Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje
Capítulo 2 - A Produção das Pragas
CAPÍTULO 2
CONTRADIÇÕES ENTRE AS
PESSOAS
2
CONTRADIÇÕES ENTRE AS
PESSOAS
No dia 15 de fevereiro de 2003, entre 10 e 15 milhões de pessoas em
mais de 600 cidades tomaram as ruas para protestar contra a
invasão do Iraque pelos Estados Unidos – o maior protesto da
história da humanidade. Eu era uma delas. Minhas primeiras
experiências como ativista foram no pequeno e sofrido agrupamento
de pessoas que se organizaram contra a Guerra do Iraque em State
College, Pensilvânia. Nesse grupo, a raça não era uma fonte de
conflito . Anti-imperialistas negros e anti-imperialistas brancos
trabalhavam juntos para organizar manifestações. Ativistas brancos,
alguns deles radicalizados por terem tido contato com a luta de
Mumia 016 Abu-Jamal, afirmavam fervorosamente que o racismo em
casa estava relacionado ao imperialismo fora. Nosso grupo era
pequeno demais para ter dissidências e rachas.
Na época que o movimento Occupy surgiu, eu tinha me mudado
para o norte da Califórnia, onde a esquerda é grande o suficiente
para acomodar muitos rachas. O que era incrível nesse período é que a questão de classe veio para a agenda política de um modo que
nunca havia ocorrido antes na minha vida. Tive contato com muito
mais marxistas. Às vezes me vi discutindo com marxistas brancos
que achavam que o anti-imperialismo e até mesmo o antirracismo
estavam datados. Eles insistiam que o movimento contra a guerra
havia fracassado e que ele estava cheio de sectários que apoiavam
ditaduras no Terceiro Mundo. O antirracismo era assim pouco mais
que um slogan, já que os problemas reais das pessoas de cor
poderiam ser explicados pelas contradições econômicas.
Eu não conseguia me identificar com essa visão e não conseguia de
fato ver o que ela tinha a ver com marxismo. Não havia encontrado
nada que me convencesse a rejeitar a definição de socialismo de
Newton como “o povo no poder”. E parecia pra mim que quando as
pessoas se organizavam para resistir à opressão imperialista e
racista, estavam trabalhando na direção da construção desse poder,
mesmo se as incertezas da história significassem que seus esforços
frequentemente não seriam suficientes. Durante algum tempo estive
preocupado principalmente em defender que a esquerda deveria
levar a questão da raça mais a sério.
Via que a questão racial era a limitação fundamental do
movimento Occupy . Apesar de iniciativas como o Occupy the
Hood 017, o movimento dos 99% nunca pareceu penetrar nos bairros
mais pobres e nunca conseguiu diversificar seus participantes
adequadamente. Como consequência ele foi representado pela
imprensa corporativa como um movimento dominado por brancos e
com reivindicações para brancos. Foi uma derrota inaceitável no
campo da propaganda. Não apenas havia negros profundamente e
até mesmo desproporcionalmente atingidos pelos empréstimos
predatórios e pelas consequências da recessão, mas também o legado revolucionário negro foi usado no movimento. Deveria ter
sido possível atravessar as fronteiras de raça, bairros e instituições
para enfrentar o status quo com um movimento de massa
multirracial.
Isso não ocorreu e, no final das contas, o movimento Occupy
desapareceu. Mas a questão da raça voltou, como o retorno do
recalcado. Em 2014 vimos muito bem o quão ineficaz é o
multiculturalismo liberal. Apesar de uma família negra estar na Casa
Branca, a violência policial contra a comunidade negra não parou.
Quando um jovem negro chamado Michael Brown foi linchado por
um policial branco, que não foi punido por isso, uma explosão de
revolta eclodiu em Ferguson, Missouri, e se espalhou por Atlanta,
Chicago, Filadélfia, Nova Iorque e Oakland.
Não foi apenas a persistência da supremacia branca que foi
exposta nesse momento. Também ficaram visíveis as contradições
de classe na comunidade negra. Enquanto as elites políticas negras,
como o pastor Al Sharpton, clamavam por controle, os levantes
demonstravam querer mais que apenas espaço para os negros no
sonho americano de mobilidade social. A juventude negra
continuava a ser enviada à prisão ou assassinada pela polícia, e as
comunidades negras eram mantidas em estado de inconcebível
pobreza. Os rebeldes nas ruas viam claramente que colaborar com
Sharpton ou Obama não faria sua luta avançar. Essas contradições e
tensões se aceleram com o passar do tempo, incorporando a
indignação com o caso semelhante de Eric Garner em Nova Iorque e
desembocando no movimento conhecido como Black Lives Matter .
Esse movimento levou adiante um legado revolucionário
fundamental, que Malcolm X descreveu no seu monumental
discurso “Mensagem às Bases”. Sua famosa análise do “negro da casa” não era meramente uma resposta retórica a indivíduos que
tendiam ao liberalismo. Era uma análise complexa do papel
estrutural desempenhado pelo dirigente negro na supressão da ação
autônoma de massa. “Eles te controlam”, Malcolm dizia. “Eles te
contém 1 ; te mantém na plantação ”. Como Cornel West apontou, o
levante de Ferguson foi uma nova revolta contra o controle e a
contenção exercida por essas elites negras:
O surgimento desse momento com o Black Lives Matter corresponde ao de
uma maravilhosa nova militância, que é o primeiro sinal da quebra da
apatia neoliberal na América negra. O que expõe a podridão espiritual e a
covardia moral de grande parte das lideranças negras – políticas,
intelectuais e religiosas. O carisma míope e o narcisismo crônico que
impediu qualquer crítica séria ao neoliberalismo de Obama estão agora
expostos publicamente, graças aos jovens corajosos que enfrentaram
tanques militares de modo a mostrar seu amor por aqueles assassinados
pela polícia inimputável sob um presidente negro, um procurador-geral
negro 2 e um membro do gabinete de segurança nacional negro.
O movimento Black Lives Matter veio da base.
Consequentemente, não traçou uma fronteira artificial entre classe
e raça. Como Erin Gray escreveu na sua análise desse “movimento
revolucionário antilinchamento do século XXI”: “As ações diretas
organizadas pela indignação em defesa da vida dos negros se
tornaram cada vez mais anticapitalistas. Elas incluíram a destruição
de propriedade, ocupação de estradas, bloqueios de postos de
gasolina e de departamentos de polícia e paralisações de grandes
corporaç 3 õ es como o Walmart ”.
Mas, embora estivéssemos vendo a automobilização de parte da
população que o movimento Occupy não tinha sido capaz de alcançar , esse conteúdo de classe nascente não foi sempre fácil de
manter e desenvolver. Uma tendência reacionária de fato emergiu,
alimentada pela imprensa corporativa e pela elite negra. Elas
tentaram introduzir uma barreira rígida entre o movimento Black
Lives Matter e as lutas anticapitalistas em andamento, por
supostamente corresponderem a identidades diferentes e não
relacionadas.
Encontrei esse problema, de um modo para o qual não estava
preparado, na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Ali o
movimento Black Lives Matter surgiu no contexto de um
movimento antiprivatização liderado por uma aliança entre
estudantes e trabalhadores. Nos anos seguintes ao Occupy , uma
quantidade de sindicatos – organizando todo mundo, de
trabalhadores da saúde a motoristas de ônibus, passando por
zeladores e assistentes de professor – estava em negociações
coletivas e paralisando o campus com greves fortes. Contaram com o
apoio de militantes estudantis, incluindo grupos de esquerda
multirraciais como o Autonomous Students, e também com grupos
comunitários como o Movimiento Estudiantil Chicano de Aztlán
(popularmente conhecido como MEChA).
É claro que grupos como esse último vieram da onda nacionalista
dos anos 1960, que teve um impacto poderoso na Califórnia,
especialmente em instituições de ensino superior – os
departamentos de estudos étnicos das universidades San Francisco
State e Berkeley, por exemplo, foram criados graças às greves
estudantis 018 da Third World Liberation Front.
Mas esse legado se tornaria contraditório quando o Conselho
Administrador da Universidade da Califórnia (UC) anunciou um
aumento 019 de 27% nas mensalidades em novembro de 2014. Eu não esperava muita coisa. Estava em minha sala, planejando dar uma
passada rápida na manifestação quando fosse pra casa. Daí ouvi a
multidão do lado de fora: o prédio ao lado havia sido ocupado, a
administração foi expulsa. Mudei de planos.
A ocupação durou cerca de uma semana, pontuada por visitas de
Cornel 020 West , de Chris Hedges e do Teamsters. Após uma confusa
explosão inicial de energia, as conversas finalmente começaram – as
análises foram debatidas, os slogans foram impressos em panfletos.
Foi notável como em todas essas ações a questão racial era
dominante. Parecia ser mais eficaz, em termos de mobilizar gente,
dizer que o aumento da mensalidade “atinge mais duramente os
estudantes de cor”.
Mas não havia elaboração ou mesmo números que sustentassem
essa afirmação. De fato, levando em conta a política da universidade
sobre o ingresso de minorias, pode não ter sido esse o caso. Pode ter
havido razões para se afirmar que estudantes de cor que cresceram
em bairros segregados economicamente e estudaram em escolas
públicas similarmente segregadas eram mais severamente afetados
pelas tendências gerais de privatização que o aumento das
mensalidades representava, apesar do fato de que os mais pobres
entre eles não pagavam mensalidade. Mas a insistência de que o
aumento das mensalidades em si devia ter de algum modo um viés
racial obscureceu a matemática complicada que estava por trás da
política vacilante da Universidade da Califórnia. Isso forçou o
movimento a ficar num beco sem saída retórico, como se a
privatização racialmente igualitária da universidade fosse de algum
modo aceitável.
Paralelamente a essa falta de clareza fundamental, havia uma
espantosa oposição às próprias palavras ocupar e ocupação, as quais poderiam evocar as fábricas autogeridas da Argentina ou do
Uruguai, mas que ao invés disso eram acusadas de apologia ao
genocídio indígena. Numa assombrosa inversão de modismos
acadêmicos anteriores, o significante ocupar foi limitado a um único
significado que remonta a Cristóvão Colombo. Qualquer sugestão de
polissemia foi rejeitada como se fosse um insulto pessoal. Um
debate que provavelmente deveria ter acontecido num seminário de
semiótica tomou horas em reuniões em que poderíamos ter
planejado aulas públicas, passeatas e oficinas, ou dividido tarefas de
limpeza. Em vez disso, tivemos que nos debruçar sobre o dicionário
ativista em busca de sinônimos como tomar e expropriar.
Mas as coisas pioraram. E começou com um debate sobre práticas
autoritárias numa assembleia geral desorganizada. A multidão, a
maior até então, estava cheia de novatos empolgados prontos a
participar. Mas foram totalmente silenciados, reduzidos a receber
instruções que não eram democraticamente discutidas. Muitas
pessoas falaram criticando essa prática, incluindo eu. Mas cada um
dos 021 facilitadores era uma “ POC ” – isto é, uma “pessoa de cor” – e
depois que a assembleia foi desfeita, um boato sem fundamento e
quase risível começou a se espalhar, de que os facilitadores haviam
sido atacados por racistas. Esse boato se tornou quase impossível de
desfazer. Até mesmo alguns dos apoiadores costumeiros ouviram
que a ocupação não era um “espaço seguro” e pararam de aparecer.
Claro, não é como se essas queixas surgissem do nada. Desde antes
da palavra microagressão se tornar parte do léxico, vivi exatamente
essas formas de racismo sutil e também a paranoia racial decorrente.
Mas as universidades fomentaram um discurso despolitizado sobre
esses problemas, como Barbara Smith, do Combahee, observou
numa entrevista recente: “Infelizmente, pela política identitária ser frequentemente introduzida aos jovens por acadêmicos que tem
uma compreensão parcial da profundidade dela, eles também
reproduzem 022 uma confusão . Avisos de gatilho, espaços seguros e
microagressões são coisas reais, mas a questão é que não era nisso
que 4 estávamos focadas ”.
Mas esse se tornou o foco em Santa Cruz. Algumas pessoas
começaram a organizar reuniões separatistas de POC, unidas por sua
cor de pele, contra um conjunto fictício de anarquistas brancos.
Minha pele me permitiu entrar. Após ouvir uma desorientadora
miríade de posições políticas – um estudante leu em voz alta um e-
mail de um administrador que de forma conspiratória acusava os
estudantes que protestavam de tentarem enfraquecer as iniciativas
de diversidade do campus – senti necessidade de intervir . Levantei e
tentei conjurar alguns diabos da retórica o melhor que pude; pensei
em Malcolm X e como ele sempre falava na segunda pessoa (“Você
não sabe o que é a revolução!”). Soltei nomes como Frantz Fanon e
tentei convencer um grupo totalmente heterogêneo a largar o ato
POC e ajudar a construir um movimento melhor. Alguns
observadores estalaram seus dedos em concordância em pontos
altos da minha oratória, mas ignoraram o que eu disse.
Estava frustrado demais para continuar indo às reuniões dos POC.
Erro meu. Havia ideólogos de verdade no grupo, cerca de quatro ou
cinco, e eram articulados e espertos o suficiente para arrastar os
novatos jovens e indecisos. O autoproclamado líder decidiu que
umas poucas reuniões não eram suficientes. Renascida como
“ Assembleia POC”, eles convocaram uma assembleia geral especial e
anunciaram, numa apresentação de doer os ouvidos, que estavam se
separando para se oporem ao racismo do movimento contra o
aumento das mensalidades liderado por brancos. Um pequeno público multirracial assistiu confuso. Não pudemos fazer perguntas
a eles ou argumentar, pois eles saíram porta afora após falarem.
Fiquei convencido nessa altura de que tinha uma responsabilidade
pessoal de declarar publicamente, como um “POC”, que eu me
opunha a esse tipo de divisionismo autoindulgente. Levantei
novamente e gritei enquanto caminhava em círculos, comparando-
os à Nação do Islã. Escrevi várias mensagens furiosas aos grupos de
e-mail dos ativistas, comentando num deles: “Estou me dirigindo
aos companheiros ativistas de cor: não podemos deixar os
nacionalistas reacionários falarem por nós. Precisamos começar a
reivindicar o legado dos movimentos antirracistas revolucionários”.
Muitos dos principais organizadores da ocupação em Santa Cruz,
eles próprios pessoas de cor, rapidamente reconheceram que a
ideologia em ação no racha ameaçava fazer da cultura ativista uma
marionete dos de cima. Eles escreveram uma carta respondendo à
acusação disseminada de que a ocupação, e por extensão toda
organização no campus, era um “espaço de brancos”. A carta
apontava que tal retórica não apenas invisibilizava completamente
os ativistas de cor que organizavam a ocupação, como também
beneficiava a administração, que adorava dar aumentos exorbitantes
para si enquanto ameaçava aumentar as mensalidades. Se esse modo
de pensar se espalhasse, o movimento desintegraria numa
“colaboração com administradores POC, que rirão na nossa cara e
nos apunhalarão nas costas”. Em maiúsculas furiosas a carta
declarava: “ NÃO PODEMOS MAIS PERMITIR QUE ESSA
CULTURA TÓXICA ENFRAQUEÇA OS MOVIMENTOS
AUTÔNOMOS CONTRA O AUMENTO DAS MENSALIDADES.”
Como uma espécie de pegadinha histórica, foi bem quando
estávamos resolvendo esse racha que tudo veio abaixo na cidade de Ferguson – quando ouvimos a decisão do júri de não acusar Darren
Wilson, o policial branco que assassinou Michael Brown. Era claro
para nós que qualquer movimento social nos Estados Unidos,
incluindo o nosso, tinha que dar uma resposta a essa exibição
fl agrante de racismo do sistema judiciário. Mas as últimas
tendências da política identitária tornaram praticamente impossível
fazer a ponte entre temas como a violência policial e o acesso ao
ensino superior.
Nos anos 90, crescemos acostumados à ideia de que toda
reivindicação de reconhecimento por parte de uma identidade
marginalizada deveria ser reconhecida e respeitada – uma forma de
etiqueta discursiva por vezes resumida no jargão
interseccionalidade, um termo originado dos estudos jurídicos e que
agora possui uma função intelectual comparável ao “abracadabra”
ou à “dialética”. Quando Kimberlé Crenshaw introduziu o termo em
1989, ele tinha um significado preciso e delimitado. Crenshaw
começou examinando “como os tribunais enquadram e interpretam
as histórias das mulheres negras querelantes”. Ela citou casos nos
quais os tribunais determinaram que uma ação judicial
antidiscriminação “deve ser examinada para ver se ela traz uma
causa de ação por discriminação racial ou discriminação sexual, uma
delas, mas não uma combinação de ambas”. Ela passou a ligar essa
questão jurídica específica ao problema geral já descrito pelo
Coletivo Combahee River: as organizações políticas monotemáticas
terminariam se centrando nos membros do grupo mais
privilegiados, marginalizando aqueles cujas identidades os expõem a
outras 5 formas de subordinação.
No seu uso corrente entre ativistas do campus, porém,
“interseccionalidade” parece ir numa direção oposta, recuando das práticas de construção de alianças do CCR e, em vez disso,
generalizando a condição de querelante: equacionando a prática
política à demanda pela reparação de uma lesão, convidando à
construção de intersecções barrocas e inavegáveis, constituídas
pelas litanias de diferentes identidades às quais uma pessoa
pertenceria. Aqueles cuja identidade possui mais linhas que se
intersectam podem reivindicar o status de mais lesados e, portanto,
são agraciados, no quadro jurídico ao qual a política é assim
reduzida, com proteção institucional e de fala. Esse status protegido
não implica nem na subjetividade política que pode vir a se
organizar autonomamente, nem na solidariedade que é necessária a
alianças para chegar a ações políticas bem-sucedidas.
De fato, a reação imediata à tentativa dos estudantes radicais se
organizarem em torno da questão da violência policial foi questionar
se um grupo que não era identificado como negro deveria sequer ter
permissão de abordar o assunto. Como resultado, grupos
identi 023 fi cados como negros encenaram alguns efêmeros die - ins,
enquanto a aliança dos radicais – que incluía, no mínimo, ativistas
negros, brancos, mexicanos, porto-riquenhos, dominicanos,
indianos, iranianos e judeus – diminuiu de tamanho.
Isso ocorreu em todo o país, com o separatismo e excepcionalismo
negro sendo um ponto de partida assumido. Em passeatas que
muitos de nós participamos em Oakland, os comícios eram liderados
por políticos e burocratas de organizações sem fins lucrativos que
alertavam sobre os “agitadores de fora” brancos que poderiam
tentar instigar a violência. Diziam que somente negros deveriam
pegar o microfone; que somente negros deveriam ter funções de
liderança; que os negros deveriam estar na frente da passeata, com
os brancos “aliados” no final e os “pardos” permitidos no meio.
“Pardo”, nesse contexto, presumivelmente se refere a todos os
excluídos pelas categorias dominantes “negro” e “ branco”. Na
prática, com nossa demografia, engloba a maioria da nossa
população imigrante. Diante disso e do que Marie Gottschalk
escreveu no Boston Review, “o Estado carcerário... expandiu tanto
sua capacidade de apreender, deter, punir e deportar imigrantes”, é
de se ficar perplexo à sugestão de que eles têm apenas um papel
secundário em movimentos que se dirigem contra o sistema
judiciário6.
O pressuposto de que somente organizações lideradas por negros
poderiam se organizar em torno de “suas” questões, apesar da
profunda divergência política entre essas organizações – algumas
das quais representavam os interesses elitistas da burguesia negra e
explicitamente buscavam suprimir a militância de base – viriam a
ter um efeito devastador. Entre intelectuais, as tendências
separatistas mais reacionárias obtiveram o status de pseudofilosofia
com a ascendência do chamado afropessimismo de Frank
Wilderson. Um sintoma fundamental dessa tendência foi a
proliferação do conceito de antinegritude no lugar de racismo. Esse
ú ltimo, mais cotidiano, implica uma luta antirracista que une grupos
oprimidos. A problemática “antinegritude” radicaliza e ontologiza
uma perspectiva separatista e excepcionalista negra, rejeitando até
mesmo o mínimo gesto em direção a alianças implícitas na
expressão pessoas de cor. Ela alega, na base de interpretações dúbias
de Gramsci e da historiografia da escravidão, que a “negritude” é
fundada na “morte social”, na perda de identidade e na dominação
total imposta aos escravos no nascimento – apesar do fato de que a
fonte desse termo, o sociólogo Orlando Patterson, usava-o para
de 7 fi nir todas as formas de escravidão , incluindo as não racializadas. Segue-se do pensamento de Wilderson que a totalidade da sociedade
civil “branca” está fundada nessa violência absoluta. A história
inteira dela é reduzida a um efeito de um pretenso prazer dos
brancos no sofrimento dos negros – “como se o principal negócio da
escravidão”, diz Barbara Fields, “fosse a produção da supremacia
branca 8 e não a produção de algodão , aç ú car , arroz e tabaco ”.
Com ideologias de unidade racial funcionando claramente como
bloqueio ao desenvolvimento de uma política de massa antagônica,
não é de admirar que a linguagem aparentemente extremista da
negritude e antinegritude tenha seduzido intelectuais a se
reconciliarem com o status quo . É claro, quando o discurso do
afropessimismo ocasionalmente tratava da classe política negra, seu
tom era de crítica severa. Mas essa crítica reproduzia a dinâmica
política que levou à sua ascensão em primeiro lugar: os dirigentes
negros eram malhados por seu aliancismo, reforçando portanto a
ideologia de unidade racial que obscurecia as posições de classe. Seu
programa reformista de dar aos negros maiores direitos como
cidadãos era rejeitado numa linguagem parecida com a das
primeiras críticas da integração, obscurecendo a incorporação
política 9 da elite que tem ocorrido desde o fi m da segregação. A
ideologia da negritude no afropessimismo de Wilderson funciona
como negação da real integração das elites negras na “sociedade
civil”, que hoje dificilmente pode ser classificada como uma coisa
“ branca”. Quando os efeitos letais da supremacia branca são
exercidos por uma classe dominante racialmente integrada, a
negritude como um vazio antipolítico se torna uma posição
conveniente para uma performance de marginalidade.
A ideologia separatista impede a construção da unidade entre os
marginalizados, o tipo de unidade que poderia realmente superar a marginalização . Numa entrevista de rádio em 2014, Wilderson
atacou a visão de que a experiência dos negros em Ferguson era de
algum modo comparável a dos palestinos. Atribuindo essa visão à
“sociedade civil branca reacionária de direita e à chamada sociedade
civil de cor progressista”, ele proclamou: “Isso é pura besteira.
Primeiro, não houve período de tempo em que o policiamento e a
dominação escrava dos negros tenha deixado de existir. Segundo, os
árabes e os judeus são tão parte do comércio de escravos negros – a
criação da negritude como morte social – como qualquer outro... A
antinegritude é tão importante e necessária à formação da vida
psíquica 10 árabe quanto à formação da vida psíquica judia ”.
Quem ouve as repetições desorientadoras dos tropos
neoconservadores orientalistas de Wilderson não imaginaria que os
ativistas em Ferguson estiveram em contato próximo com os
palestinos. Palestinos esses que exibiram cartuchos de bombas de
gás lacrimogêneo, demonstrando que eram as mesmas usadas contra
eles, e compartilharam táticas de combate de rua aprendidas em
amargas experiências. Uma declaração de solidariedade assinada
por vários ativistas e organizações palestinas dizia: “Com um punho
Black Power erguido no ar, saudamos o povo de Ferguson e nos
unimos à sua demanda por justiça”. Essa solidariedade foi retribuída
em janeiro quando um grupo de ativistas do movimento visitou a
Palestina.
Durante o auge do movimento Black Lives Matter, a linguagem
afropessimista se difundiu rapidamente no Twitter e no Tumblr,
encorajando um grande número de ativistas a descrever a violência
policial em termos de sofrimento imposto aos “corpos negros” e a
tentar monopolizar a própria categoria de morte. Foi uma escolha
um tanto estupidificante de palavras, num momento em que os negros em Ferguson estavam tomando parte de uma luta global de
recusa em aceitar o sofrimento, de recusa a morrer. Como Robin D .
G. Kelley apontou:
Ler a experiência dos negros a partir do trauma pode facilmente levar a nos
pensarmos como vítimas e objetos ao invés de agentes, sujeitados a séculos
de violência gratuita que estruturaram e sobredeterminaram nosso próprio
ser. No jargão de hoje em dia, “corpos” – corpos vulneráveis e ameaçadores
– cada vez mais substituem pessoas reais com nomes, experiências, sonhos e
desejos.
Na verdade, Kelley ressalta, “o que fortalecia os escravizados de
origem africana era a memória da liberdade, sonhos de conquistá-la e
conspirações para decretá-la”. Uma herança de resistência que é
apagada pela retórica dos “corpos negros”. Além disso, diz Kelley:
Se afirmarmos que a violência do Estado é apenas uma manifestação de
antinegritude por isso ser o que vemos e sentimos, ficamos sem teoria do
Estado e sem meios de entender a violência policial racializada em lugares
como Atlanta e Detroit, onde a maioria dos policiais são negros. A menos
que 11 usemos alguma explicação metafísica.
Aqui chegamos ao xis da questão. A “explicação metafísica” – o
modo clássico de superstição ideológica – obscurece não apenas as
relações sociais do Estado, mas também a contradição entre a
insurgência de massa e a elite negra ascendente que proclama
representá-la. Wilderson diz que o afropessimismo busca “destruir o
mundo” e não construir um mundo melhor, uma vez que o mundo
seria irremediavelmente fundado na “antinegritude”. Na verdade, o
afropessimismo tem servido como um lastro ideológico para as
burocracias emergentes em Ferguson e em outros lugares. Isso
porque a retórica supostamente radical do separatismo e o reformismo da elite dirigente convergiram para impedir as
possibilidades de construção de um movimento de massa. Entre os
“representantes” do movimento Black Lives Matter mais presentes
na mídia se encontrava o diretor executivo do Saint Louis Teach for
America, uma organização que teve papel-chave na privatização da
educação e no ataque aos sindicatos de professores. De fato, um
grupo desses “representantes” se reuniu entusiasmado com Arne
Duncan024 025 , feroz defensor das escolas charter e do teste de
drogas em alunos, durante sua visita a Ferguson. Se tais tendências
continuarem sem oposição, o único mundo que será destruído será
aquele no qual estudantes negros pobres podem frequentar uma
escola pública ou esperar ter um emprego com direitos.
Em Santa Cruz, a ideologia identitária nos levou cada vez mais
para longe de um projeto genuinamente emancipatório. Suas
consequências não foram apenas a desmobilização do movimento,
mas também uma compartimentação política degradante. Na falta
de uma afirmação identitária confiável, as lutas antineoliberais,
como o movimento contra o aumento das mensalidades, foram
artificialmente separadas das questões de “raça”. Ativistas “POC”
focariam na brutalidade policial, em estudos étnicos e na teoria pós-
colonial. O aumento do custo de vida, a privatização da educação e a
precarização do trabalho se tornariam questões de “brancos”.
Comecei a me dar conta do drástico engano que ansiosos analistas
brancos cometiam ao representarem a política identitária como uma
forma de oposição extremista ao status quo. Essa experiência me
mostrou que a política identitária é, ao contrário, uma parte integral
da ideologia dominante; ela torna a oposição impossível. Somos
suscetíveis a ela quando não conseguimos reconhecer que a integração racial da classe dominante e das elites políticas mudou
inexoravelmente o campo da ação política.
Uma 026 entrevista com John Watson, realizada em 1968 e
intitulada “Black Editor”, inspirou um grupo de ativistas de Santa
Cruz. Pegamos um fim de semana para ler, reler e discuti-la
coletivamente. Nela Watson explica a função organizativa do jornal
da League of Revolutionary Black Workers (Liga dos Trabalhadores
Negros 027 Revolucionários). Embora a impressão e venda de
jornais não seja mais uma tática atual, questões abordadas no texto
nos parecem bastante contemporâneas:
Já em 1960 ou 1959 havia pessoas envolvidas em várias organizações
voltadas a um único tema. Elas tinham um objeto específico como uma
campanha 028 de sit-in, a brutalidade policial, a guerra, o movimento
pacifista etc. Essas organizações tinham uma vida própria – atividade de
organização interna, com muitas pessoas realizando trabalho concreto
contra o sistema. Mas elas não conseguiam se manter e acabavam. Então
ocorreria uma nova ascensão, e uma nova organização. O movimento tinha a
forma de ondas, tinha seu afluxo e refluxo, e por ter temas únicos não tinha
uma 12 ideologia clara.
Sentimos, em Santa Cruz, que era impossível adiar a tarefa de
repensar tudo, aprender como chegamos aqui, tentar recuperar
nossa história e achar abordagens alternativas. Como poderíamos
entender a distância das mobilizações de massa do passado para
nossa situação atual, em que um movimento de base contra o
racismo estava sendo minado pela própria linguagem do
antirracismo? Organizamos um grupo de estudo sobre a história dos
movimentos antirracistas. Lemos uma ampla variedade de textos
históricos que no final formou a base da antologia Black Radical Tradition Reader, que por sua vez gerou grupos de leitura em
Oakland 13 , Filadél fi a , Nova Iorque e em outros lugares.
O problema que encontramos foi que para formar uma nova
ideologia temos que enfrentar a tenacidade da ideologia existente. E
a “raça” é uma das ideologias mais tenazes de todas.
Notas do tradutor/editor:
016 Jornalista, ativista e ex-integrante dos Panteras Negras, Mumia Abu Jamal foi preso
em 1981 e depois condenado à morte por supostamente ter assassinado um policial de
Filadélfia. O julgamento foi carregado de irregularidades e motivou o surgimento de uma
campanha internacional pela sua anulação, o que de fato aconteceu em 2008. Mumia
Abu-Jamal continua preso, mas não no corredor da morte. Há um livro dele publicado no
Brasil: Ao Vivo do Corredor da Morte, editado pela Conrad em 2001 (N. E.).
017 Iniciado por Malik Rhasaan, o Occupy the Hood se espalhou por diversas cidades e
buscava ser um meio para pessoas de cor que queriam participar do movimento Occupy,
mas se sentiam deslocadas com o perfil do movimento, aderissem ao mesmo. (N. T .).
018 A TWLF (Frente de Libertação do Terceiro Mundo) surgiu em São Francisco, em
1968, como uma coalizão da Black Students Union, Latin American Students
Organization, Philipino American Collegiate Endeavor, Asian American Political Alliance
e a El Renacimiento (uma organização que reunia estudantes americanos e mexicanos). A
Frente organizou a maior greve de estudantes da história dos Estados Unidos (N. E.).
019 No original tuition. Traduzimos por mensalidade para melhor leitura e compreensão
do leitor brasileiro. Mas o valor da tuition nas universidades dos Estados Unidos é pago
trimestralmente, semestralmente ou anualmente (N. T.).
020 Chris Hedges é um célebre jornalista que se diz anarco-cristão. O International
Brotherhood of Teamsters é um sindicato de caminhoneiros criado em 1903, e que hoje
reúne diversas categorias de trabalhadores e se autoproclama o sindicato mais forte da
América do Norte (N. T.).
021 No original people of color, por isso a sigla “POC”. Preferimos manter a sigla no
original em inglês já que ela tem sido usada no Brasil nessa forma para se referir a pessoas
de cor (N. E.).
022 No original trigger warnings. Expressão bastante usada no campo das políticas
identitárias. Refere-se a gatilhos psíquicos, que podem ser um filme, uma palavra, um
livro etc., que possivelmente desencadeariam sofrimento psíquico e lembranças de
traumas (N. T.).
023 Die-in é uma forma de manifestação na qual os manifestantes se deitam, como se
estivessem mortos (N . T.).
024 Secretário de Educação no governo Obama (N. E.).
025 As escolas charter possuem maior autonomia em relação ao Estado, mas são
consideradas pelos críticos uma forma de privatização da educação pública e de atacar os
sindicatos de professores (N . T.).
026 Membro dos Black Panthers e da League of Revolutinary Black Workers, John
Watson foi também editor de duas importantes publicações radicais norte-americanas
dos anos 1960: o The South End e o Inner City Voice (N . E.).
027 A organização marxista League of Revolutionary Black Workers foi criada em
Detroit, em 1969. A Inner City Voice era seu órgão oficial (N. E.).
028 Forma de manifestação em que as pessoas se sentam no chão ocupando um lugar (N.
T.).
Notas do autor:
1 Malcolm X, Malcolm X Speaks, 13.
2 George Souvlis e Cornel West, “Black America’s Neo-liberal Sleepwalking Is Coming to
an End,” openDemocracy (Junho 2016).
3 Erin Gray, “When the Streets Run Red: For a 21st Century Anti-Lynching Movement,”
Mute (Janeiro 2015).
4 In Taylor, ed., How We Get Free, 60.
5 Kimberlé Crenshaw, “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black
Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist
Politics,” University of Chicago Legal Forum, vol. 1989, no. 1 (1989): 141.
6 Marie Gottschalk, “The Folly of Neoliberal Prison Reform,” Boston Review (Junho
2015).
7 Veja Frank Wilderson III, “Gramsci’s Black Marx: Whither the Slave in Civil Society?”
Social Identities, vol. 9, no. 2 (2003).
8 Karen E. Fields and Barbara J . Fields, Racecraft (New York: Verso, 2014), 117.
9 Numa entrevista de rádio, Wilderson descreve a resposta de Sharpton e a classe
dirigente negra como “gestores da fúria negra” e as alianças como “formações
antinegras”. IMIXWHATILIKE!, “Irreconcilable Anti-Blackness and Police Violence”
(Outubro 2014).
10 IMIXWHATILIKE!, “Irreconcilable Anti-Blackness.”
11 Robin D.G. Kelley, “Black Study, Black Struggle,” Boston Review (Março 2016).
12 John Watson, “Black Editor: An Interview,” Radical America, vol. 2, no. 4 (Julho–
Agosto 1968): 30–31.
13 Ben Mabie, Erin Gray e Asad Haider (eds.), Black Radical Tradition: A Reader (New
York: Verso, no prelo).