Como Lidar com a Sogra
1. Ouça antes de falar
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Ouça antes de falar
A SOGRA DE MARSHA É MUITO RICA. Marsha, por sua vez, foi criada em um lar modesto no
qual a ênfase sempre esteve no sacrifício pessoal e na generosidade. O pai de
Marsha era diretor do comitê missionário da igreja; sua mãe se envolvia
ativamente no ministério feminino. Até onde Marsha conseguia se lembrar, todo
ano seus pais economizavam uma quantia considerável para a oferta missionária
anual. Quando criança, ela própria separava uma parte de sua mesada para
entregar como oferta.
Depois de dois anos de casamento, a frustração de Marsha com a sogra era
total.
Todo mês ela me convida para almoçar. Sempre fico feliz pela oportunidade de revê-la. No entanto, depois do almoço, ela insiste em que eu a acompanhe ao shopping para comprar um vestido novo para mim. No início, adorei a generosidade da atitude. No entanto, com o tempo, percebi que o almoço ficava cada vez mais curto, enquanto as compras começavam a ocupar a tarde inteira. Ela nunca procura as peças que estão em liquidação e já me comprou vestidos muito caros.
Marsha prosseguiu:
Vejo isso como uma extravagância, um desperdício de dinheiro. Tenho a impressão de que ela está tentando comprar minha amizade ao agir assim. Quando lhe explico que não preciso de nenhum vestido, ela diz: “Toda mulher precisa de um vestido novo. Faz bem para o espírito”. Ora, isso não está fazendo nenhum bem ao meu espírito. Pelo contrário, tem feito crescer meu ressentimento para com ela. Por que não entrega esse dinheiro às pessoas que precisam dele de verdade? Meu armário está cheio de vestidos porque não quero magoá-la. Eu gostaria de ter outro tipo de relacionamento que não se concentrasse nas coisas que ela compra. Gostaria de almoçar com ela por mais tempo, em um lugar sossegado, falando de coisas agradáveis. Gostaria de saber como foi a infância de minha sogra... Que tipo de lutas ela e meu sogro tiveram de enfrentar no início do casamento... Como ela se sentia como dona de casa. Ela só fala sobre as partidas de golfe e os jogos de cartas dos quais participa. Às vezes tenho a sensação de que ela é uma pessoa muito solitária e que as compras são a maneira que encontrou de tentar esquecer essa solidão. Não sei. Só queria que nosso relacionamento fosse algo mais “pé no chão”.
Marsha guardava esses pensamentos e sentimentos para si. Ela tentava
compartilhá-los com o marido, Rick, mas a resposta dele era sempre a mesma:
“Deixe que mamãe continue comprando os vestidos. É o jeito que ela tem de
demonstrar quanto gosta de você”. Talvez Rick esteja certo. Contudo, se for
verdade, a mãe dele está errando na mão. Marsha não se sente mais amada com
isso — pelo contrário, ela se ressente da atitude da sogra.
— Você já tentou falar com sua sogra a respeito das coisas que pensa e sente?
— perguntei a Marsha.
— Ainda não — Marsha respondeu. — Ela é uma daquelas mulheres autoritárias
que falam a maior parte do tempo e raramente fazem perguntas. Quando ela
resolve parar e perguntar alguma coisa, tenho a sensação de que não presta
atenção a minha resposta, pois já está ocupada pensando naquilo que vai dizer em
seguida. Fico tensa quando estou perto dela.
Ficou-me evidente que Marsha tinha um problema sério que só poderia ser
resolvido se tomasse alguma iniciativa.
— Mas eu não posso simplesmente dizer a ela que isso me aborrece —
justificou-se Marsha — e não posso deixar de almoçar com ela por causa disso. É o
único contato que temos. Se eu contar a minha sogra que não quero os vestidos,
tenho medo de que ela se magoe. Não sei mesmo o que devo fazer. É por isso que
estou aqui.
— Fico feliz que você tenha me procurado — eu disse. — Não sou nenhum santo
milagreiro, mas tenho uma ideia que gostaria de sugerir. Da próxima vez que você
almoçar com sua sogra, diga a ela: “Antes de sairmos para fazer compras, quero
fazer uma pergunta: em uma escala de 1 a 10, como você avalia o prazer que
sente em me levar para comprar vestidos?”. Se a resposta dela for 8, 9 ou 10, que
é o que acredito que ela vai dizer, então pergunte: “Por que você se sente tão bem
em fazer essas coisas para mim?”.
Continuei com a orientação:
— Ouça atentamente. Em seguida, certifique-se de que ouviu bem a resposta
que ela deu. Por exemplo, você pode dizer assim: “Pelo que entendi, você está
dizendo que gosta de me comprar essas coisas porque, quando se casou, sua sogra
não tomava essas atitudes, e isso a magoou. Você não deseja que isso aconteça
em nosso relacionamento. Está correto?”. Continue a fazer perguntas
esclarecedoras até sentir que já entendeu o que está por trás do desejo que sua
sogra tem de fazer compras para você.
Marsha me ouvia com atenção. Prossegui:
— Em seguida, demonstre a ela seu apreço pelo que está fazendo por você.
Tendo compreendido a motivação de sua sogra, acredito que isso será bem mais
fácil. Diga a ela que se sente realmente grata por ter uma sogra tão carinhosa e
atenciosa. Depois, diga como aquela conversa foi importante para você: que agora
se sente como se a conhecesse melhor e que passou a admirá-la ainda mais. Aí,
então, vá fazer compras e permita que ela compre o que quiser para você. No mês
seguinte, quando vocês almoçarem, faça mais perguntas a sua sogra. Fale sobre
como você gostou da conversa que tiveram um mês antes e peça, se ela não se
incomodar com isso, que revele mais coisas a respeito dela. Você deve fazer
perguntas do tipo: “Como você foi criada?”; “Como era a sua vida de
adolescente?”; “Como foi que conheceu seu marido?”; “O que a levou a tomar a
decisão de se casar?”; “Como foram os primeiros anos do casamento?”; “Quais
foram as situações mais marcantes em sua família e em seu casamento?”. É possível que não dê para perguntar tudo isso em um só bate-papo, mas escolha
algumas dessas questões.
Continuei explicando a Marsha como deveria proceder:
— Ao agir assim, você está procurando conhecer melhor sua sogra. Fazemos isso
quando perguntamos as coisas e ouvimos as respostas. Repito: formule perguntas
esclarecedoras para ter certeza de que entendeu bem o que ela disse. Por
exemplo: “Está me parecendo que você se sentia muito magoada com o
comportamento de seu pai. É isso mesmo?”. Independentemente da resposta de
sua sogra, repita-a em forma de pergunta para dar-lhe oportunidade de deixar tudo
bem claro. Fale sobre como está gostando da conversa e que se sente grata pelo
fato de ela se dispor a compartilhar sua história pessoal. Em seguida, vão às
compras. Quando ela ligar no terceiro mês a fim de convidá-la para almoçar, diga
assim: “Mal posso esperar para vê-la. Gostei demais de nossa última conversa.
Tenho uma sugestão. Eu queria ir a uma exposição em um museu na cidade. Que
tal se desta vez, depois do almoço, fôssemos ver essa exposição em vez de ir ao
shopping ?”. Se ela aceitar a sua sugestão, ótimo. No entanto, se ela disser que
quer ir à exposição e depois sair para fazer compras, responda desta maneira:
“Tudo bem. Talvez até tenhamos tempo para isso, mas vamos primeiro à
exposição e depois vemos como é que fica. Pode ser?”. Há grande chance de ela
concordar. Depois de visitarem a exposição, as duas decidem se ainda há tempo
para ir ao shopping. Talvez possam fazer comprinhas rápidas dessa vez, ou mesmo
não fazer compra alguma. De um jeito ou de outro, você conseguiu mudar o padrão
de almoço seguido de compras.
Marsha continuava atenta, por isso concluí o raciocínio:
— No quarto mês, você pode ter outro bate-papo interessante com ela e fazer a
sugestão de passar a alternar compras em um mês e alguma outra atividade social
juntas no encontro seguinte. Você pode dizer: “Afinal de contas, meu armário está
ficando lotado, e eu gostaria muito de fazer outras coisas em sua companhia”. Se
ela aceitar essa proposta, você terá acabado de mudar o paradigma das compras
mensais. Nos meses posteriores, pode até tomar coragem e fazer outra sugestão:
“Em vez de adquirir mais um vestido para mim, que tal se levássemos a filha que
um amigo meu adotou e comprássemos roupas para ela?”. Ou então, em outro
desses encontros mensais, talvez você possa convencê-la a adquirir cestas básicas
para uma família que está passando por necessidade ou material escolar para um
grupo de crianças cujas famílias são de baixa renda. Aos poucos, você estará
ajudando sua sogra a canalizar sua generosidade para áreas que agradem a
ambas. Além disso, passará a conhecê-la melhor como ser humano, e não
simplesmente como uma senhora com quem costuma almoçar e fazer compras
uma vez por mês.
Quando chegamos ao fim da conversa, Marsha estava muito mais feliz. Ela me
disse:
— Se metade do que o senhor me descreveu acontecer mesmo no meu relacionamento com minha sogra, já me dou por satisfeita.
Ao longo dos meses seguintes, Marsha viu muitas daquelas projeções se
transformarem em realidade. Ela e a sogra se tornaram ótimas amigas. Marsha
aprendeu a aceitar os presentes como expressões de amor, ao mesmo tempo em
que ensinou a sogra a compartilhar o que a vida lhe proporciona. Alguns meses
depois, encontrei essa sogra ao acaso. Ela me disse: “Marsha é a melhor coisa que
aconteceu em minha vida. Ter um filho é maravilhoso, mas ter uma nora é ainda
melhor”. Não sei como o filho dela se sentiria se ouvisse aquilo, mas era evidente o
afeto daquela mulher por Marsha.
A história de Marsha demonstra o poder que há na disposição de ouvir. O
propósito de ouvir é descobrir o que se passa na mente e no coração das pessoas.
Se entendermos o motivo que leva as pessoas a fazer o que fazem, nossas reações
poderão ser mais adequadas. Por exemplo, a atitude de Marsha mudou quando ela
descobriu que a sogra lhe comprava muitos vestidos porque, nos primeiros anos do
casamento, tinha pouco dinheiro para roupas e por isso vivia passando por
constrangimentos na hora de se vestir.
Entender uma situação geralmente muda nossa percepção das pessoas e, como
consequência, os sentimentos negativos que possamos ter em relação a elas.
Trata-se de um princípio psicológico fundamental: não podemos ler o pensamento
dos outros. Observamos como eles se comportam, mas não sabemos o que os
motiva a agir daquele modo, a não ser quando temos a oportunidade de ouvir o
que têm a dizer. A maioria de nós não foi treinada para ouvir. Por essa razão, é
muito comum interpretarmos mal as atitudes das pessoas que fazem parte da
família do cônjuge. Eu gostaria de compartilhar algumas orientações que podem
ajudar você a ouvir melhor o que os outros estão tentando dizer.
FAÇA PERGUNTAS
A maneira mais eficaz de descobrir o que está se passando na mente dos parentes
de seu cônjuge é fazer perguntas. Muita gente só fala a respeito dos pensamentos
e sentimentos que motivam seu comportamento quando alguém se dispõe a
perguntar. Marsha não teve dificuldade alguma em perceber o comportamento da
sogra, que a levava ao shopping e lhe comprava vários vestidos. No entanto, ela
não sabia que o comportamento da sogra era motivado por acontecimentos que
remontavam aos primeiros anos do próprio casamento. Essa informação só
apareceu como resposta a uma pergunta.
As perguntas devem ser feitas com muito critério. Quanto mais específicas maior
a possibilidade de descobrir a informação que procura. Você pode puxar assunto
com algumas perguntas preliminares. Por exemplo: “Quem você acha que vai
ganhar o campeonato de futebol?” é uma maneira de dar início a um bate-papo
com o sogro. Em seguida, você pode perguntar: “Desde quando você se interessa
por futebol? O que despertou seu interesse?”. As respostas a essas perguntas
podem revelar, entre outras coisas, que seu sogro nunca perde uma partida de futebol.
Do mesmo modo, as perguntas devem ser sempre sinceras. Você não está
fazendo uma série de perguntas com o objetivo de pôr os parentes de seu cônjuge
contra a parede e vencer uma
discussão. Seu objetivo é compreendê-los melhor. De modo geral, quando as
pessoas sentem que você está mesmo interessado nelas e quer conhecê-las
melhor, costumam responder a todas as perguntas de maneira franca e
descontraidamente.
A sogra de Marsha não se recusou a falar a respeito dos primeiros anos de seu
casamento. Marsha, por sua vez, nunca antes demonstrara interesse por aquela
parte da vida dela. Quando viu que Marsha estava sinceramente interessada, sua
sogra falou abertamente a respeito do que motivara seu interesse em fazer
compras e dar presentes.
Pedir aos parentes de seu cônjuge que classifiquem seus sentimentos em uma
escala de 1 a 10 é um modo rápido e fácil de descobrir até que ponto determinado
assunto mexe com eles. Jason usou essa técnica desde o início de uma conversa
séria que teve com o sogro, que o frustrava com sua propensão ao jogo. Quando
descobriu que o sogro havia levado seu filho de dez anos, Bobby, a um cassino,
Jason ficou furioso e disse à esposa: “Nunca mais permitirei que Bobby volte a ver
seu pai”. Duas semanas depois, quando Jason já estava mais calmo, eu o desafiei
a fazer perguntas ao sogro e ouvir as respostas dele.
Ele pediu ao sogro que classificasse sua satisfação em ir ao cassino em uma
escala de 1 a 10. Quando ouviu a resposta — “Dez!” —, Jason percebeu que se
tratava de algo muito importante para ele. Em seguida, Jason prosseguiu com as
perguntas:
— Por que você acha que o jogo proporciona tanto prazer?
— Para mim, é uma forma de recreação — o sogro respondeu. — Jogo porque
tenho dinheiro e não preciso me preocupar em como devo gastá-lo. Quando eu era
criança, não tínhamos muito dinheiro. Nunca sabíamos se teríamos algo para jantar
ou se meu pai ia dizer: “Vamos para a cama mais cedo. De manhã tomamos um
café bem caprichado”. O café da manhã era sempre mingau de aveia. Podíamos
tomar quanto mingau quiséssemos, mas só isso. Eu via meus amigos cheios de
dinheiro para gastar à toa, por isso tomei uma decisão: quando eu me tornasse
adulto, ganharia muito dinheiro e nunca mais pediria nada a ninguém. E consegui.
Agora tenho a satisfação de gastar meu dinheiro como quero. Se eu perder mil
dólares, o que tem de mais? Eu pago.
Jason insistiu:
— Quer dizer que, para você, não é uma questão de ganhar ou perder, e sim de
se divertir.
— Não é só diversão. É liberdade. Liberdade de fazer o que eu quiser com as
coisas que tenho.
— Acho que consigo entender aonde você quer chegar — disse Jason. — Acho que todos nós queremos ser livres, e essa é uma maneira de você expressar a sua
liberdade.
Jason jamais teria adivinhado o que se passava na mente de seu sogro.
Contudo, duas perguntas e a disposição de ouvir foram suficientes para ajudá-lo a
entender as motivações daquele homem. Ele ainda proíbe que o filho seja levado
ao cassino, mas, depois de ouvir e compreender o sogro, passou a exprimir suas
preocupações de maneira construtiva.
Jason foi capaz de comentar com o sogro que, segundo seu ponto de vista,
muita gente que joga não é livre — pelo contrário, são pessoas escravizadas pelo
jogo que perdem não apenas o dinheiro da “diversão”, como também todos os seus
recursos financeiros. Explicou seu desejo de evitar que Bobby fosse exposto a algo
que tinha o potencial de se tornar um vício e destruir sua liberdade. Por fim, pediu
ao sogro que nunca mais levasse Bobby ao cassino dali para frente. O sogro
compreendeu e concordou.
Embora as histórias de Marsha e Jason tenham um “final feliz”, não quero com
isso sugerir que fazer perguntas e entender as motivações dos parentes do cônjuge
constituam a garantia de uma solução satisfatória para os problemas que nos
aborrecem. No entanto, ao fazer perguntas e ouvir respostas de maneira solidária,
é mais provável que encontremos uma saída para essas questões. E nesse
processo seremos capazes de preservar (ou mesmo aprimorar) nosso
relacionamento com essas pessoas.
NÃO INTERROMPA
Quando os sogros, genros ou cunhados estão falando, temos a tendência de
interrompê-los quando dizem alguma coisa de que discordamos. Ao fazer essa
interrupção para expressar a sua opinião, você deu o primeiro passo para gerar
uma discussão. Discussões são contraproducentes. Uma pessoa vence, a outra
perde e nada se resolve.
Lembre-se de quando a sogra de Marsha lhe disse que comprava muitos vestidos
porque, nos primeiros anos do casamento, tinha pouco dinheiro para gastar com
roupas, e por isso vivia passando por constrangimentos na hora de se vestir?
Suponhamos que Marsha a tivesse interrompido para dizer: “Nós temos muito
dinheiro. Rick tem um ótimo emprego. Você não precisa comprar coisas para mim”.
Se procedesse assim, ela teria dado início a uma discussão que provavelmente
teria causado mais estragos no relacionamento com a sogra.
Imagine se Jason tivesse interrompido o sogro para comentar: “Isso é desculpa
esfarrapada. Não acredito em nada do que você está me dizendo. Acho que você
joga porque é um viciado”. É bem provável que ele e o sogro começassem uma
briga que viria a destruir o relacionamento entre os dois de uma vez por todas.
O propósito de ouvir é compreender, e não fazer o seu ponto de vista prevalecer.
Nossa opinião deve ser colocada bem mais tarde, em outra conversa. Nos primeiros
estágios, nossa intenção deve ser a de entender o que se passa na mente e no coração daquele parente do cônjuge para que possamos oferecer uma resposta
apropriada. As interrupções prejudicam o processo de compreensão.
Para algumas pessoas, evitar as interrupções é muito difícil. Elas desenvolveram
um padrão de comunicação com base na argumentação. Ouvem apenas o tempo
suficiente para organizar seu raciocínio; em seguida, interrompem e discordam de
qualquer coisa que a outra pessoa venha a dizer. Gente assim nunca consegue
manter um relacionamento positivo com os parentes do cônjuge — nem com outras
pessoas —, a não ser que aprenda a romper esse padrão destrutivo de discussões.
Os relacionamentos são desenvolvidos à medida que as pessoas procuram
compreender umas às outras. As interrupções e as discussões os destroem.
Se você tem problemas em continuar ouvindo os sogros, genros e cunhados
quando discorda do que estão dizendo, permita-me sugerir um jogo mental que
pode ser útil. Enquanto eles respondem a sua pergunta, imagine que suas orelhas
são enormes, iguais às de um elefante. Isso permitirá que você se lembre sempre
disto: “Estou ouvindo. Quero entender. Não vou interromper. Mais tarde, terei a
oportunidade de compartilhar minhas opiniões. Nesse momento, estou tentando
ouvir o que essa pessoa está dizendo. Quero saber de suas origens e entender
como ela encara seu comportamento. Estou tentando desenvolver um
relacionamento, e não fazer um inimigo”. Aprender a ouvir sem interromper é um
passo fundamental para a eficácia dessa iniciativa.
ESCLAREÇA OS SIGNIFICADOS
Mesmo quando estamos deliberadamente concentrados em ouvir, é muito comum
entender mal o que a outra pessoa está tentando nos dizer. É como se
estivéssemos ouvindo por intermédio de nossos próprios fones de ouvido, que às
vezes distorcem o significado verdadeiro daquilo que o outro está falando.
Podemos esclarecer esse significado dizendo à pessoa o que entendemos do que
ela falou e perguntando se está correto. Jason fez isso quando afirmou: “Quer dizer
que, para você, não é uma questão de ganhar ou perder, e sim de se divertir”. Isso
permitiu que seu sogro esclarecesse seu ponto de vista, trazendo à conversa a
questão da liberdade. A partir dessa reação, Jason conseguiu saber mais a respeito
do que se passava na mente do sogro.
Algumas pessoas se opõem, dizendo que esclarecer as questões parece algo
mecânico demais. Certa vez, um homem me disse: “Estou cansado de ficar
repetindo: ‘Pelo que entendi, você está dizendo que...’ E tenho certeza de que as
outras pessoas também já estão fartas de ouvir isso”. De fato, a mesma resposta,
apresentada com as mesmas palavras, pode se tornar monótona e irritante. No
entanto, perguntas esclarecedoras podem ser feitas de muitas maneiras. Veja aqui
alguns exemplos:
“É isso o que você está dizendo? Que...”
“Então você quer dizer que...”
“Acho que já sei. Veja se entendi bem...”
“O que ouvi foi o seguinte[...] Foi isso mesmo que você quis dizer?”
“Quero ter certeza de que entendi direito. Você está dizendo que...”
Quando aprendemos a fazer perguntas esclarecedoras de vários modos, elas se
tornam parte de um fluxo natural de conversação. Quando o parente do cônjuge
responde: “Sim, você entendeu o que eu quis dizer”, então você saberá que ele
sente que foi bem compreendido. Aí você estará apto a passar à etapa seguinte.
DEMONSTRE APREÇO
Agora que essa pessoa disse que você entendeu o que ela estava falando,
comente: “Fico muito grato por você estar compartilhando essas coisas comigo.
Acho que agora entendo melhor o seu jeito, e tudo aquilo que está dizendo faz
muito sentido”. Com essa reação simples, você deixa de ser um inimigo e terá
gerado um clima positivo.
Declarações afirmativas não significam que você necessariamente concorda com
o que essa pessoa disse. Indicam apenas que ouviu por tempo suficiente para ver o
mundo por intermédio dos olhos dela e entender que a maneira de elas agirem faz
sentido. Você está afirmando a humanidade dessas pessoas, dando-lhes o direito
de pensar e sentir do jeito delas.
Talvez alguém pergunte: “Como você pode reafirmar o que esse parente de seu
cônjuge está dizendo se discorda totalmente da opinião dele?”. Minha resposta é
esta: você não está necessariamente confirmando a validade daquilo que a pessoa
diz. Você está reafirmando o direito que ela tem de defender seu ponto de vista.
Está lhe dando a mesma liberdade que Deus concede, permitindo-lhe que
manifeste sua humanidade.
A reafirmação não quer dizer que você concorda com as ideias ou que goste do
comportamento de alguém. Significa que entende o histórico que forjou a opinião
dessa pessoa e como isso afetou suas emoções. A partir da compreensão da
personalidade e dos pontos de vista, não é difícil entender o que a levou a chegar a
determinadas conclusões e aquilo que se passa em seu coração.
Não há como medir o valor dessa iniciativa, pois é ela que cria o clima
necessário para a próxima e importante etapa.
COMPARTILHE SEU PONTO DE VISTA
Agora que você já fez as perguntas, permitiu que o parente de seu cônjuge falasse
sem interrupções, esclareceu os significados e expressou seu apreço, então está
pronto para compartilhar o seu ponto de vista. Como você dedicou tempo para
ouvi-lo com dignidade e respeito, ele estará muito mais propenso a ouvir o que
você tem a dizer.
Quando Jason explicou por que não queria que Bobby voltasse ao cassino, o
sogro demonstrou disposição de ouvir e concordar. Se Jason não tivesse dedicado
parte de seu tempo para ouvir primeiro o que o sogro tinha a falar, se tivesse
apenas condenado o comportamento daquele homem e dito a ele que Bobby nunca
mais teria autorização para acompanhá-lo ao cassino, o relacionamento entre os
dois permaneceria prejudicado pelo resto da vida. Foi a disposição de ouvir que
conduziu a questão a uma conclusão saudável.
Quando Marsha começou a sugerir alternativas às compras no shopping, a sogra
demonstrou abertura a essas alternativas porque sentiu que Marsha queria, de
fato, manter um bom relacionamento com ela. Se Marsha não expressasse apreço
pelo fato de sua sogra compartilhar informações sobre os primeiros anos do próprio
casamento, nunca encontraria terreno fértil para suas sugestões. Quando
demonstramos esse apreço, aumentamos as chances de sermos ouvidos pelos
sogros e chegarmos a uma solução satisfatória.
O seu ponto de vista a respeito da situação também é muito importante. Você é
um dos principais atores nesse relacionamento com os parentes de seu cônjuge.
Por isso, também deve ser ouvido; suas ideias e seus sentimentos são importantes.
Agora que já conseguiu demonstrar respeito por seus sogros, você está pronto para
dizer: “Permita-me expressar o meu ponto de vista com você. Estas são as lutas
que tenho enfrentado. Este é o meu objetivo. E aqui está o que acredito ser
importante”. E aí você explica toda a sua perspectiva da questão.
Pelo fato de ter ouvido, é muito maior a probabilidade de você ser ouvido. Por
não ter interrompido, as pessoas se sentirão menos propensas a interrompê-lo. Ao
esclarecer o sentido das coisas, você propiciou que os parentes de seu cônjuge se
sentissem mais à vontade para fazer o mesmo. E, por você ter demonstrado
apreço, serão maiores as chances de eles expressarem apreço por você também.
Assim, juntos, vocês poderão aceitar suas diferenças e encontrar soluções
saudáveis.
Neste capítulo, discutimos o primeiro passo no processo de estabelecimento de
uma amizade com sogros, genros e cunhados. A disposição de ouvir permitiu que
ambos entendessem melhor um ao outro, e essa compreensão conduziu você a
conclusões positivas que tornarão o futuro mais fácil para todos. No próximo
capítulo, analisaremos o poder do respeito.
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COLOCANDO OS PRINCÍPIOS EM PRÁTICA
Pense em um parente de seu cônjuge com o qual você gostaria de
desenvolver um melhor relacionamento. Pense nesse relacionamento
específico à medida que considera as seguintes questões:
1. Que perguntas você precisa fazer para entender melhor esse parente de
seu cônjuge?
2. Quando você conversa com essa pessoa, sente certa propensão a
interrompê-la? Se a sua resposta for “sim”, o que pensa fazer para
romper com esse padrão de comportamento?
3. Tente formular perguntas esclarecedoras da próxima vez que vocês
conversarem. Por exemplo: “É isso que você está dizendo?”.
4. Leia a declaração a seguir em voz alta por três vezes: “Eu realmente
agradeço por você compartilhar tudo isso comigo. Acho que agora posso
compreendê-lo melhor, e o que você disse faz muito sentido”. Procure
uma oportunidade de usar essa declaração ao conversar com o parente
de seu cônjuge.
Quando você aprender a fazer boas perguntas, esclarecer o sentido das
coisas, demonstrar apreço e se recusar a interromper a outra pessoa, então
estará apto a dizer: “Permita-me compartilhar o meu ponto de vista”. Como
você mostrou disposição de ouvir essa pessoa, é bem provável que ela o ouça
também.
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