Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje

Capítulo 3 - História e Etiologia

CAPÍTULO 3

 

A IDEOLOGIA RACIAL

3

 

A IDEOLOGIA RACIAL

 

Até mesmo nos discursos da política identitária que apresentam a

raça como uma identidade fixa, ela é uma categoria muito difícil de

apreender . Uma das mais desconcertantes expressões de como ela é

escorregadia pode ser vista na reação a pessoas de cor que criticam a

política identitária. Por exemplo, sou frequentemente colocado nas

listas de “socialistas brancos” que não conseguem levar a questão de

raça a sério. É claro, isso não ocorre só na política identitária. Os

brancos têm uma tendência a pensar que qualquer um que interage

socialmente com eles e que é “claro” e “articulado”, como Joe Biden

disse sobre Barack Obama, deve ser incluído na categoria “branco”.

Lembro-me de uma pessoa branca dizer para mim, num bar etíope

na Filadélfia, que era perturbador como todas as “pessoas de cor”

estavam segregadas no outro ambiente do bar. A mim parecia que os

frequentadores etíopes do bar estavam perfeitamente felizes de

assistir ao futebol sem serem perturbados por liberais brancos

paternalistas. Eu, por outro lado, estava bastante perturbado pela

minha presença, e de muitos outros amigos que eram pessoas de cor,

ter sido considerada insignificante.

A parte mais perturbadora, obviamente, é que esse

embranquecimento não é aplicado sempre. Não ocorreu quando

voei para o aeroporto de Nova Iorque na Turkish Airlines. Todo

homem com nome muçulmano era levado por guardas armados para

um quarto sinistro nos fundos, onde esperávamos por horas para

sermos interrogados sobre nossos planos de viagem. Levou muitos

anos para me sentir à vontade e não me barbear antes de cada voo.

Em movimentos sociais, essas práticas inconsistentes são uma

fonte não somente de desconforto pessoal, mas também de erros

organizativos. Lembro-me de uma reunião política na qual um

homem divagava sobre como ele “não viu nenhuma pessoa parda na

sala”. O camarada negro e eu que estávamos sentados diretamente à

frente dele nos olhamos incrédulos.

Como que uma categoria que a política identitária concebe como

uma essência fixa acaba sendo tão indeterminada? Como algo

absolutamente visível e óbvio, bem diante dos nossos olhos, ainda

assim consegue escapar do nosso domínio? Althusser apontava que a

obviedade é uma das características básicas da ideologia. Quando

algo parece ser óbvio para nós, como a noção de que os seres

humanos devem competir uns com os outros pelo acesso ao

necessário para sobreviver, sabemos que estamos no mundo da

ideologia.

Não há razão intrínseca para organizar os seres humanos com

base em características que essa ideologia nos diz ser “racial”. A

ideologia de raça afirma que podemos categorizar as pessoas de

acordo com características físicas específicas, que geralmente giram

em torno da cor da pele. Mas essa é uma forma de classificação

arbitrária que somente tem algum significado porque tem

consequências sociais.

O racismo é a equação entre essas consequências sociais da

categorização das pessoas e as características biológicas. Tal redução

da cultura humana ao biológico é geralmente rejeitada e vista como

abominável. No entanto, é possível rejeitar o racismo e ainda assim

perpetuar a ideologia da raça. Tomar a categoria de raça como dada e

como base para a análise política reproduz essa ideologia. E isso não

é inofensivo, porque na verdade a ideologia de raça é produzida pelo

racismo, e não o contrário.

Há muitas situações em que aparece o fenômeno de raça, e elas

são bastante diferentes entre si. De modo a entender como ele opera,

temos que falar sobre essas situações em suas especificidades.

Considere os seguintes exemplos: colonialismo espanhol e

colonialismo holandês; colonialismo inglês na Índia e colonialismo

japonês na Coréia; conflito étnico na África pós-colonial e conflito

étnico nos Balcãs pós-socialista. Todos esses exemplos são

acompanhados de várias ideologias de raça. Não ganhamos nada

reduzindo essas situações concretas a uma única abstração, que

tentamos depois explicar separadamente das circunstâncias

específicas. A melhor maneira de proceder é reconhecendo que essa

abstração de “raça” já é constituinte da nossa forma de entender o

mundo. Mas para compreendê-la devemos traçar todos os fatores

concretos e específicos que a geraram – indo das nossas ideias ao

mundo material e sua história.

Também temos que quebrar a presunção de que “raça” descreve

apenas o que é diferente, secundário e “Outro”. A forma primordial

de “raça” é a “raça branca”, e não podemos aceitá-la como ponto de

vista neutro e universal a partir do qual uma teoria de raça como

“diferença” seria desenvolvida. Nos discursos da política identitária,

a categoria de raça branca raramente é teorizada porque acaba sendo instrumentalizada para fundamentar o privilégio branco. É

uma expressão que carrega contradições desde seu surgimento. Em

geral, é associada ao autor branco Peggy McIntosh e seu influente

 

artigo 029 “ White Privilege : Unpacking the Invisible Knapsack ”.

Nele, uma tentativa bem-intencionada de encorajar

comportamentos mais civilizados por parte dos brancos, vemos um

exemplo claro de um movimento idealista que vai do concreto ao

abstrato.

É claro que McIntosh não foi o primeiro a tentar descrever as

consequências da branquidade. W .E.B. Du Bois escreveu sobre as

vantagens legais e sociais concedidas aos brancos em Black

Reconstruction:

 

Deve ser lembrado que os trabalhadores brancos, embora recebessem um

salário baixo, eram compensados em parte por uma espécie de salário

público ou psicológico. A eles eram concedidos deferência pública e títulos

de cortesia por serem brancos. Eram admitidos livremente com brancos de

todas as classes em cargos públicos, praças públicas e nas melhores escolas.

A polícia era composta por pessoas dentre eles, e os tribunais, dependentes

de seus votos, os tratavam com uma leniência a ponto de encorajar que

agissem fora da lei. Seus votos elegiam as autoridades públicas, e embora

isso tivesse pequeno efeito sobre a situação econômica deles, tinha grande

efeito 1 sobre o tratamento pessoal e a deferência demonstrada a eles.

 

Contudo, o artigo de McIntosh opera num registro muito

diferente da pesquisa histórica de Du Bois sobre a composição de

classe no pós-Guerra Civil dos Estados Unidos. Isso porque

McIntosh se refere ao longo do seu artigo, de forma intercambiável,

a “minha raça”, “meu grupo racial” e “minha cor de pele”. O primeiro

“privilégio branco” que ela nomeia é: “Eu posso se quiser estar na

companhia de pessoas da minha raça a maior parte do tempo”. Outro privilégio é que ela poderia “ir a uma loja de discos e ter certeza de

 

encontrar 2 a m ú sica da minha raça representada ”.

Deixemos de lado o que parece ser uma falta de familiaridade com

a história da música popular americana. O que é significativo é a

equação entre a cor de pele, a categoria de “raça” e distintos

conjuntos de seres humanos.

Com essa equação, a culpa branca reproduz a ficção fundante da

raça: que há um fundamento biológico, expresso em fenótipos

físicos, para grupos separados de seres humanos que tem culturas e

formas de vida separadas. A “raça branca” como uma formação

histórica específica é obscurecida pela metáfora da mochila.

McIntosh escreve: “O privilégio branco é como uma mochila

invisível e sem peso que traz mantimentos especiais, mapas,

passaportes, livros de códigos, vistos, roupas, ferramentas e cheques

 

em 3 branco ”. A mochila é carregada por um indivíduo que navega

por um campo social totalmente aberto. Ela contém ferramentas

que possibilitam ao indivíduo navegar nesse campo com maior

eficácia do que aqueles cujas mochilas estão relativamente vazias. Os

recursos contidos na mochila constituem a branquidade como

privilégio, porque a mochila é carregada por um indivíduo que

pertence à identidade branca.

Se a mochila de privilégios é carregada por um indivíduo já

identificado como branco, então a branquidade deve ser

necessariamente entendida como um traço biológico. A falsidade

dessa concepção é evidente: as pessoas que são atualmente descritas

como brancas têm uma variedade ampla e complexa de linhagens

genéticas, muitas das quais eram anteriormente consideradas

“raças” separadas. Como Nell Irvin Painter aponta no seu revelador

The History of White People : “Durante a maior parte dos últimos séculos – quando a raça realmente se tornou questão de direito – os

americanos instruídos acreditavam firmemente na existência de

 

mais 4 de uma raça europeia ”.

Podemos concluir que houve somente um pequeno erro de

entendimento: na verdade, a própria branquidade é constituída

pelos conteúdos da mochila. A constituição da branquidade como

identidade e sua constituição como privilégio são simultâneas: os

mantimentos da mochila conferem não somente vantagens, mas

também identidade a seu portador.

Mas como sabemos, então, que o conteúdo da identidade

conferida tem algo a ver com “branquidade”? Certamente, além dos

itens específicos que conferem um privilégio, pode-se achar em

qualquer mochila de identidade uma infinidade de detalhes

arbitrários: comprimento do cabelo, maneira de andar, dieta

preferida, habilidades com computador etc. Isto é, de modo a

descrever uma identidade individual, a mochila teria que conter

tudo que constitui o ser de um indivíduo particular. Ela não

ofereceria nenhuma pista quanto ao princípio organizador que

constitui esses traços como algo que pode ser chamado de “branco”.

Não haveria meio de distinguir características “ brancas” das

características humanas, das de pensilvanianos ou das de fãs de

heavy metal.

Essa é a insuficiência do pensamento liberal. Uma formação

política como a branquidade não pode ser explicada a partir da

identidade individual – a redução da política à psicologia do eu. O

ponto de partida deve ser a estrutura social e suas relações

constituintes, nas quais os indivíduos são formados. E é quase

sempre esquecido que, décadas antes da mochila de McIntosh, a

expressão privilégio branco se originou de uma teoria desse tipo.

A teoria do “privilégio da pele branca” foi desenvolvida por

membros de uma cisão antirrevisionista do Partido Comunista dos

 

Estados 030 Unidos ( o Provisional Organizing Committee), e viria a

ter uma enorme influência na New Left e no New Communist

 

Movement031. Uma série de artigos de Theodore Allen e Noel

Ignatiev , reunidos na brochura White Blindspot, ofereceu uma

formulação inicial. O argumento de Ignatiev e Allen era de que o

legado de escravidão constituía na imposição, pela classe dominante,

da supremacia branca como um instrumento de divisão de classe e

de controle social. Mas se tratava de uma teoria política, não de uma

teoria cultural ou moral. Sustentava assim que o “chauvinismo

branco” era na verdade prejudicial aos trabalhadores brancos,

impedindo a união com os trabalhadores negros. Portanto, a luta

contra a supremacia branca era de fato uma parte central de um

programa político focado na auto-organização de todos os

trabalhadores. Ignatiev afirmava veementemente que “o fim da

supremacia branca não é unicamente uma reivindicação dos negros,

separada das reivindicações da totalidade da classe trabalhadora”.

Não podia ser deixado aos trabalhadores negros lutar contra a

supremacia branca como sua causa “especial”, enquanto os

trabalhadores brancos fariam pouco mais do que expressar simpatia

e “lutar por suas ‘próprias’ reivindicações”. A luta contra a

supremacia branca era central à luta de classes num nível

fundamental:

 

A ideologia do chauvinismo branco é um veneno burguês voltado

principalmente aos trabalhadores brancos, utilizada como arma pela classe

dominante para subjugar os trabalhadores negros e brancos. Ela tem sua

base material na prática da supremacia branca, um crime não apenas

contra não brancos, mas contra todo o proletariado. Portanto, sua

eliminação certamente a torna uma das reivindicações de classe de toda a

classe trabalhadora. Na verdade, considerando o papel que essa prática vil

desempenhou historicamente em frear a luta da classe trabalhadora

americana, a luta contra a supremacia branca se torna a tarefa central

imediata 5 de toda a classe trabalhadora.

 

Porém, à medida que essa linguagem foi incorporada pela New

Left ela passou por consideráveis transformações ideológicas. O

manifesto, “You Don’t Need a Weatherman to Know Which Way the

 

Wind 032 Blows ”, circulou na turbulenta conferência da Students

for a Democratic Society (SDS) de 1969, propondo uma política

centrada na culpa branca em vez de uma que defendesse a unidade

proletária. O Weather Underground usava a linguagem do

“privilégio” para negar a classe trabalhadora como força de

transformação revolucionária: “Praticamente toda a classe

trabalhadora branca também possui pequenos privilégios vindos do

imperialismo. Não se trata de falsos privilégios, mas sim verdadeiros

privilégios, os quais lhes dão um naco de interesse nele e os amarra

 

até 6 certo ponto aos imperialistas ”. Na prática, isso significou que o

Weather Underground reduziu a luta política a grupos de vanguarda

como ele próprio, que atacavam seus próprios privilégios adotando

um estilo de vida revolucionário. Isso significou na prática a

autoflagelação (com explosivos) de radicais brancos, que se

colocavam no lugar das massas e narcisicamente centravam a

atenção em si mesmos, ao invés de centrarem-na nos movimentos

negro e do Terceiro Mundo que eles diziam estar apoiando.

Convertiam assim esses movimentos em uma fantasia romântica de

insurreição violenta. Em outras palavras, o projeto de autonomia e

autolibertação negra – o qual implicava a autolibertação geral dos pobres e da classe trabalhadora – foi efetivamente ignorado pelo

pensamento racial do Weather Underground.

Ignatiev atacou impiedosamente a problemática do Weatherman

num artigo chamado “ Without a Science of Navigation We Cannot

 

Sail 033 in Stormy Seas ”, que hoje. ganha ares desconcertantes de

revelação:

 

A supremacia branca é o grande segredo do domínio da burguesia e a causa

escondida por trás do fracasso do movimento dos trabalhadores neste país.

Os privilégios da pele branca servem apenas à burguesia e exatamente por

isso ela não nos deixará escapar deles. Em vez disso nos perseguem com eles

em todas as horas de nossa vida, não importa aonde vamos. São iscas

venenosas.

 

Essa visão da supremacia branca implicava numa concepção

muito diferente da política de privilégio branco. Como destacou

Ignatiev:

 

Sugerir que a aceitação do privilégio da pele branca é do interesse dos

trabalhadores brancos é equivalente a sugerir que engolir a minhoca com o

gancho é do interesse do peixe. Dizer que repudiar esses privilégios é um

“sacrifício” é dizer que o peixe está fazendo um sacrifício quando pula da

água, agita sua cauda, sacode sua cabeça furiosamente em todas as direções

e 7 cospe a oferenda farpada.

 

A política de privilégio provavelmente não permite uma posição

desse tipo hoje em dia. Estamos em vez disso envoltos em variações

infinitas da posição do Weatherman, embora sem os chamados à luta

armada, roubos a bancos e a teoria leninista do imperialismo.

Quando liberais brancos de hoje em dia adaptam a posição do

Weatherman, muitas vezes acabam dizendo que uma nova onda de

socialistas “pró-brancos” tem surgido para defender a “classe trabalhadora branca”. Mas essa caricatura obscurece um ponto

importante, exposto pelos revolucionários negros ao longo da

história americana: que o projeto de emancipação requer a

superação da ideologia de raça. Embora ele caracterizasse as

vantagens materiais da branquidade como um “salário psicológico”,

W .E.B. Du Bois não reduziu a branquidade a um efeito da psicologia

individual. Na verdade, precedendo imediatamente o trecho sobre o

salário psicológico, Du Bois escreveu:

 

A teoria da raça foi complementada por um método cuidadosamente

planejado e lentamente desenvolvido, que levou a um fosso entre os

trabalhadores brancos e negros, a ponto de hoje provavelmente não existir

no mundo dois grupos de trabalhadores com interesses praticamente

idênticos que se odeiem e se temam entre si tão profunda e

permanentemente, e que são mantidos tão distantes que nenhum dos dois

enxerga 8 qualquer interesse comum.

 

Quando Du Bois sugere que os trabalhadores brancos e negros

possuem “interesses praticamente idênticos”, ele não está fazendo

um apelo a alguma mítica “classe trabalhadora branca”. Muito

menos pode ser culpado de algum tipo de “reducionismo de classe”,

que decidiria abstratamente que classe é mais fundamental do que

raça. É claro que algumas pessoas realmente defendem isso – e

fazem assim o jogo dos liberais identitários, que logo perguntam

como uma moça que fez aborto e o manifestante evangélico , o

imigrante ilegal e o trabalhador assalariado, podem ter os mesmos

“interesses”.

Mas essa objeção sofre do mesmo problema que acusa. Ela faz da

descrição casual de um traço em comum uma afirmação de

identidade. Todos nós temos inúmeros interesses que estão

relacionados a nossas identidades mas também a onde trabalhamos e onde vivemos. Dizer que essas diferentes esferas da vida interagem

e se intersectam é um truísmo banal que não explica nem como

nossa sociedade é estruturada e reproduzida, nem como podemos

formular uma estratégia para mudar essa estrutura.

Du Bois estava reconhecendo a realidade vivida da classe

trabalhadora, que contém pessoas brancas e pessoas de cor, pessoas

de todos os gêneros e sexualidades, os empregados e desempregados

– uma multidão de pessoas irredutíveis a qualquer descrição única.

Entre elas não existe um interesse comum significativo e

automático. Não podemos reduzir nenhum grupo de pessoas e as

multidões que eles contêm a um único interesse comum, como se

estivéssemos reduzindo uma fração. Um interesse comum é

constituído pela composição dessas multidões em um grupo. Trata-

se de um processo de prática política.

A supremacia branca é o fenômeno pelo qual a pluralidade de

interesses de um grupo de pessoas é reorganizada na ficção de uma

raça branca cuja própria existência é baseada na história violenta e

genocida da opressão de pessoas de cor. As lutas auto-organizadas

dos oprimidos contra a supremacia branca conseguiram enfraquecer

significativamente, embora sem eliminar, esse tipo de organização.

Não foi acidente que essas lutas levassem à percepção de que era

necessário constituir um interesse comum por meio da organização

de classe, que se amplia a uma oposição ao sistema capitalista como

um todo. Afinal, é a estrutura do sistema capitalista que impede que

todas as pessoas que não têm posse dos meios de produção,

independente de suas identidades, tenham controle sobre suas

próprias vidas e satisfaçam os desejos que possam ter, em todas as

suas particularidades.

Contudo, isso não significa que um argumento “reducionista de

classe” seja uma posição viável. Enquanto a solidariedade racial

entre brancos for mais forte do que a solidariedade de classe inter-

racial, tanto o capitalismo quanto a branquidade continuarão a

existir . No contexto da história americana, a retórica da “classe

trabalhadora branca” e os argumentos positivistas de que a classe

importa mais do que a raça reforçam um dos principais obstáculos

para a construção do socialismo.

Allen e Ignatiev voltaram a essa questão em suas pesquisas,

inspirados pelo pensamento de Du Bois. No processo, eles nos

mostram um modelo exemplar de pesquisa materialista sobre a

ideologia de raça, que vai do abstrato ao concreto. Esse trabalho

surgiu ao lado dos de Barbara Fields e Karen Fields, de David

Roediger e de muitos outros, como um corpo de pensamento

dedicado a expor a raça como uma construção social. Todas essas

pesquisas, de várias formas, examinaram a história da “raça branca”

na sua especificidade. A ideia central que deve ser extraída delas é

que esse fenômeno racial não é simplesmente um atributo biológico

ou mesmo cultural de certas “pessoas brancas”: ele foi produzido

pela supremacia branca em um processo histórico concreto e

objetivo . Como Allen escreve na contracapa de seu extraordinário e

tão didático livro The Invention of the White Race: “Quando os

primeiros africanos chegaram à Virgínia em 1619, não havia brancos

lá”.

No nível mais imediato, Allen estava apontando para o fato de que

a palavra branco não aparecia na lei colonial da Virgínia até 1691. É

claro , isso não significa que não havia racismo antes de 1691. O que

Allen argumenta é que até aquele momento o racismo não estava

vinculado a um conceito de raça branca. Havia ideias de que a civilização europeia era superior, mas isso não estava ligado a

diferenças na cor da pele.

O exemplo mais claro é o dos irlandeses, cuja opressão racial pelos

ingleses precede em vários séculos sua opressão racial sobre os

africanos. Hoje em dia os nacionalistas brancos distorcem a história,

tentando usar a opressão racial dos irlandeses para descartar a

história da supremacia branca. No entanto, o exemplo dos irlandeses

na verdade destrói toda a base dessa argumentação. O que esse

exemplo ilustra é uma forma de opressão racial que não é baseada na

cor da pele e que na verdade precede a própria categoria de

branquidade.

De fato, as primeiras formas de ideologia racial inglesa

representavam os irlandeses como inferiores e sub-humanos. E essa

ideologia foi mais tarde repetida palavra por palavra para justificar

tanto o genocídio indígena nas Américas quando a escravização dos

africanos. Nem era apenas uma questão de palavras: as próprias

práticas de colonização, apreensão de terras e produção agrícola

foram estabelecidas na Irlanda. Allen mostra isso fazendo referência

a leis específicas:

 

Sob a escravidão anglo-americana “o estupro da mulher escrava não era

crime, mas sim uma mera transgressão da propriedade do dono”, de modo

que, em 1278, dois anglo-normandos levados ao tribunal e acusados de

estuprar Margaret O’Rorke foram absolvidos porque “a dita Margaret é

uma mulher irlandesa”. Se uma lei decretada na Virgínia em 1723 dizia que

“o assassinato de um escravo não é punível”, pela lei anglo-normanda

bastava para absolvição mostrar que a vítima de um assassinato era

irlandesa. Sacerdotes anglo-normandos concediam absolvição com base em

que “não é mais pecado matar um irlandês do que matar um cachorro ou

outra 9 besta ”.

Portanto, a opressão racial surge no caso irlandês sem base na cor

da pele. Somos forçados a perguntar como chegamos a uma ideologia

racial que gira em torno da cor da pele, que representa os africanos

como sub-humanos e que considera tanto os irlandeses quanto os

ingleses como parte de uma unitária “raça branca”.

O registro histórico mostra muito claramente que a supremacia

branca e, portanto, a raça branca, são formadas na transição

americana ao capitalismo. Especificamente por causa da

centralidade da escravidão racial. Porém, temos que resistir à

tentação, imposta sobre nós pela ideologia racial, de explicar a

escravidão pela raça. A escravidão nem sempre é racial. Ela existiu

na Grécia e na Roma antigas e também na África, e não estava

vinculada especificamente a uma ideologia racial. A escravidão é

uma forma de trabalho forçado caracterizado pela troca mercantil

do trabalhador. Mas há várias formas de trabalho forçado, e sua

primeira forma na Virgínia foi o trabalho por dívida, no qual um

trabalhador é forçado a trabalhar por um período de tempo para

pagar uma dívida, frequentemente com um incentivo após o fim,

como ganhar a propriedade da terra. Os primeiros africanos a chegar

à Virgínia em 1619 foram postos para trabalhar como servos por

dívida, na mesma categoria legal dos servos por dívida europeus. Na

verdade, até 1660 todos os trabalhadores afro-americanos, como

seus colegas euro-americanos, eram servos por dívida que tinham

prazos de servidão limitados. Não havia diferenciação legal baseada

na ideologia racial: afro-americanos livres possuíam propriedade,

terra e algumas vezes servos por dívida para si. Havia exemplos de

casamentos entre europeus e africanos. Foi somente no final do

século XVII que a força de trabalho das colônias americanas mudou de forma decisiva se constituindo de escravos africanos que não

tinham prazos limitados de servidão.

Como Painter aponta em The History of White People, essas

formas de trabalho e suas transformações são fundamentais ao

entendimento de como a ideologia racial nasce:

 

O trabalho tem um papel central no discurso racial, pois as pessoas que

executam o trabalho tendem a ser percebidas como inerentemente

merecedoras da carga e da pobreza do status de trabalhador. Erradamente

ainda se considera que a escravidão em qualquer lugar do mundo se

sustenta numa concepção de diferença racial. Inúmeras vezes as classes

mais altas concluíram que essas pessoas mereciam essa sorte; devia ser algo

inerente a elas que as colocavam na base da pirâmide social. Nos tempos

atuais, reconhecemos esse tipo de raciocínio como relacionado à raça negra,

mas em outras épocas a mesma lógica era aplicada a pessoas que eram

brancas, especialmente quando eram imigrantes pobres buscando

trabalho10.

 

“Em suma”, escreve Painter, “antes da explosão no comércio de

escravos africanos no século XVIII, entre metade e dois terços de

todos os primeiros imigrantes brancos das colônias britânicas no

hemisfério ocidental vieram como trabalhadores não livres. Cerca

 

de 11 trezentas a quatrocentas mil pessoas ”. As definições de

branquidade como liberdade e negritude como escravidão ainda não

existiam.

Acontece que definir raça envolve responder algumas questões

históricas inesperadas: como alguns servos por dívida foram

forçados à escravidão por toda a vida em vez de por um prazo

limitado? Como essa categoria de trabalho forçado veio a ser

representada em termos de raça? Por que a classe dominante colonial passou a depender da escravidão racial se vários outros

regimes de trabalho eram viáveis?

A primeira expansão econômica das colônias americanas foi com a

produção de tabaco da Virgínia na década de 1620, e se baseou

principalmente no trabalho de servos por dívida europeus. Afro-

americanos formavam apenas um quinto da força de trabalho: a

maior parte do trabalho forçado era inicialmente europeu, e a classe

dos fazendeiros coloniais dependia desse trabalho forçado para seu

crescimento econômico. Mas ela não podia depender apenas do

trabalho por dívida europeu, pois ele se baseava na migração

voluntária. E o incentivo para viver uma vida de trabalho brutal e de

morte precoce não era suficiente para gerar um crescimento

constante da força de trabalho. Como Barbara Fields ressalta: “Nem

a pele branca e nem a nacionalidade inglesa protegiam os servos das

formas mais grosseiras de brutalidade e exploração. A única

degradação a que foram poupados foi a escravidão perpétua e suas

consequências, destino que finalmente se abateu sobre os

 

descendentes 12 africanos ”.

Afro-americanos, por outro lado, foram retirados à força das suas

terras natais. Então a classe dominante começou a alterar as leis

para poderem negar a alguns trabalhadores um fim do prazo de

servidão, o que ela só conseguiu alcançar no caso dos trabalhadores

africanos. O que realmente mudou tudo foi a Revolta de Bacon em

1676. Ela começou como um conflito entre a elite formada pela

classe dos fazendeiros, mas por fim resultou em um ataque brutal à

população indígena. Porém ela também deu origem a uma rebelião

de trabalhadores europeus e africanos, que queimaram Jamestown,

a capital da colônia, e forçaram o governador a fugir . A aliança

insurrecional de trabalhadores europeus e africanos foi uma ameaça fundamental para a existência da classe dominante colonial. A

possibilidade dessa aliança entre os povos explorados tinha que ser

impedida para sempre.

Aqui vemos um momento decisivo no longo e complexo processo

de invenção da raça branca como forma de controle social. A classe

dominante mudou decisivamente sua força de trabalho para

escravos africanos, evitando assim lidar com a reivindicação de

liberdade e posse de terra dos servos por dívida. Isso fortaleceu a

branquidade como categoria legal, base essa para negar um prazo à

servidão do trabalho forçado africano. No século XVIII a classe de

fazendeiros euro-americana fez uma negociação com as classes

trabalhadoras euro-americanas, as quais eram na maior parte

formadas por agricultores de subsistência autônomos: ela trocou

certos privilégios sociais por uma aliança interclasses de euro-

americanos para manter uma força de trabalho africana

superexplorada. Essa aliança racial euro-americana foi a melhor

defesa da classe dominante contra a possibilidade de uma aliança

entre a classe trabalhadora euro-americana e afro-americana. É

nesse ponto, conclui Nell Painter, que vemos a “agora familiar

 

equação 13 que converte raça a negro e negro a escravo ”.

A invenção da raça branca se acelerou quando a classe dominante

euro-americana se deparou com um novo problema no século XVIII.

À medida que a classe dominante colonial começou a exigir sua

independência das autoridades divinamente estabelecidas e da

riqueza territorial da nobreza inglesa, ela passou a reivindicar a

igualdade intrínseca de todas as pessoas e a defender a ideia de

direitos naturais. Como Barbara Fields apontou:

 

A ideologia racial forneceu os meios de justificar a escravidão para pessoas

cuja terra era a república fundada nas doutrinas radicais de liberdade e

direitos naturais. Ainda mais importante, uma república na qual essas

doutrinas pareciam representar com precisão o mundo no qual todos a não

ser uma minoria viviam. Somente quando a negação da liberdade se tornou

uma anomalia aparente até mesmo aos membros menos observadores e

reflexivos da sociedade euro-americana a ideologia justificou

sistematicamente 14 a anomalia.

 

Em outras palavras, a classe dominante euro-americana teve que

desenvolver uma ideologia da inferioridade dos africanos de modo a

racionalizar o trabalho forçado, e tiveram que incorporar os povos

europeus na categoria de raça branca, apesar do fato de que muitos

desses povos tinham sido considerados inferiores anteriormente.

Essa ideologia racial se desenvolveu ainda mais à medida que a

nova nação americana se deparou com o fenômeno da migração

voluntária de trabalhadores livres vindos da Europa. Muitos dos

quais vieram de povos que eram vistos como raças europeias

distintas: italianos, europeus orientais e judeus. Mas o caso mais

exemplar é o dos irlandeses, cuja emigração aos Estados Unidos

aumentou com a fome no meio do século XIX produzida pelo

colonialismo inglês.

Aos irlandeses, que estavam entre os grupos mais oprimidos e

rebeldes da Europa, foi oferecida a barganha que protegeu a classe

 

dominante 034 americana . Frederick Douglass apontou isso muito

claramente em 1853, na reunião de aniversário da American and

Foreign Anti-Slavery Society em Nova Iorque:

 

Os irlandeses, que em casa prontamente simpatizavam com os oprimidos de

todos os lugares, são instantaneamente ensinados a odiar e desprezar os

negros quando pisam em nosso solo. São ensinados a acreditar que os

negros comem o pão que pertence a eles. Uma mentira cruel é dita a eles, de

que tiramos o emprego deles e recebemos o dinheiro que de outra forma iria

para seus bolsos. Senhor , os irlando-americanos descobrirão seu erro um

dia15.

 

Douglass havia ido à Irlanda para evitar ser devolvido à

escravidão, e disse que foi pela primeira vez na sua vida tratado

como uma pessoa comum, exclamando numa carta ao abolicionista

Willian Lloyd Garrison: “Respiro e eis! O objeto se torna um

 

homem 16 ... Nada encontro para me lembrar da minha cor de pele ”.

É claro, não se tratava de uma bondade intrínseca dos irlandeses.

Era porque, nessa altura da história, não havia brancos lá. Isso era

 

claro 035 para Douglass porque ele chegou durante a Grande Fome.

Escrevendo nas suas memórias de canções de escravos das fazendas

americanas, acrescentou: “Em nenhum lugar fora da querida e velha

 

Irlanda 17 , nos dias de necessidade e fome , ouvi sons tão l ú gubres ”.

Mas os imigrantes irlandeses perceberam ao chegarem aos

Estados Unidos que podiam aliviar sua subordinação se juntando ao

 

clube 18 da raça branca , como contou Ignatiev. Eles podiam se tornar

membros de uma “raça branca”, com maior status, se apoiassem

ativamente a contínua escravização e opressão dos afro-americanos.

Portanto, o processo de se tornar branco significou que essas prévias

categorias raciais foram abolidas e grupos racializados como os

irlandeses foram progressivamente incorporados à raça branca

como forma de fortalecer e intensificar a exploração dos

trabalhadores negros.

Foi uma grande sacada de Frederick Douglass descrever esse

processo como um erro dos irlando-americanos. Douglass

enfatizava claramente a novidade da própria descrição das pessoas

como brancas: “A palavra branco é recente na legislação desse país.

Ela nunca foi usada nos melhores dias da república, mas apareceu no

período 19 da nossa degeneração nacional ”. Sejamos claros no que

significou a invenção da raça branca. Significou uma forma de

controle social imposta pela classe dominante euro-americana para

evitar que os trabalhadores euro-americanos se unissem aos

trabalhadores afro-americanos em rebelião. Em troca do privilégio

da pele branca, os trabalhadores euro-americanos aceitaram a

identidade branca e se tornaram agentes ativos na brutal opressão

aos trabalhadores afro-americanos. Mas eles também degradaram

fundamentalmente suas próprias condições de vida. Como

consequência desse toma lá dá cá com seus exploradores,

permitiram que as condições dos trabalhadores brancos do Sul se

tornassem as piores na nação, e criaram as condições que

bloquearam o desenvolvimento de um possível movimento de massa

de trabalhadores.

É por isso que a luta contra a supremacia branca foi de fato uma

luta pela emancipação universal – algo que era evidente para os afro-

americanos insurgentes. Como Barbara Fields aponta, esses

insurgentes não usavam uma noção de raça como explicação da sua

opressão ou de suas lutas por libertação:

 

Não foram os afro-americanos... que precisaram de uma explicação racial.

Não foram eles que se inventaram como uma raça. Os euro-americanos

resolveram a contradição entre a escravidão e a liberdade definindo os afro-

americanos como uma raça. Os afro-americanos resolveram a contradição

de maneira mais direta, pedindo a abolição da escravidão. Da era das

revoluções americana, francesa e haitiana em diante, eles reivindicavam a

liberdade 20 como sendo deles por direito natural.

 

Contudo, nem sempre era assim que os movimentos socialistas

viam. Socialistas americanos no final do século XIX e início do século XX às vezes não conseguiam perceber que a divisão entre

trabalhadores brancos e negros impedia que os trabalhadores como

um todo conseguissem se emancipar. Não devemos simplificar

demais esse ponto ou usá-lo para descrédito da história do

movimento dos trabalhadores como um todo. Os primeiros partidos

socialistas eram em grande parte compostos por imigrantes que

muitas vezes não estavam ainda totalmente incorporados à raça

branca, e havia muitos socialistas negros bem conhecidos –

incluindo, por exemplo, Hubert Harrison, que teve um importante

papel em ligar o nacionalismo negro ao socialismo no início do

século XX. A maioria dos primeiros socialistas americanos não era

racista, e de fato se opunham ao racismo de maneira aberta e

veemente.

Porém, a maioria dessas primeiras organizações socialistas não

conseguiu reconhecer que havia algo singular nas demandas dos

trabalhadores negros. Elas também se dispunham a atuar com

sindicatos que discriminavam trabalhadores negros, além de não se

esforçarem para recrutar membros entre os negros. Sem uma

análise da supremacia branca, essas organizações socialistas não

abordavam o fato dos trabalhadores negros serem normalmente

excluídos de empregos disponíveis para brancos, de estarem sujeitos

à violência racista fora do local de trabalho e de não poderem

esperar que os patrões racistas estendessem aumentos salariais a

eles.

O custo dessa indiferença com a raça foi que o socialismo acabou

tendo sempre que concorrer com a branquidade para angariar

membros. Os novos imigrantes europeus eram com frequência

bastante radicais e preparados para se juntar às lutas dos

trabalhadores. Mas eles também eram convidados a se juntar à raça branca. Mais uma vez, no caso dos irlandeses, isso significava deixar

para trás uma opressão racial que era familiar a eles na Europa.

Essa realidade começou a mudar com a reconfiguração dos

socialistas americanos no Partido Comunista em 1919. Pela década

de 1920 o PC incorporou não apenas muitos imigrantes socialistas,

mas também a organização clandestina chamada African Blood

Brotherhood, que incluía muitos comunistas negros importantes,

como Cyril Briggs, Claude McKay e Harry Haywood. Esses

comunistas negros foram absolutamente centrais na organização

dos comunistas. Isso porque afirmavam que o partido tinha que

atacar diretamente a branquidade se ele quisesse construir um

movimento de trabalhadores. Como resultado desse trabalho, o PC

se jogou na mobilização antirracista no final da década 1920 e início

da década de 1930.

Primeiramente, isso significou colocar uma ênfase pesada na

educação dos membros brancos de modo a rejeitarem o

chauvinismo branco, além da organização de alguns dos poucos

eventos sociais inter-raciais que ocorreram nos Estados Unidos

segregado. O partido se esforçou para eliminar a influência da

branquidade nas suas fileiras. Também enviou seus militantes para o

Sul e aos bairros negros das cidades do norte, para organizarem

projetos políticos. Projetos que incluíam sindicatos de agricultores,

mineiros e metalúrgicos; defesa armada contra linchamentos; defesa

legal para as vítimas do sistema jurídico racista; e movimentos

contra o desemprego, despejos e interrupções de serviços de

utilidade pública. Robin D .G. Kelley descreve algumas dessas

iniciativas em Hammer and Hoe:

 

Representantes da associação de desempregados muitas vezes dissuadiam

os proprietários de despejar seus inquilinos descrevendo o possível

desmanche que ocorreria, uma vez que uma casa abandonada se tornava

uma fonte gratuita de lenha para qualquer um. Quando a energia elétrica de

uma família era desligada por falta de pagamento, ativistas da associação de

desempregados costumavam fazer ligações clandestinas de locais públicos

ou de outras casas, usando fios de cobre grossos. Os membros da associação

também encontravam maneiras de reabrir a água após ela ser cortada,

embora esse processo fosse mais complicado do que roubar energia elétrica.

E, pelo menos uma vez, um grupo de mulheres negras fez ameaças verbais

para 21 que um funcionário municipal não desligasse a água de uma família.

 

Infelizmente, a complicada história das disputas políticas

internas do PC , junto com a repressão estatal ao movimento

comunista, fez com que esse trabalho fosse interrompido. À medida

que uma direção do partido cada vez mais conservadora se

distanciava do projeto de libertação negra, o chauvinismo branco

cresceria no PC . Anteriormente esse chauvinismo foi combatido

mais eficazmente através da organização de massa antirracista:

reunindo diferentes pessoas e demandas díspares numa luta

comum. Mas com essa prática tendo sido abandonada, o partido

lançou o que Harry Haywood chamou de uma “guerra de araque

contra o chauvinismo”.

Na análise de Haywood, essa guerra de araque terminava apenas

fortalecendo as bases materiais do chauvinismo branco, agora

arrancado de suas bases estruturais e concebido como um conjunto

de ideias suspensas no ar. Em vez da organização de massa, se opor

ao chauvinismo branco era visto agora como uma questão de policiar

a linguagem daqueles que eram a princípio camaradas, fortalecendo

assim a burocracia do partido e introduzindo um clima de paranoia e

desconfiança entre os membros. Como Haywood escreveu:

Era uma atmosfera propícia para o desenvolvimento de uma forma

particularmente paternalista de chauvinismo branco, assim como para o

crescimento de um nacionalismo estreito e pequeno-burguês entre os

negros. O crescimento desse lado nacionalista esteve diretamente ligado ao

colapso da divisão de trabalho básica entre comunistas em relação à

questão nacional. Essa divisão do trabalho, há muito tempo estabelecida no

nosso partido e no movimento comunista internacional, coloca a

responsabilidade principal de combater o chauvinismo branco aos

camaradas brancos, enquanto os negros têm como responsabilidade

principal 22 combater os desvios nacionalistas tacanhos.

 

Em outras palavras, na ausência de organização de massa, a

ideologia racial corre para preencher o vácuo. E sem a divisão

política de trabalho que Haywood descreve, a luta contra o racismo

fi ca reduzida à reparação de lesões individuais.

Evidentemente, é por isso que as reações à crítica da política

identitária podem ser tão ásperas. Quando não há outro esforço

organizativo para combater o racismo, qualquer questionamento da

concepção de identidade pode parecer uma tentativa de negar a

validade da luta antirracista. Na verdade, mais do que isso.

Questionar a própria ideologia racial pode parecer uma negação da

capacidade de agir dos oprimidos. No livro que virou referência,

Against Race, Paul Gilroy descreve como essa reação defensiva surge

de uma relação ambivalente que os oprimidos têm com suas

identidades:

 

Pessoas que foram subordinadas pelo pensamento racial e suas estruturas

sociais distintivas (nem todas por códigos de cor) empregaram por séculos

os conceitos e categorias dos dominantes, dos proprietários e dos

perseguidores para resistir ao destino que a “raça” colocou a elas, assim

como para se opor ao baixo valor que davam a suas vidas. Sob as condições

mais difíceis e a partir dos materiais precários que certamente não teriam

selecionado se pudessem ter escolhido, esses grupos oprimidos construíram

tradições complexas na política, ética, identidade e cultura.

 

Classificando essas tradições dentro das categorias de “raça”, seus

papéis na formação da nossa modernidade global foram

marginalizados, relegados “aos rincões do mundo primitivo e pré-

político”. Afirmar e defender essas tradições reforça a ideologia

racial mas também fornece uma forma de defesa e proteção. As

experiências de “insulto, brutalidade e desprezo” são

“inesperadamente transformadas em importantes fontes de

solidariedade, alegria e força coletiva”. Essa conversão, como Gilroy

explica, é um poderoso fator da persistência da ideologia racial:

“ Quando ideias de particularidade racial são convertidas desse jeito

defensivo, de modo que forneçam uma fonte de orgulho em vez de

vergonha e humilhação, torna-se difícil renunciar a elas. Para muitos

povos racializados, a ‘raça’, e as identidades de oposição duramente

conquistadas que ela sustenta, não são algo para se abandonar

 

facilmente 23 ou rapidamente .”. Mas essa dinâmica não está

relacionada apenas à autodefesa consciente do oprimido. Ela está

enraizada no inconsciente, como a ideologia sempre está, e nos leva

de volta à relação paradoxal entre subjetivação e sujeição que Judith

Butler mostrou ser tão central à ideologia e às formas modernas de

política. Um aspecto fundamental desse paradoxo do sujeito, afirma

Butler , é que ele está ligado a um “apego apaixonado” ao poder. Esse

é o tipo de apego que as crianças demonstram em relação aos pais,

que são uma autoridade arbitrária repressora, mas também os

modelos de indivíduo e as primeiras fontes de reconhecimento e,

portanto , objetos do amor.

Somos constituídos como sujeitos na individualização que é

característica do poder do Estado. Somos ativados como agentes políticos através das lesões que são constituintes da nossa

identidade. Consequentemente, nossas identidades nos vinculam a

esse poder de um modo básico e fundamental. Esse aspecto

complicado e inconsciente na nossa experiência política é o que

Butler tenta capturar:

 

Chamado por um nome ofensivo, me torno um ser social. E porque tenho

um certo e inevitável vínculo com a minha existência, porque um certo

narcisismo se apodera de qualquer termo que confira existência, sou levada

a adotar os termos que me ofendem porque eles me constituem

socialmente. A trajetória autocolonizadora de certas formas de política

identitária são sintomáticas dessa adoção paradoxal dos termos

ofensivos 24 ”.

 

À medida que tentamos entender a forma específica do apego

apaixonado à identidade racial, temos que passar pelo nebuloso

terreno do inconsciente – o terreno da poesia, da fantasia e da ilusão.

 

Notas do tradutor/editor:

 

029 O leitor pode encontrar uma versão traduzida na web, com título “Privilégio Branco:

Desfazendo a Mochila Invisível” (N . T.).

030 O Provisional Organizing Committee to Reconstitute a Marxist-Leninist Party

(Comitê Provisório pela Reconstituição de um Partido Marxista-Leninista) surgiu em

1958 de um racha do Partido Comunista norte-americano (N. E.).

031 A New Left (Nova Esquerda), nos Estados Unidos, surgiu nos anos 1950 a partir de

movimentos jovens que rejeitavam a esquerda tradicional representada por sindicatos,

partidos e organizações marxistas. Existiu principalmente em torno da central estudantil

SDS - Students for a Democratic Society (Estudantes pela Sociedade Democrática). Teve

papel muito importante na luta pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnã. No correr

dos anos 1960, a New Left foi radicalizando, tornando-se cada vez mais anticapitalista e

cada vez mais marxista. O New Communist Movement é uma das dissidências que surgem

dela, reunindo diversas tendências maoístas (N. E.).

032 “ Você não precisa de um Meteorologista para saber em que direção o vento sopra”, é

uma frase da música “Subterranean Homesick Blues”, gravada em 1965 por Bob Dylan. O

manifesto foi lançado por uma facção da SDS chamada Revolutionary Youth Movement,

que a partir daí passou a ser conhecida como Weather Underground, e seus integrantes,

Weathermen. (N . T.).

033 “Sem uma Ciência da Navegação não Podemos Velejar em Mares Agitados” (N . T.).

034 Frederick Douglass (1818-1895), depois de escapar da escravidão, tornou-se o mais

importante abolicionista dos Estados Unidos (N . E.).

035 Período de fome, doenças e emigração em massa na Irlanda entre 1845 e 1849 (N . T.).

 

Notas do autor:

 

1 W.E.B. Du Bois, Black Reconstruction (New York: Free Press, 1998), 700–701.

2 Peggy McIntosh, “White Privilege: Unpacking the Invisible Knapsack,” Peace and

Freedom (Julho–Agosto 1989): 10–12.

3 McIntosh, “White Privilege.”

4 Nell Irvin Painter, The History of White People (New York: W.W. Norton, 2010), ix.

5 Noel Ignatiev e Ted Allen, “The White Blindspot Documents,” in Carl Davidson, ed.,

Revolutionary Youth and the New Working Class (Pittsburgh: Changemaker, 2011), 152–

53.

6 Karin Asbley , Bill Ayers, Bernardine Dohrn, John Jacobs, Jeff Jones, Gerry Long, Home

Machtinger, Jim Mellen, Terry Robbins, Mark Rudd e Steve Tappis, “You Don’t Need a

Weatherman to Know Which Way the Wind Blows,” New Left Notes (Junho 18, 1969).

7 Noel Ignatiev, “Without a Science of Navigation We Cannot Sail in Stormy Seas,”

disponível em marxists.org.

8 Du Bois, Black Reconstruction, 700.

9 Theodore W. Allen, The Invention of the White Race, vol. 1 (New York: Verso, 2012).

10 Painter, White People, xi.

11 Painter, White People, 42.

12 Fields and Fields, Racecraft, 122.

13 Painter, White People, 42.

14 Fields and Fields, Racecraft, 141.

15 Frederick Douglass, Life and Times of Frederick Douglass (London, 1882), 259.

16 Douglass, Life and Times, 211.

17 Douglass, Life and Times, 28.

18 Noel Ignatiev, How the Irish Became White (New York: Routledge, 1995).

19 Frederick Douglass, “The Kansas-Nebraska Bill” [1854], in The Life and Writings of

Frederick Douglass, vol. 2, ed. Philip S. Foner (New York: International Publishers, 1950),

317.

20 Fields and Fields, Racecraft, 141.

21 Robin D.G. Kelley, Hammer and Hoe (Chapel Hill: University of North Carolina Press,

1990), 21.

22 Harry Haywood, Black Bolshevik (Chicago: Liberator Press, 1978), 588.

23 Gilroy , Against Race, 12.

24 Butler, Psychic Life of Power, 104.