Como Lidar com a Sogra
5. Peça, não exija
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Peça, não exija
NOS ÚLTIMOS ANOS, TEMOS OUVIDO MUITA COISA SOBRE os “direitos dos avós”. Lembro-me
de uma avó que me disse o seguinte:
— Nossa filha não permite que vejamos nossos netos. Estamos pensando em
processá-la. Não está certo esse negócio de nos manterem afastados das crianças.
— O que eles alegam para justificar essa proibição? — perguntei.
— Eles dizem que é porque temos cerveja e licor em casa. Meu marido, George,
é alcoólatra, e eles alegam que não desejam ver as crianças se tornando
dependentes de bebida também. Mas isso é um absurdo. George é alcoólico há
vinte anos. Eu não bebo nada com álcool e tenho vivido com ele todos esses anos.
Conviver com um alcoólatra não faz de ninguém um dependente de bebida.
— Há quanto tempo eles mantêm os filhos afastados de vocês?
— Desde o último Natal. Há mais ou menos nove meses.
— Aconteceu alguma coisa nesse Natal que os tenha influenciado a tomar essa
decisão? — eu quis saber.
— Bem, certa noite, George bebeu demais — ela contou. — Ele estava meio
alegre. Então colocou um pouco de cerveja nos copos e disse às crianças: “Vamos
fazer um brinde ao Papai Noel”. As crianças o acompanharam, beberam a cerveja e
logo depois começaram a ter ânsia de vômito. Minha filha e meu genro correram
para a cozinha e descobriram o que estava acontecendo. Quando perceberam o
que meu marido havia feito, levaram as crianças para casa na mesma hora e nos
disseram que nunca mais voltariam. Meu marido os xingou quando saíam de casa e
disse que estavam sendo ignorantes. O que George fez foi errado, eu sei, mas o
que eles estão fazendo também não está certo. Os avós também têm seus direitos.
Eu disse a eles que cuidaria pessoalmente de tirar todo o álcool de dentro de casa
e guardar na garagem. Também prometi que meu marido não beberia enquanto as
crianças estivessem conosco. Para eles, porém, isso não é suficiente. Não sei o que
mais devo fazer. É por isso que estou pensando em processá-los.
— Você até poderia fazer isso — comentei — mas e se ganhasse o processo e
sua filha e seu genro fossem obrigados a permitir que você visse as crianças em
visitas supervisionadas? Até que ponto isso seria satisfatório para você?
— Sei o que você está tentando dizer. Não é mesmo o que eu desejo. Só quero
manter um bom relacionamento com minha filha, nosso genro e nossos netos. E
não sei o que fazer.
— Qual é o nível de gravidade do problema de seu marido com a bebida? — eu quis saber.
— Há vinte anos ele entra e sai de programas de tratamento para combater o
vício — ela respondeu. — Por algum tempo ele fica bem, mas basta uma pequena
recaída para que volte a mergulhar na bebedeira por um mês. Ele encontra muita
dificuldade para manter os empregos. Tem sido muito difícil viver com ele, mas eu
o amo e continuo tendo a esperança de que as coisas vão melhorar. Sei que ele
também se sente muito mal por não poder ver os netos. Já conversamos sobre
isso.
Como conselheiro, senti-me profundamente mobilizado ao ver o sofrimento no
semblante daquela mulher. Eu disse:
— Às vezes, quando um alcoólatra percebe que está perdendo alguma coisa que
valoriza muito, ele se sente motivado a parar de beber. Você acha que George
estaria disposto a conversar comigo a respeito desse assunto?
— Sim, estaria se achasse que poderia ajudar a resolver essa situação — ela
respondeu.
— Se é assim, diga a ele que eu gostaria muito de vê-lo e que tenho algumas
ideias. Podem ser úteis.
Durante as semanas que se seguiram, consegui inscrever o marido dela em um
programa de tratamento de orientação cristã. Garanti a George que Deus o
ajudaria a vencer o álcool e que, em minha opinião, ele estava dando um grande
passo rumo à restauração do relacionamento com a filha, o genro e os netos.
Depois do programa inicial do tratamento, durante o qual George se envolveu
ativamente em um grupo cristão de apoio, comecei a conversar com ele sobre o
poder do perdão e que ele deveria fazer isso com a filha e o genro, apesar de tudo
o que acontecera no Natal anterior.
Disse-lhe que a iniciativa de perdoar só tem significado quando o
arrependimento em relação a determinada atitude é sincero. “Um pedido de
desculpas é o mesmo que aceitar a responsabilidade por aquele comportamento
inadequado, reconhecendo que estava errado”, comentei. “Não se pode exigir o
perdão, apenas pedi-lo. Sua filha e seu genro podem não estar preparados para
perdoá-lo agora, mas seu pedido de perdão será o primeiro passo na restauração
desse relacionamento.”
Juntos, fizemos um esboço por escrito de um pedido de desculpas que o
deixasse à vontade. Perguntei se ele me daria permissão para telefonar para a filha
e o genro, convidando-os para ir ao meu escritório, de maneira que pudéssemos
conversar todos juntos sobre o que estava acontecendo. Ele concordou, e o casal
também aceitou meu convite.
Nesse encontro, compartilhei com o jovem casal minhas conversas com George,
nas quais tentei ajudá-lo a lidar com o problema do álcool. Contei a eles que sabia
do esforço que aquele homem havia feito para deixar de beber durante muitos
anos, mas que dessa vez ele realmente estava colocando sua confiança em Deus,
por isso conseguiria. Em seguida, ofereci a George a oportunidade de falar.
Fiquei ouvindo enquanto ele não apenas lia o pedido de desculpas que havia
escrito, como também, em lágrimas, derramava seu coração. Ele pediu perdão por
todos os erros que cometera em relação à filha enquanto ela crescia, reconhecendo
que a envergonhara por diversas vezes no tempo em que ela cursava o ensino
médio; que havia falhado na missão de ser o pai que ela merecia; e que estava
ciente de que seu comportamento no Natal anterior fora a coisa mais dolorosa que
já fizera a ela. George contou à filha como já repassara aquela cena na mente
muitas vezes e como se sentia mal por aquele episódio.
— Sei que não mereço o perdão — ele disse — mas é o que peço a você. Não
estou pedindo que me permita ver as crianças, embora eu quisesse muito me
desculpar com elas. Estou antevendo meu primeiro Natal sóbrio dos últimos vinte
anos. Sei que vocês talvez nem estejam lá, apesar de eu desejar muito que
estivessem. Gostaria de pedir uma chance de fazer um futuro diferente. E gostaria
de ser o tipo de pai no qual você pode confiar. Eu a amo muito, e sinto demais por
tudo o que fiz e lhe causou algum sofrimento.
A filha de George não demonstrou nenhum sinal de emoção. Presumi que ela já
tinha ouvido outros pedidos de desculpas antes, mas nunca vira uma mudança de
comportamento. Meu palpite era que ela estava em dúvida sobre se o pai era
sincero e que as coisas seriam mesmo diferentes dali para frente. Mais adiante, ela
falou:
— Papai, eu desejo perdoá-lo. Mas é possível que isso leve algum tempo. Eu me
sinto muito magoada. Quero acreditar que você está dizendo a verdade e espero
que, nos próximos meses, seu comportamento demonstre isso. Espero que
entenda: por mais que eu deseje perdoá-lo, vai levar algum tempo.
— Eu entendo — disse o pai. — Agradeço por você ter aceitado se encontrar
conosco hoje, pois eu queria muito me desculpar.
A conversa chegou ao fim. Ofereci meus serviços ao jovem casal para o caso de
eles desejarem falar comigo mais adiante. E disse a George que o veria na semana
seguinte.
Nunca mais voltei a ver o jovem casal, mas George e a esposa me contaram
que, no espaço de um mês, a filha deu ao pai a oportunidade de pedir desculpas às
crianças, que, por sua vez, o perdoaram sem hesitar. Depois de ver a reação dos
filhos, ela também perdoou George. Quando o Natal estava se aproximando, não
deu nenhuma indicação de que levaria as crianças à casa dos avós. No entanto,
uma semana antes do feriado, os filhos pediram para vê-los no Natal, e a mãe
concordou. A princípio foi um pouco estranho, pois havia um ano que as crianças
não iam à casa dos avós. Contudo, antes que a noite terminasse, a residência já
estava tomada por risos de alegria.
Quando as crianças iam saindo, George disse:
Só quero agradecer a todos por estarem aqui. Esse foi o melhor Natal de minha vida. Foi um ano difícil para todos nós, mas também de grandes mudanças em minha vida. Quero ser o tipo de avô que seus filhos merecem e espero que você ore por mim todo dia, pois eu oro por você.
Quando George e a esposa me contaram essa história, eu já sabia que aquela
noite havia marcado o início de um relacionamento de qualidade superior. E a
época em que aconteceu me lembrou que a cura dos relacionamentos é o sentido
do Natal. Compartilho essa história porque ela ilustra o seguinte: relações positivas
com os parentes não são construídas a partir de exigências, mas de pedidos. Se os
avós tentassem exigir seus “direitos” na justiça, forçando a filha e o genro a
permitir que vissem os netos, é provável que o processo levasse a uma vida inteira
de conflitos. No entanto, por estarem dispostos a demonstrar humildade,
reconhecer a parcela de culpa que tinham no problema que afetava o
relacionamento, seguir o caminho que conduz a uma mudança genuína, lidar
honestamente com a questão e, em seguida, pedir perdão, eles encontraram a
cura tão desejada. Os bons relacionamentos com parentes do cônjuge não podem
ser fundamentados no princípio da exigência dos direitos. As Escrituras afirmam:
“[O amor] não procura seus interesses...” (cf. 1Co 13:5).
Esse princípio é exemplificado na vida de Jesus. Certa ocasião, depois de ele
ensinar algumas lições muito duras, diz a Bíblia que, “Daquela hora em diante,
muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo. Jesus perguntou
aos Doze: ‘Vocês também não querem ir?’ Simão Pedro lhe respondeu: ‘Senhor,
para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e sabemos que
és o Santo de Deus’” (Jo 6:66-69).
É evidente que Jesus não estava exigindo que os doze discípulos continuassem
andando a seu lado. Ele os havia convidado a segui-lo desde o início. Agora
oferecia a eles a liberdade de ir embora. Na verdade, sabemos que um dos doze,
de fato, se foi. Mas, naquele momento, Pedro falava em nome dos outros ao dizer:
“Tu tens as palavras de vida eterna”. Eles seguiram Jesus porque estavam
convencidos de que ele era “o Santo de Deus”.
Relacionamentos com os parentes dos cônjuges devem seguir esse modelo. Não
podemos obrigá-los a fazer o que acreditamos ser “a coisa certa”. Podemos e
devemos pedir a eles. Se queremos algo, isso deve ser verbalizado. Se você deseja
que esses parentes o visitem com mais frequência, convide-os. Se deseja que
apareçam menos, peça que só o visitem em ocasiões nas quais você possa dedicar
mais tempo a eles. Nunca devemos achar que eles são capazes de adivinhar o que
se passa em nossa mente. Fazer esse tipo de pedido faz parte de qualquer bom
relacionamento.
Jesus ensinou que esse princípio de “pedir” se aplica também em nosso
relacionamento com Deus. Ele disse: “Peçam, e lhes será dado [...] Pois todo o que
pede, recebe” (Mt 7:7-8). Em seguida, ele põe essa orientação em uma dimensão
humana. “Qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir
peixe, lhe dará uma cobra? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas
coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas
boas aos que lhe pedirem!” (Mt 7:9-11).
Será que isso significa que Deus sempre nos dá exatamente o que pedimos? A
resposta óbvia é “não”. Ele nos ama demais para nos dar coisas que sabe serem
prejudiciais a nosso bem-estar. No entanto, como nosso Pai celestial, ele nos
concede, com liberalidade, dádivas como resposta a nossas petições.
Será que os parentes de seu cônjuge respondem aos seus pedidos exatamente
do jeito que você deseja? Provavelmente não. Do mesmo modo, a resposta deles
nem sempre será baseada em amor. Todos nós temos tendência ao autocentrismo.
Muitas vezes, respondemos aos pedidos dos outros de maneira bem egoísta.
Contudo, pedir algo aos parentes é uma parte importante na construção de
relacionamentos saudáveis.
Ben, que era pescador iniciante, pediu ao sogro que lhe emprestasse
determinado apetrecho de pesca. O sogro respondeu: “Não posso emprestar este,
mas não me incomodo de emprestar outro”. Ben não sabia a diferença entre os
equipamentos mas o sogro sabia e não queria correr o risco de perder uma peça
muito cara emprestando-a ao genro, que não tinha tanta experiência em pescarias.
Se Ben tivesse ficado com raiva do sogro por não ter emprestado exatamente o
que ele pedira, o relacionamento dos dois teria sido prejudicado. Em vez disso,
aceitou com alegria a proposta do sogro e sua pescaria foi muito boa. As pessoas
são responsáveis pelas coisas que possuem. Elas têm a prerrogativa de emprestar
ou não, dar ou reter. O parente sábio não fica aborrecido quando um pedido em
particular é negado, mas sabe agradecer quando a petição é atendida ou recebe
uma proposta alternativa.
Com frequência, o relacionamento entre os cônjuges e os parentes é fortalecido
quando alguém pede algo. Brittany pediu à sogra, Margie, que a ensinasse a
tricotar. A resposta de Margie foi esta: “Não consigo imaginar como uma garota de
sua geração poderia querer aprender a tricotar. Mas, se você quer mesmo, terei o
maior prazer em ensinar”.
Brittany garantiu à sogra que estava sendo sincera. Nos meses seguintes, ela
não apenas aprendeu a tricotar, como também desenvolveu um relacionamento
muito mais sólido com a sogra à medida que uma habilidade foi transmitida de
uma geração a outra. Quando paravam para tomar chá, Brittany aprendia muitas
coisas sobre a sogra, incluindo o fato de que Margie aprendera a tricotar com sua
sogra também. Sem saber, Brittany estava dando continuidade a uma tradição
familiar.
Na época, Margie, que era uma pessoa gregária e sempre simpática, comentou
com a nora algumas das lutas que enfrentara ao longo dos anos por causa de sua
saúde. Mais adiante, quando foi diagnosticado um câncer no seio de Margie,
Brittany foi a primeira pessoa a saber. E foi ela também que ofereceu o maior
apoio emocional à sogra durante os muitos anos de quimioterapia e recuperação. E
tudo aquilo começou com um pedido: “Você poderia me ensinar a tricotar?”.
As Escrituras dizem: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20:35).
Quando você faz um pedido aos parentes de seu cônjuge, está oferecendo a eles uma oportunidade. Ao atender a seu pedido, eles encontram uma felicidade ainda
maior do que a sua em receber o que pediu.
Pedir e oferecer são elementos que compõem o ciclo natural dos bons
relacionamentos. De vez em quando, todos nós desejamos certas coisas que o
outro tem a capacidade de suprir ou precisamos delas. Se verbalizarmos esses
desejos na forma de pedidos e a outra pessoa optar por responder de maneira
positiva, estaremos forjando um relacionamento que se manterá sólido e forte anos
a fio.
No sentido oposto, quando fazemos exigências sobre os parentes, tentando
determinar o que devem fazer e impondo-lhes culpa quando não cumprem nossas
demandas, destruímos essa relação. Os bons relacionamentos são alimentados
com a prática de pedir e oferecer, e não com a de exigir.
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COLOCANDO OS PRINCÍPIOS EM PRÁTICA
1. Que exigências os parentes de seu cônjuge impuseram a você? Qual foi
sua reação?
2. Que exigências você fez a esses parentes? Como eles reagiram?
3. Que pedido você gostaria de fazer a eles? Pense na possibilidade de fazer
esse pedido depois de demonstrar apreço por alguma coisa que você
admira neles.
4. Que pedidos os parentes de seu cônjuge lhe fazem?
Considere a alternativa de responder com amor a um pedido deles.
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