Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje
Capítulo 6 - A Contenção como Exercício de Estadismo
CAPÍTULO 6
A UNIVERSALIDADE
6
A UNIVERSALIDADE
No momento em que Ronald Reagan inaugurava a era do
neoliberalismo , meus pais imigraram para os Estados Unidos, vindos
de Karachi, Paquistão. Esperando seguir carreiras acadêmicas num
ambiente de liberdade intelectual e abundância material, se
instalaram no meio da Pensilvânia rural, onde não havia mangas no
supermercado.
Imaginei a chegada deles quando estava na multidão de
manifestantes no Aeroporto Internacional de São Francisco em
janeiro de 2017. Era uma multidão diversa, como se vê em
aeroportos: uma vastidão de nacionalidades, idades e
personalidades. Mas no lugar da exaustão e ansiedade, essa multidão
demonstrava energia e indignação. Gritava alto que os refugiados
eram bem-vindos aqui, se opondo à “proibição de muçulmanos”. Era
tão grande a multidão que conseguiu impedir todos os voos que
partiam. Vendo um menino que havia escrito num cartaz a frase
“Filho de Refugiado”, pensei como minha própria vida foi moldada
pelo voo que trouxe meus pais a esse país. Lembrei-me de tudo que a
proibição da entrada de muçulmanos ameaçava destruir – não apenas famílias, mas as vidas e sonhos daqueles que viajavam
cruzando oceanos em busca de uma vida nova.
Muitos desejos estimulam os imigrantes a viajar, mas têm em
comum aquilo que Sandro Mezzadra, professor da Universidade de
Bolonha 1 , chama de “ o direito de fugir ”: fugir da pobreza e da
perseguição, para descobrir novas geografias e falar em novas
línguas. O desejo do imigrante é um mundo sem fronteiras, um
mundo sem detenções, um mundo no qual os humanos se movem
livremente e acolhem todo estrangeiro. É o reconhecimento de que é
possível pensar , falar e viver de outro modo.
Talvez exatamente por essa razão, o imigrante represente um
problema central para o pensamento político – não um novo
problema arquitetado por Trump e seus associados, mas um tão
velho quanto o próprio Estado-nação. A contradição fundamental do
Estado-nação, como o filósofo francês Étienne Balibar apontou, é o
conflito e a interação recíproca entre duas maneiras de definir
“povo”. Primeiro, ethnos: “uma comunidade de filiação imaginada”.
Segundo, demos: “o sujeito coletivo da representação, do processo
decisório e dos direitos”.
O primeiro sentido do “povo” internaliza a fronteira nacional – é o
muro que Trump pretende construir dentro de nossas cabeças. É um
sentimento de pertencimento a uma “etnia fictícia”, uma
comunidade imaginária que é constituída por fronteiras nacionais,
mas que na realidade consiste de populações heterogêneas
colocadas juntas pela migração e deslocamento – uma pluralidade
suprimida pela fantasia de uma essência racial e espiritual unitária.
O segundo sentido de “povo” é o sentido político, o que parece
estar 057 expresso em nossa Declaração dos Direitos dos Cidadãos.
Destinada a ser aplicada independente da identidade; é a canção da Estátua da Liberdade, que oferece suas liberdades a toda multidão
amontoada e ansiosa por respirar livremente, indiferente a suas
particularidades.
A contradição entre essas duas noções é o pecado original do
Estado-nação americano. São as primeiras palavras do seu primeiro
documento 058 o fi cial : “ Nós , o povo ”, diz o preâmbulo da
Constituição, escrita por donos de escravos. Como Balibar aponta:
Essa construção associa estreitamente a universalidade democrática dos
direitos humanos... com um pertencimento nacional particular. É por isso
que a composição democrática do povo na forma de nação leva
inevitavelmente a sistemas de exclusão: a divisão entre “maiorias e
“minorias” e, mais profundamente ainda, entre populações consideradas
nativas e aquelas consideradas estrangeiras, heterogêneas, que são
estigmatizadas 2 culturalmente ou racialmente.
Essa contradição da democracia veio claramente à tona na
Revolução Francesa, com sua Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão. Em 1843 o jovem Karl Marx submeteu essa declaração a
um escrutínio crítico. Em “Sobre a Questão Judaica”, Marx estava
respondendo em primeiro lugar à critica que Bruno Bauer fazia da
reivindicação de emancipação dos judeus. Segundo Bauer, qualquer
identidade, religiosa ou outra, era necessariamente excludente e
portanto incompatível com a emancipação universal. Bauer
argumentava que reivindicar a emancipação da identidade específica
do judeu reproduzia essa exclusão, que havia sido levada ao extremo
pelo Estado cristão. A emancipação política seria necessariamente
universal 3 , e requereria assim uma espécie de desindenti fi cação.
Mas Marx apontou que a emancipação política secular, a
separação entre Igreja e Estado em nome dos direitos universais, não havia na prática superado a superstição religiosa. Como é sabido,
ele citou profeticamente os Estados Unidos como exemplo. Marx
afirmava que isso se devia aos direitos serem concedidos aos
indivíduos e, portanto, eram direitos do “homem egoísta, do homem
separado 4 dos outros homens e da comunidade ”. Proteger os
direitos do indivíduo na esfera política não significava o fim da
opressão pelas autoridades religiosas e pelos donos da propriedade.
Portanto, nem o universalismo abstrato e aristocrático de Bauer e
nem o particularismo de uma minoria poderia levar a uma
verdadeira emancipação humana. Para isso seria necessário ir além
da emancipação política, superando a exploração do mercado.
Num artigo sobre a relevância de Marx para a análise da atual
política identitária, Wendy Brown resume seu complexo argumento:
Historicamente, os direitos surgiram na modernidade como veículo de
emancipação da privação de direitos políticos ou da servidão
institucionalizada, mas também como meio de privilegiar uma classe
burguesa emergente dentro de um discurso de igualdade formal e de
cidadania universal. Portanto, eles surgiram como meio de proteção contra
o uso arbitrário e abuso do poder soberano e social, e como um modo de
garantir 5 e naturalizar os poderes sociais dominantes.
Isso implica um “paradoxo” ao liberalismo, que persiste nos dias
de hoje. Quando os direitos são concedidos a indivíduos “vazios”,
abstratos, eles ignoram as formas sociais reais de desigualdade e
opressão que parecem estar fora da esfera política. No entanto,
quando as especificidades das identidades lesadas são trazidas ao
conteúdo dos direitos, Brown aponta que elas são “mais propensas a
se tornarem lugar de produção e regulação da identidade como lesão
do 6 que veículos de emancipação ”. Em outras palavras, quando a linguagem liberal dos direitos é usada para defender uma identidade
de grupo concreta da lesão física ou verbal, esse grupo acaba definido
pela sua vitimização e os indivíduos acabam reduzidos a seu
pertencimento como vítimas.
Brown mostra como essa lógica esvazia a lógica por trás de uma
corrente influente (embora controversa) do feminismo: a tentativa
de Catherine MacKinnon de corrigir o viés masculino da lei. O
feminismo antipornografia de MacKinnon era baseado na premissa
de que o direito de liberdade de expressão entrava em conflito com o
direito das mulheres de se verem livres da subordinação sexual. Mas,
como Brown pergunta: “Uma definição das mulheres como
subordinação sexual e a codificação dessa definição em lei age no
sentido de libertar as mulheres da subordinação sexual ou,
paradoxalmente, reinscreve a feminilidade como violabilidade
sexual 7 ?” A crítica de Brown sugere que, quando os direitos são
reivindicados por um grupo identitário específico, e o horizonte
político se limita à defesa dessa categoria, seus membros acabam
fi xados como vítimas. Os próprios direitos acabam reduzidos à
reação a uma lesão infligida a essa vítima. Seu conteúdo
emancipatório desaparece. Portanto, apresentando um argumento
legal que tenta dar aos direitos um conteúdo substancial, um
conteúdo de identidades específicas, MacKinnon acaba produzindo
uma categoria fixa e passiva de “mulher”. A possibilidade das
mulheres se organizarem contra a opressão sexual, o tipo de
organização que implica ação de massa autodirigida, acaba
neutralizada por um discurso legal.
Esse é exatamente o problema que vem à tona na atual “questão
muçulmana”. Na França, essa questão foi debatida em 2004 quando
o uso do hijab foi proibido nas escolas públicas. A questão então foi:
o 059 hijab deveria ser defendido porque os muçulmanos são
definidos pelo fato de o usarem? A liberdade da população migrante
francesa reside numa resposta defensiva à lesão infligida pela
proibição do lenço na cabeça? Com certeza o racismo inerente à
proibição do acessório muçulmano deve ser condenado e atacado.
Mas na medida em que a questão é enquadrada como uma defesa dos
direitos dos muçulmanos, a perspectiva da tolerância liberal prende
os muçulmanos que ela diz defender dentro de uma identidade
vitimizada, em vez de levá-los a um projeto de emancipação coletiva.
Como Alain Badiou apontou no seu livro Ética, esse paradigma
liberal dos direitos e da defesa de vítimas é a base do imperialismo,
da chamada “intervenção humanitária”. A missão civilizatória do
imperialismo, o “fardo do homem branco”, seria defender a mera
existência física de um povo. As pessoas são reduzidas a animais,
excluídas da política. Por serem tão incapazes de agir politicamente
por si próprias, necessitariam da proteção do Estado. Badiou
pergunta: “Quem não consegue ver que essa ética que repousa sobre
a miséria que o mundo esconde, atrás do seu homem-vítima, o
homem-bom, o homem-branco?” Uma intervenção conduzida “em
nome da civilização requer um desprezo inicial pela situação como
um todo, incluindo suas vítimas”. O discurso autocongratulatório de
responsabilidade moral de hoje em dia, e a ética da intervenção
militar – que vêm, como Badiou aponta, “após décadas de corajosas
críticas ao colonialismo e ao imperialismo – acrescentam pouco
mais do que uma “autossatisfação sórdida no ‘Ocidente’, com o
argumento insistente de que a miséria do Terceiro Mundo é
resultado da sua própria incompetência, da sua própria inanidade –
em 8 suma , da sua sub-humanidade ”.
É possível ir além do paradigma liberal da vitimização e do
paradoxo dos direitos? Temos uma forte base histórica para tanto se
entendermos esse paradoxo como expressão do antagonismo
político concreto, como o professor italiano Massimiliano Tomba o
faz na sua comparação das duas versões francesas da Declaração dos
Direitos do Homem. Tomba argumenta que a primeira Declaração
de 1789 fundamenta os direitos num universalismo jurídico: “o
universalismo que vem de cima e que implica um sujeito de direito
que é ou passivo ou uma vítima que necessita de proteção”. Seja uma
mulher a ser protegida do discurso pornográfico ou um muçulmano
a ser protegido do preconceito religioso, o universalismo jurídico
não confere nenhuma capacidade de ação a esses sujeitos – suas
ú nicas existências políticas são mediadas pela proteção do Estado. A
declaração de 1793, em contraste, manifesta uma universalidade
insurgente, trazida ao palco histórico pelas sublevações de escravos
na Revolução Haitiana, pela intervenção das mulheres no processo
político que as excluía, e pelas reivindicações dos sans-cullotes ao
direito à comida e à vida. Ela “não pressupõe nenhum portador
abstrato de direitos”, escreve Tomba, mas, ao invés disso, “refere-se
a indivíduos concretos e particulares – mulheres, os pobres, os
escravos – e suas capacidades de ação política e social”. Aqui
encontramos um novo paradoxo: “a universalidade desses
indivíduos concretos e particulares atuando nas suas situações
específicas é mais universal do que o universalismo jurídico dos
abstratos 9 portadores de direitos ”.
Em 1799, a França solicitou ao líder revolucionário haitiano
Toussaint L’Ouverture, como parte do acordo de paz, que escrevesse
nas bandeiras de seu exército: “Bravos negros, lembrem-se que
somente a França reconhece a liberdade e a igualdade dos vossos direitos”. Ele recusou, apontando a escravidão que continuou nas
outras colônias francesas. Respondeu em uma carta a Napoleão
Bonaparte: “Não é uma liberdade circunstancial, concedida apenas a
nós, que queremos; é a absoluta adoção do princípio de que nenhum
homem, nascido vermelho, preto ou branco possa ser propriedade
de 10 outro ”.
Ainda é possível reivindicar o legado dessa universalidade
insurgente, que nos diz que não somos vítimas passivas, mas agentes
ativos de uma política que demanda liberdade para todos. Foi por
essa razão que fiquei impressionado com a beleza da multidão no
Aeroporto de São Francisco: a decisão de tantos, sem interesse
pessoal, em defender os direitos de todos os imigrantes. Aqueles que
não tinham nada a perder além do seu próprio conforto e segurança
de momento, estavam lá junto com as crianças dos refugiados,
gritando tão alto quanto elas. Deram vida ao que Badiou chama de
uma “máxima igualitária própria de qualquer política
emancipatória 11 ”. É uma máxima que clama incondicionalmente
pela liberdade daqueles que não são como nós. E como todo
imigrante sabe, ninguém é como nós, e nós não somos sequer como
nós mesmos.
Hoje é costumeiro denominar os grupos tidos como estrangeiros
ou estranhos como “o Outro” – uma relação que se diz operar uma
degradação redutiva. Mas como Badiou aponta em Ética, o Outro já
está em todos os lugares, até mesmo em você:
O que existe é pura e simplesmente alteridade infinita. Toda experiência é o
desdobramento infinito de diferenças infinitas. Mesmo a experiência
aparentemente reflexiva de mim mesmo não é, de modo algum, a intuição
de uma unidade, mas um labirinto de diferenciações. Rimbaud certamente
não estava errado quando disse: “Eu sou outro”. Há tantas diferenças entre
um camponês chinês e um jovem profissional norueguês quanto entre eu e
qualquer 12 um , incluindo eu mesmo.
Esse aparente paradoxo foi ilustrado por um cartaz que um
manifestante no aeroporto segurava, no qual se lia “Os judeus estão
com os muçulmanos”. O slogan se baseia naquilo que Judith Butler
descreve como “recursos judaicos para a crítica da violência estatal,
da subjugação colonial de populações, da expulsão e espoliação”,
assim como “valores judaicos de coabitação com não judeus que são
parte da própria substância ética do judaísmo diaspórico”. O apoio a
refugiados muçulmanos pode ser fundamentado numa tradição
ética que é central à história judaica. No entanto, Butler argumenta
que desenvolver uma crítica do colonialismo de Israel requer uma
rejeição da afirmação de “recursos éticos excepcionais do judaísmo”.
Há uma ambivalência fundamental aqui. É na “significativa
tradição judaica que afirma modos de justiça e igualdade” que Butler
baseia sua crítica do sionismo. Mas desse modo, a ideia de
excepcionalidade de qualquer tradição é posta em questão. Criticar o
sionismo e afirmar a justiça e igualdade significa ir além de todo tipo
de excepcionalismo – portanto “requer o afastamento do judaísmo
como 13 quadro exclusivo para pensar a ética e a política ”.
Aqueles de nós de linhagem muçulmana terão que reivindicar
nossa própria ambivalência. Podemos começar lembrando o poeta
marxista paquistanês Faiz Ahmad Faiz, que escreveu seu famoso
poema “Hum Dekhenge” (“Vamos Ver”) em 1979, como protesto à
ditadura islâmica de Muhammad Zia-ul-Haq. Na tradição da poesia
urdu, Faiz adotou a linguagem do Islã, atacando Zia como idólatra e
oferecendo uma profecia revolucionária:
Quando soar o grito
“Eu sou a Verdade”
A verdade que eu sou
E que você é também
Toda a criação de Deus governará
Que eu sou
E você é também
Movendo-se pela linguagem islâmica, Faiz foi capaz de apontar
para uma política além do excepcionalismo, uma possibilidade que
seu marxismo forneceu. Colocamos essa política em prática quando
nos posicionamos ao lado de outros e agimos de acordo com a
máxima igualitária. Luto pela minha própria libertação exatamente
porque luto pela libertação do estrangeiro, do estranho.
Na verdade, aqueles que o pensamento liberal reduz a vítimas
passivas sempre foram agentes políticos ativos, a fonte da
universalidade insurgente. Nas palavras de C.L.R. James: “A luta das
massas 14 por universalidade não começou ontem ”. O seminal livro
de 060 Paul Gilroy , O Atlântico Negro, mostra que os intelectuais
negros radicais que adotaram a herança do Iluminismo, como
prefigurado na Revolução Haitiana, chegaram a articular uma
“contracultura da modernidade”. Esse foi precisamente um exemplo
de uma alteridade fundante que é resumida na palavra diáspora e
que liga as experiências africanas e judaicas. Gilroy argumenta que a
diáspora quebra com “a ideia de nacionalismo cultural” e com “as
concepções superintegradas de cultura que apresentam diferenças
étnicas, imutáveis, como um fosso intransponível nas histórias e
experiências de ‘negros’ e ‘brancos’”. Ela nos força a enfrentar uma
realidade muito mais difícil e complicada: “creolização, metissage,
mestizaje e hibridismo”, os quais, do “ponto de vista do absolutismo étnico”, são pouco mais do que “uma litania de poluição e impureza”.
Mas esse absolutismo étnico, Gilroy mostra muito bem, obscurece as
ricas heranças culturais que surgem de “processos de mutação
cultural e de (des)continuidade inquieta que excedem o discurso
racial 15 e evitam a captura por seus agentes ”. Demita Frazier, do
Combahee, apontou que este excesso para além da a identidade
estava em ação na proposta inicial de “política identitária” do
Coletivo:
Nós na verdade nunca, até onde posso dizer, no que diz respeito à definição
clássica, praticamos realmente o que as pessoas agora chamam de política
identitária. Porque a parte central e o foco central não era um aspecto da
nossa identidade, mas a totalidade do que significava ser uma mulher negra
na 16 diáspora.
Porém, abraçar a contracultura radical da modernidade não
significa uma adoção acrítica do Iluminismo europeu. Gilroy critica
a exaltação da história intelectual europeia como uma expressão da
“complacência conservadora” de hoje em dia, que romantiza o
passado europeu e “ busca calmamente restabelecer os
universalismos ingênuos e irrefletidos – liberal, religioso e
etnocêntrico”. O projeto da universalidade insurgente não é
desenvolvido por pretensos marxistas que se engajam em exaltações
acríticas e a-históricas do Iluminismo, posição velha e cansativa.
Gilroy aponta que essas análises preguiçosas “permanecem
substancialmente inalteradas pelas histórias de barbárie que
parecem ser uma característica tão proeminente da crescente
lacuna entre a experiência moderna e a expectativa moderna”:
Há um sentido limitado, por exemplo, de que a universalidade e a
racionalidade da Europa e Estados Unidos iluministas foram usadas para
sustentar e realocar, ao invés de erradicar, uma ordem de diferença racial
herdada da era pré-moderna. A figura de Cristóvão Colombo não parece
complementar o par consagrado formado por Lutero e Copérnico, que é
implicitamente usado para marcar os limites dessa compreensão particular
da modernidade. Os interesses coloniais de Locke e o efeito da conquista
das Américas em Descartes e Rousseau são simplesmente ignorados.
Nessa leitura da modernidade, não são apenas os crimes da
Europa iluminista que são apagados, mas também a centralidade do
Atlântico negro:
Nesse cenário , não é surpresa que, quando chega a ser considerada
relevante, a história da escravidão é de algum modo atribuída aos negros.
Ela se torna nossa propriedade especial, em vez de ser uma parte da herança
intelectual e ética do Ocidente como um todo. O que só é melhor que a
resposta alternativa comum que vê a escravidão das fazendas como um
resíduo pré-moderno que desapareceu quando se revelou
fundamentalmente incompatível com a racionalidade iluminista e a
produção 17 industrial capitalista.
Uma posição universal só pode ser alcançada se levarmos a sério a
“avaliação da modernidade colonial”, se nos basearmos na
contracultura do Atlântico negro para darmos vida ao que Gilroy
chama 18 de um “ universalismo estratégico ” que vai além da Europa.
A universalidade não existe em abstrato, como princípio prescrito a
ser mecanicamente aplicado independente das circunstâncias. Ela é
criada e recriada pelo ato de insurgência, o qual não reivindica a
emancipação unicamente para aqueles que compartilham minha
identidade, mas para todos; a universalidade diz que ninguém será
escravizado. Ela igualmente recusa congelar os oprimidos num status de vítimas que necessitam de proteção de cima; insiste que a
emancipação é autoemancipação.
Das insurreições nas fazendas ao Coletivo Combahee River, essa é
uma universalidade que necessariamente enfrenta e se opõe ao
capitalismo . O anticapitalismo é um passo necessário e
indispensável nesse caminho. Como Barbara Smith colocou,
invocando uma parte do legado do Coletivo Combahee River que
deve ser revivido e protegido:
O motivo do feminismo negro do Combahee ser tão potente é que ele é
anticapitalista. Pode-se esperar que o feminismo negro seja antirracista e
se oponha ao sexismo. Mas o anticapitalismo é o que lhe dá a radicalidade, a
intensidade 19 , a profundidade , o potencial revolucionário.
C.R.L. James mostrou que todo compromisso desse tipo de
universalidade, cada passo para longe da primazia da insurgência e
do potencial revolucionário da organização anticapitalista, levava de
volta ao particularismo da ordem existente. Essa regressão poderia
ser levada a cabo por qualquer identidade, assim como os líderes da
Revolução Haitiana no final impuseram a escravidão assalariada à
população recém-emancipada. Como James escreveu em Os
Jacobinos 061 Negros:
A traição política não é monopólio da raça branca. E essa traição
abominável logo após as insurreições mostra que a direção política é uma
questão de programa, estratégia e tática, e não da cor de quem dirige, de sua
unicidade 20 de origem com seu povo e nem dos serviços que prestaram.
Em 1957, James encontrou Martin Luther King Jr. e Coretta Scott
King em Londres, quando viajavam de volta para casa vindos de
Gana. James, no período que escreveu o livro Nkrumah and the Ghana Revolution, ouviu com grande interesse a história de boicote
aos 062 ônibus de Montgomery no Alabama. Mais tarde ele escreveu
uma carta a King, explicando que havia enviado um exemplar de Os
Jacobinos Negros a Louis Armstrong e sua esposa, Lucille, com
instruções para enviá-lo a King após terem lido. Ele acrescentou:
“ Você deve ter percebido que meu quadro de referência político não
é a ‘não cooperação’, entretanto examino toda ação, estratégia e
tática 21 política em termos de ser bem sucedida ou não ”.
Elaborando sobre o encontro numa carta a seus companheiros nos
Estados Unidos, ele resumiu o que todas as ações políticas bem-
sucedidas tinham em comum: “o poder sempre ignorado do
movimento 22 de massa ”. Foi esse movimento de massa que acabaria
com a segregação nos anos 1960, estabelecendo um novo campo de
luta política, no qual continuamos tentando achar nosso caminho.
Programa, estratégia e táticas. Nosso mundo está com extrema
necessidade de uma nova universalidade insurgente. Somos capazes
de produzi-la; todos somos, por definição. O que nos falta é um
programa, estratégia e táticas. Se deixarmos de lado o refúgio da
identidade, essa discussão poderá começar.
Notas do tradutor/editor:
057 Em inglês, Bill of Rights, é o nome pelo qual são conhecidas as dez primeiras
emendas da Constituição dos Estados Unidos (N. T.).
058 “Nós, o povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita,
estabelecer a justiça, assegurar a tranquilidade interna, prover a defesa comum, promover
o bem-estar geral, e garantir para nós e nossos descendentes os benefícios da Liberdade,
promulgamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América.”
Abertura da Constituição norte-americana, de 1787 (N. E.).
059 Conjunto de vestimentas femininas preconizado pelo islamismo (N. E.).
060 Publicado no Brasil em 2012 pela Editora 34, com tradução de Cid Knipel Moreira
(N. E.).
061 Edição brasileira pela Boitempo, com tradução de Afonso Teixeira Filho (N. E.).
062 Ocorrido nos anos de 1955 e 1956, esse boicote no qual Luther King Jr. esteve
envolvido se opunha à segregação racial que havia no transporte público (N . T.).
Notas do autor:
1 Sandro Mezzadra, “The Right to Escape,” Ephemera, vol. 4, no. 3 (2004). .
2 Étienne Balibar, We, the People of Europe? Reflections on Transnational Citizenship,
trad. James Swenson (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2004), 8. Para uma
análise complementar específica do caso americano, veja Black Is a Country de Singh.
3 Veja “Exclusiveness and Political Universalism in Bruno Bauer,” de Massimiliano
Tomba, in The New Hegelians, ed. Douglas Moggach, (Cambridge: Cambridge University
Press, 2006), e “Emancipation as Therapy: Bauer and Marx on the Jewish Question” in
Michael Quante e Amir Mohseni, eds., Die linken Hegelianer (Paderborn, Germany:
Wilhelm Fink, 2015).
4 Karl Marx, “On the Jewish Question,” in Early Writings, trad. Rodney Livingstone e
Gregor Benton (London: Penguin, 1992 [1843]), 229.
5 Brown, States of Injury, 99.
6 Brown, States of Injury, 134.
7 Brown, States of Injury, 131.
8 Alain Badiou, Ethics, trans. Peter Hallward (New York: Verso, 2001), 13.
9 Massimiliano Tomba, “1793: The Neglected Legacy of Insurgent Universality,” History
of the Present. A Journal of Critical History, vol. 5, no. 2 (2015): 111.
10 Victor Schoelcher, Vie de Toussaint Louverture (Paris: Editions Karthala, 1982), 264.
Minha tradução.
11 Alain Badiou, Metapolitics, trans. Jason Barker (New York: Verso, 2005), 149.
12 Badiou, Ethics, 25–26.
13 Judith Butler, Parting Ways: Jewishness and the Critique of Zionism (New York:
Columbia University Press, 2012), 2.
14 C.L.R. James, “Dialectical Materialism and the Fate of Humanity,” in Spheres of
Existence (London: Allison & Busby , 1980), 91.
15 Paul Gilroy , The Black Atlantic (New York: Verso, 1993), 2.
16 Taylor, ed., How We Get Free, 119–20.
17 Gilroy, Black Atlantic, 49.
18 Gilroy, Against Race, 96, 71.
19 Taylor, ed., How We Get Free, 67.
20 C.L.R. James, The Black Jacobins (New York: Vintage, 1989), 106.
21 Martin Luther King Jr., The Papers of Martin Luther King, Jr., Volume IV, ed.
Clayborne Carson, Susan Carson, Adrienne Clay , Virginia Shadron e Kieran Taylor
(Berkeley: University of California Press, 2000), 150.
22 Sojourner Truth Organization, Urgent Tasks, no. 12 (Verão 1981).
O capital
Marx, Karl
9788595710078
198 páginas
Compre agora e leia
Karl Marx é um dos mais importantes pensadores
da modernidade. O Capital, seu trabalho mais
ambicioso, levou mais de 20 anos de estudo e
preparação. E hoje, mais de um século após sua
conclusão, o livro continua presente nos mais
diferentes espaços do estudo social e econômico.
O Capital – Extratos por Paul Lafargue (autor do
clássico Direito à Preguiça) é a compilação dos
trechos essenciais da obra de Karl Marx sobre o
funcionamento do capitalismo, com o objetivo de
facilitar o entendimento sem perder sua
profundidade. Uma edição elogiada pelo próprio
Marx.
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Bukowski
Sounes, Howard
9788563137821
384 páginas
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Bêbado, mulherengo, vagabundo, imprevisível.
Charles Bukowski transformou seu estilo de vida
pautado na mais pura vadiagem em literatura e se
tornou um ícone da cultura pop. Após anos de
pesquisa, o jornalista inglês Howard Sounes recria
a trajetória do escritor neste livro que é
considerado a biografia definitiva de Bukowski.
Sounes teve acesso à correspondência íntima do
escritor e entrevistou amigos, amantes e
familiares. O resultado é uma narrativa rica em
detalhes: a infância marcada pelo autoritarismo e
agressões do pai, a juventude errante embalada
pelo álcool até o estrelato com livros na lista de
mais vendidos e adaptações para o cinema. Vida e loucuras de um velho safado traz poemas,
trechos de trabalhos inéditos, desenhos e mais de
60 fotos. E, na capa desta nova edição deste best
seller, um retrato de Bukowski cedido
especialmente para a edição brasileira pelo
célebre quadrinhista Robert Crumb
Compre agora e leia
Escolas de luta
Campos, Antonia Malta
9788563137777
352 páginas
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No final do ano de 2015, surgiu um movimento
social sem precedentes na história brasileira, tanto
por sua dimensão quanto por suas táticas, quando
mais de 200 escolas públicas estaduais de São
Paulo foram ocupadas pelos seus alunos. Eles
lutavam contra o plano do governo de fechar 94
escolas inteiras e centenas de turmas, realocando
estudantes e superlotando salas. O caso das
primeiras escolas ocupadas causou pânico das
autoridades, que reagiram com ameaças e
violência, mas foi impossível conter o movimento e
o numero de ocupações cresceu em uma
velocidade impressionante: Zona Leste, Norte e
Sul da Capital, Jandira, Mauá, Osasco, Ribeirão Pires, Santo André, Campinas, Franca, Santa
Cruz das Palmeiras, Bauru, Jundiaí.... de repente
havia escolas ocupadas por todo o Estado, do
interior ao litoral, dos centros às periferias. A
Polícia Militar foi chamada por diretores
desesperados e diversos casos de violência e
sabotagem contra os estudantes foram
registrados. Mas junto com a repressão também
veio a solidariedade dos pais, de professores, das
comunidades, de artistas, de toda a sociedade. Os
estudantes paulistas foram vitoriosos – forçaram o
governador a recuar, suspendendo o projeto de
"reorganização escolar", e derrubaram o secretário
de educação – e, logo em seguida, a mesma tá ca
começou a ser utilizada por estudantes de outros
estados na luta pela educação pública de
qualidade. Este livro é uma tentativa de reconstruir
a luta contra a "reorganização" da perspectiva
deles e delas.
Compre agora e leia
Ponto quarenta
Franchini, Roger
9788595710030
128 páginas
Compre agora e leia
Um investigador da Polícia Civil de São Paulo se
vê envolvido com bandidos bem mais perigosos
que aqueles das ruas: os integrantes da alta
cúpula do governo. Ponto Quarenta é ficção, mas
sua própria existência se tornou motivo de
polêmica nos debates sobre segurança pública.
Sua qualidade como ficção transformou-o no
clássico secreto da literatura criminal brasileira.
Lançado originalmente em uma edição
independente com pequena tiragem, esgotou-se
em poucos meses e virou um item disputado no
mercado de livros raros. Agora, finalmente, Ponto
Quarenta chega às livrarias. Conheça o mais
escandaloso livro policial brasileiro
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Revanchismo
de Campos, Rogério
9788563137029
210 páginas
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Laura é uma jovem interiorana que se muda para
São Paulo para investir na carreira de artista
gráfica. A única pedra no seu caminho é Rafael, o
namorado parasita aspirante a artista, com quem
divide um apartamento na capital. Quando
finalmente consegue se livrar do rapaz, ela acaba
cruzando, acidentalmente, o caminho de Kocinas,
um misterioso policial aposentado. A partir desse
encontro, a vida da garota toma um rumo caótico
e inesperado. Sem nenhum motivo aparente, ela
passa a ser perseguida e assediada pelo ex-
policial, um sujeito que participou da repressão de
presos políticos durante a ditadura militar e que
angariou, ao longo de sua carreira no submundo policial, material suficiente para comprometer
integrantes do alto escalão da política nacional. Às
vésperas da eleição para o governo estadual em
São Paulo, Laura se vê arrastada para dentro de
uma rede de intrigas que envolve os dois
principais candidatos - o governador - ex-militante
do movimento universitário - e uma ministra
federal - figura notória da alta sociedade
paulistana que segue trajetória política de
esquerda.
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Você terminou Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje
Asad Haider
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