Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje
Apresentação - por Amauri Gonzo
AGRADECIMENTOS
Primeiro tenho que agradecer a duas pessoas. Chris Connery me
encorajou a escrever este livro, foi o primeiro leitor do manuscrito
completo e me levou a fazer com que as partes formassem um todo.
Ben Marbie é o responsável por dar a essa ideia uma forma concreta
devido a sua competência como editor. Ambos foram também
importantes interlocutores na formação das ideias que este livro
apresenta.
De fato, essas ideias foram elaboradas coletivamente com amigos,
companheiros e colegas. Não sei como mencionar todos, mas espero
que todos reconheçam minha enorme gratidão. Mencionarei aqui
aqueles que discutiram essas questões comigo no alvoroço da prática
política, aqueles que me encorajaram a anotar meus pensamentos e
me ajudaram a torná-los compreensíveis e aqueles que bravamente
leram e comentaram a versão preliminar inteira: Robert Cavooris,
Deborah Gould, Erin Gray, Evan Grupsmith, David Lau, Patrick
King, Wendell Hassan Marsh, Dave Mesing, G.S. Sahota, Jason
Smith, Alberto Toscano, Delio Vasquez, Gavin Walker e Philip
Wohlstetter.
Minhas aventuras editoriais começaram numa colaboração
intelectual e política com Salar Mohandesi, cuja influência está presente neste livro. Ao longo do caminho colaborei com o coletivo
Viewpoint, e todos os seus integrantes foram valorosos leitores,
críticos e interlocutores.
Os detalhes históricos do manuscrito foram revi- sados por Emma
Teitelman, Tim Barker e Matt Karp. A revisão e preparação editorial
precisa e perspicaz de Sarah Grey deu ao texto um refinamento
indispensável. Quaisquer erros que possam ser encontrados são, no
entanto, de minha inteira responsabilidade.
Provavelmente não tive uma única ideia na minha vida que não
tenha sido formada em algum tipo de diálogo com meu irmão Shuja
Haider . Ele se tornou um dos mais proeminentes críticos da política
identitária nos dias de hoje; se não o citei neste livro foi
simplesmente para evitar que os leitores se confundissem.
Sem o apoio pessoal e constante de Julie McIntyre, eu nunca teria
produzido nada. Ela é uma fonte inesgotável de estímulo intelectual
e inspiração. Estou aguardando ansiosamente seu primeiro livro.
Dedico este livro a meus pais, Jawaid Haider e Talat Azhar, que me
ensinaram a nunca comprometer princípios éticos, mesmo quando
eles vão contra as ideias reinantes e incomodam as autoridades.
INTRODUÇÃO
Todos nós nascemos em algum lugar, escreveu o filósofo Louis
Althusser . Nasci numa pequena cidade na Pensilvânia central,
embora fosse difícil entender por quê. Ninguém sabia pronunciar
meu nome e em casa falávamos outra língua. Verão sim, verão não,
fazíamos as malas e passávamos longas e agonizantes horas em
avi 001 õ es , a fi m de ver o resto da nossa família em Karachi .
Não tenho certeza se saí dessa experiência com alguma coisa que
parecesse uma identidade. De todo modo, pedaços e partes que
podem ter constituído minha individualidade parecem estar
espalhados por todo o globo. A identidade, paradoxalmente, parecia
ser determinada a partir de fora – ou talvez mais que isso: parecia
não determinada. Em meio aos garotos brancos na Pensilvânia que
perguntavam de onde eu era (não podia ser da Pensilvânia) e os
parentes paquistaneses que apontavam meu sotaque americano,
parecia que, se eu tinha uma identidade, ninguém possuía realmente
capacidade de reconhecê-la.
Mas acho que tive uma experiência diferente com minha
identidade em setembro de 2001. Naquele dia cheguei à escola e
soube que o país tinha sido atacado.
Pelo resto do dia assistimos a aviões colidindo com o World Trade
Center, ininterruptamente. Tive dificuldade em analisar as reações
de meus colegas de turma. Eles, é claro, estavam horrorizados,
bravos, devastados. Eu estava perplexo.
Não era incomum ver reportagens na TV de incidentes terroristas,
ações militares e mesmo golpes no Paquistão. Lembro-me de um
jornalista dizendo solenemente que Karachi era “a cidade mais
violenta do mundo”. Nos verões da minha infância lá, via as ruas
cheias de crianças como eu, mas que estavam sem teto, passando
fome, fracas demais para fazer as moscas saírem dos seus corpos.
Alguma coisa na geometria política estava fora de alinhamento, e a
visão a partir da Pensilvânia parecia limitada demais. Quando Bill
Clinton ordenou um ataque de mísseis à fábrica farmacêutica Al-
Shifa 002 no Sudão, minha professora da sexta série nos fez sentar e
escrever um parágrafo explicando por que tal atitude foi necessária.
Mas eu sabia que do outro lado da tela da televisão havia uma massa
de seres humanos que viam as coisas de forma diferente.
O colapso das torres gêmeas, ao qual assistimos incrédulos,
também reverberou na minha experiência cotidiana. Até então tinha
me acostumado a conviver com uma cultura de tolerância
prepotente e excludente. Mas o evento fez vir à tona a hostilidade
franca e aberta. Eu era chamado de “Osama” pelos meus colegas de
turma, enquanto a professora assistia com indiferença ou
concordância. Fui tomado por um medo inesperado em uma
sorveteria, quando um homem branco e velho de aparência amigável
subitamente fez uma careta ao ver minha família e começou a
vociferar em nossa direção sobre “terroristas do Iraque”, enquanto
nos dirigíamos a uma mesa empunhando ameaçadoras casquinhas
de sorvete.
Minha identidade se tornou uma questão de segurança nacional.
Mas como eu poderia responder a esse cenário? Deveria afirmar
orgulhosamente uma identidade paquistanesa fixa, uma que nunca
pareceu se ajustar direito, que pertencia a um lugar do outro lado do
mundo? Ou deveria assimilar o mundo de branquidade à minha
volta, mesmo que ele fosse racista e provinciano e nunca tivesse
realmente me acolhido?
Se havia uma resposta a essas perguntas, ela não foi fornecida na
escola. Portanto, ao lado de minhas outras leituras – mais
marcadamente o Manifesto Comunista e Trópico de Câncer –
comecei a estudar a questão da identidade. Entre o “Trabalhadores
do mundo, uni-vos!” de Marx e Engels, e o nomadismo de Henry
Miller – no qual, como Gilles Deleuze afirmou, “tudo é partida,
mudança, passagem, salto, daemon, relação com o exterior” –, eu
estava convencido da impossibilidade de estabelecer um território
fi 1 xo.
Na sexta série fiz um projeto de ciência sobre as três Leis de
Newton. Próximo a Isaac Newton, na seção de biografia da biblioteca
pública, estava “Newton, Huey P .”. Era um livro que chamava
atenção pela capa e com um título desorientador: Revolutionary
Suicide003.
Acabei me identificando com sua história. Neste mesmo país,
neste mundo branco e alienante, havia outros que viveram uma
experiência de exclusão bem pior do que qualquer coisa que eu tinha
vivenciado 004 . Li com horror o relato de Newton sobre o
isolamento na solitária da prisão, mas fiquei sensibilizado pelo seu
comprometimento em aprender a ler, debruçando-se repetidas
vezes na leitura de A República, de Platão. Ele uniu seu crescimento
intelectual à prática política como fundador do Partido dos Panteras Negras, e isso serviu para mim como um modelo de vida mental que
era bem mais convincente que o hedonismo boêmio de Henry Miller
ou o alpinismo social egoísta esperado dos membros de uma
“minoria modelo”.
Mas o que mais importava para mim era que Newton não parou na
sua própria identidade. Sua experiência o levou além de si mesmo,
assumindo uma política baseada na solidariedade com Cuba, China,
Palestina e Vietnã. Seu exemplo corroborou o Manifesto Comunista:
a vasta pobreza que testemunhei no Paquistão e a longa história de
opressão racial que ecoava nos dias de hoje na Pensilvânia andam de
mãos dadas. Qualquer solução teria que confrontar ambas. As
percepções desse brilhante pensador, Karl Marx, não pertenciam à
Europa. Pertenciam ao mundo todo, a todos que lutavam contra a
injustiça. Elas foram refinadas e desenvolvidas na Ásia, África e
América Latina. Mesmo aqui, no coração da besta, em meio à acidez
e à bílis do patriotismo e do evangelicalismo, os negros americanos
mostraram que esse legado não podia ser circunscrito
geograficamente. Li a Autobiografia de Malcolm X mais tarde e me
aproximei dela com maior ambivalência, cético como me tornei
quanto a todas as formas de religião. Mesmo diante da discriminação
antimuçulmana, parte dela direcionada especificamente a mim,
nunca fiquei tentado a defender o Islã. Odiava os fanáticos religiosos
que nos deixaram nessa bagunça. Odiava a cultura toda de
irracionalismo, mitologia e repressão sexual. Mas de qualquer forma
isso era parte de mim, em palavras, sons, música, arquitetura, e isso
trouxe Malcolm mais para perto do mundo que eu conhecia. O Islã,
para ele, serviu como um caminho para além do fanatismo. Levou-o
a ultrapassar a fixação na sua própria identidade em direção a uma
solidariedade com o mundo todo. Como ele disse na Universidade de Oxford em 1964: “Eu, por mim, me unirei com qualquer um, não me
importa de qual cor seja, uma vez que queira mudar essa situação
miserável que existe neste planeta”. Contra a ascensão de um
sentimento antimuçulmano, presente até mesmo em supostos
esquerdistas que protestam contra um “Islamo-fascismo”, esse era o
tipo de muçulmano com quem eu ficaria orgulhoso que me
associassem.
Mas não havia solução real para o duplo vínculo que os
muçulmanos e os brancos estabeleceram comigo. Era possível
responder aos ataques contra muçulmanos sem assumir a ideologia
conservadora e reacionária do Islã? Por outro lado, era possível
criticar o dano causado pelo fundamentalismo islâmico sem fazer o
jogo dos racistas brancos?
O trabalho de Hanif Kureishi foi uma revelação. Kureishi é um
escritor e cineasta britânico-paquistanês que ousou ficar do lado das
subculturas boêmias que surgiram do punk londrino. Seu filme Meu
Filho, o Fanático, baseado em seu conto homônimo, tratou essas
questões de um modo que eu nunca havia visto na cultura
americana. Um jovem garoto britânico-paquistanês chamado Farid
se cansa de estudar para ser contador e termina o relacionamento
com sua noiva branca, cujos pais ingleses e tradicionalistas mal o
toleravam. Súbita e inesperadamente ele se torna um
fundamentalista muçulmano – para grande surpresa de seu pai,
Parvez, um motorista de táxi que está muito mais interessado em
escutar Louis Armstrong que o profeta Maomé. Farid convence seu
pai 005 a permitir que um mulá de Lahore fique como hóspede na
casa deles. O mulá passa a manhã assistindo a desenhos animados
ocidentais e acaba pedindo a Parvez que o ajude a conseguir um visto
para viver na civilização ocidental que ele condena tão avidamente.
A descoberta de que havia outros (até mesmo paquistaneses,
embora majoritariamente alocados na Inglaterra) se sentindo tão à
deriva quanto eu foi tanto um choque quanto um alívio. Numa
introdução ao roteiro de Meu Filho, o Fanático, Kureishi aponta o
duplo vínculo que vivemos:
O fundamentalismo fornece segurança. Para o fundamentalista, como para
todos os reacionários, tudo já está decidido. A verdade foi assentada e nada
deve mudar. Para liberais serenos, por outro lado, os consolos do
conhecimento parecem menos satisfatórios do que os prazeres da dúvida e
da vontade de descobrir por si mesmo. Mas o sentimento de que não se pode
saber tudo, de que sempre haverá perguntas enlouquecedoras e vívidas
sobre quem se é e como é possível conviver com outras pessoas que não o
aceitam, pode ser devastador. Talvez seja somente até aí que se possa viver
com esse tipo de dúvida. Os racionalistas sempre subestimaram a
necessidade das pessoas em crer. Os valores iluministas – racionalismo,
tolerância, ceticismo – não o fazem suportar uma noite terrível, não
fornecem 2 o conforto espiritual , a comunidade ou a solidariedade.
Os valores iluministas são em geral algo bom, e aqueles de nós que
leem muitos livros com frequência têm esperança de que podemos
mudar o mundo com eles. Não fui exceção. Li Noam Chomsky
obsessivamente, armando-me com fatos e princípios e mergulhando
de cabeça no movimento contra a Guerra do Iraque. Movimento esse
que cresceu rapidamente nas redondezas do campus universitário
quando estava no segundo ano do ensino médio. Esse racionalismo
político ofereceu certo tipo de conforto. Ele confirmou que não
precisava me apoiar na minha identidade para argumentar que a
solução para a violência e o sofrimento que nos alcança nos noticiários era o fim do imperialismo americano e, portanto, do
capitalismo global.
Ao longo dos anos, porém, aprendi que esse racionalismo pode
fracassar terrivelmente. Como Kureishi observa, é devastador viver
com perguntas sobre quem você é. Também é devastador enfrentar o
mundo no qual tanta coisa é errada e injusta. Para opor-se a essa
injustiça, o projeto de emancipação universal, de uma solidariedade
revolucionária global, só pode ser realizado através de organização e
ação. Acredito que é possível alcançar isso, levar adiante a luta
daqueles que vieram antes. Mas a ideologia dominante trabalha
intensamente para nos convencer de que não há alternativa. Nessa
realidade rasa e sem esperança, alguns escolhem os consolos do
fundamentalismo. Mas outros escolhem os consolos da identidade.
Notas do tradutor/editor:
001 A cidade mais populosa do Paquistão (Nota da Edição).
002 A alegação dos Estados Unidos para justificar o ataque foi que a fábrica no Sudão
produzia armas químicas para a al-Qaeda. O governo sudanês protestou, exigiu na ONU
que uma comissão da entidade investigasse as ruínas da fábrica para apurar se havia lá
indícios da fabricação de armas. Mas os Estados Unidos impediram a formação de
qualquer comissão de inquérito. Alguns integrantes do governo norte-americano
acabaram admitindo que a decisão de atacar fora precipitada, mas nunca houve um
pedido formal de desculpas por parte dos Estados Unidos. O governo sudanês avaliou na
época que a Al-Shifa produzia 50% dos medicamentos do país. O ataque aconteceu no
mesmo momento em que estourava um escândalo sexual envolvendo Clinton e Monica
Lewinsky, uma estagiária da Casa Branca (N. E.).
003 A tradução do título seria “Suicídio Revolucionário”. Trata-se de uma autobiografia
inédita em português (Nota do Tradutor).
004 Huey Percy Newton (1942-1989) foi um dos fundadores e principais líderes dos
Panteras Negras (N. E).
005 Segunda maior cidade do Paquistão, depois de Karachi (N . E.).
Notas do autor:
1 Gilles Deleuze, “On the Superiority of Anglo-American Literature,” in Gilles Deleuze e
Claire Parnet, Dialogues II, trad. Hugh Tomlinson and Barbara Habberjam (New York:
Columbia University Press, 2007), 36.
2 Hanif Kureishi, “The Road Exactly: Introduction to My Son the Fanatic,” in Dreaming
and Scheming: Reflections on Writing and Politics (London: Faber and Faber, 2002), 220.