Atrás da Porta
Capitulo Dezenove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Simone deixou o manuscrito de lado. Arrepios que percorriam seu corpo congelaram a vontade de dormir. Como Mark deve ter sofrido ouvindo Lara contar sua vida infernal! Do ponto de vista cientifico, era tudo de que Simone precisava para seu novo livro, um caso fascinante de masoquismo e de personalidade pós-traumática.
Do ponto de vista humano, era uma história de muita dor, tortura sistemática de uma adolescente.
Simone tomou um pouco de água e decidiu retomar a leitura. O sono teria que esperar.
O Diário de Mark
Caia fora, homem!
Cada vez que Lara fazia uma revelação e dava um passo na minha direção, ela recuava mais dois na sequência. Eu já estava me acostumando. Decidi ir a uma psiquiatra. Eu precisava entender o que estava acontecendo comigo, com Lara e com nosso relacionamento. Eu me afundava. Fui a três ou quatro sessões com a terapeuta e desisti. Ela me disse que eu estava me conformando com pouco, que essa era uma relação tóxica e que eu parecia aquelas mulheres agredidas fisicamente pelo marido ou amante, que se acostumavam com uma situação ruim.
Frase dela: “Daqui a pouco você chegará aqui, Mark, e dirá: Lara é uma ótima pessoa, só é ruim quando surta. E acrescentará: só que ela surta o dia inteiro”.
Abandonar Lara estava fora dos meus planos. Eu achava que ela precisava de mim e era louco por ela, assim decidi abandonar a terapia.
Peter era um excelente terapeuta, pensei. Falaria com ele. Contei a ele o que podia, nada sobre o abuso que Lara sofrera, porque era segredo dela, não meu, para divulgar, mas falei que o sexo sempre era diferente e que às vezes isso me incomodava muito.
– Caia fora – disse Peter.
– Por quê?
– Porque eu já falei, mas como você parece um vácuo, onde nada se propaga... vou repetir: essa mulher não é para se apaixonar, é para trepar!
– Estou apaixonado por ela! – pronto, consegui verbalizar o que vinha na minha mente fazia tempo.
– Merda puta que o pariu! Trate de se desapaixonar! Essa mulher é louca, você é ótimo, normal, ela é... maluca!
Peter estava visivelmente enraivecido, com o rosto vermelho.
– Eu os apresentei porque achei que você estava precisando de uma transa que o tirasse do papai e mamãe que é a sua vida, mas não era para você embarcar num carnaval surreal na Red Light District... Passear pelo diferente é uma coisa, Mark, viver nele é como viver em uma realidade paralela! No Matrix!
– Em primeiro lugar, você não nos apresentou; em segundo, em que inferno de lugar está sua compaixão, sua amizade? Eu acho que ela sofre...
– Sim, com certeza ela sofre, de ninfomania! Você nunca vai bastar para ela! Já o imagino sem terno e gravata e vestido todo de látex preto, com a bunda cor-de-rosa de fora, ela com um chicote na mão...você com nariz de porquinho, ridículo, não é você! E não questione minha amizade, é por isso que estou lhe dizendo para cair fora.
Peter foi enfático, a psicóloga foi clara, mas eu queria Lara, e achava que poderia resgatá-la, trazê-la para a normalidade. Era só ir fazendo isso aos poucos. Sim, eu poderia salvar a Lara. Terminei me perguntando quem me salvaria dela.
Saí da minha “sessão” com Peter mal e decidi quebrar as regras: fui diretamente para o apartamento de Lara, sem avisar. O porteiro me recebeu sorrindo e me liberou para subir.
Queria ir até ela e dizer que estava apaixonado e que se ela remotamente sentisse o mesmo iríamos resolver juntos todo o resto, até conseguirmos trilhar um caminho mais normal de vida. Eu ia ajudá-la a esquecer os traumas, as dores.
Quando cheguei ao apartamento, havia música alta vindo de dentro. Toquei a campainha e me dei conta de que não seria ouvido. Puxa! – disse para mim mesmo, não sabia que a Lara gostava de rock anos sessenta. Mas The Doors estava tocando e a voz inconfundível de Jim Morrison cantava Back door man.
Experimentei girar a maçaneta e a porta se abriu. Entrei e congelei. Havia um homem nu caminhando pela sala, Lara estava nua de quatro, sendo comida por trás por um negro enorme. Deitado sob Lara, um outro homem a chupava.
Ela não notou minha presença no começo, distraída pelos “assuntos” de que tratava. Paralisia e dor me impediam de reagir. Vi o negro agarrar Lara fortemente pelos cabelos, enquanto metia nela. Ela gemia alto e ele lhe batia incessantemente no traseiro, se apoiando nos cabelos dela como se fossem os arreios de um cavalo. O homem embaixo chegava a mover os dedos dos pés em delírio. O crescendo da festa carnal de Lara levou-os a um orgasmo termonuclear. O negro retirou seu pau imenso, arrancou o preservativo e puxou-a pelos cabelos daquela posição e gozou na boca de Lara. Naquele momento Lara me viu.
Ela limpou o queixo com as costas da mão e gritou:
– Caia fora daqui!
E foi o que fiz... Saí... com a certeza de que nunca mais queria ver aquela louca depravada, que estava me levando ao limite da sanidade. Eu não sabia sequer para onde ir. Começou a chover quando saí do prédio e eu fiquei sentado na calçada, em frente ao apartamento dela, sem forças para reagir, o rosto enterrado nas mãos.
Não sei quanto tempo fiquei ali, na chuva. O negro que estava com Lara de repente estava ao meu lado, pôs a mão no meu ombro, eu queria dar um soco nele, mas me sentia fraco.
– Cara, vem comigo.
Eu o segui até o carro dele, entrei. Não conseguia recusar, não tinha forças.
– Eu não sei quem você é, meu amigo... – foi dizendo ele... – mas vi você lá em cima… e vi sua surpresa…
– Eu não sou seu amigo – falei.
– E eu não sou seu inimigo. Vi que presenciou a cena... e posso dizer que está apaixonado por Lara. Um erro tremendo! Ela é uma deusa do sexo, mas é propriedade pública. Vou ser sincero com você: pelo seu estado, você merece a verdade... isso rola sempre... eu, ela, mais alguém, ela e outras pessoas, é sempre plural a coisa ali...
– Quem é você?
– John Mayer, caí um vez nessa cilada em que você está e ela arrancou meu coração do peito com as próprias mãos e o comeu na minha frente. Então compreendi que a trepada é boa, trepe com ela quando puder, mas não queira direitos de exclusividade. Evite-a como se fosse uma praga. Se ficar nessa por esporte... ok, mas vejo que não é seu caso... Se é amor, caia fora! Ela vai mastigar, engolir e cuspir você!
Não fiquei para agradecer o terceiro conselho na mesma direção que recebera no prazo de uma semana. Saí do carro determinado a deixar para sempre a vida de Lara.
Algumas semanas se passaram, as piores da minha vida. Me sentia um imbecil completo, com saudades dela, sentindo falta do cheiro dela, então ela me ligou:
– Mark?
– Lara.
– Podemos conversar?
– Para quê? Você não me mandou cair fora? Estou fora!
– Fora do apartamento, não fora da minha vida. Eu preciso de você... – Lara estava soluçando copiosamente.
Eu era um idiota completo! Ouvir Lara chorar e dizer que precisava de mim era igual a apertar o play em um controle remoto, a desculpa perfeita para correr até ela.
Lara estava um caos. Penteado do salão Porco Espinho combinado com a maquiagem do salão Chore um Rio. Ela tinha um hematoma feio no rosto, marcas arroxeadas pelos braços, um completo desastre. Vestia uma calça de moletom que já havia tido alguma cor, mas que agora era um trapo velho, e uma camiseta velha com o dizer “Garotas se divertem mais”, em estado similar.
A visão da Dulcineia em perigo me transformou em Dom Quixote. Ela precisava de mim e eu era talhado para ajudá-la em sua aflição. Vê-la em tamanho estado de fragilidade despertou em mim o cavaleiro quixotesco, e meu eterno desejo de protegê-la teve o dom costumeiro que a presença dela tinha sobre minha mente, o de provocar amnésia! Abracei-a e afastei para debaixo do meu tapete mental a imagem dela com John Mayer.
– O que houve, Lara?
– Ele veio aqui...
– Ele quem, meu Deus? Átila, o Uno, a cavalo?
– Não, Arthur.
– Quem é Arthur?
Lara tinha a mania irritante de achar que eu conhecia todo seu vasto círculo de “amigos”;
– O filho do senador!
Ah, pensei, agora sei o nome dele. Sempre quis perguntar, mas nunca tive coragem.
– Mas como ele conseguiu entrar?
– Não sei, esse idiota desse porteiro de merda o deixou subir... Quando fui abrir a porta, achei que era um vizinho ou uma encomenda, e lá estava ele.
– E?
– Tentei fechar a porta na cara dele, mas ele me empurrou, entrou e começou a gritar comigo, dizendo que eu sou uma vagabunda ingrata, que eu tinha que ir ver minha mãe, que está no hospital...
– E o que você disse?
– Eu disse tudo o que pensava dele... esperei por esse momento anos da minha vida... Falei que ele me dava vontade de vomitar, chamei-o de nojento e pedófilo, falei que minha mãe era uma cafetina escrota!
– E ele?
– Me deu um tapa no rosto tão forte que me arremessou no sofá... daí me agarrou pelos braços e me chacoalhou até que eu quase desmaiei. Jurou que nunca mais se envolveu com alguém tão jovem, que fora apaixonado por mim, que me amou... que estava esperando eu crescer para nos casarmos e que minha mãe só havia colaborado porque sabia de tudo isso.
– Você não acreditou nele, não é?
– Claro que não! Que tipo de amor é esse? Como o da minha mãe? Eu não entendo merda nenhuma de amor, mas pelo pouco que sei, isso é o oposto!
– E então? O que você vai fazer agora?
– Evitá-los como se fossem uma praga, como sempre fiz. Mark, por Deus, eu não conseguia manter um pensamento coerente perto dele, eu só tinha em mente fugir, não escutar – ao dizer isso Lara levou as mãos aos ouvidos. – E o filho da puta não parava de falar. Comecei a me sentir como quando eu era menina, perdendo as forças, e que se ele me mandasse fazer qualquer coisa eu faria... A voz dele me fazia lembrar...
– De quê?
– Das torturas, das dores que me fazia passar, dos castigos quando eu não me comportava...
Imaginar Lara em uma sessão de sadomasoquismo era uma coisa, mas imaginar uma mulher como Lara vítima frágil e indefesa, era quase impossível. A mulher era uma amazona!
– Você não me contou sobre castigos… que tipo de castigos?
– Eu tenho muita vergonha disso...
Lara se encolheu inteira no sofá, levando as pernas até o peito, e começou a chorar convulsivamente. O que eu poderia fazer? Iria voltar urgente para minha psicóloga, porque eu tinha medo que ela me levasse à loucura.
– Venha cá, Lara, chore tudo o que tem para chorar... e me conte tudo o que há para contar... Não aguento mais essa morte por mil cortes. Você precisa se esvaziar e eu preciso saber tudo o que está escondido aí dentro da sua cabeça, ou não consigo ajudá-la – falei e apontei para a cabeça dela.
– Ele me batia... quando eu ainda não estava acostumada às sessões de sexo grupal, quando eu me recusava a participar de suas brincadeiras masoquistas, que sempre me machucavam... quando eu recusava algum amigo dele... Ele me batia muito, nunca no rosto... Hoje foi a segunda vez...
Me lembrei que ela me contara de quando ele batera no rosto dela e ela decidira contar tudo ao pai. Aparentemente a falta de limites de Lara encontrava este limite: receber um golpe na face.
– Ele me deixava sem comida... trancada no apartamento, sabe Deus onde ia e levava a chave da cozinha... Eu ficava sem nada para comer, tomava água no banheiro e só... Às vezes ele demorava uns dois dias para voltar, daí eu prometia ser boazinha e ele me alimentava. Aprendi a guardar biscoitos num esconderijo…
– Quanta insanidade…
– E depois de certo tempo entendi que a culpa de passar fome ou de apanhar era minha. Ele sempre dizia isto: “Estou batendo porque você provocou isso. Se fosse uma boa menina, isso não aconteceria. Estou deixando-a faminta por sua culpa. Você poderia ter escolhido comer, mas escolheu me desobedecer”.
– Você compreende hoje que isso é errado? Que você não tinha culpa?
– Sim, foi uma das primeiras coisas que o terapeuta em que Emma e meu pai me levaram me explicou: que todos os agressores dizem que a culpa é da vítima, e que depois de um tempo a vítima começa a acreditar nisso. Um adulto acredita, imagine uma criança. E hoje ele veio e disse que me amava...
– Lara, isso não é amor, é doença. Ele é um psicopata e um pervertido. Nunca o deixe entrar em sua mente para que você acredite no contrário. Amor não tem nada a ver com isso. Lara, nós precisamos conseguir uma ordem de restrição contra ele, me deixe fazer isso por você? Conseguiremos uma ordem contra ele e contra sua mãe, eles não se aproximarão de você!
– Nunca mais?
Me doeu escutar a vozinha infantil de Lara ao fazer essa pergunta. Era como uma criança que pedia ao pai para prometer que os monstros nunca mais visitariam seus sonhos.
– Ao menos enquanto durar a ordem...
– O que eu preciso fazer para conseguir isso?
– Nós vamos agora para a polícia mostrar as marcas que você tem pelo corpo e dizer quem foi o agressor.
– Mark, o pai dele foi senador, conhece todo mundo!
– Só que esse edifício tem câmeras de segurança, eu vou lá embaixo conseguir as filmagens agora e Deus ajude aquele porteiro débil mental se não me der. Vamos manter esses vagabundos longe de você! Confie em mim, Lara.
– Eu confio, Mark, muito! Você está na lista das pessoas com quem sei que posso contar.
– Eu amo você, Lara, me deixe cuidar de você! Não prometo que nunca irei magoá-la, mas nunca vai ser intencional, isso eu prometo. E prometo que vou cuidar de você.
Lara nada respondeu. Apenas ficou ali, com a cabeça no meu ombro, me abraçando forte como seu eu fosse um tronco na enchente pela qual era arrastada.
– Não quero que conte toda a história... Existe como fazer isso sem contar tudo?
– Deixe comigo, não se preocupe... Vamos mostrar as imagens de Arthur entrando no edifício e seus hematomas... Ele e sua mãe vão querer evitar o escândalo e ficarão longe. Eu preciso de nomes, Lara, completos...
– Está bem.
Por fim, descobri que o filho da puta se chamava Arthur Ranking Eberle! Filho do poderoso ex-senador Ruggiero Eberle.
Fomos à polícia, fizemos o exame corporal em Lara. Nem diante da pressão certa e de belas ameaças o porteiro cedeu os filmes. Precisei obter uma ordem judicial para conseguir sua liberação, mas em vinte quatro horas tínhamos a ordem de restrição. Com o nome e o sobrenome do degenerado, fiz uma pesquisa e descobri muitas informações interessantes sobre ele.
Seu pai não era mais senador já fazia um bom tempo, mas era um proeminente banqueiro em Washington. Recentemente havia inaugurado uma agência em Nova York. Publicidade negativa o afetaria. Minhas lições com meus clientes me mostravam que, quanto mais rico o sujeito, mais necessidade de manter os esqueletos escondidos no armário.
Localizei o telefone do escritório do depravado, mandei um fax para ele com a ordem para não se aproximar, e liguei para ele. Eu odiava tanto aquele lixo que tremia de raiva. A secretária dele me atendeu e disse que ele não podia falar. Respondi que ela deveria colocar o fax sobre a mesa dele imediatamente e fazê-lo me ligar antes do meio-dia ou Lara iria dar uma entrevista. Que ela lhe transmitisse esse recado – a ideia da entrevista me ocorrera somente naquele momento, mas valia o blefe.
E realmente valeu! Em poucos minutos Arthur estava ao telefone para saber o que havia se passado e quem era eu. Expliquei-lhe sobre a ordem para não se aproximar de Lara, as consequências jurídicas de fazê-lo, e o ameacei com um escândalo que arruinaria sua vida, já que ele não tivera pudores ao cometer crimes odiosos contra uma criança indefesa.
– Olha aqui, advogado, você não conhece bem essa menina. Ela sempre foi perturbada, digna de passar a vida numa instituição mental, numa camisa de força. Ela tem mente fantasiosa e é demente, sem falar que é fria como gelo. Eu somente a procurei porque a mãe dela está internada, com câncer – metástase – em fase terminal e Deus sabe que Sabine merece um adeus decente dos filhos!
– Agora me escute, Arthur, seu filho da puta doente. Eu sei de tudo, eu sei sobre Paris, sobre a conivência da mãe dela com sua pedofilia... Não é difícil de criar um caso contra um molestador de mais de trinta anos que leva um menina de treze para Paris por seis meses. Então, sugiro, para sua saúde e a de sua cara madrasta, que cumpram a ordem, resignem-se a ficar anos-luz distantes de Lara. E tenha certeza de mandar a mensagem para a cafetina da sua madrasta, ou seus nomes vão para a mídia. Ah, e espero que ela morra uma morte dolorida e solitária. De nenhuma forma, jeito ou maneira Lara está obrigada a dar adeus a alguém que merece se afogar em um balde de merda!
– Entendido. Podemos chegar a um acordo?
– Sim, podemos, fiquem longe de Lara, esse é o acordo! Contato de tipo nenhum, sem visitas, sem telefonemas, sem telegramas, sem e-mails, mensagens de texto ou de voz, sem contato telepático. Se a palavra for muito difícil para você entender, significa que nem pensar nela você deve, capisci?
– Perfeitamente. Posso contar com o cancelamento da entrevista?
– Enquanto vocês cumprirem nosso acordo…
– E sobre as acusações que fez para conseguir a ordem de afastamento?
– Comporte-se e em alguns dias vamos retirá-las... Lara não quer ver você nem num tribunal.
– E a mãe dela? O que digo para ela? Ela quer muito ver Lara antes de morrer.
– Diga que espero que ela morra com dor e culpa corroendo-a, que eu gostaria que ela sofresse no inferno tudo o que fez a filha passar. Ela não verá Lara e não tentará se aproximar, aliás, nem de Lara nem dos irmãos dela, é o acordo...
– Certo...
Desliguei com a certeza de que ele havia entendido o recado.
Telefonei para Lara. Por via das dúvidas, algumas providências seriam necessárias.
– Lara, faça uma mala. Você se muda para minha casa hoje, somente até a coisa se acalmar – e lhe expliquei tudo o que havia feito. Eliminei detalhes da conversa, como o estado de saúde da mãe. Ela não precisava disso, não agora, e eu não tinha certeza de que não fosse mais uma mentira.
– Está bem, Mark.
Sem discussões, sem resistência. Estávamos inaugurando uma nova era.
Lara ficou em meu apartamento uma semana, depois mais uma, e um mês se passou. Íamos buscar mais roupas e objetos no apartamento dela e às vezes dormíamos por lá.
Começamos a circular como casal, de mãos dadas na praça, conversávamos sobre tudo, ou eu pensava que conversávamos sobre tudo, ela trabalhava durante o dia, eu também, eu dava minhas aulas à noite, ela fazia suas pinturas, e fomos nos acomodando naquela vida, como se fôssemos um velho casal. Até as sobrinhas apareceram e vi como ela podia ser uma criança feliz perto de outras crianças. Um pensamento que nunca havia me ocorrido atravessou minha mente: se Lara quisesse um filho, eu toparia essa aventura com ela.
O idílio durou três meses, os mais felizes da minha vida. Três meses em que, sem dizer que me amava, eu a sentia minha, próxima, feliz. Ela parecia ter espantado seus fantasmas. O sexo era intenso, na mesa, no tapete, no balcão da cozinha, na banheira e até na cama, mas só entre nós. Naqueles três meses não houve nenhum terceiro elemento na relação. Nem Peter aparecia. Estava “enciumado” e se sentindo “excluído”, segundo ele, mas queríamos realmente ficar a sós.
Simone – Dias atuais
Simone fechou o manuscrito e enfim foi dormir. Já passava da meia-noite e o dia seguinte prometia ser pesado.
Capítulo Vinte
O dia seguinte voou e, antes que Simone se desse conta, estava quase terminado. Ela teve uma manhã ocupada e parte da tarde também, atendendo seus pacientes e alguns de Edward, que estava trabalhando arduamente no caso do corpo encontrado nos degraus da casa dela.
Quando Simone saiu do consultório para pegar uma xícara de café no final do dia, se surpreendeu ao encontrar Edward na área de recepção.
– Ei, menina, como foi seu dia? – ele perguntou, dando uma beijoca no rosto de Simone.
– Ótimo, Edward! Atendi muitos dos meus pacientes e alguns dos seus, que não ficaram muito felizes em me ver em seu lugar, mas está tudo resolvido. E com você, como estão indo as coisas?
– Trabalhando duro com os tiras! Agora o chefe de polícia decidiu que todos os policiais envolvidos no caso têm que fazer amostra de sêmen. Falei para ele que eu posso fazer também, mas não até a semana que vem, pois estou muito ocupado.
Edward apertava a mandíbula e esfregava as mãos juntas, sinais de que estava estressado e irritado.
Simone pôs uma mão reconfortante no braço dele e disse:
– Sinto muito, Ed, mas acho que eles estão tentando eliminar suspeitos.
– Exatamente do que eu precisava: ver uma revista pornô e me masturbar num potinho, como se não tivesse mais nada para fazer na vida! E com tanta pornografia na internet, ainda fico surpreso que esse tipo de revista exista! – ele ao menos tentava fazer um arremedo de brincadeira.
– Entendo, meu amigo, mas quem sabe eles não te dão um tablet, em vez de uma revista... nesses dias de hoje... – e ela riu do pensamento.
– Engraçadinha...
Nisso o celular de Simone tocou e ela correu até sua sala para pegá-lo sobre a mesa. Apertou o botão de recebimento de chamada sem olhar no display e levou o fone ao ouvido.
– Alô?
Novamente se ouviam uma respiração e música ao fundo, e ninguém dizia nada. Depois dos últimos acontecimentos, o telefonema ganhou novo significado. Ela desligou e jogou o fone sobre a mesa.
– O que era?
Simone se virou e encontrou Edward parado na porta do consultório.
– Ed, penso que esqueci de mencionar algo para a polícia. Algo que talvez seja importante – disse.
– O quê?
– Estou recebendo telefonemas estranhos. Alguém liga, fica respirando e há música no fundo, mas não dizem nada e o número é bloqueado!
– Desde quando isso vem acontecendo, Simmie?
– Olha, recebi dois telefonemas antes de encontrar o corpo. Este foi o terceiro. Antes não dei importância ao fato, mas agora começo a me preocupar.
– Eu também. Vamos informar isso para a polícia agora!
Edward ligou para o investigador-chefe do caso e explicou o que estava ocorrendo. Passou o número de Simone e recebeu instruções.
– Simone, a polícia vai grampear sua linha. Da próxima vez que receber um telefonema assim, tente iniciar um diálogo. Eu sei que poderá ser um monólogo, mas é necessário algum tempo de comunicação para que a polícia consiga localizá-lo. O ideal seria você ficar na linha pelo menos por um minuto.
– Droga! Minha casa parece set de reality show, cheia de câmeras por todos os lados, e agora meu telefone gravado. E minha privacidade, Ed?
– Prometo que voltará a tê-la quando pegarmos esse maluco. Ele está começando a ficar descuidado. Ele foi organizado até o último assassinato, agora já está matando sem planejar. Logo, logo, ele será nosso.
– E até lá?
– Até lá temos que ter cuidado. Esse cara não brinca, não é alguém querendo assustar, é alguém capaz de matar.
– Eu sei, mas odeio quando minha vida sai do controle, e nada está muito normal.
– Tudo vai voltar aos trilhos. Enquanto isso, deixe-me cuidar de você, minha amiga. Eu sei que você é a mulher mais independente do mundo, mas estou aqui para ajudá-la, conte comigo!
– Ed, é só o que faço! Estou sendo um fardo!
– Pare com isso, sempre que precisei você estava disponível para mim, para ouvir meus problemas. Que espécie de amigo eu seria se não retribuísse? Preciso fazer algo por você para me sentir bem. E nem é tão altruísta, assim, eu preciso de você por perto – Edward fez um carinho no rosto de Simone e saiu.
Naquele momento, Simone teve um pensamento: provavelmente, Edward seria o homem mais interessante e a melhor pessoa que conhecera na vida. Por que nunca o vira de outra forma? Ela se respondeu: talvez, se tivessem misturado as coisas, o relacionamento deles já teria terminado faz tempo. “Amor só confunde as coisas”, pensou, “amizade é um sentimento mais claro”.
Simone atenderia Philip naquele dia. Ele estava um desastre ao telefonar mais cedo para dizer que era urgente. Ela então conseguira trocar o horário de outro paciente para recebê-lo.
Philip chegou abatido, ou melhor, alquebrado. Simone refletiu que, se usasse as palavras dele para descrevê-lo, ele estaria se sentindo um “merda”. Tinha as roupas amassadas, olheiras, parecia exausto, e o pior dos indícios de que as coisas iam mal: nenhuma guloseima embaixo do braço.
– O que houve, Philip, o que há de errado?
– Me sinto um merda, doutora! Descobri que minha mulher está me traindo!
– Como traindo-o? Não é você que gosta que ela o traia? Achei que estavam indo bem, pelo mesmo caminho na prática da dominação e submissão.
– Eu também, estava bem feliz... aí... descobri tudo! Aquele clube que ela “sugeriu”, ela já frequenta faz algum tempo... sozinha... E aquele sujeito que ela arrastou para minha frente quando eu estava dominado nas cordas... eles são amantes há muito tempo...
– Ela lhe contou?
– Não, ontem eu cheguei em casa bem mais cedo, porque estava me sentindo mal, acho que vou pegar uma gripe. Abri a porta e comecei a ouvir gemidos… minha mulher não é de gemer muito… ao menos não comigo… Daí pensei: ela resolveu me fazer uma surpresa, arrumou alguém para eu a ver e me excitar… Mas logo descartei a hipótese, porque eu havia chegado três horas antes.
– E dai?
– Entrei de mansinho no quarto, ela estava na nossa cama com o cara da casa de dominação… Estava de quatro – adoro quando ela fica assim, porque o traseiro dela, que é muito bonito, fica exposto –, ele estava metido nela e os dois gemendo, e ela dizia: “Vem, meu amor, vem, meu amor, entra em mim, é bom, meu amor, por favor”… Nem me importei que ela estivesse transando com ele, mas a merda do “meu amor” me fez sofrer, porque o amor dela tinha que ser eu, e não ele! E ela nunca falou palavrões comigo, e lá estava ela, falando palavrões para ele!
Phillip começou a chorar, Simone lhe estendeu a caixa de lenços, ele se acalmou um pouco e continuou:
– Fiquei ali ao lado da cama e eles não prestaram atenção em mim, estavam “fazendo amor”, tudo o que ela dizia que não gostava. Ela sempre me disse que gostava de sexo forte, “enfiadas”, mas ali estava o sujeito deslizando as mãos pelo corpo dela, penetrando-a de forma vagarosa, daí ela virou e ele a beijou na boca. Enquanto a estocava, eles iam se beijando.
– E eles não o viram em nenhum momento?
– Estavam de olhos fechados… Quando gozaram e terminaram, me viram. Achei que viriam algumas explicações criativas, mas ele falou para ela: “Minha linda, acho que vocês terão que conversar, você ficará bem?”
– Deve ter sido muito triste para você, Phillip.
– Achei que iria morrer ali, doutora.
– Ela lhe explicou seu comportamento?
– Disse que precisava ter algo dela... que se sentia devassada com todas as nossas práticas e que, com o amante, tinha intimidade... Mais intimidade do que tinha comigo? Fazíamos tudo juntos!
– E agora, Philip, como vai ser?
– Ela quer me deixar, disse que vai morar com o amante, que está cansada da minha loucura, que nunca se sentiu amada, que eu “entregá-la” para outros significa que não gosto dela e que esse sujeito aí a ama e a quer só para ele!
– Philip, esse é um dos riscos desse tipo de prática sexual... alguém perde...
– Eu a perdi, doutora! E o pior: não sei o que farei sem ela. É exatamente o oposto do que ela pensa! Eu a amo mais do que tudo. Deixá-la transar com outros homens, para mim, era também um forma de deixá-la sempre satisfeita. Achava que ela não precisaria me trair.
– Vamos encarar a realidade, Philip. Também era uma forma de você encontrar prazer, convenhamos...
– Sim, era, doutora, mas também de fazê-la ter uma vida mais prazerosa, assim ela não precisaria ir atrás de outros homens, porque eu sempre lhe daria todos que quisesse...
– Se ela pedisse para você parar com as fantasias, todas, você pararia? Ficaria só com ela?
– Ficaria, doutora, ela é a coisa mais importante do meu mundo! Mas acho que agora é tarde.
– Philip, nunca é tarde. Você tem que dizer a ela tudo que me disse. Precisa fazê-la entender que você sempre deixou que ela ficasse com outros homens por medo de perdê-la. Na verdade, é aquele velho medo da infância de nunca ser o melhor dos filhos, nunca conseguir reluzir aos olhos da mulher amada...
– A senhora acha que, se eu fizer isso, ela voltará para mim, doutora?
– Não tenho como afirmar isso, Philip, mas posso dizer que sua sinceridade ajudará muito nesse caminho, e se ela quer um relacionamento de intimidade e fidelidade e você acha que pode lhe dar isso, diga a ela que você é o homem para isso. É sua única chance.
– Vou tentar – ele disse, se animando.
Quando a sessão terminou, Simone estava exausta. Pobre Philip! Às vezes ela se sentia impotente, queria que o resultado da psicoterapia frutificasse mais rápido. Se a ficha de Philip tivesse caído antes... quem sabe teria salvo seu casamento?
O último paciente desmarcou e Simone decidiu aproveitar o tempo livre para ler o texto que Carl lhe dera.
O Diário de Mark
Vamos nos divertir?
Lara acordou feliz, estávamos enrolando para sair da cama e ela me disse:
– Mark… vamos dançar hoje?
– Parece uma boa, onde?
– Não sei… Pensei que poderíamos ir a um lugar novo… – ao dizer isso, me olhou meio de lado.
– Ok… é suingue?
– É… mas dizem que a música é ótima e a gente não precisa fazer nada.
– Sei… Não esqueça que eu a conheço. Está a fim de uma aventura, certo?
– Na verdade, sim… – ela então me olhou com aquela cara de cachorro pedinte… como dizer não?
– Está bem, eu topo.
Eu sabia o que viria pela frente, mas, vamos ser sinceros? Também estava a fim; só de pensar já fiquei excitado! Deixei a hipocrisia de lado. Eu conseguiria comer caviar e beber champanhe todos os dias, se precisasse, mas variedade é o tempero da vida. Se pudesse mudar de menu de vez em quando, com consentimento da minha parceira, o que havia de errado nisso?, justifiquei para mim mesmo.
O clube recém-inaugurado era perto da estação Penn, no centro de Manhattan. Chamava-se Silk Lips – Lábios de Seda. Meu excitamento ia crescendo enquanto me arrumava para sair com Lara. Meu coração estava disparado e minhas mãos, geladas.
O local era discreto, com estacionamento privado – coisa rara, considerando a localização. Entramos por um corredor iluminado apenas pela luz de um computador que registrava os clientes. Nenhuma identidade foi pedida, apenas nossos nomes.
– Lucca – eu disse, e acrescentei – o dela é Jane.
Lara sorriu e falou ao meu ouvido: “Eu Tarzan, você Jane”.
Nos deram um cartão de plástico com um número para consumação. Entramos por uma passagem para a pista de dança com um pole dance bem no meio. Alguns casais dançavam ao som de músicas dos anos setenta. Lucca e Jane se juntaram a eles. A pista se encheu enquanto nos chacoalhávamos. Algumas mulheres arriscavam seus pescoços em danças amadoras no pole, que espetáculo! Durante o dia, provavelmente eram donzelas pudicas ou respeitáveis donas de casa. Ali eram nova-iorquinas noturnas, mostrando o “cofrinho” e o traseiro para o mundo ver.
Havia um balcão para separar o bar da pista de dança. Ia de um lado ao outro de uma parede. Penduradas em barras suspensas sobre o balcão, mulheres semidespidas dançavam. No início eu não podia precisar se eram contratadas do local ou frequentadoras, mas Lara solucionou meu dilema rapidamente, me pedindo auxílio para subir no balcão.
Estava com um vestido púrpura muito curto, sapato de salto muito alto, prateado. Ajudei-a a subir e ela começou a dançar provocativamente. Logo foi notada por muitos homens. Estava linda rebolando sobre o balcão, já toda solta e alcoolizada por umas três doses de uísque.
Eu ali, olhando, com ciúmes e admiração. A minha namorada, se é que eu poderia chamá-la assim, era linda. Apesar do ciúme, era bom ver que outros homens desejam a mulher que está com você. Me senti poderoso.
Depois de um tempo, ela desceu, tomamos mais um drinque e decidimos ir para o “labirinto” escuro, o local onde se realizavam trocas de casais. Era possível ver apenas silhuetas à luz fraca, iluminadas pelas lâmpadas vermelhas dispostas nos cantos. Havia um corredor com umas salinhas minúsculas laterais, compostas apenas por pequenos sofás de no máximo um metro e meio de comprimento, com vidro nas portas para que as pessoas pudessem observar de fora o que estava acontecendo dentro.
Dois casais transavam se apertando num dos compartimentos. Acredito que era uma troca de casais. Comecei a ficar excitado. Eu e Lara andamos em volta, de mãos dadas, observando. Minhas mãos ficavam suadas, porque eu estava excitado, cercado por sexo cru, sem preliminares.
Uma das mulheres que vimos apoiou o rosto no vidro para ser penetrada por trás e ficou olhando diretamente para nós, em clara demonstração de exibicionismo, porque também regulou a luz interna para dar mais claridade. Queria ser vista, admirada e desejada.
Durante o tempo em que ficamos observando os casais, senti diversas mãos me tocando.
Lara então me puxou. Entramos numa sala onde havia uma cama comunitária. No meio dela, um emaranhado de gente e certo público em volta, apreciando.
Chegamos mais perto. Havia duas mulheres transando. Uma estava deitada de costas e a outra por cima, com uns quatro dedos dentro da outra. A que estava por cima estava de quatro e era penetrada por um homem que somente havia baixado ligeiramente as calças – estava completamente vestido e tinha cabelos grisalhos. Ele gozou, se retirou dela, retirou a camisinha e deu lugar para outro, que estava ali observando e se acariciando. A mulher de quatro estava disponível para quem tivesse interesse. Parecia um bando de macacos na selva!
– Você também quer? – perguntou Lara, indicando a mulher. – Ela não vai parar tão cedo, está só aquecendo.
– Eu? – respondi. A ideia de penetrar aquela mulher que já havia transado como o exercito chinês e estava prestes a acomodar o russo não me atraía. No entanto, o que eu estava presenciando era extremamente erótico, meu coração batia acelerado, meus testículos doíam, meu pau estava duro, eu precisava transar urgentemente.
Saímos daquela sala de perversão e fomos para outra, onde mais orgia estava em andamento. Havia duas camas, ou melhor, dois colchões forrados de um tecido brilhante. Todos naquela sala transavam e havia uns poucos admiradores, como eu e Lara, num canto. Havia um “trenzinho” em que dois casais estavam unidos por algum de seus orifícios e todos transavam em cima de um dos colchões. Para melhorar a loucura da cena, um quinto elemento tocava todas as mulheres que podia. Outro se masturbava olhando a cena.
No outro colchão, diversos casais se acotovelavam, um transava enquanto havia uma mulher sendo chupada por aquela que estava sendo penetrada. Me lembrei de uma cena do wild planet sobre amor entre serpentes…
Uma deusa estava sendo penetrada por um cara bonitão, ao mesmo tempo em que chupava uma outra gostosa.
Havia pessoas muito bonitas ali. A deusa loira maravilhosa que estava sendo chupada olhou para mim e fez sinal para que eu fosse até ela. Olhei para Lara.
– Vá, Mark.
Não hesitei. A mulher tinha curvas perfeitas, esculpidas provavelmente por um personal trainner que deveria ser a reencarnação de Michelangelo. Ela não disse nada quando me aproximei. Afastou a mulher que a chupava, abriu meu zíper, tirou meu membro, colocou no meu pênis pulsante uma camisinha que Lara lhe deu e o pôs na boca. Fechei os olhos e a deixei trabalhar. A língua dela era ágil e precisa, deslizava de um ponto ao outro e fazia movimentos circulares na ponta. Mais um pouco eu iria gozar. O que retinha meu gozo era a diminuição da sensibilidade causada pelo preservativo.
Ela então retirou a boca e foi me conduzindo lentamente ao colchão. Me empurrou, me montou e me cavalgou selvagemente até que gozamos. Naquele local, a ideia não eram preliminares, a adrenalina reinava suprema.
A mulher desmontou e fiquei ali “em coma” por uns momentos; quando saí dele, procurei Lara e a vi ao lado, a saia levantada, sem calcinha e se acariciando com a cena que presenciara. Um homem estava atrás dela, com as mãos em seus seios, agora visíveis porque ele baixara a blusa dela. Outro homem se aproximou e começou a chupar um de seus mamilos.
Um terceiro homem apareceu. Lara tinha os olhos bem abertos e estava ciente de tudo o que se passava. O homem não era bonito, devia ter uns cinquenta anos, mas estava bem vestido, pelo que era possível ver na semiescuridão, magro. Ele retirou o pau gigantesco de dentro das calças e mostrou a Lara em pedido de aprovação. Ela assentiu e afastou o homem que chupava seu seio. O sujeito do pau grande vestiu um preservativo e penetrou Lara ali, em pé mesmo, e começaram a se mover em sintonia. Os outros dois caras acariciavam os seios de Lara, que gemia alto em sinal de profundo prazer. Lara e o garanhão gozaram juntos e se separaram. Um deles falou algo no ouvido de Lara; vi que ela negou com a cabeça. Daí ele se aproximou de mim.
– Sua mulher é maravilhosa, eu queria transar com ela, peça para ela, por favor.
Que hospício! O sujeito mendigando a mim para convencer Lara a transar com ele… Se algum tempo atrás alguém me contasse que isso existia, eu perguntaria o que ele havia cheirado.
Incrivelmente, desta vez não senti ciúmes, acho que meus sentidos ainda estavam embotados pelo sexo maravilhoso com a deusa.
– Mark, vamos fazer uma troca de casais?
– Como?
– Tem um casal bonito sentado ali, olhe – me mostrou um casal que admirava Sodoma.
– Eu transo com ele e você com ela, ao mesmo tempo…
– Tá…
Lara foi até eles e negociou, eles aceitaram e se levantaram. Fomos até outro corredor, com quartos parecidos a celas de cadeia, pequenos colchões e grades nas portas. Escolhemos um vazio, entramos. Fechei as grades.
Lara e o homem, mais desinibidos, rapidamente começaram a se acariciar; vi que a mulher era mais tímida, fui até ela e lentamente comecei acariciar seu pescoço.
– Calma – sussurrei. – Só farei o que você quiser…
– Estou assustada! – ela respondeu. – Nunca fiz isso, foi ideia dele… – apontou para o marido, que já estava sugando os seios de Lara.
– Ok, só faremos o que você quiser. Vou devagar.
– Obrigada.
Comecei acariciando o pescoço da mulher lentamente, mordi suavemente a nuca e vi que isso arrancou dela um gemido. Passei então a língua por suas costas e me posicionei de frente para ela, comecei a sugar seus seios, levantei a saia que ela usava e mergulhei um dedo por dentro da calcinha, toquei-lhe o sexo, que já estava úmido… Poucas mulheres conseguem ficar impassíveis a isso.
Vagarosamente fui quebrando as resistências da mulher, até que ela gemia forte. Fui obedecendo aos seus comandos, deixando-a no controle.
Coloquei a camisinha e entrei na mulher, era apertada, gostosa. Comecei lentamente, mas à medida que observava Lara e o homem numa transa morna, fui intensificando e fiz a mulher gozar uma, duas, três vezes. Ela não parava e pedia para não parar.
– Continua, mete mais, não para, que nunca gozei assim antes – talvez ela estivesse excitada, talvez eu fosse um garanhão, quem sabe? Fiquei feliz porque vi que terminamos bem depois de Lara e do marido da minha parceira, que estavam nos olhando. Lara com uma cara meio de frustrada. Que ótimo!
Minha parceira cochichou ao meu ouvido: “Me dê seu telefone, quero mais, ninguém me fez gozar assim antes!”.
Me senti o rei, mas respondi:
– Não posso, estou com ela – apontei para Lara. Seria loucura trair alguém que me dava tanta liberdade.
Lara me pegou pela mão e me levou até um dos primeiros quartinhos que vimos, aqueles com vidros, e disse:
– Me come, Mark, porque preciso gozar, o “caneta Bic” ali conseguiu no máximo me deixar com tesão…
Fique orgulhoso de mim. Bem feito para Lara e suas ideias! Afinal… nem sempre o novo é melhor! Lara teve que trabalhar um pouco para conseguir seu intento. Ia ser minha terceira transa da noite… Só na minha adolescência e nesses lugares eu conseguia essas proezas.
No fim da noite, voltamos para casa, os dois parecendo espantalhos de milho, descabelados, suados, com cheiro de sexo, mas de mãos dadas, juntos.
Capítulo Vinte e Um
Os relatos eram interessantes, havia uma descrição tão precisa dos ambientes e detalhes que Simone se transportava para dentro dos locais descritos por Mark. Teria ele uma memória fotográfica ou apenas uma vívida imaginação? Então uma súbita ideia ocorreu a Simone: iria visitar um desses locais em busca de decifrar o mistério e ver o quão precisa era a descrição de Mark, e quanto poderia ser fruto de uma imaginação fértil.
Também seria interessante um trabalho de campo desses para seu livro, pensou. Que tipo de pessoas frequentam lugares como esses? Por quê?
Simone telefonou para Carl e lhe disse que gostaria de visitar uma das casas de suingue mencionadas por Mark, mas não explicou seus motivos. Perguntou se ele poderia averiguar se essas casas ainda estavam em funcionamento em Nova York, ele disse que lhe telefonaria mais tarde e lhe daria a informação.
Carl retornou o telefonema e disse que, segundo informações, ambas as casas existiam e estavam funcionando. Uma delas durante toda a semana, exceto às segundas, e a outra a partir das quartas-feiras.
Simone perguntou se ele poderia acompanhá-la na visita e Carl se mostrou um pouco relutante, dizendo que, se fosse durante a semana, poderia conseguir alguém para ir com Simone, mas que na sexta-feira ele mesmo poderia ir.
Agendaram a expedição para a sexta-feira. Simone encontraria Carl no começo da noite e iriam juntos. Segundo o advogado, os locais só iniciavam suas atividades após as vinte e três horas. Carl sugeriu que fossem antes a um dos restaurantes mencionados por Mark no texto – aparentemente entendera o que ela queria com as visitas.
Simone achou melhor não comentar com Edward a visita à casa de suingue, algo lhe dizia que ele seria contra. Ela mesma se perguntava se seria correto e profissional ou se era apenas fruto de uma enorme curiosidade. Então apenas comentou que na sexta-feira teria que ir até Nova York a trabalho.
Edward informou a Simone que havia marcado um encontro na sexta-feira com Victor, o rapaz dos e-mails. Simone disse que infelizmente já havia combinado com Carl. Edward lhe assegurou que daria um jeito, talvez fosse melhor ver sozinho o rapaz.
Alvin era o último paciente de Simone na quarta-feira. Eles haviam acordado que esse seria seu horário fixo. Ela não gostara nada dele, mas não conseguia encontrar a razão, pois ele parecia educado e polido. Mas a impressão de Simone era de que todo o discurso não passava de uma peça de teatro destinada a chocá-la. Por que alguém gastaria um bom dinheiro apenas para chocar uma psiquiatra? Não fazia sentido.
– Boa tarde, Alvin, como vai? – Simone estendeu-lhe a mão, que ele agarrou e, de forma antiquada, levou à boca para beijar. Simone teve vontade de lavá-la. Tinha aversão a esse tipo de coisa.
– Boa tarde, bela doutora.
Melhor não tecer comentários, pensou Simone. O indivíduo mal sentou e começou a discorrer sobre sua semana insana.
– Fiz novamente, doutora…
– Fez o que, Alvin?
– Sexo com desconhecidos. E desta vez houve um pouco de bissexualismo…
– Explique…
– Tinha um sujeito muito bonito no local onde fui. Era uma orgia, todo mundo transava com todo mundo, e, quando vi, eu e ele estávamos transando um com o outro…
– Ativo ou passivo?
– Eu?... Fiquei no passivo…
– E?
– Achei interessante para variar. A senhora acha que posso ser bissexual?
– Embasada em uma única experiência, não posso dizer…
– E se eu gostar e quiser ter outras?
– Veja, Alvin, tenho que lhe explicar algo: normalmente bissexual é um eufemismo para pessoas que não dão conta de se revelar como homossexuais. Algumas pessoas conseguem viver assim a vida toda, mas outras precisam assumir sua verdadeira natureza. Se você fez só uma vez, foi apenas uma experiência e, é claro, pode ter sido prazerosa, mas é apenas curiosidade. Agora, se passar a ter desejo por homens de forma frequente, é um sério sinal de homossexualismo.
– Homossexualismo ou bissexualismo? Eu poderia ser “flex”, não?
– Bissexualismo em geral é falta de coragem de se assumir ou completa ignorância dos próprios sentimentos. Pessoas assim sofrem, revelar-se implica consequências enormes, então pensar em si mesmo como “flex” é mais fácil do que enfrentar a realidade e os custos que acompanham a verdade.
– Não sou covarde, doutora!
“Deus me dê paciência”, ela pensou.
– Vou lhe dar minha opinião profissional, Alvin, mas precisaremos de mais encontros para chegar a uma conclusão. Até agora você vem demonstrando, como direi… cansaço em ter sexo com mulheres… Sua esposa quase não o interessa sexualmente, você precisa de grande quantidade de adrenalina para se excitar e de repente… chega a uma experiência homossexual que deseja repetir… Pode haver aqui a busca de algo que agora está se revelando…
– Desejo por homens?
– Você já havia sentido isso antes? Foi sua primeira experiência nesse sentido?
– Completa, sim… Eu já havia chupado e sido chupado por outros homens em sessões de sexo grupal… mas nunca tinha chegado a esse ponto… Fiquei surpreso, porque senti muito mais prazer do que com uma mulher…
– Algumas sessões de sexo grupal… com estranhos?
– O sexo grupal não foi com desconhecidos, eram pessoas bem conhecidas… – disse ele, tentando uma saída rápida, que Simone notou tratar-se de mais uma mentira…
– Então você praticou sexo sem proteção diversas vezes com outras pessoas… Eu entendi errado na nossa primeira sessão… Você me disse outro dia que foi apenas uma vez...
– Talvez eu tenha me expressado de forma errada… isso é importante?
– Bastante… Faz tempo que você pratica sexo grupal?
– Sim, algum tempo …
Simone não acreditava em uma palavra do que ele estava dizendo! Tudo parecia desenhado para testar suas reações.
– E como é?
– Muito intenso e muito bom! São sempre várias pessoas, homens e mulheres… e a troca de parceiro é uma constante na noite… Ninguém se importa com quem está fazendo sexo, apenas com o prazer… Todos os corpos estão ali para dar prazer… Não precisa conquista… apenas chegar e ir se “alojando” em alguém disponível, ou entrar em um grupinho formado, às vezes dois, às vezes três, às vezes várias pessoas…
– É o ápice do prazer para você? Sexo com muitas pessoas?
– Não, aí é que está o problema, parece que só me sinto saciado quando a experiência é nova, diferente…
Simone tinha a impressão de que o que Alvin estava dizendo vinha diretamente de um livro de comportamento sexual. Parecia que ele vomitava o que lera em algum lugar, mas isso não fazia sentido.
– Não me surpreende… Essa busca incessante de prazer normalmente revela a busca por um lado oculto seu… Talvez ele esteja aflorando…
– É… talvez. Eu gostaria de ter o poder de resistir a esses impulsos, doutora… Não tenho a menor condição de ser gay… Tenho esposa… filho… Não poderia decepcioná-los.
Alvin disse isso sem qualquer emoção. Simone pensou que já havia lido algo similar à história que ele contava, mas não se lembrava de onde.
– Pode ser que seja apenas parte de seu vício, Alvin. Você sente prazer com mulheres também?
– Sim, sinto. Mas somente com desconhecidas… Se for a mesma mulher, não muito, mas essa última experiência com um homem, tenho que confessar que foi… sublime… E estou apavorado com isso!
Ele não parecia nada apavorado com o que dizia.
– Precisamos reduzir sua compulsão sexual, se você se sente assim… Penso que poderíamos experimentar um medicamento…
– Se isso me ajudar a ficar longe de homens…
– Reduzirá a libido de forma geral, não há como ser seletivo. Apenas não sei como você vai lidar com isso.
– Castração química?
– Não vamos exagerar. Em razão dos seus temores, temos que tentar controlá-lo até que a terapia faça efeito.
– Eu lhe disse que uma sessão semanal é pouco, doutora! Agora vou virar gay e a culpa é sua!
Ela olhou sério para ele, para ver se estava sendo irônico, mas percebeu claramente que havia bastante raiva ali.
O tom não era amistoso e foi acompanhado do famoso indicador em riste na direção de Simone.
– E eu já lhe expliquei que minha agenda está lotada, Alvin. Infelizmente há casos mais graves que o seu que eu simplesmente não posso abandonar!
– É questão de dinheiro, doutora? Eu pagarei o dobro que os outros pagam!
– Não, Alvin, é questão de ética! Como você se sentiria se eu largasse um paciente para atender você? Você teria confiança de que eu não faria o mesmo com você se aparecesse uma “oportunidade melhor”? Eu tenho suicidas com quem me preocupar.
– Que se dane a ética, doutora, e que se matem seus pacientes, já que querem morrer! Meu problema é sério, estou virando gay e a senhora não está fazendo nada para me ajudar!
– Sugiro que se acalme, Alvin! Estou fazendo o meu melhor, mas você precisa se ajudar, precisa ter força de vontade. E vamos começar imediatamente com o medicamente de que lhe falei!
– Você é uma vaca inútil! Como não consegue me tratar, agora quer me entupir de remédios. Você é uma farsa, doutora, é uma frígida que entende de sexo na teoria, e na prática deve amargar horas pensando se a coisa de verdade se parece com as teorias...
– Penso, Alvin, que não sou a pessoa indicada para tratar de você. Você realmente precisa de ajuda mais assídua. Vou recomendá-lo a um colega que tenha mais tempo. Concordo que seu caso necessita de mais atenção, apenas não posso lhe dar o que precisa.
Simone foi até sua mesa verificar o número de algum colega para passar para Alvin. Ao se virar de costas, ouviu um objeto passando rente à sua orelha e se espatifando na parede. Alvin havia atirado o globo de vidro que ficava próximo ao sofá. Simone se assustou e apertou um botão de alerta que tinha em sua mesa, que acionava a secretária. Por sorte, Mona ainda se encontrava no consultório.
– Você é uma sacana sádica, não uma profissional, e precisa saber que me deve mais atenção!
– Eu não lhe devo nada! – Simone tentava manter a calma e estava atrás de sua mesa para se proteger, quando Mona abriu a porta e entrou na sala sem pedir permissão, colocando-se entre Alvin e Simone.
– Mona, por favor, acompanhe este cavalheiro para a saída. Ele não é mais meu paciente!
– Sua cadelinha de merda, você acha que pode se livrar de mim assim? – ele continuou com os impropérios.
A disciplina de uma vida fez com que Simone aparentasse calma e controle, mas por dentro só queria socar o cretino.
– Alvin, contenha-se! Se eu chamar a polícia você estará em maus lençóis! Vou transferir seu dossiê de meu consultório para onde você queira e nós não trabalharemos mais juntos.
Mona pegou Alvin firmemente pelo braço e o conduziu para a saída. Ela não era uma mulher pequena e não teve problemas de manejá-lo, apesar de ele continuar a cuspir impropérios.
– Você vai pagar caro, filha da puta– ele gritou por cima do ombro.
Simone precisou sentar-se, pois estava com as pernas trêmulas.
– Doutora, a senhora está bem? Ele já foi… – Mona apareceu ao lado de Simone com uma caneca de chá, o remédio dela para todas as desgraças do mundo.
– Vou ficar, Mona, obrigada. Minha intuição me dizia que esse sujeito era problema dos bons na primeira vez que o vi… Mona, estou ficando velha para tantos malucos juntos, e nas últimas semanas não tem ninguém nem relativamente normal à minha volta…
– Bem, doutora, se isso a fizer sentir-se melhor, nunca vi uma pessoa normal por aqui. A senhora precisa de férias – Mona estendeu a Simone um pires para o chá.
– Sim, Mona, acredito que sim. Obrigada pelo chá.
Mona deu um tapinha nas costas de Simone e saiu, deixando-a só para tomar o chá.
Simone ligou para Edward e lhe explicou o que havia passado.