Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 9 de 9

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Atrás da Porta

Capitulo Trinta e Um

 

– Ed? – ele pulou da cadeira e foi até ela.

– Simone, você está bem? Como se sente?

– Como carne moída, parece… Tudo dói! O que houve? Por que estou no hospital? – ela olhou em volta e viu o quarto frio em que se encontrava.

– Pneumonia, duas costelas quebradas, pulsos fraturados, desidratação, queimaduras… Só por isso…

– Faz tempo que estou aqui? Não lembro…

– Três dias já, mas mantiveram-na sedada. Você ainda está sob efeito de analgésicos pesados.

– O que aconteceu? Como vim parar aqui?

– Descanse, Simmie, você está segura. Mais tarde conversamos.

Simone voltou a dormir e a sonhar. Um homem a perseguia e usava uma máscara de gás. Acordou gritando e viu Tammy, sua filha, ao seu lado.

– Mãe! Calma, está tudo bem, você está segura! Eu estou aqui – a menina se jogou sobre Simone e começou a chorar. – Pensei que ia perder você!

– Tammy, por que não está em Paris? O que está fazendo aqui?

– Mãe, você não lembra do que aconteceu?

– Infelizmente sim, mas você deveria estar em Paris. Tem um louco à solta matando mulheres e eu não quero você aqui! Ou eles o pegaram?

– Não, mãe, ele está solto, mas a polícia está aí fora. Ninguém vai fazer mal a você!

– Como cheguei aqui?

– Quando você sumiu, o tio Ed começou a agir como um maluco. Fez o pessoal do FBI trabalhar em dobro para desvendar um vídeo e tentar ver a placa de um táxi… Daí conseguiram ver, era um carro de uma cidadezinha perto de Nova York.

– Era?

– Era, o táxi era de um indiano. Levaram um dia inteiro para localizá-lo e acharam que ele estivesse com você… Mas ele apenas alugava para um rapaz bacana, segundo disse à polícia. Precisava de dinheiro para pagar a licença do veículo e o sujeito tinha umas fantasias de transar em um táxi ou de ser taxista... Aparecia de vez em quando, alugava o carro por uns dias e pagava em dinheiro muito mais do que o táxi rendia.

– E ele sabia quem era?

– Não, isso foi o pior. Apenas disse que o sujeito era branco e parecia rico, porque se vestia bem e pagava em dinheiro. Não foi muito esclarecedor, né? Parece que tio Ed bateu nele.

– Nele quem?

– No taxista! Os policiais tiveram que tirá-lo de cima! Aí ele me mandou a passagem e me pediu para vir para casa.

Uma enfermeira entrou e colocou uma bandeja sobre a cama.

– Bom dia, Dra. Bennet. Gostaria de um pouco de sopa? Já pode comer normalmente.

– Bom dia, enfermeira, está dizendo que eu não estava conseguindo me alimentar sozinha?

– Não, estávamos alimentando-a via intravenosa. Os médicos preferiram mantê-la sedada por causa da dor. Está se sentindo melhor?

– Ainda dói por todos os lados, mas com certeza os analgésicos estão evitando que eu esteja pior.

– Já pode receber visitas se quiser, doutora. Tem um homem chamado Carl esperando para vê-la. Ele disse que é seu cliente. A polícia o está questionando agora. A senhora o conhece?

– Carl é bem-vindo.

– Vou pedir que entre, mas coma primeiro.

Tamara ajudou Simone com a sopa, que ela tomou com dificuldade. Então um Carl sorridente entrou no quarto.

– O que está fazendo aqui, Carl?

– Você ficou famosa… quero um autógrafo… Brincadeira fora de hora, Simone, desculpe.

– Não… tudo bem… Esta é minha filha Tammy. Tammy, este é Carl, um cliente.

Os dois trocaram rápidos cumprimentos e Tammy saiu para tomar um café.

– Você sabe o que houve, Carl?

– Sim, acompanhei uma parte pela TV… Seu namorado enlouqueceu quando você sumiu…

– Meu namorado?

– É, o Dr. Edward. Ele saiu movendo o mundo para encontrá-la. Ouvi sua filha dizendo que ele bateu no taxista.

– Me disseram... mas como me localizaram?

– Saiu em todos os jornais do país, Simone, sua foto, dizendo que você estava desaparecida, a foto do táxi e a placa… Uma denúncia anônima levou a polícia até você. Ainda não descobriram quem alugava o apartamento onde você estava. Parece que a identidade era falsa… Pelo jeito, era o local onde ele torturava todas as mulheres que matou. As paredes à prova de som… Uma verdadeira masmorra do século XXI! Ele deixou o táxi lá e alguém viu o carro. Ninguém viu o assassino, infelizmente.

– Era Peter, Carl! – Simone estava surpresa, acreditando que já sabiam disso.

– Peter? O meu amigo Peter? O que ele tem a ver com isso?

– Quem estava comigo era Peter, Carl! Ele me torturou! Ele matou a mãe de Lara para fazer com que a filha surtasse. Era ele o tempo todo!

– Impossível! Peter está na China, Simone! E além do mais ele é um dos melhores caras que conheço!

– Não, não está! É ele, eu tenho certeza! Ele é apaixonado por você!

– Ele é meu amigo, por Deus, quase um irmão! Por que faria isso? Para mim é como perder mais uma parte da minha vida, Simone! Não pode ser verdade! Eu não posso acreditar.

– É verdade… Ele me contou… Disse que matou na Disney… Uma mulher que foi babá dele e que abusava dele quando era criança. Você precisa acreditar em mim. Eu pensei que todos já soubessem a verdade. Algumas vezes ele estava surtando e achava que era a própria Lara. Dizia que o ama e que quer você. Às vezes era Peter novamente, mas eu também não estava bem… Mas tenho certeza de que é Peter.

Simone estava muito agitada enquanto relatava o ocorrido.

– Acalme-se, Simone, já vou falar com os policiais. Carl estava devastado com a notícia: o rosto dele mostrava o choque que sentia. Ele se sentia péssimo.

Agentes do FBI foram falar com Simone e ela descreveu em detalhes o que havia sofrido nas mãos de Peter. Um mandado de prisão em seu nome foi expedido no mesmo dia. As investigações mostraram que Peter havia embarcado para a China quando as primeiras noticias do resgate de Simone foram veiculadas na imprensa. Ele não havia retornado.

Descobriram que o táxi em questão ficava muitas vezes parado num terminal rodoviário cujos ônibus chegavam da cidade onde Simone morava. As câmeras mostraram as vítimas entrando no táxi, por isso a coincidência das vítimas estarem sempre viajando. O motorista sempre usava óculos escuros e boné, mas não fora difícil reconhecer as feições de Peter. Não havia como concluir o caso sem a prisão dele e sem um teste de esperma para fechar os casos das demais mulheres.

Confirmou-se a o sumiço de uma mulher na Flórida na ocasião em que Peter, Lara e Carl foram juntos à Disney World. A mulher não era a babá de Peter, mas, segundo a irmã dele, após ver fotografias, se parecia muito com aquela que havia abusado de Peter.

A mulher, que estava acompanhada do filho de quatro anos, fora dada como desaparecida e nunca mais encontrada. A polícia procurava agora locais onde o corpo pudesse ter sido deixado, uma vez que Peter não dissera nada a respeito para Simone. Não foi possível confirmar se ele fora mesmo responsável pela morte da mãe de Lara. Pelo tempo decorrido, seria impossível exumar e chegar a uma causa mortis por ausência de oxigênio.

Simone ficou no hospital mais um dia. Edward permaneceu todas as noites ao lado dela durante a internação. Só saía pela manhã. No dia da alta, ele a aguardava para levá-la para casa. Ela o abraçou fortemente e lhe agradeceu por tudo o que fizera. Tinha certeza de que somente a intervenção dele a salvara. Assim era Edward: sempre estaria ali para salvá-la.

– Como se sente, menina? – perguntou Edward acariciando os cabelos de Simone.

– De verdade? Perdida! Tudo me dói. Estou tentando juntar os pedaços do corpo e da alma. Ainda não consigo entender, ou melhor, entendo, mas processar…

– Vamos para casa, Simmie?

– Vamos, Ed, enfim.

– Vai ser difícil superar esses dias no inferno, mas acho que todo psiquiatra precisava de um estágio desses – ela disse num tentativa de humor.

– Eu dispenso!

– Eu não o culpo... Não sei como não enlouqueci...

– Também não sei, Simmie, mas existe um lado sobrevivente em todo ser humano, e acho que o seu é de aço. Vamos conversar. Acho que você deveria retomar suas sessões com seu psiquiatra semanalmente. Isso vai ajudá-la.

– Talvez... depois...

– Depois de quê? Tem planos?

– Sim…

– Quais?

– Vou levar Tammy para Paris. Ela ainda tem um bom tempo para ficar por lá e esse lunático ainda está à solta. Não sei se voltará... Vou mudá-la de apartamento, só por segurança… E vou tirar um ano sabático… viajar… Depois vou ver… Este ano valeu por mil da minha vida… Preciso juntar as peças do meu quebra-cabeças... Nada mais vai ser igual, Ed... nada...

– E seus pacientes?

– Os que aceitarem, farei sessões por videoconferência… Alguns eu perderei…

– Sei… Eu fico por aqui… Seguro as pontas… para quando você voltar…

– Eu sei. A única certeza que tenho é esta: nossos negócios estarão em boas mãos enquanto eu estiver fora.

Edward estendeu a mão e Simone mergulhou no seu abraço. Ali era lar, bom de ficar, mas ela não poderia nesse momento. Muita coisa mudara em sua vida e era preciso primeiro se curar, depois entender, e aí tomar decisões para o futuro. Talvez o futuro fosse Edward. Ela sentia que, se ele estivesse com ela, ela estaria em casa. Só lamentava o tempo que demorara para perceber isso. Mas agora não era o momento. Quem sabe quando seria?

Fim do Livro I

Continua no livro II – O Diário de Lara

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