Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 8 de 9

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Atrás da Porta

Capitulo Vinte e Nove

 

Simone acordou subitamente. Estava nua, molhada, dentro do que parecia ser uma gaiola de meio metro de altura, suspensa por uma corrente. Suas pernas doíam por causa da posição, pois estava acocorada, com as pernas dobradas ao peito. Não sabia há quanto tempo estava ali, mas, pelas dores que sentia, já devia fazer algumas horas. Era impossível levantar-se ou mudar de posição.

Onde estava? O que tinha acontecido com ela? Só se lembrava de ter se sentado no parque e nada mais. Simone ficou apavorada. Com certeza, estava nas mãos do assassino e a tortura havia começado.

Uma gota d’água caía sobre sua cabeça em intervalos regulares, o que explicava a umidade e o frio que sentia. O pingo regular era enlouquecedor. Simone se ordenou a manter a calma. Certamente o criminoso apareceria em breve e ela precisaria de toda a lucidez para entender a situação. Era sua única forma de sair viva disso!

Simone lembrou-se das técnicas de meditação e começou a praticá-las, tentando esvaziar a mente para não sentir o desconforto físico extremo a que estava submetida. Mas nem toda a meditação do mundo era capaz de fazer esquecer a água, o frio e a dor, e em poucas horas sua situação ficou desesperadora.

"Meu Deus", pensou Simone!, "o que fiz para terminar nas garras de um monstro?" Será que era um de seus pacientes? Alguém conhecido ou tinha sido escolhida ao acaso? Normalmente as vítimas não ficavam na mira por terem feito algo ao psicopata, mas por guardarem alguma característica que despertava nele a loucura – ou por parecerem com alguém.

As horas foram passando e Simone reviu mentalmente teorias da psiquiatria, livros lidos, casos em andamento, na tentativa de manter o cérebro ativo e de aliviar as dores que sentia.

Repassou também mentalmente a lista de todos os seus pacientes, imaginando um possível suspeito, e nenhum lhe parecia capaz de torturar ou matar.

Seu nariz já havia começado a escorrer, estava se resfriando e tremendo. As horas passavam, o dia virou noite, e ninguém apareceu. Vencida pelas dores terríveis, pelas câimbras e pelo frio intenso, Simone adormeceu ou desmaiou por um tempo, não saberia dizer quanto. Quando acordou, estava completamente desorientada. Sua garganta doía, assim como todo o resto do corpo. Para piorar, sentia muita fome, o que aumentava a sensação de frio.

Não havia tocado na comida no dia em que havia sido sequestrada, o que queria dizer que deveria estar há mais ou menos vinte e quatro horas sem comer nada.

– Você está com fome? – disse uma voz metálica, disfarçada por algum equipamento eletrônico.

– Sim, estou. Quem é você? O que quer de mim?

– Eu sou a morte, doutora, você está tendo um encontro comigo.

– Por que eu?

– Ah, como vocês são chatas… Por que eu? Por que eu? Porque você decidiu cruzar o meu caminho...

– O que eu fiz?

– Doutora, você sabe o que fez...

– Me tire daqui, por favor. Podemos conversar? Seja lá o que acha que eu fiz, vamos encontrar a razão.

– É, talvez esteja na hora de tirá-la daí, doutora... Talvez não... Como prefere morrer?

– Deitada em minha cama, aos noventa anos... – Simone decidiu usar um pouco de humor. Talvez isso fizesse o sujeito criar algum laço com ela. Acontecia em casos similares que Simone havia lido.

– Deeeeeeeeee... – ele fez um som imitando uma buzina daquelas de shows de jogos na TV. – Negado! Pode escolher outra forma: asfixia, queda do alto de uma escada... Posso sufocá-la com um travesseiro, posso enforcá-la…

– E por que nunca facas ou armas de fogo?

– Porque sangram e eu detesto sangue. Deixa marcas... evidências... estraga tudo.

"Que ótima noticia!", pensou Simone. Ao menos ele não iria cortá-la.

Simone sentiu que ele se aproximou da gaiola. Viu uma chama sendo acesa, um isqueiro, provavelmente, e sentiu a primeira queimadura do que parecia ser um cigarro, pelo cheiro que exalava, num de seus pés. A dor foi indescritível. Antes que pudesse senti-la inteiramente, vieram a segunda, a terceira e quarta queimadura. Ele estava encostando o cigarro em seus pés alternadamente, ora em um, ora em outro.

Simone gemia de dor, lágrimas vinham aos seus olhos. Por fim, sem ela saber quantas queimaduras sofrera nos pés, ele parou e se afastou. A dor era imensa, capaz de fazer esquecer de todo o desconforto da gaiola, da água, do frio e da fome. Seus pés pareciam em chamas.

Ouviu o barulho de uma porta de ferro se fechando e passos se afastando. De repente, a gaiola começou a baixar e tocou o chão. Uma luz forte se acendeu. Simone procurou uma porta na gaiola e essa se abriu facilmente. Ela então se arrastou como pôde para fora e ficou deitada no chão gelado, de um material que deveria ser mármore ou granito, parecido com uma mesa de autópsia, ela pensou. Sentia tanta dor que não conseguia se mover.

Simone olhou em volta: a sala tinha apenas uma mesa comprida, uma cadeira, dessas duras, parecida com aquelas dos anos sessenta, e uma torneira. As janelas haviam sido vedadas com uma espécie de placa de metal. Havia uma porta de ferro – aparentemente bem trancada. Ela não tinha forças para checar.

Seus pés doíam terrivelmente, mas também seus ossos, costas, pernas, garganta, bem inflamada devido ao resfriado que já se instalara. Sentia muito frio, muita fome e muito cansaço.

Ela se arrastou até a torneira, abriu-a e pôs os pés embaixo d'água, minimizando as dores das queimaduras. Esse era o primeiro-socorro adequado quando alguém se queimava.

Subitamente uma música infernal começou a tocar em volume altíssimo, um rock de arrebentar os tímpanos. Diversas luzes se acenderam, deixando o quarto iluminado como se fosse dia.

Simone compreendeu rapidamente o que queria o assassino com esse novo método: privação de sono! Comprovadamente uma das formas de tortura mais enlouquecedoras que existem. A loucura era certa!

“Controle mental”, pensou Simone, precisava controlar a mente. Mas por quanto tempo? Havia um limite, e conforme as forças corporais fossem falhando o controle mental seria derrubado. Ele passava geralmente uma semana com suas vítimas. Pelos cálculos de Simone, ela já deveria estar há um dia nas mãos dele. Quem seria?

A música mudava de pouco em pouco tempo, para acordes absurdamente altos e estridentes, mas a fraqueza começava a tomar conta de Simone. Ela precisava de calorias para manter o corpo aquecido, e para se somar a suas outras misérias, sentia-se febril. E o filho da puta estava só começando.

Apesar das dores e do pandemônio, Simone adormeceu. Foi acordada com um par de algo similar a algemas de ferro sendo colocadas em seus pulso. Seus braços foram puxados acima da cabeça e ela foi arrastada pelo espaço. A pele nua ia sendo esfolada no piso. O assassino arrastou-a até a torneira que ela havia usado, colocou sua cabeça embaixo e a abriu. Um jato forte de água atingiu diretamente o rosto de Simone, enquanto a mão a mantinha embaixo da torneira. Era quase impossível respirar. Ela lutava para não se afogar, com a água diretamente sobre seu nariz e boca.

Então a água parou. Ela tossia convulsivamente. A cabeça doía.

– Levante-se, vadia! – ele deu um tapa no rosto de Simone.

– Estou com sono, estou com febre, não vou durar muito assim... – balbuciou Simone.

– Já já você vai rezar para não durar, doutora. Todas imploram que eu as liberte da dor... E então… eu as liberto… Conforme a vida vai se esvaindo dos corpos, elas vão ficando em paz... Você verá...

Simone acreditava nele. As vítimas realmente devem ter implorado pela morte.

– Por que eu? Quem é você?

Simone olhou para ele pela primeira vez. Tentava reconhecê-lo, mas era impossível. Uma máscara antigás escondia seu rosto. Era com certeza um homem. Seu torso parecia familiar, mas no estado em que estava, era difícil saber de onde o conhecia. Por cima da máscara, ele usava uma peruca loira, de cabelos longos.

– Tão tola a doutora, tão confiante... E tão romântica! Será que alguém sabe como você é romântica, Dra. Bennet?

– Por que diz isso, você me conhece?

– Tenho sido sua sombra, sua vigarista! Estive várias vezes em sua casa, me sentei no seu sofá, olhei as fotos da sua menina.... Bonitinha, ela... Talvez depois de conversar com você eu converse um pouco com ela.

– Deixe minha filha em paz!

Era normal que psicopatas gostassem de ver suas vítimas implorando. Simone não faria isso. Talvez conseguisse algum meio de controlá-lo fazendo o inesperado.

– Tenho que deixá-la por ora, doutora... Ela está em Paris... Mas em breve posso decidir ir buscá-la... se você não se comportar...

– Foi você que entrou na minha casa, então. O que queria lá? – Simone se deu conta de que ele era o maluco que estava entrando em sua casa.

– Analisar como você vive, entendê-la. Fiz até uma homenagem para você!

– Uma homenagem?

– Ah, vadia ingrata! Simmmmmm, sufoquei uma das vítimas como naquela série de que você gosta! As outras matei de acordo com os episódios – aliás, gostei da série também! Assisti a alguns episódios em seu sofá, com suas ridículas almofadas de florezinhas à minha volta... Tomei seu vinho.... Estive em cada canto e buraco da sua casa.

– Mas não encontraram digitais...

– Você acha que eu sou amador, idiota? Não me dá crédito pela minha inteligência? Usei luvas e roupas sempre que entrei lá...

– Você entrou mais de uma vez?

– Sim, várias vezes! Mas aí você resolveu enfim colocar câmeras pela casa e eu fiquei sem minha diversão! Mas até que demorou. Ninguém pode acusá-la de velocidade… e sabe? Tenho que lhe dizer que seu gosto para roupas é muito ruim! Você não é feia, doutora... mas essas roupinhas de professora não a ajudam em nada!

– Roupas, por que resolveu criticar minhas roupas agora?

– Porque passeei por seus armários: triste, muito triste....

Simone tinha arrepios só de pensar nesse lunático desfilando por sua casa. Nunca mais conseguiria voltar para lá. Sentiria a presença dele em cada canto. "A quem você quer iludir, Simone?", pensou. Provavelmente a próxima casa em que viveria até o fim dos tempos seria o cemitério. “Quem dera voltar para casa nem que fosse por um dia... viva..”.

– Chega de conversinha, doutora, vamos brincar um pouquinho de elástico?

– Eu prefiro dormir...

– Mas eu prefiro brincar e aqui os brinquedos são meus e nós brincaremos quando eu quiser e pararemos quando eu disser.

Ele então pegou Simone no colo e a levou até a mesa. Ela nem resistiu, pois só perderia mais forças se lutasse, e precisava de toda a energia para se manter lúcida. Ele então amarrou os pulsos dela num dos lados da mesa e os pés do outro. Ela ficou deitada em X, ele saiu e ela pensou que ele a deixaria lá, deitada, com frio, e agradeceu mentalmente, mas começou a sentir um barulho e notou que a mesa tinha algum tipo de dispositivo elétrico que a fazia esticar. Seu corpo estava sendo alongado, puxado, esticado. Simone começou a gritar de dor, sentiu o que parecia ser uma costela se quebrar e desmaiou.

Capítulo Trinta

 

Dores excruciantes percorriam o corpo de Simone quando ela voltou a si. Sabia que o assassino ainda estava lá, olhando para ela, pelos sons que ele fazia. Sentia-se fraca como um gatinho e estava deitada sobre a mesa, que não mais se movimentava. Precisava se esforçar para tentar conversar com o assassino. Ainda que cada palavra lhe arrancasse um esforço sobre-humano, precisava entender:

– Onde você quer chegar com isso? Quem é você?

Se pudesse, teria gritado, mas seu estado não permitia. Ele se apoiava na parede, em uma perna dobrada para trás, os braços cruzados no peito, observando-a. Enfim ele disse:

– A vadia tem coragem de atravessar o meu caminho, mas não sabe quem eu sou?

– Não sei... Se pudesse ver seu rosto... Nós já nos encontramos?

– Claro, doutora, tenho observado a senhora bem de perto... Sua vidinha de merda... trabalho, casa, trabalho, casa, livros, livros... O porquê de ainda não ter-se matado vai além da minha compreensão. Sua vida é muito chata! Penso que estou lhe fazendo um favor ao tirá-la da sua miséria. Você deveria ser grata!

– Alvin?

– Meu Deus, Alvin? Quem é esse, agora? O maldito esquilo? Disse ele se referindo ao desenho Alvin e os esquilos

Realmente, não poderia ser Alvin, porque a altura não condizia e o corpo era mais atlético. Simone já havia visto aquele torso antes.

– Estou cansada...

– Deveria ter pensado nas consequências antes de abrir as pernas para ele...

– Para quem? – Simone teve uma crise de riso. Havia meses que não fazia sexo com ninguém e estava sendo torturada por supostamente ter feito isso!

– O que está achando tão engraçado? Idiota!

– Eu detesto decepcionar você, meu caro, mas faz séculos que não transo!

– Mentirosa! – ele gritou.

– Bem que eu gostaria que fosse...

– E o Carl? – aí estava a dica! A menção ao nome de Carl imediatamente trouxe a Simone a certeza de quem era o sujeito à sua frente.

– Peter?

– Ah... sua memória está retornando...

Peter tirou então a máscara. Simone jamais suspeitaria dele, um sujeito engraçado, de humor mordaz, pelos relatos no texto, mas que detestava violência de todos os tipos. Pelo que Carl dissera, um grande amigo, alguém com quem contar.

– Peter... eu somente ajudei Carl a entender o que aconteceu com Lara! Nunca fiz sexo com ele... Eu não atravessei o seu caminho...

– Você deve achar que eu sou uma pessoa com desordem cognitiva, não? Todas aquelas horas trancada com ele, aqui e ali, sempre precisando “discutir” um caso morto e enterrado! Eu vi os jantares românticos, a casa de suingue, a noite no apartamento. Vai me dizer que ficaram jogando videogame?

– Estávamos trabalhando!

– Mudou de nome, agora? Putas trabalham dessa forma!

– Eu juro...

– Você pode jurar até que porcos podem voar, doutora... Mas agora você é minha...

– Que importância Carl tem em sua vida? – Simone precisava fazê-lo falar, em busca de um chave para convencê-lo a deixá-la ir embora. Ele era um psicopata, existiam formas de influenciá-lo. Subitamente, sentiu-se com energia suficiente para tentar dominar a situação. Sobrevivência era o nome da energia que sentia.

– Eu faço as perguntas aqui! Que importância tem Carl na sua vida?

– Ele é um cliente como outro qualquer .

– Ele não é um qualquer, Carl é tudo!

– Para você! Para mim é um cliente, apenas. Quero ajudá-lo, mas é só. Ele é importante para você, Peter?

– Simmmmmmm. Desde o primeiro dia em que o vi, me apaixonei, mas sempre tem alguém para querer entrar no meu caminho. Primeiro a imbecil da minha irmã, que nos apresentou.

– Você tinha ciúmes da sua irmã?

– Morria de ódio daquela idiota perfeitinha! Mas não se pode matar a família... ao menos não enquanto mamãe estiver viva!

– Corleone? Corleone. Você soou exatamente como ele! – Simone se lembrou do relato de Carl sobre Peter ser viciado na trilogia do poderoso chefão.

– É... meu herói! Ele falou com voz infantil, e aparentemente orgulhoso de si.

– Eu também gosto muito desses filmes, especialmente do primeiro... – Simone estava conseguindo estabelecer contato com ele.

– Depois veio a retardada da Lara.

– Mas você era amigo de Lara...

– Lara era família, também, muito antes de Carl, e Lara era eu e eu era a Lara, então a perdoei, porque cada vez que ela estava com ele eu também estava, entende? Mas não era para ela ficar com ele, achei que ele a descartaria rápido, aquela louca lá…

– Sim, entendo. Você gostaria de ter sido a Lara?

– Eu era a Lara!

Agora era o momento de ter cuidado, porque ele estava entrando na fantasia de ser outra pessoa.

– Está vendo meu anel? – ele mostrou então a mão com um anel de brilhantes similar à descrição do texto de Carl. Quando ela se foi, foi tudo que consegui ter dela! Antes que a enterrassem, tirei-o da mão dela… É lindo, não é? Quando o uso, me sinto poderoso. Como se ela entrasse em mim e fôssemos um. E nós amamos o Carl, ele é nosso!

– Você matou Lara?

– Eu não! Carl matou Lara! Ela era louca! Eu matei a mãe dela. Aquela louca não morria nunca e eu sabia que a morte dela iria desestabilizar a Lara, eu precisava disso, porque Carl estava se envolvendo muito com ela e já não precisavam de mim.

– Como a matou?

– Ela estava no hospital sozinha… Fui fazer uma visitinha… Com uma arma, a fiz até escrever uma carta de amor para os filhos… Três idiotas que ela criou… Aí desliguei o oxigênio… Depois que ela sufocou, coloquei novamente… Fomos vingados…

– Quem?

– Eu e a Lara.

Que loucura, ele queria ser Lara, queria destruir Lara, insanidade completa! Anos lidando com a mente humana e Simone nunca estivera frente a frente com alguém tão perturbado.

– Mas eu queria de verdade era tirar a Lara da vida do Carl, porque eles não estavam me deixando participar, ficar junto com eles.

– Você ama Carl?

– Carl é tudo para mim!

– Peter, você tem que dizer isso a ele. Tem que dizer como se sente, que o ama!

– Ele não consegue entender que esse corpo aqui é um corpo errado, que eu sou uma mulher dentro de um homem. Ele não consegue perder o preconceito e ver dentro de mim para reencontrar a Lara.

– Eu posso ajudá-lo... Nós vamos conseguir...

– Nós não vamos conseguir nada, sua safada. Está tentando me enganar com sua conversinha mole de psiquiatra! Venha cá.

Peter então arrastou Simone pelos braços até o centro, onde a gaiola tinha ficado, retirou a corrente da gaiola e a instalou nas algemas que estavam nos pulsos de Simone. Foi até uma espécie de painel e içou as correntes rapidamente, até Simone ficar suspensa pelos pulsos. Simone não conseguiu conter o grito de dor. Seus pulsos provavelmente foram quebrados.

Ele então baixou a corrente e deixou-a nua, amarrada, de joelhos, com os pulsos fraturados, no centro da sala.

Pela primeira vez Simone começou a chorar, não lágrimas de dor, mas um choro verdadeiro, de desespero e de não ver saída. Ele era completamente alucinado, não era possível ter contato com sua parte lúcida. Ele iria matá-la.

Todo o seu corpo doía intensamente. Chorou e decidiu se conter. Tinha que se manter lúcida, tinha que superar as dores, porque era sua única saída. Pensou e entendeu que conseguira por um breve tempo fazer contato com Peter. Talvez conseguisse fazer isso novamente e convencê-lo a deixá-la partir.

Quanto mais ela aguentaria?

Ele a deixou sozinha por horas, sem comida, sem roupas, sem água, mas em paz. E subitamente lá estava ele novamente. O coração dela se acelerou, abastecido pela adrenalina. Ele a soltou da corrente, agarrou-a pelos cabelos, levantou-a e a levou até a cadeira. Tirou-lhe as algemas e prendeu seus pulsos e tornozelos na cadeira com correias de couro. Ela se sentia quase morta. Não saberia dizer onde a dor era pior, pois o corpo inteiro doía.

– Eu quero conversar, doutora… quer uma maçã? Sabia que uma por dia mantém o médico longe?

“E quantas seriam necessárias para mantê-lo longe?”, ela divagou.

– Quero, Peter, mas não conseguirei comer. Desamarre meus pulsos, por favor.

Ele fez isso e lhe estendeu uma maçã. O simples ato de segurar a fruta fazia com que Simone sentisse dores horríveis nos pulsos, mas ela estava faminta.

– Quer mais?

– Quero.

Peter então lhe deu outra maçã e aguardou pacientemente que Simone a comesse. Ela nunca imaginara que uma maçã fosse tão gostosa. Comeu lentamente, para ganhar tempo. O que viria agora? Não tinha pressa em descobrir.

– Pronta para conversar, doutora?

– Sobre o quê, Peter? Posso tomar água, por favor?

Ele se levantou, foi até a pia e voltou com um copo de água.

– Obrigada, Peter!

– Meu nome é Lara!

– Certo, Lara, o que deseja de mim?

– Me conte tudo: quantas vezes você fodeu o Carl e onde?

– Nunca. Nós nunca fizemos nada disso! Eu tenho ética, não faria isso com um cliente!

Ele tinha entrado na sala com uma espécie de regador. Agarrou Simone pelos cabelos, levou sua cabeça para trás, pegou o regador e começou a despejar água em sua boca com uma mão, enquanto segurava sua cabeça para trás. Simone teve certeza de que iria se afogar. Ele então a soltou. Esperou-a parar de tossir para continuar.

– Não minta para mim!

– Não, Lara, não estou mentindo para você! Carl sempre foi seu... o tempo todo... Ele só me procurou pela dor que sentia quando você partiu... Ele iria enlouquecer se não conseguisse entender a história. Eu só o ajudei... foi tudo.

– Ele me ama?

– Mais do que a ele mesmo – Simone acreditou tê-lo acalmado um pouco concordando em entrar na fantasia.

– E por que ele não consegue ver que estou aqui? – apontou para o próprio corpo.

– Leva algum tempo para as pessoas se acostumarem com novas formas. Carl é muito tradicional, eu penso.

– Eu também acho... mas tenho esperança de que um dia ele me olhe e me veja aqui...

– Você terá que contar a ele... Eu sei que parece conversa de psiquiatra, mas você terá que ser sincera com ele. O preconceito não o deixa ver você, Lara, mas ele também não sabe que você está aí! – Simone apontou para o peito de Peter.

– E se eu falar e ele não me quiser? Se não acreditar? A mamãe não acreditou…

– No que sua mãe não acreditou?

– Que a babá me obrigava a fazer coisas nojentas…

– Que coisas eram essas?

– Ela me obrigava a chupar aquela boceta imunda e malcheirosa todos os dias, quando mamãe viajava…

– Sua mãe não acreditou em você?

– Não… Ela não acreditou em mim. E ela não parava: todos os dias, todos os dias eu tinha que chupar e chupar. Cheguei a vomitar, mas ela me obrigava – ele se sentou no chão, com as pernas encolhidas, e começou a chorar como se fosse uma criança. Simone sentiu pena da criança que ele fora.

– E sua irmã?

– Ela estava longe, no colégio interno… Eu não podia falar com ela… Tive que aguentar aquilo por um ano antes que me mandassem para o colégio interno para aprender a parar de mentir. Mas fui feliz, porque ficaria longe daquela mulher.

– Eu acredito em você, Peter – ela tinha certeza de que agora era Peter.

– Você acredita em mim?

– Sim, eu acredito. Por isso você tem ódio de mulheres. Foi por isso que começou a matar mulheres?

– Sim… mas eu queria matá-la…

– A mulher que o obrigava?

– Sim… Eu a odiava tanto… Um dia fui à Disney e ela estava na fila com uma criança da minha idade… Eu a matei… Ela ia fazer mal para o pequeno Peter de novo...

– Que idade você tinha quando isso começou a acontecer?

– Cinco.

– Peter, deixe-me ajudá-lo! Eu posso cuidar de você. Você ficará bem…

– Você é uma mentirosa! Todas as mulheres são mentirosas! Ela dizia que eu ia aprender a gostar daquilo que me obrigava a fazer, e eu odiava cada vez mais!

Ele começou a chorar com angústia e pôs as duas mãos na cabeça em sinal de desespero. Então se levantou e saiu. Simone ouviu a porta sendo trancada. Quando voltasse, provavelmente ele a mataria.

Simone reviu mentalmente sua vida, da infância até o momento presente. Reviu seu relacionamento com Edward – sempre que precisara, ele estava lá. Era seu anjo da guarda, seu amigo, seu conselheiro... Ah… se tivesse tempo… daria uma chance para ver onde poderiam chegar… Agora… já não havia mais essa possibilidade… Mas ele fora, com certeza, a melhor pessoa que passara por sua vida. Ela não poderia dizer isso a ele, pois iria morrer mais cedo ou mais tarde.

Lembrou-se de sua gravidez, indesejada a principio, mas que lhe trouxera Tamara, uma linda garotinha que deu novo sentido à sua vida. Lembrava-se de Tamara pequenina, com seus cachinhos dourados e seus lindos olhos azuis angelicais, sempre brincando com bonecas.

Simone estava febril, intercalava lucidez e delírio. Não sabia quanto tempo havia se passado. Perdera a noção das horas. Só sentia dor e frio, e já não sentia fome. Tinha noção de que a luz natural ia e vinha. Talvez tivesse se passado um dia ou outro, mas não sabia e não se importava. Ele não voltou por algum tempo.

Subitamente, a porta se abriu e Simone se preparou para morrer. Delirava já com a forte febre que tomava conta do seu corpo.

– Simmie, meu amor, o que fizeram com você?

Simone acreditou que havia morrido, pois ouvia a voz de Edward e sentiu algo quente sobre seu corpo. Alguém lhe soltou mãos e pés e a colocou numa mesa, ou talvez numa maca. Ele iria esticá-la novamente!

– Eu morri… Não posso aguentar mais. Me mate, por favor, rápido!

– Não, meu amor, sou eu, Edward. Você vai ficar bem, tudo vai ficar bem, prometo. Nada mais vai acontecer com você, eu juro, vou protegê-la para sempre!

Era realmente a voz de Edward. Ele segurava sua mão. Simone abriu um pouco os olhos, viu policiais vasculhando o ambiente e foi carregada para fora numa maca. Estava exausta e fechou os olhos. Acordou num hospital. Edward, sentado numa cadeira, dormia.