Antropologia da criança

Clarice Cohn · Capítulo 2 de 14

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Antropologia da criança

Estudos pioneiros em antropologia

 

Os estudos mais famosos na antropologia que têm as crianças como foco principal são, ainda hoje, os realizados nas décadas de 1920 e 30 por antropólogos norte-americanos ligados à Escola de Cultura e Personalidade, especialmente os de Margaret Mead. Esses antropólogos, formados na escola culturalista fundada por Franz Boas, preocupavamse em entender o que significa ser criança e adolescente em outras realidades socioculturais, tomando freqüentemente a sociedade norte-americana da época como um contraponto. Definindo a cultura como aquilo que é transmitido entre as gerações e aprendido pelos membros da sociedade, esses antropólogos se vêem com a questão de delimitar o que é propriamente cultural, e portanto particular, e o que é natural, e portanto universal, no comportamento humano. Essas são as bases de um debate famoso, o que diferencia nature e nurture, ou o que é inato e o que é adquirido.

É com essas questões que Mead, psicóloga e antropóloga em sua formação, parte para fazer um estudo da adolescência em Samoa, nas ilhas norte-americanas do Pacífico. Tendo sido encaminhada por seu professor Franz Boas para verificar se os dilemas e a rebeldia vividos pelos adolescentes norte-americanos eram uma faceta universal desse momento do ciclo de vida, Mead analisa as condições e a experiência da adolescência em Samoa e conclui que os conflitos e as rebeldias juvenis americanas são dados culturais, não explicáveis por uma condição biológica. Para ela, a própria idéia de adolescência não é universalizável, e deve ser definida em contexto. Além disso, demonstra que, em Samoa, esse é um período de liberdade e que, vivendo em uma cultura homogênea, as meninas precisam fazer menos escolhas, e por isso vivem menos conflitos.

O livro em que publica seus achados, em 1928 — Coming of Age in Samoa (ou, em uma tradução livre, “Virando adulto em Samoa”) —, torna-se um best-seller, o que ela explica pelo fato de ter sido escrito “em inglês”, ou seja, sem grandes tecnicismos e debates especializados. No entanto, recebe, décadas depois, uma dura crítica de seus pares, quando outro antropólogo, Derek Freeman, vai às ilhas e não reconhece no que vê o que havia lido nos trabalhos de Mead. Sua crítica pode ser resumida em dois pontos: o primeiro, de que ela estaria tão ofuscada pela vontade de demonstrar a particularidade cultural da adolescência e o contraste com os Estados Unidos que teria exagerado na liberdade e liberalidade das adolescentes de Samoa; o segundo é metodológico, e afirma que ela não teria passado tempo suficiente em Samoa e entre os adolescentes, e, pior, teria levado suas informantes a dizer o que ela tanto queria ouvir. Sua crítica lhe dá notoriedade, e inicia uma polêmica, pela qual se afirma que ele exagerou em suas considerações.

Justiça seja feita: antes mesmo de sequer saber que receberia essas críticas, Mead foi refinando seus métodos de coleta de dados, em trabalhos sobre as crianças manu e balinesas. Entre os Manu da Nova Guiné, Mead estudou as crianças e o modo como vão aprendendo as competências necessárias para a vida adulta. Em seu livro Growing up in New Guinea, ou “Crescendo na Nova Guiné”, ela demonstra uma fina capacidade de observar e descrever as crianças manu.

Em Bali, em companhia de seu marido, o antropólogo britânico Gregory Bateson, elabora um método fotográfico de análise do cotidiano das crianças e de suas interações. Enquanto ela tomava notas, Bateson tirava fotos, que abrangiam desde as brincadeiras das crianças até os modos como eram carregadas por suas mães e as interações com a antropóloga. Esse trabalho sai publicado, em 1942, como um livro de fotografias chamado Balinese Character: A Photographic Analysis, ou “A personalidade balinesa: uma análise fotográfica”. Suas conclusões principais versavam sobre o modo de aprendizado dos balineses, que o casal de antropólogos definiu como visual (pela observação) e cinestético (porque os movimentos de danças, por exemplo, eram aprendidos com o professor-tutor movimentando o corpo de seu aprendiz), concluindo ser esse um tipo de aprendizado que ensinaria a passividade e uma consciência particular do corpo.

A ênfase na formação da personalidade expressa bem uma das preocupações dessa escola: a relação do indivíduo com a sociedade em termos de sua formação como um tipo específico de personalidade. O estudo de Ruth Benedict, Padrões de cultura, apresentava exatamente isso: como as culturas conformam os comportamentos humanos em termos de um ideal, ilustrando-o a partir de três tipos de personalidade encontrados em povos diversos. A própria Mead fez também esse exercício em Sexo e temperamento, discutindo os papéis de gênero em três sociedades, e demonstrando que todos eles divergiam em pontos importantes daqueles encontrados nos Estados Unidos. Outros antropólogos dessa escola abordaram a questão, cunhando o termo “caráter nacional” para designar as personalidades ideais e típicas às nações, como o japonês “disciplinado” e o russo “esquentado”. É interessante que, com inspirações psicanalistas, esses antropólogos estudam a primeira infância e, por exemplo, modos de ninar e embalar as crianças, de ensinar a higiene pessoal e de disciplinar os comportamentos como definidores de padrões culturais, como determinantes na formação da personalidade ideal, adulta, de suas sociedades.

Se esses trabalhos têm a inegável importância de dar visibilidade aos estudos da criança e sugerir métodos e temas de observação, coleta e análise de dados, demonstrando que a experiência das crianças é cultural e só pode ser entendida em contexto, eles não obstante sofrem com alguns de seus pressupostos analíticos. Tomando a cultura como aquilo que é adquirido e transmitido e o grande diferencial cultural como a formação de padrões de personalidades, essa corrente da antropologia corre o risco de engessar os estudos na questão de como a criança é formada e como adquire competências culturais esperadas para a vida adulta. Esses estudos estão marcados pela cisão entre a vida adulta e a da criança, e remetem a uma idéia de imaturidade e desenvolvimento da personalidade madura. Assim, supõem um fim último do processo de desenvolvimento, o adulto ideal da sociedade em questão, seja ela balinesa, francesa ou norte-americana — adulto esse que é, em última instância, definido no e pelo estudo científico.

Um segundo momento dos trabalhos nessa área é dado pelas pesquisas dos antropólogos britânicos marcados pelas preocupações da escola estrutural-funcionalista fundada por Radcliffe-Brown. Essa vertente de análise se firma em contraposição às americanas, negando o psicologismo que, como afirmam em suas críticas, as definiriam. A eles, não interessa a formação da personalidade ideal, mas sim as práticas e o processo de socialização dos indivíduos. Não é uma questão de aquisição de cultura e competências, afirmam, mas de delimitação dos papéis e relações sociais envolvidas nesses processos e que embasam e realizam essas práticas.

No estrutural-funcionalismo, as sociedades são entendidas como um sistema de papéis e relações sociais que podem ser observados, descritos e analisados pelo pesquisador. Esses papéis definem o lugar do indivíduo na sociedade, e estão ligados a outros, conformando assim uma totalidade social a ser reproduzida indefinidamente. As gerações se sucedem, e cada qual vai assumindo um papel social que lhe antecede e define seu status e posição na sociedade. Com esses pressupostos, a criança dos estudos estrutural-funcionalistas se vê relegada a protagonizar um papel que não define. Suas ações e representações simbólicas não precisam ser estudadas, portanto, para que se defina seu lugar no sistema: são dadas pelo próprio sistema. O que se estuda, então, são os grupos de mesma faixa etária (os pares), as categorias de idade, as passagens entre categorias de idade e status sociais, e seu papel funcional. As interações sociais estudadas limitam-se àquelas com o que se define como “agentes de socialização”, sejam eles adultos ou membros mais velhos de um grupo de jovens. Quando falam de aquisição de competências, referem-se àquelas necessárias para que se realize um determinado papel social. E, coerentes com o pressuposto da sociedade como um sistema, quando falam de socialização, falam de práticas que têm como objetivo a inserção dos indivíduos em categorias sociais que conformam um sistema, o qual deve ser articulado analiticamente pelo pesquisador. Recusa-se às crianças, portanto, uma parte ativa na consolidação e definição de seu lugar na sociedade: elas são vistas como um receptáculo de papéis funcionais que desempenham, ao longo do processo de socialização, nos momentos apropriados.

Para ilustrar essa corrente, vejamos como a socialização é explorada no trabalho de uma antropóloga filiada a ela. A escolha do tema não foi aleatória, mas sim para permitir uma comparação com as análises que descrevemos acima. Como a socialização é menos central a essa corrente, os trabalhos desenvolvidos sobre ela são também menos comuns. Mas a questão do choro (ou da “birra”) infantil e das práticas socializadoras a ele relativas, exploradas em um estudo de Barbara Ward sobre Hong Kong, pode ser bem ilustrativa. A começar, porque, como diz a própria autora, essa questão foi incidental em sua pesquisa, voltada que era ao sistema socioeconômico. Mas, observando quando e por que as crianças choram, e qual a reação dos mais velhos, ela nos mostra como a agressividade e a falta de controle são desencorajadas por essa sociedade, e como o choro não é, lá, e relativamente, uma estratégia bem-sucedida de chamar a atenção e buscar cuidados. Sua explicação, porém, não é dada pela formação da personalidade ideal em Hong Kong, mas pela inserção da criança e do adolescente no sistema estrutural e pelo valor da agressividade na definição de papéis sociais. O que ela nos diz é que o esvaziamento do choro como um recurso de garantia de cuidados pelas crianças não significa falta de cuidados em geral, e deve ser entendido em seu contexto social. E esse contexto é o de uma inserção gradativa na sociedade (pouco problemática porque sem grandes rupturas e sem exigências de que se faça mais do que se é capaz), de uma consciência do papel exercido e de uma valorização do autocontrole em detrimento da agressividade nos papéis de liderança.

Os pressupostos e as técnicas de pesquisa que vimos nessas duas correntes, a culturalista e a estrutural-funcionalista, estão presentes também nas análises feitas no Brasil nesse mesmo período. Elas dizem respeito à educação, como chamam os autores, em sociedades indígenas brasileiras, e versam sobre a inserção dos indivíduos na sociedade e a formação de uma personalidade ideal. Nos estudos pioneiros de Egon Schaden (sobre as crianças guarani) e Florestan Fernandes (sobre a socialização entre os Tupinambá), esses pressupostos culturalistas e funcionalistas são reencontrados. Ambos falam de uma personalidade ideal, do valor da repetição, da homogeneização cultural e da certeza sobre o papel social que ocupam como sendo determinantes para entender o lugar dos “imaturos” nessas sociedades.

As contribuições de todos esses estudos para a análise das crianças em seu contexto sociocultural são inúmeras, e certamente seria um erro renegá-los como um todo. Porém, seus pressupostos limitavam seu alcance. Dentre eles, o de que às crianças é inculcada a cultura, ou o de que elas são socializadas, ou seja, inseridas por agentes e práticas socializadoras na sociedade mais ampla. Enfatizando ora a cultura, a aquisição de competências e a formação de personalidades, ora a inserção na estrutura social, essas análises pressupunham um fim último e uma imutabilidade do processo estudado e conhecido pelo pesquisador, marcado que estava pela reprodução social e transmissão cultural. Era necessário dar um passo adiante, e se fazer capaz de abordar as crianças e suas práticas em si mesmas.

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