Antropologia da criança

Clarice Cohn · Capítulo 9 de 14

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Antropologia da criança

Metodologias e técnicas de pesquisa

 

 

Como se viu, o campo das análises antropológicas que têm a criança como foco é amplo e variado. Sendo assim, cada pesquisa particular terá que se decidir por uma metodologia. A observação participante, que tanto marcou a antropologia, e que consiste em uma interação direta e contínua de quem pesquisa com quem é pesquisado, é certamente uma alternativa rica e enriquecedora, que permite uma abordagem dos universos das crianças em si. Para tanto, seu caráter dialógico, de interação, terá que ser enfatizado, permitindo ao pesquisador tratar as crianças em condições de igualdade e ouvir delas o que fazem e o que pensam sobre o que fazem, sobre o mundo que as rodeia e sobre ser criança, e evitando que imagens “adultocêntricas” enviesem suas observações e reflexões. Significa lembrar, desde a realização da pesquisa (e não apenas na análise dos dados), que a criança é um sujeito social pleno, e como tal deve ser considerado e tratado. Evita-se assim que o reconhecimento da criança como um sujeito ativo e produtor de sentido sobre o mundo seja apenas um postulado, esvaziando-lhe seu significado.

A observação participante pode ainda ser complementada com outros recursos, tais como coletas de desenhos e histórias elaboradas pelas crianças e registros audiovisuais. As opções são muitas, e abrem-se à criatividade, aos interesses e recursos do pesquisador, além das necessidades específicas da pesquisa. Pode-se, por exemplo, optar por coletar desenhos realizados pelas crianças com um mínimo de intervenção, seja nos materiais, no local de realização, no conteúdo; pode-se, ao contrário, pedir que as crianças façam desenhos a partir de um determinado tema de interesse da pesquisa, como, digamos, a família ou a escola. Ou ainda fornecer material, como recortes de imagens de revistas, para uma colagem. Pode-se, ainda, trabalhar alguns desenhos esquemáticos e temáticos com as crianças, de modo a melhor entender uma questão específica — como, por exemplo, fez Toren, quando buscou entender a relação que as crianças de Fiji faziam entre hierarquia e espacialização, pedindo a elas que comentassem alguns esquemas de posicionamento de pessoas elaborados pela pesquisadora.

Tendo os desenhos em mãos, o pesquisador pode pedir às crianças que os comentem, ou mesmo que elaborem histórias a seu respeito. Assim, terá em mãos materiais diversos, mas correlacionados, com os quais trabalhar. Histórias elaboradas pelas crianças e dramatização de situações, mais ou menos dirigidas, têm também sido utilizadas por antropólogos que buscam entender o ponto de vista das crianças.

Os registros audiovisuais têm-se provado de grande valia para a pesquisa, desde os estudos pioneiros de Margaret Mead e Gregory Bateson. Como sempre, os interesses e pressupostos da pesquisa ditam, de alguma forma, os registros tomados e sua interpretação. Vale lembrar que eles não são garantia de uma maior objetividade ou imparcialidade: de um lado, a escolha do que registrar é informada pelos interesses e pelo foco do pesquisador; de outro, as crianças de algum modo irão interagir com câmeras e gravadores, tornando esta uma das modalidades possíveis de exercício de sua fala e ação. Feita essa ressalva, tais registros podem ser muito produtivos e ricos, e podem, como foi o caso daquele estudo pioneiro, fornecer uma narrativa propriamente visual, relativamente autônoma ao texto e às explicações analíticas.

As combinações tornam esse elenco de metodologias e técnicas potencialmente infinito. Podemos dar asas à imaginação, e pensar no registro audiovisual realizado pelas crianças sobre o seu mundo, em atividades escolhidas por elas... O essencial, em todos esses casos, é aproveitar desses meios e dessas técnicas o que elas podem oferecer do ponto de vista das crianças sobre o mundo e sua inserção nele.

Uma antropologia que trata das crianças, porém, não precisa ser feita apenas ao tomá-las como sujeitos privilegiados de interlocução. Por exemplo, um estudo feito em uma escola, ou em um abrigo para crianças em situação de risco, pode ganhar muito ao se debruçar sobre o que os profissionais que lidam com as crianças pensam sobre elas e sobre sua atividade, assim como sobre o que eles próprios (e também elas) fazem, deixam de fazer ou deveriam fazer.

Mais que isso, a pesquisa pode ser realizada sem o advento da observação participante e da interlocução direta com as crianças. Retomando as provocações do início do texto, podemos pensar em uma pesquisa realizada a partir de textos literários sobre as memórias “dos tempos de menino”, discutindo a partir deles a imagem de infância que criam. Literatura, cinema, textos jurídicos e legislação, documentos de instituições de assistência à criança, e muitos mais, podem ser fontes ricas para a reflexão sobre o que é ser criança e sobre sua ação no mundo em contextos específicos.

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