Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje

Capítulo 5 - Não Há Mais Região Selvagem

CAPÍTULO 5

 

LEI E ORDEM

5

 

LEI E ORDEM

 

A eleição de Donald Trump em novembro de 2016 foi um choque

para a maioria dos setores da sociedade americana. Seu slogan de

campanha, “Tornar a América Grande Novamente”, foi debilmente

contraposto pela afirmação de Hillary Clinton de que “A América já é

Grande”. Mas os próprios Democratas eram culpados de estarem tão

mal preparados. A ascensão de Trump foi prefigurada por uma onda

reacionária que o precedeu em décadas. Nos Estados Unidos isso fica

claro ao relembrarmos que Ronald Reagan ganhou a presidência em

1980 com cartazes de campanha que diziam: “Vamos tornar a

América grande novamente!". Enquanto a esquerda dos Estados

Unidos ainda precisa entender os porquês da sequência que vai de

Nixon a Reagan, a Bush e a Trump, o intelectual britânico nascido na

Jamaica, Stuart Hall, devotou uma grande parte da sua carreira

lutando contra a ascensão igualmente inquietante de Margaret

Thatcher. Hall, um grande teórico da questão racial e identitária, é

também um dos mais perspicazes teóricos do poder estatal e da luta

de classes. Sua análise da decomposição e desorganização do

movimento operário e da nova estratégia política da classe dominante é essencial para entender o novo terreno político no qual

a política identitária criou raízes.

O trabalho de Hall nos apresenta uma interessante possibilidade

de comparação. Comparado aos Estados Unidos, o Reino Unido

parece ser um lugar com movimentos socialista e dos trabalhadores

bem mais vibrantes. Diferença talvez hoje mais claramente

representada pela existência de um sistema de saúde pública, há

muito descartado como inviável pela chamada esquerda da política

institucional americana. De fato, o Reino Unido teve com frequência

um partido supostamente socialista dirigindo o governo, e há uma

tradição ainda viva de ações militantes dos trabalhadores, algo cujo

equivalente nos Estados Unidos parece coisa de tempos imemoriais.

No entanto, no contexto da Europa, onde em determinados casos

o número de membros do Partido Comunista chegava aos milhões, o

Reino Unido era normalmente visto como um caso excepcional. Um

país que, apesar de ser o locus classicus da análise do modo de

produção capitalista de Karl Marx e o lugar do primeiro movimento

operário, era muito atrasado politicamente, com um Partido

Trabalhista relutante em enfrentar o sistema capitalista e absorvido

pelo oportunismo parlamentar, com sindicatos incapazes de superar

as reivindicações e disputas corporativas em favor de uma

 

verdadeira 1 organização política de massa. Assim, o Reino Unido

representa para nós dois diferentes pontos de comparação:

primeiro, em contraste com os Estados Unidos, a relativa

persistência de seus movimentos socialista e dos trabalhadores;

segundo, semelhante aos Estados Unidos, a incapacidade desses

movimentos de estabelecer uma organização de massa

anticapitalista.

Junto com colegas do Centro de Estudos Culturais

Contemporâneos na Universidade de Birmingham, Hall propôs uma

análise das peculiaridades da política britânica num livro de 1978,

escrito coletivamente, chamado Policing the Crisis: Mugging, the

State, and Law and Order. Esse estudo é conhecido por sua análise

das representações de crime na mídia, que tem sido muito influente

no campo dos estudos culturais, especialmente por essas

representações estarem profundamente implicadas na política

racial. Mas o ponto mais forte de Policing the Crisis foi situar as

representações raciais nas mudanças políticas e econômicas que

acompanharam o desaparecimento do lendário “consenso pós-

guerra”, que prevaleceu desde 1945, quando o Partido Trabalhista

formou um governo majoritário.

Para entender a dinâmica racial da representação do crime,

Policing the Crisis começa no período imediatamente após a

Segunda Guerra Mundial, quando o Estado assumiu fábricas falidas,

empregou uma grande parte da força de trabalho, regulou a

demanda e o emprego, assumiu a responsabilidade pelo bem-estar

social, expandiu a educação de acordo com as necessidades do

desenvolvimento tecnológico, aumentou seu envolvimento nos

meios de comunicação e agiu para harmonizar o comércio

internacional. Apesar de o Partido Trabalhista declarar seu

comprometimento com o socialismo, essa estabilização da economia

não alterou os fundamentos do sistema econômico. Contudo, foi

capaz de construir um Estado de bem-estar social à base de um

crescimento econômico sem precedentes no pós-guerra e, como

aponta Policing the Crisis, a democracia representativa se

desenvolveu a partir da “ampliação do papel do Estado na

 

economia 2 ”.

Mas a pretensão de representar a classe trabalhadora e a

vinculação dos interesses da classe trabalhadora à expansão do

aparelho estatal terminaria colocando novos problemas à medida

que a instabilidade da economia global colocava sua cabeça pra fora.

A participação britânica na economia global do pós-guerra tinha

sérias fragilidades, decorrentes dos efeitos debilitantes da herança

imperial e de uma ultrapassada infraestrutura industrial resistente à

inovação. Não dava conta da competição internacional, das

fl utuações na taxa de lucro e da inflação crescente. No entanto, o

Partido Trabalhista havia se colocado num beco sem saída, incapaz

de administrar a crise dentro das relações econômicas existentes e

manter ao mesmo tempo sua base em uma classe trabalhadora

organizada e ativa. Seu papel seria o de conter as lutas da classe

trabalhadora, assegurar que as reivindicações dos trabalhadores não

interferissem num clima favorável aos investimentos.

Foi o que Hall e seus colegas, seguindo Antonio Gramsci e Nicos

Poulantzas, chamaram “uma crise de hegemonia”, uma crise que não

era apenas da economia, mas também da sua gestão e, portanto, uma

 

crise 3 do próprio Estado. Num contexto como esse, no qual as lutas

da classe trabalhadora pareciam confrontar diretamente o Estado,

preservar o consentimento como instrumento principal de controle

democrático – em vez da coerção – se tornou um problema central. A

sociedade de consumo apresentou possíveis recursos para uma

solução; o crescente uso estatal da comunicação de massa foi

direcionado para formar uma espécie de consenso público e

transformar os valores de acordo com as necessidades da

acumulação capitalista. Mas durante uma crise de hegemonia, o

consenso não pode mais ser considerado como garantido. Práticas políticas e culturais convencionais são contestadas, suas

contradições são expostas.

No final dos anos 1960, vários pânicos morais vieram à tona nas

sociedades capitalistas avançadas. Uma grande variedade de

fenômenos – manifestações públicas, protestos, contracultura,

permissividade, criminalidade e outros – passaram a ser

apresentados por noticiários e políticos como parte de uma única e

enorme ameaça aos fundamentos da ordem social. Na Grã-Bretanha,

essa ameaça foi simultânea à escalada da luta de classes, quando os

trabalhadores começaram a recusar a colaboração com o Estado e

com as burocracias sindicais, e a militância na base e a organização

no chão de fábrica substituíram as mesas de negociações. A ideologia

conservadora teve um importante papel na resposta do Estado a essa

ameaça, enquanto o controle social aumentava no final dos anos

1960 abrindo caminho para a “sociedade da lei e ordem” dos anos

1970. O pânico moral e a instabilidade econômica legitimaram o

recurso do Estado à repressão como gestão da crise, racionalizando e

normalizando o policiamento. Essa campanha também teve uma

vantagem menos óbvia: legitimava a iniciativa do Estado não apenas

para conter a criminalidade, mas também para disciplinar a classe

trabalhadora intransigente, cujas greves eram inflexíveis e

poderosas.

As formas específicas de racismo no Reino Unido dos anos 1970

estavam fortemente relacionadas a esse contexto. Em paralelo a

essas dinâmicas culturais e políticas, havia a ascensão do sentimento

anti-imigrantes, expressado por figuras como o membro do

parlamento Enoch Powell e o neofascista National Front (Frente

Nacional). Era uma resposta à redefinição da identidade britânica

por rastas e rude boys. Hall e seus colegas abordaram esse conflito cultural através do aumento da percepção de crimes violentos. As

representações da mídia de assaltos nos anos 1970 tinha uma

característica particular, que persiste hoje em dia: uma associação

deliberada e constante do crime com jovens negros.

A população negra, concentrada nos bairros mais pobres,

começara a sofrer mais com a violência policial já no início dos anos

1970, mas com a turbulência política e o colapso econômico do meio

da década, passaram a sofrer também com os cortes de serviços, de

educação e de proteção social. Embora os Estados Unidos nunca

tivessem vivido uma mudança desse tipo em direção à social-

democracia – pelo menos não desde o New Deal, o qual não foi

apresentado na linguagem socialista e não veio da vitória eleitoral de

partidos socialistas – os paralelos são muito evidentes e foram

claramente notados em Policing the Crisis. As revoltas urbanas,

como vimos, responderam aos mesmos tipos de questões

econômicas e foram a base de profundas mudanças na política negra.

De fato, no Reino Unido assim como nos Estados Unidos, uma

nova sensibilidade de resistência surgiu nos bairros pobres ao longo

dos anos 1960. E o que surgira agora era uma situação explosiva: “um

setor da população, já mobilizado em termos de consciência negra,

era agora também o setor mais exposto ao ritmo acelerado da

recessão econômica”. A consequência foi “nada menos do que a

sincronia dos aspectos de raça e classe da crise”. Essa sincronia foi

manifestada clara e concretamente pela polícia. “Policiar os negros

se misturou ao problema de policiar os pobres e de policiar os

desempregados: todos os três estavam concentrados exatamente nas

mesmas áreas urbanas”. Alimentado pela mídia de massa e pela

retórica de políticos, “policiar os negros” se tornou “sinônimo da

 

questão 4 maior de policiar a crise”.

Hall e seus colegas se esforçaram para mostrar que essa convulsão

nos bairros pobres não podia simplesmente ser entendida como um

fenômeno separado das lutas dos operários de fábrica. É claro, as

duas lutas podiam ser diferenciadas de maneiras significativas, uma

vez que representavam dois tipos diferentes de composições

políticas e portanto dois tipos diferentes de estratégias de

organização. Nos Estados Unidos, essa divisão de estratégias

políticas era representada mais nitidamente por duas organizações:

o Black Panther Party (Partido dos Panteras Negras) e a League of

Revolutionary Black Workers (Liga dos Trabalhadores Negros

Revolucionários). Enquanto o BPP se baseava explicitamente na

capacidade de ação do lumpemproletariado – nas ruas e não nas

fábricas – a LRBW afirmava que os trabalhadores negros nos locais

de trabalho carregavam o maior potencial revolucionário.

O grande mérito de Policing the Crisis foi entender como essas

duas composições de classe se desenvolveram a partir de uma lógica

 

estrutural 5 uni fi cada. A população negra, no Reino Unido assim

como nos Estados Unidos, também participava no trabalho

industrial. E os trabalhadores negros tinham nesse período um

papel central nas lutas de classe desestabilizadoras. Em muitas das

disputas industriais mais cruciais, como Hall e seus colegas

escreveram, “os operários negros e brancos se engajaram numa luta

comum”. No entanto, os operários negros eram ao mesmo tempo

representados desproporcionalmente nos trabalhos não

qualificados ou semiqualificados, carregavam o fardo da

desqualificação e eram mais visados nas demissões. O resultado da

mudança das referências ideológicas na crise de hegemonia

significou que essas divisões poderiam ter um papel político nocivo:

Embora os pobres negros e brancos se encontrem objetivamente na mesma

posição, eles habitam mundos ideologicamente tão separados que cada um

pode ser apresentado ao outro como grupo de referência negativo, a “causa

manifesta” do infortúnio um do outro. À medida que a situação econômica

aperta, a competição entre trabalhadores aumenta. E a competição

estruturada em termos raciais ou de distinções de cor é um grande negócio.

É exatamente nesse ponto que o National Front está atuando no momento,

com considerável sucesso. Portanto, a crise da classe trabalhadora é

reproduzida, mais uma vez, através dos mecanismos estruturais do

racismo 6 , como crise nas e entre as classes trabalhadoras.

 

Na sua música “ Wat about Di Working Claas”, Linton Kwesi

Johnson resumiu como essa dinâmica de divisão racial colocou um

obstáculo ao sucesso das lutas operárias:

 

Não se dê o trabalho de culpar a classe trabalhadora negra, Sr. Racista

Culpe a classe dominante

Culpe seu patrão capitalista

Nós 053 pagamos os custos , nós sofremos as perdas

 

A organização da classe trabalhadora não foi debilitada apenas

pela ideologia da divisão racial, mas também pela sua decomposição

via desemprego – e, na experiência cotidiana, o desemprego estava

bastante relacionado à raça. Devido às consequências específicas da

recessão econômica nas comunidades negras, a força de trabalho

negra agora parecia ser algo como uma “fração de classe etnicamente

 

distinta 7 – a mais exposta aos ventos do desemprego”.

A difícil tarefa era entender que tipo de capacidade de ação

política poderia ser identificada nessa nova composição da força de

trabalho. Uma vez que os jovens negros estavam sendo incorporados

cada vez mais ao exército industrial de reserva formado por desempregados, não poderia haver dúvida de que sua condição

objetiva estava se deteriorando. A questão era como eles

compreenderam e representaram esse processo objetivo , e a

natureza da subjetividade que constituíram para resistir a ele. Sobre

a experiência comum de desemprego, Policing the Crisis sugeriu que

“o conteúdo social e o significado político da situação de ‘sem-

 

trabalho 8 ’ estão sendo completamente transformados por dentro ”.

A militância entre jovens negros não estava vindo da socialização do

chão de fábrica, mas dessa transformação de sem-trabalho. Com

base no periódico Race Today, que contava com figuras influenciadas

por C.L.R. James, como Linton Kwesi Johnson, Darcus Howe e

Farrukh Dhondy, os autores identificaram tendências políticas que

emergiam na comunidade negra. O novo dinamismo político estava

 

baseado na autonomia e ação dos grupos negros em luta; sendo a crescente

“recusa do trabalho” dos negros desempregados o fenômeno mais

significativo dessa luta. Os altos índices de desemprego na juventude negra

são aqui reinterpretados como parte de uma “recusa do trabalho”

consciente e política. Essa recusa do trabalho é crucial, uma vez que atinge

o capital. Significa que esse setor da classe recusa entrar na competição com

aqueles 9 que já estão no trabalho produtivo.

 

A capacidade de ação política dos sem-salário, portanto, tem como

base formas de autoajuda: da “contravenção” às culturas informais

de ajuda mútua, a partir da herança cultural caribenha que os

imigrantes trouxeram com eles. Embora não houvesse

necessariamente um conteúdo político na contravenção, os

 

exemplos 054 americanos de Malcolm X e George Jackson indicaram

seu potencial como lugar de desenvolvimento de uma prática

revolucionária. Ser sem-salário foi redefinido nas ruas “como uma forma de luta positiva em vez de passiva; como pertencente a uma

maioria ao invés de uma experiência ‘marginal’ da classe

trabalhadora. Uma posição que ganhou grandes dimensões,

culturalmente e ideologicamente, e, portanto, capaz de fornecer a

 

base 10 de uma estratégia de classe viável ”.

Além disso, uma vez que a classe trabalhadora em geral estava

enfrentando um aumento do desemprego, à medida que o Estado a

colocou para pagar os custos da crise, essas novas formas de

contestação ganharam uma importância geral. Reformas

conquistadas anteriormente estavam sendo revertidas, e o poder

político da classe trabalhadora e de suas organizações foi posto em

xeque por um “consenso autoritário”. À medida que essa dinâmica

de erosão e ataque continuou com a crise, as práticas de

policiamento e as representações do crime pela mídia não foram, de

modo algum, questões marginais, mas sim centrais à política da

classe trabalhadora, colocando “as questões mais pesadas e críticas

de estratégia e de luta”: “como evitar que uma parte considerável da

 

classe 11 não seja mais ou menos criminalizada permanentemente ”.

Identificar as novas capacidades de resistência dos desempregados

negros e achar uma forma de uni-las à luta de classe mais ampla

poderia servir como base para responder ao consenso autoritário,

que ameaçava a classe trabalhadora como um todo.

Porém, essa análise encontrou um possível limite. O sem-salário e

as formas de organização e consciência que o acompanham

poderiam ser entendidas de duas maneiras. Uma interpretação via o

sem-salário e suas formas autônomas de reprodução, incluindo o

crime, como uma forma de recusa do trabalho. Mas uma

interpretação contrária, que ganhou uma incômoda proeminência à

medida que a recessão se aprofundava, dizia que

os negros, que em grande número, estão “recusando o trabalho” estão

fazendo da necessidade uma virtude. Praticamente não há trabalho para os

jovens negros que saem da escola recusarem. Tão grande quanto possa ser a

fração que descobriu ser possível sobreviver através da vida de

contravenção nas ruas, é maior o número de negros que pegaria um

trabalho 12 se lhes oferecessem.

 

Não havia uma solução clara para esse dilema. Enquanto teorias

do lumpemproletariado forneciam ideias úteis, o emprego desse

conceito de classe na África colonial, por autores como Frantz

Fanon, não tratava das condições das metrópoles capitalistas

avançadas tão automaticamente quanto os Black Panthers

pensavam. Essa tensão pareceu ser insolúvel na teoria, demandando

a elaboração de novas práticas e formas de organização.

É com base nessa análise política e histórica complexa e detalhada

que Policing the Crisis apresenta um slogan frequentemente citado:

 

“ 13 Raça é a maneira como a classe é vivida ”. Esse slogan não deve ser

interpretado como uma descrição idealista da experiência vivida de

raça e classe como categorias abstratas, como se pudessem ser

aplicadas desconsiderando cada situação histórica. É na verdade

uma análise materialista do modo que, nessa conjuntura histórica

particular , os membros negros da classe trabalhadora

desenvolveram uma consciência da luta de classes através da

experiência de “raça”, que era ela própria vinculada à crise de

hegemonia. Na especificidade desse momento histórico, foi “através

da raça que os negros compreenderam, lidaram e começaram a

resistir à exploração que é uma característica objetiva da sua

 

situação 14 de classe ”.

Ao mesmo tempo, uma vez que a raça era também uma

característica estrutural da resposta capitalista à luta de classes

vinda de baixo, um instrumento de divisão e desorganização, isso

significava que a raça poderia também acabar se tornando um

obstáculo ao desenvolvimento da organização de classe:

 

O capital reproduz a classe como um todo, estruturada pela raça. Ele

domina a classe dividida, em parte, através dessas divisões internas que têm

o “racismo” como uma de suas consequências. Ele contém e dá cabo das

organizações representativas de classe confinando-as, em parte, a

estratégias e lutas especificamente raciais, as quais não superam seus

limites, suas barreiras. Através da raça, ele continua a derrotar as tentativas

de construir, num nível político, organizações que de fato representem

adequadamente a classe como um todo – isto é, que a represente contra o

capitalismo, contra o racismo15.

 

Porém, a perspectiva de gerar formas de organização que

pudessem enfrentar o capitalismo e o racismo tinha um novo e

formidável oponente. A eleição de Margaret Thatcher como líder da

oposição em 1975 representou o movimento da direita radical da

margem para o centro do poder , apoiando-se na ideologia da lei e

ordem para avançar na estratégia de romper com o consenso pós-

guerra. A dominação de classe ganharia novos contornos, expresso

principalmente na “tendência do Estado se afastar do uso do

 

consenso 16 em direção ao uso da coerção ”. O pânico moral de

assaltos, portanto, teve um papel importante na estabilização do

Estado. A percepção do aumento da criminalidade foi “uma das

principais formas de consciência ideológica pela qual uma ‘maioria

silenciosa’ é conquistada para dar apoio a medidas cada vez mais coercitivas por parte do Estado, concedendo legitimidade a um

 

exercício 17 da repressão ‘ maior do que o habitual ’”.

Policing the Crisis mostrou como a gestão da crise capitalista

efetuada pelo Partido Trabalhista criou contradições que abriram

espaço para novas estratégias da direita, e como o consentimento

popular à autoridade estava em vias de ser assegurado por novos

tipos de luta ideológica. Emergia agora uma nova estratégia

antiestatista da direita – ou melhor, que se dizia antiestatista para

ganhar o consentimento de uma população descontente, enquanto

visava uma alta centralização do governo. A oposição ao “governo

inchado” como uma marca registrada americana encontra seus

antecedentes e ecos aqui.

Essa estratégia funcionou aproveitando o descontentamento

popular e neutralizando a oposição, fazendo uso de alguns

elementos do sentimento popular para criar uma nova espécie de

consenso. Em 1979, Hall escreveu sobre essa nova estratégia no

artigo chamado “The Great Moving Right Show”. Foi originalmente

publicado apenas alguns meses antes da eleição de Thatcher como

Primeira Ministra na Marxism Today, a revista teórica do Partido

Comunista da Grã Bretanha. Ele insistia que as raízes da sua

ascensão estavam exatamente nas contradições da gestão de crise

dos Trabalhistas, a qual tinha “desorganizado efetivamente a

resposta à crise da esquerda e da classe trabalhadora”. Sejam quais

forem as promessas que possam ser oferecidas pelos políticos em

tempos de prosperidade – melhoria da saúde, mais empregos, nova

infraestrutura –, uma vez que esses políticos entram no governo, são

obrigados e gerir o modo de produção capitalista e assegurar

condições de crescimento. No contexto da crise econômica, eles

devem necessariamente propor soluções que são do interesse do capital e que possam ganhar seu apoio. Mesmo políticos socialistas

não estão livres dessa exigência, e enquanto a estrutura do

capitalismo permanecer incontestada, eles devem usar suas ligações

com os dirigentes sindicais “não para avançar mas para disciplinar a

classe e as organizações que representam”.

Tudo isso acontece pelo Estado, portanto a ideologia dos políticos

de centro-esquerda, do Partido Trabalhista aos Democratas,

equivale a “uma interpretação neutra e benevolente do papel do

Estado como encarnação do interesse nacional sobre a luta de

classes”. Essa ideologia equaciona o interesse social geral com a

expansão do Estado, marginalizando expressões de poder popular

que estão fora dos limites do Estado. Além disso, usa o aparelho de

intervenção ampliado do Estado para “gerir a crise capitalista em

favor do capital”. O Estado acaba “inscrito em todas as

características e aspectos da vida social”. E as demandas de gestão da

crise transformam até mesmo um Estado social-democrata em um

 

agente 18 do capital.

Esse é o pano de fundo para a direita radical, que opera no mesmo

espaço da social-democracia e explora suas contradições. Ela “pega

os elementos que já estão construídos, desmonta-os, os reconstitui

numa nova lógica e articula o espaço de uma nova maneira,

 

polarizando 19-o à direita ”. É capaz de apelar à desconfiança no

estatismo, à frustração com a gestão social-democrata da crise do

capitalismo , avançando uma agenda neoliberal aparentemente

antiestatista. O thatcherismo atacou os valores coletivistas, mas

também o estatismo que realmente afligia os Trabalhistas desde o

início. Aproveitou também a distância que as lideranças dos

reformistas mantiveram da base e demonstrou como eram verdadeiramente irreconciliáveis os valores coletivistas e a tarefa de

gerir a crise capitalista.

A conquista notável no thatcherismo foi sua habilidade de juntar

as filosofias econômicas abstratas do liberalismo austríaco ,

desenvolvidas por heróis libertarianos como Ludwig von Mises e

Friedrich Hayek, a sentimentos populares relativos a “nação,

família, dever, autoridade, padrões, autossuficiência” – poderosos

motores ideológicos no contexto da mobilização política pela lei e

ordem. A essa “rica mistura”, Hall apelidou de “populismo

autoritário”, e suas manobras ideológicas não podiam ser reduzidas

a simples truques:

 

Seu sucesso e eficácia não residem na sua capacidade de enganar gente

desavisada, mas na maneira que aborda problemas reais, experiências reais

e vividas, contradições reais – e assim ser capaz de representá-los numa

lógica de discurso que os coloca sistematicamente em linha com as políticas

e 20 estratégias de classe da direita.

 

A estratégia foi notavelmente bem-sucedida. Teve sucesso em

alterar o discurso político, construindo um bloco de apoio público à

reestruturação neoliberal e forçando as organizações da classe

trabalhadora a recuar. O longo recuo da classe trabalhadora chegou a

um clímax trágico na greve dos mineiros de 1984-85. A força dessa

luta carregou de emoção todas as discussões a respeito. Hall havia

sido muito crítico antes da greve, pelas intensas dificuldades e riscos

implicados por uma greve durante um período de austeridade e de

declínio industrial, assim como pela decisão não democrática de

uma greve sem votação. Ele passou a criticar a mobilização dos

mineiros “como homens” de uma identidade de classe “familial e masculinista” específica, que impediu que a greve dos mineiros se

 

“ 21 generalizasse em uma luta social mais ampla ”.

Aspectos dessa análise eram provavelmente verdadeiros. Mas era

também compreensível que muitos na esquerda reagissem com

escárnio à análise feita por Hall. Tal crítica dos sindicatos no

contexto de um massacrante ataque capitalista parecia errar o alvo.

Um dos críticos de Hall era o sociólogo Ralph Miliband, que

questionou sua visão num artigo chamado “The New Revisionism in

Britain”, publicado na New Left Review em 1985. A principal

preocupação de Miliband foi defender a primazia da classe, que

significava para ele o papel central dos trabalhadores organizados no

movimento socialista – um discurso que ouvimos com frequência

hoje em dia. Miliband argumentava que essa primazia surgia do fato

de “nenhum outro grupo, movimento ou força na sociedade

capitalista ser remotamente capaz de montar uma contestação tão

efetiva e formidável às estruturas existentes de poder e privilégio

 

como 22 o poder dos trabalhadores organizados ”.

O questionamento dessa primazia, na leitura de Miliband, veio

dos chamados “novos movimentos sociais”: os movimentos que

surgiram fora das organizações dos trabalhadores e que tinham

demandas relativas a raça, gênero, sexualidade, ecologia e outros

temas que não eram apresentados explicitamente em termos de

classe. Miliband sensatamente lembrou seus leitores que “a classe

trabalhadora inclui uma enorme quantidade de pessoas que também

são membros de ‘novos movimentos sociais’ ou que são parte dos

grupos sociais que esses movimentos buscam alcançar”. Mas ele

também argumentava que seria um erro essas pessoas entenderem

suas experiências de opressão através de suas identidades. Na

verdade, o conceito de “política de classe” englobava os novos movimentos sociais, uma vez que os trabalhadores organizados não

lutavam por seu benefício “corporativo” e “economicista”, “mas por

toda a classe trabalhadora e por muitos além dela”. Embora a luta

“necessite de um sistema de alianças populares”, Miliband mantinha

que “apenas a classe trabalhadora organizada pode constituir a base

 

desse 23 sistema ”.

Porém foi deixado sem explicação como a classe trabalhadora se

organizaria, num contexto de desorganização induzida de cima que

teve o thatcherismo como pioneiro . A discussão de Miliband sobre

os novos movimentos sociais se manteve especulativa, sem uma

investigação séria das questões que eles levantaram sobre a

amplitude e diferenças nas experiências da classe trabalhadora, o

conteúdo das reivindicações da classe trabalhadora e as formas de

organização que poderiam surgir fora de sindicatos e partidos.

Diferentemente, a própria análise de raça de Hall como “forma”

através da qual os trabalhadores negros se tornam conscientes de

sua posição de classe era baseada numa análise da composição da

classe trabalhadora negra, na história da cultura migrante e das

organizações políticas das lutas dos negros. E ele foi capaz de, a

partir disso, identificar potenciais formas de atividade política com

relevância geral para a classe trabalhadora como um todo, já que o

racismo era parte da forma pela qual as populações de trabalhadores

eram estruturadas pelo capital.

Paul Gilroy, um orientando de doutorado de Hall no Centro de

Estudos Culturais Contemporâneos nesse período, escreveu no seu

livro There Ain’t No Black in the Union Jack sobre o desafio que isso

colocava tanto às teorias idealistas do racismo quanto às teorias

reducionistas de classe:

O racismo não é um evento singular baseado na aberração psicológica nem

em alguma antipatia a-histórica aos negros, como uma herança cultural do

império e que continue a saturar a consciência de todos os bretões brancos

independente de idade, gênero, renda ou circunstâncias. Ele deve ser

entendido como um processo. Trazer os negros para a história sem ser como

problema ou vítima, estabelecer o caráter histórico do racismo em oposição

à ideia de que é um fenômeno eterno e natural, depende da capacidade de

compreender mudanças políticas, ideológicas e econômicas.

 

Portanto, ao invés de uma “resposta platônica à questão de onde

as ‘raças’ se localizam entre o mundo das relações reais e o mundo

das formas”, Gilroy argumentava que a tarefa de uma análise

materialista era mostrar como “significações raciais, solidariedade e

identidades constituíam a base para ação”:

 

Diferentes padrões de atividade “racial” e de luta política se apresentarão

em determinadas condições históricas. Eles não são concebidos como uma

alternativa direta à luta de classes no nível da análise econômica, mas

devem ser reconhecidos como sendo potencialmente uma alternativa à

consciência de classe no nível político, assim como um fator nos processos

contingentes 24 nos quais as próprias classes são formadas.

 

O argumento de Miliband parecia deixar de lado essas questões.

Ele foi criticado por sua esposa, Marion Kozak, por isso. Segundo ela,

o artigo “New Revisionism” “exagerou a primazia da classe e não

atribuiu peso suficiente aos movimentos sociais, enxergando-os

como fragmentadores em vez de potenciais aliados de movimentos

de classe – como, por exemplo, grupos feministas apoiando os

 

mineiros 25 ”. Essas alianças inesperadas foram recentemente para

as telas de cinema com o filme Orgulho e Esperança (2014), que

mostra os esforços para levantar fundos do Lesbians and Gays Support the Miners (um gesto de solidariedade retribuído pela

participação de grupos mineiros galeses na Parada do Orgulho Gay

de Londres em março de 1985), e o apoio decisivo da União Nacional

dos Mineiros para que a resolução do Partido Trabalhista pelos

 

direitos 26 LGBT fosse bem-sucedida. Como Doreen Massey e Hilary

Wainwright escreveram na época nos seus comentários sobre os

grupos feministas de apoio a greves: “Não é uma questão de ação

operária ou de novos movimentos sociais, nem a de simplesmente

somar um ao outro... Novas instituições podem ser construídas de

modo que ‘política de classe’ possa ser vista como mais do que

simplesmente militância operária somada a representação

 

parlamentar 27 ”. Foi a urgência dessas novas instituições, e a

dificuldade de construí-las, que fundamentaram o pessimismo de

Hall durante a greve dos mineiros:

 

A greve foi condenada a ser defendida e perdida como uma velha e não como

uma nova forma de política. Para aqueles de nós que sentiam isso desde

muito cedo, foi duplamente insuportável porque – na solidariedade que

demonstrou, nos gigantescos níveis de apoio que gerou, no envolvimento

sem paralelo das mulheres nas comunidades de mineiros, na presença

feminista na greve, na quebra de barreiras entre diferentes interesses

sociais que pressagiou – a greve dos mineiros foi na verdade

instintivamente uma expressão da política do novo, foi um grande combate

contra o thatcherismo que deveria ter marcado a transição à política do

presente e do futuro, mas que foi defendida e perdida, aprisionada nas

categorias 28 e estratégias do passado.

 

Mas se cada lado do debate tinha uma visão, não está claro se

algum participante compreendeu o que a derrota catastrófica da

greve dos mineiros realmente representou. Apesar do relato de Hall

sobre as fortes consequências do populismo autoritário, sua teoria não pareceu antecipar o quão drasticamente essa derrota

transformaria o campo da ação política ou quão profundas suas

consequências seriam.

Um grande lapso no nosso entendimento da transição neoliberal é

não entender que esse momento era também uma derrota dos novos

movimentos sociais, tanto quanto dos trabalhadores organizados.

Embora as reivindicações nesses movimentos tenham sobrevivido,

eles cresceram cada vez mais separados de mobilizações de massa

populares que pudessem fazer das reivindicações uma contestação a

todo o sistema. Enorme progresso foi feito no nível cultural,

mudando fundamentalmente nossa linguagem. Mas as estruturas

materiais fundamentais foram poupadas.

Como resultado, as linguagens progressistas dos novos

movimentos sociais, desenraizadas da sua base popular, seriam

apropriadas como nova estratégia da classe dominante. Bill Clinton,

que seguiu o caminho de Thatcher e Reagan e, por sua vez, inspirou a

reformulação thatcherista do Partido Trabalhista feita por Tony

Blair, não nos trouxe apenas o Tratado de Livre Comércio da

 

América 055 do Norte ( NAFTA ), a Crime Bill e a Welfare Reform

 

Bill056, mas também incorporou a política a um estilo cultural

específico, dirigida por grupos focais e consultores de imagem, que

atuavam na diversidade dos novos tempos – levando ao famoso

comentário de Toni Morrison a respeito de Clinton ser “o primeiro

presidente negro”. No entanto, enquanto Bill tocava saxofone no

Arsenio Hall Show, Hillary Clinton descrevia jovens negros como

“superpredadores” – um comentário que os ativistas do Black Lives

Matter lembraram a ela durante sua campanha em 2016. Uma

expressão além de populismo autoritário provavelmente será

necessária para descrever esse fenômeno, que mostrou, por um lado, que a estratégia hegemônica da direita era tão bem-sucedida a ponto

de absorver uma suposta esquerda e facilitar a consolidação da

desigualdade econômica e a reversão das reformas anteriormente

concentradas no Estado; e, por outro lado, que esse pluralismo, a

celebração da mídia popular e a virada para a cultura juvenil não

constituíram necessariamente uma força de oposição na ausência de

uma mobilização revolucionária viável – como as campanhas de base

para o primeiro presidente negro de verdade demonstrariam mais

tarde.

É exatamente no impedimento do desenvolvimento de um agente

antagonista que a discussão sobre cultura e ideologia deve ser

situada – não como explicação para os complexos mecanismos de

mudanças eleitorais. Muito depois de Thatcher e Reagan, uma

indústria de analistas continua a perguntar por que americanos da

classe trabalhadora votam contra os seus “interesses”, nos

convidando a opor Kansas contra Connecticut, estado vermelho

contra estado azul. Mas, na verdade, é na decomposição e

desorganização da classe trabalhadora que devemos buscar uma

explicação para a ascensão da direita – não na consciência, falsa ou

não. A evidência empírica mostra que a classe trabalhadora dos

Estados Unidos, medida por renda, possui uma consistente

preferência eleitoral pelos Democratas, e isso permanece verdade

mesmo se restringirmos os dados à “classe trabalhadora branca”.

Mas, ao contrário da lógica de mercado de “interesses”, essa prática

eleitoral nunca na verdade aumentou o poder da classe trabalhadora

e, portanto , a etérea opinião pública americana acaba subordinada

 

ao 29 poder organizativo das vanguardas da direita.

O populismo autoritário ter mudado ou não as ideias das pessoas é

uma questão mal formulada. Seu papel na transformação neoliberal foi atacar a possibilidade de aliança estratégica entre os novos

movimentos sociais e a organização nos locais de trabalho.

Ideologias tradicionalistas sobre família, igreja e nação foram um

ataque preventivo contra a potencial barreira política à acumulação

que essas alianças poderiam impor a partir debaixo. Como Paul

Gilroy aponta:

 

O impulso populista nos padrões recentes de radicalização é uma resposta à

crise de representação. A direita criou uma linguagem de nação que ganha

apelo populista a partir de ambiguidades calculadas que permitem

transmitir a si própria como uma linguagem de “raça”. Ao mesmo tempo, os

recursos políticos da classe trabalhadora branca são incapazes de oferecer

uma visão, linguagem ou prática capaz de fornecer uma alternativa. Elas são

incapazes atualmente de representar a classe como uma classe, isto é, fora

das categorias em que o capital a estrutura e a reproduz por meio da

“ 30 raça ”.

 

Para enfrentar a política identitária branca que compõe o

populismo de direita que atualmente ocupa a Casa Branca,

precisamos fornecer visões, linguagens e práticas alternativas –

responder com uma política identitária oposta e pluralista não tem

tido sucesso. A “renaturalização do capitalismo” que Wendy Brown

descreveu é exatamente um sintoma da derrota e desorganização

dos movimentos de massa. Como Brown comentou numa reflexão

de 1999 sobre a obra de Hall, o resultado tem sido:

 

uma esquerda que se tornou mais ligada a sua impossibilidade do que a sua

potencialidade, uma esquerda que quase não sai de casa pensando não em

esperança, mas na sua própria marginalidade e fracasso, uma esquerda que

está portanto presa na estrutura de ligação melancólica a certos problemas

do seu próprio passado morto, cujo espírito é de morte, cuja estrutura de

desejo 31 é de olhar para trás e de punir.

É difícil escapar dessa sensibilidade melancólica. Muitas vezes

fi co surpreso em ouvi-la até mesmo de meus alunos de graduação

que – entre os trabalhos da faculdade e dois ou três empregos

parciais – parecem ter ficado sem tempo para cultivar um espírito de

otimismo juvenil e rebelde. Cheguei a pensar que essa tristeza é a

principal causa da redução da política à identidade pessoal de cada

um. Não é somente a ideia de emancipação universal que começou a

parecer antiquada e fora de moda. A própria possibilidade de

conquistar qualquer coisa além da proteção temporária, confortável

e individual parece uma ilusão. Portanto, um apelo para

transformações sociais universalmente benéficas é muitas vezes

entendido como uma afronta pessoal: ao invés da minha

reivindicação individual por segurança e reconhecimento, sou

apresentado a um objetivo que está além das minhas possibilidades

de alcance. Mas se estivermos atentos às lutas que estão fora dos

limites do Estado, a emancipação universal aparece no horizonte.

 

Notas do tradutor/editor:

 

053 “Nah badda blame it ’pon the black working class, Mr. Racist/ Blame it ’pon the ruling

class/ Blame it ’pon your capitalist boss/ We pay the costs, we suffer the loss” (“Wat about

Di Working Claas” é uma das faixas do disco Making History, gravado em 1983 por Lindon

Kwesi Johnson, que, por sua vez, é um dos favoritos da editora Veneta).

054 Em 1961, George Jackson foi condenado por assalto à mão armada a um posto de

gasolina (em que roubou 70 dólares). Tinha 20 anos de idade. A sentença foi por tempo

indeterminado, ou seja, a libertação aconteceria apenas quando as autoridades

decidissem que deveria acontecer (nos Estados Unidos, esse tipo de sentença, chamada

one year to life, só foi declarada inconstitucional em 1984). Jackson passou o resto da vida

na prisão, mas nela tomou contato com a literatura marxista e se tornou um autor de

grande sucesso. Foi morto em 9 de agosto de 1971, durante uma tentativa de fuga (N. E.).

055 Conhecida como Crime Bill ou Violent Crime Control and Law Enforcement Act, foi

a maior lei criminal da história dos Estados Unidos, promulgada por Bill Clinton em 1994

(N. T .).

056 Reforma da proteção e seguridade social no governo Bill Clinton que restringiu o

acesso a benefícios sociais (N . T.).

 

Notas do autor:

 

1 Sobre o assunto, veja Asad Haider, “Bernstein in Seattle,” Viewpoint (Maio 2016).

2 Stuart Hall, Chas Critcher, Tony Jefferson, John Clarke e Brian Roberts, Policing the

Crisis: Mugging, the State and Law and Order (Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2013),

224.

3 Hall et al., Policing the Crisis, 211.

4 Hall et al., Policing the Crisis, 326.

5 Para um entendimento da complexa interrelação das revoltas urbanas e das lutas de

fábrica, veja Dan Georgakas e Marvin Surkin, Detroit: I Do Mind Dying (Chicago:

Haymarket, 2012). A análise teórica mais significativa dessa interrelação na época está

num texto de 1963 que influenciou profundamente a LTNR: James Boggs, The American

Revolution (New York: Monthly Review Press, 2009).

6 Hall et al., Policing the Crisis, 333.

7 Hall et al., Policing the Crisis, 325.

8 Hall et al., Policing the Crisis, 349.

9 Hall et al., Policing the Crisis, 363.

10 Hall et al., Policing the Crisis, 371.

11 Hall et al., Policing the Crisis, 382.

12 Hall et al., Policing the Crisis, 383.

13 Hall et al., Policing the Crisis, 386.

14 Hall et al., Policing the Crisis, 340.

15 Hall et al., Policing the Crisis, 387.

16 Hall et al., Policing the Crisis, 214.

17 Hall et al., Policing the Crisis, 218.

18 Stuart Hall, “The Great Moving Right Show,” Marxism Today (Janeiro 1979): 18; veja

também uma versão mais elaborada em The Hard Road to Renewal (London: Verso,

1988), 50–51.

19 Hall, “Great Moving Right Show,” 16.

20 Hall, “Great Moving Right Show,” 20.

21 Hall, Hard Road to Renewal, 203–204.

22 Ralph Miliband, “The New Revisionism in Britain,” New Left Review I, no. 150 (Abril

1985): 6.

23 Miliband, “New Revisionism,” 26.

24 Paul Gilroy, There Ain’t No Black in the Union Jack (London: Hutchinson, 1987), 27.

25 Michael Newman, Ralph Miliband and the Politics of the New Left (London: Monthly

Review Press, 2003), 285–86.

26 Veja Diarmaid Kelliher, “Solidarity and Sexuality: Lesbians and Gays Support the

Miners 1984–5,” History Workshop Journal, vol., 77, no. 1 (Abril 1, 2014): 240–62.

27 Doreen Massey and Hilary Wainwright, “Beyond the Coalfields,” in Digging Deeper:

Issues in the Miners’ Strike, ed. Huw Beynon (London: Verso, 1985), 168.

28 Hall, Hard Road to Renewal, 205.

29 Veja Larry M. Bartels, “Who’ s Bitter Now?” New York Times, Abril 17, 2008.

30 Gilroy, There Ain’t No Black, 29.

31 Wendy Brown, “Resisting Left Melancholy,” Boundary 2, vol. 26, no. 3 (Outono 1999):

26.