Antropologia da criança

Clarice Cohn · Capítulo 8 de 14

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Antropologia da criança

Uma palavra sobre interdisciplinaridade e aplicação da pesquisa

Uma palavra sobre interdisciplinaridade

e aplicação da pesquisa

 

A criança e a infância têm sido foco de análise de vários campos do conhecimento. Sendo assim, devemos nos perguntar sobre os possíveis diálogos das pesquisas antropológicas com essas diversas áreas. Há bons exemplos de trabalhos antropológicos que dialogam com a psicanálise, a psicologia — especialmente aquela voltada ao desenvolvimento infantil —, a pedagogia e as ciências da educação. No primeiro caso, como nos trabalhos de Toren, técnicas e teorias sobre as crianças podem informar as pesquisas dos antropólogos, e prover um bom campo de diálogo e debate. No segundo, pesquisas antropológicas têm auxiliado a entender o engajamento (ou a falta dele) das crianças em propostas pedagógicas, dando à revisão contemporânea dos modelos pedagógicos nova luz e novos parâmetros, tanto em experiências de reflexão sobre a educação como na aplicação de resultados de pesquisa.

A escola, portanto, também deve ser abordada em uma pesquisa antropológica tendo a criança como um ator social importante e relevante. Afinal, e pelo que vimos até agora, as crianças não apenas se submetem ao ensino, mesmo em suas faces mais disciplinadoras e normatizadoras, como criam constantemente sentidos e atuam sobre o que vivenciam. Desse modo, análises do que as crianças fazem e pensam que estão fazendo, do sentido que elaboram sobre a escola, das atividades que nela desenvolvem, das relações que estabelecem com colegas, professores e outros profissionais do ensino, e da aprendizagem podem ser muito enriquecedoras para melhor compreender as escolas e as pedagogias.

Desse modo ganha-se, como recentemente a própria antropologia ganhou, com o reconhecimento da criança como sujeito social ativo e atuante, produtor mais que receptor de cultura. Porém, temos que reconhecer alguns limites. Se relativizarmos em excesso, podemos chegar ao ponto de estabelecer que processos cognitivos e de desenvolvimento infantil são culturalmente dados, tomando diferenças culturais como desigualdades internas à humanidade. Portanto, devemos sempre lembrar que está no campo da cultura a diversidade de elaboração e utilização de capacidades humanas universais — ou seja, que, se cada cultura pensa o desenvolvimento da criança a partir de seus próprios termos, isso não quer dizer que a criança se desenvolva diferentemente, mais ou menos, mais rapidamente ou com maior vagar a depender de onde cresce. Por outro lado, se universalizarmos demais, tornamo-nos incapazes de perceber as especificidades dadas pelos contextos socioculturais. É como se coubesse à psicologia estabelecer se os modelos de Piaget ou Vygotski valem para além da Europa de seu tempo, e aos antropólogos, dado o pressuposto da unidade humana, identificar os modos de elaboração cultural e historicizada dessas capacidades e competências.

O mesmo vale para as ciências da educação, centradas que estão na pedagogia escolar. Muitos de seus pesquisadores têm tido que se haver com a diversidade cultural interna à escola, e tem-se cada vez mais discutido a implantação de uma educação escolar em sociedades que delas prescindiram. Uma abordagem antropológica pode iluminar razões para se engajar e valorizar a aprendizagem escolar, de modo a se entender inclusive o insucesso escolar — contanto, novamente, que se cuide para não deslizar para um argumento biologizante, de desigualdade em capacidades e competências.

Também para as ciências da saúde a antropologia da criança pode contribuir. Afinal, diagnósticos e tratamentos de doenças que acometem a criança estão embasados, como tudo o mais, em concepções de infância, criança, corpo e corporalidade, relações e comportamentos “saudáveis” e “normais”, família... Abre-se aqui um rico campo de pesquisa, que pode abranger desde as concepções culturais que fundamentam diagnósticos e procedimentos até processos de anamnese e tratamento.

Um outro ramo de diálogo interdisciplinar é possível com pesquisas inauguradas pelo livro de Ariès, comentado anteriormente, e que florescem hoje no Brasil: a chamada “história da infância”. Por ela, torna-se possível explorar a variação de uma concepção de infância no tempo, correlacionando-a a variações históricas nos modos de tratar, de se relacionar e de vivenciar a infância. Tais mudanças podem ser observadas em textos sobre a criança ou voltados para ela, nas artes plásticas, nos tratados de educação e pedagogia. Neste momento da ciência, em que se valoriza a interdisciplinaridade, esses estudos, realizados por historiadores de formação, revelam-se freqüentemente uma antropologia voltada para tempos passados, e são extremamente valiosos no debate das imagens sobre as crianças e sua atuação no mundo.

Por fim, não podemos esquecer que freqüentemente um diálogo com as ciências jurídicas pode ser frutífero ao estudo antropológico. Como já se apontou, só podemos entender o Estatuto da Criança e do Adolescente vigente hoje no Brasil, assim como as polêmicas que o rodeiam, se compreendermos a concepção de criança e infância que o embasa. Por outro lado, as legislações afetam, em maior ou menor grau, as crianças, e uma boa compreensão desse contexto jurídico — como do institucional que lhe é correlato, seja escolar, de assistência ou punitivo — pode freqüentemente ser revelador na pesquisa que tem como foco as crianças.

Uma análise antropológica da criança pode, por fim, ter um valor propositivo ao elucidar facetas da relação das políticas públicas e das práticas educativas, auxiliando na compreensão de falhas. Essa é uma questão polêmica, e são diversas as opiniões sobre o valor da pesquisa na formulação de políticas voltadas às crianças; freqüentemente, os antropólogos são criticados porque fariam estudos que em nada colaborariam para modificar as situações que analisam. Se é certo que a pesquisa antropológica, como toda pesquisa científica, não deve ser unicamente pautada pelas questões sociais, ela no entanto pode ser realizada para dar conta de problemas específicos — ou mesmo, tendo respondido a suas inquietações de conhecimento, informar remodelações de políticas e atendimento à criança. Afinal, costumam revelar aquilo que é o maior nó nessas relações e as razões dele: a incapacidade de se comunicar com as crianças, de vê-las como sujeitos sociais.

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