Armadilha da Identidade: Raça e Classe nos Dias de Hoje
Capítulo 1 - A Fornalha
CAPÍTULO 1
A POLÍTICA IDENTITÁRIA
1
A POLÍTICA IDENTITÁRIA
Em 1977, a expressão política identitária na sua forma
contemporânea foi introduzida no discurso político pelo Coletivo
Combahee River (CCR), um grupo de militantes negras lésbicas
formado em Boston três anos antes. No influente texto coletivo “A
Black Feminist Statement”, suas fundadoras Barbara Smith, Beverly
Smith e Demita Frazier argumentavam que o projeto de socialismo
revolucionário havia sido minado pelo racismo e sexismo na
Esquerda. Escreveram:
Somos socialistas porque acreditamos que o trabalho deve ser organizado
para o bem coletivo daqueles que fazem o trabalho e criam os produtos, e
não para o lucro dos patrões. Os recursos materiais devem ser igualmente
distribuídos entre aqueles que criam esses recursos. Porém não estamos
convencidas de que uma revolução socialista que não seja também uma
revolução feminista e antirracista garantirá nossa libertação.
A declaração demonstrava brilhantemente que "os grandes
sistemas de opressão estão interligados" e proclamava a necessidade
de articular “a situação real de classe de pessoas que não são
meramente 1 trabalhadores sem raça e sem sexo ”. Mulheres negras,
cuja posição social específica era negligenciada tanto pelo
movimento negro quanto pelo movimento feminista, poderiam
desafiar esse tipo de reducionismo de classe vazio simplesmente
afirmando sua própria política autônoma. Como forma de
conceituar esse importante aspecto da sua prática política, o CCR
apresentou a hipótese de que a política mais radical surgiu ao
colocarem suas próprias experiências no centro da sua análise e ao
enraizarem sua política nas suas próprias identidades particulares:
Esse foco em nossa própria opressão está incorporado ao conceito de
política identitária. Acreditamos que a política mais profunda e
potencialmente mais radical vem diretamente da nossa própria identidade,
ao 2 invés de agir para acabar com a opressão exercida pelo outro.
Porém, isso não significa, para o CCR, que a política deveria ser
reduzida às identidades específicas dos indivíduos envolvidos nela.
Como Barbara Smith refletiu recentemente:
O que estávamos dizendo é que temos direito como pessoas que não são
apenas mulheres, que não são unicamente negras, que não são apenas
lésbicas, que não são apenas da classe trabalhadora, ou trabalhadoras – que
somos pessoas que incorporam todas essas identidades e que temos direito
de construir e definir a teoria e prática políticas baseadas nessa realidade...
Isso é o que quisemos dizer com política identitária. Não estávamos dizendo
que 3 não ligávamos para ninguém que não fosse exatamente como nós.
Na verdade, o CCR demonstrou essa perspectiva na sua prática
política real. Demita Frazier relembra a ênfase que a organização
colocava nas alianças:
Nunca acreditei que o Combahee, ou outros grupos feministas negros de
que participei, deveria focar apenas em questões que diziam respeito a nós,
mulheres negras. Ou que, como mulheres lésbicas/bissexuais, devêssemos
focar apenas em questões que diziam respeito a lésbicas. É de fato
importante notar que o Combahee foi fundamental na fundação de um
abrigo local para mulheres vítimas de violência. Trabalhamos em aliança
com ativistas comunitários, mulheres e homens, lésbicas e pessoas
heterossexuais. Éramos muito ativas no movimento por diretos
reprodutivos, apesar de, naquele tempo, a maioria de nós ser lésbica.
Formamos aliança com movimento dos trabalhadores porque
acreditávamos na importância de apoiar outros grupos, mesmo se as
pessoas naquele grupo não fossem todas feministas. Entendíamos que a
construção 4 de alianças era crucial para a nossa própria sobrevivência.
Para o CCR, a prática política feminista significava, por exemplo,
participar dos piquetes durante greves na construção civil durante
os anos 1970. Mas a história que se seguiu pareceu virar tudo de
pernas para o alto. Como Salar Mohandesi escreveu: “O que
começou como uma promessa de superar algumas limitações do
socialismo , de modo a construir uma política socialista mais rica,
mais diversa e inclusiva", terminou "sendo aproveitado por aqueles
com 5 uma política diametralmente oposta àquelas do CCR ”. O
exemplo mais recente e mais marcante foi a campanha presidencial
de Hillary Clinton, a qual adotou a linguagem da
“interseccionalidade” e do “privilégio” e usou a política identitária
para combater o surgimento de uma opção de esquerda no Partido
Democrata, em torno de Bernie Sanders. Os apoiadores de Sanders
foram condenados como “manos do Bernie”, apesar de ter apoio
amplo entre as mulheres. Eles foram acusados de negligenciar as
preocupações dos negros, apesar do efeito devastador para muitos
negros americanos do comprometimento da corrente dominante do Partido Democrata com as políticas neoliberais. Como Michelle
Alexander escreveu no The Nation, o legado da família Clinton foi
uma capitulação dos Democratas “à reação da direita contra o
movimento pelos direitos civis” e à “agenda de Ronald Reagan sobre
raça, criminalidade, proteção social e impostos”. O liberalismo dos
Clinton terminou “no fim das contas fazendo mais mal às
comunidades 6 negras do que Reagan fez ”.
A diretora de comunicação da campanha de Clinton, Jennifer
Palmieri, disse durante uma entrevista na MSNBC sobre os
protestos anti-Trump que se seguiram à posse: “Você está errado ao
olhar para essas multidões e achar que significa que todos querem
quinze 006 dólares por hora. Não pense que a resposta a grandes
multidões é se mover para a esquerda... Tudo gira agora em torno da
identidade ao nosso lado”.
Para ser justo, Palmieri não é a única culpada por esse erro de
julgamento. De fato, ela estava apenas expressando um princípio
clássico e inevitável do liberalismo. Judith Butler explicou que
“identidades são formadas dentro das formações políticas
contemporâneas em relação a certos requisitos do Estado liberal”.
No discurso político liberal, as relações de poder são reduzidas à lei,
mas como Michel Foucault mostrou, elas são na verdade produzidas
e exercitadas em uma gama de práticas sociais: a divisão do trabalho
na fábrica, a organização espacial da sala de aula e, é claro, os
procedimentos disciplinares da prisão. Nessas instituições,
coletividades de pessoas são separadas em indivíduos que são
subordinados a um poder dominante. Mas essa “individualização”
também os constitui como sujeito políticos – a unidade política
básica do liberalismo, afinal, é o indivíduo. Nesse quadro, Butler
argumenta que “a afirmação de direitos e a reivindicação de benefícios só podem ser feitos com base numa identidade singular
lesada 7 ”.
Butler aponta que a palavra sujeito tem um duplo sentido peculiar:
ela significa ter capacidade de ação, ser capaz de exercer poder, mas
também ser subordinado, sob controle de um poder externo. A
política no liberalismo se caracteriza por nos tornamos sujeitos que
participamos na política através da sujeição ao poder. Portanto
Butler sugere que “o que chamamos de política identitária é
produzida por um Estado que só pode dar reconhecimento e direitos
a sujeitos totalizados pela particularidade que constitui seu status de
demandante”. Se podemos reclamar que somos de algum modo
lesados com base em nossa identidade, como se apresentássemos
uma queixa num tribunal, podemos demandar reconhecimento do
Estado com base nisso. E uma vez que identidades são a condição da
política liberal, elas se tornam cada vez mais totalizantes e
reducionistas. Nossa capacidade de ação política através da
identidade é exatamente o que nos prende ao Estado, o que assegura
nossa contínua sujeição. Então, como Butler afirma, a tarefa urgente
é propor formas de “recusar o tipo de individualidade
correspondente 8 ao aparato disciplinar do Estado moderno ”.
Mas não poderemos alcançar isso se considerarmos como dadas
essas formas de individualidade – se as aceitarmos como o ponto de
partida da nossa análise e da nossa política. “Identidade” é um
fenômeno real: ela corresponde ao modo que o Estado nos divide em
indivíduos, e ao modo que formamos nossa individualidade em
resposta a uma ampla gama de relações sociais. Ela é, no entanto,
uma abstração. Uma abstração que não nos diz nada sobre as
relações sociais específicas que a constituíram. Um método
materialista de pesquisa deve ir do abstrato ao concreto. Ele deve trazer essa abstração de volta a Terra, passando por todas as
especificidades históricas e relações materiais que a colocaram em
nossas cabeças.
De modo a fazer isso, devemos rejeitar a “identidade” como base
para pensar a política identitária. Por essa razão, não aceito a divina
trindade da “raça, gênero e classe” como categorias identitárias.
Essa ideia de Espírito Santo da Identidade, que ganha três formas
divinas consubstanciais, não tem lugar na análise materialista. Raça,
gênero e classe nomeiam relações sociais inteiramente diferentes, e
elas em si são abstrações que precisam ser explicadas em termos de
histórias materiais específicas.
Exatamente por essa razão este livro é totalmente focado na raça.
Em parte porque minha própria experiência pessoal me forçou a
pensar sobre a raça para além da fácil abstração teológica da
identidade. Mas também porque as hipóteses apresentadas aqui são
baseadas em pesquisa sobre história racial, do racismo e dos
movimentos antirracistas. É claro que estudar qualquer história
concreta requer lidar com todas as relações constitutivas dela e,
portanto , encontrar os efeitos das relações de gênero e de
movimentos contra as opressões relacionadas ao gênero. Mas não
pretendo oferecer uma análise abrangente do gênero. Para tanto
seria necessário um caminho de pesquisa diverso, e tratar o gênero
simplesmente como uma questão subsidiária da raça seria
totalmente inaceitável. Já existem muitos trabalhos nesse sentido
para quem quiser. Problemas de Gênero, de Judith Butler, é uma das
críticas mais prescientes e profundas da política identitária na
forma existente no discurso específico da teoria feminista. Nas
próprias palavras de Butler, sua crítica “questiona o quadro
fundacionalista 007 no qual o feminismo como política identitária tem se articulado. O paradoxo interno desse fundacionalismo é que
ele presume, fixa e aprisiona o próprio ‘sujeito’ que ele espera
representar 9 e libertar ”. Mas aqui eu foco na raça. Fixarei o olhar
principalmente na história dos movimentos negros. Não apenas
porque acredito que esses movimentos moldaram profundamente
os parâmetros políticos do nosso momento histórico atual, mas
porque pessoas que ganharam visibilidade através desses
movimentos estão no topo da reflexão sobre o conceito de raça. Há
também a questão do meu contato pessoal com a teoria
revolucionária negra, que me expôs primeiramente às críticas de
Malcolm X e Huey Newton aos precursores da política identitária.
Seguindo suas práticas, defino a política identitária como a
neutralização de movimentos contra a opressão racial. É a ideologia
que surgiu para apropriar esse legado emancipatório e colocá-lo a
serviço do avanço das elites políticas e econômicas. De modo a
teorizá-la e criticá-la, é necessário usar o quadro de referência da
luta revolucionária negra, incluindo o próprio Coletivo Combahee
River. Esses movimentos não deveriam ser considerados desvios de
um universal, mas sim a base para desestabilizar a categoria de
identidade e criticar as formas contemporâneas de política
identitária – um fenômeno cuja forma histórica específica a luta
revolucionária negra não poderia ter previsto ou antecipado, mas
cujos precursores ela identificou e a eles se opôs.
A análise de Malcolm foi interrompida em 1965 quando foi
assassinado pelos nacionalistas culturais da Nação do Islã. Ele havia
rompido com eles após se ligar a movimentos revolucionários
anticoloniais na África e na Ásia, mencionados constantemente por
ele em seus discursos. Malcolm havia aprofundado sua análise
estrutural da supremacia branca e do sistema econômico no qual ela se assentava. Como Ferruccio Gambino mostrou, não é uma
surpresa quando se olha para a vida de Malcolm como trabalhador –
como carregador de bagagem na Pullman e como operário na fábrica
da Ford em Wayne (Michigan), onde ele se defrontou com a tensão
entre o antagonismo operário em relação ao empregador e os freios
impostos 10 pelas burocracias sindicais. “É impossível para um
branco acreditar no capitalismo e não acreditar no racismo,”
Malcolm disse numa discussão em 1964. “Não se pode ter
capitalismo sem racismo. E se você conversa com uma pessoa que
expressa uma filosofia que te faz ter certeza de que ela não tem esse
racismo no pensamento, normalmente se trata de um socialista ou
de 11 alguém que tem o socialismo como ideologia política ”.
O Partido dos Panteras Negras levou adiante a crescente prática
de solidariedade revolucionária de Malcolm, assim como sua crítica
ao nacionalismo cultural da Nação do Islã, o qual eles chamavam de
“ 008 nacionalismo de costela de porco ”. Huey Newton argumentou
numa entrevista em 1968 que os nacionalistas de costela de porco
“se preocupavam em retornar à antiga cultura africana e assim
reconquistar sua identidade e liberdade”, mas no final das contas
apagavam as contradições políticas e econômicas dentro da
comunidade negra. O resultado inevitável do nacionalismo de
costela de porco era uma figura como “Papa Doc” Duvalier, que
usava a identidade racial e cultural como apoio ideológico a sua
ditadura brutalmente repressora e corrupta no Haiti. Newton
argumentava que era necessário traçar uma “linha de demarcação”
entre esse tipo de nacionalismo e o tipo que os Panteras defendiam:
Há dois tipos de nacionalismo: o nacionalismo revolucionário e o
nacionalismo reacionário . O nacionalismo revolucionário depende
primeiro da revolução popular, tendo como objetivo final o povo no poder.
Portanto, para ser um nacionalista revolucionário é necessário ser um
socialista. Um nacionalista reacionário não é um socialista, e o seu objetivo
fi 12 nal é a opressão do povo.
Outra liderança do Partido dos Panteras Negras, Kathleen
Cleaver, expôs como o nacionalismo revolucionário dos Panteras os
levou a compreender a luta revolucionária como uma luta
especificamente inter-racial:
Num mundo de polarização racista, buscávamos a solidariedade...
Organizamos a Coalizão Arco-Íris, juntamos nossos aliados, incluindo não
apenas o Puerto Rican Young Lords, a gangue de jovens chamada Black P .
Stone Rangers, o Chicano Brown Berets e o asiático I Wor Kuen (Guardas
Vermelhos), mas também o preponderantemente branco Partido Paz e
Liberdade e o Partido Jovens Patriotas de Appalachia. Colocamos não
apenas uma contestação teórica, mas uma contestação prática ao modo que
nosso mundo é organizado. E éramos homens e mulheres trabalhando
juntos13.
Trata-se de uma conclusão óbvia quando se entende o socialismo
do modo que Huey Newton entendia: como “o povo no poder”. Ele
não pode ser reduzido à redistribuição de riqueza ou à defesa do
Estado de bem-estar social – socialismo é definido em termos do
poder político do povo. Portanto, não apenas o socialismo é um
componente indispensável da luta dos negros contra a supremacia
branca, mas a luta anticapitalista deve incorporar a luta pela
autodeterminação dos negros. Qualquer dúvida em relação a isso,
Newton apontava, poderia ser dissipada estudando a história
americana e vendo que as duas estruturas eram inextricavelmente
ligadas:
O Partido dos Panteras Negras é um grupo nacionalista revolucionário e
enxergamos uma grande contradição entre o capitalismo nesse país e
nossos interesses. Percebemos que esse país se tornou muito rico através da
escravidão e que a escravidão é o capitalismo ao extremo. Temos dois males
a combater, o capitalismo e o racismo. Devemos destruir tanto o racismo
quanto 14 o capitalismo.
Porém, isso não foi uma novidade trazida pelos Panteras Negras.
Ao longo da minha infância e adolescência, o movimento pelos
direitos civis se tornou palatável para o grande público, e acabei
buscando o legado aparentemente mais militante do Black Power.
Graças ao trabalho de acadêmicos e ativistas que preservaram a
memória do conteúdo revolucionário do movimento pelos direitos
civis, está ficando evidente que o reconhecimento de uma identidade
lesada não pode descrever o alcance e as aspirações desse
movimento . Nikhil Pal Singh escreve no seu importante livro Black
Is a Country que a narrativa reinante sobre o movimento pelos
direitos civis “falha em reconhecer a profundidade histórica e a
heterogeneidade das lutas dos negros contra o racismo, estreitando
o alcance político da capacidade de ação dos negros e reforçando
uma 15 visão formal e legalista da igualdade dos negros ”.
Como a historiadora Jacquelyn Dowd Hall aponta na sua análise
do “longo movimento pelos direitos civis”, Martin Luther King Jr. se
tornou um símbolo vazio, “congelado em 1963”. Hall observa que,
através de citações seletivas, a retórica edificante de seu discurso foi
despida de seu conteúdo: sua oposição à guerra do Vietnã, através de
uma análise ligando a segregação ao imperialismo; seu
comprometimento socialista democrático com a sindicalização; seu
papel na organização da Poor People’ s Campaign; e seu apoio à greve
dos 16 garis quando foi assassinado em Memphis.
Quando saímos da narrativa dominante, enganosa e redutora,
torna-se claro que o movimento pelos direitos civis era na verdade o
equivalente mais próximo nos Estados Unidos dos movimentos
operários de massa na Europa pós-guerra. Esses movimentos
europeus estruturaram o projeto revolucionário e o
desenvolvimento 17 da teoria marxista. Mas o desenvolvimento
desse tipo de movimento foi bloqueado nos Estados Unidos. E, como
veremos, muitos militantes chegaram à conclusão que o obstáculo
fundamental ao seu desenvolvimento era a supremacia branca.
Contudo, o que torna um movimento anticapitalista não é
necessariamente o tema de mobilização. O mais importante é saber
se ele é capaz de atrair um amplo espectro de massas e de
possibilitar sua auto-organização, buscando construir uma
sociedade na qual as pessoas se governam e controlam suas próprias
vidas. Possibilidade essa que é fundamentalmente impedida pelo
capitalismo . Portanto, a luta pela liberdade dos negros foi a que mais
se aproximou de um movimento socialista nos Estados Unidos.
Como C .L.R. James, intelectual e militante nascido em Trinidad,
apontou, os movimentos pela autodeterminação dos negros eram
“ lutas de independência” que representavam a automobilização e
auto-organização das massas, estando assim na vanguarda de
qualquer 18 projeto socialista. O militante operário James Boggs
levou esse argumento ainda mais longe em seu livro The American Revolution:
Nessa altura da história americana, quando o movimento dos trabalhadores
está em declínio, o movimento negro está em ascensão. O fato é que, desde
1955, o desenvolvimento e o dinamismo da luta dos negros têm feito deles a
força revolucionária que domina a cena americana... O objetivo de uma
sociedade sem classes é exatamente o que esteve e que está hoje no coração
da luta dos negros. São os negros que representam a luta revolucionária por
uma 19 sociedade sem classes.
Havia também conexões diretas com uma história
especificamente anticapitalista, já que nos anos 1930 o Partido
Comunista (PC) formou muito dos organizadores e estabeleceu
muitas das redes organizativas que se tornaram parte do movimento
pelos direitos civis. Como Robin D .G. Kelley apontou em Hammer
and Hoe, sua grande obra sobre a história da atividade antirracista
do Partido Comunista dos Estados Unidos, o PC ajudou a construir
“a infraestrutura que (...) se tornou o Movimento pelos Direitos
Civis 20 no Alabama ”. Rosa Parks, por exemplo, se envolveu com
política a partir da defesa organizada pelos comunistas aos
“Scottsboro Boys”, nome pelo qual ficaram conhecidos os nove
adolescentes negros injustamente acusados no Alabama de estuprar
duas mulheres brancas, tendo sido condenados por um júri formado
só por brancos. Nos anos 1940, a aliança de radicais negros e líderes
sindicais, incluindo figuras que tiveram papel destacado nos anos
1960, como A. Philip Randolph, formaram um “sindicalismo de
direitos civis”. Jacquelyn Dowd Hall aponta que suas ações eram
baseadas no “pressuposto de que desde a fundação da república o
racismo está ligado à exploração econômica”. Em resposta, os
sindicalistas de direitos civis defenderam um programa político no
qual “a proteção contra a discriminação” foi associada a “políticas
universais de bem-estar social”. Suas demandas incluíam não apenas
a democracia no local de trabalho, acordos salariais coletivos,
emprego pleno e justo, mas também moradia de valor acessível,
direitos políticos, igualdade educacional e serviço de saúde
universal 21.
Essa foi a primeira fase do movimento pelos direitos civis. À
medida que o movimento entrou no seu período “clássico” mais
famoso , ele acabou respondendo às mudanças de conjuntura e
enfrentando limites estratégicos e organizacionais. A opressão racial
estava vinculada não apenas à segregação legal, mas também à
organização do espaço urbano, a hierarquias de representação
política, à violência do aparato repressivo estatal e à exclusão e
marginalização 22 econômica. As vitórias extraordinárias das
mobilizações pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960, o Civil
Rights 009 010 Act de 1964 e o Voting Rights Act de 1965, no entanto
não mudaram essas estruturas fundamentais. Após 1965,
mobilizações de massa teriam que incorporar diferentes estratégias
e diferentes demandas, e as linguagens do Black Power e do
nacionalismo negro responderam a essa necessidade.
As primeiras lutas sempre foram complexas e variadas, indo além
das manifestações não violentas do Sul, que são célebres hoje em dia.
A resistência armada teve um papel vital para que fosse possível o
uso de táticas não violentas. E os movimentos no Norte ocorriam em
paralelo 011 aos seus equivalentes abaixo da linha Mason-Dixon. Mas
organizaç 012 õ es como a NAACP, liderada pelas elites da
comunidade negra, tentou se distanciar das possibilidades
revolucionárias da luta, transferindo fundos e recursos para longe
das questões econômicas e em direção à batalha contra a segregação
legal do Sul. Com o passar do tempo isso se tornou um limite
significativo no âmbito da mobilização de massa.
Mas ao longo da década de 1960 o epicentro da luta começou a se
deslocar para as revoltas urbanas nas cidades do norte do país. Essas
revoltas transbordavam com força para fora dessa contenção burocrática. O movimento estava procurando novas formas de auto-
organização que pudessem superar os obstáculos que o Civil Right
Act e o Voting Rights Act foram incapazes de dar conta. Para tanto o
nacionalismo negro fornecia uma abordagem promissora. O
nacionalismo implicava uma perspectiva política: ativistas negros se
organizando em vez de seguirem a liderança de organizações de
brancos, construindo novas instituições ao invés de buscarem entrar
na sociedade branca.
A contradição das mobilizações nacionalistas, porém, veio na
forma daquilo que Huey Newton descreveu como “nacionalismo
reacionário”, representado por grupos como a US Organization, de
Ron Karenga, com a qual os Panteras iriam mais tarde entrar em
conflito virulento. Como Newton apontou, o nacionalismo
reacionário apresentou uma ideologia de identidade racial, mas era
baseado também em um fenômeno material. A desagregação tornou
possível a empresários e políticos negros entrarem na estrutura de
poder americana numa escala que não havia sido possível
anteriormente. E essas elites foram capazes de usar a solidariedade
racial como meio de encobrir suas posições de classe. Se eles
dissessem representar uma comunidade racial unitária com um
interesse unificado, poderiam suprimir as demandas dos
trabalhadores negros, cujos interesses eram, na realidade,
totalmente diferentes dos deles.
Portanto, o partido dos Panteras Negras teve que navegar entre
duas preocupações. Eles reconheciam que os negros foram
oprimidos numa base especificamente racial e que, portanto, tinham
que se organizar autonomamente. Mas, ao mesmo tempo , falar de
racismo sem falar de capitalismo, é esconder o que é necessário para
que o povo tenha de fato o poder em suas mãos. Apenas cria uma situação em que o policial branco é substituído pelo policial negro.
Para os Panteras isso não era uma libertação.
Mas era essa claramente a situação em que estávamos nos
metendo nos Estados Unidos, enquanto liberais otimistas
celebravam a substituição de movimentos de massa, distúrbios e
células armadas por um plácido multiculturalismo. Ao longo de
várias décadas o legado dos movimentos antirracistas foi canalizado
para o progresso de indivíduos como Barack Obama e Bill Cosby, que
iriam liderar o ataque contra movimentos sociais e comunidades
marginalizadas. Keeanga-Yamahtta Taylor chama atenção a esse
fenômeno em From #BlackLivesMatter to Black Liberation: “A
transformação mais significativa na vida dos negros nos últimos
cinquenta anos foi o surgimento de uma elite negra, fortalecida pela
classe política negra, que tem sido responsável por administrar
cortes e impor orçamentos escassos nas costas dos eleitores
negros 23 ”.
É claro, a existência de elites na comunidade negra, em si, não era
algo novo. Apesar de suas diferenças, tanto o empreendedorismo de
Booker 013 T . Washington quanto o “Talented Tenth” de W .E.B Du
Bois014 foram investidas iniciais no potencial político da elite negra.
Porém, como Taylor conta, a história subsequente da política
americana e da evolução da luta por liberdade dos negros mudou o
papel estrutural da elite negra. Como ela aponta em uma análise do
assassinato de Freddie Gray e da revolta que se seguiu em Baltimore,
rompemos de um modo fundamental com o contexto que produziu o
vocabulário clássico da luta antirracista:
Sempre houve diferenças de classe entre os afro-americanos, mas essa é a
primeira vez que essas diferenças de classe se expressam na forma de uma
minoria de negros que possuem autoridade e poder político significativos
sobre a maioria dos negros. Isso levanta questões cruciais sobre o papel da
elite negra na contínua luta pela liberdade – e sobre em qual lado ela está
Não se trata de um exagero. Quando uma prefeita negra, governando uma
cidade em grande parte negra, apoia a mobilização de uma unidade militar
liderada por uma mulher negra para suprimir uma rebelião negra, estamos
num 24 novo contexto da luta pela liberdade dos negros.
Na academia e nos movimentos sociais, nenhuma contestação
séria surgiu contra a cooptação do legado antirracista. Intelectuais e
ativistas permitiram que a política fosse reduzida ao policiamento
da nossa linguagem, à questionável satisfação de provocar culpa nos
brancos, enquanto as estruturas institucionais de opressão racial e
econômica permanecem. Como James Boggs refletiu em 1993:
Antes do Civil Rights Act de 1964, podíamos ter o dinheiro, mas não
podíamos nos hospedar na maioria dos hotéis ou comprar uma casa fora do
gueto. Hoje a única razão de não podermos nos hospedar num hotel ou
comprar uma casa decente é porque não temos o dinheiro. Contudo ainda
estamos 25 focados na questão racial , e isso está nos paralisando.
Dar sentido a essa história desconcertante requer traçar uma
linha de demarcação entre os movimentos de massa emancipatórios
do passado, que lutaram contra o racismo, e as ideologias
identitárias contemporâneas, ligadas à elite multirracial. A
existência desse problema é amplamente reconhecida, mas discuti-
lo construtivamente tem se mostrado bastante difícil. Críticas à
política identitária são muitas vezes verbalizadas por homens
brancos que permanecem ignorantes ou desinteressados pela
experiência dos outros. Às vezes elas também são usadas à esquerda
para se descartar qualquer demanda política que não esteja alinhada com o que é considerado um programa puramente “econômico” – a
própria questão que o Coletivo Combahee River havia decidido
abordar.
Porém, aqui a expressão política identitária parece amplificar as
dificuldades. Hoje em dia com frequência os pensadores e militantes
da esquerda radical ficam relutantes em criticar até mesmo a mais
elitista das expressões da ideologia racial, por receio de que pareça
estarem deslegitimando qualquer movimento contra o racismo e o
sexismo. Outros corajosamente tentam estabelecer uma gradação de
políticas identitárias, como se houvesse uma dose mínima efetiva e
os problemas surgissem apenas quando levadas ao extremo. Mas
essa lógica da gradação possivelmente não pode explicar a
emergência de posições políticas fundamentalmente opostas e
antagônicas: a política de base revolucionária do Coletivo Combahee
River versus a política da classe dominante da elite do Partido
Democrata.
É a nebulosidade da nossa categoria contemporânea de identidade
que obscureceu os limites. Suas armadilhas políticas foram muito
bem demonstradas por Wendy Brown, para quem “o que temos
chamado de política identitária é parcialmente dependente da perda
de uma crítica do capitalismo e dos valores culturais e econômicos
burgueses”. Quando reivindicações identitárias são postas sem
estarem fundamentadas numa crítica do capitalismo, Brown sugere:
as políticas identitárias de raça, sexualidade e gênero aparecerão não como
um complemento da política de classe, não como uma expansão das
categorias de esquerda de opressão e emancipação, não como uma
ampliação enriquecedora de formulações progressistas sobre poder e
pessoas – embora também sejam isso tudo – mas como vinculadas a uma
ideia de justiça que reinscreve um ideal burguês (masculinista) como sua
medida26.
Em outras palavras, codificando as demandas que vêm de grupos
marginalizados ou subordinados como política identitária, a
identidade branca masculina é consagrada com o status de neutra,
geral e universal. Sabemos que isso não é verdade. De fato, há uma
política identitária branca, um nacionalismo branco e, como
veremos, a branquidade é a forma prototípica da própria ideologia
racial. Lutas antirracistas como aquelas do Coletivo Combahee
River revelam a falsa universalidade dessa identidade hegemônica.
Porém, quando as reivindicações identitárias perdem sua base em
movimentos de massa, o ideal masculinista burguês se apressa em
preencher o vazio. Esse ideal, como Brown escreve, “significa
oportunidade vocacional e educacional, mobilidade ascendente,
proteção relativa contra violência arbitrária e recompensa
proporcional ao esforço”. Se ele não for questionado, pessoas de cor,
junto com outros grupos oprimidos, não têm escolha a não ser
articular suas demandas políticas em termos de inclusão no ideal
burguês masculinista.
Reivindicar inclusão na estrutura da sociedade como ela é
significa se privar da possibilidade de mudança estrutural. Como
Brown aponta, isso significa que a condição da política é a
“renaturalização do capitalismo, que tem marcado o discurso
progressista 27 desde os anos 1970”. É a equação entre a capacidade
política e ser membro de uma mítica “classe média”, que se supõe
poder caracterizar a todos na sociedade americana. Brown
argumenta que a própria classe média é “uma identidade
conservadora”, uma identidade que se refere a “um passado fantasmático, um momento histórico idílico imaginado
(implicitamente localizado em torno de 1955), sem restrições e não
corrompido, quando a vida era boa”. Era um momento histórico
ideologicamente centrado na família nuclear, com o homem branco
como chefe, à frente da família. No entanto, paradoxalmente, como
Brown aponta, ela se torna “o ideal ao qual as identidades que não
são de classe se referem para demonstrar sua exclusão ou dano”.
Certamente o dano vindo da exclusão dos benefícios que são
estendidos à classe média branca e heterossexual é um dano real.
Segurança de emprego, estar livre de perseguição e intimidação,
acesso a moradia – tudo isso são demandas importantes. Mas o
problema é que “identidades politizadas” não colocam essas
demandas a partir do contexto de uma insurgência vinda de baixo. É
da própria estrutura da identidade politizada demandar restituição e
inclusão; como aponta Brown: “sem recorrer ao ideal de classe
média branca e masculina, as identidades politizadas perderiam boa
parte de suas reclamações quanto ao dano e a exclusão, e às suas
pretens 28 õ es de importância política de suas diferenças ”.
Cresci num mundo inteiramente moldado por essa
renaturalização do capitalismo. Sentia que havia algo insatisfatório
com a identidade politizada, mas não conseguia achar uma maneira
de lidar com ela, a não ser usando uma espécie de frágil ambivalência
dialética. Afinal, não podia ignorar o fato de que apesar de “negros
rostos 015 em altos postos ” não significarem libertação, vê-los era
ainda profundamente significativo para aqueles que sofreram
traumas psicológicos numa sociedade racista. Nos meus anos de
formação, todos que se pareciam comigo que eu via na TV eram
motoristas de táxi ou terroristas árabes. (Ainda não entendo por que
eles usam indianos para fazer papel de terrorista árabe. Por que não ao menos um terrorista paquistanês?) Todos os presidentes foram
brancos e, apesar da minha falta de interesse em Obama, sua vitória
eleitoral me fez pensar nas pessoas negras que morreram lutando
pelo simples direito de votar; e esse pensamento me levou às
lágrimas. Seria a burguesia multicultural e sua ideologia identitária
um mal necessário – um componente de uma aliança interclasses
que seria exigido para lutar contra o racismo?
Por vezes eu achava que sim. Mas à medida que continuei a
participar de movimentos sociais, fui forçado a mudar de ideia.
Portanto, ao lançar uma crítica à política identitária, não tenho
intenção de me desviar do legado do Coletivo Combahee River ou
dos movimentos de massa contra o racismo que moldaram nosso
mundo de hoje em dia. Trata-se de uma tentativa de lidar com a
realidade contraditória, confronto que não podemos evitar. Na sua
forma ideológica contemporânea, diferentemente da sua forma
inicial como teorização da prática política revolucionária, a política
identitária é um método individualista. Ela é baseada na demanda
individual por reconhecimento, e toma essa identidade individual
como ponto de partida. Ela assume essa identidade como dada e
esconde o fato de que todas as identidades são construídas
socialmente. E porque todos nós temos necessariamente uma
identidade que é diferente da de todos os outros, ela enfraquece a
possibilidade de auto-organização coletiva. O paradigma da
identidade reduz a política a quem você é como indivíduo e a ganhar
reconhecimento como indivíduo, em vez de ser baseada no seu
pertencimento a uma coletividade e na luta coletiva contra uma
estrutura social opressora. Como resultado, a política identitária
paradoxalmente acaba reforçando as próprias normas que se propõe
a criticar.
Embora essa redefinição possa parecer drástica, esse tipo de
mudança de significado é típico da linguagem política, a qual nem
sempre se alinha claramente à prática política. Uma palavra como
nacionalismo, por exemplo, acaba revelando discordâncias
irreconciliáveis. Ela eventualmente requer modificação, e podemos
acabar decidindo que é melhor abandoná-la e colocar no lugar
termos novos e mais adequados. De fato, o nacionalismo era
precisamente o obstáculo epistemológico que levou Barbara Smith
ao tipo de política que constituiria o Coletivo Combahee River. Ela
recordou:
Fui a uma grande mobilização contra a guerra em Washington D .C. no
outono de 1969... Achava que era a última manifestação à qual iria; uma das
razões era que ao voltar a Pittsburgh pessoas negras diziam coisas tão
desagradáveis sobre o fato de eu estar envolvida no que eles diziam ser uma
organização “branca”, ou seja, o movimento contra a guerra... foi um
período muito difícil para ser uma mulher negra ativa politicamente, uma
que não queria ser marionete... De verdade achei que nunca seria
politicamente ativa novamente, porque o nacionalismo e as atitudes
patriarcais 29 dentro do movimento negro eram muito fortes.
A proposta inicial do Coletivo Combahee River era exatamente
superar essas divisões degradantes e despolitizantes. “Acredito
fi rmemente que deve haver espaço para todos nós nas nossas
miríades de identidades e dimensões”, Demita Frazier diria mais
tarde. “Corre-se o risco de uma identidade se cristalizar e se tornar
limitada, fazendo todos se tornarem conformistas”. Essa tensão
também existia no Combahee. Diferenças de classe internas ao
grupo eram um desafio para manter formas democráticas de
organização. Frazier relembra:
Classe era outra grande questão que olhávamos e que ainda, de algum modo,
não conseguíamos resolver. Tínhamos uma análise baseada nas nossas
próprias inclinações socialistas e numa visão de mundo socialista
democrática, mas mesmo assim, na prática, havia muitas mulheres que se
sentiam excluídas porque achavam que não tinham a bagagem educacional
e a prerrogativa de liderança.
Tão importante quanto, era a questão do relacionamento com
outros grupos, especialmente outros grupos feministas. O
movimento feminista era tido como branco desde o início, e parte da
intenção do Combahee era insistir que as mulheres negras podiam
articular seu próprio feminismo. Mas isso não significava
necessariamente manter divisões rígidas em relação às feministas
brancas, ou mesmo formar uma identidade negra cristalizada. Nas
próprias palavras de Frazier:
Uma das coisas que sempre me incomodou é que eu queria ser parte de uma
organização feminista multicultural, um movimento feminista
multicultural, mas nunca senti que o movimento feminista era totalmente
integrado... O Combahee até trabalhava em aliança com outros grupos, mas
não fomos capazes de criar esses laços interculturais e torná-los fortes
como 30 eu esperava que pudessem ser.
O problema das alianças é sentido de forma aguda por qualquer
um que tenha vivido as dificuldades e dissabores da prática política.
Minhas próprias experiências com a ascensão e queda de alianças
me convenceram da perspectiva de Paul Gilroy, pesquisador da
cultura negra britânica: “A ação contra hierarquias raciais é mais
e 31 fi caz quando está livre de qualquer apego à ideia de ‘ raça ’”.
Notas do tradutor/editor:
006 A referência feita de quinze dólares por hora é da luta dos trabalhadores por esse
valor do salário mínimo nos Estados Unidos (N . T.).
007 O fundacionalismo é o nome dado à construção do conhecimento a partir de crenças
básicas ou fundamentos considerados certos ou seguros (N. T .).
008 No original, pork-chop nationalism. Era uma forma depreciativa de nomear esse
nacionalismo de viés culturalista e ao mesmo tempo explicitar a crítica a ele. A costela de
porco era vista na época como uma comida típica de afro-americanos, uma espécie de
estereótipo culinário. Essa nomeação buscava apontar que esse nacionalismo terminava
por reafirmar signos e estereótipos do que seria a identidade negra nos Estados Unidos
(N. T .).
009 Que tornou ilegal a segregação racial nos Estados Unidos.
010 Lei para acabar com diversos subterfúgios que tolhiam o direito de voto de negros e
outras minorias.
011 Linha que faz parte das fronteiras da Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Maryland e
Delaware e que é usada como uma fronteira cultural imaginária que separa o norte e o sul
dos Estados Unidos (N. T.)
012 National Association for the Advancement of Colored People, criada em 1909. Em
português: Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (N. T.).
013 Booker Taliaferro Washington (1856-1915), educador e mais influente líder do
movimento negro dos Estados Unidos até o início do século XX, defendia que os negros
deveriam conquistar seu lugar na sociedade americana pacificamente, pelo exemplo,
aprimorando sua própria educação, trabalhando duro, economizando e se portando de
maneira educada (N . E.).
014 William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963) foi um ativista negro, sociólogo e
historiador socialista. Foi um dos fundadores da National Association for the
Advancement of Colored People, fez firme oposição às ideias de Booker T. Washington, foi
uma das grandes referências do movimento pan-africano e defendeu que o capitalismo
era a causa primária do racismo. Duramente perseguido na época do macarthismo (o
processo contra ele só foi indeferido depois que Albert Einstein se ofereceu como
testemunha de defesa) e, apesar de suas críticas ao stalinismo, como forma de protesto
fi liou-se ao Partido Comunista aos 93 anos. A expressão talented tenth era usada por ele
para expressar a probabilidade de uma em dez pessoas da sua raça de tornarem lideranças
dela (N. T.).
015 No original há uma rima na expressão: “black faces in high places”( N. T.).
Notas do autor:
1 Combahee River Collective, “The Combahee River Collective Statement,” in Barbara
Smith, ed., Home Girls (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2000), 268, 264.
2 Combahee River Collective, “Statement,” 267.
3 Keeanga-Yamahtta Taylor, ed., How We Get Free: Black Feminism and the Combahee
River Collective (Chicago: Haymarket, 2017), 59–60.
4 Demita Frazier, “Rethinking Identity Politics,” Sojourner (Setembro 1995): 12.
5 Salar Mohandesi, “Identity Crisis,” Viewpoint (Março 2017).
6 Michelle Alexander, “Why Hillary Clinton Doesn’t Deserve the Black Vote,” Nation
(Fevereiro 2016).
7 Judith Butler, The Psychic Life of Power (Stanford, CA: Stanford University Press,
1997), 100.
8 Butler, Psychic Life of Power, 101.
9 Judith Butler, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity (New York:
Routledge, 1999), 189.
10 Ferruccio Gambino, “The Transgression of a Laborer: Malcolm X in the Wilderness of
America,” Radical History (Inverno 1993).
11 Malcolm X, Malcolm X Speaks, ed. George Breitman (New York: Grove Press, 1990), 69.
12 Philip S. Foner, ed., The Black Panthers Speak (Boston: Da Capo Press, 1995), 50.
13 Kathleen Neal Cleaver , “Women, Power, and Revolution,” in Kathleen Cleaver e
George Katsiaficas, eds., Liberation, Imagination and the Black Panther Party (New York:
Routledge, 2001), 125.
14 Foner, Black Panthers Speak, 51.
15 Nikhil Pal Singh, Black Is a Country (Cambridge, MA: Harvard University Press,
2004).
16 Jacquelyn Dowd Hall, “The Long Civil Rights Movement and the Political Uses of the
Past,” Journal of American History, vol. 91, no. 4 (Março 2005): 1234.
17 Um excelente relato dessa história pode ser encontrado em Geoff Eley, Forging
Democracy (Oxford: Oxford University Press, 2002).
18 C.L.R. James, “The Revolutionary Answer to the Negro Problem in the United States,”
in C.L.R. James on the “Negro Question,” ed. Scott McLemee (Jackson: University Press
of Mississippi, 1996).
19 James Boggs, “The American Revolution” (1963), in Pages from a Black Radical’s
Notebook, ed. Stephen M. Ward (Detroit: Wayne State University Press, 2011), 136–37.
20 Michel Martin, interview with Robin D.G. Kelley, “How ‘Communism’ Brought Racial
Equality to the South,” National Public Radio, Fevereiro 16, 2010.
21 Hall, “Long Civil Rights Movement,” 1245.
22 Hall, “Long Civil Rights Movement,” 1239–42.
23 Keeanga-Yamahtta Taylor, From #BlackLivesMatter to Black Liberation (Chicago:
Haymarket Books, 2016), 15, 80.
24 Taylor, From #BlackLivesMatter, 80.
25 James Boggs, “Beyond Civil Rights,” 367.
26 Wendy Brown, States of Injury (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1995), 59.
27 Brown, States of Injury, 59–60.
28 Brown, States of Injury, 61.
29 Kimberly Springer, Living for the Revolution (Durham, NC: Duke University Press,
2005), 56.
30 Frazier, “Identity Politics,” 13. Veja também Winifred Breines, The Trouble Between
Us (New York: Oxford University Press, 2006).
31 Paul Gilroy, Against Race (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000), 13.