Atrás da Porta
Conversas amenas e pimenta
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Combinamos de nos encontrar no restaurante – ideia dela – e depois eu a levaria para casa, algo a ver com praticidade, segundo ela.
Ela escolheu um restaurante tailandês que fica numa casa antiga no Soho. Ao entrar, o ambiente extremamente acolhedor logo seduz: pouca iluminação, mesas baixas, motivos orientais de algum país asiático que não consegui identificar. Os garçons, quase todos orientais, faziam o melhor possível para deixar os clientes confortáveis.
Fomos encaminhados a uma mesa quase da altura do chão, onde nos sentamos em almofadas. Escolhemos os pratos. Sempre parecendo um tufão, ela sentou-se, se acomodou e sugeriu pratos do cardápio, tudo ao mesmo tempo. Mexia com as mãos o tempo todo para explicar – mãos delicadas, mas firmes –, com muito uso do indicador.
– Mark, o que você quer para sua vida?
“E de onde veio essa pergunta filosófica, agora? Que forma inesperada de quebrar o gelo de um quase primeiro encontro!"
– Em quantas palavras?
– Rapidamente.
– Dinheiro, saúde, conhecimento, paz, viajar por aí – eu quero ser feliz.
Pronto, achei minha resposta bonita, mostrei ambição, preocupação com qualidade de vida, cultura, pensei que ela iria gostar.
– Hum… só isso?
Eu uso todo o repertório do meu manual de sedução e escuto um "hum”? "Hum" quer dizer bom? Ruim? Não era o que eu esperava.
– O que quer dizer "hum"? – perguntei.
– "Hum" é "hum", eu esperava uma resposta assim de você. Você vende essa ideia mesmo, bem capricórnio, exceto pelas viagens... Isso deve ser a lua num signo mais aventureiro.
– O que você quer dizer com “bem capricórnio”?
A moça esquecera que estava falando com um leigo total no assunto.
– Capricórnio é ambicioso, sábio, longevo, é o signo que vive mais intensamente no zodíaco! – explicou, com uma seriedade que parecia eu explicando aos meus alunos algo como um fato gerador de tributos.
– Capricórnio é também gostoso, animado e boa companhia? – de repente eu parecia um adolescente, precisando que ela visse alguma graça em mim.
– Depende da sabedoria que ele adquiriu...
A espertinha era vaga e ia me deixar pendurado com a resposta, mas retomou:
– Agora, se você está perguntando se você é gostoso, gostei de transar com você ontem. Acho que podemos fazer melhor, foi uma primeira vez e sei que tem bem mais aí.
E apontou o dedinho para mim que, naturalmente, engasguei com o uísque.
– Obrigado... – senti-me o perfeito pateta agradecendo o elogio.
– Não foi um elogio. Eu disse que pode melhorar. Não acredito em sexo bom na primeira transa... Não existe isso, ninguém sabe bem do que o outro gosta.
– E por que então o Atrás da Porta?
– Por isso... Na primeira vez fica todo mundo sem saber onde pôr a mão.
Abanou então as duas mãozinhas na minha frente.
– Ali a adrenalina é louca, o tesão é maluco, e a transa flui melhor. Quando você teve uma primeira transa daquele jeito?
Pensei em responder “toda vez que transo”, mas algo no olhar dela me desnudava.
– Ok, entendi, poucas vezes. Mas você não tem medo do que as pessoas possam pensar sobre você?
Ela fez um ar de “não estou nem aí para o que pensam de mim”, deu um suspiro e disse:
– O que vão pensar? Que eu gosto de sexo? Melhor que saibam logo, não é? Me cansei de gente que se faz de rogada, fica prometendo e não entrega. Então, é bom que saibam logo onde estão pisando. Não consegue engolir? Não põe na boca.
– É uma filosofia interessante, a sua. Meio assustadora. Um monte de gente deve sair correndo.
– Sim, sai, a maioria. Os homens têm mania de se achar grandes amantes, mas não resistem a um test drive. Eles têm medo, têm pressa, não sabem o que querem, mas alguns ficam – o seu caso, por exemplo. Está aqui, jantando para ser polido e louco por mais.
E riu, enquanto eu fiquei vermelho e não consegui nem articular uma desculpa.
– Está óbvio? – enfim consegui dizer.
– Que você quer mais? Sim, fácil de ver, mas pode ficar tranquilo, eu também quero.
Para minha sorte, os pratos chegaram. Eu me sentia um moleque pego roubando bala no supermercado. Envergonhado, fiquei preocupado que o garçom tivesse ouvido, mas me lembrei que ele mal falava inglês.
– Você é bem direta, não?
– Sou, meu amigo. Já vi tanta coisa nesta minha curta vida, já me deformei para agradar, já fui marionete treinada e, no final, não era para mim... Daí, um dia, resolvi parar.
Quando ela falou isso, vi uma dor escondida nos seus olhos, incompatível com uma mulher tão bonita e tão jovem. Quem a teria magoado para que decidisse proceder dessa forma?
– Sei como é... Como fazer apneia. O que é gostoso no começo dos relacionamentos não dura porque não é real. Você decidiu ser real desde sempre.
– Apneia?
Enfim disse algo que a surpreendeu!
– Sim, gosto de mergulhar, e quando o mergulho às vezes é sem tanques, segurando a respiração, se chama apneia e tem um limite para aguentar... Penso que em início de relacionamento as pessoas fazem apneia. Daí, quando não conseguem mais segurar o ar... voltam a ser quem são e os relacionamentos terminam.
– Adorei essa descrição.
Agora eu queria gritar de alegria: acertei o alvo!
– Ei, você mergulha? Sou louca para aprender, é bom?
Parecia que tinha uns cinco anos a menina, interessada em novidades, e mudou completamente de assunto.
– Mergulhar para mim é a maior sensação de liberdade que existe.
Lembrei da sensação boa de estar embaixo d'água, do silêncio, daquela imensidão azul. O sentimento de que o mundo parou me deu alegria, acho que sorri.
– Isso faz você feliz, não é?
– Faz sim, é uma das coisas que gosto realmente de fazer.
– Como é?
Que maravilha! Eu iria ensinar algo para a moça, me senti macho de novo.
– Quando você mergulha, tem sempre um companheiro, porque não é seguro mergulhar só. Apesar disso, logo que vai para debaixo d’água, parece que está só, flutuando numa imensa piscina, onde os olhos não alcançam a borda. Os sons são poucos, só as bolhas de ar do seu próprio tanque que sobem. Algumas vezes alguém bate o tanque em algum lado, mas, no geral, é um imenso silêncio. Você não vê paredes, se sente livre. Talvez seja como um astronauta no espaço, mas com o toque molhado da água que aconchega.
– Nossa, você deve ter um peixes em algum lugar.
Lá estava ela novamente com o horóscopo.
– Você guia muito sua vida por horóscopo?
– Há uma enorme diferença entre horóscopo e astrologia... Não consulto horóscopo nunca. Estudo astrologia, uma ciência, que era ensinada nas escolas na França, sabia?
– Sério? E eu achei que era coisa de jornal para preencher espaço.
– Também – e riu. – Mas, feita com seriedade, é ciência pura, matemática.
E começou a me explicar alguns princípios. Fiquei interessado no assunto, me pareceu que realmente o que ela dizia poderia ter algum fundamento cientifico... algum...
– Quero lhe devolver a pergunta, Lara: o que a faz feliz?
Ela fez um gesto ao redor, mostrando o ambiente, e disse:
– Isso me faz feliz: um bom vinho, um bom jantar, boa companhia, uma surpresa, experimentar algo novo, sexo bom... Não preciso de muita coisa.
– E o que pretende para a sua vida? – a pressionei.
– A curto prazo: paz!
– Paz? Tipo paz mundial?
Candidata a Miss América, a moça?
– Não! Paz em minha vida.
– Defina essa paz para mim, por favor.
– Comandar minha vida no meu ritmo, não ter que prestar contas dos meus movimentos, respeitar minhas necessidades.
Fácil entender por que era solteira. Essa descrição é a antítese do casamento, dos que eu tive, ao menos. Novamente senti que havia dor atrás das suas palavras. Alguma coisa havia levado essa mulher a pensar assim, algo dolorido.
– Por isso é solteira?
Ela não respondeu diretamente à pergunta.
– Sinceramente, acho que casamento e convívio são o túmulo do amor, mas hoje você falou algo interessante: nunca tinha pensando que talvez o túmulo do amor seja a tal apneia que quase todos fazem.
Eu me sentia orgulhoso de que ela tivesse entendido algo da vida por meio da minha explicação.
– Você nunca fez apneia por ninguém?
– Sim, claro, umas vezes. Comecei minha vida fazendo apneia, bancando bichinho de estimação, daí vi que o melhor era mostrar logo quem sou para não enlouquecer com as expectativas dos outros. Mas aí também descobri que as pessoas não querem quem você é. Enxergam, observam e ficam com o pensamento: vou mudá-la!
– Exatamente isso!
Lembrei-me de minhas ex-mulheres e de suas exigências de mudanças pelo relacionamento. A frase “precisamos discutir a relação” me dava arrepios só de pensar.
– E entendi que ninguém muda por ninguém. Só mudamos quando é importante para nós mesmos. Então, não adianta comprar banana e querer comer maçã. Banana é banana, ou você aceita ou vai para outra frutaria.
O jantar transcorreu bem, a companhia dela era agradável, falávamos de tudo, de viagens, de vida, de profissão. Fui me surpreendendo com a profundidade que ela tinha, apesar da aparência, pela compreensão de vida. Dei um silencioso crédito para o Peter por ter me aconselhado a não julgar esse livro pela capa. Quando vi, já haviam transcorrido três horas em que me descontraí, ri muito e me senti feliz, como fazia tempo não me sentia.
Saímos do restaurante alegres pelas bebidas, mas também pela companhia. Eu iria levá-la para casa e estava contente com isso. Saber onde encontrar essa mulher me parecia uma informação preciosa. E eu iria dirigir, mesmo após ter bebido – isso era uma novidade!
Abri a porta para ela, ajudei-a a se acomodar e fui além, penso que devido ao álcool, porque não tenho hábitos tão diretos. Fui ajudá-la a prender o cinto de segurança e a beijei. Aquela mulher me atraía de uma forma incrível! Quando o beijo terminou e fui me acomodar atrás do volante, minhas pernas estavam moles e o resto, duro.
Pus o carro em movimento, saí do estacionamento e ficamos calados por umas três quadras. Então ela começou a acariciar o meu pescoço com as unhas longas e passou a mão por debaixo do cinto em direção ao meu zíper.
– Lara... vamos a algum lugar?
– Já estamos em um, relaxa...
Ela desabotoou minha calça, deslizou o zíper e agarrou meu membro, que estava duro já fazia algum tempo.
– Quero fazer algo com você...
Ela então desabotoou o próprio cinto de segurança e me tomou na boca quente; quase me deixou louco.
– Vou parar no acostamento!
Comecei a diminuir a velocidade. Ela retirou a boca e disse para eu apenas reduzir, mas não parar. Louca!
Continuou me chupando, acariciando, parou um pouco, desprendeu meu cinto, colocou uma camisinha retirada não sei de onde – sinceramente, acho que ela tirava camisinhas da orelha em outra encarnação –, ergueu a saia, estava sem calcinha e começou a se acomodar sobre mim, passando as pernas e se encaixando de forma a ficar de costas para o volante.
– Não se atreva a parar esse carro, Mark, relaxa, sinta a adrenalina, apenas não feche os olhos.
Sentir a adrenalina ou relaxar? Estava com a adrenalina correndo pelo meu corpo. Não fechar os olhos? Quase impossível. Seja o que Deus ou o diabo quiserem.
Ela se movia lentamente, e eu tentava prestar atenção na estrada. Já estava com a velocidade bem reduzida. Sentia tudo e ainda permanecia de olhos abertos. Ela começou a intensificar o movimento e gozou. Sorte, porque meio minuto depois eu fui atrás. Nessa hora, fechei os olhos e freei... o carro... Não tinha como frear mais nada, gozei até me sentir vazio. O cheiro dela no meu nariz, o cheiro de sexo no carro.
– Bom um pouco de pimenta na vida às vezes, não? – disse a menina após recuperarmos o fôlego. Me deu um beijo, desencaixou, tirou a camisinha, deu um nó, colocou no porta-luvas e se acomodou no assento na velocidade de um segundo.
– Bom... Louco, você me deixa louco.
Eu tinha perdido toda minha capacidade de discurso, minha eloquência de advogado tinha ido para a lua com passagem só de ida. Eu estava entregue, tonto.
– Você é gostoso, me deu vontade. Você é tão sério que me dá vontade permanente de tirá-lo do rumo, de fazê-lo sair da casinha.
– Você é fora da casinha! E se sofrêssemos um acidente? – levei a mão à cabeça em sinal de insanidade.
– Primeiro, temos um advogado presente para nos tirar de encrenca; segundo, já ouviu falar em acidentes fatais a vinte quilômetros por hora? – ela me despertava sensações indescritíveis: tesão, em primeiro lugar; tesão, também em segundo; e, em terceiro, apreensão, medo, vontade de torcer o pescoço, tudo junto.
– Me leva para casa agora, bonitinho? Estamos no caminho contrário...
Eu nem me lembrara de perguntar para que lado ela morava.
Capítulo Cinco
Simone analisou a relação de Mark e Lara, certamente inusitada. Aparentemente ele entrou na relação movido pelo desejo. Ainda não era possível entender o que Lara queria, parecia que ambos estavam jogando o mesmo jogo, o da mútua atração. Simone podia perceber o interesse crescente de Mark, mas quanto a Lara, havia certa indiferença no comportamento dela. Mark era atraído, e Lara parecia estar no controle.
Impossível não imaginar o que viria na sequência: sexo quente e espontâneo. O lado psiquiatra de Simone não podia deixar de tentar encaixar os sintomas: tudo a levava a crer que se tratava de uma relação patológica, em que um dos integrantes é altamente sedutor, destemido, inovador, e o outro, a vítima, pessoa sensível e correta, apesar de suscetível aos excessos do outro. Até onde era esse o caso? Ela teria de se aprofundar mais no texto e na relação dos dois.
Sua mente fervilhava. Parecia-lhe fácil entender a razão pela qual Carl acreditava na inocência de Mark. Ela também acreditaria lendo o texto, mas até onde aquilo era a verdade? Parecia muito exato, muito profundo, mas alguns escritores são assim, pensou. Conseguem imaginar a ponto de fazer o leitor ter certeza da veracidade da história – mas e se for só imaginação? Um teatro destinado ao veredito da absolvição? A consciência de Simone estava intranquila, pois estava em suas mãos o suporte de que a defesa precisava para absolver um... inocente ou culpado?
Chega de Lara! Decidiu que leria o contrato que Carl lhe entregara. Devia ter umas quinze páginas. “Será que ele já pensara em se candidatar a redator de lista telefônica? Por que os advogados escrevem tanto? Será que é para justificar seus honorários ou para exercitar uma veia frustrada de escritor?” – refletiu. Esse contrato não era diferente – cláusulas infinitas. “Por que ele queria uma cláusula de confidencialidade?” Ela era psiquiatra, tinha o dever de manter seu trabalho confidencial, não precisava colocar isso no papel. Se violasse esse dever, perderia sua licença. Mas tudo bem, se Carl queria isso em um contrato, iria dar-lhe isso.
O contrato a cansou. Precisava falar com seu sócio, Edward, antes de assiná-lo. Edward fora seu colega na faculdade de medicina, ficaram amigos desde o início e sempre desenvolveram trabalhos lado a lado. Depois vieram os plantões intermináveis em vários hospitais, por fim decidiram, após a formatura, abrir um consultório juntos, pois ambos optaram pela psiquiatria. A sociedade deles era muito bem-sucedida. Sempre se ajudavam e dependiam um do outro.
Auxiliaram-se mutuamente e suportaram um ao outro nas dificuldades do início. Revezavam-se para se ajudar quando um precisava estudar, mas nunca faziam nada profissionalmente sem consultar o outro. Não poderia assinar um contrato comprometendo-se a ficar fora da clínica sem ao menos ouvir o que ele pensava.
Simone pegou o celular e ligou para Edward:
– Alô, boa tarde, Edward.
– Oi, Simmie, tudo bem? Por onde anda?
– Ainda em Nova York. Estou bem, desculpe-me por ligar sábado à tarde, mas recebi uma proposta inusitada para ajudar um escritório de advocacia na defesa de um cliente.
– Mudou de profissão? Vai me abandonar?
– Hahaha, sem graça. Eles estão com um caso complicado de morte por hipoxifilia e querem minha ajuda no aspecto psicológico. O que você acha? Devo aceitar? Vou ter que fazer algumas viagens, não muitas, mas vou tentar concentrá-las em finais de semana quando for necessário.
– Se acha que isso vai ser bom para você, sabe que pode contar comigo para o que for. Somos parceiros. E a pesquisa, desistiu? – perguntou em tom preocupado.
– Não, claro que não, é minha prioridade. Estou levando em conta a pesquisa o tempo todo. Como estamos indo?
Simone vinha desenvolvendo pesquisas para seu novo livro, que abordaria fantasias sexuais de casais.
Edward sugeriu que fizessem uma pesquisa de campo por meio da internet. Eles abriram uma conta falsa de e-mail e se inscreveram num site de relacionamentos, anunciando ser um casal que desejava encontrar um namorado. Dezenas de e-mails foram recebidos. Eles decidiram selecionar alguns e, como um casal, encontrar pessoas para entender quem se apresenta nesse tipo de encontro, ou que tipo de pessoas tem essas fantasias. Edward e Simone também queriam separar os participantes em potencial que de fato desejavam realizar a fantasia daqueles que meramente fantasiavam.
– Temos diversos “pretendentes”, mas estou aguardando você para respondermos. As propostas são irrecusáveis – ele riu.
– Alguma que valha a pena?
– Sim, há uma ou duas, no meio de umas duzentas, com as quais podemos marcar um encontro. Estou me divertindo com os pretendentes. Quanto mais conheço os seres humanos, mais concluo que não existe normalidade, bom senso ou equilíbrio. A pesquisa está sendo boa também para mim.
– Obrigada, Edward, por tudo, sempre. Você sabe que eu te amo?
Eles sempre se diziam isso e era uma grande verdade; talvez o maior amor que se possa ter na vida é pelos amigos – o mais desprendido, o menos egoísta, e os dois sempre seriam os melhores amigos. Essa era uma das poucas certezas que Simone tinha na vida.
– De nada, minha senhora. Divirta-se e relaxe um pouco.
– Vou tentar. E você? Nenhum romance na agenda?
– Bem que eu queria! Vou pegar o Noah para irmos ao cinema e provavelmente terei que enfrentar mais uma sessão de tortura com a Beth.
Noah era o filho que Edward tivera com sua ex-mulher, Beth, ou melhor, que Beth tivera com ele, uma vez que ela engravidou de propósito, como fazem tantas mulheres tolas quando se deparam com a iminência do término de um relacionamento fracassado. Pensam que provocam o adiamento do fim inevitável. O divórcio fora um inferno para Edward, cheio de chantagens e gritos infindáveis, mas agora já haviam se passado alguns anos do epicentro da tempestade e os tempos estavam mais calmos. Beth, no entanto, de classe social muito inferior à de Edward, não tinha pudores em fazer cenas desagradáveis a cada mudança de estação mental pela qual passava com frequência.
– A Beth nunca muda. Você não se cansa do teatro dela?
– Cansar? Eu poderia matá-la com minhas próprias mãos se não fosse terminar meus dias na cadeia.
– Resista, Bruce, resista.
Simone citou o desenho animado “Procurando Nemo”, a que haviam assistido alguns anos atrás com seus respectivos filhos, Noah e Tamara, no qual um tubarão frequenta um grupo de ajuda para não mais comer carne. E ambos riram.
– Resistirei, minha amiga. Volte logo, estou com saudades.
– Também estou, volto na segunda.
– Um beijo, vejo você segunda.
– Beijos, meu amigo.
Simone desligou o telefone ainda sorrindo.
Ok, pensou. Sem empecilhos para o contrato, pegou a caneta na bolsa e assinou-o. Pronto, refletiu, a sorte está lançada.
Ela ainda não sabia se a história de Mark era verdadeira ou falsa. Sua curiosidade só aumentava, só não era maior do que a vontade que tinha de conhecer Carl melhor. Ela não sabia se ele despertara nela apenas o lado “mulher atraída por homem bonito” ou o lado psiquiatra, querendo desvendar uma personalidade.
“A quem você está tentando enganar”, disse a si mesma. Queria agarrar o homem e fazer com ele o que Lara havia feito com Mark. Ela e Lara empatavam em fantasias, em se mexer para realizá-las, Lara estava ganhando por um a zero.
Simone concluiu que era hora de ir visitar seu próprio psiquiatra, uma vez que começara a fazer disputas mentais com uma mulher morta. Ela até sabia o que o bom e velho Dr. Edgar lhe diria: "Ponha suas fantasias em prática ou pratique algo sem fantasiar, mas pratique. Você está muito envolvida em seu trabalho e faminta por afeto".
Um a zero para o Dr. Edgar também, mas Simone precisava voltar ao trabalho... de leitura do texto.
Pediu ao serviço de quarto para lhe enviar um café com leite e um sanduíche de pastrami. Quando o pedido chegou, comeu rapidamente, sentou-se no sofá, pôs os pés sobre a mesa de centro, colocou os óculos de leitura no nariz e começou a ler.
O Diário de Mark
Receita médica
Deixei Lara em casa, num prédio moderno e iluminado, feito de aço e vidro. Ela não me convidou para entrar. Não sei se eu gostaria disso, ainda estava um pouco abalado com tudo o que acontecera nos últimos dias e querendo me afastar. Algo em mim gritava: perigo.
– Obrigada pela carona, Mark.
Ela me deu um beijo no rosto e saiu do carro. Que inferno! A mulher transou comigo igual a uma louca, me beijou no rosto e saiu do carro! Quase lhe perguntei se iria me ligar. Acho que estou invertendo os papéis. Eu sou o homem dessa relação, não uma menina insegura e carente!
– De nada, Lara, durma bem.
– Você também!
Ela não disse mais nada, virou-se e entrou. Fui para casa com uma sensação estranha. Precisava falar com alguém. Fiquei revendo mentalmente meus amigos. Falar com Augie? Ia me mandar continuar comendo a moça e ainda ia pedir o telefone dela, acrescentando que ela seria muita coisa para um homem só dar conta. Então compreendi que só tinha uma pessoa capaz de me dar uma opinião “feminina” para eu entender o que estava ocorrendo.
Peguei meu telefone, sincronizei o hands-free do carro, encontrei o número do Peter e telefonei para ele. Peter provavelmente mantém o telefone pendurado no pescoço, porque atendeu imediatamente.
– Alô! – respondeu, como se estivesse dormindo – de novo? Eu começava a pensar que ele estava sempre hibernando ou que minha inconveniência era patológica.
– Alô, Peter, acordei você de novo?
– Não, estava aqui deitado, assistindo ao Poderoso Chefão, como um inútil, sem programa, sem amigo, sem amor, sem nada para fazer.
“Bicha trágica”, pensei.
– Então, eu queria falar com você sobre algo.
– Sabe que horas são? São duas da manhã! As crianças devem estar dormindo a essa hora.
– Desculpe, Peter, achei que fosse horário de você ainda estar na rua. Está sempre por aí, voando, até o sol nascer.
– Estou falando de você. Você dorme cedo. O que está fazendo acordado a essa hora, e ainda por cima carente de amigos? Descobriu finalmente que é gay?
– Não vi a hora, me perdi no horário, estava fazendo umas coisas e não vi que era tão tarde.
– Fazendo coisas com quem? E, pelo jeito, boas... para quem dorme às onze estar acordado de madrugada... Posso adivinhar? Começa com La, termina com ra? – e riu.
– Sim, era ela. Quero falar com você, mas não por telefone. Prefiro ao vivo e a cores. Podemos fazer alguma coisa amanhã?
– Não dá, amanhã é domingo, vou para a stock cars! Já estou em Charlotte.
– Stock cars? Você não gosta disso!
– Eu odeio! Aquele ruído horrível, aqueles carros correndo… mas o médico me recomendou um homem bonito, de preferência rico, que ame esportes, então pensei: onde aviar a receita? Na stock cars está cheio de homens assim! Pronto, vou seguir as recomendações médicas.
– Peter, os fãs de stock cars são homens. O que o “médico” lhe recomendou não foi bem isso.
– Ah, é o que você pensa. Gay que é gay se mistura na multidão e sempre de olhos abertos. Vinte por cento da população mundial é gay, cem por cento por aqui são homens... Então, vinte por cento dos fãs de stock cars podem ser gays! Vou ter sorte e segunda estarei disponível. Que tal almoçarmos?
– De onde você tirou esses vinte por cento?
– Conhecimento empírico, é só olhar por aí.
– Certo... vinte por cento? Bastante, hein? Ok, podemos jantar. Almoço não consigo, estou com um advogado novo, recém-formado. Tenho que dar uma supervisionada, ele é bem esperto, mas sabe como é...
– É bonito?
– Sei lá se é bonito, Peter, acho que sim, a mulherada do escritório começou a usar mais perfume depois que ele entrou.
– Então eu vou ao escritório. Quem sabe avio por lá minha receita. Esse parece ser o que o médico recomendou!
– Não, você não pode aparecer no escritório. Além do mais ele é um advogado iniciante e quebrado, não atende aos seus requisitos. Vamos jantar e você pode escolher o lugar, mas por favor escolha um não muito gay, porque eu e você e uma vela na mesa, isso vai acabar com a minha imagem.
– Acabar com sua imagem? Eu sou lindo, todos os homens dizem isso, e as mulheres vivem tentando me recuperar para a sociedade. Vão dizer que você tem um enorme bom gosto!
– Você é sem noção, mesmo. Até segunda, Peter.
– Espere aí! Eu vou ficar até segunda sem saber o que houve entre vocês? Vou ligar pra Lara...
– Por favor, Peter!
– Por favor sim ou por favor não?
“Bicha dos infernos!”, pensei.
– Por favor não!
– Vou considerar esse pedido se você me contar tudo antes que eu volte a assistir ao Poderoso Chefão aqui. Você já me fez perder um bom pedaço do filme!
– Eu não entendo por que alguém tão gay como você é tão viciado no Poderoso Chefão. Isso é muito macho para o seu gosto.
Pelo que eu sabia, ele já havia visto umas trinta vezes toda a trilogia.
– Eu sou apaixonado pelo Corleone Jr. Quando vejo o filme, imagino um homem daqueles na minha vida.
– Peter, às vezes você me impressiona com o quão gay é! Não consegue ser um pouco mais homem, não? E o Corleone Jr. é Michael.
– Eu também amo você, boa noite.
– Boa noite, meu irmão.
Dei graças a Deus mentalmente por ele ter esquecido do tema Lara. Peter era irritante, mas na verdade, apesar de adorar implicar com ele por ser gay, meu ex-cunhado era o mais próximo que eu tinha de um irmão ou... irmã.
Capítulo Seis
No domingo de manhã Simone acordou descansada. Depois de uma excelente noite de sono, ficou na cama um tempo, então se levantou, tirou a camisola azul-clara que estava usando, foi para o banheiro e tomou uma ducha. Depois de completar sua higiene matinal, encomendou o café da manhã. Estava faminta.
Pediu quase tudo o que viu no menu. Ela adorava ter tempo para um farto café da manhã nos domingos. Comeu calmamente, saboreando o fato de ser domingo, sem pressões, sem agendas, mas então se lembrou de que precisava ligar para Carl e informá-lo do contrato.
– Carl, bom dia. O contrato está assinado, você quer vir buscar?
Subitamente se sentiu mal-educada, nem perguntou como ele estava. Talvez o comportamento dele estivesse afetando o dela.
– Bom dia, Simone, estou feliz por ter decidido me ajudar. Quero lhe entregar mais uma parte da história.
“E quer me ver antes de viajar, certo?” – ela pensou.
– Que hora você parte?
– Eu quero ir para New Haven cedo, por volta das seis da tarde. O tráfego é inacreditável aos domingos. Que hora você virá?
– Estarei aí às quatro. Gostaria de levá-la para tomar um café, assim poderemos conversar um pouco mais.
– Obrigada, Carl, parece boa ideia.
Simone sorriu para si mesma, desligou o telefone e decidiu vestir-se. Escolheu um jeans e uma camisa branca, seu uniforme “casual”, mas deixou para se maquiar depois. Tinha bastante tempo para fazer isso mais tarde.
Com o tempo que restava, resolveu começar a ler alguns dos e-mails que recebera em sua pesquisa. Colocou o MacBook, sobre uma mesinha perto da janela, sentou-se, conectou-se à internet e abriu a falsa conta de e-mail que ela e Edward criaram, a clairpaul@himail.com.
Eles haviam se inscrito em alguns sites de relacionamentos. Um se chamava livelife.com e o outro myidealcase.net. Postaram um anúncio destinado a homens: “Olá, somos um casal, ela trinta e cinco, eu trinta e seis (não era verdade, tanto ela como Edward tinham quarenta e dois anos, mas acreditaram ser mais “vendáveis” essas idades) e queremos um namorado! Claire adora ter sexo com outros homens e eu gosto muito de assistir e às vezes de participar. Não podemos nos expor. Discrição é fundamental, segurança também. Não queremos nenhum tipo de relacionamento financeiro. Escreva para nós, mande uma foto e poderemos marcar um encontro. Beijos, Claire e Paul.”
Simone começou a ler as mensagens e a responder às mais promissoras, com cópia oculta para Edward:
Lusicouslover escreveu: “Olá!!! Vcs já fizeram isso antes? moram onde?”
Impressionante, o sujeito é convidado para ser amante de um casal e a preocupação dele é com o endereço? Só podia ser assaltante, pensou! Descartou de pronto.
Loverboy escreveu: “Olá, princesa, bom dia, tudo bem? Gostaria muito de te conhecer melhor, sou um homem bem cheiroso, bonito e bem dotado, adoro sexo seguro e gostoso, moro sozinho, me liga, bjss”.
Esse provocou-lhe vontade de rir; no afã de sexo gratuito, esqueceu-se do “marido” e quer encontrar somente a “princesa”; e a linguagem…
Paul escreveu: “Que bom, temos o mesmo nome, seguem fotos”.
Ao abrir as imagens, Simone chocou-se. Grotesco! Havia apenas fotos do membro do sujeito em vários estados de ereção ou na ausência de, e apenas isso, sem rosto, sem nada. Sem espelho, diria ela; o pênis dele era torto e lá estava ele expondo-o online. Sua veia de psiquiatra lhe dizia que esse era demente.
Marriedman escreveu: “Olá. Então... eu sou casado [...] tenho trinta e dois anos... e realmente teria que ser algo bem discreto. Estou sem fotos de corpo inteiro... estou mandando uma foto comum. O que realmente vocês estão procurando? Onde moram? O que pretendem desse ‘namoro’, qual a profissão de vocês? Eu trabalho para o governo, discrição para mim é fundamental”.
Segundo os padrões que Simone e Edward adotaram, esse receberia uma resposta: “Olá, marriedman, que bom que discrição é importante para você; para nós também. Queremos realmente um namorado, alguém para sexo a três, sem pudores. Gostamos de tudo entre quatro paredes. Moramos… depois falamos esses detalhes. Somos da área jurídica”.
Dependendo do que esse respondesse, poderiam pensar na fase dois da pesquisa: conversas pela internet, por meio de chat, sem imagem. A fase três consistiria num encontro entre o potencial candidato e Edward; e a fase quatro, num segundo encontro, incluindo Simone. Depois haveria o descarte.
Alwaysdiscreet escreveu: “Boa noite Paul tudo bem eu tambem nao gosto de espor, sou legal e cigiloso nao sou como outro home sou diferente, educado gosto muito de sexo e de amizade também ja tivi varia tipo de relaçao, tudo seguro vc pode ficar traquilo”.
O sujeito havia anexado uma foto nu, de corpo inteiro! Ela ficou admirada da coragem. Certas pessoas realmente não tinham a menor inibição. Ficou analisando o texto e concluiu que o sujeito era no máximo um exibicionista e um assassino da gramática, mas definitivamente corajoso. Decidiu responder em honra ao mérito:
“Caro Discreto, você tem um nome? Que tipos de experiência já teve? Qual a sua idade? Pode me explicar em que é diferente dos outros homens? Quando você diz que viveu vários tipos de relações, o que quer dizer com isso? O que envolviam essas relações? Afeto, só sexo?”
Popipopi escreveu: “Oi, Claire e Paul, espero que gostem das fotos, mas não sou tão fotogênico assim, rsrsrsr. Como viram sou moreno 1,83m de altura tenho vinte e oito anos de idade moro só gosto de ir à academia não para malhar mas para correr fazer speed entre outros exercícios aeróbicos pois gosto de manter meu VIGOR SEXUAL. Imagino que pelo título vocês já estejam há algum tempo procurando uma pessoa condizente com o que os satisfaz. Não sou uma pessoa que gosta de falar de mim mesmo prefiro usar a modéstia para me descrever. Sou adepto das aventuras contudo não são frequentes. Conheci por intermédio de uma namorada que tive que era viciada em aventuras sexuais no início confesso que foi estranho mas criei gosto e praticávamos sempre que oportuno. Como vocês prezo a discrição tenho um trabalho importante ao qual a imagem que apresento é um fator crucial. Não me entendam mal pois gosto dessas aventuras só não me sinto confortável para deixar os familiares e amigos do ambiente corporativo saberem”.
Com foto e sem vírgulas, bastante interessante esse. Já teve experiências com uma parceira “viciada”. Simone decidiu responder:
– Olá... você tem um nome? Poderíamos marcar um encontro em um local público? Eu, você e o Paul? Gostamos do seu perfil, discrição para nós também é fundamental, e saber que você tem experiência é muito bom. Amadores são horríveis em qualquer área. Rsssss. Nesta ainda é pior. Quando estiver disponível, podemos marcar um local para nos encontrarmos, ok? Qual é a sua profissão?
Havia um correspondente com o qual já trocara algumas mensagens, estava na hora progredir para a fase dois com ele. Conversaria por chat na internet.
Allyoucaneat escreveu: “Olá para meu casal favorito, o que vocês acham de marcarmos algum tipo de encontro para nos conhecermos melhor? Penso que já trocamos todas as informações de que necessitávamos por e-mail, gostaria de dar início a um aprofundamento da nossa relação ou estaremos velhos e carecas antes de realizarmos nossas fantasias”.
O tempo passou bem rápido, no final Simone se divertiu bastante com as mensagens. Ela gostava desse tipo de pesquisa. Marcou um encontro com All you can eat em um chat no sábado seguinte à tarde. Ela estaria em casa e seria mais tranquilo.
Após responder os e-mails, Simone fez a mala e se preparou para viajar. Carl chegou
às quatro horas, conforme marcado. O cabelo escuro dele estava úmido, como se tivesse acabado de tomar banho. Ele usava jeans e camisa polo negra, ambos justos o suficiente para que ela pudesse admirar o corpo musculoso dele...
Foram até um pequeno café perto do hotel. Simone entregou a Carl o contrato assinado, eles discutiram alguns aspectos práticos do trabalho e definiram datas – nada pessoal, apenas trabalho.
Carl estava obviamente com pressa. Deu umas desculpas e partiu meia hora após ter chegado. Simone voltou ao hotel, fez o checkout e partiu para casa.
Capítulo Sete
Após retornar de Nova York, Simone teve uma semana superocupada, pacientes indo e vindo, aulas, pesquisa para o novo livro... Mal notou os dias passarem e, de repente, já era sexta-feira.
Aquela sexta-feira úmida e cinzenta anunciava o final de verão. Tudo o que Simone mais desejava era ir para casa, encher a banheira e tomar uma taça de vinho, mas estava ainda no consultório e havia mais um paciente para atender. Como era paciente novo, tomaria bastante do seu tempo e já aguardava na sala de espera.
Simone normalmente fazia uma pausa de dez minutos entre cada consulta. Estava recostada na cadeira, atrás da escrivaninha de carvalho, observando o chuvisco pela janela do consultório.
O consultório era aconchegante. Os móveis escuros davam uma sensação de solidez e seriedade. Os quadros nas paredes e o tapete persa colorido em tons de vermelho que enfeitava o chão emprestavam um ar europeu à sala. Estantes cheias de livros visíveis através de portas de vidro ficavam contra as paredes em tons pastel.
O ambiente parecia pertencer a outra época, com o computador e o intercomunicador deslocados. A inspiração havia sido Bonaparte, após uma visita de Simone ao escritório dele no castelo de Mal Maison, de Josefina, na França, durante seu programa de intercâmbio. Ela pensou então que um dia decoraria seu consultório daquela forma, e foi o que fez.
Cada novo paciente representava um desafio para Simone. Conseguir mergulhar na alma de um ser era sempre complexo. Os pacientes muitas vezes sabotavam sua própria terapia, não revelavam tudo que deveriam, ou contavam versões fantasiosas dos fatos. Poucos eram os que apresentavam os problemas claramente ou que sabiam exatamente o que queriam da terapia. Alguns eram encaminhados por amigos, parentes, cônjuges, que desejavam ver neles mudanças – mudanças que o próprio paciente não tinha o mínimo desejo de realizar.
O intercomunicador soou. Era Mona, secretária que Simone partilhava com Edward, avisando que o horário do paciente chegara. Simone deu um suspiro e se encaminhou à poltrona de couro. Em seu consultório os clientes ficavam sentados num clássico sofá de veludo verde-escuro confortável, onde podiam pôr os pés, deitar-se ou simplesmente ficar sentados. Simone sentava-se em frente a eles, observando-lhes as reações e tomando notas.
O paciente que entrou era um tipo comum: com mais ou menos 1,75m de altura, aparentava entre trinta e cinco e quarenta anos, usava óculos e tinha os cabelos cor de areia molhada e os olhos castanho-claros cercados por pequenas rugas. Usava jeans e camisa de boas marcas, provavelmente seu casaco ficara na sala de espera.
– Boa tarde, Dra. Bennet.
Estendeu a mão em cumprimento. As mãos estavam quentes, sinal de que não havia qualquer nervosismo para essa primeira consulta.
– Boa tarde, Alvin. Vejo que veio recomendado por um dos meus colegas, Dr. Schuster – disse, olhando para a ficha dele.
– Sim, muito bem recomendado por sinal. O Dr. Schuster a tem em alta conta, Dra.
Bennet.
– E o que o traz a mim, Alvin? Me conte um pouco sobre você.
– O Dr. Schuster acredita que meu caso está dentro da sua especialidade, que meus problemas são de natureza sexual.
“Direto ao ponto”, pensou ela.
– Se não se importar, primeiramente eu gostaria de saber um pouco sobre você, o que faz... fale um pouco sobre sua vida.
– Eu possuo uma empresa de informática. Gosto de computadores, tenho bons clientes, não tenho problemas de ordem econômica.
Isso era certo, uma vez que os honorários cobrados por Simone eram extremamente altos – a melhor forma que encontrara para selecionar pacientes. E ainda assim tinha uma agenda de no mínimo oito horas de consultório por dia.
– Sou casado há cinco anos, tenho apenas um filho, com quem me dou bem, e meu relacionamento com minha esposa é bom.
– Vejo que quer delimitar bem sua terapia: não tem problemas com filhos nem com trabalho ou esposa. Podemos voltar então ao ponto em que iniciamos: o que o traz aqui?
– Penso que sou viciado em sexo. Penso em sexo o dia inteiro. Fantasio, gosto de ver minha mulher fazendo sexo com outros homens, gosto de fazer sexo com estranhas, de participar de orgias, gosto de situações de risco.
O homem foi vomitando seus problemas sem pausa para respirar. O estranho é que falava de suas fantasias e daquilo que considerava problemas sem qualquer emoção, como se não estivesse falando de si, mas de uma pessoa distante.
– Isso o incomoda? Essas aventuras e fantasias?
– Não, a mim não. Não são um limitador na minha vida, mas eu gostaria de entender, porque vejo que às vezes minha esposa sofre com isso. E também porque algumas vezes acabo entrando em situações de alto risco, e o controle da situação me ajudaria a evitá-las ou minimizá-las.
– Defina situações arriscadas, por favor.
– Sexo com estranhos, homens e mulheres, às vezes sem proteção, às vezes com várias pessoas na mesma noite.
Fez uma pausa e olhou para Simone, aparentemente em busca de uma reação. Simone jamais piscava. Pode-se dizer que era uma excelente jogadora de pôquer, quando se tratava de esconder o que ia por sua mente.