Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje

Créditos

REVISÃO GUILHERME MAZZAFERA E ANDRÉA BRUNO TRADUÇÃO LEO VINICIUS LIBERATO

DIAGRAMAÇÃO LILIAN MITSUNAGA

CAPA GUSTAVO PIQUEIRA | CASA REX

NOTAS COLETIVO BADERNA

MONTAGEM DO E-BOOK CÉSAR ZAMBONE

 

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

 

H149 Haider, Asad

Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje / Asad Haider. Tradução de Leo Vinícius Liberato. – São Paulo: Veneta, 2019. (Coleção Baderna).

 

E-book

Título original: Mistaken identity: race and class in the age of Trump. ISBN 978-65-86691-09-2

 

1. Política Identitária. 2. Política anti-racista. 3. Identidade. 4. Racismo. 5. Lutas de Classes. 6. Movimentos Sociais. 7. Interseccionalidade. 8. Universalidade Insurgente. I. Título. II. Raça e classe nos dias de hoje. III . Série. IV . A política identitária. V . Contradições entre as pessoas. VI. A ideologia racial. VII. Passing. IX. Lei e ordem. X. A universalidade. XI. Liberato, Leo Vinícius, Tradutor.

 

CDU 316 CDD 305

 

Catalogação elaborada por Regina Simão Paulino – CRB 6/1154

 

EDITORA VENETA

Rua Araújo, 124 1º andar 01220-020 São Paulo SP

www.veneta.com.br | contato@veneta.com.br

PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA

 

AGRADECIMENTOS

 

INTRODUÇÃO

 

1. A POLÍTICA IDENTITÁRIA

 

2. CONTRADIÇÕES ENTRE AS PESSOAS

 

3. A IDEOLOGIA RACIAL

 

4. PASSING

 

5. LEI E ORDEM

 

6. A UNIVERSALIDADE

PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA

 

No início de 2018, período em que redigia meu livro Racismo

Estrutural (Pólen, 2019), deparei-me com a entrevista de um

intelectual estadunidense de origem paquistanesa chamado Asad

Haider . Nesta entrevista, Haider falava sobre as ideias contidas em

seu recém-lançado livro, Mistaken Identities: Race and Class in the

Age of Trump, que agora ganha sua versão brasileira sob o título

Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje, publicado

pela editora Veneta. Quero fazer algumas considerações sobre

minha experiência; primeiro, com a entrevista de Haider , e, depois,

com seu livro, agora com a tradução para o português de Leo

Vinicius Liberato.

Ao ler a entrevista, impactou-me a radicalidade e o destemor com

que o espinhoso tema das políticas identitárias (ou “identitarismo”,

como se diz aqui no Brasil) foi tratado. Haider não se furtou a

abordar o tema de modo crítico, sem cair nos simplismos que

geralmente marcam este debate. Desde logo vi que sua contundência

não era fruto apenas de um posicionamento firme contra os efeitos

deletérios da atual versão das “políticas de identidade”, mas,

principalmente, de um pensamento erigido a partir de um arcabouço teórico sólido, que não abria espaços para concessões

circunstanciais ou para o mero comodismo ideológico.

Terminada a leitura da entrevista, apressei-me em comprar o livro

em sua versão original. O livro confirmou as impressões iniciais que

tive sobre o autor e a importância de seu trabalho para o momento

pelo qual passa nossa sociedade.

Logo na introdução, Haider relata o modo com que sua vida

intelectual foi forjada por uma experiência marcada pela constante

luta contra as determinações de sua identidade racializada de

homem de origem paquistanesa, um “não branco”, nos Estados

Unidos da América. Mas a questão central retirada do relato de

Haider é que, mesmo recusando-se a pensar o mundo dentro das

fronteiras reservadas às pessoas não brancas, a identidade sempre

estava lá. A identidade o atravessava em cada escolha, em cada passo;

não bastava tentar a “ressignificação” de sua subjetividade ou a

recusa existencialista de qualquer sentido prévio que se pudesse

atribuir à sua vida. O fato é que pensar a si mesmo e ao mundo

implicava no enfrentamento da questão da identidade. Não pude

deixar de me reconhecer nas palavras de Haider: sou um advogado e

professor de Filosofia do Direito que não tratou da questão racial

diretamente em seus trabalhos de mestrado e doutorado. Mas,

independentemente de minhas escolhas, sempre esteve além da

minha vontade ser reconhecido, medido e avaliado como um homem

negro. Percebi que até a decisão de ter ou não uma vida intelectual

alheia a reflexões sobre o racismo não poderia ser feita sem um

confronto com a minha identidade racial. Se resolvesse não estudar

a questão racial, e apenas me dedicar à Filosofia, ao Direito ou à

Economia Política eu precisaria passar a vida toda me explicando

por tal decisão, uma vez que sou negro. A identidade é, portanto, algo objetivo , vinculado à materialidade do mundo, e pessoas não brancas

como Haider e eu somos pensados através da identidade, ainda que

nela não pensemos.

Mas, nesse sentido, como a identidade pode ser uma “armadilha”

se dentro dela já inevitavelmente estamos? E é esse o ponto mais

importante do livro: a identidade se torna uma armadilha quando se

converte em uma política, ou, mais precisamente, em “política de

identidade” ou “identitarismo”. O cerne do livro é a distinção entre

identidade e política de identidade, com foco na identidade racial. O

que Haider nos propõe aqui é que “devemos rejeitar a identidade

como base para se pensar a política identitária”. Ou em outras

palavras: que não se pode compreender uma ideologia por meio de

concepções igualmente ideológicas. A identidade é fruto de uma

história, que só pode ser alcançada caso mergulhemos nas relações

sociais concretas. Se a identidade é uma ideologia, ela o é no sentido

althusseriano de prática material: a identidade como ideologia

“existe” nas relações concretas e se manifesta na prática de

indivíduos “assujeitados” (tornados negros, brancos, homens,

mulheres, trabalhadores, trabalhadoras etc.) pelo funcionamento

das instituições políticas e econômicas, orientadas pela e para a

sociabilidade do capitalismo.

A “armadilha” de que fala Haider não está em se levar em conta a

identidade nas análises sobre a sociedade, mas em analisá-la como

se fosse algo exterior às determinações materiais da vida social.

Afastada de sua dimensão social, a identidade passa a ser,

simultaneamente, ponto de partida e ponto de chegada, colocando o

pensamento em um loop infinito de pura contradição. Desse modo, o

debate intelectual sobre a identidade jamais ultrapassa a si mesmo,

incapaz que é de projetar-se nas relações concretas que sustentam as identidades sociais. À sombra do identitarismo, o mundo é uma

fantasmagoria em que ser negro, mulher, LGBT , trabalhador e todo

sofrimento real projeta-se em narrativas fragmentadas, relatos de

experiências pessoais (storytelling) e outros subjetivismos

travestidos de método. Ainda que se refiram a experiências comuns

de muitos indivíduos, as narrativas e relatos subjetivos não nos

oferecem mais do que um caleidoscópio sociológico. O

identitarismo, como forma de pensar a realidade, tem o seu limite

máximo nas manifestações da ideologia identitária.

O que faz Haider é desvendar a historicidade do que chama de

“categoria contemporânea de identidade”. O adjetivo

“contemporânea” utilizado pelo autor serve para dizer que a

identidade como um elemento a ser levado em conta na organização

das lutas políticas emancipatórias e revolucionárias, não nasceu

como uma armadilha antirrevolucionária, mas, pelo contrário, já

integrava as reivindicações de pessoas genuinamente

comprometidas com a transformação social, como Malcom X, Huey

P . Newton e Kathleen Cleaver. Como nos conta Haider, o problema

político da identidade foi colocado pela primeira vez de forma direta

pelo Coletivo Combahee River – formado por militantes socialistas

negras e lésbicas –, que denunciaram no texto “A Black Feminist

Statement” como o socialismo revolucionário tinha no racismo e no

sexismo presentes na própria esquerda um obstáculo a ser superado.

O que as militantes do Coletivo Combahee River fizeram foi chamar

as esquerdas para assumirem uma postura coerente com o

materialismo histórico. O Coletivo Combahee River fez o que Sartre

chamaria de “apelo ao concreto” ao criticar um certo marxismo

mágico que se move do “abstrato para o abstrato”, subvertendo o

método dialético que, como ensinou Marx, consiste em “elevar-se do abstrato em direção ao concreto”. É uma espécie de marxismo sem

história e sem dialética, que trata categorias como classe,

mercadoria e valor como absolutos autorreferenciais e que, no fim

das contas, nada tem a dizer sobre a realidade. Sua serventia é tão

somente criar palavras de ordem e frases de efeito que irão estampar

bandeiras e bótons em manifestações. É desse marxismo exótico que

nasce um tipo de “marxista” portador de uma subjetividade que atua

como um “grilo falante” (ou bobo da corte, como preferirem) do

sistema, ou como uma espécie de ombudsman do capitalismo; um

crítico autorizado que jamais tem que lidar com as próprias

contradições e que tem como função aplicar um programa

revolucionário imaginário e delirante, que pouco ou nada tem a ver

com marxismo. Enfim, ao colocar a identidade racial e sexual no

tabuleiro, o Coletivo Combahee River jamais pretendeu fazer da

identidade o único foco da política. Seu objetivo era demonstrar a

complexidade da vida social e das lutas que se desenrolam no

cotidiano. Assim, uma transformação radical da sociedade exigiria

que um certo “reducionismo de classe vazio” pudesse ser desafiado,

abrindo-se espaço para possibilidades de organização oriundas da

práxis de trabalhadores e trabalhadoras, brancos, negros, mulheres,

LGBT e imigrantes. Como afirma Haider , movimentos como

Combahee River “não deveriam ser considerados como desvios de

um universal, mas, sim, como a base para desestabilizar a categoria

de identidade e criticar as formas contemporâneas de política

identitária – fenômeno cuja forma histórica específica a luta

revolucionária negra não poderia ter previsto ou antecipado, mas

cujos precursores ela identificou e a eles se opôs” (pag. 37). O

Coletivo Combahee River nos ensinou a todos que em um

movimento anticapitalista “o mais importante é saber se ele é capaz de atrair um amplo espectro de massas e de possibilitar sua auto--

organização, buscando construir uma sociedade na qual as pessoas

se governam e controlam suas próprias vidas” (pag. 41).

A identidade, demonstra-nos Haider com os exemplos de

revolucionários como as feministas negras do Combahee River,

Malcolm X e os Panteras Negras, não é a armadilha em si. A

armadilha antirrevolucionária apresenta-se quando a política se

reduz à afirmação de identidades especificas. E parte expressiva da

esquerda caiu nessa armadilha epistemológica de graves

consequências políticas. Em termos políticos, a política identitária

acaba tendo como efeito a reafirmação da subjetividade colonial e

não uma mudança estrutural efetiva. Ora, um negro é um negro por

causa do racismo, e não porque sua negritude não é valorizada ou

reconhecida; da mesma forma, um branco também é um branco por

causa do racismo, e não devido à sua “brancura”. E não há racismo

sem estruturas políticas e econômicas que sustentem um processo

contínuo de transformação de indivíduos em “negros” e “brancos”.

Da mesma forma que não existem “negros essenciais” que sejam

legítimos herdeiros de realezas africanas perdidas no tempo, não

existem brancos – mesmo entre os que se acham risivelmente

nobres ou genuínos – que não sejam resultantes de uma construção

muito paciente e cuidadosa da modernidade, como ensina Achille

Mbembe. De tal sorte que tratar o racismo como resultado de uma

vaga e abstrata ideia de “supremacia branca” sem explicar os termos

com que isso é viabilizado política e economicamente apenas

comprova o quanto de confusão a versão contemporânea das

políticas de identidade pode causar.

É, portanto, contra o próprio processo político e econômico de

constituição de subjetividades que se deve lutar, e por isso é fundamental que as identidades sejam consideradas como um dado

analítico e como um elemento concreto de organização estratégica

e/ou tática da política, sem o que não há revolução, e mesmo

reforma, possível. Lênin, cuja veia revolucionária não se há de negar,

já sabia da importância da identidade na política quando escreveu

seus famosos textos sobre a questão nacional e sobre os pogroms

contra os judeus.

Por isso, tomar a identidade como o centro da política é o mesmo

que tentar acabar com o capitalismo comprando todas as

mercadorias existentes até que não sobre mais nenhuma. A política

identitária sem um horizonte de transformação do próprio

“maquinário social” que produz as identidades sociais gera uma

camisa de força que faz com que o “sujeito” negro, mulher, LGBT

possa ser, no máximo, uma versão melhorada e menos sofrida

daquilo que o mundo historicamente lhe reserva.

A eficiência da armadilha identitária está no seu duplo

funcionamento, que serve tanto à “direita” quanto à “esquerda

antirrevolucionária”. Em relação à direita, o uso da política

identitária e da insistência subjetivista é algo tradicional e faz parte

do individualismo metodológico que é a marca do liberalismo e do

neoliberalismo . Clamar por uma “identidade branca” ou ostentar

uma identidade nacional contra não brancos e imigrantes é um

clássico da direita, especialmente em tempos de crise do

capitalismo , que, de liberal e universalista, rapidamente pode virar a

chave para o fascismo. Mas uma “identidade negra” desconectada

das estruturas sociais também pode ser conservadora ou reacionária

e servir aos propósitos de reprodução do capitalismo , que

historicamente tem se mostrado capaz de metabolizar o racismo e

transformá-lo em aspirações de consumo e de poder. Ao fim e ao cabo, a política identitária, especialmente em tempos neoliberais, é

um fator importante para que a divisão social e a atomização que

marcam o capitalismo continuem a acontecer.

E como o identitarismo paralisa a “esquerda”? Tornando-a refém

da política identitária, o que pode acontecer de dois modos: 1)

quando a esquerda só fala de identidade; 2) quando a esquerda se

recusa a falar de identidade.

No primeiro caso, a esquerda restringe-se a movimentos dentro

dos estreitos limites do sistema, esperando que ele se “irrite” e

atenda às suas reivindicações na forma de “direitos”. No fim das

contas, a política identitária limita as organizações de esquerda ao

fi gurino jurídico da luta por “mais direitos” e não há nada mais

antirrevolucionário do que o “neoliberalismo de esquerda”, como já

nos alertou Nancy Fraser. Na maior parte dos casos, ainda que possa

gerar conflitos e trazer mudanças significativas na vida das pessoas,

“mais direitos” não constitui um problema sério para o capitalismo:

conceder direitos evidencia a plasticidade de um sistema que precisa

ser reformável para continuar se reproduzindo. Quando o único

objetivo das esquerdas é o reforço da subjetividade – especialmente

de sua forma mais bem-acabada, a subjetividade jurídica – as formas

sociais do capitalismo (mercadoria, dinheiro, Estado) que estão

conectadas com a forma jurídica serão preservadas. Asad Haider

trata da questão ao falar de como o movimento pelos direitos civis

não era inicialmente um pleito somente por mais direitos, por “ação

afirmativa” ou por inserção no capitalismo. O movimento pelos

direitos civis foi em sua origem um movimento anticapitalista e

contou com uma participação decisiva de pessoas negras, algumas

ligadas ao Partido Comunista dos EUA. Só posteriormente o

movimento pelos direitos civis, quando passou a ser liderado por advogados, ganhou uma face, digamos, “liberal”, como nos conta

Michelle Alexander em A nova segregação (Boitempo, 2017). O

movimento pelos direitos civis, pela própria constituição histórica

do capitalismo estadunidense, foi, nas palavras do autor , “o

equivalente mais próximo nos Estados Unidos dos movimentos

operários de massa na Europa pós-guerra” que ajudaram a

estruturar o projeto revolucionário e o desenvolvimento da teoria

marxista. (pag. 40).

Por outro lado, se o identitarismo é um problema para quaisquer

pleitos emancipatórios, a recusa apriorística da identidade também

o é. Há uma esquerda “anti-identitária” que pode ser tão ou mais

benéfica ao neoliberalismo como os mais convictos identitaristas. O

anti-identitarismo está no discurso de uma esquerda que se diz

“tradicional”, “raiz”, e considera que a identidade e as questões a ela

relacionadas são desviantes “do plano puramente econômico”.

Tratar de identidade só serve para dividir a “classe trabalhadora”,

costumam afirmar . Uma classe trabalhadora coesa, indivisa e sem

contradições só existe em abstrações mentais originadas de leituras

quase evangélicas dos textos de Marx e Engels (cujos escritos

partem da observação da classe trabalhadora real). Daí podemos ver

que ser “anti” qualquer coisa é pautar-se, ainda que na chave da

recusa, por aquilo que se quer negar . Em outros termos: a esquerda

“tradicional” e “classista” é igualmente identitarista e, portanto,

antirrevolucionária. Sua marca é a incapacidade de se conectar com

o cotidiano de sofrimento, humilhação e privação de trabalhadores e

trabalhadoras que não estão na universidade, que não participam de

rodas de conversa, que sequer sabem falar direito a língua de seus

patrões. Paradoxalmente, a identidade dessa esquerda não identitária é assumir uma identidade “de classe”, uma classe

totalmente apartada da realidade.

Nesse ponto, a esquerda dita tradicional e pretensamente

revolucionária trabalha nos mesmos moldes que o reformismo

social-democrata e suas críticas às divisões que o identitarismo

promove rumo ao “projeto nacional” e ao “desenvolvimento”. Essas

esquerdas podem dar as mãos porque uma, em seu ímpeto

revolucionário abstrato, e a segunda, em seu reformismo calcado na

construção de uma identidade conservadora, têm em comum a falta

de compromisso político com a transformação da sociedade e a

emancipação humana.

É interessante notar como o livro de Haider nos leva a pensar em

diversas “armadilhas” dentre as quais a fixação na raça é apenas uma

delas. O capitalismo não é plenamente compreensível dentro do

binômio esquerda-direita, que é ideológico. Há uma esquerda

“identitária” e uma esquerda “anti-identitária”, como falamos. Há

também uma direita “identitária” (“pelo direito de ser branco”,

“ América para os americanos”, “Brasil acima de todos, Deus acima

de tudo”), mas há uma direita “anti-identitária”, liberal, iluminista e

universalista. O que isso nos revela? Em primeiro lugar, que tanto

parte da esquerda como da direita têm em comum o fato de tratarem

a identidade fora das relações sociais concretas, com base em seus

respectivos substratos ideológicos; e em segundo lugar, que a etapa

neoliberal do capitalismo mantém a direita e a esquerda sob

controle, já que os termos das disputas e dos projetos políticos não

comprometem a reprodução das formas sociais do capitalismo.

Ainda que o livro de Haider analise o debate contemporâneo sobre

a identidade racial no contexto dos Estados Unidos da América, a

importância da obra para a compreensão de nossos problemas aqui no Brasil e na América Latina não pode ser subestimada. Este livro

abre um importante caminho para que possamos, a exemplo do que

fez Haider tendo por base a realidade dos EUA, traçar uma história

da construção social da identidade na periferia do capitalismo, em

que o problema da identidade ganha contornos bastante distintos

em virtude das práticas coloniais. É impossível contar a história da

formação social dos países da América Latina, da África, da Ásia e da

Oceania sem levar em conta o modo como as lutas políticas foram

organizadas a partir de uma concepção revolucionária da identidade

e como as lutas anticoloniais tiveram na afirmação de uma

“identidade nacional” negra e/ou indígena o seu ponto de ebulição.

Tal como Haider fez quando tomou o exemplo do Coletivo

Combahee River, precisamos entender como a atividade de

intelectuais e ativistas como Amílcar Cabral, Frantz Fanon, Eric

Williams, Walter Rodney, Clóvis Moura, Lélia Gonzalez, Hamilton

Cardoso , Carlos Mariátegui e tantas outras pessoas forneceu a

possibilidade de uma visão não individualista, politicamente

agregadora e revolucionária da questão da identidade.

Mas que as críticas de Haider às políticas de identidade e meu

endosso a elas neste prefácio não sejam tomadas como se

tratássemos de um problema ético. Nem de longe se trata disso.

Como toda ideologia, o identitarismo tende a formatar nossos

valores morais, mas sua origem não está em noções pessoais de certo

e errado. As políticas de identidade em sua forma atual são sintomas

da crise que levou a uma reorganização dos mecanismos de

reprodução social do capitalismo. O identitarismo é uma das formas

assumidas pela ideologia neoliberal, que cultua o

hiperindividualismo, o empreendedorismo, as “metas” e que, ao

mesmo tempo, justifica a destruição do valor da solidariedade e dos mecanismos estatais de proteção social. Com isso, fica aberto o

espaço para o extermínio da população negra e indígena e para o

encarceramento em massa como métodos de controle da pobreza.

Mas o livro de Haider nos oferece possibilidades de uma análise

comparada entre Brasil e EUA que não se esgota nas coincidências

entre as experiências de ambos os países com o neoliberalismo. Não

são apenas as pegadas do passado que são iluminadas. O livro nos

permite olhar para acontecimentos do presente, que relacionam

Brasil e EUA. Com a ascensão da extrema-direita ao poder em 2019,

as pautas identitárias ganharam um novo sentido já que o atual

governo brasileiro se apoia em um discurso ideológico, de forte

afirmação identitária (não universalista, branca, heterossexual,

fundamentalista e virulentamente anticomunista). Tal qual nos

EUA, a crise econômica de 2008 rompeu o aparente consenso

multiculturalista, democrático e universalista da ideologia

neoliberal que até então amparava as políticas identitárias.

O problema da identidade é um problema político urgente, ligado

à lógica de reprodução social do capitalismo. Por isso, deve ser

tratado de modo crítico, a fim de que possamos lidar com uma

“realidade contraditória”. Essa realidade contraditória nos leva a

pensar que, sim, a representatividade é importante para pessoas

negras; ter o direito subjetivo de exigir o reconhecimento estatal de

nossa identidade é muito relevante; ter garantido o direito de

estudar, de trabalhar, de não ser morto pela polícia por ser um

“suspeito padrão” é algo pelo que devemos lutar. E são coisas

possíveis porque muitos de nossos ancestrais tiveram seu sangue

derramado. Mas, ao mesmo tempo, é necessário assumir que as

identidades, inclusive a raça, são socialmente construídas e é sobre

isso que Haider nos leva a refletir com seu texto tão contundente. Em um sentido revolucionário, a afirmação da raça é feita apenas

para que um dia seja possível superá-la.

 

São Paulo, 26 de maio de 2019

 

Silvio Luiz de Almeida

Presidente do Instituto Luiz Gama

Professor da Fundação Getúlio Vargas e

da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Doutor em Filosofia e Teoria Geral

do Direito pela USP