Atrás da Porta
Capitulo Um
Simone conheceu Carl numa viagem a Nova York.
Aos quarenta e dois anos, ela acreditava que sabia tudo sobre a vida, que era bem resolvida, boa profissional, e que, dentro das escolhas que fizera, levava uma vida, senão feliz, ao menos interessante. Carl mudou tudo.
Mulher razoavelmente bonita e muito inteligente, dona de olhos castanhos luminosos e cabelos castanhos médios, Simone considerava seus melhores traços o sorriso generoso e os lábios voluptuosos, sempre brilhantes pelo uso de um brilho sem cor.
Simone era psiquiatra, doutora em parafilias, distúrbios psíquicos do comportamento sexual. Pelo consultório da médica passavam dezenas de pessoas com problemas sexuais de toda ordem, homens e mulheres.
Carl apareceu no meio de uma palestra que ela proferia na Conferência da Sociedade de Terapia e Pesquisa Sexual da Academia de Ciências de Nova York.
Simone estava no palco, olhando para a plateia. Atrás das confortáveis poltronas de couro vermelhas, as paredes envidraçadas do quadragésimo andar permitiam uma vista perfeita do pôr do sol de Manhattan.
Pontual, Simone costumava chegar antecipadamente aos compromissos e aguardar os outros. Talvez fosse uma de suas perturbações psicológicas não resolvidas, um amor neurótico pelo relógio – Carl chegou atrasado, buscando um lugar, chamando atenção.
– Loewenstein, em sua contribuição psicanalítica à teoria do masoquismo, diz que o fenômeno é desafiador porque contradiz a característica básica do ser humano, que é evitar a dor e o desprazer, saindo dos padrões de normalidade – explicava Simone. No entanto, não conseguiu concluir o pensamento, porque, além de atrasado, ainda em pé, o sujeito decidiu participar:
– Mas doutora, o que é prazer e o que é desprazer? E o que é normal? Quem estabeleceu isso?
Ela precisou responder, interrompendo a palestra. Era inevitável.
– Existem pesquisas que avaliam o comportamento padrão, aquele seguido pela maioria da população de determinado país, região ou cultura. Esse padrão é considerado normal, os desvios a ele são ditos anormais. Em geral, há uma coincidência para um grupo em torno do que é bom, prazeroso, e do que não é. Então, com base nessas estatísticas, se podem avaliar prazer e desprazer.
O ilustre atrasado não ficou feliz com a resposta:
– Desculpe-me, doutora, mas continuo sem entender.
Ela deu um suspiro um pouco impaciente, vendo que o homem não se acomodaria sem uma resposta, e resolveu desanimá-lo:
– Seu nome, por favor?
– Carl.
– Carl, eu tenho um limite de tempo para minha exposição, você se importaria em fazer seus questionamentos ao final? Haverá ampla oportunidade para isso. Senão, não conseguirei concluir. Há um assento lá na última fileira – ela apontou.
– Obrigado, me desculpe a interrupção.
Enfim, o homem foi buscar um lugar para se sentar e deixou Simone retomar o raciocínio.
A palestra durou ainda uns quinze minutos; ele não fez mais perguntas, mas se aproximou no intervalo para o café.
Carl era um homem atraente, de pele clara, não bonito no sentido clássico da palavra, porém charmoso e magnético, rosto quadrado, angular, bastante masculino para ser chamado de bonito. Os olhos dele eram castanho-claros, cabelos castanhos com uns poucos fios brancos perdidos aqui e ali, alto; à primeira vista, não era possível dizer se embaixo do terno era magro ou com definição muscular, mas esbelto, com certeza.
– Muito bem, Carl, qual é a sua dúvida?
Ele aparentava timidez, era possível afirmar pelo sorriso doce, que só as pessoas tímidas trazem quando querem ser aceitas, e foi este o erro dela: acreditar na segurança que os tímidos passam aos não tímidos de que são pessoas suaves, tranquilas, agradáveis, que não representam risco.
– A pergunta que fiz antes se destinava a entender o que é sexualidade normal e o que não é.
Havia grande interesse na forma como ele perguntava. Ele olhava diretamente nos olhos dela, aguardando resposta e reação.
– Penso que entendo aonde você quer chegar: quem estabeleceu a normalidade? Quem tem autoridade para fazer isso? Você não tem formação médica, certo? Aparentemente não está acostumado com padrões para diagnósticos, estou errada?
Ele deu um sorrisinho de “bingo” e continuou:
– A doutora é bastante competente em seus diagnósticos; sou advogado, realmente, não tenho a menor noção de padrões para diagnóstico.
Enfim ele conseguiu surpreendê-la. “Advogado?” Poderia esperar, num workshop de sexologia, um psicólogo, um terapeuta, um homossexual tentando se compreender, mas um advogado?
– E o que traz um advogado a um workshop de parafilias sexuais?
– Estou aqui porque preciso fazer uma defesa num caso envolvendo “jogos sexuais” que levaram à morte de uma mulher. Preciso entender o assunto melhor para fazer uma boa defesa.
“Certo”, pensou Simone, “um advogado perdido entre médicos, que maravilha, era só o que faltava! Perdido é o termo, porque o assunto era todo voltado a estatísticas médicas, um pouco difícil para um leigo”.
– De que jogos sexuais estamos falando?
Simone fez um sinal de aspas com os dedos ao falar a expressão “jogos sexuais”, para mostrar que não considerava brincadeira nenhum jogo sexual capaz de matar.
– Jogos sadomasoquistas – ele respondeu e ficou olhando-a, sério.
– E você quer tentar entender o que é normal nesse tipo de jogo?
– Preciso entender, mas sua resposta agora há pouco não me ajudou, porque se embasa em pesquisas. Temos que convir que a maioria das pessoas mente em pesquisas. Então, como saber se determinado comportamento é aquele ou não, se há mentira, e daí a maioria seria a minoria.
– O que quer dizer exatamente com “as pessoas mentem em uma pesquisa”? – ela perguntou, interessada no ponto de vista do advogado.
– Elas mentem. A maioria das pessoas é burra e medrosa e também mentirosa para responder a verdade num questionário, ainda mais sobre um tema tabu como sexo!
Ele não tinha linguagem corporal expressiva, não demonstrava o que pensava sobre o assunto, parecia treinado para não demonstrar fisicamente o que sentia. Simone não conseguira, até o momento, fazer uma leitura precisa dele.
– Mas temos que partir do princípio de que as respostas são verdadeiras, senão não conseguiremos jamais chegar a um padrão.
Simone fez um gesto batendo suavemente a mão esquerda de lado sobre a direita, em sinal de corte, limite.
– Em termos de sexualidade, é fácil identificar sadismo e masoquismo, porque usamos um padrão que demonstra que apenas catorze por cento da população já teve experiência nesse sentido, e isso não é um número exato. Logo, estamos com oitenta e seis por cento, aproximadamente, de pessoas com outro comportamento.
– Elas têm outro comportamento ou estão mentindo.
Ele era insistente e agora estava evidente que precisava de uma resposta que se encaixasse na sua tese de defesa, e as que ela fornecia não o satisfaziam.
– Pode ser. O que é normal para você?
Melhor devolver a pergunta, ela pensou, assim poderia entender o que realmente o satisfaria como resposta, daí se veria livre do sujeito.
– Normal é sentir prazer e fazer tudo o que puder em busca desse prazer, o resto é preconceito, bobagem ou falta de coragem! – falou em tom inflamado, demonstrando enfim que por trás da fachada advogado (“não estou nem aí”) havia um ser capaz de paixões.
– Pessoas matam em nome dessa busca do prazer, você deve saber melhor que ninguém, pois está fazendo a defesa de uma.
– Sim, o caso que estou defendendo é basicamente este: a morte pelo prazer, alguém que coloca seu prazer acima de tudo, arriscando morrer, e isso não é errado, mau ou bom, é a vontade da pessoa de obter aquele prazer, assumindo as consequências.
Ele foi enfático nas palavras, como quem realmente acredita no que está dizendo.
– É, mas considerando que você está aqui, perdido no meio de médicos e psicólogos, parece que sua tese está sem sustentação para convencer o juiz.
Ele deu um sorriso meio de lado, como que concordando, passou a mão pelo cabelo, já meio impaciente, aparentemente frustrado.
– Não apenas o juiz. Preciso convencê-lo e a mais sete pessoas, todo um tribunal do júri. O crime será julgado como doloso, vão dizer que havia intenção de matar. Quando o agent provocateur for a julgamento, será essa a visão, porque sexo atemoriza as pessoas, sexo não convencional aterroriza, sexo é facilmente condenável.
– Você consegue colocar a cabeça no travesseiro depois de defender alguém que matou? Eu jamais consegui entender advogados, sempre defendendo um lado, e não necessariamente a verdade; minha vida inteira foi dedicada à busca da verdade.
– Sim, entendo você, mas sei que ele não tinha intenção de matar, apenas queria dar prazer, foi um acidente e...
Aparentemente ele acreditava nisso.
– Parece que os advogados sempre dizem isso, mas lhe dou razão no terror que as parafilias geram na média da população.
Simone olhou o relógio e viu que já estava com um atraso de dois minutos para a retomada da palestra, algo incômodo para ela.
– Temos que voltar.
Ela começou a se mover para retornar à sala.
– Doutora Bennet, você poderia me ajudar com meu caso?
Ele pôs a mão sobre o braço dela, que, apesar de estar vestida com um tailleur, sentiu um arrepio pelo corpo.
– Meu nome é Simone, e juro que não sei como ajudá-lo – balançou a cabeça em sinal de negativo.
– Simone, podemos voltar a conversar quando terminar aqui?
– Sim, certamente.
E lá se foi para o espaço a vontade que ela tinha de ir para o hotel tomar um banho, comer e dormir depois de sua fala.
As demais palestras foram interessantes para um sexólogo. Provavelmente não tenham sido de grande ajuda para um advogado, mas ele se manteve em silêncio, prestando atenção. Na saída, aguardava-a em pé junto à porta, mãos no bolso.
– Carl, você resistiu até o final!
Ela falou com surpresa e inexplicável prazer em vê-lo ali.
– Bravamente! Como vocês conseguem complicar as coisas! É impossível compreender alguns termos.
– Então, exatamente como vocês advogados quando escrevem!
Ele teve que assentir:
– Mas nossa letra é melhor.
E novamente brindou-a com um sorriso lindo, de dentes perfeitos.
– Como posso ser útil? Você acabou de me conhecer, não sabe sequer o que faço, nem se tenho capacidade ou conhecimento para ajudá-lo e, pelo pouco que ouvi, o caso do seu cliente é complicado.
– Não sou psiquiatra, mas advogado há vinte anos e, na minha área, nós também passamos a conhecer as pessoas. Você pode me ajudar, sei que pode, pois sexualidade é sua área. Gostei do seu livro, apesar de não ter entendido metade; senti que você parece não tratar com preconceito o assunto.
Ela não pôde esconder o prazer na menção ao livro. Tanto trabalho para escrever, tantas horas de pesquisa, a sensação de reconhecimento era sempre muito bem-vinda!
– Não posso ter preconceito na minha profissão e fico feliz de encontrar alguém, fora do mundo acadêmico, que tenha tido coragem de ler meu livro.
– Foi difícil, é um trabalho bem técnico, mas me possibilitou ver que você não faz julgamentos preconceituosos sobre o que escreve, e não permite ver a sua personalidade.
“Minha personalidade?”, pensou ela. “Se quisesse alguém analisando minha personalidade escreveria um drama, não uma tese.”
– É um trabalho científico, fruto da minha tese, não um romance. Voltando ao seu caso, se sabe algo sobre minha carreira, sabe também que não moro em Nova York, e sim em Woodbridge, e trabalho em New Haven. Ficarei aqui apenas três dias, dos quais só um será livre. Não entendo como poderei ajudar.
– Eu gostaria de contratar seus serviços para me ajudar na defesa. Meu escritório pagará por suas horas de consultoria. Preciso da opinião de um especialista, preciso de ajuda, irei até Connecticut se for preciso, ou você poderá vir aqui se possível, afinal não é longe.
Ele a mirou com um olhar tímido e doce, e ela, que não resistia a um pedido de ajuda, assentiu com a cabeça, sem saber muito bem como colaborar com o homem.
– Posso tentar, se tiver mais elementos para analisar sua proposta.
– Vamos jantar para conversar sobre o caso? Eu lhe conto o que aconteceu, você forma uma ideia e pensa se pode me ajudar e como.
Simone era prudente de forma geral, ainda mais trabalhando diariamente com pessoas com sérios desvios de conduta. Prudência tinha que ser seu nome, mas esqueceu disso e, na verdade, seu interesse profissional era mínimo naquele momento; estava cansada, com fome, no entanto a curiosidade sobre Carl a movia, e também a atração que sentia por aquele ser elegante e de opiniões fortes.
*****
Não resistiu a analisar o carro dele, uma Mercedes preta sedan – a escolha de um carro diz muito sobre uma pessoa.
Simone apontou para o veículo estacionado.
– Seu carro é tradicional e seguro para quem faz a apologia do não convencional. Bem, o mundo está cheio dos “faça o que eu digo”...
– É um carro bonito e rápido, gosto de ter controle sobre uma máquina possante, e para os clientes inspira seriedade. O carro não sou eu, é apenas um carro – ele ficou nitidamente desconfortável com o comentário.
– Fique calmo, não foi uma crítica, foi uma observação.
– Estou calmo, mas é meio desconfortável alguém me analisando, me sinto um rato de laboratório...
Ele gentilmente abriu a porta para ela, ajudou-a a se sentar, tocando-a acidentalmente com mãos quentes, fazendo a atração crescer.
– Vício profissional... me desculpe.
– Tudo bem. Estou faminto, e você?
Advogados, capacidade de sair de qualquer conversa rapidamente...
– Morrendo de fome.
Na verdade, a fome passara; ela estava morrendo de vontade de usar o espelho do para-sol para ver como estava – estaria apresentável?, os cabelos em ordem?
– O que você acha de um bom risoto, gosta?
– Gosto muito, para mim faz parte da minha lista de confort food.
Ele fez um gesto de concordar com a cabeça. Ficou em silêncio boa parte dos quinze minutos que levaram para chegar a um restaurante agradável, de iluminação indireta, no Meatpacking District.
Ele cumprimentou o garçom – aparentemente era habitué do local. Sentaram a uma mesa agradável, perto de uma parede envidraçada com água escorrendo lentamente, relaxante, e só então ele voltou a falar.
– Você entende algo de vinhos, Simone? – ele perguntou, sem tirar os olhos do cardápio, que parecia apreciar como se estudasse um caso.
– Sim, sei que são feitos de uva.
Ela riu de seu próprio comentário infeliz, pois, apesar de apreciar a bebida, não era uma grande conhecedora do assunto.
– Mas gosta?
– Gosto, mas nem tudo de que gosto eu entendo.
Já era tarde, ela decidiu parar de analisar a personalidade de Carl. O menu estava sedutor, e a fome havia retornado redobrada. Ela queria todos os pratos, estava difícil chegar a uma escolha. Ele, no entanto, escolheu rápido o prato e aguardou a decisão da convidada para definir o vinho, sem lhe perguntar a opinião; talvez estivesse com medo de mais uma tirada desastrosa dela nesse campo.
– Você é médica há muito tempo?
– Treze anos em janeiro do ano que vem.
Ela se sentiu uma senhora falando isso. Havia chegado aos quarenta e dois anos, idade difícil para qualquer mulher, e confessá-la, então, era ato de coragem.
– E decidiu se dedicar à área sexual por alguma razão especial?
– Durante a faculdade eu não gostava muito da área, queria ser psiquiatra, mas não tinha inclinação para sexóloga. Dois anos depois de formada, com uma boa carteira de clientes, comecei a entender que a maioria dos problemas passa pela sexualidade.
Parou para saborear o vinho, que lhe pareceu muito bom, dentro de sua compreensão limitada.
– Fale-me sobre a sua causa.
– Caso complicado. Um casal de namorados, acostumado a fazer brincadeiras sexuais de todos os tipos. Uma noite, em meio a uma brincadeira, ela morre.
Ele descreveu de forma tão superficial que poderia ter dito: eles saíram para comprar pão.
– Qual foi o jogo que ocasionou a morte?
– Ela tinha uma fantasia que repetia sempre: gostava que apertassem o pescoço dela durante o ato sexual. Naquele dia, ele apertou demais.
– E ele apertou demais por quê? Você sabe? Descontrole ou intenção?
– Ela pedia para apertar mais, e quanto mais ele apertava, mais ela pedia para apertar. Ele apertou, apertou e apertou mais, e ela morreu.
Parecia que ele estava vendo a cena, o olhar perdido enquanto descrevia o ocorrido.
– E você tem certeza de que a história é essa? Que não foi um estupro seguido de assassinato?
– Tenho certeza absoluta! – falou indignado. – Ele não queria matá-la, queria apenas lhe dar prazer.
Bom advogado, apaixonado pelo caso, pensou ela.
– Mas matou. Chama-se “hipoxifilia” esse ato sexual de apertar o pescoço para dar e sentir prazer; muitos acidentes e mortes ocorrem dessa forma.
– Não é incomum? – ele perguntou, entre curioso e aliviado.
– Não, existem inclusive pessoas famosas que morreram assim. O grande problema é que é bastante difícil saber se quem provocou a morte queria ou não que ela ocorresse. Às vezes não é um crime acidental, é apenas uma asfixia disfarçada, um estupro ocultado. É preciso ter certeza.
– Esse não é o caso.
Aparentemente, ele tinha certeza.
– Você parece estar muito certo disso. O assassino é convincente em seu relato?
– Não gosto do termo assassino, há uma condenação implícita nele. Eu o conheço faz muito tempo, ele nunca mataria ninguém intencionalmente.
– Eu não diria isso, todos somos capazes de matar, dependendo das circunstâncias e dos freios que temos – ou da falta deles. Você não tem noção do número de pessoas que passaram pelo meu consultório que já mataram ou estiveram perto de matar e são pessoas absolutamente pacificas, aparentemente normais e razoavelmente equilibradas.
– De perto ninguém é normal.
– De perto não se sabe bem o que é normal, afora as estatísticas de comportamento padrão.
– É melhor não chegar muito perto de você, doutora, ou minha anormalidade vai aparecer – ele riu, como se fosse uma boa piada.
– Eu preciso saber em que posso ajudá-lo para saber se preciso chegar perto.
Ela gostaria muito de chegar mais perto dele; ele a intrigava cada vez mais.
– Simone, tenho que inocentar uma pessoa, ele é um amigo íntimo e sócio. Preciso saber se a morte não foi premeditada, não foi intencional. Para provar a inocência dele, preciso estar convencido, tecnicamente convencido. Para isso, preciso de um estudo psicológico da... como é mesmo o nome? Hipoxofilia...
E levou a mão à garganta num gesto leve de apertar... Que reações esse homem estava provocando nela? Um levar de mão à própria garganta a fez ter vontade de que o toque fosse nela.
– Hipoxifilia – ela confirmou –, mas estudar apenas a hipoxifilia vai ajudá-lo a inocentar alguém?
– Vai sim, preciso saber o que leva alguém a sentir prazer com isso, o que vai dentro da cabeça de uma pessoa para ela pedir tal intensidade, e que desvio de comportamento é esse. Preciso entender o que leva o parceiro a atender a esse desejo… Eu quero saber o que o motivou.
Essas últimas palavras foram ditas com ênfase, não havia dúvida de que ele precisava de respostas.
– Penso que temos de ser mais objetivos.
– Temos de ser? Então a doutora está aceitando ajudar...
Carl pareceu aliviado com a ideia de obter apoio.
– O caso parece interessante, mas é preciso conhecer bem a história para entender se foi hipoxifilia ou pura e simples morte por asfixia. Necessito de detalhes para ajudar a construir sua tese.
– Simone, você terá todos os detalhes que quiser. Ele escreveu minuciosamente a história deles, com riqueza de detalhes.
– Ele fez o quê? Descreveu a morte?
– Exatamente isso. Melhor do que descrever a morte, ele escreveu a história do relacionamento deles, como se fosse um romance.
– Eles têm nome ou é segredo de profissão?
– Mark e Lara.
– Esses são os nomes reais?
Ela já estava pensando em fuçar no Google em busca de um assassinato por hipoxifilia para ver o que havia sobre essa história.
– Não há mentiras no texto. Você vai ler e vai me dizer se é real, tenho certeza. Apenas gostaria que inicialmente se ativesse ao texto, que não procurasse fontes extras até finalizá-lo, para não haver contaminação, preciso de uma opinião imparcial.
Como se tivesse lido os pensamentos de Simone, Carl acabara de jogar uma pá de cal na ideia dela de pesquisar na internet. Mas ele tinha razão, refletiu ela, seria melhor ler o texto e depois ir em busca de outras fontes. Como regra, o livro sempre era melhor que o filme.
– Como faríamos isso? Você vai me emprestar o que ele escreveu?
– Vamos fazer o seguinte, eu vou emprestar o primeiro capítulo. Você lerá e me dirá se pode me ajudar. Daí faremos um contrato regulando honorários e confidencialidade e você terá acesso ao resto da história.
O advogado voltou à vida: contrato, honorários e confidencialidade!
– Parece bom para mim.
Então ele abriu a pasta que havia acomodado numa das cadeiras da mesa, retirou um envelope amarelo e o entregou a Simone. Pelo volume, deveria haver no máximo umas dez folhas lá dentro.
– Sugiro que agora você coma, pois ainda não tocou no seu risoto, e risoto só é bom quente – fez um gesto apontando o prato intocado.
– Está maravilhoso. Adoro risoto – disse ela ao provar o prato, fechando os olhos em sinal do prazer que o sabor da comida lhe provocara.
– Também gosto muito, faço alguns muito bons.
"Além de interessante, o homem ainda cozinhava!" Ela sentiu vontade de levá-lo para casa e de criá-lo em cativeiro.
O jantar transcorreu bem. Carl mostrou-se interessante e culto. Ela calculou, mais devido ao tempo de formado que ele informara do que pela aparência, que ele deveria ter mais ou menos a idade dela. Descobriu logo que não estava tão longe: ele tinha quarenta e três.
– Tenho muita curiosidade em saber como uma mulher bonita como você decide passar a vida mergulhada na mente humana.
– Obrigada pelo bonita.
Simone nunca pensara em si como uma mulher bonita, sempre se acreditara como mais interessante do que bonita. Era normal, tinha cabelos e olhos castanho-claros, fazia ginástica regularmente e estava em boa forma, sem nada de espetacular.
– A mente humana é o lugar mais fascinante que existe.
“E sua cama deve ser o segundo lugar”, pensou ela, já bem alegre pelo vinho.
– Eu prefiro Paris.
E riu. O vinho torna engraçados até os advogados mais sérios.
– Concordo, é um lugar bonito e pouco complicado, mas a viagem ao pensamento humano é mais intensa e rica.
– Você é casada, Simone?
"É o vinho falando de novo", pensou ela.
– Não existe marido que suporte uma vida como a minha. Sou workaholic.
– Mas já foi casada.
Ele estava de fato interessado na vida dela ou era apenas boa educação?
– Sim, fui, faz muito tempo, e tenho uma filha. Tenho certeza de que essa era sua próxima pergunta.
– Era sim. Clássico, não?
– Normal. E você? Gravata, pasta preta, filhos e esposa esperando em casa?
Em seu pensamento, torcia para que ele dissesse não.
– A gravata ficou no carro, como você notou, a pasta preta está aqui. Sou um clássico.
– E a mulher e os filhos, em casa?
Ele fez um gesto de nem pensar com a mão.
– Sem mulher em casa, sem filhos, pelo tempo que passo fora teriam que me procurar nos classificados cada vez que quisessem falar comigo. Tenho uma planta, viva!
"Definitivamente, ele tem senso de humor", pensou. "Um humor um pouco áspero, mas está lá, é só mantê-lo alcoolizado."
– Isso vai além da minha capacidade. Consigo matar qualquer planta. Eu sempre esqueço de dar água – ela fez uma pausa e acrescentou:
– Carl, o jantar está ótimo, não quero ser deselegante, mas amanhã a primeira palestra é às nove horas. Por acaso, é a minha, e ainda preciso revisar meus papéis.
– Quando você terá tempo para ler o primeiro capítulo?
Ele tinha, obviamente, pressa de obter respostas.
– Prometo fazê-lo amanhã à noite. Você me deixa seu número e telefono para você no sábado com uma resposta, pode ser?
– Estou ansioso, mas pode ser. Vou lhe deixar meu cartão.
E lhe estendeu um cartão, o que para ela pareceu algo frio, profissional. "Acorde, Simone", pensou. "É exatamente isso que ele quer com você, uma relação profissional."
– Você precisa me dar o celular, aqui só tem os números do escritório e depois de amanhã é sábado.
– Estarei o dia todo no escritório, pode me ligar.
– Falando em workaholic... Só não entendo a samambaia viva.
– É um cacto, Simone. Parece comigo: espinhento, resistente e não muito bonito.
– Cuidado, Carl. O interior de um cacto é aquoso, suave.
– Se você diz...
No trajeto até o hotel de Simone, Carl permaneceu em silêncio, parecendo imerso em pensamentos ou em outra dimensão. Quando chegaram, ele desejou boa-noite e partiu.
Capitulo Dois
O homem intrigava Simone cada vez mais, mas estava claro que o que ele queria era ajuda profissional, pois não fizera nenhum movimento em outro sentido... "Mas disse que me acha bonita", pensou e sorriu contente a psiquiatra.
Mulheres que como ela são vistas como cérebros têm necessidade de ser apreciadas por outras qualidades. Inteligente ela tinha certeza de ser, sem falsa modéstia. Era bom saber que a achavam bonita.
Simone entrou no quarto de hotel exausta. Olhou em volta. Simplesmente adorava hotéis, a impessoalidade, descobrir o que há de novo atrás de uma porta fechada. A imagem de organização imaculada. Atirou-se na cama e ali ficou por uns minutos de olhos fechados, completamente vestida. Estava cansada, mas os pensamentos fervilhavam em sua mente. Respirou fundo e decidiu tomar um banho. Iria dormir em seguida.
Não conseguiu dormir depois do banho. Sentia-se relaxada. Entrou embaixo das cobertas, o clima estava fresco, fazia uns doze graus, mas seu quarto se mantinha agradável. O envelope amarelo que havia jogado sobre a mesa ao entrar a atraía. "Vou dar só uma olhada", pensou.
Abriu o envelope, removeu o texto impresso. Iria ler só a primeira página, mas uma simples olhada a fez mudar de ideia.
O texto estava escrito como se fosse um livro, com direito a dedicatória:
“Para Lara,
minha vida, meu mundo, meu amor,
a vida sem você não tem cor,
não tem alegria, não tem riso,
não tem poesia,
sinto sua falta, dia e noite.”
Difícil dormir depois de uma declaração de amor assim. Nunca alguém lhe dissera ou escrevera nada parecido, e ela queria saber como era essa alma romântica. Só uma página...
O Diário de Mark
Lara
Chegar aos quarenta anos é um momento complicado para qualquer pessoa, homem ou mulher, não importa. Você sente como se metade da sua vida tivesse ido embora e você não sabe muito bem para onde. Eu não pensava muito nisso, estava apenas vivendo, mas a vida traz surpresas que nos obrigam a refletir…
Tive ao longo de quarenta anos minha dose de alegrias, de sucesso e de amores, ou pensava que tivera amores. Tive também as porções de desilusão que me tornaram bastante cético com relação a sentimentos. Estava preparado para viver só.
Vivi dois casamentos, um quando muito jovem, que não sei explicar até hoje por que ocorreu, outro já mais maduro, mas que foi mais fonte de tédio do que de boas lembranças. Não tive filhos. Não tenho talento para paternidade e não havia paciência para ceder aos caprichos da minha primeira ex-mulher nessa área. Minha sorte foi que, por ser uma mulher inteligente, ela acatou minha decisão. Meu primeiro casamento terminou por isto: minha primeira esposa queria filhos, eu não. Cada um seguiu seu caminho.
No meu segundo casamento nenhum de nós queria filhos. Ele terminou pelo dia a dia; era desgastante o convívio. Concluí que o casamento é a tumba do amor: amarre o nó e tudo morre. Eu me conformei com isso.
Tinha certeza de que não amaria mais, de que essa armadilha chamada amor não me prenderia de novo. Houve alguns casos passageiros, um pouco de diversão aqui e ali. Comprei um apartamento para essa decisão de vida: grande, espaçoso, mas apenas para mim, nada de closets para senhoras e seus milhares de sapatos e bolsas, nada de espaços para acalentar sonhos de um bercinho por ali. Funcionalidade, praticidade e isolamento, assim era meu lar. Eu tinha um cão, toda a companhia de que precisava.
Minha vida estava planejada, minha carreira se consolidando, meus clientes gostavam do meu trabalho.
Terminado o doutorado, um dos meus prazeres era dar aulas – hobby, eu diria, porque é uma atividade extenuante, mal remunerada, mas prazerosa ao extremo. Lecionar é um palco para atores frustrados. Sou reservado. Contudo, quando estou atuando, ou melhor, lecionando, e quando estou advogando, me transformo, meus melhores traços vêm à tona e me realizo dentro da personalidade que assumo nesses papéis.
No momento em que consegui dizer para mim: “só espero da vida que prossiga dessa forma”, a vida me mostrou que ela faz seu próprio rumo, que não somos seus autores, e sim espectadores.
Conheci a Lara na casa de um amigo e ex-cunhado, Peter Hay. Gay assumido e solteiro convicto, ele adorava dar festas alegres para “pessoas interessantes”, segundo ele, nem sempre tão interessantes quanto ele pensava. Eu sempre tentava me esquivar, mas nesse dia, sem qualquer outro plano, de férias na universidade e com o escritório sob controle, resolvi aproveitar para ver o que a noite de sexta-feira oferecia.
Estava tomando um uísque quando uma mulher começou a andar em minha direção. "Linda", pensei. Ela era maravilhosa, alta, quase tanto quanto eu, cabelos loiros e olhos cor da água do mar do Caribe. Sensual, seios rígidos, sem sutiã, pernas torneadas. Com o perdão da expressão, gostosa! Até hoje me lembro do diálogo inicial, palavra por palavra:
– Oi, eu sou a Lara.
– Mark.
– Você está só por falta de opção ou por antipatia?
Impossível não rir com tal abordagem.
– Os dois.
– Você tem jeito antipático, mesmo, mas é muito bonito para não ter opção.
– Alguém já lhe disse que você é franca demais?
– Já, mas vou lhe dizer que não adianta nada me alertar. Quando tenho vontade, falo. A vantagem que teremos no nosso relacionamento é que eu sou honesta. Quantas pessoas podem lhe garantir isso?
– Nosso relacionamento? Olha, eu sei que você é linda e que mulheres lindas creem que podem fazer tudo o que quiserem e o mundo vai sorrir para elas, mas para mim você parece meio maluca e pessoas malucas me dão medo.
– Ah, sei, você gosta de gente chatinha e normal.
E ela desenhou um quadrado no ar com o indicador.
– Não, só normal está bom.
Por sorte, nesse momento, Peter se aproximou para me tirar da situação insanamente surreal.
– Mark, vejo que já conheceu a Lara. Lara, esse é o Mark, meu advogado, que me tira das enrascadas tributárias da vida. Mark, essa é a Lara, minha arquiteta maravilhosa, responsável pela minha casa. Que bom, queria que vocês dois se conhecessem. Aliás, não sei como não se conheceram antes, pois são meus amigos do peito. Acho que têm muito em comum.
Ele parou para respirar e nos abraçou efusivamente, como sempre fazia com todas as pessoas, mais para causar embaraço do que para mostrar afeição.
Só me faltava ouvir isso! Passei a vida construindo uma imagem de advogado sério, compenetrado, e chega alguém e me diz que tenho algo em comum com uma mulher louca! Tenho que analisar a imagem que ando projetando ao mundo. Pelo jeito, a tal Lara pensou o mesmo, porque riu.
– Querido Peter, acho que você está enganado sobre as semelhanças. Já me apresentei ao seu amigo, gostei dele, mas ele está assustado.
– Assustado e presente... Acho estranho quando falam de mim como se eu estivesse em outro lugar – lembrei aos dois.
– Mark, o Peter resolveu que hoje você seria o meu “encontro às escuras” da vez.
– Da vez?
Peter pareceu um pouco surpreso com a afirmação de Lara, mas não negou.
– É, eu vivo tentando casar a Lara, que é minha amiga desde sempre, mas já vi que está para nascer o homem que vai colocar uma aliança naquele dedinho ali.
Gostei de saber que a deusa era solteira.
– Peter – ela ronronou. – Eu já disse a você: me caso com você hoje.
– Certo, e vai passar o resto da sua vida como disfarce de gay que não sai do armário?
– Muito no armário que você é! Mas ao menos estaria casada com um grande amigo, que é mais do que a maioria dos casais que conheço consegue em trinta anos juntos.
Os dois conversando eram a prova viva de que eu havia bebido muito, porque nunca vira assuntos tão desconexos. Será que eu tinha caído em um filme de Woody Allen? Maldito uísque!
– Voltando a nós dois, Mark.
– Não existe nós dois...
– Ah, ainda não, é verdade, mas já vai existir – colocou a mão no meu braço e foi dizendo: – Peter, querido, nós estamos indo, ok? Beijos e beijos, festa linda.
Lara deu uma beijoca na boca do Peter e fez menção de sair.
– Como assim estamos indo? Ok, estamos indo... onde?
Se ela quisesse ir para a Coreia do Norte eu estava indo, ela era espetacular!
– Peter, esse uísque é falsificado?
– Mark, espontaneidade uma vez na vida! Deixa que a Lara leva você.
– Tem certeza de que ela não é uma psicopata?
– Não, nenhuma, mas arrisca para ver, amanhã descobriremos seu corpo em algum lugar e, se você der sorte, com um sorriso feliz no rosto. Vai, meu amigo, faz tempo que você só é chato, vai viver um pouco.
E assim Lara entrou na minha vida e tudo mudou.
Capitulo Três
Simone estava muito agitada para dormir, mas sentia-se feliz por decifrar, talvez, o primeiro enigma. Carl é criminalista; Mark, tributarista; ambos advogados. Provavelmente Mark era colega de escritório do Carl, sócio ou colega de faculdade. Definitivamente havia envolvimento emocional entre eles. A defesa não era só uma questão profissional, mas também emocional.
Tentou ver um pouco de TV, mas nada de vir o sono. Isso era desesperador, pois dali a pouco ela teria que levantar para trabalhar e estaria um trapo.
Depois de muito rolar na cama, Simone enfim conseguiu pegar no sono e dormiu até o despertador tocar. Levantou-se, se arrumou o melhor que podia, passou uma maquiagem leve na tentativa de apagar os resultados da noite mal dormida, vestiu um tailleur preto, meias finas, salto alto, seu uniforme de profissional séria, e foi para o workshop sentindo-se cansada, mas feliz. Amava sua profissão e também falar sobre sua especialidade.
*****
Ao pegar o microfone para começar a palestra do dia, qual não foi sua surpresa ao ver novamente Carl sentado na plateia... Interessante para quem iria vê-la apenas no dia seguinte...
– Bom dia a todos, espero que tenham tido um bom descanso.
O coro de bom-dia foi animado, o que a ajudou a ter um pouco mais de forças depois da noite mal dormida.
– Ainda sobre o tema do sadomasoquismo, hoje quero retornar com vocês a uma de suas maiores fontes: Freud.
– Sempre Freud – disse alguém da plateia.
– Sim, sempre Freud, porque ele é a fonte. Os demais se inspiraram nele, o copiaram, contradisseram ou seguiram seus passos, mas nunca houve ninguém que conseguisse se livrar dele. E a razão é simples: em muitos aspectos, ele estava certo.
– Para Freud tudo era sexo, eu acho que ele era um pervertido! – disse uma mocinha sentada na primeira fila, jovem demais para estar em um workshop com profissionais graduados, jovem demais para entender algo de sexo, teoria ou prática. Portanto, opinião suspeita.
– Considerando que perversão para a psiquiatria é qualquer ato que não envolva o sexo tradicional pênis-vagina, você pode estar certa. Mas nosso ponto não era a vida sexual de Freud e sim sua contribuição para o estudo das parafilias e perversões. Posso começar ou alguém mais gostaria de se manifestar?
A sala ficou em silêncio e Simone chegou ao final da apresentação sem outros percalços. Quando procurou Carl, ele havia desaparecido. O que estaria fazendo hoje ali? Testando os conhecimentos da profissional que queria contratar? Tentando aprender para sua tese ou apenas dando vazão à curiosidade? Curiosidade maior era a dela...
O dia foi exaustivo, os temas polêmicos, muitas discussões. Encerrados os trabalhos, Simone voltou direto para o hotel, encheu a banheira e se preparou para um longo banho. Decidiu aproveitar para relaxar, abriu uma garrafinha de uísque que encontrou no frigobar, colocou gelo num copo e não resistiu à tentação de pegar o manuscrito para recomeçar a ler.
O Diário de Mark
Quem é essa garota?
– Muito bem, senhorita fora da casinha, onde nós vamos?
Eu já havia parado de resistir fazia algum tempo.
– Dançar! – disse ela no melhor sorriso que podia dar.
Penso agora que ela sabia o efeito do seu sorriso sobre as pessoas, pois sempre que queria algo abria um sorrisão e se tornava uma criança travessa, à espera de ter seus desejos atendidos.
– Eu não sei dançar, Lara.
De fato, o Peter entendeu nossas personalidades como ninguém, pensei. Tínhamos “tudo” em comum...
– Não há problema, eu lhe ensino, e se você realmente for horrível, fica me olhando!
E lançou novamente seu lindo sorriso.
– Lara, você não me parece mesmo muito certa...
– E o que é certo para você?
– Temos alguns códigos de comportamento e leis neste país para dizer o que é certo e errado.
– Chato! Estou falando para você, não para o advogado que se esconde aí dentro.
Lara pôs o dedo no meu peito. Me deu vontade de morder aquele dedinho cor-de-rosa com a unha pintada de vermelho, fiquei imaginando aquelas unhas deslizando sobre meu peito e me perdi na imagem.
– Quatro, três, dois, um… Ei, Terra para Major Tom – ela falou, meio cantando, e fiquei sem entender se era comigo.
– Oi? Não entendi...
– É que você estava em outro planeta... Vamos ou não vamos dançar?
Uma expressão contrariada e o pezinho batendo no chão indicavam que estava impaciente.
– Ok, vamos nos arrastar numa pista de dança por aí, menina. Mas avisei que não sou bom nisso. Você conhece um bom lugar?
– Vários, adoro dançar. Acho que tem um perfeito para arrancar você da gravata e trazê-lo para a Terra. Chama-se Atrás da Porta, conhece?
– Não, não sei o que tem atrás ou na frente da porta, não tenho hábito de casas noturnas. Sou diurno, levanto cedo, mas vamos lá então ver como as criaturas da noite se comportam.
Esse sacrifício tinha que garantir a menina na minha cama esta noite, se eu ainda tivesse forças depois de ir para a tal porta.
– Veio de carro? Ou vamos no meu?
– Não, não gosto de beber e dirigir.
– Meu Deus, você só pode ter saído de algum livro de boas maneiras ou de outra era! Qual é o seu signo? Vamos no meu carro – acrescentou, já se dirigindo para um estacionamento próximo à casa.
– O meu o quê?
– Signo do zodíaco, tipo que dia você nasceu?
– Acho que é capricórnio, nasci no dia 5 de janeiro, por quê?
– Sou astróloga amadora e o signo explica muito. Tadinho, você é um típico capricorniano!
Abriu o carro e, ao contrário do que eu esperava, ou seja, em vez de um carro delicado, ela tinha uma camionete, dessas bem grandes, e cheia de papéis e rolinhos de papel por todo lado, que foi tirando e jogando no banco traseiro, sem falar nas centenas de garrafas plásticas de água vazias por toda parte.
– Desculpa a bagunça, carro de obra... – ela não me pareceu muito constrangida, apesar do pedido de desculpas.
– Ao menos você se hidrata... Ok, me explique o “tadinho, é um típico capricorniano”.
– Vocês de capricórnio são complicados, fechados, cheios dos traumas, reclusos, sérios e tradicionais. Ah, e grandes trabalhadores também.
Enquanto ela dirigia, eu a observava: linda! Podia me chamar do que quisesse, mas naquela noite eu ia ter aquela mulher.
– Puxa, isso me parece meio ofensivo!
– Não, não é, somos apenas isto mesmo: vítimas das energias astrais, não é sua culpa.
– Ah, assim me sinto melhor! Sou um chato, mas não é minha culpa.
– Querido, eu não chamei você de chato – ainda. Até o fim da noite... pode ser... – e riu novamente
– E você? Tem signo?
Dessa vez ela riu com gosto:
– Todo mundo tem. Eu sou geminiana.
– Já sei: louca, desatinada, com tendências psicóticas e excesso de sinceridade.
– Quase acertou. O excesso de sinceridade, no entanto, vem da lua em sagitário.
– Ah, e ainda tem a lua...
– Está bem, assunto chato. Me fale de você, cabritinho!
E me deu uma cutucada com a unha na costela.
– Cabritinho?!
– É, capricórnio é representado por um cabrito...
Ela me explicou um pouco mais sobre astrologia e continuou com os mais diversos assuntos. Emendava um tema em outro e nenhum era finalizado. Fazia anos que eu não falava tanto e sobre assuntos tão diversos. Ela não era apenas linda, era também inteligente, mas cada vez mais eu tinha uma certeza: a mulher tinha algum problema sério de sanidade... O que foi confirmado pouco tempo depois, ao chegarmos ao Atrás da Porta. O local parecia uma casa, sem indicação de ser um clube noturno, salvo pela entrada de pessoas e o acúmulo de carros estacionados em frente.
Ao chegarmos, nos “cadastraram”, pediram nossa identidade, cobraram um valor de entrada e nos deram cartões, como se fossem de crédito, para consumo. Pediram para deixarmos nossos pertences num armário com chave e nos entregaram as chaves. Foram bem claros quanto a deixar tudo, especialmente celulares.
Para piorar minha sensação de “estou entrando numa roubada”, fomos revistados corporalmente na porta.
– Ei, isso é ilegal.
– Calma, senhor, é procedimento normal aqui, para sua segurança.
Uma mulher vestida de espartilho ou algo assim e calça jeans colada revistou Lara, que virou para mim e sorriu.
– Venha, Mark, essa música é ótima para dançar.
Ela entrou e foi me arrastando pela mão. Não estava exatamente dançando, mas deslizava e parecia em transe, olhos fechados, se mexendo ao ritmo da música. Era como entrar num filme em que a mocinha linda sabe todos os passos: me senti o espectador de desse filme, querendo tocar a estrela que pulava ao ritmo de Fireworks... Ah, e também cantava...
– Quer beber algo, Lara?
– Um uísque seria maravilhoso, obrigada.
A menina agora já estava toda descabelada e, se fosse possível, mais bonita conforme a noite avançava – ou eu estava muito bêbado, apesar de ter tomado apenas umas doses de uísque na casa de Peter?
– Ok, vou buscar.
– Obrigada, Mark – ela piscou. Alguém ainda pisca hoje em dia?
O bar estava lotado e demorei um pouco. Quando voltei, Lara estava dançando sensualmente com um homem. Incrível, acabara de conhecê-la e senti uma pontada de ciúme, vontade de ir lá dizer: “Esta garota é minha, tire a mão!”.
Eu definitivamente devia estar bêbado, ciúme nunca foi um sentimento para mim.
– Mark! Vem cá conhecer meu amigo. Este é o Leo. Leo, este é o Mark, meu novo amigo!
– Oi, Markô, que prazer.
Outro gay – ela realmente conhecia alguns.
– Tudo bem? Uísque?
– Não, obrigado!. Você vai para trás da porta hoje?
– Não sei... o que você acha? Meu amigo enfartaria? – e apontou para mim.
– Melhor enfartar agora do que daqui a um mês – ponderou o sujeito.
– Ok, sobre o que vocês estão falando?
Simone – dias atuais
O telefone tocou e Simone saiu toda molhada da banheira para atender.
– Alô?
– Oi, Simone, aqui é o Carl.
– Oi, Carl, estava lendo o manuscrito agora.
– Era isso que eu queria saber, se você avançou na leitura.
A voz dele soava ansiosa.
– Não muito, dois capítulos até agora, mas é muito interessante, prende muito a atenção.
– Sim, é bem detalhado. Penso que a ideia era transmitir todas as sensações vividas por eles .
– Até agora ele conseguiu, mal consigo parar de ler. Pena que comecei faz pouco, não tive tempo durante o dia.
– Você já comeu? Quer sair para jantar?
– Obrigada, Carl mas gostaria de avançar um pouco mais no texto, já que nos reuniremos amanhã. Vou pedir algo do serviço de quarto.
Estava morrendo de vontade de sair com ele, mas tinha que tomar uma decisão até o dia seguinte e para isso precisava avançar na leitura.
– O que você mais gosta de comer?
– Como praticamente de tudo, mas não se preocupe, amanhã, se você quiser, podemos almoçar juntos.
– Ok, combinado. Desculpe ligar a essa hora.
– Não é tarde, fique sossegado.
– Tenha uma boa noite, Simone.
– Você também, Carl, durma bem.
Simone telefonou ao serviço de quarto e pediu uma tigela de sopa, abriu um vinho que encontrou no frigobar e que tinha gosto de óleo diesel, abandonou a taça. Retornou então à banheira e continuou a ler. Queria muito ter uma resposta embasada em razões profissionais no dia seguinte, e não apenas nos olhos castanhos do advogado.
O Diário de Mark
Atrás da Porta
– Afinal, o que é esse atrás da porta que pode me fazer enfartar?
Tinha um pressentimento de que não iria gostar da resposta.
– Você sabe o que é este lugar aqui, Carl? – perguntou-me Lara, meio gritando e disputando com o volume da música.
– Aparentemente, uma boate!
Era o que parecia, uma pista de dança, bar, gente dançando, bebidas, pouca iluminação. Tinha a impressão de não estar em um templo budista.
– Isso aqui é uma casa de suingue.
– Sério?
Nunca estivera em uma casa de suingue antes. Tinha uma ideia preconcebida de casais sem coragem para terminar relacionamentos desgastados, tentando mascarar a necessidade de ser infiéis.
– Atrás daquela porta é o clube – e apontou para uma porta fechada. Aqui é só para dançar. Quer ir lá dar uma olhada?
– O que acontece lá?
– Você realmente nunca esteve em uma casa de suingue?
Ela parecia surpresa como se tivesse descoberto que eu nunca fui ao McDonald's.
– Nunca. Sempre achei que era um lugar de gente feia e velha.
– Não! Nada a ver! Tem gente de todos os tipos e funciona assim: você pode tocar, mas, se receber um não, para na hora. Você poderá ser tocado, basta se afastar e pronto, a menos que queira tocar também, ninguém o força a nada.
– E?
– E tudo acontece naturalmente; se estiver a fim de ficar com alguém, pode ficar. Em público ou num espaço reservado. E ainda pode ficar num lugar para os outros verem...
– O que significa ficar?
– Transar, Mark, sexo – ela disse sem emoção, como se fosse algo que acontecesse diariamente com as pessoas.
– Interessante…
Ah, como eu a queria... E não me importava que fosse na casa de suingue...
– Vem comigo, vou lhe mostrar!
Para variar, foi me arrastando pela mão para detrás da porta. Eu já estava excitado só com a explicação, mas receava encontrar alguém conhecido. Que loucura!
Entramos porta adentro, onde o ambiente era ainda mais escuro, com pouquíssimas luzes espalhadas, que não iluminavam nada. Havia música, sons de gemidos e pessoas passando, olhando, como se estivessem escolhendo um produto, considerando suas vantagens com cautela, um verdadeiro mercado de carnes... Uma mulher passou a mão no meu peito e continuou andando...
– Vou lhe mostrar as salas.
A primeira em que entramos tinha uma cama redonda, com alguns casais se tocando. Sentada por ali, uma mulher sem blusa era acariciada por um homem, que ao mesmo tempo beijava outra mulher – não há como não ficar excitado com uma cena dessas.
– Aqui é...
– O sofá comunitário. Todos podem usar – quer sentar um pouquinho ali junto com as pessoas?
– Não, agora não, quero ver mais.
Agora estava curioso. Continuamos.
– Aqui ficam as cabines privadas. Você pode fechar a porta – ela me mostrou.
Aparentemente, pelos gemidos que eu escutava, havia pessoas “usando a privacidade” em algumas cabines.
– Aqui ficam os aquários – apontou umas salinhas com um vidro na lateral. Me aproximei e vi um casal fazendo sexo. É indescritível a adrenalina que percorria meu corpo. Eu me sentia excitado como nunca havia me sentido antes. Meu coração batia rápido, meu pau doía, estava ficando maluco com tudo aquilo e com minha guia turística. Mais um pouco eu iria atacar a menina ali no chão!
– Ei, uma mulher apertou minha bunda!
Que sensação louca, ser acariciado assim por uma estranha.
– Calma, é assim mesmo. Relaxa, se não gostar é só continuar andando; se quiser, toque de volta. Aqui é espontaneidade e saber ouvir não.
– Eu posso tocar qualquer pessoa?
Eu me sentia um menino numa loja de doces com uma nota de cem na mão.
– Pode sim, não quer dizer que vai conseguir algo.
Nessa hora levantei a mão e fiz o que estava com vontade de fazer a noite inteira: passei-a pelo seio esquerdo de Lara e esperei sua reação. Ela fechou os olhos e gemeu. “Ganhei na Mega Sena!”
– Eu posso devolver… – e me enlaçou pelo pescoço e começou a me beijar com uma boca macia e gostosa, e eu passei a tocá-la por todo o corpo. Me sentia drogado, tamanha a adrenalina que corria nas veias. Perdi a noção de tempo e lugar, com pessoas gemendo em volta e um casal fazendo sexo a dois metros de nós.
Levantei a saia dela enquanto nos tocávamos e nos beijávamos, coloquei a mão entre as pernas dela, a calcinha devia ter uns cinco centímetros de pano e ela estava toda molhada, quente.
– Mark... – e começou a me tocar, segurou meu sexo com a mão e começou a massagear. Pedi a todos os santos que não me deixassem ter uma ejaculação precoce, pensei nos meus prazos, nos clientes complicados, mas estava difícil.
Ela me empurrou um pouco de lado e fiquei sem saber o que estava acontecendo com ela.
– Lara, desculpe por me deixar levar no meio do corredor.
– Nada de mais, só queria lhe dar isso.
Ela me estendeu um preservativo que, juro, não sei de onde tirou. Coloquei-o rapidamente, encostei Lara contra a parede, apoiando o traseiro dela, e a penetrei o mais fundo que pude. Ela estava muito excitada também, toda molhada, e se movia rapidamente, me apertando. Passou as pernas em volta da minha cintura, apoiada na parede, e começou a gozar gemendo alto. Impossível me segurar por muito tempo. Não consegui evitar mais e tive o orgasmo mais fantástico da minha vida.
Um casal nos observava. Me senti no zoológico.
– Foi bom, né? – ela disse toda lânguida, respirando no meu pescoço.
– Bom?! Nunca senti nada assim antes em toda a minha vida.
Ela riu.
– Sei como se sentiu. Parece uma droga que corre nas veias. Vem aqui.
Ela abriu a porta de um dos lugares íntimos. Havia um sofá, um porta-toalhas de papel, uma lâmpada vermelha e nada mais. Entramos e ela trancou a porta.
– Vamos terminar direito o que começamos no corredor.
Ela começou a tirar a roupa e eu a imitei. Ela tirou uma camisinha do sutiã e jogou o sutiã no chão. Era linda! Em segundos eu também estava nu e babando pelo corpo nu dela. Lara me empurrou para sentar no sofá, tomou meu membro na boca e começou a sugar com força, uma verdadeira profissional!
– Você é louca! – eu disse.
– Você não imagina o quanto.
Lara foi se acomodando e se encaixando e começou a me cavalgar, a princípio devagarzinho, depois em galope, e daí num ritmo alucinado, desesperada por gozar. Apesar do desconforto do sofá duro e gelado, perdi a noção do tempo e deixei o desejo liderar naquele local apertado. Transamos muito. Sons de sexo, visões e gemidos à nossa volta.
Quando terminamos, exaustos, nos vestimos em silêncio, drenados, exaustos. Eu não sabia o que dizer.
– Vamos embora? – disse ela com carinha de sono e cansaço. “Enfim”, pensei. Achei que a mulher não iria se cansar nunca.
– Vamos sim. Quer comer alguma coisa?
– Quero sim, estou faminta.
– Eu também.
– Dirige pra mim?
Me lembrei das doses de uísque que havia bebido, mas dá para pensar em prudência depois do que acabara de acontecer?
– Claro!
– Há uma barraquinha de cachorro-quente Coney Island pertinho daqui que é ótima!
Eu pensando que a mulher iria querer um bom restaurante, um vinho tinto, e ela me sugere um cachorro-quente... Será que havia mais algum coelho para sair daquela cartola?
– Certeza de que é isso que você quer?
– Certeza. Muito bom.
Fomos ao Coney Island e vi a mulher sofisticada virar uma menina. Ela devorou dois cachorros-quentes cheios de maionese, mostarda, cebola, sauerkraut, chili e alguma outra porcaria que me parecia queijo ralado. Não falamos nada por um tempo. Ela parecia mesmo precisar do lanche ou do silêncio, que quebrou primeiro:
– Gostou da experiência?
Tinha mostarda no lábio superior dela
– Qual delas?
– Todas – disse com a boca cheia de cachorro-quente.
– Ainda estou um pouco atordoado com tudo, com o Atrás da Porta. Foi a experiência mais intensa que já tive, a maior adrenalina que já senti, mas ainda é novo, não consigo concluir. Você vai sempre lá?
– Lá e em outros lugares assim. Gosto da adrenalina. Segundo minha terapeuta, sou meio viciada nela, daí às vezes faço isso, vou a esses lugares.
– E o mundo compreende bem?
Porque eu não tinha nem condições de começar a entender, amanhã pensaria nisso.
– Pela sua cara, não – e riu meio sem graça.
– Ainda não parei para uma análise completa, estou mergulhado na sensação. A nossa transa foi louca, fazia muito tempo que eu não sentia isso! – falei mais para bancar o macho, porque... nunca havia sentido algo tão forte sexualmente!
– Terminou? Gostou do cachorro-quente?
Engraçado, ela me fez a pergunta no mesmo tom com que me perguntou se eu havia gostado da experiência anterior... banalmente.
– Muito bom, não sou muito fã de lanches, mas gostei.
– Eu sei, você é terno e gravata, cabritinho, vida certinha, sexo certinho, comida certinha e mulheres certinhas. Já entendi... estou fora do “cardápio”, sou muito nouvelle cuisine pra você.
– Não, eu ia convidá-la para sair amanhã... quero dizer... hoje à noite. São três da manhã! – qual fora a última vez que eu havia ido dormir tão tarde? Sei lá, acho que aos dezesseis anos.
– Uau, sério? Precisamos ver onde fica sua lua, porque agora você conseguiu me chocar.
A cara da menina era de grande surpresa.
– Enfim!
– Ok, vou lhe dar meu número, daí você me liga... à tarde... se ainda estiver com essa vontade depois que passar o efeito da adrenalina. E vou te deixar em casa agora, tenho que dormir, amanhã vou sair com um advogado bonitão e não posso estar um trapo.
E lá foi ela assobiando para o carro, eu atrás para variar, sendo puxado pela mão. “Em que vespeiro estou me metendo”, pensei.
No caminho, ninguém falou nada. Ela pôs uma música alta e ficou cantando. Definitivamente era uma artista: dançava, cantava no ritmo da música com boa voz, e na cama, ou melhor, na parede e no sofá, era uma estrela.
– Chegamos.
– Ok, obrigado pela carona – ela me deu uma beijoca no rosto, fiquei com vontade de mais e não soube o que fazer.
– Até mais.
– Até.
E partiu. Me dei conta então de que havia esquecido de pegar o número do telefone dela.