Quem?

- O camarista do último Papa. - Ele repetiu a palavra, seguro de si, rezando para que a memória o tivesse ajudado. Lembrou-se de ter lido certa vez sobre a curiosa delegação de autoridade que se seguia à morte de um Papa. Se estivesse correto, no período entre Papas, o poder autônomo completo transferia-se temporariamente para o assistente pessoal do Papa anterior, seu camarista ou camareiro, um secretário que supervisionava o conclave até que os cardeais escolhessem o novo Santo Padre. - Creio que o camarista é a pessoa encarregada no momento.

- Ii camerlengo?- disse Olivetti. - O camerlengo é só um padre aqui. Nem cônego ele é. Era o criado do último Papa.