Atrás da Porta
– Entra em mim rápido, agora!
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Não precisou pedir duas vezes. Peguei um preservativo que levara no bolso, vesti-o e penetrei-a fundo, sentindo o traseiro dela me pressionando. Estoquei tão rápido e tão forte que achei que a estava machucando, mas não me importava. A adrenalina era violenta, o tesão, intenso demais. Passei o braço ao redor do pescoço dela para me apoiar, ela gemeu e pediu:
– Aperta!
Apertei o pescoço dela e ela gritou:
– Mais forte!
Apertei de leve e ela pediu para intensificar. Comecei a apertar sentindo o gostoso da fantasia de dominar completamente uma mulher, deixando-a sob meu jugo, empalada e presa pelo pescoço. Estava no domínio total e o prazer que senti foi duplo: era um prazer de sexo e poder ao mesmo tempo. Gozamos até ficarmos de pernas moles.
Depois de normalizar minha respiração e me livrar do preservativo, me lembrei de que havia apertado bastante o pescoço de Lara e me preocupei.
– Machuquei você?
– Não, Mark, foi a melhor trepada nossa. Fico louca quando você aperta meu pescoço.
Quando olhei, havia algumas pessoas nos assistindo. Fiquei dividido entre a vergonha e a sensação de poder de ter feito aquela mulher gozar violentamente para a plateia. Gostei da segunda sensação e me esqueci rápido da primeira.
– Você ficou louco quando beijei aquela mulher…
– Fiquei, foi uma cena bem quente, queria ver novamente.
– Ok, vem cá.
Lara me levou pela mão até onde estava a ruiva sendo acariciada por um homem, mas nitidamente repelindo-o com a mão. Lara a trouxe para perto de nós, agarrou minha mão e pôs no próprio seio. Enquanto isso, começou a beijar a ruiva. Pediu para eu sentar em um banco e colocar novo preservativo, montou em mim, começou a cavalgar, enquanto posicionava a ruiva de forma a beijá-la, deixando-a acariciar seus seios.
– Beije-o – disse para a ruiva.
A mulher obedeceu rapidamente, quase engolindo minha língua. Lava líquida me envolvia, meu pau enfiado em uma mulher e eu beijando outra. Aguentei pouco. Quando ouvi Lara gozar, não aguentei e gozei junto, não tinha como segurar.
– Ei, vocês dois, e eu? – reclamou a ruiva.
– Você já ganhou o que merecia hoje, menina – disse Lara. – Agora vai circular e arranjar seu homem, que este me pertence.
– Vaca! – disse a ruiva entre dentes.
– Piranha e ok, estamos empatadas! – falou Lara, dando uma apertadinha no bico do seio da menina, que a essa hora estava completamente exposto.
Uau, duas gatas trocando farpas por minha causa! Sou o galo do pedaço!
– Ok, Mark, você é gostoso, tenho que admitir, e pelo jeito não sou só eu que acho – Lara não pareceu muito feliz em admitir.
Tive que rir, me senti um presente de Deus para as mulheres. Lara admitiu que gostava de transar comigo, sentiu ciúmes, e sem falar no sexo explosivo que acabáramos de fazer. Estava bom, acho que iria me contentar com isso. Talvez não precisasse mesmo de um relacionamento.
Transamos ainda uma vez em um espaço reservado e depois saímos. Lara disse que queria dormir na casa dela e me perguntou se eu estava a fim de ir para lá. Mais um progresso! Primeira vez que eu iria para a cama dela!
Quando chegamos ao prédio de Lara, era quase uma hora da manhã e a mãe dela estava sentada no sofá do chique hall de entrada do edifício de Lara, meio dormindo.
– Que diabos você está fazendo aqui a essa hora? – Lara perguntou.
– Lara, precisamos conversar seriamente – a mãe dela afirmou.
– Sabine, desaparece! Não tenho nada para falar com você já faz uns vinte anos. O que quer agora e a essa hora? – Lara estava tensa, com o dedo apontando para a porta.
– Falar com você – disse a mãe dela, e olhou para mim. – A sós.
– Escuta aqui: eu tenho zero para falar com você. Não vou perder cinco minutos da minha vida para ouvir a merda que você tem a dizer, e se não tirar esse seu rabo barato daqui agora, vou chamar a segurança.
– Lara, me escute! – implorou a mulher.
Lara apenas virou as costas e dirigiu-se ao porteiro, pendido-lhe para chamar um segurança para acompanhar “aquela senhora” para fora do prédio. Acrescentou ainda que “aquela senhora” estava absolutamente proibida de ser recebida.
– Mas, senhorita Lara, ela disse que era sua mãe – o porteiro parecia confuso com a reação de Lara.
– Eu não tenho mãe, aquela senhora é persona non grata, um lixo! Sabine, saia já daqui, agora! – Lara mantinha o dedo apontado para a porta e tremia de raiva.
– Lara, calma, vamos subir – conduzi-a para o conjunto de elevadores. – Qual é o seu andar?
– Quinto.
Olhei por sobre o ombro e a mãe havia partido.
– O que houve, Lara? É a segunda vez que você encontra sua mãe e fica nesse estado. O que acontece? Desculpe, não quero me meter, mas você está transtornada.
Ela não respondeu, apenas tremia. Entrou no elevador e subimos. Ela retirou a chave da bolsa e não conseguia sequer enfiá-la na fechadura, de tanto que tremia. Precisei retirá-la da mão dela e abrir a porta.
Uma atmosfera agradável e brilhante nos recebeu. Pinturas nas paredes, almofadas coloridas por toda parte, parecia que eu havia entrado num delicioso harém. Era um apartamento que gritava Lara por todos os cantos. Divertido, sexy, surpreendente. Fiquei analisando o ambiente enquanto ela sumiu de vista por alguns momentos. Que deliciosa surpresa um apartamento tão aconchegante! Esperava um ninho de sensualidade e erotismo, mas se parecia muito mais com um lar!
O Diário de Mark
Problemas com mamãe
– Não sei o que lhe falar, Lara. Não entendi nada daquilo lá embaixo… Sei lá o que sua mãe fez, mas você escorraçou a mulher… Eu não tenho mãe...
– Você tem sorte, então…
Era difícil ver Lara tão furiosa, rude e extremamente cruel. Ela só ficava descontrolada no sexo. No geral, era afável e mantinha as emoções sob controle. Minha insistência em entender o tratamento frio dispensado à própria mãe parecia enervá-la.
– Eu gostaria de saber. Se me contar, quem sabe eu possa entender. Porque juro que não entendo! A forma como você tratou sua mãe foi horrível.
Eu perdi minha mãe aos dois anos de idade, passei a vida querendo uma, não entendia alguém que tinha e a tratava tão mal, será que por causa do tal divórcio que Peter comentara?
– Ok, você pediu, vamos lá: você insiste em ir além dos limites, insiste em ver o lado negro da lua, tomara que tenha estômago forte!
O que será que viria para ser assim tão forte? Minha imaginação não conseguia pensar em nada que envolvesse aquela senhora bonita e elegante que pudesse ser grave a ponto de provocar na filha um comportamento de ódio.
– Quando eu era pequena, meu pai tinha uma construtora grande e era auxiliado por um político importante, um senador de Washington, onde nasci. O nome dele não vem ao caso. Muito da fortuna que meu pai fez se deveu às conexões do senador. Eu estava acostumada com o político e sua família indo à nossa casa e nós à casa deles. Éramos todos amigos e o senador, como um tio para mim.
Fez uma pausa, foi até a geladeira, pegou gelo, preparou um copo com uísque e tomou um gole. Nem se lembrou de me oferecer. Sua mão tremia.
– O senador tinha um filho vinte anos mais velho que eu. Conhecia-o desde sempre. Ele estudava na Inglaterra e eu raramente o via, e quando o via não trocávamos muitas palavras. Eu era uma menina e ele, um homem. Quando tinha doze anos, ele voltou a morar definitivamente nos Estados Unidos. Era um homem elegante, bem vestido, conhecia o mundo, e começou a se interessar por mim. Quando ia à nossa casa, me levava pequenos presentes que meninas adoram: um batom, um prendedor de cabelo, um CD, um gibi, pequenas porcarias. Ele foi o primeiro adulto que prestou atenção em mim.
Senti um mau presságio com o começo da história. Havia algo ruim ali. Seria melhor pedir para parar?
– Ele também me levava para passear, tomar sorvete nos dias quentes. Tinha um carro conversível, baixava a capota e punha minhas músicas favoritas. Era bem antenado para um “velho”, eu pensava, pois ele tinha trinta e dois anos. Me contava coisas sobre o mundo, sobre os locais onde havia morado. Era sofisticado e eu me sentia adulta quando estava com ele. Essa atenção durou todo o verão. Eu tinha acabado de fazer doze anos e me sentia uma mulher. Não queria mais ser criança, e a atenção dele provava que eu já era adulta.
– Você se apaixonou por ele? – senti um ciúme insano daquele homem.
– Me apaixonar? Não sei, talvez naqueles passeios... Acho que me apaixonei pela atenção que ele me dava...pela admiração nos olhos dele, que eu não sabia interpretar, mas sabia que era para mim...
– Uma pequena Narciso se afogando em busca da própria imagem – eu disse.
– Exatamente! Vaidade de menina... Além disso, eu era uma criança carente. Um dia saímos para tomar sorvete, eu com um vestidinho de verão bem leve e colorido, entrei no carro e ele me levou para um lugar tranquilo, um parque meio deserto. Ficamos ali dentro do carro falando de música, até que ele se aproximou e me beijou. Meu primeiro beijo. Senti um calor que nunca havia sentido antes, um desejo que não sabia interpretar. Ele pôs a língua na minha boca e levei um susto, não sabia que um beijo era assim... Imediatamente ele colocou a mão na minha perna e foi acariciando, subindo, e eu sentindo um misto de desejo, curiosidade e medo daquilo. Algo em mim dizia que era errado, que deveria pará-lo, mas ele exercia enorme autoridade sobre mim.
– Filho da puta doente! Você era uma criança! – meu estômago doía, achei que iria passar mal diante da imagem que se formara em minha mente.
– Era e estava bem confusa com a mistura de sentimentos. Ele pôs a mão no meu sexo e estranhamente ele ficou úmido. Isso nunca havia acontecido. Eu pedi desculpas, falei que não sabia por que estava assim, e ele disse que era porque eu o queria. Senti muita vergonha, tentei tirar a mão dele e ele não deixou. Introduziu um dedo em mim, doeu um pouco, mas ele começou a me acariciar, um dedo dentro de mim e outro no meu clitóris. Fiquei muito excitada, acho que gozei, porque a sensação que tive foi maravilhosa.
– Ele estuprou você?
– Não, naquele dia só me tocou. Quando parou de me tocar, me disse que eu era linda, uma linda mulher, e que ele me amava, mas que os adultos não iriam compreender. Então era melhor não falar nada. Me beijou e me levou para casa em silêncio. Só voltamos a falar para dizer adeus.
Ela tomou mais um gole de uísque e continuou:
– Quando cheguei em casa, me sentia suja, achava que havia feito algo feio. Fui correndo tomar banho. Encontrei minha mãe, disse que precisava conversar com ela. Ela estava pronta para sair para um jantar e perguntou se era importante, porque tinha pressa. Eu disse que sim, que o filho do senador havia me tocado na perna e colocado um dedo em mim. Ela me deu um tapa no rosto e me mandou nunca mais inventar histórias sobre alguém como ele. Disse que ele era filho da pessoa que mais ajudou meu pai e nossa família, que eu era uma mentirosinha horrível, e foi embora.
– Sua própria mãe lhe disse isso? Aquela senhora fina com quem falei? Eu não acredito!
– Nem eu acreditei, mas a história continua, se quiser ouvir.
– Se quiser continuar...
Meu estômago virava pensando na garota indefesa que Lara fora e no abuso sofrido. Isso explicava muito sobre ela, aquela dor estranha no fundo dos olhos.
– Comecei a evitá-lo... Quando sabia que ele iria em casa, inventava uma história e saía, ia brincar na casa de alguma amiga, fazer um trabalho de escola. Ou simplesmente me escondia, não queria mais vê-lo. Um dia não teve jeito. Ele chegou de surpresa, meus pais não estavam, era um domingo, os empregados de folga. Meus pais haviam ido à casa dos pais dele levando meus irmãos. Eu não quis ir. Minha mãe pareceu entender minhas razões para não acompanhá-los. Fiquei só aquela tarde, mas feliz de não ter que encontrá-lo. Pensei: que bom, minha mãe enfim está acreditando em mim.
Fez uma expressão amarga e triste e continuou.
– Ele chegou... Tinha uma chave. Com certeza minha doce mãezinha foi quem lhe deu. Abriu a porta, eu não tive sequer tempo de reagir, pois estava vendo TV. Ele me pegou de surpresa; disse que eu era uma menina má, que estava fugindo dele e que não deveria fazer isso. Me abraçou, disse que sentia saudades, que eu era a bonequinha dele. Começou a me beijar e novamente senti aquelas sensações estranhas de desejo, medo, vergonha. Ele rasgou minha roupa.
– Lembro-me até hoje que eu usava uma calcinha de algodão com ursinhos estampados. Ele me levou até o quarto e tirou a própria roupa. Começou a acariciar meu corpo e a me chupar, algo que eu nem imaginava ser possível. Fiquei com muito medo, mas muito excitada. Então ele me penetrou com força. Doeu muito, mas ele pôs a mão na minha boca para eu não gritar e ficou bombeando até que gozou e eu comecei a chorar. Estava machucada e com medo. Tudo doía, e havia um pouco de sangue na colcha.
– Lara, pode me dar um uísque, estou precisando – p recisei interrompê-la, pois me sentia nauseado com a história.
– Claro, tome o meu, vou preparar outro – me estendeu o copo e preparou um para si. Ela parecia ter começado a se acalmar.
– Ele me disse para ficar tranquila, que na primeira vez dói, mas que seria diferente dali para a frente. Que eu iria gostar, mas que não deveria contar aos meus pais o que tinha acontecido, porque não iriam compreender. Me levou ao banheiro, me lavou. Havia sêmen em minhas pernas. Naquela época eu não sabia explicar o que era, sabia que era pegajoso. Eu não sabia explicar muita coisa do que havia ocorrido.
– Ele usou um preservativo? Se preocupou com você?
– Estava preocupado, claro, com ele! – ela riu amargamente. – Ele me fez tomar um remédio. Hoje em dia, quando penso, acho que era uma pílula do dia seguinte, algo assim, e eu nem menstruava ainda! Ele estava para lançar a própria candidatura. Tudo o que não precisava era do escândalo de ter engravidado uma criança! E aguenta esta: naquele mesmo dia ele resolveu que tinha que ser bom para mim, daí recomeçou a sessão, e dessa vez foi realmente bom, prazeroso, mas o sentimento de vergonha continuava lá, piorado, porque eu gostava da sensação do sexo.
– E seus pais?
– Convenientemente, só chegaram mais tarde. Até chegarem, nós já havíamos feito sexo umas três ou quatro vezes. Ou melhor, ele fizera sexo comigo. Eu sentia muita dor, mas sabia o que era um orgasmo. Tomei uns cinco banhos antes que meus pais chegassem, precisava me livrar de sensação de sujeira que sentia.
– Eles não viram a colcha manchada, nada?
– Nada. Ele levou as roupas rasgadas e a colcha ensanguentada com ele, encontrou outra e arrumou a cama antes de sair. Quando meus pais chegaram, eu estava inchada de tanto chorar, me sentia completamente culpada. Ele dizia que a culpa fora minha, porque eu o provocava, e eu ficava pensando como havia feito isso. Ele me chamou de putinha sem vergonha e outras coisas sujas diversas vezes enquanto me penetrava, e eu nem sabia o significado daquilo. Quando fui procurar saber o que era, me senti ainda mais suja e envergonhada.
– Minha mãe perguntou o que eu tinha. Pedi para ela ir ao meu quarto e contei tudo o que tinha ocorrido. Meu choque aumentou, porque ela disse que ele era como um filho para ela e meu pai e que, se ele queria transar comigo, eu deveria ser grata! Disse que se eu tinha vestidos lindos, brinquedos caros, uma bela casa, e frequentava o melhor colégio da cidade, era graças ao pai dele. Que o mínimo que eu deveria era fazer o filho dele feliz e que, se me comportasse bem, ela tinha certeza que mais tarde ele acabaria casando comigo.
– Meu Deus! Sua mãe deveria ser presa!
– Calma, tem mais! Eu gritei, disse que ela era louca. Eu podia ser uma criança mas sabia que aquilo era errado. Disse que iria contar tudo ao meu pai e ela riu, uma risada sádica que até hoje consigo ouvir se fechar os olhos, e me disse que tinha um presente para mim. Ela iria me contar uma história: que não adiantava contar nada ao meu pai porque ele sequer era meu pai! Disse que havia engravidado do ginecologista e que meu pai me criara, que eu era apenas uma criança cujo verdadeiro pai não quis. Assim, me perguntou, será que eu deveria aborrecê-lo com uma história dessas? Eu queria prejudicar sua carreira? Se ele soubesse que não era meu pai, ainda iria me amar?
– Você não é filha do seu pai ou ela inventou isso?
– Você acha que eu tive coragem de perguntar para meu pai naquela hora? Passei anos até saber a verdade. Eu me tornei uma menina triste, me sentia sempre suja, culpada, tinha medo que meus colegas descobrissem que eu era uma putinha. Comecei a me isolar, me sentia abandonada por minha mãe, foi o pior período da minha vida.
– E ele continuou abusando de você?
– Por mais três anos, com a ajuda da minha mãe, que inventava viagens de escola para ele me levar aonde quisesse. Depois que perdeu as eleições, ele decidiu ir para a França passar seis meses. Eu já havia estado na França com minha avó aos oito anos e amara. Minha mãezinha querida inventou um intercâmbio para mim. Disse que seria ótimo para uma menina como eu aprender francês e me mandou com ele, para diverti-lo na viagem! Não sei que história contou ao meu pai.
– Você morou com ele na França por seis meses?
– Sim, eu tinha quase quinze anos e ele estava muito feliz em poder sair pelas ruas me arrastando pela mão. Eu já era bem alta naquela idade e podia passar por mais velha...
– E você, como se sentia?
– É difícil explicar, Mark. Depois de certo tempo, anormalidade virou normalidade. Eu já não sentia culpa. Fui tendo uma espécie de dependência emocional dele, estava em todos os lugares com ele, partilhávamos a cama, tínhamos um sexo espetacular – pelo menos para uma menina. Eu sentia muito prazer em cada transa, ele me ensinou coisas, me mostrou a cidade. Me apaixonei por Paris quando estive lá aos oito anos com minha avó e isso não mudou. Meu amor pela cidade cresceu. Adorava tudo em Paris, os restaurantes, a arte, as ruas.
– Ele saía com você assim, de mãos dadas por aí?
– Aqui não, mas na França sim. Poucas pessoas nos conheciam e ninguém suspeitava da minha idade.
– Você se acostumou à situação?
– Sim, acabei me acostumando em ser a Barbie dele. “Vista isso, fale aquilo, coma isso, me chupe assim, faça daquele jeito.” Eu era uma maldita marionete, não tinha vontade própria, não podia ter. Minha mãe havia garantido que eu só faria o que ele quisesse. Acho que ela pensava que iríamos nos casar e ela enfim faria parte da alta sociedade, e não apenas gravitaria em torno dela, como fazia.
– Quando terminou? Suponho que teve um fim.
– Teve sim. Voltamos de Paris e eu tive que retornar ao colégio, à vida normal, estudos, dar duro para recuperar os meses perdidos. As meninas morriam de inveja, porque eu era mais adulta, sofisticada, voltei cheia de “ares de Paris”. Falava de coisas que elas nunca haviam visto, contava sobre teatros, óperas, restaurantes, falava de fois gras e confit de canard, usava roupas sofisticadas e maquiagem, e me sentia um ET no meio delas. Eu era velha demais para minha idade e jovem demais para ter vivido tudo o que vivi.
Os olhos dela estavam úmidos, ela parecia lutar para segurar as lágrimas.
– Eu vivia sozinha, porque acabei sendo segregada por ser diferente, mas conheci um menino da minha idade, um menino legal, estudioso, que se aproximou de mim e começou a me ajudar a superar as dificuldades de seis meses fora de órbita. Ele me ajudava com os deveres, era bom, gentil, carinhoso, fácil de ficar ao lado. Nos apaixonamos. Pela primeira vez senti um amor de menina, leve, inocente, tudo o que eu não era mais.
– Que idade ele tinha? – no meio de uma história pesada dessas, eu com ciúmes de um menino.
– Ele tinha a mesma idade que eu, talvez um ou dois meses mais velho. Estávamos com quinze anos.
– E como se livrou do outro? – eu não ousava perguntar, ela não ousava falar o nome do outro.
– Ah, não me livrei assim. Ele tinha um apartamento onde nos encontrávamos, me chamava e eu tinha que ir correndo servi-lo... Um dia eu criei coragem e fui falar com ele... Naquelas alturas, eu tinha a chave do apartamento, porque sempre que ele comandava eu deveria ir para lá de banho tomado, com a roupa x ou y, pouco importava. Entrei, esperei e, quando ele chegou e me viu, veio todo sorridente me beijar. Mandou eu tirar a roupa, que ele queria brincar da nossa brincadeira favorita.
– Que “brincadeira” era essa?
– Em Paris ele havia começado a frequentar casas de suingue e de sadomasoquismo, como o Atrás da Porta, e eu junto… Ele começou a gostar de brincadeiras masoquistas, de me algemar, me colocar uma coleira enquanto praticávamos sexo anal.
– Quando eu penso que o sujeito já chegou ao limite da doença, ele se supera!
– Ah, sim, eu pensava o mesmo. Com o tempo acabei gostando, como se deu com o resto. Acho que sempre tive uma sexualidade forte, mesmo tendo começado como foi. Eu conseguia separar a prazer do sexo do restante dos sentimentos. Quando começava a fazer sexo com ele, bloqueava qualquer tipo de aversão que sentisse. Era como se meu corpo e meus sentimentos se separassem.
Eu pensei: “Mistério solucionado. Ela é assim até hoje: sentimentos não entram nas relações”.
– E então? – perguntei.
– Então eu lhe disse: hoje não! Aliás, nem hoje nem nunca mais. Não quero mais você, estou apaixonada por outra pessoa. Disse assim, meio vomitando as palavras em cima dele. Ele me deu um tapa e me mandou calar a boca. Disse que eu era propriedade dele e que faria o que ele quisesse. Para parar com a palhaçada de apaixonadinha. Me atirou na cama e me forçou a fazer sexo anal de forma violenta. Como eu me debatia e me recusava, ele me machucou muito naquele dia, mas foi seu grande azar e minha sorte.
– Voltei para casa com um olho roxo horrível, mas a primeira pessoa com que me deparei foi meu pai, que estava na sala e perguntou o que havia acontecido. Eu estava tão destruída naquele dia que não conseguiria mentir. Contei tudo desde o começo, contei o que minha mãe tinha dito, contei de Paris, contei que pensava que não era sua filha, contei do dia que havia tido, tudo. Eu não conseguia mais aguentar todo aquele segredo.
– E o que ele fez?
– Ele desmontou! Começou a chorar convulsivamente, me pedia perdão, disse que jamais havia imaginado isso, que era um absurdo, que eu era filha dele sim e que minha mãe era uma maldita mentirosa.
– E o que aconteceu com a sua mãe?
– Quando ela chegou em casa, foi como se houvesse eclodido a terceira guerra mundial dentro do quarto deles. Não sei o que disseram, eles estavam acostumados a brigar a portas fechadas, mas ela saiu levando as malas e por anos não tive mais notícias suas. Foram os melhores anos da minha vida.
– O que aconteceu nesse tempo? – eu não podia evitar a curiosidade sobre a história toda.
– Tudo! Meu pai tinha negócios por aqui, nos mudamos, ele cortou todos os laços com o senador. Depois eu soube que ele espancou tanto o filho do senador que o mandou para o hospital, mas o escândalo foi abafado. Meu pai já tinha uma bela fortuna naquela época. Minha querida mãe não ousou pedir nem parte dela. Primeiro porque minha avó forçou Sabine a assinar um pacto pré-nupcial maravilhoso. Segundo porque meu pai ameaçou-a com um escândalo na imprensa, e ainda arruinar senador, com quem, terminamos por saber, minha mãe tinha um caso fazia muitos anos.
– E seus irmãos?
– Eles eram pequenos. Sean tinha oito anos e a Debbie, uns seis. Meu pai ficou com a nossa guarda. Sabine não ousou contestar ou não quis; filhos não eram a dela, só nos usava. Reconstruímos nossa vida. Minha avó Emma, que odiava a Sabine, foi morar conosco e foi a melhor mãe que alguém podia ter. Conseguimos superar muita coisa, e até somos uma família feliz, normal, diante das circunstancias. Nunca vou perdoar a Sabine. Para mim ela é uma cobra, uma cafetina de crianças, o pior e mais egoísta ser humano que já conheci.
– Lara, me perdoe, eu não tinha o direito de fazer você recordar tudo isso. Não sei o que lhe dizer.
– Foi bom, é a primeira vez que falo nisso fora de consultório terapêutico e com outra pessoa sem ser meu pai e minha avó. Foi libertador! Agora parece que tudo ficou no passado. Obrigada por me ouvir.
Ela enfim começou a chorar convulsivamente. Aninhei-a contra o peito e ela ficou assim, chorando, até não ter mais lágrimas e adormecer no meu colo. Levei-a para o quarto, livrei-a das roupas e coloquei-a sob as cobertas. Me aconcheguei ao seu lado. Eu compreendia aquela mulher. Enfim. Só não sabia dizer se isso era bom.
Capítulo Onze
Simone estava acostumada às doenças emocionais. Lidar com elas era sua vida, mas histórias de abusos com crianças nunca iriam deixá-la impassível. Chegava a sentir dor física cada vez que ouvia narrativas como a de Lara.
Fugia a seu entendimento o que levava um adulto a abusar cruelmente de uma criança como o filho do senador fizera com aquela menina. Não era difícil entender a personalidade de Lara agora. Era a típica vítima de abuso. Sofrera uma espécie de síndrome de Estocolmo, em que a vítima passa a admirar seu algoz por não encontrar saída. Desenvolvera uma visão completamente errada sobre sexo e relacionamentos. Tinha profundo medo de ser controlada como fora outrora. Lara não era nenhuma deusa, era uma pobre boneca quebrada lutando para se manter em equilíbrio.
Que atrocidade! Quanta loucura havia neste mundo! Simone se sentia nauseada. Pensou em sua própria filha e não conseguiu entender que tipo de mãe oferecia a filha numa bandeja para servir à patologia de um pervertido. Estava chocada, precisava de ar. Parecia que as paredes iriam sufocá-la. Saiu de casa, foi até o jardim, tentou clarear a mente, mas as imagens de uma menininha indefesa que não encontrava apoio na pessoa que mais deveria estar ao seu lado não lhe saíam da mente.
Estava nítido também que Lara desenvolvera um gosto pelo masoquismo, tendo em vista as torturas sofridas na pré-adolescência: coleira, correntes, algemas, sexo anal, tudo isso pode ser muito bom e erótico para adultos com capacidade de escolha, para uma criança? Não era à toa que Carl estava tão convencido da inocência de Mark. Simone também seguia esse caminho. Ele provavelmente apenas satisfizera uma fantasia de Lara e tudo saíra do controle. Não havia a intenção de matar.
Simone nunca tratara pedófilos. Não poderia. Sempre os mandara para outros profissionais. Abuso infantil era um tema sensível para ela. Sempre sofrera por seus pacientes que foram vítimas dessa perversão. Decidiu ligar para Carl para dar suas opiniões iniciais. Pegou o telefone e discou o número dele.
– Olá, Simone, como está?
– Bem, e você?
– Bastante ansioso por noticias – ele replicou. – Já chegou a uma conclusão?
– Nenhuma conclusão ainda, mas tenho uma forte primeira impressão.
– Ah... – ele parecia desapontado. – E qual foi sua primeira impressão?
– Claramente Lara adquiriu um gosto pelo masoquismo como resultado dos horrores pelos quais passou na adolescência. Artigos e práticas que podem ser prazerosos e eróticos para adultos com liberdade de escolha não o são para uma criança. Isso perturbou o resto da vida dela.
– Então você chegou a esse ponto da história... Difícil de saber, não?
– Sim, muito.
– E sobre a morte dela?
– Não cheguei tão longe, mas nesse ponto posso lhe falar que é razoável assumir que a morte dela foi acidental. Ainda preciso terminar de ler e conversar com algumas pessoas. Mark, por exemplo. Mas, bem... É isso que penso até aqui.
Carl pareceu aliviado. Ele realmente acreditava que Mark era inocente. Simone ia na mesma direção de que a morte dela fora um acidente, sem intenção de matar.
– Será necessário terminar de ler o texto antes de dar um parecer definitivo, mas o último capítulo que li foi revelador.
– Você poderia escrever um relatório para mim, Simone? – Carl perguntou.
Simone prometeu que escreveria no dia seguinte, com as referências pertinentes à história, e lhe assegurou que o trabalho estaria terminado em mais uma semana ou duas. Simone já vinha trabalhando havia três semanas e o contrato era claro: quarenta e cinco dias. Mas ela entendia a pressa de Carl.
– Tchau, Simone, muito obrigado pela ajuda.
– De nada, Carl. Até logo.
Mesmo após desligar o telefone, Simone não conseguia tirar a história da cabeça.
Sentia pena de Lara, e de Mark, porque ele provavelmente não tivera noção do tamanho da complicação que Lara significava. Ela ajudaria Carl a absolver o pobre homem.
Capítulo Doze
Impactada após ler a história de Lara, Simone enviou um relatório para Carl, mas não havia conseguido tocar no manuscrito novamente. Estava bastante abalada. Telefonou para Carl e explicou isso. Ele disse que entendia e que, se ela precisasse de mais tempo para concluir o trabalho, ele aceitaria. Ela precisaria.
– Carl, obrigada pela compreensão. Esse trabalho está me consumindo muito mais tempo do que seria normal – justificou ela.
– Eu compreendo, Simone. O que aconteceu a Lara foi um verdadeiro inferno. Eu reagi da mesma forma.
– O manuscrito é pesado, você o leu todo?
– Várias vezes!
– Qual é nosso prazo final, Carl?
Ele hesitou antes de responder. Parecia estar pensando.
– O julgamento ainda não foi marcado... Eu tenho pressa porque minha defesa será construída com base no que você encontrar, Simone, mas posso aguardar um pouco mais.
– Prometo que vou me empenhar em terminar logo.
– Faremos assim. Se estiver bom para você, irei até aí no sábado. Podemos almoçar e conversar mais sobre o caso, o que acha?
– Para mim seria perfeito! – e pensou ela, ainda teria uma semana para avançar na leitura e apresentar algo mais sólido para Carl.
De nada adiantaram as boas intenções de Simone: a semana começou árdua. Além dos pacientes de Simone, ela ainda precisou encaixar alguns de Edward, que ele não poderia atender e sem jeito de adiar. Edward prestava serviços voluntários para a polícia local, ajudando a elucidar comportamentos criminosos. No domingo a polícia descobrira que mais um crime fora cometido e Edward fora chamado.
A paixão de Edward era decifrar mentes criminosas. Ele tinha dois livros publicados sobre o tema e fazia trabalhos voluntários como pesquisa para suas teses. Era respeitado por essa atividade, que ainda lhe rendia uma clientela considerável. Ao contrário de Simone, Edward não tinha a mínima inclinação para o ensino, mas era um grande pesquisador.
No domingo ele havia recebido um telefonema urgente da polícia, o que significou para Simone o dobro de pacientes. Ela atenderia os que necessitavam de prescrição, e os demais seriam reagendados.
Duas mulheres haviam sido assassinadas na cidade nos últimos vinte dias, e a polícia suspeitava tratar-se de um assassino serial, mas os investigadores não estavam chegando a uma conclusão.
Uma terceira vítima havia sido encontrada no domingo. A polícia não conseguia descobrir o assassino. Eram crimes em que a vítima fora torturada, aparentemente durante certo tempo, porque as marcas pelo corpo nunca eram tão recentes quanto a morte, não havia sinal de estupro e o assassino apenas se masturbava sobre o corpo da vítima, ou assim calculava a polícia, porque não havia sinais de estupro, apenas de esperma sobre o corpo.
O esperma não era condizente com nenhum criminoso cadastrado, o que deixava a polícia sem solução imediata. A única saída era identificar um novo perfil criminoso. O problema é que os crimes tinham poucos elementos em comum: as vítimas eram sempre do sexo feminino, o esperma sempre do mesmo homem e, para a família de todas as vítimas, não havia sumiço das moças, porque elas se encontravam em viagem. Não havia relação entre cada vítima, que eram pessoas comuns, sem destaque na comunidade.
O assassino não deixava outros rastros. Nunca havia digitais, cabelos, pele sob as unhas das vítimas, sangue, nada mais que ajudasse a identificá-lo. Os corpos sempre eram jogados em parques e normalmente ele escolhia dias de chuva, quando as evidencias ficavam bastante comprometidas pela água. Chuva naquela época não era difícil, então a estação era propícia para ele.
Simone via Edward enlouquecido, tentando decifrar o quebra-cabeças desses casos, mas parecia que ele sempre se deparava com becos sem saída. Para que a psiquiatria pudesse ajudar a polícia, seria necessário chegar a um perfil de patologia, o que era difícil nos casos em que Edward estava trabalhando.
Havia um padrão de tortura: aparentemente todas as marcas mais antigas nos corpos das vítimas tinham entre cinco dias e uma semana. O sumiço das vítimas sempre coincidia com viagens que elas comunicavam à família. Assim, durante uma semana as famílias não procuravam desaparecidas, porque elas estavam viajando, logo, fora de risco. Provavelmente o assassino tinha uma semana ou alguns dias para torturá-las antes de as matar. Todas, sem exceção, enviavam mensagens de texto aos familiares dizendo que chegaram bem, e uma das vítimas havia telefonado para a família para garantir que a viagem estava ótima.
A polícia tentava descobrir se as viagens que as vítimas faziam tinham alguma relação com o assassino, se ele as induzia a viajar, mas nenhuma coincidia. Uma vítima havia viajado em férias previamente planejadas, a segunda a trabalho, a terceira fora a uma entrevista de emprego. Não havia conexão.
Assassinos seguem padrões que terminam por levar até eles. Os deste eram os sinais de tortura, as viagens das vítimas, as mortes violentas, a ausência de estupro e o esperma sobre os corpos. Essa era a marca registrada dele, sua assinatura mórbida. Deixava as vítimas de bruços, de forma que o esperma, sempre na região dos seios e da barriga das vítimas, ficasse protegido da chuva, permitindo sua identificação.
A primeira mulher havia morrido estrangulada, a segunda asfixiada, a última, segundo Edward explicara para Simone por telefone, provavelmente havia sido jogada de uma escada, mas os peritos ainda estavam trabalhando no caso. Armas de fogo não foram usadas em nenhum dos três casos, e o sangue era mínimo, adequado aos tipos de morte – mas sempre havia sinais de tortura.
Edward voltou ao consultório na segunda-feira, quando Simone já estava quase de saída. Eram oito horas da noite e ela havia terminado a sessão com um dos pacientes de Edward. Edward estava cansado, com olheiras escuras sob o olhos.
– Eddie, você está um trapo, meu amigo! O que posso fazer por você?
– Além do que já fez hoje? Simone, nem sei como agradecer pelo suporte, não sei o que faria sem você.
Abraçou-a forte, buscando conforto.
– E aí, como foi? – perguntou Simone quando o abraço se desfez.
– O de sempre, mas desta vez ele inovou na morte. Fez a vítima engolir manteiga derretida em quantidade suficiente para sufocá-la quando a manteiga esfriasse. E foi assim que ela morreu. Sem falar nas queimaduras, porque a manteiga devia estar quente. Horrível! Imaginar o que aquela mulher passou nos últimos momentos da vida é aterrador! Ele então a jogou de algum lugar, provavelmente alguns lances de escada. E depois, claro, se masturbou diante da obra-prima.
A expressão de Edward era de nojo.
– Manteiga derretida? Que interessante, eu vejo uma série francesa que se chama Caïn na TV a cabo e foi exatamente essa a forma de morte do episódio passado!
– Aquela série que você me falou sobre um policial aleijado? Que você estava adorando porque era politicamente incorreta?
– Essa! Interessante, porque a manteiga foi a arma do crime. Não havia masturbação, mas é o mesmo crime bizarro.
– Você tem gravado esse episódio, Simone? – ele parecia ter descoberto a lâmpada. Ficou feliz e animado, apesar do cansaço.
– Tenho sim, vou passar para um pen drive quando chegar em casa. Penso que tenho uns vinte episódios gravados, porque compro e guardo caso queira ver novamente. Se puder ajudar…
– Eu gostaria de assistir, porque eu nunca tinha visto uma morte por sufocamento com manteiga, e agora você me fala dessa coincidência. Você está indo para casa?
– Estou, e acho que você deveria ir também. Não tem nada para fazer aqui, meu amigo. Está tarde, você precisa descansar, amanhã lhe trago os episódios. Relaxe, tome um longo banho quente e preguiçoso!
– Sua receita para tudo...
– Sim, sempre funciona. Algo a ver com voltar ao calor do útero, diriam os psicólogos... tente...
– Vou tentar, mas nunca é fácil depois de ver um cadáver!
– Imagino! Essa atividade não é para mim.
– E no entanto você está ajudando um advogado a absolver um assassino… – ela sentiu certo tom de crítica na voz de Edward, mas acreditou que o cansaço e o estresse teriam deixado um pouco mais ríspida sua eterna gentileza.
– Já não estou tão convencida de que foi um assassinato. Estou inclinada a acreditar em acidente de natureza sexual, mas ainda não terminei a análise.
* * * * *
Dois dias depois, Edward e a polícia comemoravam. Simone havia entregue a Edward um pen drive contendo quase uma temporada completa de Caïn e finalmente os investigadores haviam conseguido descobrir um padrão no comportamento do assassino: ele copiava os episódios da série francesa; cada crime que havia ali ele reproduzia, mas graças a Deus a agenda dele não era igual à da série, senão haveria uma morte por semana.
No final daquele dia, Simone encontrou Edward saindo do consultório, e estava curiosa por notícias, pois ele havia lhe telefonado para agradecer a pista que ela lhe dera.
– Algo concreto, Eddie?
– Ainda não, Simmie, mas há uma nova possibilidade. Somente assinantes de TV a cabo assistem a Caïn. Estamos tentando ver com as emissoras que fornecem a série a identificação de quem a compra. Sendo em francês, não deve haver muitas pessoas que se interessam. Então, se houver uma forma de identificar os assinantes da série, estaremos diante do possível assassino.
– Vou aparecer na lista dos suspeitos! Eu assisto sempre.
– Calma, Simone, desde quando mulheres deixam esperma em vítimas de assassinato? E essa morte ocorreu sábado, eu estava na sua casa, lembra? Você não matou ninguém – e riu.
– Só não gostaria da polícia me perguntando por que gosto de determinada série, não tenho tempo para isso.
– Isso não vai acontecer, todos no departamento sabem que foi você quem relacionou a morte à série, e nenhum assassino faria isso. Logo, ninguém virá perturbá-la. Mas me conte... Por que gosta tanto dessa série? Em minha opinião, é uma porcaria!
– Eu assistia àquela série médica House. Quando ela terminou, me senti “viúva”, então, zapeando pela televisão, deparei com Caïn e tentei... É como se fosse um House francês, mas ainda mais politicamente incorreto.
– E você ama o politicamente incorreto, não é?
– Você sabe o que eu penso do “politicamente correto”...
Ela fez aspas com os dedos para demonstrar seu ponto de vista.
– Morte da criatividade. E Caïn é sexy. Acho que eu queria um homem assim para mim.
– Aleijado? – perguntou Edward com desdém.
– Não, bobo, sexy!
– E não há ninguém assim no horizonte?
– Bem… esse advogado que conheci em Nova York… quem sabe depois que eu terminar o trabalho… Nunca misturo negócios e prazer, sempre dá trabalho mal feito ou caso mal feito... ou os dois...
– Você está certa. Mas o que chamou sua atenção nele? Ele é politicamente incorreto?
– Não sei, ainda não formei opinião, na realidade o achei interessante e bonito.
– Um monte de caras se encaixam nessa descrição… O que o faz diferente?
– Também não parei para filosofar, talvez porque esteja precisando transar, meu amigo, urgente!
Pegou o casaco, deu um beijo no rosto de Edward e saiu.
Capítulo Treze
O paciente das dezesseis horas chegara: Philip, um homem de trinta e três anos, cabelos e olhos castanhos gentis. Os cílios dele eram longos como os de uma menina, o que o tornava bonito sem ser lindo. Simone estava tratando o masoquismo crônico dele fazia seis meses. Ele era educado e cortês. Apesar da gravidade do quadro, ela gostava de trabalhar com ele.
Philip sofria forte compulsão sexual. Ou fazia sexo diariamente ou se masturbava ao menos cinco ou seis vezes ao dia. Tinha sérias fantasias sadomasoquistas que estavam prejudicando seu casamento, e alegava amar a esposa. Simone o estava tratando com remédios e terapia. Eles haviam mudado medicamentos e ajustado as doses diversas vezes, até que o último começara a fazer efeito. Simone se sentia satisfeita com o resultado e Philip também.
Os primeiros medicamentos o deixavam sonolento e com dificuldade de ereção. Para um viciado em sexo, era difícil sair de um extremo ao outro. O remédio atual fazia com que a compulsão diminuísse, mas ele conseguia manter uma vida sexual normal com a esposa. Philip estava melhorando e Simone, otimista.
Philip tomava a mesma subdose há algum tempo e havia chegado ao ponto em que era necessário aumentá-la, mas se recusava, pois tinha medo de perder a ereção. Naquela sessão, Simone tentaria novamente convencê-lo.
– Philip, que bom vê-lo!
– Verdade, doutora, é sempre um prazer estar aqui. Trouxe uns brownies com gotas de chocolate que fiz pela manhã – e lhe estendeu uma embalagem.
– Muito obrigada, Philip, assim que terminarmos nossa sessão, será meu intervalo e vou apreciar o doce com um café. Como passou a semana?
– Faça um café bem forte, realça o sabor.
– Farei isso. E como você tem estado?
– Não estou dormindo o suficiente e... bem... minhas fantasias estão me atormentando novamente.
– O que quer dizer com não dormir o suficiente?
– Estou dormindo cerca de quatro horas por noite. Estou exausto!
– Compreendo. Falei que seu corpo se acostumou ao medicamento e é por isso que você voltou a ter problemas. Penso que precisa tomar uma dose maior.
– Mas e se eu ficar broxa de novo?
Ele estava assustado com a possibilidade. Sua voz continha uma nota de desespero e ele começou a bater o pé direito, em clara demonstração de que estava nervoso.