Antropologia da criança
Conclusões: as crianças daqui e de lá
Se os campos de interesses e temas de uma antropologia da criança são muitos e variados, devemos concluir refletindo sobre o que faz de um estudo que tenha a criança como foco “antropologia”. Porque, como dissemos já de início, são muitas as especialidades acadêmicas e científicas que têm refletido sobre a criança, sobre a infância e sobre suas ações e interações.
Podemos começar a responder a essa questão negativamente: não serão os métodos ou as técnicas e instrumentos de pesquisa que tornarão um estudo sobre a criança propriamente antropológico. Por exemplo, um pedagogo pode se utilizar da observação participante e da interação com as crianças para realizar um estudo que é pautado pelos interesses e pelo campo de conhecimentos das ciências da educação. Para que seja antropologia, portanto, esse estudo deverá se inserir no campo de conhecimento, nos pressupostos analíticos e no arcabouço conceitual próprio a essa disciplina — o campo que temos apresentado aqui.
Tampouco as técnicas de pesquisa são definidoras, por si só, de um estudo antropológico. Como já afirmamos acima, uma pesquisa pode ser realizada por meio de análises de documentos ou de um conjunto de filmes, continuando a ser antropologia apesar de prescindir da observação participante, tão freqüentemente considerada definidora da inserção de uma pesquisa nesse ramo do conhecimento. Uma análise de fenômenos localizados na história, ou em um tempo passado, pode resultar em uma reflexão mais antropológica que histórica ou historiográfica, a depender das questões que levanta, do debate que efetua, do campo de conhecimento em que se insere.
Por fim: a antropologia da criança não se limita ao estudo das crianças “de lá”, de outras culturas e sociedades. Como no que diz respeito a diversos outros temas, os antropólogos têm realizado pesquisas sobre fenômenos e temas próximos de seu próprio meio social, e com sucesso. Eles têm, porém, de lidar com uma dificuldade que aqueles que viajam para terras distantes e culturas a eles estranhas não enfrentam. Na realidade, é como se as dificuldades fossem simetricamente opostas: se ao se transportar a outros mundos e culturas o antropólogo tem que reaprender tudo, do modo de se sentar à mesa ao valor definidor da humanidade, aquele que pesquisa em suas vizinhanças tem de evitar a ilusão do conhecimento prévio, do pré-conhecido. Para um, tudo é estranho e deve ser aprendido e apreendido de modo amplo para começar a fazer sentido; para outro, tudo parece normal e conhecido, e ele deve ser capaz de rever e re-aprender o que lhe parece tão natural.
Ambas as situações apareceram diversas vezes neste livro, tendo sido pontuadas mais ou menos diretamente. Como vimos, para responder a uma questão aparentemente simples, como o que é ser criança para os Xikrin, tivemos que lançar mão de elementos que não saberíamos relevantes de antemão, como a pintura corporal e sua expressão do encerramento do período de vida que pudemos reconhecer como relativo à criança. Mas já se sugeriu também que só podemos entender os códigos legais relativos à infância se nos referirmos à concepção de infância que a baseia. É essa concepção, decorrente do advento do “sentimento da infância”, que leva à idéia difundida nas leis e no senso comum de que cabe à criança brincar e se divertir, em oposição direta ao trabalho. Obviamente, não se trata de afirmar que as crianças devem ser inseridas no mercado de trabalho desde cedo, ou desconhecer a importância das conquistas legais relativas a elas. Cabe apenas, como uma provocação, mostrar que algo já naturalizado, ou seja, tomado sem maiores reflexões como um dado da natureza — essa idéia de que cabe à criança brincar, se divertir e aprender — é na realidade construído social e historicamente, e assim deve ser tomado pelo pesquisador.
Como já se disse, deve-se sempre começar do começo, por mais óbvio que pareça o que se observa — ou talvez possa se dizer que, quanto mais óbvio parecer o que se vê e ouve, mais se deve desconfiar e buscar desatar as tramas. Porque não há imagem produzida sobre a criança e a infância, ou pela criança, que não seja, de algum modo, produto de um contexto sociocultural e histórico específico, do qual o antropólogo deve dar conta.
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