Atrás da Porta
Capitulo Dezoito
Naquele final de tarde, Simone voltou em casa com os policiais e com Edward. Para ela era horrível a sensação de ter pessoas estranhas vasculhando sua intimidade. Os policiais buscavam digitais, pois Simone havia encontrado alterações nos objetos da casa. Suas impressões digitais e as da empregada seriam comparadas e descartadas.
Os policiais sugeriram que Simone instalasse um sistema de segurança, com câmeras e alarmes, que lhe permitiria retornar para casa.
Simone era reservada e detestava impor sua presença. Apesar de Edward ser um grande amigo, ficar muitos dias em sua casa não fazia parte dos planos de Simone. Ela se sentiria desconfortável.
Os policiais lhe informaram que ainda era cedo para uma conclusão, mas que naquele dia o teste de esperma saíra e o DNA era compatível com o do psicopata dos outros crimes.
Como não havia marcas de tortura, pensavam que deveria se tratar de um recado para Simone ficar fora do caminho do assassino e parar de ajudar Edward ou a polícia.
Os investigadores haviam descoberto que a vítima não estava em viagem, apenas havia ido ao supermercado local abastecer a geladeira para o final de semana. O marido acompanhara o filho ao jogo de beisebol e, quando voltou para casa, por volta das vinte horas, encontrou uma mensagem da esposa dizendo que voltaria logo. Ele não soube dizer há quanto tempo a mensagem tinha sido deixada e chamou a polícia por volta de vinte e duas horas, depois de tentar ligar para o celular dela diversas vezes e de ser atendido apenas pela secretária eletrônica.
É preciso vinte e quatro horas para dar uma pessoa como ausente e a polícia não agiu imediatamente.
As câmeras do supermercado a mostravam entrando e depois partindo com as compras.
Nos casos anteriores, havia marcas de tortura pelos corpos das vítimas. Neste, o assassino não tivera tempo de brincar de gato e rato. Provavelmente pegara a vítima e a matara para jogar nos degraus de Simone. A polícia acreditava que este não fora um crime de prazer, mas de necessidade.
Simone fechou as portas, telefonou para um conhecido que tinha uma empresa de segurança e lhe perguntou se poderia instalar um sistema em sua casa. Explicou que era urgente, mas não disse a razão. O conhecido prometeu que no dia seguinte enviaria uma equipe para fazer a averiguação do que seria necessário e lhe passaria um orçamento.
O dia terminou e ela e Edward voltaram para o apartamento dele.
– Simmie, sei que você deve estar morrendo de vontade de seu remédio mágico para dias dos infernos: uma taça de vinho e um banho.
– Banho primeiro, depois as uvas, meu amigo. Você leu minha mente.
– Vou cozinhar algo para nós, segunda-feira é sua noite de baixo carboidrato, não é?
– Nossa, como você sabe disso?
– Talvez porque toda segunda você saia do consultório fazendo uma careta e dizendo: “noite de baixo carboidrato”.
– Edward, você é um príncipe! Quer casar comigo?
Deu um beijo de leve na boca de Edward, ele a puxou para si e completou o beijo, só que mais profundo e de intenções menos amigáveis. Por algum tempo Simone se deixou beijar e a sensação a pôs eletrizada, com ondas de calor percorrendo seu corpo. Mas então se deu conta de onde estava e com quem e se afastou.
– Simone, me desculpe, me deixei levar pelo momento. Sei lá...
– Tudo certo, Ed. Sei lá eu também! Estamos os dois estressados, sob pressão. Vou tomar meu banho. Disse ela e foi rapidamente para o quarto.
* * * * *
Simone decidiu tomar um banho e enquanto ficava embaixo da carícia da água quente, Simone não conseguia tirar o beijo do pensamento. Não sabia que Edward beijava tão bem, mas não era essa a questão. Eles eram amigos havia tantos anos, ela nem sequer conseguia pensar nele de forma romântica, e agora não era hora de deixar um momento de vulnerabilidade confundir as coisas.
Como deveria ser comportar?, pensava ela, o que falar quando retornasse à cozinha? Achou que deveria agir como se nada tivesse acontecido. Por sorte, pareceu o mesmo pensamento de Edward, porque quando ela voltou ele reagiu dessa maneira.
Ele havia arrumado dois lugares na ilha de sua cozinha, equipada com um cook top, coifa, pia e espaço lateral para duas pessoas se acomodarem em bancos altos. Ele reinava soberano naquele canto da casa. Assim que ela chegou, ele informou que a comida estava pronta e estendeu uma taça de vinho na direção de Simone, visão do paraíso naquele momento.
Falaram sobre trivialidades, sobre o trabalho, o corpo no jardim, mas nada privado. Ninguém ousou mencionar o beijo. Depois do jantar, Simone se retirou para o quarto para ler mais um pouco do texto de Mark.
O Diário de Mark
O rock da cadeia
Eu estava dormindo profundamente quando o telefone tocou. Era Peter, gaguejando e falando alto, completamente alterado:
– É você, Mark? Mark, é você?
– Oi, Peter, o que houve? Invertemos os papéis e hoje você me tira da cama? Quer conselhos amorosos?
– Não seja engraçadinho, Mark, Lara foi presa! Preciso de você urgente, você pode tirá-la da cadeia?
– Como Lara foi presa, o que houve? – me sentei na cama já completamente desperto.
– Sei lá, nem eu entendi. Estávamos dançando num night club, eu, ela e um amigo – meu primeiro pensamento, amigo de quem? Mas o varri da mente, tendo em vista a urgência de Peter.
– Ok, acalme-se e me explique o que houve.
– Como disse, estávamos dançando, fui buscar um drinque e quando voltei vi que um homem se aproximou de Lara. Não o conheço, pensei que era apenas alguém investindo nela. Vi que ela não gostou nada da presença dele, tentou sair da pista e ir para um canto. Ele a seguiu, e só vi Lara jogando a bebida no rosto dele. Então ela avançou para cima e começou a unhá-lo e bater nele. Nunca a vi assim.
– E daí?
– Daí o amigo dela pensou que o sujeito tinha agredido Lara primeiro e pulou nele. Começaram a brigar, Lara tentou segurar o Leo e acabou no meio da briga. Nessas alturas tudo estava um caos, chamaram a polícia e Lara e Leo foram presos.
Então Leo era amigo de Lara e não de Peter.
– E como você ficou de fora?
– Eu não me meto em brigas. E se quebro uma unha? Fiquei bem longe! Tenho horror a violência gratuita. Michael jamais sujaria as próprias mãos em briga de gatos.
– Michael, quem é Michael?
– Corleone...
– Peter, às vezes você vive em outro planeta. Sabe onde ela está agora?
– Sei sim! Já estou chegando à sua casa para levá-lo para lá. Também tenho dinheiro para a fiança!
E não é que o homem era prático? Apesar da observação anterior...
Fiquei em dúvida entre ir ao local e me identificar como advogado ou ir armado para matar Lara, que saíra com outro e ainda se metera numa encrenca, uma exata semana depois de voltarmos de Paris! Essa mulher estava despertando meus piores instintos.
Chegamos à delegacia e Peter ficou no carro. Disse que hospitais e delegacias lhe davam calafrios. Entrei no edifício, me identifiquei ao policial de plantão, verifiquei o que havia ocorrido, paguei a fiança e fui até a cela onde ela estava presa. Por sorte estava só, sem “coleguinhas”. Parecia um ratinho acuado em um canto, descabelada, com a maquiagem borrada e cara de quem havia chorado um rio. A coisa fora feia, porque Lara não era o tipo de mulher que resolvia problemas com lágrimas.
Tirei-a da delegacia, levei-a para o carro, ela disse que gostaria de um táxi. Perdi a paciência, agarrei-a pelo braço com força e joguei-a no banco de trás. Peter, atrás do volante, me olhava com olhos arregalados.
– Escuta aqui, duquesa do desastre, são quatro horas da merda da manhã, você se envolve numa briga, me tira da cama de madrugada, me arrasta para uma delegacia para resolver sua fiança e ainda tem a desfaçatez de querer sumir?
– Mark, pegue leve, ela está em estado de choque!
– Pois vai ficar em estado pior se tentar descer desse carro!
Eu estava furioso e minha fúria tinha nome... não tinha sobrenome porque eu ainda não sabia – quem raios era Leo?
– Mark, sei que está furioso, mas temos que voltar para a delegacia... esquecemos do Leo... – Peter falou quase murmurando, como se fosse um garotinho.
– O Leo que se foda! Não o conheço, não sei nem que é!
– Claro que conhece – disse Lara, saindo do mutismo em que ficara. – Você o conheceu no Atrás da Porta, lembra? Na primeira vez que saímos...
– Leo? O gay da pista de danças?
– É…
Só então meus nervos começaram a entrar no lugar e me senti um idiota. Queria me esconder sob uma pedra. Arrastei uma mulher que estava em nítido estado de choque, fui estúpido com meu melhor amigo e por quê? Porque estava com ciúmes da ideia de Lara ter ido dançar com outro homem.
– É ele – ela continuou. – Pensei em apresentá-lo ao Peter, daí saímos hoje.
– Vou voltar e pegar o Leo – eu disse mansamente. – Esperem aqui, não devo demorar.
– Sim, esperamos! – responderam os dois como um time de crianças que acabara de aprontar.
Tirei o Leo também em fiança. Ele saiu pendurado em meu braço e fazendo juras de amor eterno. Mandei-o pegar um táxi.
Pedi a Peter que me deixasse em casa com Lara, e só depois que entramos perguntei o que acontecera.
– Eu estava dançando, feliz, aí ele apareceu do nada, eu fiquei apavorada, como se fosse uma criança novamente e ele tivesse algum poder sobre mim. Daí recuei, mas ele veio atrás. Eu só queria me livrar dele...
– Ele é “ele”?
– Sim, é!
– E como ele a encontrou? O que queria?
– Não sei, acho que estava com algumas pessoas ali e me reconheceu, não sei, não é uma casa de suingue nem nada parecido, só um night club. Quando ele se aproximou, eu não sabia o que fazer para não falar comigo. Joguei minha bebida nele e o agredi! E aí... o Leo entendeu que eu estava sendo agredida, foi me defender e a confusão começou...
– Ou seja, ele não conseguiu falar com você?
– Só disse que precisava falar comigo e eu surtei… Apenas ouvir a voz dele e vê-lo lá me fez sentir frágil. Parece que perdi todas as forças, Mark, virei uma menina boba novamente. Se não reagisse rápido, ele me daria qualquer ordem e eu faria o que ele quisesse.
– Ok, vamos conversar mais tarde, Lara, acho que você precisa de descanso agora.
E eu precisava recompor meus nervos e pôr os pés no chão. Essa mulher ainda ia me levar a fazer uma besteira de grande magnitude.
O Diário de Mark
Uma noite no harém
Lara me telefonou uns dois dias após o episódio da cadeia. Queria me agradecer por tê-la resgatado da encrenca.
– Mark, gostaria que você viesse aqui em casa hoje à noite, quero muito lhe agradecer...
– Não precisa, Lara, mas será um prazer vê-la.
– Venha lá pelas oito.
– Jantar?
– Árabe – falou meio que sussurrando.
– Hummm, parece bom.
– Você vai adorar.
Falamos mais alguns minutos. E eu que pensava que Lara não fosse do tipo capaz de fritar um ovo sequer, e lá estava ela pronta para fazer um jantar árabe para mim... as coisas mudam, não?
Terminei o trabalho, passei em casa, tomei um banho, troquei de roupa e lá fui eu, feliz da vida, para a casa dela, no horário combinado. No caminho, passou por minha mente comprar flores, mas não conseguia imaginar Lara segurando um buquê... Flores e Lara... acho que não, um cacto talvez, pensei com amargura.
Cheguei ao edifício e o porteiro, agora já meu velho conhecido, me disse que a senhorita Lara tinha dado ordens para eu subir direto. No apartamento, a porta estava entreaberta, ainda assim toquei a campainha – eu também gostava de respeitar a privacidade.
– Mark, entre e sente-se no sofá que eu já vou – gritou Lara de algum lugar. – Não acenda as luzes.
A penumbra reinava. As almofadas coloridas brilhavam sob a luz das velas e conferiam um ar de mistério ao ambiente. Eu estaria disposto a uma noite exótica, romântica e até erótica em um harém? A mesa não estava posta, provavelmente Lara ainda estaria na cozinha. Me sentei no sofá para aguardar pacientemente.
Uma música árabe começou a tocar: sons de flautas e tambores encheram o ar. Lara levava a sério o jantar árabe, pensei, mas em segundos apareceu uma mulher envolta em véus e dançando no ritmo da música, serpenteando o corpo que se distinguia embaixo das transparências. Minha anfitriã se materializou, sentando-se ao meu lado para apreciar o show.
O olhar sedutor da mulher brilhava. Era mais baixa que Lara, de cabelos escuros, curvilínea, de seios fartos e firmes. Parecia uma odalisca flutuando entre véus e música. Ela se virou, deixou o véu escorregar e o atirou para mim. O corpo bronzeado e coberto de óleo brilhava. O sutiã cheio de pedras e penduricalhos reluzia à meia-luz.
Ela movia os quadris e a barriga em perfeita sintonia com a música, rodopiando e avançando em minha direção. Fiquei de boca aberta; era impossível resistir, meu membro pulsava ao som das castanholas que pareciam pequenos sinos.
A música parou e a odalisca voluptuosa ajoelhou a minha frente, jogou os cabelos para trás e levantou os braços.
Lara foi até uma poltrona de frente para mim e se sentou. Eu não sabia o que dizer, apenas olhei o show em transe. A mulher chegou mais perto e sentou-se no meu colo. Olhei para Lara e ela assentiu com a cabeça.
– Toque-a, Mark, vá em frente, toque-a – aparentemente faria o papel de espectadora. Comecei a acariciar os seios da bela morena, tirei-lhe o sutiã de pedras, me apossei de um dos mamilos com a boca e comecei a sugar.
Ela se afastou um pouco, terminou de retirar o traje e começou a me despir, tudo sob o olhar intenso de Lara.
A morena abriu meu zíper, tomou meu membro já rijo entre as mãos, começou a sugá-lo, acomodou-o entre os seios e, apertando-os juntos, fez um ninho em seu colo para meu pau, que estava muito duro. Comecei a fazer um movimento de vaivém entre seus seios, uma experiência fantástica, pele contra pele, deslizando no calor e no óleo que os recobria. Fechei os olhos para aproveitar a sensação.
– Abra os olhos, Mark, quero que você me olhe enquanto brinca com Fatma.
Abri os olhos e Lara estava parada ao nosso lado, observando a cena. Por um momento, tive raiva dela. Para ela pouco importava eu estar com outra mulher! Foi um pensamento que cruzou meu cérebro por uma fração de segundo, mas, como estava virando rotina, outro pensamento maior, o do desejo insano, se apossou mais rápido de mim.
Retirei meu pênis dos seios de Fatma, que me deu um preservativo. Coloquei-o, deitei-a e a penetrei rápido. Comecei a me mover lentamente, ela gemia de prazer. Fui lentamente devorando-a e fazendo-a suplicar para que eu intensificasse os movimentos. Em nenhum momento meus olhos deixavam os de Lara. Era como seu eu estivesse transando com ela, que agora havia tirado a própria roupa e se acariciava.
Quando Fátima teve seu primeiro orgasmo, posicionei-a de quatro, penetrei-a novamente e recomecei o lento movimento; fui trocando de posição diversas vezes, somente após cada orgasmo que tinha a desconhecida. Não sei por quanto tempo transei com ela. Lara gozou com suas próprias carícias. Naquele momento, sem poder aguentar mais, gozei também.
Fiquei ali, deitado no tapete da sala, recuperando minha respiração. Vi que Fatma reuniu suas coisas e ouvi alguns murmúrios. Lara havia acompanhado a desconhecida até a porta, pensei.
– Espero que tenha gostado do seu aperitivo árabe – disse ela, ajoelhando a meu lado. – Está pronto para o prato principal? – Lara apontou para o próprio corpo delicioso.
Como sempre, as palavras de Lara tinham o dom de me fazer rir. Puxei-a para perto de mim, deitei-a no tapete macio e comecei a acariciá-la, passando primeiro as mãos pelo seu corpo e depois a língua. Iniciei pelos pés, lambendo-os lentamente, fui subindo pelas pernas e, para provocá-la apenas rocei no seu sexo, deixando para saboreá-lo depois. Fui subindo pela barriga e abocanhei um dos seios. Ela gemia gostoso, se contorcendo toda.
– Mark, isso é muito gostoso, continue...
– Você está com pressa? Eu, nem um pouco...
Virei-a de costas e passei a língua pelas pernas, pelas curvas arredondadas das nádegas, subi pela espinha até chegar à nuca, passei lentamente a língua ali. Eu sabia que ela me queria desesperadamente dentro dela, mas preferi torturá-la até que implorasse.
– Me morda, pediu, segurando forte meus cabelos, como fez antes.
Mordi de leve a nuca dela e ela gemeu alto.
– Agora quero que você me penetre forte e me morda mais forte enquanto mete em mim. Segure-me pelos cabelos, preciso sentir dor.
Não parei para raciocinar sobre aquele pedido. Eu nem tinha condições, entorpecido de desejo como estava. Fiz como ela comandava, e comecei a estocá-la fundo, enquanto fazia contorcionismo para morder a nuca, prendendo-a pelos cabelos.
– Mark, não tenha pena, morda mais forte!
– Se eu morder mais forte vou machucá-la!
– Não importa, morda e passe as unhas pelas minhas costas, forte!
Penetrei-a mais fundo, enquanto lhe arranhava fortemente as costas e lhe mordia a nuca. Ela explodiu num orgasmo violento, anunciado por gemidos que devem ter sido ouvidos uns três ou quatro andares abaixo. Eu gozei em seguida. Ficamos ali, no tapete, sem falar, nos recuperando por uns minutos. Beijei-lhe as costas, ela foi se levantando, acendeu uma luz e fiquei chocado com o estado em que eu havia deixado suas costas.
– Lara, eu machuquei você, deixe-me ver...
Havia arranhões profundos nas costas que eu podia entrever no meio dos cabelos desarrumados. Ela puxou os cabelos de um lado, estava toda mordida e arranhada.
– Não se preocupe, Mark, rapidamente as marcas saem...
– Não estou preocupado com as marcas, mas sim por ter machucado você. Meio que perdi o controle.
– Não machucou, não, me fez gozar forte, fiquei alucinada quando você começou a me morder e me arranhar, puxando meus cabelos. Foi muito bom, eu gosto de sentir dor enquanto transo.
Que estranho isso, dor e prazer... primeiro a história de apertar o pescoço, agora isso. Me fez machucá-la de propósito. Eu não sabia se estava mais chocado pelo comportamento dela ou pelo meu. Eu havia me excedido, cravado as unhas e os dentes nela como se fosse um animal no cio... e ela gostara... Aquele relacionamento definitivamente estava me pervertendo, eu não me reconhecia mais.
Ela se apoiou em mim, comecei a acariciar-lhe os cabelos e tomei coragem para perguntar:
– Desde quando?
– Desde que ele me ensinou... Sempre que ia fazer sexo comigo tinha alguma surpresinha. Às vezes quase arrancava meus cabelos puxando forte, me mordia, me amarrava mãos e pernas e me batia, às vezes com a mão, outras com um pequeno chicote de montaria... até com flores... Ele dizia que estava me esculpindo para o prazer dele, como se eu fosse uma peça de mármore.
– Meu Deus...
– Não machucava muito... porque ele me penetrava junto ou me masturbava e a dor virava prazer, era um complemento.
– Isso não é normal...
– Não sei... para mim sempre foi... Assim... aprendi a atrelar prazer a dor, e quando sinto dor meu prazer é maior...
– Ele a machucou alguma vez?
– Sim, nunca nada profundo para deixar marcas permanentes, mas às vezes machucava, mas sempre era prelúdio para sexo intenso. Eu aprendi assim.
– Que idade você tinha quando ele começou com essas outras práticas?
– Catorze, quase quinze, assim que fomos para Paris. Acho que ele se sentia mais livre para fazer tudo o que tinha vontade. Não iria ser repreendido. Quando eu ficava cheia de arranhões e hematomas, apenas passávamos mais tempo em casa…
– Você aprendeu também com ele a colocar outras pessoas no sexo?
– Tudo que aprendi foi com ele. Não sabia nada. O que ele dizia que era bom e normal eu fazia.
– Como foi isso?
– A primeira vez ele contratou um rapaz, um garoto de programa bonito, chamou-o no apartamento e me mandou vestir uma lingerie sexy. Pôs uma venda nos meus olhos e só descobri o que ocorreria quando notei que havia quatro mãos me acariciando, duas bocas, uma boca em meu seio, outra no meu sexo, e aí já era tarde para ter qualquer pensamento que não fosse desejo… e isso levou a outras coisas.
– Essa prática continuou?
– Sim…transamos em casas de suingue, ele até conseguiu uma identidade falsa para eu poder atravessar portas sem perguntas... Transamos com muita gente, até com um travesti brasileiro tentamos transar uma vez, mas não deu certo. Ele não gostava de mulheres. E depois… depois meu escultor me “emprestava” para amigos, para podermos brincar juntos, como ele dizia…
– Emprestava? Como se você fosse uma maldita luva de beisebol ou algo assim?
– Amigos dele vinham ao apartamento, às vezes apenas para conversar e tomar algo… ele me fazia aparecer com roupas bem provocantes… shorts curtos ou blusinhas transparentes sem sutiã. A ordem do dia era deixá-los loucos. Quando via que eles estavam interessados… dizia que podiam aproveitar e brincar comigo. Ele gostava de assistir…
– Como era para você, Lara?
– Não sei dizer… eu me divertia em chamar a atenção dos amigos dele… Alguns eu não queria… outros eu queria… a maioria eram homens da idade dele… então estavam em forma… eram ricos, bonitos e bem cuidados… Eu queria experimentar… Quando não queria, ele não forçava na hora, depois acabava por me punir de alguma forma…
Lara respirou fundo e continuou. Parecia disposta a exorcizar seus demônios falando do passado.
– Eu fiquei viciada, queria sempre dois homens para transar… Ele sempre deixava, desde que ele escolhesse… A única vez que tentei escolher… você já sabe… Mais tarde, quando comecei a ter relacionamentos, era difícil para mim não tentar levar para esse lado. Fiquei chocada quando descobri que não era normal para as pessoas...
– Cada vez que escuto uma parte dessa história, fico mais horrorizado, Lara.
– É… gostaria que você entendesse que para mim não era horrível, porque eu não conhecia outra coisa. Mais tarde, com muita conversa com Emma, que jamais recriminou minhas práticas – e olha que contei quase todas para ela –, passei a entender que sexo poderia ser diferente… mas acho que já era meio tarde…
– Você queria ser diferente?
– Muito! Conversei diversas vezes com meu terapeuta… eu queria me satisfazer apenas com um homem, queria não ter vontade de sentir dor… e sinto, física e emocional, mas o prazer que a acompanha é indescritível. Agora há pouco, vi você fazendo sexo com a Fatma e foi muito doído para mim, mas o prazer que tive foi intenso também, não tem muito como explicar.
– O que diz seu terapeuta?
– Sadomasoquismo… difícil de curar… porque se não houvesse recompensa seria fácil… mas a dor triplica a recompensa, o prazer… Eu acho que é igual a um chocólatra. Ele sabe que vai engordar… mas o prazer torna aquilo irresistível.
– Você sentia falta da vida que levava com “ele”, depois que romperam?
– Eu me livrei daquela vida, não queria mais, intuía em algum canto do meu inconsciente que o que eu fazia com “ele”, o próprio relacionamento com um homem vinte anos mais velho, era errado... Mas depois que você vive uma vida como aquela, parece que algo quer puxá-la para trás. Parece que há um vazio que precisa ser preenchido. Entende o que eu quero dizer? Certo, errado, normal ou anormal, era a vida que eu conhecia e eu sentia necessidade dela... Eu era escrava daquele homem, mas ao mesmo tempo era o centro da existência dele, e depois... Eu já não era mais o centro da existência de ninguém.
Lara fez um pausa e continuou:
– Eu me sentia culpada. Não apenas por desejar o que era “ruim”, me sentia culpada por tudo... eu fui forjada, Mark, esculpida, não fui educada.
Os olhos dela estavam úmidos e eu quase podia sentir sua dor.
– Lara, o que eu faço com você? Você é tão diferente de todas as mulheres que já conheci!
Ela não disse nada, apenas me olhou e sorriu tristemente. Estava calma. Apoiou-se em mim e dormiu rapidamente, e eu fiquei ali, no tapete, com ela apoiada no meu peito, lhe acariciando os cabelos, chocado demais para dormir.
Pela primeira vez eu pensei que talvez devesse procurar ajuda profissional, um psicólogo, algo assim. Meus limites estavam há muito ultrapassados, minha mente não me acompanhava e certamente a órbita de Lara girava lá pela sétima lua do quinto planeta do sistema solar de uma galáxia ainda não descoberta.