Como Lidar com a Sogra

Gary Chapman · Capítulo 1 de 10

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Como Lidar com a Sogra

Apresentação

 

Por trinta anos, muitas pessoas apareceram em meu escritório, sentaram-se e

começaram a compartilhar as lutas que enfrentavam com a família do cônjuge. Eu

as ouvia dizer:

 

“Minha cunhada está me deixando maluca. Ela quer me ensinar como

criar meus filhos, mas nem casada é! O que ela sabe sobre a

maternidade?”

“Minha sogra e minhas cunhadas me deixam de fora de tudo. Elas se

encontram para tomar café todo sábado enunca me convidam para

acompanhá-las. Sabem que minha mãe e minhas irmãs moram a quase

mil quilômetros de mim. Sinto-me excluída daquelas coisinhas de mulher

que elas fazem juntas.”

“Quando meu sogro chega para jantar, só fala sobre esportes, o trabalho

dele ou as coisas que leu no jornal. Ele nunca pergunta nada sobre a

nossa vida e parece não ter o menor interesse em nós em termos

emocionais.”

“Meu cunhado tenta controlar meu marido. Ele é cinco anos mais velho e

talvez tenha passado a vida inteira fazendo isso, mas eu não gosto.”

“Na prática, nosso genro sequestrou nossa filha. Desde que os dois se

casaram, ele se recusa a permitir que ela participe dos encontros de

família.”

“Quando os pais de minha esposa nos convidam para sua casa, sempre

incluem todos os filhos deles com as respectivas famílias. Pelo menos

uma vez, eu gostaria que eles nos recebessem apenas como um casal.”

“Os pais de minha esposa dão dinheiro para que ela compre coisas que

não podemos. Isso me aborrece. Eu preferia que eles nos deixassem

cuidar de nossa vida.”

“A mãe de meu marido vive querendo me ensinar a cozinhar. Durante os

cinco anos anteriores ao meu casamento, eu já fazia a minha comida.

Acho que sei muito bem preparar uma refeição. Não preciso da ajuda de

minha sogra.”

“É complicado convidar apenas meu cunhado e minha cunhada para fazer

alguma coisa. Minha sogra é divorciada, e nos sentimos obrigados a

incluí-la nesses programas.”

“Os pais de meu marido simplesmente aparecem de repente, sem avisar.

Às vezes, estou no meio de um projeto que preciso terminar. Gostaria que

eles respeitassem nossa agenda.”

Talvez você tenha algumas reclamações pessoais para adicionar a essa lista. Os

problemas com os parentes do cônjuge costumam se concentrar em questões

relacionadas ao controle, à interferência, à inconveniência e ao conflito de valores

e tradições. O propósito deste livro é oferecer ideias práticas sobre como enfrentar

essas lutas e construir relacionamentos saudáveis.

Quando as pessoas se casam, elas não se unem apenas uma à outra; também

se casam com uma família mais ampla, que consiste no sogro, na sogra e, talvez,

nos cunhados. Esses parentes por extensão podem ser encontrados em todos os

tipos, tamanhos e personalidades. Eles carregam uma história de tradições

familiares e maneiras de se relacionar. Não importa o que precisamos dizer a

respeito de famílias, em uma coisa temos de concordar: cada uma é diferente da

outra. Essas diferenças costumam gerar dificuldades de ajuste.

Se formos capazes de promover esses ajustes, podemos desenvolver relações

saudáveis com os parentes do cônjuge. Caso contrário, essas pessoas se

transformam em um problema dos grandes. O relacionamento com os pais (sejam

os dele ou os dela) é a área em que os conflitos são mais comuns.

Segundo o plano de Deus, os parentes do cônjuge não deveriam constituir um

fator de divisão na família. Em tese, teriam a responsabilidade de oferecer apoio. A

liberdade e a harmonia são ideais bíblicos para o relacionamento com os parentes

do cônjuge. Para alcançar esse objetivo, o casamento deve seguir sobre duas

trilhas paralelas: separar-se dos pais e dedicar-se a eles.

 

SEPARAR-SE DOS PAIS

As Escrituras afirmam: “Por essa razão, o homem deixará pai

e mãe e se unirá a sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gn 2:24; cf. Ef

5:31). O padrão divino para o casamento envolve “deixar” os pais e se unir a um

cônjuge. Por essa razão, o casamento envolve uma mudança em termos de

dedicação. Antes de se casar, a dedicação da pessoa é aos pais. Depois do

casamento, essa dedicação passa a ser ao cônjuge.

Costumamos chamar isso de “corte das amarras psicológicas”. Se há um conflito

de interesses entre a esposa e a mãe de um homem, ele deve ficar ao lado da

esposa. Isso não significa que a mãe deva ser tratada de maneira rude; quer dizer

apenas que ela deixou de ser a mulher a partir da qual a vida dele é orientada.

Esse princípio, “separar-se dos pais”, é muito importante. Procuraremos formas de

aplicação desse princípio nos capítulos a seguir. Nenhum casal alcançará seu

potencial máximo no casamento sem essa ruptura psicológica em relação aos pais,

sejam os dele ou os dela.

Talvez não haja nenhum momento em que esse princípio de separação dos pais

seja mais importante do que na hora de tomar decisões. Seus pais e os pais de seu

cônjuge podem oferecer sugestões interessantes a respeito de muitos aspectos de

sua vida como casal. Cada sugestão deve ser levada em consideração. Contudo, em última análise, quem deve tomar a decisão final é o casal. Não se pode permitir

que os pais manipulem a situação de modo que vocês acabem tomando decisões

com as quais não concordam.

 

DEDICAR-SE AOS PAIS

O segundo princípio fundamental do casamento é que devemos honrar nossos pais.

Deus concedeu os Dez Mandamentos à antiga Israel, um dos quais é: “Honra teu

pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o SENHOR, o teu Deus, te

dá” (Êx 20:12; cf. Dt 5:16). No Novo Testamento, o apóstolo Paulo reafirma esse

princípio: “Honra teu pai e tua mãe — este é o primeiro mandamento com

promessa — para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra” (Ef 6:2-

3).

O mandamento para honrar os pais não se encerra quando nos casamos. A

palavra “honrar” significa “demonstrar respeito”. Quer dizer que devemos tratar os

outros com gentileza e dignidade. Certa vez, uma mulher me disse: “Com a vida

que levam, meus pais não se fazem respeitar. Como posso respeitá-los se não

concordo com o que fazem?”.

De fato, nem todos os pais vivem uma vida honrada. Pode ser que façam coisas

não muito dignas de respeito. Contudo, devemos honrá-los, pois foram criados à

imagem de Deus e nos concederam a vida. Podemos não concordar com as

escolhas que fazem nem com o estilo de vida que escolheram, mas devemos

respeitá-los como pessoas mesmo quando discordamos do comportamento deles.

Honrar os próprios pais e os pais do cônjuge é sempre a coisa certa a fazer.

Separar-se deles em consequência do casamento não suprime a responsabilidade

de honrá-los.

Como podemos honrar nossos pais no dia a dia? Quando mantemos os canais de

comunicação desobstruídos: visitas, telefonemas, envio de cartas ou mensagens

eletrônicas. Nesse tipo de comunicação, o objetivo é transmitir a seguinte

mensagem: “Ainda amo vocês e quero que continuem fazendo parte de minha

vida”. Deixar os pais nunca deve ser interpretado como abandoná-los. O contato

frequente faz parte do significado de “honrar” os pais. Quando negligenciamos essa

comunicação, estamos dizendo: “Não me importo mais com vocês”.

Outra maneira de honrar os pais pode ser encontrada no Novo Testamento:

“Mas se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a

colocar a sua religião em prática, cuidando de sua própria família e retribuindo o

bem recebido de seus pais e avós, pois isso agrada a Deus” (1Tm 5:4). Quando

éramos jovens, nossos pais supriam nossas necessidades físicas. À medida que

crescemos e amadurecemos, nosso dever é fazer o mesmo por eles.

Se e quando surgirem as necessidades físicas de nossos pais, devemos assumir a

responsabilidade de supri-las. Deixar de fazer isso é o mesmo que negar nossa fé

em Cristo. O apóstolo Paulo afirmou: “Se alguém não cuida de seus parentes, e

especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente” (1Tm 5:8). Por meio de nossas ações, devemos demonstrar nossa fé em Cristo,

honrando nossos pais.

 

A PERSPECTIVA DOS PAIS

Se temos filhos casados, isso nos ajuda muito a lembrar-nos de nosso objetivo.

Desde que os filhos nascem, nós os orientamos para que se tornem independentes

— pelo menos, é isso que deveríamos fazer. Nós os ensinamos a preparar uma

refeição, lavar os pratos e fazer a cama, comprar roupas, economizar dinheiro e

tomar decisões. Nós lhes ensinamos como demonstrar respeito pelas autoridades e

mostramos o valor de cada indivíduo. Em resumo, procuramos orientá-los rumo à

maturidade. Queremos torná-los pessoas capazes de viver bem por conta própria.

Quando eles se casam, nosso objetivo de ajudá-los a se tornar independentes se

realiza. Nós os ajudamos a sair de um estado de dependência completa para

alcançar a independência total no casamento. No futuro, precisamos passar a vê-

los como adultos capazes de definir seus próprios caminhos, sejam quais forem as

consequências. Nunca mais podemos impor nossa vontade sobre a vida deles.

Precisamos respeitá-los como pessoas iguais a nós.

Isso não quer dizer que nunca mais ajudaremos nossos filhos casados; significa

que, quando tivermos o desejo de ajudar, precisaremos perguntar primeiro se eles

precisam de nosso auxílio. Um presente indesejado não é um presente, mas um

fardo.

Às vezes, os pais oferecem ajuda financeira aos filhos casados e, com isso, os

estimulam a viver de acordo com um padrão que não podem sustentar. Essa

prática não ajuda a promover a independência do casal. Do mesmo modo, os pais

não devem usar presentes para influenciar um filho casado. “Vamos comprar um

carro zero quilômetro para você, mas só se...” — isso não é um presente, mas uma

forma de manipulação.

Às vezes, os pais desejam dar conselhos aos filhos casados. A regra é bem

simples: os pais só devem dar conselhos quando os filhos pedem. Se os seus filhos

não lhe pediram conselho mas você faz questão de compartilhar a sua experiência,

pelo menos peça permissão para fazê-lo. “Você se importaria se eu compartilhasse

a minha opinião a respeito desse assunto?” — essa é uma pergunta adequada. Dar

conselhos que seus filhos não pedem não ajuda a desenvolver relacionamentos

saudáveis.

Esses ideais aos quais aspiramos são a liberdade e a harmonia. O casal precisa

do acolhimento emocional que brota de um relacionamento integral com os pais do

marido e da esposa. Esses pais, por sua vez, também precisam do acolhimento

emocional que o casal deve proporcionar. A vida é curta demais para ser vivida à

base de relacionamentos problemáticos. Nem sempre concordaremos com as coisas

que nossos filhos casados fazem, mas podemos demonstrar respeito e oferecer a

eles a liberdade de tomar decisões por conta própria.

Assim, como podemos nos tornar efetivamente amigos dos parentes de nossos cônjuges? Nas páginas a seguir, compartilharei sete princípios que mudarão

radicalmente o conceito de relacionamento com essas pessoas. Minha intenção, ao

escrever este livro, era mesmo a de não escrever demais. Sei que você é uma

pessoa ocupada. É provável que consiga terminar a leitura em menos de duas

horas.

Você descobrirá que ler este livro será um bom investimento de seu tempo. E,

no fim de cada um de seus breves capítulos, encontrará sugestões objetivas sobre

como colocar essas ideias em prática dentro da estrutura de sua família. Não

importa se você é um genro, uma nora, uma sogra, um sogro, uma cunhada ou um

cunhado: esses princípios foram desenvolvidos para ser aplicado a sua vida. Se

você colocá-los em prática nos relacionamentos com os parentes de seu cônjuge,

posso garantir que começará a notar mudanças positivas nas atitudes e no

comportamento dessas pessoas.

Ao término de cada capítulo, os leitores encontrarão uma seção intitulada

“Colocando os princípios em prática”. Siga essas sugestões e estará no caminho

certo para estabelecer relacionamentos saudáveis com os parentes de seu cônjuge.