Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 2 de 9

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Atrás da Porta

Capitulo Quatro

 

Para variar, o texto fez Simone perder o sono. Ficou excitadíssima com a história que estava lendo, começou a se acariciar e acabou se masturbando, fantasiando certo advogado de terno elegante e olhos castanhos.

Não adiantou muito, estava inquieta com a história, começando a entender o que levara à morte de Lara.

Vício em adrenalina – a moça avisou logo no início que tinha uma patologia, e essa pode ter várias causas, mas normalmente vem de algum distúrbio. Faz com que seu portador precise sempre de emoções fortes, inusitadas, de perigo, e o pior, são pessoas com pouco senso de perigo real. Pessoas assim não querem a morte, mas não a temem.

Talvez Carl tivesse razão. O caso não fora de assassinato, mas um acidente, como acontece com pessoas com esse tipo de problema. Em qual patologia será que Lara se encaixava?

E havia Mark, um homem aparentemente correto, bem estruturado, com os pés no chão, atraído pela chama, como muitos assim se deixam atrair por psicopatas... Pensar isso era precipitado, talvez não fosse psicopatia o que tinha Lara; difícil diagnosticar com poucas páginas, mas mente de psiquiatra não consegue ler sem cair nessa tentação. Talvez o relato nem fosse real.

Simone decidiu dar um descanso ao manuscrito. Estava cansada e iria continuar no dia seguinte. Pensou em tomar um vinho, no entanto álcool nesse horário perturbaria seu sono. Pegou uma garrafa de água mineral, abriu, serviu um copo, e então buscou um medicamento que tinha para dormir e o engoliu rapidamente. Bebeu a água e foi para a cama, adormecendo em poucos minutos. Sem sonhos naquela noite.

*****

Simone ainda dormia quando o telefone tocou às onze da manhã.

– Bom dia, Simone.

A voz enérgica de Carl a deixou um pouco atordoada.

– Bom dia, Carl, tudo bem?

Sentou-se na cama para diminuir a voz de sono e não deixar tão perceptível que ele a acordara. Ela sempre tivera culpas católicas por dormir até tarde.

– Tudo bem. Pronta para almoçar?

– Claro!

Na verdade, gostaria de um café com torradas.

– O que você gosta de comer? Comida japonesa, italiana, carne?

– Comida japonesa é uma boa opção.

“Sim, com café com leite para acompanhar”, pensou.

– Passo para buscá-la, ok?

– Ok, obrigada.

Simone saltou da cama, tomou um banho rápido e pensou: “Hoje não vou ser a doutora Simone. Deixarei o terno na mala, vou ficar sexy e, como dizia uma grande amiga minha, por favor, não aprecie meu cérebro, que inteligente eu sei que sou. Aprecie a minha bunda!"

Fez uma maquiagem leve, do tipo “sou bonita naturalmente”, vestiu um jeans justo e uma camisa branca com as mangas dobradas até a altura dos cotovelos, um cinto marrom bonito, salto alto e pronto: estava confiante e ainda sobrava meia hora para ler mais um pouco.

O Diário de Mark

Vous revoir

Que noite infernal! Dormi e acordei diversas vezes, sonhando com pessoas gemendo, luzes vermelhas que iam e vinham e música alta. Acordei cedo, calcei um tênis e fui correr para tentar tirar o resto do álcool do corpo e ordenar as ideias.

Um pensamento martelava na minha cabeça: eu precisava ver novamente aquela mulher! Esse pensamento brigava com o outro, que dizia: ela é tudo o que você não gosta em uma mulher, imprevisível, liberal demais, meio louca, uma criatura da noite... entre outras qualidades.

Mas o canto da sereia venceu a briga. Iria vê-la mais uma vez. Ok, Mark, última vez... me ordenei.

Cheguei em casa suado, mas revigorado, tomei um banho, peguei o celular e lembrei: ela não me deu o número. E agora? Peter! Tudo, menos o Peter! Ia ter que dizer a razão, explicar, e ele era um fofoqueiro profissional... Bem, enfrentar o Peter ou não ver a Lara?

– Alô, Peter?

– Oi – disse uma voz de sono. – Quem tem a audácia nessa hora da madrugada?

– Sou eu, Mark, e são dez horas, já é tarde.

– Já é tarde? Só se for para me dizer para fugir que há uma ordem de prisão contra mim. É madrugada, e é sábado!

– Desculpe. Fique tranquilo, sem ordens de prisão, seus impostos estão sob controle.

– Me alegro, mas já que meus impostos estão sob controle, onde é o incêndio? Hum, não precisa me dizer, amigo, dentro das calças, não é? Efeito pós-Lara – e começou a rir.

– Efeito pós-Lara?

– Sim, eu sei o efeito que ela causa nas pessoas. Quando eu for um gay adulto, quero ser como ela, irresistível.

– Você é um gay adulto. E não é nada disso. Ontem conversamos e ela me falou que é arquiteta e preciso realmente do telefone dela para umas mudanças no escritório.

Imediatamente pensei que não foi minha melhor desculpa…

– Ok, então posso voltar a dormir, porque não vai ligar para a mulher num sábado para falar de trabalho. Segunda lhe dou o telefone dela.

Bicha sacana! Que vontade de matá-lo!

– Não, se puder me dar hoje, agradeço. Que daí já marco com ela para segunda, é meio urgente.

– É... o escritório desabou e tem uma emergência arquitetônica lá... Seja humilde, queridinho, ajoelhe e diga: “Peter, seu gay lindo e sexy, me dá o telefone da Lara maravilhosa que quero comê-la hoje... Ah, comer com ela hoje.

– Peter, seu gayzinho filho da puta, me dá o telefone da Lara, porque senão aquela conta simbólica que lhe cobro por ser meu ex-cunhado vai virar um fatura verdadeira!

– Ai, essa doeu! Pessoa do mal! Mate ao menos a minha curiosidade, como foi ontem?

– Conversamos bastante, gostei dela, jantamos, e esqueci de pedir o telefone dela.

– Só? E quer que eu acredite que você já vai querer sair com ela de novo porque conversaram... Deve ser uma conversa muito boa, mesmo. Mas não convenceu, acho que pode subir a fatura e não vou dar o número, lá, lá, lá, lá.

– Peter, foi só isso mesmo, sou um cavalheiro e não iria atacar a mulher no primeiro encontro.

– Você eu sei que não... já a Lara...

Não gostei do que ele falou, parecia que o mundo conhecia os “hábitos” da mulher.

– A Lara o quê?

– Eu achei que ela fosse atacar você, porque desde que ela o viu na festa ficou louquinha, queria ser apresentada, e quando hesitei, ela foi lá e se apresentou. Achei que ela iria comê-lo lá mesmo.

– Verdade? Achei que você a tinha mandado para cima de mim.

– Não! Falei um pouco em você e ela nem deu bola, mas quando o viu... começou a babar.

– Legal, agora me dá o fone e pode voltar a dormir.

– Não ganho nem um beijinho por isso?

– Meu Deus! Nunca! Mas hoje, se eu tiver sorte, a Lara vai ganhar um.

– Mark, agora sério. Você e minha irmã não deram certo, não sei a razão, acho que eram muito jovens e parecidos. Mas você deveria relaxar de vez em quando. Tudo o que faz é trabalhar e levar a vida a sério. Talvez a loucura da Lara seja o que você precisa agora, vai ser uma boa distração.

– Tenho certeza de que ela não é o que eu preciso. Muito louca, mas sexy de matar, não é?

– Não é meu tipo, mas sexy ela é, sim, e também uma ótima pessoa. Não julgue a Lara pelas aparências, certo? Tem uma supermulher embaixo daquelas curvas. Eu não acho que ela seja do tipo para ter relacionamento sério, mas divirta-se, homem!

– Você a conhece bem?

– Sim, ficamos amigos faz muito tempo, depois ela virou minha arquiteta. Além de tudo, é muito profissional.

– Você não vale nada, Peter, sempre fazendo amigos e ganhando bons descontos.

– É a minha beleza que faz isso.

– Sim, com certeza. Vou ficar atento ao que me disse.

– Gosto de você, ex-cunhado, mas também da Lara. Acho que ela pode tirá-lo dessa vidinha que leva e pôr uma pitada de pimenta na sua vida. Não estou falando de casamento, mas de diversão. Ela é a pessoa certa para isso.

– Ok Peter, vamos ver... o número do telefone?

– Está bem, anote aí e não me ligue mais até poder me dar notícias picantes.

Fiquei uns quinze minutos com o telefone na mão pensando se deveria ligar ou não. O que teria a ganhar se começasse a me relacionar com uma pessoa assim? Sexo! De excelente qualidade, e eu não precisava me casar com ela, só transar com ela... Coragem, homem!

– Alô – disse uma voz infantil.

– Alô, aqui é o Mark, eu gostaria de falar com Lara, esse é o celular dela?

Ela disse que não era casada, mas esqueci de perguntar se tinha filhos...

– É sim, aqui é a Roberta.

Que bom, a criança se apresentou.

– Olá, Roberta, posso falar com a Lara?

– Pode!

– Tia – berrou. – Um homem no telefone quer falar com você!

Maravilha! Ela era apenas a tia da menina, que certamente teria futuro como soprano. Ai, meus tímpanos!

– Que homem? Que telefone? Roberta, você estava novamente brincando com meu celular? Vou falar com sua mãe, porque com você não adianta!

– Mas tia, o telefone tocou e você estava longe. Não lembro o nome dele, toma aqui.

– Alô, quem fala?

– Bom dia, Lara, aqui é o Mark.

E o que mais dizer? “Nós nos conhecemos ontem na casa do Peter e depois transamos feito loucos...”

Ela começou a rir e disse:

– Ah, então esse é o seu nome...

Neste momento, duas crianças começaram a gritar ao fundo.

– Desculpe, Mark, minhas sobrinhas estão impossíveis hoje. É meu sábado de cuidar delas.

Quem será que deixava crianças na mão de uma maluca dessas? Bem, sem conhecer os pais é impossível saber o grau de sanidade. Interessante... a mulher tinha família, sobrinhas, um irmão ou uma irmã em algum lugar.

– Você vai cuidar delas o sábado todo?

Pensei: “Diz que não, diz que não". Eu já estava excitado só de falar com a mulher! Pronto, voltei à adolescência, quando até a voz de uma mulher me deixava de pau duro.

– Não, vou jantar com você, você me convidou ontem e, além do mais... o Peter me ligou faz uns dez minutos.

Ela riu com gosto.

A bicha desgraçada já tinha começado a fofocar! Que vontade de estrangular o sujeito.

– E as crianças?

– Quer para você?

Ela riu de novo. Como é que alguém que foi dormir de madrugada escuta gritos de crianças e conseguia rir feliz assim logo cedo?

– Não levo jeito com crianças, elas não gostam de mim.

– Elas gostam de todo mundo. Você precisa comprá-las. Elas são as criaturas mais venais que existem. Dê um chocolate e gostarão de você, uma caixa e juram amor eterno. Simples assim.

Sempre que eu pensava que a mulher não iria mais conseguir me chocar, ela conseguia.

– E você, o que preciso fazer para você gostar de mim?

Porra! Que coisa mais estúpida para dizer. Eu sou um homem prudente, capaz de escolher palavras, que estupidez foi essa agora?

– Me levar para jantar hoje para ver se você é um chato mesmo ou se consegue me provar o contrário... Talvez eu goste de você...

 

Simone – dias atuais

 

Carl chegou no horário previsto. "Ponto para ele", pensou Simone. Pontualidade, ela apreciava isso em qualquer pessoa, mas quando acompanhada de um homem bonito, de jeans, camisa azul-clara e sapatos esportivos, era erótico.

– Doutora Simone – ele já a aguardava com a porta do passageiro aberta. Ela pensou em acrescentar na lista de requisitos para ser erótico: educado...

– Doutor Carl – retribuiu a formalidade, sem saber se era ou não apenas uma brincadeira.

– Avançou na leitura?

Pensando bem, refletiu ela, talvez o educado fosse retirado da lista. Onde estava o bom-dia? Como vai? Dormiu bem? Ficou decepcionada. Havia investido na produção do visual, para novamente estarem interessados no seu cérebro.

– Sim, terminei o texto que você me deu. Estou com muita vontade de ler mais.

– Isso é um sim?

“Sim pode me levar para a cama, para a cadeira, pode me levar para onde quiser”, pensou, mas não era esse sim que ele queria.

– Sim, vamos discutir os termos, mas vou trabalhar para você. A história me interessou bastante. É no mínimo intrigante.

Ao chegarem ao restaurante, moderno, impessoal, bem iluminado, com alguns poucos motivos japoneses pelas paredes, escolheram uma mesa normal, perto de uma janela, para decepção de Simone, que adoraria ter se sentado numa das mesas baixas com almofadas que havia num dos lados da sala principal. O clima era comercial, definitivamente não era um encontro.

– Ok, tenho um projeto de contrato para você aqui e gostaria que desse uma olhada para delimitarmos responsabilidades.

Abriu a pasta e lhe entregou mais um envelope amarelo. Ah, os advogados e seus contratos! Para eles não existe palavra? Acordo?!

– Farei isso.

Nisso se aproximou da mesa sorrindo um homem bonito, de cabelos castanhos, olhos verdes, pele bronzeada pelo sol ou talvez por algum tipo de bronzeamento de boa qualidade. Era alto e muito bem vestido.

– Carl (exagerou no r), que saudades de você, meu amigo! Que bom vê-lo em bela companhia! – e estendeu a mão para Simone cordialmente, sorrindo.

– Sou o Peter, o amigo mais bonito e charmoso do Carl.

– Olá, Peter. Peter, esta é a doutora Simone Bennet. Simone, este é um grande amigo, Peter Hay.

– Boa tarde, Peter, prazer em conhecê-lo. Gostaria de se sentar conosco?

Nesse momento, chegou um outro homem, ainda mais bonito que Peter, loiro, de intensos olhos azuis, e beijou-o na boca, de leve.

– O prazer é todo meu, Simone, mas, como pode ver, meu lindo acompanhante chegou, quase tão lindo quanto eu, mas já notamos a diferença, não é?

– Sim, a diferença é que eu sou educado e ele é meio selvagem. Boa tarde a todos, sou o Charles.

As apresentações e piadinhas de Peter continuaram. Simone já não ouvia mais, o coração acelerado pela emoção de conhecer um dos personagens do livro, da narrativa na qual estava trabalhando. “Este deve ser Peter, o amigo gay de Mark. Se for assim, a história pode ser real." Ela ainda tinha dúvidas. Acreditava que talvez fosse apenas um relato criado pelo assassino para se defender. Mas agora, com Peter na frente dela, não sabia o que pensar.

Os rapazes se despediram e eles voltaram a ficar a sós. Escolheram a comida e um chardonnay, e só então voltaram a falar.

– Esse é "o" Peter? O Peter do texto?

Falou mais excitada do que deveria, para quem pretendia cobrar bons honorários.

Carl aparentou não notar.

– Sim, aquele é o Peter.

Carl passou a mão pelos cabelos, num gesto que ela já havia interpretado. Era o significado de que estava impaciente.

– Os personagens são reais...

– Sim, todo mundo ali existe ou existiu.

– Eu posso conversar com todos que já foram ou serão mencionados?

A curiosidade dela crescia a cada minuto.

– Penso que com um deles não será possível. Com os outros, se necessário...

Ela se sentiu um tanto idiota. Que pergunta estúpida, um dos personagens estava morto.

Ele manteve o tom profissional durante todo o almoço. Resolveram detalhes sobre como trabalhariam, valores, viagens, enfim, tudo acertado – menos o que a ela interessava: saber mais sobre o homem.

No fim do almoço, ele lhe deu mais um envelope, desta vez marrom, provavelmente com mais umas vinte páginas. Ele não iria lhe entregar o texto todo até ela assinar o maldito contrato...

Para o desapontamento dela, ele sugeriu levá-la ao hotel para continuar a análise do texto. Definitivamente o único interesse dele era na mente dela.

Quando chegou ao hotel, ela encontrou o quarto imaculado, como gostava, limpo e organizado. Ligou o ar-condicionado, tirou os sapatos, vestiu um moletom e uma camiseta, encheu um copo com suco de laranja enlatado do frigobar. Então sentou no sofá para ler o texto, pensando em tomar um banho mais tarde.

O Diário de Mark