Atrás da Porta
Capitulo Vinte e Oito
Na segunda-feira, uma procissão de pacientes esperava por Simone, como sempre. No final da manhã, ela e Edward se encontraram na cozinha do consultório, ele preparando um café e ela atrás de um sanduiche.
– Como foi em Nova York?
– Terminei meu trabalho por lá.
– E como as coisas terminaram?
– Muito melhor do que eu esperava – Simone então relatou todo o ocorrido, e talvez tenha soado entusiasmada demais com o fato de tratar de Carl.
– Ele pediu para você tratá-lo? – Edward soava irritado.
– Me contratar já foi um pedido nesse sentido. Ele precisava de alguém que analisasse o ocorrido sem se envolver inicialmente…
– Você! Mas você é a maior cega que eu já vi na minha vida! – disse Edward, num tom fora do normal e agarrando o braço de Simone.
– Eu?!
– Simone, se você não é cega, é louca... Não vê que esse homem está interessado em você? Ele é um assassino!
– Não, ele não está interessado em mim, e menos ainda é um assassino. O que deu em você, Ed?
– Você! Você é o amor da minha vida...
– O quê?
– Eu amo você desde o dia em que a vi entrar naquela aula de biologia, carregada de cadernos e livros, estabanada, deixando cair tudo... E eu amo o seu cérebro, você é a mulher mais inteligente que conheço, amo sua beleza, amo seu sorriso, até essa erguida de sobrancelha engraçada que você dá porque se treinou a não franzir a testa. Só você não vê isso, e agora vai se envolver com esse maluco aí que só Deus sabe a verdade por trás desse “romancinho” que ele escreveu! Se é que ele não está por trás de todas as mortes que têm ocorrido!
Simone teve o sentimento de uma bofetada no rosto. De todas as respostas que poderia esperar de Edward, essa era a única que jamais teria antevisto.
– Eu não vou me envolver com ninguém, Ed, eu quero tratá-lo! Se quisesse me envolver, não me tornaria a terapeuta dele! Quanto aos seus sentimentos, nunca desconfiei de nada! Sou especialista em comportamento humano e nunca me passou pela mente que isso seria possível!
E era verdade, ela nunca havia considerado a hipótese.
– Porque eu nunca quis demonstrar meus sentimentos! Quando me apaixonei, você já estava namorando o Jack e ele era meu melhor amigo. Depois vieram a Tammy e o casamento... Daí encontrei a Beth e veio o Noah, e aí já éramos sócios, e vieram os nossos divórcios. Você não notou sequer que quando se divorciou eu me divorciei em seguida... Mas Beth começou a fazer da minha vida um inferno e você correu em meu auxilio, e eu não tinha como colocar você dentro daquilo tudo... E quando saí do pesadelo, você já estava em outro relacionamento e parecia feliz. E assim fomos alternando: quando eu estava com alguém você estava só e vice-versa. E sempre fui pondo nossa amizade na frente... Mas eu não aguento mais, Simone! Eu quero você para mim! Cheguei ao meu limite! Não vou mais esperar no acostamento! Eu tenho esperado por vinte anos você me notar!
Para Simone, era a gota d’água que faltava para fazer com que seu mundo perfeito ruísse de vez. Seu melhor amigo, seu apoio para todas as horas, e agora essa revelação? Ela não sabia o que sentia ou se poderia sentir algo por Ed que não fosse amizade. Estava tudo muito confuso naquele momento.
– Ed... isso tudo... eu não consigo nem pensar... Me dê um tempo para digerir tudo, por favor... Não me entenda mal... Eu só não consigo agora arrumar isso tudo dentro da minha cabeça!
– Eu sei, Simone, parece que as coisas estão saindo do nada em uma hora em que nossas vidas estão confusas, mas hoje é um daqueles dias em que se chega ao limite. Eu vi você rumando para um novo relacionamento e me desesperei...
– Novo relacionamento, Ed? Onde? Acabo de lhe dizer que vou tratar o homem!
– Você voltou muito entusiasmada de Nova York, e tenho observado os jantares, as idas e vindas.
– Meu amigo, você interpretou tudo errado... Todos os jantares, idas e vindas, sempre foram profissionais. Eu não me envolveria com um cliente, você sabe disso! E passei o final de semana sozinha em Manhattan!
– Tentei me dizer isso várias vezes, Simone, mas o medo de perder você mais uma vez...
Edward pôs as duas mãos na cabeça em sinal de desespero.
– Simmie, esqueça o que eu disse, vamos continuar com nossas vidas como se nada houvesse acontecido. Pior que perder a mulher que amo é perder minha amiga. Se é tudo que podemos ser, eu me contento em ficarmos assim.
– Só que não dá mais para sermos como sempre, Ed! Hoje tudo mudou.
– O que você vai fazer?
– Não sei. Eu simplesmente não sei. Até hoje você era meu porto seguro, meu amigo, meu ombro, e agora, de repente, no meio da confusão e da neblina da minha vida, você passou a fazer parte do que não é claro e do que não sei o que fazer.
– Simmie, vamos deixar tudo assim… – ele estava visivelmente apavorado com a possibilidade das revelações terem afetado sua amizade com Simone, e ela visivelmente perdida no emaranhado de emoções dos últimos tempos. Tudo era confuso, pessoas mortas, polícia, clientes surtando, nada era claro. Tudo estava um caos.
– Ed, vou sair, dar uma volta, Você pede à nova menina para cancelar meus pacientes, por favor? Eu não consigo atendê-los hoje.
– Joan é o nome da nova secretária – ele disse, exasperado pela dificuldade dela em lembrar o nome da mulher.
– Espere um minuto que vou chamar os policiais para a acompanharem.
– Não vou longe, vou sentar no banco daquele parque ali na esquina. A essa hora não tem problema. Preciso ficar só, Ed. Não chame ninguém.
– Ok, ainda é cedo, acho que tudo bem.
Quando estava para sair, Simone encontrou Alvin no vestíbulo. “Que ótimo”, pensou com ironia, todos os loucos se reuniriam e ela mudaria a placa do consultório para “hospício da tia Simone”.
– Doutora, posso falar com a senhora? Está tudo bem – ele fez um sinal de paz com a mão. – Só que estive montando o quebra-cabeças sobre meu irmão e minha cunhada e gostaria de algumas informações.
– Alvin, me perdoe, mas terá que ficar para outro dia. Eu o ajudarei, sim, mas fale com a secretária e marque um horário.
– Não poderia ser hoje? É meio urgente… Eu aguardo… – e apontou para uma das poltronas de espera.
– Desculpe-me, Alvin, hoje não tenho a menor condição.
– Doutora, realmente é importante que eu lhe fale! – Alvin então segurou o braço de Simone, que se desvencilhou rapidamente.
– Marque um horário, Alvin!
Simone saiu rapidamente, antes que fosse detida por mais alguém com mais alguma “novidade”. Surtaria se tivesse mais uma notícia hoje.
Caminhou até um parque que ficava na esquina, a poucas casas da clínica. Na verdade era quase um terreno baldio, apenas dois bancos com uma fonte de cimento cinza no meio, algumas árvores, sombra, ideal para um almoço rápido embaixo das árvores. Fora construído pelos próprios moradores do bairro, que era na maior parte residencial. Ela não conseguia sequer pensar em comer. As palavras de Edward ecoavam em sua mente. Edward a amava… Edward?
Ela se sentou e começou a olhar a água que jorrava da fonte, na tentativa de se acalmar. Sua mente dava voltas e dez assuntos se misturavam em seu cérebro. Ela não ouviu os passos que se aproximavam. Percebeu que alguém colocava um pano em sua boca e não sentiu mais nada.